VIOLÊNCIA

Enquanto descaroço e saboreio uma romã que o amigo Gerson me presenteou no ano novo, leio “Akrópolis, a grande epopeia de Atenas” do escritor e historiador italiano Valerio Manfredi. A epopeia grega é um festival de violência, mostrando que o ser humano é violento por natureza. Ou não?

Visitei Atenas em 2013, uma cidade linda, repleta de monumentos históricos e calma, que em nada lembra seu passado belicoso, como nos contra Manfredi, em  permanente  disputa com a cidade de Esparta, então potência militar, aspirante a ser a líder da região, e com os países vizinhos. Sua história é uma crônica de violência. Lá nasceu a democracia e as noções de direitos e deveres dos cidadãos, mas para isso muitos sofreram. Além das guerras quase permanentes, os sofrimentos que impingiam aos inimigos presos eram terríveis. Cidades eram arrasadas, como fazem hoje os terroristas do Estado Islâmico. Os campos de batalha ficavam muitas vezes cobertos por cadáveres insepultos por falta de quem os enterrassem. Um horror, que remete aos tempos da pré-história, onde se matava para sobreviver e defender a família.

O mundo de hoje, tão evoluído em tecnologia, é terrível em termos de violência, a todo momento um atentado terrorista faz lembrar que na verdade pouco evoluímos desde a pré-história. Nos Estados Unidos, modelo de civilização, a violência campeia. Ainda ontem um atirador, aparentemente sem motivo ou razão, tirou sua arma da bagagem no aeroporto de Lauderdale, na Flórida, e atirou a esmo, matando cinco pessoas, e ferindo outras mais. Nesse país, que se quer modelo, compra-se armas de fogo pelo Correio. E a violência campeia.

Aqui pelo menos isso não acontece, as armas de fogo vêm para os bandidos pelos caminhos das drogas ilegais e letais. O que não diminui o morticínio. Neste princípio de ano sete policiais militares foram mortos em cinco dias, no Rio, segundo os jornais. Os policiais existem para proteger os cidadãos, mas parece que nem a si mesmos conseguem proteger. A solução tem sido colocar os bandidos nos presídios que estão superocupados, verdadeiros caldeirões de violência.

Em resposta ao massacre do presídio no Amazonas, onde há poucos dias cerca de 60 detentos foram executados, decapitados e desmembrados, num exercício de barbárie inacreditável, mas que o presidente Temer considerou um ”acidente”, o ministro da Justiça promete reduzir em 15% a população carcerária e construir mais cinco presídios. Solução? Não para todos. O secretário da Juventude do governo federal disse que se devia era matar mais presos. Demitiu-se em seguida à bombástica opinião.

Seguindo Manaus, dias depois, num presídio de Rondônia mais 31 presos foram brutalmente executados por seus colegas de cela. Alega-se que em ambos os casos ocorreu briga de grupos criminosos.  Pode ser. Talvez se a polícia conseguisse recapturar os mais de 100 criminosos que se evadiram do presídio de Manaus isso pudesse ser esclarecido. Quem sabe com o uso de delação premiada, como se faz com os criminosos delatores presos pela operação Lava-jato em Curitiba?

Enquanto as autoridades não encontram solução, a cidade do Rio de Janeiro sofre com a ação de bandidos. Na bela cidade, no verão repleta de turistas nacionais e internacionais, o jornal conta que são feitos 35 registros de assaltos por dia. Todos vimos no Jornal Nacional um ladrão audacioso adentrar a recepção de um hotel na zona sul para roubar dois turistas que se consideravam seguros. Aonde isso vai parar? Em Campos dos Goytacazes acontece um homicídio por dia, pelo menos.

Os bandidos acabarão nos presídios, coroamento de sua atividade predatória, onde se integrarão a bandos e acabarão degolados e esquartejados. E nós, pobres mortais sem armas nem guarda-costas, ficaremos à mercê de um programa governamental que diminua a quantidade de meliantes nas ruas oferecendo mais estudo e emprego à população despossuída. E que Deus nos proteja.

7 \07\UTC janeiro \07\UTC 2017 at 10:55 Deixe um comentário

AS ESPORAS DO PADRE

Conto versejado, 3º lugar no Concurso Nacional de Contos José Cândido de Carvalho, 1993, Campos dos Goytacazes.

 

Em passos lentos o cavalo chapinha

na estrada – pura lama.

Está velho, cansado, e toneladas

pesa-lhe o padre no lombo.

Aflitos seus olhos buscaram

um pouso, um naco de chão seco

ao menos; desiludidos se voltam pro céu.

O padre ora: que cheguem logo!

Deus não escuta

atordoado com o ribombo dos trovões

que assombram a noite.

O cavalo bufa, o padre deplora

o sacrifício que lhe impõe.

Apiedado, por duas vezes apeou

e afundou na lama até os tornozelos.

Suas juntas gastas tanto reclamaram

que pediu desculpas ao animal

e voltou a se escarrapachar na sela.

Sabe-se gordo e isso tanto o aflige!

Um pouco mais e a pobre besta arrebenta

e ele baterá os queixos de frio

perdido nos matos

sem vivalma para ajudá-lo

– nem os anjos se atrevem

a sair com esse tempo.

 

Suspira o padre fundamente,

condoído de si e da besta,

e foge ao problema voltando ao passado

à insensata besta que foi

ao escolher profissão tão ingrata.

“Profissão não!” gritava o padre Inácio

com vinagre na voz esganiçada.

“Dedicação exclusiva

à missão divina é o que vos espera!

Os sacrifícios serão recompensados

no eterno banquete ao lado de Deus-pai!”

E os meninos faziam caretas

quando ele lhe voltava as costas.

Eram bons aqueles tempos e não percebiam.

Quis ser teólogo, passar a vida entre orações,

cânticos, incenso, mortificações,

e altos estudos sobre a natureza divina

e suas incompreensíveis intenções.

Pai-nosso-que-está-no-céu foi contra

e lhe deu uma paróquia tão extensa

– com um rio a parti-la em duas –

que levou anos para conhecê-la toda

e em que condições!

Deu-lhe também uma irmã solteirona

e doente dos nervos, a pobre.

São as linhas tortas por onde Ele escreve certo.

Lutava para crer nisso,

mas tinha horas…

 

Paróquia pobre, miseráveis fieis dispersos

por entre uns ricos fazendeiros

– que longe dali viviam –

e decadentes comerciantes.

Por si pouco importava

seu lugar estava reservado

à imensa mesa do ágape divino,

Mas sua pobre irmã.

Se morresse antes dela

quem aturaria seus achaques, chiliques,

amuos, resmungos, esquisitices,

doenças reais e imaginárias?

A negra Xixa se ia finando

de tanto suportar desfeitas,

malcriações e exigências da mana

– suave cilício que Deus lhe destinara.

Era meiga a irmã, piedosa

e educada em seus bons dias.

Mas eram tão raros!

Dela quem cuidaria, se não teria dinheiro

para pagar os tormentos que cumularia

quem os substituíssem, a ele e à negra?

 

O cavalo arfa, o padre suspira,

relâmpagos iluminam o lodaçal sem fim,

quando enfim chegariam?

Todo seu corpo reclama dos solavancos

enquanto sua irmã dorme entre lençóis cheirosos

a alfazema, trocados todos os dias, penitência

imposta à exausta negra a caminho do céu.

Cuidar da irmã, quem mais ousaria?

 

Chegam finalmente ao pontilhão do Quincas,

fim da penosa jornada, ponto de luz na treva,

sopa e cama quentes e milho pro cavalo.

Quincas é generoso, temente a Deus,

sitiante de magras posses e gorda fé.

Há sempre uma sorda para o visitante

vindo em nome de Deus. Deo gratia!

regozija-se o estômago vazio,

 

Um ricaço fazendeiro possuíra aquelas terras

e muitas mais que filhos malucos fatiaram

em pedaços que bebem nas vendas da estrada.

O fazendeiro, um tal capitão Silsantos,

vivera em pecados tais que ao sentir a morte

chegando cada vez mais perto,

chamara a ele, padre, para esvaziar a alma

e poder aspirara a um cantinho no purgatório.

E ele a missão tão bem cumprira, fortes

esperanças lhe dera de curto estágio

entre as alminhas aspirantes ao paraíso,

que o pobre homem rico, leve, agradecido,

certo de conseguir se elevar aos pés

Daquele que pouco dá e muito cobra,

inundado de gratidão berrara pelos herdeiros

– os mesmos que hoje caem bêbados nas poças

de seus catingosos vômitos –

e lhes pedira o par de esporas de ouro.

Era o último peso a prender seu devastado corpo

à terra e num derradeiro esforço doou-as

ao padre. “Reze por minh’alma, santo homem!”

lhe pedira, desfeito em lágrimas. Os filhos

tentaram se opor, mas num esgar de autoridade

nunca contestada os calara, e o padre deixara o casarão

com seu único bem terreno, sob olhares furibundos.

A lembrança era oportuna por lhe mostrar

que a maninha não ficaria desprovida se antes

dela partisse para o céu. Pesadas esporas, maciço ouro,

de pequena fortuna ela disporia.

Deus escrevera torto por certas linhas

uma vez mais.

 

Respira aliviado o padre, muita fome sente, mas o cavalo

Dobra as exauridas peras, dá um último bufido

– se cavalo tem alma ela galopara direto

Às baias celestiais – e cai de borco.

Também o padre voa para a frente, o inesperado

tira-lhe o prumo. Roça no mourão da ponte

e mergulha nas barrentas águas, engrossadas

pelas chuvas, do riacho de comum franzino.

Por entre peixes ensandecidos o padre

afunda; seu volumoso corpo encontra

macio e definitivo leito no lodo. Ele

e suas esporas de ouro maciço

para todo o sempre enganchados nos gravetos.

*

Madrugada nevoenta na cidade deserta.

pelas pedras úmidas da rua

o verdureiro contrariado empurra

a carrocinha cheia enquanto a megera

da sua mulher ainda ronca, sentada

junto ao fogão, onde a água do café ferve à toa.

Tomara que numa cochilada, pragueja ele,

ela enfie a cara de tacho no bocão aceso

e as achas e lenha lhe queimem a fuça

e os cabelos ensebados. Nunca mais aporrinharia

ninguém, a desgraçada, e o diabo

pros quintos dos infernos a carregaria.

Ninguém na rua, só o infeliz se matava

pra sustentar a mulher e a filharada inútil.

O sereno lhe empapa os cabelos. Funga.

Se eu pegar uma gripe ela vai ver.

O horizonte se aclara devagar e o verdureiro

resfolega ao peso dos pensamentos malsãos.

Chega à esquina da praça e, como se chamado,

ergue a cabeça para a janela do sobrado,

para a janela do quarto do padre e lá está ele,

o parasita, careca lustrosa, com seu falso

ar de humildade. Presepeiro! Conhecia a bisca,

padre nenhum presta, exploram as almas, isso sim.

O padre o chama pelo nome. Freia a carroça

mais para a descansar e tomar fôlego

que para atender àquele disfarçado.

E o padre fala manso, como se estivesse

a lhe pedir um dinheirinho para a festa

de São João, em que é craque.

Em amanhecendo, diz o padre, que ele, verdureiro,

por obséquio, procurasse sua pobre irmã

e lhe informasse, com muito jeito, que ele se fora

para sempre, mas não a deixara desamparada. Que ela

mandasse gente, de toda a confiança, mergulhar

no valão junto ao pontilhão do Quincas para tirar

de seu corpo encharcado as esporas de puro ouro.

“Mas cuidado, verdureiro, não cobice as esporas

de ouro nem tente enganara  pobre velha

que sou capaz de deixar todas as noites

meu assento no banquete celestial

para vir lhe puxar as pernas tortas.”

15 \15\UTC dezembro \15\UTC 2016 at 14:13 Deixe um comentário

O QUE FAZER?

O que eu gostaria de estar fazendo agora?

É a pergunta que me faço quando me vejo sem nada para fazer nem para ler fato raro desde que me aposentei e encerrei minha atuação na edição do jornal S. JOÃO DA BARRA. Foram 49 anos de trabalho e o corpo se acostuma à labuta. Por isso ainda acordo às 5, 6 horas da manhã. O que abandonei de vez foram os sapatos e o terno, símbolos escravistas.

E a resposta à insistente pergunta? Pois é, gostaria mesmo era de estar reunido com toda a família, filhos e netos, gente maravilhosa, prêmio que me foi dado pela vida. Vivem longe, filhos e netos, em função de estudos e trabalho. Entendo, isso aconteceu comigo a partir dos 13 anos de idade, quando tive de morar numa pensão em Campos para poder estudar. Depois em outra pensão, na rua Saldanha Marinho, no centro de Niterói, me preparando para os primeiros vestibulares, os que não deram certo.

Em segundo lugar gostaria de estar conversando com a diretoria de uma grande editora, discutindo termos de um contrato para edição de um dos três romances que tenho prontos e inéditos e que acabarei por imprimir e mal distribuir. O ideal é a distribuição ser feita por uma das potências editoriais, levando meus textos, minhas histórias ao conhecimento do grande público. Editar não é difícil, complicado é distribuir. Num dos meus primeiros livros procurei uma famosa distribuidora e tive um choque ao ser informado que a tiragem mínima para ela aceitar a distribuição seria de 10 mil exemplares. Ante minha expressão de surpresa me afirmaram: só no Rio de Janeiro temos mais de 10 mil bancas de jornal. E o resto do país?

A terceira opção para responder à pergunta seria: viajar. Curto uma viagem longa ou curta, no Brasil ou no Exterior. É muito bom conhecer novos lugares, novas gentes, novos costumes. Adoro andar a pé por cidades além da minha, ver e ouvir as pessoas em seu dia a dia. Já caminhei toda a extensão da avenida Paulista. A primeira viagem que fiz para fora do país foi a Portugal, em 1987, para pesquisar a vida de meu bisavô, Zenriques, cuja biografia eu escrevia. Como o avião ia até Madri – a Lisboa fui de trem – e precisei ficar algumas horas na cidade, visitei a exposição de Goya no Museu do Prado, o que, por si só, valeria a viagem. Foi emocionante conhecer Paços do Brandão, uma pequena e antiga cidade perto da cidade do Porto, onde meu avô nasceu. Outra forte emoção – confesso que estive a ponto de chorar – foi anos depois visitar o túmulo de São Francisco no Santuário de Assis. Embora menos impactante, mas gratificante, foi ver de perto os montes Parnaso e Olimpo, sempre sonhei conhecer a Hélade  (Grécia), berço da civilização ocidental.

Enfim, voltar a ver a Casa de Cultura Zenriques, que criei ao voltar à minha cidade, 47 anos depois de ter ido estudar e trabalhar no Rio de Janeiro a existir como um polo cultural. Era muito legal, aos sábados, ver a turma interessada em cultura sentar para conversar, debater soluções para o município, o estado, o país e o mundo. Sabe lá o que é ter Célio Aquino e outros na sala? Puro papo cabeça da melhor qualidade. Da CC Zenriques nasceu a calçada da fama, onde intelectuais, artistas e esportistas locais foram homenageados imprimindo suas mãos no cimento. Hoje estacionam bicicletas e motos em cima dela. É desolador. E seus frequentadores estão dispersos.

Tudo isso eu gostaria de estar fazendo agora, como opção a esse papo com amigos desolados com a prisão de dois ex-governadores do estado por corrupção. Terrível, as pessoas ficam estupefatas, votaram neles, apostaram que fariam um governo senão progressista, pelo menos decente.

E agora, como vamos agir diante de uma urna eleitoral?

SJB, nov/16

22 \22\UTC novembro \22\UTC 2016 at 08:49 Deixe um comentário

O FOGUETÓRIO

Seis horas da manhã de qualquer estação do ano. Chite pum, um estrondo no céu, foguete explode seguido de música da banda. É gostoso, eu acho, melhor do que acordar com o barulho de rajadas de metralhadora ou tiros de AR 15, como acontecia quando eu morava no Rocha, no Rio. Mesmo se gostando tudo demais enjoa. E aqui fogueteia-se demais, por qualquer motivo, pelo início de uma reunião oficial e pelo seu fim. Em aniversário importante ou que assim se considere é demais. Festa de santo católico então, é de ensurdecer os pobres coitados, que se veem bruscamente acordados de seu sono eterno. Tenho um conhecido, advogado, que fica tão irritado que promete qualquer dia desses entrar com um processo de indenização contra a igreja por quebra de sossego, não permitindo seu sono. Danos físicos e morais.

Foguete aqui na cidade é que nem papa-capim, uma loucura. De manhã, principalmente aos domingos, mal o sol aparece, em gaiolas cobertas de panos brancos, de bicicleta, de moto, a pé ou de carro lá vai o papa-capim carregado pelo seu fanático dono, capaz de levá-lo até para o seu local de trabalho. Um espanto.

Não sei se com os goitacá era assim, se gostavam de ouvir papa-capins em suas tabas e caçadas, mas o povo antigo daqui já gostava do pipocar dos foguetes que devia assustar os indígenas. Vejo isso em “D. Pedro II na Planície Goitacá”, livro da historiadora Talita Casadei sobre a primeira visita do imperador Pedro II a nossa cidade, onde ela conta que “logo cedo, a galeota levando o imperador iniciou a descida pelo rio Paraíba em demanda à sua foz. Acompanhando o monarca seguia o comendador Joaquim Thomaz de Faria, que em seu escaler levava quatro oficiais de fuzileiros e outras pessoas que anunciavam com foguetes, segundo o Jornal do Commercio, que sobre as águas do Paraíba viajava o monarca do Brasil.”

Imagino que a turma que ficou à espera no cais não fez por menos e disparou uma saraivada de foguetes assim que a galeota apareceu na curva do rio, o que deve ter feito fugir pra ilha em frente os bem-te-vis das 21 palmeiras plantadas para comemorar a ilustre visita. E certamente durante o tempo em que cá permaneceu os foguetes encheram o ar. Como o imperador era jovem, tinha 21 anos, e a viagem cansativa, deve ter dormido profundamente na cama que o comendador Alves Rangel teve de arrumar às pressas para o repouso de sua augusta pessoa. Na cidade não havia camas dignas desse nome, só catres e esteiras.

Nas visitas seguintes, casado e com filhas, o imperador deve ter se sentido um tanto incomodado com a barulheira. Em 1875, depois de inaugurar o fatídico canal Campos-Macaé, cavacado por escravos para acabar com nosso porto – o comércio campista não gostava da dependência de só exportar por aqui – visitou a cidade e a praia de Atafona, então chamada de Barra. Em 1878, com a imperatriz Teresa Cristina, fato raro, veio inaugurar o Engenho Central de Barcelos a convite do Barão. Visita de um chefe de estado era sinal de prestígio; com a primeira dama ao lado era prestígio multiplicado.

O foguetório da primeira visita, seguido de rapapés, agradou tanto que três anos depois, em 1850, o imperador elevou a Vila de São João da Praia a cidade, com o nome de São João da Barra e deu ao presidente da Câmara de Vereadores, o título de Barão de São João da Barra, dois anos depois, com grandeza acrescentada em 1854.

SJB, nov/16

18 \18\UTC novembro \18\UTC 2016 at 14:47 Deixe um comentário

O VELHO TREM

Uuuuu, tchi, tchi, tchi, lá vem papai, lá vem seu pai, uuuu…

Era o som que a gente ouvia, provocado pelo deslizar das rodas do trem nos trilhos…

Manhãzinha de segunda-feira, gosto de café ainda na boca, olhos meio empapuçados de sono, no coração um misto de revolta por ter de abandonar a cama quentinha e de irritação pelo que viria no resto do dia… Não tinha jeito, a família, pressionada por problemas econômicos, tinha se mudado para a praia de Atafona e a gente continuava a estudar em colégio de Campos, já que perto de casa não havia uma boa escola que pudesse nos preparar para o maravilhoso futuro imaginado pela família. Ficávamos numa pensão durante a semana, mas na sexta-feira, casa pra que te quero! Muitas vezes no domingo pegávamos o último ônibus para Campos, um monte alegre de estudantes, mas de vez em quando perdia-se esse horário e… madrugar para pegar o trem!

Na estação a máquina bufava soltando fumaça, provavelmente enraivecida também por ter sido tirada tão cedo do descanso. Vagões quase vazios, em São João da Barra e estações seguintes mais passageiros sonolentos entrariam. Um bimbalhar de sino, um apito longo e cheio de mágoa por ter arrastar os vagões por mais de 40 quilômetros, e o comboio se movimentava, a princípio devagar, aumentando a velocidade aos poucos, bufando sempre. O menino ainda bocejava, mas logo sua atenção era capturada pelo que via passando ao lado da composição: mato molhado de orvalho, onde árvores se misturavam a cactos, coqueiros rasteiros e cipós pendentes. Cabritos saltitavam e mastigavam folhas de pitangueira com uma disposição invejável, era possível que não tivessem de ir para a escola. Aos poucos os olhos do menino brilhavam de prazer enquanto o trem, passada a estação da cidade, serpenteava alegre, acompanhando o curso do rio Paraíba do Sul, um desfilar de beleza de garças majestosas, socós tímidos, miuás mergulhados até o pescoço, anus em bando, bois e cavalos nas ilhas do meio da corrente. De vez em quando uma parada, ora para abastecer o monstro de água e lenha, ora para pegar gente, latões de leite, caixotes de legumes e frutas. Quando a gente entrava em Campos, perto de duas horas depois, já começava a sentir saudades da viagem.

Passear de trem era tudo de bom. Sem pressa, sem atropelo, sem confusão. Só um pouco de fumaça e faíscas. Quando meu avô ia a Campos para pegar o expresso que o levaria à casa dos filhos no Rio, vestia um guarda-pó branco, como os demais passageiros. A viagem era longa, levava-se um farnel com frango assado com farofa, arroz soltinho e batata frita. No vagão restaurante comprava-se algo para beber. Podia se adquirir também o almoço, mas a viagem era considerada muito cara e levado de casa poupava-se para gastar na capital federal.

O trem foi um veículo desbravador e integrador que a era juscelinista deixou pra trás, abrindo caminho para o surgimento do automóvel e seus problemas. Em países com a dimensão continental do nosso, como os Estados Unidos e Rússia, os dois tipos de transporte coletivo convivem sem problemas, mas aqui, por alguma razão, a grande rede ferroviária precisou ser desmontada para que as montadoras de automóveis e caminhões prosperassem. No meu fraco entender, foi um erro.

Continuei amando os trens, mesmo depois do nosso ramal ter sido transformado numa saudade gostosa. Viagens memoráveis fiz como a Pindamonhangaba (paulista usa esses esdrúxulos termos indígenas para atrapalhar os turistas) e de lá a Campos do Jordão, esta uma viagem de filme, o trem se arrastando pelos flancos da montanha, passando por petizes japoneses de bochechas coradas acenando da cancela do sítio e a São Paulo. Dormi toda a viagem de Madri a Lisboa e acordei com a visão inesperada de um castelo surgindo no meio de um rio. Toda a viagem a Portugal, com pequenas exceções, foi de trem. A estação de Tomar, onde fui visitar o castelo que abrigou os últimos Templários, era um cromo, com seu jardinzinho cheio de flores e suas pereiras debruçando sobre a gare os galhos pejados de fruta que ninguém tocava.

O trem faz muita falta e gostaria que voltasse a apitar sobre trilhos. Seria bom para a economia, pois reduziria o consumo de combustível, transportando um maior volume de carga por viagem, liberaria as rodovias para os automotores, diminuindo o número de acidentes, mortos e feridos que maculam as páginas dos jornais nacionais, entre outras coisas. Volte, trem, não o do passado, tão romântico e rústico, mas sem espaço nesses tempos de tecnologia galopante, mas voando sobre colchões de ar como no Japão e em outras modernas sociedades. Não se esqueça, porém, de fazer soar um apito, já que a fumaça, as faíscas e o uuuu, cadê papai, cadê seu pai, não terá mais.

SJB, novembro.16

 

 

10 \10\UTC novembro \10\UTC 2016 at 08:12 Deixe um comentário

O OBELISCO DO PORTO

Em recente reunião no Palácio da Cultura promovida pelo acadêmico André Pinto para exibir o acervo da casa e festejar os 100 anos do samba, presentes o jornalista Bruno Costa, o professor doutor Alcimar das Chagas Ribeiro, o ator Silvano, a pintora Márcia Cputinho, entre outros,  discutiu-se sobre a pasmaceira em que caiu a atividade cultural do município, com o fim dos grupo teatral Nós na Rua, o fechamento para o público da Casa de Cultura Zenriques e outros eventos tristonhos, o que me fez lembrar a matéria publicada no jornal campista Folha da Manhã daquele dia sobre a inauguração de um obelisco para comemorar o centenário, se não me engano, de Nilo Peçanha.

Fato marcante e bonito, como não aconteceu no sesquicentenário de nosso município. Lembro que na época a Casa de Cultura Zenriques, sugeriu que se criasse o Memorial da Navegação entre as ruínas do trapiche dos Araújo, um dos últimos baluartes da arquitetura da época de nosso porto, bem como se levantasse um obelisco no cais do imperador, homenageando os homens e mulheres que fizeram do porto de São João da Barra um dos mais importantes do país, tanto que mereceu a visita de um chefe de estado, o imperador Pedro II. A ideia caiu no areal inóspito onde deve habitar ainda nosso padroeiro, certamente escolhido por ser um santo que pregava no deserto.

Para que a ideia não caia no esquecimento total, o que é muito facilitado pelas areias soterradoras trazidas pelo vento nordeste, que apagou as mínimas lembranças de nosso melhor período econômico, a ponto de uma linda estudante perguntar a uma amiga se aquelas grades que enfeitam o cais erguido pelo Barão de Barcelos, eram “pra gente apreciar o por do sol”.

Eis a síntese do projeto do obelisco:

“Ideia para um monumento aos portuários – obelisco

Sobre uma base quadrada, cercada de estreitos canteiros com as flores branca e roxa da Saudade (flor que era típica de nossa cidade, mas parece que está extinta), um obelisco de concreto, com no mínimo cinco metros de altura, se erguerá, com quatro faces no pedestal, cada uma ilustrando um momento de nosso falecido porto e dos navios que aqui aportavam para deixar ou levar cargas e passageiros (chegavam a 75 navios/mês).

Na primeira das faces o alto relevo de um navio a vapor ou a vela, ou os dois.

Na face 2, a frase “Homenagem da cidade de São João da Barra aos homens que fizeram deste porto, no século XIX, um dos mais movimentados da província do Rio de Janeiro.”, ou algo semelhante.

Na face 3, o alto relevo de uma prancha, com as velas desfraldadas e um prancheiro a empurrá-la com o remo apoiado no peito.

Na face 4, relação dos profissionais da navegação homenageados: marinheiros, taifeiros, oficiais, prancheiros, canoeiros, operários, artesãos, estivadores, trapicheiros, carpinteiros, armadores, exportadores e importadores, práticos de rebocadores e escravos, homens que fizeram deste antigo porto flúvio-marítimo um dos mais movimentados da província fluminense até à Segunda Guerra Mundial..

7 \07\UTC novembro \07\UTC 2016 at 11:29 Deixe um comentário

NOITE OUTONAL

Os lençóis ardem

e não permitem o sono

ao poeta cansado.

Seu corpo pontilhado

de gotas de suor

não deixa marca

nos lençóis em fogo.

Serão menos quentes

as praias do Nordeste

e as areias de Aruba?

Serão menos hostís

ao corpo adormecente

em qualquer parte do mundo?

É época de transição

de preparação para os tempos ansiados

de frio e calor.

Aqui o outono é uma bobagem

um nome sem significado.

Mesmo na noite

os lençóis ardem como se abrigassem

amantes em primeiro encontro.

Fiapos de brisa roçam desanimados

o corpo inquieto

e o travesseiro úmido

é tão hostil quanto a vida.

A janela oferece uma trégua

mas as pálpebras pesadas do poeta

não se encantam com a visão

do morro estrelado

sob um céu duro

salpicado de pontos de fogo.

 

13.04.198 ?

* Esboço de poema encontrado entre papéis velhos em incursão pela antiga biblioteca, hoje quarto de despejo em 18.05.2015. Não lembro quando foi escrito.

16 \16\UTC setembro \16\UTC 2016 at 17:20 Deixe um comentário

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