O TESOURO SANTO DE VALETAS

O TESOURO SANTO

DE VALETAS

(ROMANCE)

CARLOS AA DE SÁ

O TESOURO SANTO DE VALETAS

(ROMANCE)

Observação – Os fatos e personagens deste livro são inteiramente fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é uma incrível coincidência.

O autor

Dedicatória:

para Sueli Maria de Sá Vasconcelos Petrucci, poeta, agitadora cultural e presidente da Academia Pedralva Letras e Artes, além de minha prima.

@ copyrigth by Carlos Augusto Abreu de Sá

São João da Barra, setembro de 2010

 

Registrado no Escritório de Direitos Autorais da Fundação da Biblioteca Nacional

Sob o nº 521.892, L. 990, fls, 354, em 03/03/2011

 

 

 

PARTE I

Dois dos homens que desembarcaram do vapor Juparanã num início de tarde de abril não estavam se sentindo bem. O mais novo, com menos de 30 anos, olhar esgazeado e andar incerto, mal deu alguns passos e caiu nas pedras do cais em convulsões, babando.

Os presentes o cercaram, curiosos ou preocupados, e não viram o segundo passageiro caminhar como se estivesse bêbado, suando muito, mal sustendo a grande mala de papelão, cuja alça apertava com força. Era um homem magro e alto, também com cerca de 30 anos, parecendo mais velho devido à palidez e ao terno surrado de brim barato creme que usava, o que acentuava o amarelo de sua tez. Chamava-se Laerte e chegava de uma longa viagem.

Com dificuldade crescente para andar, quase arrastando a mala, olhos embaçados pelo suor, Laerte atravessou o descampado da praça do padroeiro, cheia da gente que viera esperar a chegada do navio, de trabalhadores do porto, vendedores ambulantes, crianças, cachorros, carroças e cavalos. Cachos de bananas verdes formavam um monte áspero. Num engradado de madeira galinhas cacarejavam assustadas. Ao longe um papagaio gritava e uma criança berrava. Uma confusão de dar medo. Estava a ponto de cair quando chegou à soleira da porta da pensão de dona Xandoca, uma casa no início de uma rua lateral.

Assim que o avistou, apesar da idade, a dona da pensão andou rápido em sua direção. O corpo roliço não ajudava no deslocamento e o rosto expressava preocupação misturada com alegria. Laerte, morador da roça, vivera algum tempo em sua pensão, anos atrás. Ela gostava dele como de um filho.

– Deus do céu, que aconteceu com você, meu filho? perguntou, segurando-o pelos ombros.

– É a maldita sezão, Xandoca, me pegou de novo, balbuciou o rapaz, arfando. Preciso me deitar, pelo amor de Deus, não me agüento em pé. Me ajuda, minhas pernas estão bambas e a boca seca.

Apesar de muito magro, era grande e pesado, de ossos largos. O suor alagava seu rosto. A mulher olhou para a sala, onde alguns dos hóspedes, faziam a digestão do almoço, conversando nas mesas cobertas de toalhas quadriculadas de azul e branco, e gritou:

– Alguém me ajude aqui, por favor. Depressa! Jair, me acode!

De olhos fechados Laerte balançava o corpo de um lado para o outro sem controle.

– Ô, cabrunco, exclamou um hóspede, ao vê-lo escorregar em direção ao chão, esse homem está morrendo!

– Vire essa boca pra lá e me dê uma mão aqui, disse ela, procurando passar o braço pelas costas do rapaz.

Xandoca não conseguia segurá-lo, ia desabar a qualquer momento. As mãos dele tremiam tanto que tinham deixado cair a mala. Quando o hóspede afinal chegou perto ele escorregou do braço dela e desabou no assoalho. Xandoca tentou evitar que batesse a cabeça no chão, mas foi impossível. Um galo cresceu em sua testa.

– Vamos carregar ele pro quarto dos fundos, disse ela, agachada, segurando-o pelas pernas, enquanto o hóspede o agarrava pelos sovacos. Depressa.

Um negro muito jovem, de pernas compridas e olhos arregalados, se aproximou, assustado:

– Que foi, dona Xandoca? A senhora me chamou?

– Jair, gritou a mulher, pega essa mala e vem com a gente. Depressa! Ô gente lerda!

Ele pegou na alça.

– Poxa, dona Xandoca, que mala pesada! Será que ele tá carregando ferro?

– Não, seu cabeça de bagre, tá carregando ouro, tudo isso aí é ouro. Laerte não tá vindo do garimpo? Ora, que coisa! Deixa de ser mole, criatura. Se você usasse os braços como usa a língua, eu estava feita.

– É mesmo, dona Xandoca, tudo isso é ouro? perguntou arregalando ainda mais os olhos, enquanto arrastava a mala pelo corredor.

– Num tô dizendo que ocê é ruim da cabeça? Se ele tivesse tanto ouro ocê acha que ele tinha chegado aqui nesse estado? Num vê que tô de brincadeira? Vamos, homem, vai na frente e abre a porta! Depressa, seu paspalhão! gritou.

Quando Laerte voltou a abrir os olhos estava estirado numa cama, coberto até o queixo por cobertores. Ainda tremia e sentia um pouco de frio. Sua volta de uma crise brava de malária nunca era agradável, custava a se situar, a se lembrar do que acontecera. E não havia ninguém no quarto para lhe contar como fora parar ali. De nada se lembrava, por mais que se esforçasse. Nunca conseguia se lembrar do que acontecia antes dos ataques.

Tornou a fechar os olhos e ficou assim por alguns segundos. O quarto era o mesmo onde morou quando veio para a cidade em busca de condições de realizar seu sonho. Tinha uns 15 anos e desde que ouvira, na venda do Amaro Jorge, a história de um homem que enriquecera no garimpo, decidira que faria o mesmo. Ia catar ouro no mato e ficar muito rico. Seria a possibilidade, talvez a única, de tirar sua família da situação de carência em que vivia na roça. Sabia, pelo que o homem contara, que qualquer garimpo ficava muito longe dali e que precisaria de dinheiro para chegar lá. E onde vivia não tinha condições de arrumar tanto dinheiro.

Um dia soube que o garimpeiro voltara a aparecer na venda. Correu pra lá, ansioso, queria saber onde ficava e como chegar a um garimpo. O homem sorrira por sua ousadia em interpelá-lo e descrevera o garimpo, falara longamente sobre a emoção de encontrar as pepitas no cascalho dos riachos, sobre o dinheiro que conseguia com sua venda, e ao ver o interesse crescente do menino, que ficara parado, de boca aberta, a escutá-lo maravilhado, caprichou nos detalhes. Contou estórias de descobertas de lavras que mudaram a vida de um cristão, dos crimes brutais entre os garimpeiros, dos roubos por salteadores, das lutas pela posse das lavras mais rendosas, das dificuldades em vencer a natureza, do ataque dos índios, das feras do mato, como jacarés, onças, aranhas e cobras imensas, do prazer dos alucinados sortudos, que achavam grandes pepitas, iam pra cidade e gastavam boa parte da fortuna arrancada da terra e dos rios com jogo, mulheres lindas e bebidas e recaiam na miséria.

– Tem uns tão doidos que enrolam o fumo picado numa nota e fumam o dinheiro!

Todos riram, Laerte também, sem entender porque, ainda não sabia o peso que dinheiro demais tem na vida de alguém. O homem tinha sido honesto, contou das coisas boas e das ruins que aconteciam por lá e acendeu pra sempre a imaginação do garoto que nunca saíra do lugarejo onde nascera. Sem atentar ou crer nos riscos, o relato cristalizou em sua alma o desejo de ficar rico garimpando. Ser dono de uma grupiara, sonhava, vasculhar o cascalho e sair com as mãos rebrilhando de ouro!

Laerte passou dias e noites sonhando de olhos abertos com o garimpo e eram tão reais as imagens que sua mente projetava que teve certeza de que com sua disposição e um pouco de sorte conseguiria enriquecer no garimpo.

Vou ser muito rico, imaginava, muito, muito. Ah, a maravilha de ser rico, nunca mais ter que usar roupas usadas por outras pessoas, tendo de tomar cuidado para não rasgá-las porque ainda iriam servir aos irmãos; nunca mais andar a pé pelo meio dos matos, espetando os pés de solas rachadas nos espinhos, pegando bicho de pé, por não ter dinheiro para comprar botinas nem cavalo, nunca mais comer pouco para sobrar pros outros. Nunca mais passar necessidades. Nunca mais ver os irmãos chorar de fome.

– Vou ficar rico, decidiu. O homem não disse que teve garimpeiro que topou com uma pepita de ouro que fez ele ficar muito rico? E era uma só! Então, por que isso não pode acontecer também comigo? se perguntava.

Depois de muito pensar nas noites insones, de calcular cada passo a dar, tomou a decisão e desobedecendo as ordens do pai, migrou para a cidade, onde sabia existir um porto movimentado que poderia lhe oferecer a oportunidade de trabalhar e ganhar muito dinheiro e onde poderia obter mais informações sobre como chegar ao garimpo. Fora Zé Lírio, que vivera na cidade por alguns anos, que lhe fornecera as informações sobre as oportunidades do porto e conselhos. Dera-lhe também o endereço da pensão onde morara, de D. Xandoca, criatura boa, sempre disposta a ajudar, garantira.

D. Xandoca, simpatizara com ele ao primeiro olhar e o acolheu, acreditando nas recomendações de Lírio, deu-lhe casa, comida e roupas em troca de pequenos serviços. Viúva, sem filhos, ela contava apenas com a cozinheira e um antigo escravo, velho e mal humorado para ajudá-la a tocar a pensão. Precisava mesmo de um jovem, disposto e de confiança. Laerte, com sua juventude, cara séria e vontade de subir na vida, lhe caíra do céu. Mais tarde diria que Deus o havia mandado para ela, atendendo a seus rogos. Ele fazia de tudo, lavava o assoalho e as janelas, varria a calçada, fazia compras, matava galinhas, limpava peixes, carregava as malas e pacotes e engraxava as botinas dos hóspedes, dava recados e atendia na portaria, sem cara feia nem resmungos.

– Deus nunca me faltou, exclamava, esse menino foi reservado para me atender.

Encantada, arrumara um professor que lhe ensinara a ler, escrever e fazer contas, que era o que ele queria para não ser enganado quando ficasse milionário. Nas horas vagas, geralmente à noite, circulava pelo cais, curioso, conversando, ouvindo, perguntando, aprendendo. Seu objetivo era o garimpo, ir ao encontro da chance de ficar rico e ajudar sua família. Queria que a mãe voltasse a sorrir.

Não sentia saudades de casa, da dura lida na roça, das disputas com os irmãos. O pai se ressentira com sua partida por ser o filho mais velho e o que mais o ajudava na lavoura. Tentara impedir que ele partisse, mostrara todos os perigos que enfrentaria longe dali, ele ouvira cabisbaixo, nada respondera, e ele entendera que o filho tomara uma decisão e nada conseguiria segurá-lo na roça. Nada mais disse além de lhe desejar boa sorte.

– Que Deus lhe acompanhe e ajude, meu filho, disse a mãe, olhos secos e coração angustiado, pondo a mão em sua cabeça. Fuja das tentações e das más companhias.

Dinheiro os pais não tinham para lhe dar, ia com os trocados que o padrinho lhe dera em seus aniversários e que guardara avaramente. Sabia que um dia precisaria deles. O pai, para se conformar, pensara era uma boca a menos para alimentar e talvez o filho desse sorte na vida. A mãe seguiu a seu lado por um bom pedaço da estrada, até encontrar a carroça que lhe daria carona até perto da cidade. Ia calada e triste, apertando o caçula no colo. Nada mais dissera, apenas o olhara, se despedindo.  Pelo mexer silencioso dos seus lábios viu que ela rezava.

– Vou voltar, mãe, disse ele, entusiasmado, e vou melhorar a vida de todo mundo aqui.

Sentia saudade às vezes era da comida da mãe, que mesmo tendo que cuidar de tantos filhos e ajudar o marido na lavoura, ainda perdia parte de seu precioso tempo fazendo queijo e biscoitos para aumentar a renda. Cozinhar, cuidar das roupas e da casa era exaustivo, mas tinha que ser feito. Quanto a carinho, era outra conversa.  Seu carinho era cuidar dos seus.

Já Xandoca podia e queria cuidar do adolescente de ar tranquilo e sorriso simpático que Deus lhe jogara nos braços. Não tivera filhos porque o marido, bem mais velho que ela, ficara estéril por causa de acidente na batalha do Riachuelo, na guerra do Paraguai. Sofrera com isso, nascera para ser mãe. Podia ter se casado de novo, quando as conseqüências da guerra terminaram por lhe matar o marido, pretendentes não faltaram, mas achou que estava velha e que não encontraria companheiro igual e preferiu se dedicar ao trabalho. Com tristeza achava que já passara seu tempo de ter filhos. Com o dinheiro que o finado lhe deixara comprou o velho casarão mal conservado onde vivera um comerciante português que exportava açúcar e café, falira, e voltara para sua terra. O porto começava a mostrar os primeiros sinais de decadência, uma das empresas de navegação fechara e vendera seus dois vapores. Havia muitos desempregados vadiando pelo cais. Os preços dos imóveis estavam caindo, e na pressa de voltar para Portugal, o comerciante lhe fizera um bom preço. Envelhecera solitário e se cansara de brigar contra a vida e suas exigências. Queria morrer na terra onde nascera.

Era uma construção de qualidade, com muitos e amplos cômodos, ideal para se abrir uma pensão. Contava com a cozinheira e com o velho ex-escravo que ajudava no corte de lenha e outras tarefas, casmurrão, cheio de achaques e cismas. Laerte, além de servir-lhe de auxiliar, tomou o lugar do filho que sempre quis ter. Era muito alegre, carinhoso, simpático e trabalhador. Estava sempre bem humorado e disposto a trabalhar. Quando menos esperava lhe sapecava um beijo na bochecha. Ela adorou sua chegada, era como se a vida enfim a tivesse recompensado pelos anos que dedicara apenas ao marido, sem se realizar como mãe. Sentiu-se completa.

Laerte aprendera a nadar nos alagados, que o povo da roça chamava de poços, e na lagoa do Taí, perto de onde morava. Nadava bem e nas tardes quentes, depois que viera para a cidade, ia se banhar no Paraíba do Sul. Levava a toalha, um pedaço de sabão e se deliciava com a água tépida enquanto fazia a higiene diária. Era banho mesmo, melhor que na roça, onde usava a bacia e nunca se achava bastante limpo. Muitos eram os meninos, os rapazes e homens que usavam o rio para se lavar. Era meio complicado nadar por entre as embarcações ali ancoradas, por isso preferia um barranco um pouco mais distante, perto do velho estaleiro, e menos movimentado. Era melhor do que encher e esvaziar a grande bacia do banho toda tarde.

Numa das vezes, nadava tranquilamente depois do banho, apreciando o vapor que se aproximava rápido do cais. Os passageiros, excitados, se aglomeravam na amurada, gesticulando e apontando para as pessoas que os esperavam no cais. No empurra-empurra dos passageiros mais jovens, um homem de mais idade se viu imprensado contra a amurada, de onde despencou, caindo na água com espalhafato. Laerte não hesitou em nadar rapidamente em sua direção ao vê-lo se debatendo. Dava pra ver que o homem não sabia nadar. Do cais haviam saltado uns homens, mas Laerte era o que estava mais próximo do afogante, pegou-o pelo pescoço e o rebocou até o cais.

A vítima era um forte fazendeiro do sertão, Neco Monteiro, plantador de canas e criador de gado, que voltava de viagem ao Rio de Janeiro, onde realizara excelentes negócios. Custou a se recuperar do susto. Enquanto caminhava, molhado e trêmulo, observou que se tivesse sido levado pela correnteza para um pouco mais perto do vapor teria a cabeça atingida pela roda da proa e aí…

– E sem a cabeça não podia aproveitar o dinheiro que ganhei, disse sentando-se num fardo no cais com a água escorrendo da roupa.  Depois de respirar fundo, comentou rindo, tentando parecer descontraído: não fosse ocê, meu menino, a essa hora eu tava era indo pro céu, todo encharcado. Foi a Providência que fez ocê nadar perto do vapor para me salvar. Deus seja louvado!

Laerte imaginou que em agradecimento receberia uma moeda, mesmo que fosse um vintém, que poderia juntar a seus trocados, mas nada saiu do bolso do homem que salvara da morte. Xandoca, que tudo vira e sentira sua decepção, o consolou.

– A vida é assim mesmo, Laerte, não se apoquente, esse aí é um mão de vaca. Mais Deus tem pra lhe dar. E deixe estar que vou daqui a pouco preparar um arroz-com-leite da pontinha da orelha e separar um bom pedaço procê, meu filho. Ocê bem que merece.

E beijou-o na testa. Laerte era fácil de ser convencido e qualquer afago o satisfazia. Com a cara alegre de todos os dias foi pro seu quarto trocar de roupa. Outra qualidade sua era o constante bom humor, que resistia à impaciência e arrogância de uns hóspedes e à implicância de sô Chico, o velho escravo.

Rumores de vozes interromperam o fluxo de suas lembranças. Abriu os olhos inchados e olhou a porta. Ninguém entrou. Passos continuaram a soar no corredor. O casarão antigo era grande, pé direito alto, e Xandoca dividira alguns quartos ao meio com tabiques de madeira para caber mais gente. Escolhia com cuidado para hospedar entre os muitos que diariamente procuravam a sua pensão, graças à proximidade do cais. Era constante a presença de gente trambiqueira, malvada e bagunceira a passar pela cidade. Apenas uma vez errara no seu julgamento do candidato a hóspede e sofrera um prejuízo. Pequeno, mas que a deixara ainda mais exigente na aprovação dos hóspedes. Mulheres sozinhas não aceitava, com crianças pequenas também não.

Muitas vezes, no silêncio das noites no garimpo, Laerte se pegava com saudades do movimento constante da pensão, sempre a conhecer gente nova, a ouvir histórias de todo o tipo, acreditava em algumas, outras dava pra ver que eram mentiras deslavadas. Gostava de conversar e se o hóspede mostrasse conhecimento da busca de ouro era capaz de ficar a ouvir, perguntando indefinidamente sobre a atividade. Xandoca achava graça na obsessão do moço, uma fantasia que com o tempo se dissiparia.

Laerte sorriu. Ela não acreditou que ele seria capaz de correr atrás de seu sonho. Dois anos depois, novamente nadando no rio Paraíba, viu desembarcar o tal fazendeiro que um dia salvara de morrer afogado ou atropelado pelo vapor. Olhou-o de longe com uma certa revolta, bem que o disgramado poderia ter lhe dado um bom dinheiro, ajudando na sua ida para o garimpo. Velho pão duro!  Cuspiu na água. Vai levar seu dinheiro pra sepultura, vai?

No dia seguinte, ao voltar com a cesta cheia de compras do mercado, viu o velho Neco Monteiro conversando com outros homens perto da porta da igreja matriz. Seguiu seu caminho, olhando para o cais lotado de gente, fingindo não tê-lo visto ou reconhecido.

– Ê, moço, ouviu-o gritar, vem cá.

Seria mesmo com ele? A voz era a do fazendeiro, nunca esqueceria sua antipática e autoritária voz de trovão. Claro que não era com ele. Não tinham nada para conversar. Continuou caminhando, a cesta estava pesada, era a primeira compra da semana, sempre mais vultosa. Um homem que vinha em sentido contrário lhe avisou:

– Alá, aquele velho está lhe chamando.

– Quem disse que é comigo? perguntou de mau humor.

– Ué, só tem ocê por aqui.

Deu uma olhadela por cima do ombro, viu o velho fazendeiro caminhando com vigor em sua direção, o cigarro de palha pendurado nos lábios e a se abanar com um chapéu. Laerte continuou a andar, porém, mais devagar. O velho o alcançou.

– Ei, num tá me ouvindo chamar ocê não?

– E eu sabia lá que era comigo? respondeu sem se deter.

– E havera de ser com quem? Ocê é munto atrevido, né não? Não fosse por me ter salvo daquela vez e eu lhe metia o relho na cara pra aprender a respeitar os mais velhos.

Laerte nada respondeu e seguiu andando, o homem a seu lado.

– Foi ocê que me salvou, não foi?  perguntou o velho. Tô em dúvida porque ocê cresceu munto, tá maior que eu. Mas a cara não mudou.

Laerte seguia calado, o cenho franzido. Estavam chegando à porta da pensão.

– Eu sei por que ocê deve tá de má vontade comigo, tá certo, eu compreendo, minha mulher achou que fui mal agradecido, não lhe dei nem uns trocados quando me salvou. Aí prometi a ela que da primeira vez que viesse aqui ia reparar meu erro. Tá ouvindo?

– Tô, respondeu num resmungo. Depois acrescentou, rosnando: não quero nada do senhor, tenho tudo o que preciso. Pode sossegar sua alma, eu num tirei o senhor do rio por interesse e se caísse nágua de novo eu faria a mesma coisa, mesmo sabendo que é um pão duro.

O fazendeiro estacou, sacudindo o chapéu com mais vigor.

– Mais respeito comigo, moleque, que eu não sou da sua iguala.

– Mas num recusou minha ajuda quando precisou, respondeu agressivo.

O velho coçou a cabeça, deu uma pitada no cigarro de palha. Ficou um instante observando Laerte se afastar devagar.

– É atrevido o sujeitinho. Mas eu prometi a Marília, e depois fui mesmo mesquinho com ele daquela vez, o diabo da minha mulher tem razão, ô moço, espera aí.

Estavam na porta da pensão e atraída pelo vozeirão do fazendeiro, Xandoca se aproximou, mas não se deixou ver por nenhum dos dois. Precisava antes se inteirar do que estava acontecendo.

Laerte descansou a bolsa no portal e esperou, olhando firme o outro.

– Vamos conversar, não posso deixar de lhe dar um agrado, senão minha mulher não vai parar de reclamar. Então, vamos lá: sabe andar a cavalo?

– Por que, vai me dar um? perguntou, petulante. – Xandoca sorriu com o canto da boca.-

Claro que sei, fui criado na roça, lá em Valetas.

– Tá bom. O homem lhe deu uma olhada avaliativa. Então é o seguinte: tô precisando de um carreiro lá na fazenda, um homem pra cuidar também do gado. Quer?

Foi a vez de Laerte rir com a boca torcida.

– Não tô interessado. Se vim pra cá fugindo do mato, porque havera de voltar? Tô bem aqui na pensão.

– Dinheiro não gosto de dar sem ter trabalho em troca, disse o homem dando uma pitada no cigarrinho. Vicia os homens. Diga lá, o que posso lhe oferecer para pagar meu salvamento.

Laerte ergueu os ombros e disse firme:

– Uma mula!

O fazendeiro arregalou os olhos e quase se engasgou com a tragada do cigarro. Tossiu.

– Ficou maluco?

– Bom, se o senhor acha que sua vida não vale nem uma mula…

Pegou na cesta e entrou na pensão. Xandoca o esperava sorrindo, de braços abertos.

– Fez bem em falar assim, meu filho. Esse povo pensa que é muita coisa só porque tem meia dúzia de bois e um alqueire da cana plantada.

– Deve ter mais, Xandoca. Pela cara dele, pela prosápia, deve de ser muito mais.

– Que seja. Ocê fez a pergunta certa: a vida dele não vale uma mula? Acho que não vale mesmo. Velho sovina.

Nesse instante Neco pisava na sala e ouviu o comentário.

– Olha aqui, ô dona, a senhora me respeite.

– Um homem que acha que sua vida vale tão pouco não merece meu respeito, retrucou ela, se aproximando de Laerte.

– Ara veja, disse ele, dando mais alguns passos, parece que a educação passou longe dessa casa.

– Ora, vá procurar suas negras, seu mão de vaca. Meu menino não precisa de suas esmolas. E pode ir dando o fora, que a casa é minha e aqui mando eu.

Neco tinha ficado vermelho como um camarão cozido. Seus olhos faiscavam. Apontou-lhes a punho cerrado antes de sair.

– Ocês vão ter notícias minhas, seus mal-criados! Tão pensando que eu sou o quê?

Menos de um mês depois uma mula ruça, arreada, era entregue na pensão. Com um recado da mulher do fazendeiro:

– Dona Marília manda pedir desculpas pelos maus modos do capitão Neco e agradece a quem salvou a vida dele, disse o peão que a tinha trazido. Se era eu que visse ele cair nágua, completou, deixava era ele se afogar. Deu uma risadinha marota: tô brincando, hein, gente. A mula tá aqui, é docês. Bonitona ela, num é? Foi dona Marília mesma quem escolheu. É a melhor da tropa. Façam bom proveito dela.

A barriga de Laerte começava a roncar quando a maçaneta da porta do quarto se mexeu. Era Xandoca. Arrumara as mesas para o almoço e antes que os hóspedes começassem a se abancar veio vê-lo. Sorriu vendo-o se esforçar pra se recostar na cama.

– Ora, ora, que beleza. Meu menino está ficando bom, graças a Deus. Não se esforce muito, descanse. Deixa eu ver essa febre.

Encostou sua mão fria, ainda um pouco úmida, na testa dele.

– Tá fresquinho. Dessa vez a maldita se foi. Vamos comer alguma coisa? – Sorriu, cheia de afeto.- Preparei uma canjinha da pontinha da orelha. Voltou à porta, abriu-a e gritou: – – Jair, traz a canja.

Pôs o prato no criado mudo e foi lhe dando as colheradas de canja na boca.

Laerte nunca havida tomado canja tão gostosa. Quase sentado, apoiado na guarda da cama, sorveu sofregamente cada bocado.

– Bom, muito bom, comeu tudo. Amanhã ocê vai tá novinho em folha. E então vai me contar tudo o que fez nesses anos. Quantos mesmo? Acho que uns dez, né? Meu Deus, como o tempo voa! Agora, chega de aventura, né? Vai tirar uma soneca, depois me conta, pois vou servir o almoço. É hora de sossegar e pensar em assentar a cabeça. Falando nisso, me diga, ocê se casou nesses matos brabos onde viveu?

Ele sorriu.

– Casei não. Mas conheci uma mulher maravilhosa.

– E cadê ela? Esqueceu no garimpo? brincou, tô com ciúme.

O rosto dele se ensombreceu.

– É uma história comprida, um dia eu conto.

Jair chegou com um copo dágua.

– É, depois nós conversamos sobre isso. Gostou da canja? Estava uma delícia, né? Logo mais tem mais. Canja dá sustança, arrumei as folhinhas de hortelã na dona Mãezinha. Fica gostosa e cheirosa.

Pegou o prato de ágata branca e o copo. Perguntou sempre sorrindo:

– Quer um docinho? Um pedacinho de goiabada com queijo?

Ele negou com a cabeça.

– Então descanse mais um pouco, disse ela levando o prato vazio. Mais tarde, quando acabar de servir o almoço eu volto. Olha como ocê suou, mas é um suor bom. Passou um pano na testa dele, ajudou-o a se ajeitar para o cochilo e saiu.

Antes de adormecer, ele pensou em Bárbara e lembrou-se do momento em que ela surgiu no acampamento, muito linda, a segurar um chapéu de palha na cabeça, lutando contra o esforço do insidioso vento, que brincava com as folhas do mato, em derrubá-lo. Então, como agora, tinha acabado de almoçar um ensopado de carne de caça preparada por Genésio, o cearense arretado, e se preparava para a rápida cochilada da tarde. Não gostava e não precisava suportar o sol do meio dia que afugentava até os animais de sangue frio. Nessa hora não se via uma cobra ou um lagarto caçando pelas redondezas. Macaco nem se fala. Só depois das quatro da tarde voltariam a aparecer. Nem se ouvia o grito das seriemas ou das arapongas. Por que se meteria na água?

A canja dera na fraqueza, como dizia o povo, e ele adormeceu quase em seguida, com a doce e voluptuosa imagem de Bárbara em suas retinas. A mulher mais linda que já vi, pensou ao cerrar os olhos, nem no Rio de Janeiro vi mulher igual. Apesar de que passei pouco tempo lá, só enquanto arrumava condução pra cá.

No dia seguinte Laerte conseguiu sentar-se. Arriscou alguns passos pelo quarto, sentiu-se tonto e voltou para a cama. O pedaço de diáfano céu azul que divisava pelo retângulo da janela lhe dava uma doce sensação de paz e conforto. Estava em sua casa. Seus olhos se inundaram de luz. Depois de tantos anos vivendo em lugares inóspitos, solitários, assombrados e violentos, comendo o que pessoas civilizadas dariam aos seus porcos, morando em casebres de barro batido, infestados de insetos, dormindo mal em redes empesteadas pelo bodum de corpos mal lavados, estar num lugar limpo assim, tendo telhas como teto e paredes caiadas, se alimentando do que gente e não bicho costuma comer, sentindo-se seguro, no meio de amigos, sem medo de ser atacado por animais ou malfeitores a qualquer hora do dia ou da noite, relaxava seus músculos e renovava até a esperança de um dia reencontrar Bárbara.

Bárbara. E pensara tão mal dela! Por uns dias não quisera nem ouvir seu nome, cuspia para o lado quando pensava nela e no entanto… Ah, Bárbara, que saudade!

A porta do quarto se abriu e Jair entrou trazendo uma bandeja com um bule soltando fumaça pelo bico, a jarra com leite, um prato com broas de fubá, um pote de manteiga e talheres. Seu coração se desmilinguiu e por pouco não chorou. Estava muito sensível, tudo o afetava. Uma lágrima chegou a apontar, atrevida, no canto de seu olho direito. Fungou para segurá-la.

O rapazinho pôs a bandeja sobre o criado mudo e avisou:

– Dona Xandoca manda dizer que é pro senhor comer tudo. Daqui a pouco ela vem olhar a bandeja.

Com um pouco de dificuldade sentou-se. O rapaz serviu-lhe café com leite e perguntou:

– É o senhor que é o filho de dona Xandoca, não é?

Laerte o olhou, desconfiado.

– Por que está perguntando?

– Por que ela vivia dizendo que o filho dela era um aventureiro, que tinha ido pros garimpos, mas que ela tinha fé nos santos que um dia ele voltaria.

Novamente a emoção se apoderou dele. Murmurou apenas: sou eu sim.

Jair sorriu e partiu uma broa com a mão.

– Sabe que foi ela mesma que fez essa massa? Disse que era especial pro senhor. Só pode ser porque é o filho dela, né? Foi logo o que pensei. Ela não quer dizer, não sei porque, mas eu desconfiei, ela nunca mimou tanto um hóspede assim.

O bolo que a emoção punha em sua garganta dificultava engolir os pedaços da broa de milho. Lembrou-se das vezes em que ajudara Xandoca a preparar broas e bolos para o café, ela falando sem parar, lhe fazendo perguntas, lhe dando conselhos, como uma mãe. Como sua mãe nunca fizera, atolada nos afazeres e no cuidado do monte de filhos. Como estariam eles? Em breve vou saber.

Enxugando o rosto com uma toalha de pano, Xandoca foi vê-lo assim que se desocupou das tarefas do almoço.

– Como ocê tá passando? perguntou, sentando-se na beira da cama. A febre acabou mesmo, né? Pôs a mão em sua testa. Dá pra ver. Tá com cara de gente.

Ele sorriu e se ajeitou. Ela pegou a almofada que estava nos pés da cama e colocou-a nas suas costas, de forma a lhe dar mais conforto.

– Agora, me conta, já tá em condições de conversar? Tô morrendo de curiosidade. Como foi, meu filho, que ocê conseguiu chegar no garimpo, naquele fim de mundo? Cê ficou tanto tempo sem dar notícias, que cheguei a pensar – e deu um tapinha na própria boca – que tinha morrido. Chorei tanto, cê nem imagina.

Ele a olhou cheio de ternura. Esperou a garganta desobstruir da emoção para responder, a voz ainda arranhando:

– Foi mesmo, custei a dar notícias, né, Xandoca? Mas eu não tinha por quem mandar notícias. Lá é muito longe mesmo, o fim do mundo, onde o vento faz a curva, não passava ninguém que viesse pra cá. Até que um dia esbarrei num homem que também tinha ido com a boiada e vinha aqui pra perto e mandei o recado. Mas fiquei sem saber se tinha chegado.

– Chegou sim e foi um alívio. Depois nunca mais chegou nada. Conta aí, a mula serviu?

– Ah, Xandoca, não fosse aquela mula!

Por um instante ele se alheou e voltou ao dia em que a mula lhe foi entregue. Onde ponho esse animal? se perguntara, nervoso. Nunca imaginara que o arrogante fazendeiro ia atender a seu pedido. Pedira por pedir, embora sonhasse em ter uma mulinha. E agora, que a tinha ganhado, o que ia fazer com ela? Onde ia botar a bichinha? Olhou para Xandoca, que sorriu, cúmplice. Durante o dia a mula podia ficar amarrada por ali mesmo, pastando nos canteiros da praça e à tarde a levaria para a beira do rio, onde o capim era abundante. Mas e à noite? Se deixasse por ali ia acabar por perdê-la, mesmo amarrada quem ia resistir a um animal daqueles, sem ninguém a vigiar? Coçou a cabeça, sem saber o que fazer, indeciso. Foi quando Xandoca sugeriu que prendesse a mula no quintal da pensão durante a noite. Era o que queria e não tinha coragem de pedir, embora rezasse para ela propor.

O velho sô Chico reclamou, indagando:

– A senhora vai deixar? E quem vai limpar as bostas dela? Eu não vou!

– Já deixou, ocê num ouviu? E a mula não é minha? Então, quem vai limpar sou eu, ora! disse ele.

– Só quero é ver. Falar é fácil, fazer é que são elas.

A mula, a quem dera o nome de Macia, passou a dormir no quintal.

– Macia não é nome de bicho, riu sô Chico, debochado.

– Não é por que? Ela é toda macia. Boa de apertar, boa de montar. Macia sim, esse vai ser o nome dela.

– Qual, resmungou o negro, esses moços de hoje…

Xandoca esperou que ele voltasse do alheamento, essas ausências, ela sabia, eram comuns em quem passava por uma doença séria.

– Ô, desculpe, Xandoca, eu tava lembrando da Macia. Não existiu outra mula nesse mundo igual a ela. Morreu picada de cobra, tadinha, faz uns anos. Confesso que chorei muito quando enterrei minha companheira. Não deixei bicho nenhum comer ela. Nas brenhas onde a gente tava não tinha como salvar a bichinha. Nem rezadeira, benzedeira, macumbeira, pajé, nada, ninguém aparecia por lá, um deserto cheio de árvores e bichos bravos. Um inferno verde, como diz o povo. No meio daquele mato tem muita toca de cobras brabas, escorpião, lacraia. Sem querer Macia pisou numa toca de cobra e aí.

No dia em que a mula chegara, Laerte compreendera que o destino a enviara para que pudesse chegar a um garimpo e realizar seu sonho. Enquanto a puxava pela corda para levá-la a pastar os capins verdejantes da margem do rio, ia pensando em comprar uma boa sela, uma manta e um jacá, mesmo de segunda mão, pra levar suas coisas.

Quando soube que uma tropa estava sendo preparada em Campo da Jureia para levar mais de uma centena de cabeças de gado pra Bahia, não conversou. Pegou o dinheiro que tinha guardado, comprou a sela e os arreios usados, um facão afiado, mais umas coisas que sabia que precisaria, arrumou sua trouxa e despediu-se de Xandoca, que ficou parada na porta, como hipnotizada, observando ele montar na mula, acenar e partir. Tudo acontecera tão depressa! Ela sabia que um dia ia acontecer, pensava que estivesse preparada, mas qual! Foi como se tivesse recebido uma bordoada no peito. Ficou vendo seu menino partir, uma criança que nada sabia das maldades do mundo, sorrindo como se fosse invencível, sem saber se veria sua volta. Acenou até que ele desapareceu na esquina. Depois foi para o quarto e chorou até dizer chega. No fundo sabia que ele viera pra isso e estava cumprindo seu destino.

– Depois da morte de Macia comprei um cavalo alazão, continuou Laerte, um pangaré, pouco me serviu. Depois troquei ele por um burro, mula por lá era artigo de primeira necessidade, quem tinha não vendia, não dava nem trocava. Houve até morte por causa de roubo de mula. E nenhuma das que eu vi chegava aos pés de minha Macia. Eta, mula macho. A gente andava quilômetros, quase sem parar e ela não reclamava.

Era fechar os olhos e sentir o trote ritmado da mula. Sentia-se um rei em seu lombo.

– Enquanto a gente acompanhou a boiada até que não foi muito duro, os bois são lerdos, não deixavam a gente avançar depressa, e o Zé Leandro já tinha feito aquele caminho umas mil vezes, tinha os lugares certos para parar, comer, dormir. Depois é que a coisa ficou feia. Eu mais um tal de Augusto, aqui de Morro do Coco, nos separamos da tropa e fomos para o garimpo logo depois da entrega do gado, sem a menor noção do perigo. A gente arriscou, mesmo com todos os conselhos dados pelos mais experientes, Zé Leandro foi um deles. Mas qual, a gente quando é muito novo acha que pode tudo, que coisa ruim só acontece com os outros. Pegamos informações com todo mundo, andamos dias a fio como uns condenados, mesmo lá nos confins da Bahia o garimpo ainda ficava longe. Só que a gente não sabia como era longe! Era andar, andar, andar. Quantas vezes a gente se perdeu no meio daquele mato bravo, no meio de espinhos, gravetos e folhas que cortavam que nem faca, se enrolando nos cipós, ouvindo onça esturrar no mato, a trilha que informaram com certeza que ia levar a algum lugar decente tinha sido tomada pelo mato, nuvens de maruís atacavam a gente com vontade e se para andar era difícil, pra dormir era um aperreio, a gente tinha que encontrar um descampado e fazer uma fogueira para espantar os bichos selvagens. Aí um dia nossos fósforos acabaram e para completar Augusto perdeu a pederneira, uma loucura. Fazer fogo esfregando pedaços de pau é serviço pra índio, pra gente de cidade é muito complicado. Apanhei muito, mas acabei aprendendo a acender desse jeito, esfregando um graveto no outro até soltar faíscas, mas naqueles dias… E depois tinha a sede, a fome, nem sempre a gente podia comer ou beber o que encontrava. Olha, não desejo pro meu pior inimigo o que passei a caminho do garimpo, aonde cheguei lá pro final do ano, quando pensava que já não ia encontrar coisa alguma. A gente vinha batendo mato desde as festas de São João!

Xandoca tinha os olhos marejados. Sua mão apertava a mão de Laerte com calor.

– E a tal mulher que ocê gostou, encontrou lá no garimpo? perguntou com voz de ciúme.

– A Bárbara? A Bárbara chegou depois, bem depois.

Jair surgiu na porta.

– Dona Xandoca, tem hóspede chegando e quer falar com a senhora.

– Já vou. Depois conversamos mais.

Laerte deu um suspiro de alívio. Não queria ainda falar de Bárbara, não com Xandoca, que na certa o repreenderia pela maneira como fugira, sem noção de onde sua mulher se metera. Xandoca não fazia ideia do que era viver num garimpo, no meio da lama e do mato, cercado por bichos bravos de toda espécie, principalmente pelo bicho homem, o mais traiçoeiro. Acabava-se por ficar mais bruto que os brutos.

No outro dia Laerte sentiu-se bem melhor, quase bom, e recebeu Jair com um sorriso aberto quando ele lhe levou a bandeja com o café da manhã. Seus olhos brilharam ao bater numa travessa com angu doce coberto de canela em pó.

– Nunca fui tão bem tratado na minha vida, comentou, e não há dinheiro nem ouro no mundo que pague isso!

Jair serviu-lhe o café.

– Mas o senhor pegou muito ouro lá, não foi?

– O que a gente tira da lama volta pra lama, sentenciou. O ouro não vem fácil como ocê imagina.

O olhar do garoto estava cheio de admiração e inveja.

– E se eu quiser, posso ir lá pegar o ouro?

Laerte riu e quase se engasgou com o gole de café com leite. Depois, com calma e paciência, deu uma idéia ao garoto do que era um garimpo e como se “pegava” ouro. Carregou nas tintas para não estimulá-lo a sonhar, como lhe acontecera.

– É muito perigoso e trabalhoso. Trabalho pra homens duros, de pele curtida pela vida. Cê tem que comer ainda muita farinha pra poder ir lá.

– Tem muito bicho bravo? Me disseram que lá tem onça…

– Muita coisa. Eu mesmo já peguei uma meia dúzia de onças pelos chifres e joguei longe.

– Ah, deixa de brincadeira. Onça não tem chifre… Tem onça lá ou não tem?

Laerte sorriu.

– Tem sim, tem onça, cobra, índio. Mas isso não é o pior. Ruim mesmo são as moscas, os mosquitos, as aranhas, os escorpiões, as formigas quentes e outros bichinhos. Mas pior mesmo, muito pior, são certos homens e mulheres que rondam os garimpos.

– Pior que os índios? Ocê enfrentou algum índio?

– Matei cem com uma flechada só.

Os olhos de Jair brilhavam.

– Ocê gosta de uma piada, né? E mulher, tem mulher bonita lá? E como é que a gente faz pra conquistar uma? Só dando ouro?

– Algumas sim, mas não valem o que se gasta com elas, são velhas, muxibenta, fedorentas

Laerte sabia bem como era a fantasia de conquistar mulheres. Ele nunca tinha conhecido mulher na intimidade enquanto vivera na roça ou na sua cidade. Nem mesmo namorara, era muito tímido, encabulado. Às vezes arriscava um flerte envergonhado nas saídas das missas ou das ladainhas, meninas atrevidas sempre o olhavam, algumas piscavam o olho. Ele sorria, abaixava os olhos, não arriscava ir além, era um duro, não tinha dinheiro para comprar botinas, nem roupa bonita, nem pra beber nas vendas, não sabia dançar nem tinha coragem para enfrentar baile cheio de moças, nem que fosse só para conversar. Elas o assustavam.

Quando acompanhou a boiada, fez amizade com alguns homens mais experientes que aos poucos foram desfazendo suas dúvidas e ilusões e lhe ensinando maneiras de se aproximar de uma moça para namorar ou de uma mulher para conquistar. Quando chegaram a Feira de Santana estava pronto para enfrentar uma mulher. Não as mulheres de família, mas as de vida fácil.

A primeira vez que se deitou com uma mulher, num castelo baiano, não foi lá essas coisas. Ficou nervoso, meio aturdido e na pressa, inexperiente, ansioso, escolhera, ou fora escolhido, a morena gorda, não muito nova, que se esfregara lascivamente em seu corpo mal entrara na sala. Ela o arrastara para a cama, num cubículo apertado, separado de outros iguais por uma cortina estampada, no quarto imenso de um casarão. Ficou nervoso, atrapalhou-se, tirou a roupa com dificuldade, e quando viu as banhas da mulher espalhadas na cama, quase desistiu. Ela o puxou com vontade pelos braços, perdeu o equilíbrio e caiu sobre ela, desajeitado. Não sabia o que fazer. Ela estava pegajosa de suor. As hábeis mãos, porém, fizeram seu pau meio murcho encontrar a gruta viscosa, onde se enrijeceu e gozou mal penetrou. Frustrante primeira vez.

Custou a voltar a procurar mulher, a experiência não o estimulava a tentar de novo.  No caminho para Salvador, seguindo a boiada, num casebre de beira de estrada viu uma moreninha, magricela, carinha de bugre, cabelos negros, compridos, que não devia ter nem 15 anos, que lhe sorriu. Sorriu de volta, ela o chamou com um gesto e temeroso foi com ela pra trás de uma moita de canema. Sestrosa, risonha, ela tirou devagar o vestido de chita estampada, ajudou-o a tirar a camisa e a arriar a calça e o abraçou com ternura. A partir daí ele achou que valia a pena se deitar com uma mulher.

– As mulheres de lá nem sempre são bonitas, Jair. E todas querem dinheiro. Só gostam de ouro ou de dinheiro.

– Mas a tal que Dona Xandoca disse que o senhor gostou não era assim, era? E devia de ser bem bonita, né?

Ele sorriu, beatífico. Bárbara. Bárbara era linda, sem favor nenhum. No dia em que ela chegou no garimpo, acompanhada de uma colega de profissão, ele estava sonolento, tinha comido muita carne de paca ensopada, muito gordurosa, que pesava em sua barriga como chumbo. Como de costume, estirara-se no chão com a cabeça apoiada numa pedra onde enrolara um pano velho. Ela parara na entrada do acampamento segurando o chapéu pro vento não levar, imagem que não saía de suas retinas, e tufos de cabelo alourado escapavam por sob a aba e lhe davam o ar estranho de quem acabou de acordar. Olhara em volta, crítica.

– Ai, meu Deus, que buraco é esse aonde cês vieram se meter, moços? perguntou, amenizando a crítica com um sorriso. Chegamos aqui por acaso. Que lugar feio!

Segurava as saias com a mão esquerda e o chapéu com a outra. A colega, a roliça Cirlene, parecia atrapalhada e bufava sem parar. Laerte não saberia descrever as feições de Cirlene, fascinado que ficara com a bela mulher ao lado dela. Atrás delas surgiu a figura carrancuda de um negro alto e forte, com menos de 30 anos, segurando contra o peito largo o facão que usava para cortar os galhos e abrir a trilha. Impunha respeito.

O sono de Laerte acabou como por encanto e ele se levantou, meio aturdido. Genésio lavava as panelas numa bacia, Cabelo bom, encostado a uma árvore, na sua pose de lorde, pitava um cigarrinho de palha e olhava as duas, também abismado, e o lusitano Funchal, de boca aberta, abotoava a braguilha, depois de ter regado as plantas em volta de onde estavam. Faltavam Amaro Neto e Pernilongo para completar o grupo de temerários garimpeiros metidos nos igarapés da selva distante a procurar ouro.

– Que grupo simpático de moços, exclamou Cirlene. Estão achando muito ouro por aqui? Hum?

Ninguém respondeu, todos embasbacados com a visão das mulheres. Normalmente elas iam direto para casa da Tetê Pisca-pisca onde, no sábado, as encontrariam.

– Parece que engoliram a língua.

A mulher se encaminhou na direção de Cabelo, enquanto a de chapéu fixava o olhar em Laerte. Cabelo por fim perguntou:

– Estão vindo de onde?

– Daqui de perto mesmo, respondeu Cirlene, tocando-lhe o rosto com a ponta dos dedos. Bonitão você, hein? Somos andarilhas, meu bem, que nem ciganos. Somos as ciganas do amor. Chegamos, damos muito prazer aos homens, pegamos nosso suado dinheirinho e vamos para outro garimpo. Felipe, esse crioulo com cara de mau, mas alma de anjo, nos protege.

Funchal interveio, incisivo:

– Ele é o cafetão docês?

– Ih, disse ela, mas que maneira mais grosseira de falar. Ele é o guardião de nosso grupo, meu bem. Toma conta de nós.

Debruçou-se sobre o ombro de Cabelo que se mantinha em sua pose de nobre.

– Mas que cabelo mais bonito, exclamou.

Cabelo, cujo nome era Hélio, tinha o maior orgulho e cuidado com seus cabelos negros, brilhosos e sedosos, que chegavam aos ombros, e qualquer elogio a eles o conquistava. Durante o trabalho, além do chapéu, usava um lenço protegendo-os do sol, da chuva e do vento. Sorriu para ela.

– Cês já almoçaram? Ainda tem um pouco de arroz e carne na panela, querem?

– Brigadinho, meu bem. Podemos nos abancar?

Laerte não atinara com uma palavra para dizer, estava completamente vidrado na linda mulher do chapéu, que o olhava com insistência. Como podia ser mulher da vida?

Jair pigarreou e Laerte voltou ao quarto da pensão.

– Tava pensando no garimpo, é? perguntou o empregado.

– Pois é, respondeu, ainda meio aéreo. Tava me perguntando como é que na lama pode nascer flores tão belas.

– Ué, não é da lama do rio que sai o ouro?

Apesar da brisa constante, Xandoca estava sempre com um lenço grande a enxugar o suor do rosto. Andava o dia inteiro, pra baixo e pra cima, apesar de ter passado dos cinqüenta, providenciando para que a pensão atendesse bem aos hóspedes. No fim da tarde, foi levar um pedaço de bolo a Laerte. Ele fez cara de enjôo.

– Não senhor, vai ter que comer tudinho. Ocê tá tão magrinho! Ocês passavam fome lá no garimpo?

– Poucas vezes. Geralmente a gente tinha o que comer. Nem que fosse fruta do mato, que tinha muita. Toda semana um de nós ia às compras de mantimentos na vila, feijão, arroz, farinha, carne seca, ovo. Primeiro ia o lusitano, depois o Genésio, e assim por diante. Depois que o Felipe chegou, como não garimpava, era ele que ia à venda, que ficava perto comprar a comida e saber das novidades. A gente tinha de estar sempre de olhos e ouvidos abertos para evitar surpresas desagradáveis. Era aconselhável saber se chegavam pessoas estranhas na vila ou na região. Podiam ser bandidos atrás do ouro. Tem muito bandido nos matos. Felipe cozinhava, era bom no tempero. Tinha vezes que ia pro mato caçar, tinha muito passarinho bom de comer e capivara, tatu, paca. Só nunca consegui comer macaco.A gente comia muito e bem. Com ouro na mão ninguém passa fome. Falando sério, não devo comer tanto. Estou cheio. – E bateu na barriga. – Deitado aqui o dia todo e comendo sem parar vou virar um capado.

– Capado coisa nenhuma, deixe de lérias e pegue o bolo, vamos. Não quero ver sobrar nem um farelinho.

– Preciso sair, me mexer. Quando anoitecer, vou olhar a rua, andar um pouco, nem que seja só dentro de casa. Parece que estou preso. E amanhã quero dar uma volta na cidade. Por falar nisso, que roupa é essa que estou usando?

– Sua mesmo, meu filho. Não deu pra ocê levar todas, lembra? E as mais velhas ficaram na gaveta debaixo da cômoda. Pensei em usar como pano de chão ou dar pra alguém pobre, mas alguma coisa me dizia que… Ah, deixa pra lá. Dizia nada, guardei porque eram suas.

Ele sorriu, envaidecido.

– Se eu não tivesse emagrecido, nem caberiam mais.

– É verdade. Quase que abri a mala que ocê trouxe para procurar uma muda de roupa, pois ocê suava demais e encharcava tudo, até os lençóis. Mas fiquei pensando que ali podia estar o ouro que trouxe do garimpo, e como a gente nunca sabe quem mete em casa, algum hóspede podia ver… bom, deixei a mala tão amarradinha como chegou. Ninguém tocou em nada.

Ele ajeitou-se melhor na cama.

– Sei disso e nem me preocupei. Seria hora então de dar uma olhada nas roupas que eu trouxe. Quase todas estão sujas, durante a viagem pra cá não tive onde lavar.

– Vamos ver, num instante resolvo isso.

– Deixa que eu pego a mala, Xandoca, deve estar pesada!

Ela se antecipara e já puxava a mala que pusera sob a cama.

– Fica quieto aí, homem. Tá pesada mesmo, mas ocê não pode pegar peso, senão a febre volta. Jair!

Gritou pelo empregado, que demorou um pouco a chegar.

– Oba, disse ele ao ver a tarefa que ia realizar, vamos ver o ouro do filho da dona Xandoca!

– Deixa de ser bobo, menino, tem ouro aqui não. Bota a mala em cima da cama.

Eram poucas as mudas de roupas e envolviam uma bela imagem de madeira pintada.

– Que santa é essa, meu filho? indagou Xandoca, de olhos arregalados, examinando a imagem, uma mulher jovem com um ramo de palma numa das mãos e uma espada na outra, apoiada numa torre que lhe chegava à cintura.

– Santa Bárbara, Xandoca, a padroeira dos mineiros.

– Bárbara…não é esse o nome da…

– Dela mesmo, Xandoca, da mulher da minha vida. E foi ela quem me deu a santa, para proteger o garimpo. Não é bonita?

Laerte olhava embevecido a imagem, mas via outra imagem de mulher.

– Vou levá-la pra Valetas. Eu tinha prometido à minha mãe que um dia ia levantar uma capelinha na nossa propriedade, bem perto da nossa casa, pra ela rezar. Ela reclamava todo dia que a capela de Santo Antônio ficava longe demais. Aí eu prometi isso a ela. A idéia não era botar essa santa no altar, preferia uma Nossa Senhora, mas já que ganhei, né? Vê só, bota a mão, é de madeira de lei maciça pintada, feita por santeiro da Bahia, não tem uma rachadura, nada. Bom, tem um machucado aqui, coisa à toa, um arranhão. E é muito bonita, né? Até se parece com ela.

Xandoca se persignou. Ele se derreteu num sorriso.

Laerte se lembrava bem do dia em que aparecera um homem a cavalo no garimpo, com um grande embrulho amarrado na garupa. Bárbara viera correndo, gritando:

– É meu, é meu! Ninguém mexe!

Laerte correu para ajudá-la. Depois que ela passara a morar no acampamento, sempre que podia ele deixava o garimpo e dava uma corrida até lá para vê-la e trocar carinhos.

– O que é isso? perguntou.

– Não era pra ocê estar aqui, ara, era uma surpresa, ela respondeu, coquete.

– Pra mim?

– E pra quem mais? Felipe, dá uma mãozinha aqui. Bota esse embrulho ali naquele toco e desembrulhe.

Da trouxa de papéis e jornais surgira a imagem da santa, para ele desconhecida. Tinha cerca de meio metro de altura e suas partes douradas refulgiam na clareira ensolarada. Ele olhava sem saber o que dizer. Bárbara passou-lhe o braço pelos ombros e levou-o para o canto sombreado.

– Por enquanto, ela fica aqui com a gente. Mais tarde, quando nós tiver juntado ouro suficiente pra voltar para sua terra, onde ocê vai construir a igreja que sua mãe tanto quer, vamos botar no altar a santa que nos protegeu. Aproximou a boca de seu ouvido e sussurrou: e ela tem um segredo, é do pau oco, mas ninguém, nem o negro Felipe, em quem eu confio, pode saber. Dentro da santa guardaremos nosso tesouro. Um tesouro santo.

Ele a olhou admirado, com os olhos rasos dágua. Não existia mulher igual aquela, ela pensara em tudo, até em agradar sua mãe e proteger o ouro.

– Jair, vai no quarto dos fundos e pega um outro criado mudo, limpa bem limpinho e traz pra cá, instruiu Xandoca. Depois pega um paninho de crochê na gaveta da cômoda. O mais bonito que tiver. A santa vai ficar aqui no quarto junto com seu protegido. Ocê tá pensando mesmo em ir pra Valetas, Laerte? Fazer o que lá?

– Assim que puder montar, Xandoca. A mãe deve de pensar que eu morri.

– É, pode ser, disse ela sem entusiasmo, mas quando ocê mandou o recado que tava bem, passei a notícia pra sua família. – Ela o olhou com um pouco de pena. – É um povo meio esquisito, esse seu. Uma gente fria, sem emoção, cruz credo. É de dar gastura na gente. De vez em quando, de ano a ano, ou mais, um dos seus irmãos, o Jofre, vem aqui pagar imposto e passa pela pensão pra saber notícias suas. E aí eu fico sabendo como vai indo o seu povo. Fala pouco, é preciso arrancar as coisas dele. Se soubesse onde era o garimpo mandava as notícias procê, como não sabia… Seu pai faleceu faz uns poucos anos, acho que uns dois ou três, estuporado de tanto labutar. Ocê ia no mesmo caminho, enterrado na lama do garimpo.

Ele abaixou a cabeça e por um instante reviu o rosto magro do pai, cavado por fundas rugas, que também parecia ter sido esculpido em madeira seca, retorcida. Xandoca aguardou um pouco.

– Valeu a pena se matar no trabalho? Pra que tanto ouro? A gente deve trabalhar pra viver e não viver pra trabalhar. Seu pai não levou nada pro outro mundo. Caixão não tem gaveta.

Ele sentia uma emoção crescente. Não que se sentisse triste ou magoado, ele e os irmãos foram criados para serem duros, homem não chora, homem trabalha pra sustentar a família até estuporar, como seu pai. A morte dele lhe causou mais preocupação. Como estaria vivendo sua família? Quem estaria tocando a lavoura de mandioca? Pela ordem natural das coisas, como filho mais velho, era agora o chefe da família.

– Voltei no tempo certo, não foi, Xandoca? Acho que valeu a pena sim, trabalhei pra burro, sofri como um condenado, mas trouxe um bocadinho de ouro, umas pepitas que vão ajudar. Depois que trocar por dinheiro, vai dar para melhorar a casa, que deve tá caindo aos pedaços, pois o pai não era de ligar para essas coisas, comprar um belo de um presente procê, levantar a capela e tocar uma lavourinha. E se der, ajudo os irmãos. Como estão eles?

Xandoca suspirou.

– Quantos eram mesmo? Acho que doze, né? Depois que ocê viajou sua mãe teve mais uma criança, uma menina. Pena que nasceu boba, anda agarrada na saia da mãe, dá um trabalho danado, segundo Jofre me contou. As duas irmãs moças foram trabalhar em casas de família na cidade depois da morte do pai, não tive mais notícia delas. A outra irmã, Lenilse, se casou, mora em Barcelos, o marido trabalha na usina, tem uma penca de filhos. Ouvi dizer que uma das outras duas também se casou e foi morar lá. Seu irmão parece ter medo de falar. Dos filhos homens, três morreram novinhos, acho que dessas mortes ocê já sabia. – Ele balançou a cabeça afirmativamente, morreram quando ainda morava com os pais. – Outro morreu de nó nas tripas e o resto tá lá, mourejando, quase tudo casado e com filho. Esse povo parece preá, é filho que não acaba mais. Ah, tem um, parece que o nome dele é Eraldo, que foi morar na cidade pra fazer não sei o quê. É o que sei. Jofre não gosta muito desse.

A emoção era uma vaga surda que crescia dentro de seu peito como uma onda na praia. Só que não estourava na areia, ficava ali a magoá-lo, como uma cólica, retorcendo seu bucho. Ficara muito tempo longe dos seus, quando vivia na pensão pouco se interessara pela sorte deles. Era muito novo, se justificava. Se esbarrasse neles na rua talvez nem os reconhecesse. Naquele tempo só pensava em construir meu futuro sem a ajuda de ninguém. Xandoca era muito boa, mas não podia fazer nada por mim. Nem ela nem ninguém, era o que eu achava. Tinha de abrir sozinho o meu caminho e desde cedo decidi que ia ganhar muito dinheiro no garimpo, me preparei pra isso.

Concentrara suas ações nesse sentido, se dedicara a realizar seu sonho, estava certo de que era preciso primeiro crescer para depois ajudar a família. Respirou fundo e buscou a luz que vinha da janela. Será por isso, pensou, por ter abandonado a família, que não conseguira ser feliz com a mulher a quem amara?  Castigo de Deus por sua ingratidão? Mas se não saísse de perto de sua família jamais melhoraria de vida, e nem encontraria Bárbara, flor do garimpo, mais valiosa que ouro, um amor fruto do seu trabalho duro e da sua solidão.

– Amanhã vou pra Valetas, decidiu.

– Vai não, respondeu Xandoca, convicta. Enquanto ocê não estiver bonzinho de tudo, daqui não sai, nem que eu tenha de amarrar ocê no pé da cama. Se engrace pra ver se não faço. Sei bem o que tá se passando nessa sua cabeça oca, tá cheio de culpa, eu sinto. Não deve se recriminar. Ocê seguiu o rumo que a vida traçou, só isso. Ficasse junto de sua família e ia ser mais um roceiro sem dinheiro, sem futuro, um capiau que nem seus irmãos, sem poder ajudar ninguém. Depois de muita luta e sofrimento ocê voltou com condições de ajudar seu povo. Isso é que é importante.

– Preciso ir lá, Xandoca, fiquei muito tempo fora.

– Ocê vai, homem, depois que ficar bom. Vai que dá outro ataque desse no caminho? Vou arrumar uma boa charrete, com gente da minha confiança, procê ir com todo o conforto. Eu soube que o povo daqui, mal ocê chegou, já tá falando num tal tesouro que ocê trouxe, e tenho receio que algum maluco pense que é verdade e vá querer lhe roubar no caminho.

– Que tesouro, meu Deus? As poucas pepitas que eu trouxe só vão dar para o que eu disse que ia fazer: ajeitar a casa, construir a capela, preparar uma lavourinha e ajudar os irmãos, se dinheiro sobrar. Ah, também quero comprar uma boa mula para andar por aí. E um presente bom procê.

– Larga dessa idéia de presente pra mim, homem, ocê voltar inteiro, mesmo doente, é o melhor presente que recebi da vida. Estou é com muito medo, sabe, meu filho. Esse povo do porto é safado, traiçoeiro, gosta de uma tramóia… e deve estar especulando que ocê trouxe ouro mesmo. Conheço bem esse povo. Nós temos é que espalhar por aí que ocê voltou porque o garimpo não deu certo e que o restinho de ouro que ocê trouxe foi roubado na viagem do vapor durante seu ataque de sezão.

– Mas como surgiu essa história de tesouro? Não falei com ninguém…só se na viagem, debaixo do febrão, delirei e falei bobagens. E por que então não me roubaram o ouro lá?

– Vai ver que ocê não contou onde estava, só falou que tinha trazido um tesouro.

– É, pode ser. Que doideira, meu Deus. E agora?

De noite, antes que o sereno caísse, Xandoca ajudou Laerte a chegar na janela para olhar a rua mal iluminada pelo lampião de óleo de baleia. Ventava, folhas secas nas ruas rolando. Poucas pessoas passavam apressadas em direção ao cais. Quem o olhou, talvez por estar branco como fantasma, se voltou para olhá-lo várias vezes. Mau sinal, achou Xandoca, pelo jeito a história do tesouro se espalhou depressa. Um cachorro sarnento atravessou a rua e seguiu colado à parede, rabo entre as pernas. Uma ratazana cruzou a esquina em direção aos fardos no cais.

– É tão bom tá na cidade, cercado de pessoas, suspirou Laerte, feliz. Lá no garimpo a gente passava semanas vendo as mesmas caras, falando sobre os mesmos assuntos, uma tristeza. Acho que é por isso que o povo de lá briga tanto.

– Tem muita briga por lá, é? indagou Jair, que se postara na outra janela. De soco ou de faca?

– Se tem! Cansei de ver gente sair no tapa e ser assassinada por uma briga à toa.

– Por que matam tanto, meu Deus? quis saber Xandoca.

– Bebida, mulher, jogo e furto de ouro ou pedras preciosas. O povo do garimpo bebe demais, pinga, licor, conhaque, o que aparecer para suportar a solidão, a saudade. Aí, qualquer motivo vira discussão, briga feia. Quando cheguei lá, era um boboca metido a sabido, mas não sabia de nada, nem como garimpar ouro. Nem ao menos como manejar a bateia, um pateta completo. O Augusto tinha adoecido e ficado numa vilazinha, onde acabou se estabelecendo. Já estava de olho na moça com quem veio a se casar. Juntei meus trecos e voltei sozinho pras trilhas do mato.

– Ai, meu pai do céu, murmurou Xandoca, sozinho. E ocê não tinha ataque da febre? Ainda bem que não soube disso, ia ficar desesperada.

– Ainda não, acho que porque até pra dormir eu usava paletó e botinas e mosquito não me picava. Depois, quando cheguei no garimpo é que os mosquitos quase me comeram vivo. Ô bichinho bandido! E se ficasse na vila, ia acabar que nem o Augusto, casado, cheio de filhos. Não voltava mais, como muitos que conheci por lá.

Laerte sentiu muito medo no período em que vagou sozinho em busca de um garimpo, onde pudesse trabalhar e aprender o ofício. À noite, mal dormia, assustado com qualquer barulhinho que viesse da floresta. Vivia sonado, com a mão gadunhada no facão, uma espingarda velha que adquirira de um peão, no arção da sela, ouvidos e olhos arregalados. Atento e tenso. Enquanto estivera na vila, acompanhando a doença de Augusto, ouvira muitas histórias de ataques terríveis de onças, jaguatiricas, cachorros e gatos do mato, de cobras, de jacarés e índios. E de assaltantes impiedosos tocaiados no meio dos galhos. Todo mundo já tinha visto corpos cortados a facão e largados no mato. Era só notar uma revoada de urubus pra saber que mais um tinha sido morto. Vira alguns.Era quem mais o aconselhava a não prosseguir. Mas não cavalgara todo aquele tempo, não enfrentara tantos obstáculos para desistir perto de seu objetivo.

– Não vou fracassar, decidiu.

E tinha a impressão que Macia concordava com ele, tal a disposição da mula. Trotava com vontade. Geralmente escolhia os pousos de tropeiro para dormir, mesmo que chegasse no início da tarde. Preferia deixar para caminhar no dia seguinte.Não conhecia os caminhos, não sabia com quem ou com que poderia topar mais adiante e ao escurecer seria mais difícil de enfrentar o que quer que fosse. Pelas sombras calculava a hora e parava quando estivesse próximo das duas da tarde. Apeava, ajeitava suas coisas, acendia o fogo, preparava o almoço, e deixava a mula pastando por perto, presa a uma árvore pela corda comprida, sob sua vigilância. Assim que ela demonstrava satisfação, amarrava a corda no mesmo lugar onde prendia a rede de dormir. Como se entendesse, depois que ele acendia a fogueira e se esticava na rede, ela vinha se encostar nele e assim ficava até o amanhecer. Ele fora alertado contra roubos e furtos de montarias, coisa de primeira necessidade naquelas paragens.

Numa dessas paradas encontrara um homem de grandes bigodes que ao vê-lo correra para perto de um jumento carregado de sacos e lhe apontara uma garrucha.

– Calma, gritou, sou de paz. Só quero um lugar para passar a noite.

E continuou com os braços levantados. O homem baixou a arma engatilhada. Laerte apeou da mula, amarrou-a num mourão e se aproximou com braços ainda para cima e as mãos abertas. Assim conheceu Abidel, um libanês que comerciava de tudo nas brenhas. Não era muito velho, e em função de seu trabalho conhecia tudo e todos na região. Foi quem o levou ao garimpo de Mané Forquilha, o maranhense que chefiava um grupo de onze homens que passavam o dia com água até às canelas nos aluviões em busca de ouro.

Forquilha era baixo, atarracado, vivia de cara fechada, pouco falava, a mão sempre pousada sobre a garrucha enfiada no cós da calça. Era duro com os homens de sua turma e desconfiado com estranhos, mas correto e justo nos pagamentos. E solidário quando um de seus homens adoecia. Laerte sofreu nas suas mãos para atender às suas exigências, e com o tempo percebeu que a cara fechada era uma atitude mantida para impor respeito, manter um clima de trabalho e paz num ambiente de homens brutos e gananciosos. No seu garimpo não tolerava discussões por bobagens, não entrava mulher da vida, nem se jogava cartas ou dados. Bebida só na vila, bem como mulher. Garimpo, ele dizia, era local de trabalho. Com ele, Laerte aprendeu tudo sobre a profissão que escolhera.

– E ocê não tinha medo de ser morto? perguntou Jair, os olhos parecendo duas bolas brancas com pontos negros no meio.

– Claro que tinha. Muito medo. Procurava não andar sozinho, pedia ao Forquilha para guardar meu ouro, me cuidava e nunca fui de beber, nem de jogar.  E das mulheres dos outros eu queria era distância.

Por isso não se sentira à vontade quando naquela tarde Bárbara se achegou a ele. Eram seis no acampamento, por que ela o escolhera? Mulheres e bebida significavam perigo, ele vira o Toinho, excelente camarada, trabalhador, brincalhão, ser morto a facadas por causa de uma vagabunda, por quem se enrabichara. Mulheres só nas casas de tolerância, onde eram de quem pagasse por sua companhia.

Bárbara era bonita demais e todos os que estavam no acampamento se assanharam. Cirlene se pendurara no pescoço de Cabelo, que logo a arrastou para o casebre. Os outros cercaram Bárbara, menos ele, que apesar de fascinado, preferiu continuar parado, braços cruzados, sorrindo feito um pateta. Mulher só no puteiro da vila, reino da cafetina Tetê Pisca-pisca. Bárbara, porém, não tirava os olhos dele.

– O bonitão aí não gosta de um chamego?

O português passara o braço em sua cintura, mas ela se desvencilhara e fora acariciar o braço de Laerte. Mais tarde ela lhe confessou que gostara dele desde que o vira, mas o que a fizera decidir-se a ficar com ele foi sua falta de ousadia. Estava tão acostumada a ser tratada sem respeito, como se fosse uma coisa, que a timidez dele calou fundo em seu peito.

– Essa sua estratégia de conquista é fatal, disse ela, piscando o olho. Ele sorriu.

No meio da selva, entre homens rudes e desaforados, nascera um terno romance que para Laerte era pra toda a vida. Garimpara uma jóia preciosa.

Ao longe um navio apitou, quebrando o silêncio da noite que chegava. O gato da casa se esgueirou entre as pernas de Xandoca em direção à rua.

– Esse aí vai para a patuscada noturna, disse ela, mas para nós está na hora de entrar, daqui a pouco o sereno começa a cair e ocê ainda não tá de todo sarado.

– Ah, Xandoca, ocê não sabe quantas vezes, ardendo em febre, batendo queixo, eu tinha de entrar na água para garimpar. O que é um sereninho desses?

– Não quero saber, era outro tempo, vamos entrar. Fecha as janelas, Jair. E a tal da sua mulher, perguntou com desprezo, não cuidava de ocê?

– Sim senhora, depois que nós passamos a viver juntos ela mal me via indisposto corria a preparar um remédio, um chá de ervas que não evitava, nem curava, mas diminuía a força da maleita. E o estranho é que Bárbara nunca pegou a doença, mesmo tendo passado tanto tempo no mato. Até parece que a mosquitada respeitava ela. Bárbara era uma pessoa muito boa, Xandoca, tenho certeza que ocê ia gostar dela.

– Pode ser, respondeu sem graça. E por que ocês não estão junto? O que aconteceu?

Ele principiou a caminhar, apoiando-se nos móveis. Xandoca abraçou-o.

– Um dia falo sobre isso, tô muito cansado. Parece mentira, mas essa caminhada até à janela me deixou sem pernas, Posso adiantar, Xandoca, que a culpa não foi dela. Só que eu não sabia e a vida se meteu no meio para nos separar.

O dia amanheceu com tempo ameno, o sol fraco a iluminar a cidade sem esquentá-la. Laerte sentia-se bem, esticou braços e pernas e encheu os pulmões de ar.

– Vou dar uma volta pelo cais, rever meu povo.

– Jair vai junto, decidiu Xandoca.

– Precisa não, tô bem. Além do mais vou aqui pertinho, não vou muito longe. Só quero matar as saudades dessa gente enfezada e do meu rio querido. Quando tava metido até à cintura nos igarapés, ficava imaginando quanto ouro deve ter no fundo do rio Paraíba. Pena que é tão fundo, não dá pra garimpar. Pode deixar, Xandoca, eu não demoro.

– Melhor ainda, assim o Jair pode voltar logo pra me ajudar na cozinha. Vai lá, moleque, pega o chapéu de Laerte e vai dar uma volta no cais com ele.

A claridade intensa da manhã o ofuscou. Laerte seguiu pela sombra do beiral da pensão, até os olhos se acostumarem. Jair andava batendo os tamancos na calçada.

– Que manhã bonita! Muitas das vezes, no garimpo, a gente mal sabia se era noite ou dia no meio do mato bravo. Os galhos das árvores altas se cruzavam acima de nossas cabeças, não deixavam a luz passar, só víamos nossa cara refletida na água que ajuntava na peneira. Do céu a gente só via os reflexos na nas poças dágua no meio dos ramos.

Devagar, respirando fundo, com prazer, Laerte caminhou pelo cais, cumprimentando os conhecidos que o encarava com curiosidade. Terêncio, que trabalhava como estivador, se aproximou:

– E então, Laerte, tá melhor? Tá, né mesmo? Tô vendo. Ainda bem que melhorou. Soube que trouxe um bocado de ouro lá das brenhas, né? Seria uma pena morrer sem usufruir desse dinheiro, né?

– Que ouro, que nada, Terêncio, trouxe foi essa maldita sezão. Não fosse isso e tinha ficado por lá tentando encontrar um pouco mais de ouro.

Um outro homem, que Laerte não conhecia, se aproximou curioso e perguntou:

– Conversa fiada… Vai dizer que não achou nada? Quanto tempo ficou por lá? Tem gente que fica um ano e volta cheia de dinheiro.

– Fiquei lá muito tempo, respondeu, mais do que eu queria, fazendo cara de coitado. E não vou mentir dizendo que nada achei, mesmo porque ninguém ia acreditar. Mas a doença não avisa a hora que vai atacar e lá no vapor, quando me espantei afundei nessa febre, e quando ela me deu uma folga, descobri que tinha sido furtado. Me levaram quase tudo, os bandidos.

O homem o olhava, num misto de pena e descrença. Outros homens haviam se juntado a eles e ouviam atentamente. Poucos acreditavam no que ouviam.

– Mas o que sobrou, comentou Terêncio, vai dar procê levar uma vida de rei. Ouro vale muito. E aquela mala pesada…

– É o que se comenta no cais, disse outro. Viram ocê trazer uma mala tão cheia de ouro que mal dava para carregar.

Laerte sorriu, contrafeito.

– Que ouro, que nada. Podem ir lá conferir, a mala tá na pensão. O que eu trouxe foi a imagem de uma santa pra capela que vou mandar construir lá em Valetas, onde minha mãe mora, e que eu tinha prometido a ela.

– Aqui que eu acredito, disse outro. Capela, sei… Uma imagem não pesa tanto… Ocê quase não podia arrastar a mala. Só se era uma imagem toda de ouro.

– É que eu tava doente, observou Laerte. Qualquer coisa, até um lenço, me fazia mal. Tava ardendo em febre, não tava aguentando nem comigo mesmo.

Jair ficou preocupado com o aumento de curiosos e com o rumo da conversa.

– Seu Laerte, dona Xandoca tá esperando nós. Vambora?

– Sai fora, moleque, deixa ele conversar com a gente.

Os homens se aproximaram mais. Laerte franziu o cenho, também preocupado.

– Diga aí, moço, fale a verdade, ninguém vai lhe roubar não, trouxe mesmo muito ouro?

Mais uma vez, como um anjo salvador, Xandoca surgiu do nada e se pôs na frente dele. Ela ficara preocupada com a demora e viera ver o que estava acontecendo. Encarou os homens que rodeavam Laerte.

– Não ouviram o que ele disse? Eu confirmo, na mala só vieram umas mudas de roupa e a santa. Quem vai duvidar de minha palavra?

Os rumores, no entanto, continuaram. Como diz o velho ditado, quem conta um conto acrescenta um ponto, e o tesouro de Laerte foi tomando grandes proporções. Falava-se que ele trouxera uma mala cheia de pedras preciosas e a imagem de uma santa esculpida em ouro puro, com um resplendor de prata ornado de centenas de brilhantes e com um diamante no centro. Xandoca não deixou que Laerte voltasse à rua.

– Até que ocê esteja em condições de enfrentar essa corja.

Quando saía, Jair era assediado por todo tipo de gente, até por mulheres e crianças, de maneira educada ou grosseira, de brincadeira ou a sério, que queriam, exigiam notícias do tesouro. Queriam saber o tamanho da santa, se era mesmo de ouro maciço, qual a quantidade e tipo de pedras preciosas que enfeitavam o resplendor, e se era verdade que ele voltara fugindo de cruéis assassinos contratados por um bandido que estava de olho no tesouro.

– E ele vai levar esse ouro todo pra onde? indagou alguém. Esse mundo tá cheio de ladrão. Se eu fosse ele…

– É muita coragem dele sair por essas estradas carregando essa fortuna. Na certa vai mandar prum banco no Rio guardar. Era o que eu faria, comentou um marujo. Mandava pelo navio, que é mais seguro.

– Seguro coisa nenhuma, rebateu um velho. Ocê não ouviu o empregado da pensão contar que roubaram ele no vapor? E se roubarem de novo?

– Lorota desse moleque. Um conhecido meu que veio no vapor disse que não soube de roubo nenhum no navio. O ouro tá na pensão.

– Eu soube que tem um cabra armado dentro do quarto do sujeito, para que ninguém roube a santa. Já imaginou aquele ouro todo derretido? Deve valer milhões! Quanto se paga pela grama do ouro?

– O grama vale uma grana, gracejou outro.

– É por isso, disse o marujo, que a mala tava pesada. Diz quem viu que ele arrastou a mala até à pensão, de tão pesada. Ah, se eu pego uma fortuna dessa! Ia me amigar com dez mulheres!

Os circunstantes caíram na gargalhada. Na pensão a preocupação aumentava.

Para tentar diminuir a força da fantasia do povo, que crescia e se tornava cada dia mais perigosa, Xandoca resolveu expor a imagem da santa na janela da pensão que dava para a rua, na tarde do domingo, pro povo ver. Pediu a ajuda do padre, que durante o sermão convidou todo mundo a rezar diante da imagem, que era milagrosa e não de ouro, pois salvara Laerte de ser atingido por um raio, história que a velha Xandoca havia contado como real.

– Os demais companheiros dele morreram, afirmou ela, e só por milagre ele sobreviveu.

Muita gente se amontoou diante da janela onde a santa Bárbara foi exposta, abraçada pela base por Xandoca:

– Como ele tinha impedido a imagem de ser engolida pela lama, contou Xandoca com desfaçatez a quem perguntava por que só ele escapara dos raios, agradecida, a santa fez cair uma árvore em cima dele, mas sem pegar nele, só a parte de cima, folhosa, sabe como? que nem o arranhou e que o protegeu com sua copa, quando os raios caíram. Os outros, os incréus, que tinham ficado dentro do riacho de olho grande no ouro, rindo da crença de Laerte, que preferiu pegar a santa, foram atingidos por uma série de raios e torrados que nem torresmo.

– Por que os outros riram dele? perguntou uma mulher.

– Foi antes do raio cair, contou Xandoca, emocionada com sua própria invenção. Apesar do temporal que desabara de repente, eles estavam no riacho garimpando e viram, caída no barranco, uma imagem toda coberta de lama, ao lado de um diamante que cintilava como um sol cada vez que um relâmpago iluminava o céu. Tentação do demo.

O velho padre, contrito, a seu lado, dava credibilidade ao relato. Conhecia Xandoca de longos anos, não tinha porque duvidar do que ela contava. Ouvia a história de mãos postas.

– Era diamante ou ouro? perguntou um ouvinte intrigado.

– Eles garimpavam ouro, mas viram um diamante enorme brilhando na lama, perto da santa, e avançaram para pegar ele. Tanto o diamante como a imagem tavam na beira de uma correnteza forte, continuou ela, junto dum rodamoinho que a qualquer momento poderia arrastar todos eles para o lamaçal, onde iam morrer afogados. Aquilo ali é um sorvedouro e eles tomavam muito cuidado quando trabalhavam naquele trecho. Laerte e um dos garimpeiros, que depois veio a ser atingido pelos raios, viram a imagem e a pedra ao mesmo tempo. Um deles, ganancioso, deu um grito de alegria e pulou para agarrar o diamante, enquanto Laerte pegou a imagem e com ela apertada contra o peito voltou para a margem para secá-la. Logo em seguida um relâmpago mais forte iluminou tudo como se fosse dia e uma porção de raios caiu onde eles estavam. Com Laerte, protegido pela árvore que a santa fez cair sobre ele, nada aconteceu. Já os outros… Então ele prometeu erguer uma capelinha para a santa em Valetas, onde nasceu, em agradecimento por ter escapado da chuva de raios. Por isso trouxe a imagem, essa aqui, olhem bem, que não é nada de ouro, é de madeira mesmo. – Bateu na imagem com os nós dos dedos – Podem botar a mão, se estiver limpa. Respeitem a santa.

O padre aproveitou para benzer a imagem. Assim ninguém ousaria apanhá-la.

– E o diamante? perguntou alguém, enquanto alguns passavam os dedos de leve pelos pés da imagem depois de beijá-los.

– Foi torrado junto com o garimpeiro, eu acho. Sumiu.

Um arrepio de medo percorreu a platéia silenciosa. Laerte ouvia o fantástico relato, abismado com a coragem da velha amiga, que mentia sem gaguejar, enquanto segurava a imagem. Só pra me proteger, pensou, emocionado.

– Que santa milagrosa, gritou Jair bem alto, seguindo instruções prévias de sua patroa. Viva santa Bárbara! E ergueu os braços para o alto.

A presença do padre fora essencial para o povo acreditar no milagre. Bem mais tarde, sentados na cozinha, Laerte perguntara a Xandoca como ela inventara aquela história toda, sem piscar nem tremer a voz.

– Sei lá, disse ela, inspiração divina. Amor de mãe.

Laerte levantou-se, respirou fundo, abraçou-a com carinho, beijou-lhe a testa e comentou que estava na hora de ir para Valetas, antes que novos boatos tornassem a insuflar o crédulo povo. Xandoca concordou.

– Amanhã vou providenciar uma carroça e botar uns dois homens da minha confiança para acompanhar ocê até sua casa.

– Melhor não, disse Laerte, senão o povo vai pensar que a imagem é valiosa mesmo e que nós não confiamos na proteção da santa.

– Tá certo, mas pelo menos Jair vai junto e volta com o carroceiro.

– Não precisa, Xandoca.

– Ah, Laerte, deixa eu ir. Gosto muito de viajar de carroça.

Ao alvorecer da terça-feira, céu ainda escuro, a carroça de Militão, velho conhecido de Xandoca, a quem devia muitos favores, parou em frente ao portão da pensão. Rápido, Jair subiu e jogou uma esteira grossa que forrou o fundo da carroça, cobrindo-a com uma colcha de chita onde espalhou almofadas.

– Arre, Xandoca, vou parecer um sultão! Ainda bem que tamos saindo tão cedo, senão o povo ia me gozar.

– Deixe de ser bobo. Daqui até Valetas é um estirão, com estradas esburacadas pelas chuvas. Militão vai bem devagar, ocê está convalescendo e pode ter outro ataque. Não tem um remédio para prevenir esses ataques?

– Tem não. Bárbara fazia uma garrafada com ervas e cipós, e fiquei muito tempo sem sentir nada. Só que acabou e como não sei quais eram as ervas… acabou um pouco antes de sair do Rio, por isso, acho eu, tive o ataque no vapor.

– Bom, vou ver por aqui se alguém conhece algum remédio e caso positivo mando entregar em sua casa. Ah, já sei que vão sentir fome no caminho, por isso preparei umas coisinhas procês comerem. Como sua mãe nem adivinha que ocê vai, não deve ter almoço pronto e por isso assei um peso de carne, cozinhei umas batatas e arroz procês almoçarem.

– Ai, Xandoca, se eu soubesse que ia lhe dar tanto trabalho…

– Não é trabalho, é prazer. Quero ver ocê forte como antes de ir presse maldito garimpo. Agora vão, senão só chegam lá de noite. Ah, e não se esqueça de assim que puder vir me visitar, vou morrer de saudade.

O sol raiava bem devagar. Laerte tornou a beijá-la na testa, estirou-se na esteira de taboa, ajeitou-se sorrindo entre as almofadas e puxou o chapéu sobre os olhos. Um bom cheiro de mato molhado de orvalho invadiu-lhe as narinas quando a carroça pegou a estreita estrada, entre cercas vivas. Ao longe um boi mugiu. Pássaros cortavam o céu. Que paz, murmurou, sorrindo.

Não sei ficar parada, reclamou Cirlene, odeio essa pasmaceira daqui, esse garimpo já deu o que tinha de dar, e já que ocê não quer sair, vou arrumar dinheiro em outro canto. Pra casa de Tetê Pisca-pisca não vou nem sonhando, aquela mulher é uma unha de fome, só sabe explorar as outras mulheres. Vou é bater pernas por esses matos sem fim. Só quero que deixe Felipe me acompanhar até o vilarejo, aquilo nem merece o nome de vila. Lá eu dou um jeito de seguir pra outro lugar.

Como Bárbara havia decidido parar de se prostituir para viver com Laerte, Cirlene perdera sua companheira de andanças. Ele lembrava-se bem da cara de desagrado que Cirlene fizera quando Bárbara lhe comunicara a decisão. Os companheiros de acampamento não pareceram satisfeitos. Laerte tinha certeza que esperavam que Bárbara qualquer dia se cansasse dele e fosse para cama com eles. Era a desejada do garimpo. Até de garimpos próximos apareceu gente para conhecê-la. Cirlene era bonita, carinhosa, mas não havia como comparar as duas mulheres, Bárbara era infinitamente superior, o tipo de mulher raramente vista naquelas paragens.

– Pode levar o Felipe, mas só até a vila, assentiu. Eu fico aqui até quando Laerte me quiser. Não é que esteja cansada da vida andarilha, ela tem seus encantos, mas encontrei o homem da minha vida. Vai, Felipe, acompanha essa maluca. E não demore, hein? Ah, deixe o pangaré com ela.

Felipe vivia como escravo numa fazenda de gado nos grotões. Num fim de mundo. Ninguém sabia por lá que a escravidão havia sido abolida há alguns anos e não acreditaram quando ela contou. O fazendeiro, com quem tinha passado noites fogosas na cama, disse que ela estava inventando, e que para ele não interessava que esse tipo de boatos se espalhasse. Ela passou alguns dias na propriedade e observou que um negro alto, forte, com o corpo marcado por cicatrizes, provavelmente de chicotadas, a olhava não com lascívia, mas como se estivesse pedindo ajuda, como um cão sem dono. Desde que falara da abolição, ele fazia o possível para ficar a seu lado, lhe oferecia frutas, fazia pequenas gentilezas que a sensibilizaram. Quando decidiu que era hora de partir, com o fazendeiro ainda cheio de desejos, ela perguntou ao negro se gostaria de acompanhá-las.

– Pra tomar conta de nós, entende? Andamos por lugares perigosos, enfrentamos uns sujeitos brutos, abusados, e precisamos de quem nos proteja. Quer ir conosco? Vou falar com o coronel, quem sabe ele deixa ocê ir? Mas é só pra acompanhar e proteger a gente, pra mais nada, entendeu?

Ele concordou, um sorriso abriu seus lábios grossos, mostrando uma fieira de dentes branquíssimos. Disse apenas – sim, senhora.

Não foi fácil convencer o fazendeiro. Embora reclamasse que Felipe era rebelde, não gostava de obedecer, sempre criando problemas com os outros empregados, que ele ainda chamava de escravos, não queria dispensá-lo. Uma fazenda precisa de braços.

– Coronel, argumentou Bárbara, enquanto lhe acariciava o amplo peito cabeludo, vou embora amanhã cedinho, e o senhor sabe que não costumo trabalhar de graça. Quero receber pelo meu trabalho aqui. Se eu fizer direitinho as contas dos dias que fiquei só lhe dando prazer, deixando de ganhar a vida, a conta vai ser alta.

Ele deu uma baforada no charuto, olhando-a atravessado.

– Por que então não barganhamos, fico mais uns dias e o senhor me dá o negro como pagamento? Se ficar aqui vai continuar a lhe dar trabalho, a criar problemas, a incitar os outros empregados. Ninguém melhor que o senhor sabe disso. Deixando ele ir comigo, vai me deixar muito agradecida, com vontade de voltar sempre, pois bom de cama ocê é, me deu muito prazer. Preciso do Felipe para me proteger. Me faça esse agrado, coronel, dê o Felipe pra mim.

Saíram com o negro. Tinham apenas um cavalo onde as duas viajavam. Ele seguia ao lado, a pé, sem reclamar. Cirlene se preocupara, temia que Felipe se rebelasse e fugisse para o mato na primeira oportunidade.

– Se ele fizer isso, observou Bárbara, não vou ficar nem um pouquinho chateada. Era o que eu faria no lugar dele. Quer coisa pior do que ser escravo, obedecer sempre, sem discutir? E ainda apanhar? Cruzes, eu já teria feito uma besteira. Mas ele não vai fazer isso não, eu conheço as pessoas.

Felipe nunca manifestara desejo de fugir e nunca criara qualquer caso, era como um carneiro nas mãos de Bárbara. E também nunca se engraçara sexualmente com elas, outro temor de Cirlene. Mais tarde ele se afeiçoara a uma puta da casa de Tetê Pisca-pisca.

– Se a gente der pra ele, alertava Cirlene, vai se apaixonar, vai ficar com ciúme e estragar tudo. Homem é bicho possessivo.

– Menina, não misturo prazer com trabalho. Ele vai ser nosso auxiliar, nosso protetor. Vai proteger nós, já disse. Só isso.

– Espero que ele concorde com isso, suspirou a outra, ainda receosa.

Chegaram às proximidades da fazenda Degredo com o sol alto, a carroça se deslocava com dificuldade pela estrada esburacada. Seguindo orientação de Xandoca, sentindo que a inclemência do sol ia aumentar, ajudado por Jair que saltitava, feliz com o passeio, Militão parou a carroça e cobriu os fueiros com a lona, uma cobertura para proteger Laerte da solina. Jair parecia um cachorrinho novo, correndo, pulando, latindo, se metendo entre as pernas dos outros. Ajudava e atrapalhava.

Nas margens encharcadas da estrada, piaçocas, quero-queros, frangos dágua e marrecas se alimentavam. Gaviões voavam alto. Adiante, casais de carão bicavam insetos no capim alagado. Garças solitárias, na beira dos banhados, esperavam pacientes a passagem dos peixes.

– Tá na hora da gente comer um pouquinho, né? perguntou Jair. Dona Xandoca preparou um farnel da pontinha da orelha. Tô com a boca cheia dágua.

Desembrulhou um prato com empadas e pedaços de bolo de fubá e serviu a Laerte.

– Primeiro, o filho da patroa, disse com voz lambida. – Em seguida tirou do cesto uma garrafa e sacudiu-a. – Cajuada, anunciou, fresquinha, docinha, sem cica.

Encheu um copo de alumínio e entregou-o a Laerte. Observou-o tomar o primeiro gole e aprovar com um estalido dos lábios. Depois serviu o carroceiro.

– Fui eu que fiz, anunciou, serelepe.

Novamente recostado nas almofadas, chapéu sobre os olhos, Laerte foi devolvido à labuta do garimpo pelos latidos de Pintado, o cachorro de Militão, que seguia a carroça, balançando o rabinho inquieto. No garimpo sempre tiveram cachorros, alguns que apareciam, ficavam alguns dias e depois voltavam pro mato ou pra de onde tinham vindo e outros, como Parente, um filhote de vira-lata que Genésio achara vagando na vila. Esse ficara anos com eles, até que adoeceu e morreu.

Bárbara também tivera um cãozinho, peludinho e nervoso, cor de cenoura murcha, o Pimpão, que não largava um minuto do pé dela. Fora um presente de Cabelo Bom e antes de aceitar ela consultou Laerte.

– Ocê gostou? quis ele saber.

– Parece uma bola de lã, disse ela, com o bichinho no colo, tão mimosinho.

– Então fica com ele.

Ela deu pulos de alegria, correu e beijou Cabelo na testa. Pimpão tinha ficado sozinho no garimpo quando ela partiu com Felipe e Laerte tinha achado que era mais uma prova da ingratidão dela. Só levara o Felipe, a ingrata, pensou então. Depois que soube do que realmente acontecera e decidiu procurá-la, chegou a pensar em levar junto o bichinho, mas teria de voltar ao acampamento, o que envolvia riscos. O coitado deve ter vagado pelo mato até encontrar um lugar para viver.Laerte sentiu a onda de nostalgia invadi-lo. Bárbara, meu amor, como a julguei mal.

– Eu devia saber que ela não me largaria por gosto.

Quando Bárbara chegara no acampamento, estavam há mais de dois anos no mesmo ponto do rio, arrancando com esforço poucas pepitas do cascalho. Na maior parte das vezes só restava uma poeira amarelada no fundo da bateia. Dava para viver. Josué, outro garimpeiro que no início fazia parte do grupo, insatisfeito, resolvera procurar outro garimpo para trabalhar. Os demais se acomodaram. Se a cada dia tiravam pequena mas constante quantidade de pepitas e estavam não muito longe da vila, onde podiam achar mulher, bebida e jogo, por que penetrar mais na densa floresta, onde podiam nada achar e ainda correr o risco de esbarrar numa onça faminta? Ou numa tribo desconhecida de índios? Ou ser envolvido pela dolorosa nuvem de maruís? Ou ainda morrer esmagado por uma sucuriju? Viver no mato cerrado significava ficar dias e dias sem qualquer forma de divertimento. Como viver sem mulher, sem uma pinga, sem um joguinho? Esses argumentos sempre surgiam quando pensavam em deixar o riacho. Estava dando para viver com conforto e isso os tornara frouxos e preguiçosos.

A chegada de Bárbara pusera um pouco de ordem no acampamento, incrível como em pouco tempo transformara a bagunça numa residência coletiva, sempre limpa, fazendo que erguessem uma choça com paredes de barro socado, separada, para eles e um abrigo maior para si e Laerte, com a ajuda dos todos, e ainda outro casebre para o Felipe ao lado do seu.

– Se é pra ficar aqui, disse ela, quero um mínimo de conforto. Vamos, gente, vamos cortar uns galhos de árvore, umas folhas de palmeira, que não quero dormir no sereno, nem que um macaco pule em cima de mim!

– Pior que macaco, brincou Genésio, é passarinho cagando na gente.

Riam e como que participando da alegria coletiva, do meio do mato veio o casquinhar de um pássaro.

– Bons tempos, lembrou Laerte, a gente ainda acreditava que todos eram amigos.

Cada qual tinha um esconderijo onde guardava suas pedrinhas, esperando chegar o dia em que enjoassem de mergulhar pernas e braços no igarapé para procurá-las. Além de garimpar não tinham muito a fazer. Bocejavam de tédio. Havia o acordo tácito de não mexer no que era dos demais, nem mesmo por curiosidade e isso lhes dava segurança. Roubo em garimpo sempre terminava em morte, mesmo que o ladrão se arriscasse a fugir pelas brenhas.

Cada um separava um pouco do seu ouro para comprar comida e para os divertimentos na vila. Como no garimpo de Forquilha, não se bebia nem jogava no acampamento. Só Genésio, o cearense arretado, de vez em quando reclamava da pasmaceira e ameaçava ir sozinho procurar um ponto melhor para trabalhar. Já Amaro se curava da saudade enchendo a cara nas vendas e dormindo com as vadias. Todo sábado estava na casa de mulheres da Tetê.

– Isso aqui é uma pasmaceira só, que nem lá no sertão de donde eu vim, chiava Genésio. Isso é vida?

Bárbara nada dizia. Quando o clima ficava depressivo, se pendurava no braço de Laerte e cantava. Cabelo tocava viola e todos se esparramavam em volta para se distrair.

Numa noite de sábado, quando os homens tinham ido se divertir um pouco na casa de Tetê, que ficava um pouco afastada das principais casas do vilarejo, enquanto avivava o fogo sob a trempe onde cozinhava feijão Bárbara perguntou a Laerte se estava satisfeito, se era aquilo que ele queria.

– Bom, ele disse, saí do garimpo do Forquilha, porque tava rendendo muito pouco e ele ainda ficava com a diária do nosso trabalho. Me juntei ao Genésio, que nunca tá satisfeito, e procuramos um riacho melhor. Custamos a achar, tem uns igarapés por aí que nem pedra tem, que dirá ouro. Aqui, pelo menos, ninguém paga diária, o que um consegue pegar é seu. E somos todos unidos. Rende pouco, eu sei, mas dá pra viver e juntar uma coisinha.

– E Forquilha deixou ocês sair assim fácil?

– Foi o seguinte: tinha lá no garimpo um moço amarelo, que todo mundo sabia que tava fraco dos pulmões, por isso ninguém ficava muito perto dele, com medo de pegar a maldita. E ele dizia mesmo: vim pra morrer aqui, tava cansado de tomar remédio, essa doença não tem mesmo cura. Aqui morro longe, ninguém da minha família vai pegar a doença nem ver eu me acabando até bater as botas. Ocês vão ver, um dia essas águas vão ficar vermelhas de sangue. É assim que o fraco do pulmão morre, vomitando sangue.

– Como é que Forquilha deixava um homem desses ficar lá, passando doença pros outros?

– Um mistério. O lamparão do Forquilha, que era tão rigoroso com tudo o mais, fazer isso. Todo mundo estranhava, mas ninguém tinha peito para reclamar.Uns diziam que o moço era parente dele, irmão, afilhado ou filho, qualquer coisa assim. Nunca ninguém soube ao certo. Quando o coitado faleceu, tingindo o riacho de sangue, conforme havia prometido, os homens, que já vinham com vontade de largar o garimpo, que tava rendendo bem pouco, aproveitaram para ir embora e Forquilha não teve como evitar a saída. Alegaram que a água tava contaminada e não queriam ficar doentes por ouro nenhum do mundo. Eu mais Genésio também saímos, mas ainda ficou gente com ele. Tinha homem demais garimpando ali. Muito homem pra pouco ouro. Depois de um certo tempo, esbarramos em Cabelo Bom, que tinha ficado mais um tempo com Forquilha, por fim desistiu e estava procurando outro lugar para garimpar. O cearense arretado conhecia ele de outros lugares e Cabelo nos contou que ouvira falar desse riacho aqui e que tava disposto a ver no que dava. Fiquei meio preocupado, pois ouvira umas histórias de violência do Cabelo. Mas não parecia ter mau gênio.Sempre me tratou bem. Os outros dois, Amaro Neto e o Funchal também tavam procurando um lugar, mas preferiam o garimpo de escavação. Disseram que iam ficar só por uns tempos e foram ficando, ficando, nunca mais falaram em partir. Só o Pernilongo é que chegou quando a gente já estava trabalhando e como tinha sido companheiro de Cabelo numas jornadas meio esquisitas, se agregou a nós. São homens perigosos, Cabelo e Pernilongo, mas aqui sempre procederam com decência. Cabelo, por trás da cara bonita e do sorriso fácil, dizem que é um matador sem piedade. Pernilongo também, e que viviam da pistolagem antes de fugirem para cá. A polícia anda no rastro dos dois. Há pouco dias, diante do boato de que alguém viu polícia fuçando no mato, se apavoraram e sumiram por uns tempos.

– Estive pensando, disse ela, que aqui tá rendendo pouco pra cada um, ninguém parece satisfeito, só conformado. E se a gente arrumasse um desses homens que estivesse disposto a nos acompanhar, não esses bandidos, talvez o português ou Amaro, o cearense ou outro que aparecesse, podíamos tentar garimpar em outro lugar.

– Onde? perguntou desanimado. Os riachos bons de garimpo já estão ocupados. E olhe, os que a gente vê por aí não são tão melhores que os outros não.Tempos atrás o cearense disse que achara uma mina, fomos lá e era pior que aqui.

Ela se animou:

– Nem todos os riachos daqui são ruins. Eu sinto.

Dias depois, enquanto se recuperavam de horas de amor na rede, ela falou:

– Lembra do que eu disse da gente arrumar um outro lugar pra garimpar? Pois, olhe, na noite passada tive um sonho lindo lindo com a nossa santa. Ela desceu de umas nuvens cor de rosa, uma beleza, e me mostrou um igarapé, um tantinho longe daqui, num lugar muito bonito, cheio de árvores em volta dele, com passarinhos cantando, águas claras, onde as pepitas pulavam pras mãos da gente. Disse ela que ali era uma das casas da mãe do ouro.

Laerte sorriu com a lembrança, Bárbara se entusiasmara com seu sonho. Ele nem tanto, já escutara lorotas demais envolvendo a mãe do ouro que, se existia, ninguém nunca tinha visto. Pura visagem. Sonhar não quer dizer nada, ele mesmo já sonhara com tanta coisa boa e ruim que não acontecera. Depois achava que nem sempre a abundância traz felicidade. Sorriu revendo o lindo rostinho da Bárbara, enquanto seu corpo dolorido era sacudido pelos balanços. A estrada era tortuosa e esburacada e os calhaus a faziam balançar como navio na tormenta. Felicidade era Bárbara o acolher em seus braços, queria era ficar com ela, agarradinho.

No garimpo de pouca extração de ouro fomos felizes, ela mais eu, lembrava ele. Eu garimpava um pouco e passava horas deitado com ela na esteira do abrigo, admirando sua formosura, enquanto os outros trabalhavam sem parar e sem conseguir muita coisa. Nossos corpos viviam molhados do suor do amor, os dos outros da água da ganância. Me sentia pleno, satisfeito, saciado, mas Bárbara queria mais.

– Não vamos ficar enterrados aqui a vida toda, não é? Quero poder, disse ela, no dia que sair daqui, comprar uma propriedade não muito grande mas com uma boa casa, lá na sua terra, onde ninguém me conhece, criar galinhas, perus e uns porquinhos, plantar uns pés de mandioca, de feijão e de milho, umas bananeiras. Depois levantar a capelinha para nossa santa, casar e ter muitos filhos. Mas para isso precisamos de dinheiro, meu filho, muito dinheiro, quanto mais melhor. Não quero criar meus filhos na miséria que fui criada, no meio do mato.

– E ocê acredita em sonhos?

– Muita coisa. Tem gente que sonha bobagens, mas tudo o que eu sonho é sério.

– Bom, mas o sonho é seu, não é meu.

– Aí é que ocê tá redondamente enganado. No sonho a santa casou a gente. E disse que só juntos a gente vai conseguir encontrar muito ouro.

– E nossos companheiros?

– A santa não tocou no nome deles e pra ser sincera também não perguntei, retrucou com indiferença. Cada um deve cuidar do que é seu.

– Não sei, fico pensando, são nossos amigos…

– Se a santinha quisesse que eles participassem teria me falado. Esquece isso. A decisão foi da santa.

Eles não sabiam, mas o cearense arretado tinha voltado para pegar alguma coisa que esquecera no acampamento e ao escutar as vozes deles não resistira e apurara o ouvido. Genésio era um simplório, acreditava piamente em sonhos. Ficou nervoso. Viu que o negro Felipe dormia a sono solto no lado oposto ao abrigo e continuou escutando. Aqui tem coisa, pensou. O coração me diz que esse sonho tem fundamento. Santa não mente e se deu o trabalho de vir falar com ela em sonho é porque é coisa séria. Santo não brinca. Mas teve pouco mais para ouvir. Laerte bocejou, desinteressado.

– Tá bom, murmurou ele entre bocejos, agora vamos dormir que tô muito cansado.

– Ocê num tá acreditando no sonho, né?

– Tô sim,criatura, só que a essa hora…

– Então me promete uma coisa: amanhã vamos passear por ai, quem sabe não encontro o lugar que vi no sonho?

– Vamos sim, concordou ele mecanicamente, quase adormecido.

Genésio recuou para a trilha, com medo de ter sido visto e deu um pouco de tempo para ver se a conversa do casal tinha seguimento. É, não foi por minha causa que pararam de conversar, não me viram, concluiu, e se arrastou até um ponto distante da trilha, em silêncio, e depois voltou fazendo barulho para ser ouvido. No seu íntimo firmara uma convicção: amanhã vou atrás dos dois vigiar esse passeio, mulher tem sexto sentido, já dizia minha avó Drusa, e quando elas falam essas coisas pra alguém é porque têm fé no que dizem, não vão querer passar vergonha. E santa não entra nos sonhos dos outros de brincadeira. E também quero o ouro do sonho, ora bolas. Se tô com Laerte desde muito tempo, por que agora, na hora do bem bom, vou ficar de fora? Aqui, ó. Também sou filho de Deus. Por que só os dois vão se refestelar na ourama? Sou fiel da santa, oxente. Vai ver ela falou sim, em nós, mas a Bárbara não quer nos chamar. Egoísta, que tudo só pra si. Mas comigo não, vioão, quero o que é meu de direito. E se persignou.

A carroça deu uma sacudida forte e tirou Laerte dos devaneios. Jair falava sem parar.

– Quase emborcamos, gritou, virando-se para trás. Faltou pouco. Eta estradinha ruim, sô! Nesse lugar o povo não mora, se esconde.

Entravam na área dos canaviais e de um lado e de outro as lavouras de folhas verdes e pontiagudas se sucediam. Laerte voltou a sentir o gosto das canas que chupava quando criança batendo com elas nos mourões até amassar bem, depois torcendo e aparando o caldo com a boca. Ouvia com ouvidos antigos as preás correndo nos aceiros entre as plantas e as galinholas procurando no meio do canavial um lugar escondido para por seus ovos. Sorriu, deliciado.

Tantas vezes sentiu falta de tudo isso no garimpo, até do gosto acidulado do genipapo maduro. Era difícil encontrar por lá as frutas daqui, a pitanga, o cajá, o caju, o ingá, o cambuí, a piabanha. Tinha outras, muito boas, mas as daqui não tinham igual. Laerte tinha a boca cheia dágua. Um cavaleiro passou e os saudou, depois foi andando olhando para trás, por muito tempo. Será que me reconheceu? se perguntou Laerte.

Mesmo sob o toldo de lona improvisado o calor era forte. Ele sentou-se. Suava muito. A camisa se lhe colava às costas, de tanto suor. No garimpo também era assim, sempre fora calorento, suava pra cachorro, como dizia o Pernilongo.

Pernilongo, cujo nome era Manoel, conhecera Cabelo em um garimpo no Amazonas. Longe pra burro, informava, lá onde o Judas perdeu as botas. Era um homem de cara marcada por cicatrizes, poucas palavras e nenhum sorriso. Ou melhor, só ria quando alguém levava um tombo, tomava um susto, um coice de cavalo, caía no meio de urtigas, escorregava na lama com roupa limpa, coisas assim. As mulheres da zona só iam pro quarto com ele por obrigação, não demonstravam prazer, pareciam ter nojo ou medo. Laerte achava que ele fazia alguma maldade com elas no quarto. Já as que se jogavam nos braços do bem apanhado e sedutor Cabelo, iam lépidas e fagueiras. Era o rei das mulheres perdidas. Tetê Pisca-pisca, uma morena quarentona de amplos quadris, e gargalhada chacoalhante, que alugara a casa e explorava três mulheres fixas e as que apareciam e trabalhavam por um tempo, tinha de intervir para acalmar as muito entusiasmadas. Assim como batia forte na porta quando a mulher que estava com Pernilongo gritava. Pernilongo adorava machucar.

Laerte não conseguia entender como Cabelo e Pernilongo se davam tão bem se eram tão diferentes. Se bem que sempre ouvira uns boatos insistentes e espalhados por pessoas que mereciam uma certa confiança que tanto um quanto outro eram assassinos frios, capazes de matar por encomenda, diferentes só na aparência e nas maneiras. E que haviam se metido no garimpo para fugir de perseguidores, polícia e parentes de vítimas. Embora agissem normalmente, estavam sempre alertas, orelhas em pé como cães de caça. Sabia-se muito pouco de Cabelo, não tinha qualquer sotaque ao falar, nem do norte nem do sul, só chiando, falava assoprando. Tentavam adivinhar de onde provinha, arriscavam nomes de cidades. Ele não confirmava nem negava. Sorria. Cabelo era o mistério.

– Quando eu morrer, dizia ele, o mistério acaba, é só me jogar na cova e cobrir com terra. Se alguém tiver tempo que reze uma ave-maria que minha alma vai precisar de muitas.

E ria, irônico. Laerte conversava pouco com Cabelo, alguma coisa o mandava se manter à distância.

Um leve sorriso alegrou os olhos do antigo garimpeiro. Toda essa turma, inclusive Genésio, devia estar furiosa porque Bárbara conseguira escapar e ele sumira. O pobre Felipe fora sacrificado ao ódio, despeito e ganância deles, mas ela devia estar sã e salva em sua terra, só que ele gostaria de saber aonde era para ir recomeçar sua vida com ela e com a criança que ela esperava. Não fazia a menor idéia de onde poderia estar, nunca lhe contara de onde viera, onde morava sua família, se é que tinha uma.

Na vez que insistiu em saber, ela respondeu, desgostosa:

– Quer saber pra quê? Nunca tive família, na hora em que precisei ninguém me ajudou, ninguém veio atrás de mim pedir para voltar pra casa. Deixa esse povo pra lá. Só volto pra eles em último caso.

Seria o caso de ter o filho? Um filho seu. Sorriu, beatífico. Como seria ele? Era um menino, na certa, e teria seus braços e pernas compridos, sua força e determinação, a pele clara como a dela, assim como seu lindo rosto. Queria encontrá-los para dar a ele, não só o carinho, mas as condições para se aproveitar de todas as oportunidades que a vida lhe oferecesse. Todo o ouro que encontrara seria para eles. Queria ser pai.

E tinha muita vontade de encontrar-se cara a cara com o safado do cearense arretado e com os demais, que tentara acabar com ele e com sua mulher. Confiara tanto neles! Era a outra coisa que tinha de fazer antes de morrer, dar umas boas bordoadas nos traíras, velhacos. Descobrira que Genésio andara escutando atrás das moitas e insuflando os outros contra eles. Se o encontro, acabo com ele, se é que não vão matar esse cabrunco antes, cabra fingido, traidor e candongueiro sempre arranja muitos inimigos. O filho de uma égua estava mancomunado com os bandidos. Cambada de safados, de covardes. Bem que Bárbara dizia que não gostava dele. E ainda queriam acusá-los de ficar com o ouro deles. Muito boa essa! A santa reservara o ouro para o casal, quem mandara fazer a imagem fora Bárbara e não qualquer um deles.

Genésio não retornara à vila na noite em que ouvira Bárbara contar seu sonho, ficara deitado na rede, olhos bem abertos, fazendo planos para o dia seguinte. Até que adormecera. Sua idéia era não contar a ninguém o que ouvira. Em princípio achava que os dois deviam dividir o novo lugar com ele. Achou, porém, que assim não ia dar certo, Cabelo e Pernilongo eram perigosos, melhor era contar para os outros e decidir o que fazer. Podia ser que o tal sonho fosse só uma balela para afastar Laerte dos amigos. Mulher é bicho ciumento.

Dias depois, à noite, em volta da trempe fumegante, Felipe, do meio do mato viu Genésio contar aos outros o sonho de Bárbara, alertando que não pretendia contar o que ouvira porque gente boquirrota como o português não sabe guardar segredo e o casal acabaria sabendo que eles sabiam e não procurariam o local que a santa indicara no sonho.

– Boquirroto é sua mãe, gritara o português, puxando o facão da cintura e avançando contra ele.

Cabelo interviera e o segurara.

– Não faça isso, portuga, ele falou sem pensar. Todo mundo aqui sabe que ocê é de confiança.

– E depois, completou o cearense, quem devia puxar a peixeira era eu, que com nome de mãe não se brinca. Se fosse na minha terra ocê era um homem morto.

Genésio se justificou e advertiu que achava melhor esperarem calados e observar o que ia se passar, pois se o casal soubesse que sabiam, na certa iam adiar a busca até que o caso fosse esquecido.

– Nós temos de ficar de boca bem fechada, quietinhos, só olhando. E agir na hora certa. É muita sacanagem dos dois de quererem um riacho cheio de ouro só para eles. Porque santa não mente nem brinca com essas coisas. O riacho que ela indicar, podem ficar certos, vai estar assim de pepitas.

– Será que o Laerte se esqueceu de nossa amizade? indagou Amaro Neto, e que há muitos anos garimpamos juntos?

– Traiçoeiragem, concordou Pernilongo. Se fosse a gente que soubesse de um riacho assim não deixaria de chamar Laerte.

– Ele mudou muito desde que essa dona chegou, lembrou o português. Guardando segredo entre eles, deixando a gente de lado. Sacanagem. Isso não pode ficar assim.

– E nem vai, concordou Genésio, eles merecem uma lição.

– Ocê não pode falar deles, replicou Funchal, porque pretendia ficar calado. Ficou quieto até agora por quê? Quem sabe não pensava se unir a eles e nos deixar chupando dedo, hein? Deve ter pensado nas conseqüências da besteira que ia fazer e resolveu contar pra nós.

– Nada de briga agora. Vamos ficar na encolha,  apaziguou Cabelo, e não vamos perder os dois de vista. Nada de enfraquecer nosso grupo com brigas e discussões. Genésio já explicou porque pretendia ficar calado, concordo com ele. O importante é que voltou atrás e nos contou, merece nossa confiança. Já o outro é um judas, vamos ficar de olho nele.

– E também ficar de olho no crioulo Felipe, que é o anjo da guarda da puta, lembrou Amaro. Eles querem o ouro só pra eles, né? Pois sim. Quando ela achar o lugar, aí sim, vamos agir. Sei como tratar com traidores. Não estavam escondendo de nós o que no sonho a santa dissera?

Jair cortou o fio de suas lembranças:

– Tamos quase chegando, né? Ô lonjura de lugar! Tô doidinho para provar a comida especial que dona Xandoca preparou procê. Tô com uma fome! Sua casa ainda tá muito longe? E como é mesmo o nome da senhora sua mãe?

Jair parecia uma matraca. Laerte abriu os olhos para apreciar o bando de anus revoando sobre o canavial. Lá adiante uma preá cruzou a estrada em disparada, em busca do canavial do outro lado.

– É Marica, Jair. O nome dela certo eu não sei, todo mundo chama ela de Marica.

– E falta muito pra gente chegar?

– Sossega, moleque, ainda falta um bom pedaço.

Laerte puxou o chapéu novamente sobre os olhos. Em algum lugar pássaros trinavam, bois mugiam, cavalos relinchavam, a vida estuava. O dia estava em pleno movimento e toda a região se movia ao ritmo do sol. Mãe Marica já devia ter tomado o ralo café com broa de milho ou tapioca há horas. Estaria muito velha, acabadinha? E a menina? Como seria? Laerte não conhecia a menina boba que Xandoca contara vivia agarrada às saias da mãe. Pobrezinha… Marica era carinhosa, mas impaciente como todas as mães que conhecera na roça. Tinham muito que fazer e uma filha doente era mais que um transtorno, era um castigo.

Ele revia a Marica do seu tempo, os cabelos negros amarrados com um lenço cinzento estampado de flores azuis, os olhos duros e atentos, a boca de lábios finos, o corpo magro e resistente sempre a se movimentar. Não tinha na mente a imagem do pai, só seu pigarro, seu olhar feroz, sua voz a comandar atividades. Dos irmãos lembrava as pernas perebentas, nariz a escorrer, barriga estufada, olhos de cachorro batido. Há cerca de 15 anos não via a família, e por quase 10 não tivera qualquer notícias dela. Agora ia revê-la e pouco teria a dizer. Os laços que os uniam estavam esgarçados, não havia assuntos em comum. Teve vontade de mandar o carroceiro voltar para a cidade.

Quando pensava em mãe seu coração dava um nó, eram duas as suas mães, e quando no garimpo delas se lembrava, as imagens surgiam misturadas, Marica e Xandoca, mas só nos momentos em que a febre maligna o levava ao delírio.

Quando Bárbara se zangava e discutia com ele, o que raramente acontecia, dizia que ele não tinha coração, que nem pensava na própria família.

– Eu tenho razões fortes pra me esquecer da minha, mas ocê?

Ás vezes, quando andava à toa pelo meio do mato para se acalmar, se pegava pensando nisso, tentando descobrir se era verdade o que Bárbara o acusava. Se não tinha coração, como gostava tanto dela?

Verdade é que Bárbara era tudo o que sempre quis. Na cidade aprendera a valorizar a beleza da mulher, seus modos, o jeito de falar, de andar e se vestir, o que não acontecia enquanto viveu na roça, quando prestava atenção apenas na sua capacidade de trabalho; coisa que o povo falava ser necessário para um bom casamento. Na hora de casar, diziam, o homem devia escolher uma mulher trabalhadeira e boa parideira, com quartos largos e pernas fortes.

Bárbara teria parido alguma vez? Ela garantira que não. Nem botara filho fora. Conhecia desde criança as ervas que não deixavam mulher emprenhar e as usava para evitar embarrigar. Bárbara era esperta, pensava, organizava, planejava, não ia deixar nascer um filho sem estar preparada.

A mudança do garimpo não fora feita de afogadilho. A cabrunca da mulher era esperta demais da conta. Os passeios pela mata, aparentemente para espairecer, eram o início da procura pelo igarapé indicado pela santa. E o achado não se dera numa só viagem. Embora jurasse que sabia certinho onde ficava o tal riachinho dourado, durante algum tempo, aos domingos de manhã, saíam passeando, flanando, conversando, examinando todos corregozinhos, os braços de rio, os riachos. Depois de certo tempo foram avisados por Felipe que o cearense os seguia por dentro do mato.

– Eu sei, disse ela, baixinho, não sou boba. Percebi que havia alguém seguindo a gente desde a primeira vez. Deixa ele. Não estamos com pressa. Vamos fazer ele ficar bem cansado e desistir. Pelo menos, até agora, ele não contou pra nenhum dos outros.

– Quem disse? Eles estão cansados de saber, eu vi quando ele contou e os outros ficaram muito bravos.

– E vamos fazer o quê quando achar o riacho? quis saber Laerte. Por que não contamos pra eles? São nossos amigos, poxa! Não me sinto bem deixando eles de fora.

Bárbara abaixou o tom de voz e aproximou mais a cabeça da de Laerte:

– Porque a santa não mandou contar pra mais ninguém, ora. Ela falou só em nós dois. E vamos andando… não olhem, mas atrás daquela moita tem alguém espiando a gente.

– Quem? quis saber Laerte, lutando com o desejo de olhar.

– Não sei, não dá pra ver, mas deve ser o cearense arretado, é ele que nos segue desde o primeiro dia. É o espia deles. Quer escutar o que estamos conversando, na certa pra contar pros outros. Vamos andando, vamos, como se nada tivesse acontecido, como se a gente não tivesse se apercebido da presença desse invejoso.

Muitas vezes haviam retomado a discussão sobre a participação dos demais, Laerte achava perigoso manter os outros na ignorância, sem participar da busca nem do futuro trabalho. Temia uma reação violenta da parte deles.

– Calma, Laerte, pedia ela, tudo a seu tempo. Se a santa quisesse que eles soubessem teria aparecido nos sonhos deles, mas não, só apareceu pra mim. E eles já sabem, como Felipe contou. Por que não vieram tomar satisfação? Por que sabem que não se deve contrariar o desejo de uma santa.

– É, mas continuam a nos seguir escondidos no mato.

– Deve ser coisa do arretado, sujeito mesquinho, de olho grande.

– Sei não, Felipe, fique de olho nesses cabruncos.

Mas acabou convencido por Bárbara. Até hoje, pensou, não sei se agimos certo.

O rangido de uma cambona pesada, abarrotada de cana cortada até o alto dos fueiros, irritava Laerte. Seguiam atrás dela e assim seria por algum tempo, a estrada era muito estreita para as duas andarem lado a lado. Quem estará levando a cambona? perguntou-se. Será conhecido, será que se lembra de mim? Andando ao lado das juntas de bois, o carreiro com o chapéu de palha enterrado até os olhos, sacudia o garruchão e gritava pelo nome dos animais cansados: adiante boi Riscado, força, Malhado, vambora boi Valente. Deve estar indo para a balança de Nhô Zeca, lá perto de casa, vamos ter de andar juntos esse estirão. Sentou-se na esteira, ajeitou o chapéu, olhou a estrada e seus olhos piscaram, ofuscados por um momento pela brancura da areia. Eu sentia falta dessa claridade. Cajueiros cresciam junto às cercas.

Suspirou, pegou a moringa que balançava ao ritmo da carroça e pôs água num copo feito com uma lata. Um galo cantou fora de hora, devia estar querendo impressionar algum rival no terreiro. Tudo aquilo, sons, cheiros, cores, o tocava como uma varinha mágica que relaxava seus nervos e distendia seus músculos. Estava na sua terra, ia ver sua gente e trazia coisas boas para ela. Sorriu de felicidade. Eu prometi que viria rico. E não penei tanto no meio da lama daquela mata para voltar de mãos abanando. Lamento é não poder exibir meu tesouro verdadeiro que a santinha protege. Ele não é só meu, é também de Bárbara e nós dois vamos desfrutar dele juntos. Depois que recuperar as forças vou atrás dela. Em algum lugar devo achar seu rastro, ela não pode suverter como visagem. Ela e meu filho. Trago os dois pra cá. Enquanto isso vou usar o ouro que tá entre as minhas pernas e que ninguém viu, por ser um lugar onde não se costuma olhar.

– Tá fresquinha a água? indagou Jair, virando-se para encará-lo, o sorriso a exibir uma fileira de dentes muito brancos. Dona Marica vai tomar um baita susto quando ver ocê, né? Ela vai adorar, aposto.

– Sei não. Acho que nem vai me reconhecer, respondeu com um sorriso triste. Faz tanto tempo que tô longe daqui. Eu era pouco mais velho que ocê quando sai daqui.

– Reconhece sim, interveio o carroceiro, pela primeira vez se manifestando. Coração de mãe conhece seus filhos mesmo com muitos anos de ausência. E sua família, quando souber que ocê trouxe esse monte de ouro que o povo fala, vai ficar satisfeita.

– Eu não trouxe um monte de ouro, replicou Laerte, irritado. Trouxe umas pepitas que vão dar pra pouca coisa, olha só.

E do bolso do paletó tirou um pequeno embrulho de pano, um lenço com as pontas amarradas, que desatou e exibiu. Eram umas poucas pedras amarronzadas, com pontos de brilho dourado. O carroceiro dirigiu um bom trecho guiado pelo cavalo, os olhos postos na mão aberta de Laerte. Jair arregalou os olhos:

– É isso o ouro? Num parece… ele não é cor de ouro, quer dizer, cor de cordão de ouro, de anel?

– Só depois de trabalhado é que fica assim, brilhoso. – Laerte tornou a amarrar as pontas do lenço – Foi o que mostrei a Xandoca, só tenho esse ouro aqui e com esse pouquinho vou ajudar minha família e construir a capela da santa. Quem lucrou mesmo, quem ficou com a maior parte do meu ouro, foi o sujeito que se aproveitou de minha febre e me roubou no vapor.

– Ladrão covarde, xingou Jair, se eu pego ele, esgano.

– Ninguém sabe quem foi? indagou o carroceiro.

– Quem poderia? Eu estava delirando de febre, não vi nada. Mas vamos esquecer isso, não adianta mais.

A invenção de Xandoca acabara com foros de verdade e ele passou a usá-la sem medo. Mais um pouco e até ele mesmo acreditaria na história. Poderia ter contado desse outro ouro, o que estava entre suas pernas, a Xandoca, ela era de toda a sua confiança, mas temia que alguém o ouvisse e roubasse. Foi pensar no assunto e o saco de couro o incomodou. Com jeito, para não provocar ardume na parte interna da coxa ralada pelo atrito constante do saco, mudou de posição. O pequeno saco fora idéia de Bárbara, tudo o que de bom acontecera na sua vida fora obra e graça da mulher.

– A gente divide nosso ouro em três partes, disse ela, enquanto costurava o pedaço de couro que comprara na venda da vila. Era parte de um colete de vaqueiro, de couro cru, que ela desmanchara. As pedras maiores botamos dentro da santa e fechamos por hora com um tolete de pau. Na hora de ir embora é que vamos fechar com esta tampa aqui, que a gente gira e tranca que é uma beleza.- Ela sorriu e envolveu seu pescoço com os braços macios. – Vamos ser muito, mas muito felizes!

Sentiu os olhos se umedecerem. Vamos sim, meu amor, nada está perdido, pensou.

Só quando tiveram a certeza de que o cearense não mais os seguia é que Bárbara apontara o novo local do garimpo.

– Eu sei que ele vai saber, mais cedo ou mais tarde, fazer o quê? Inventamos qualquer coisa, sei lá, vamos pensar nisso com calma. Podemos dizer que procuramos outro lugar porque tem gente demais garimpando aqui. Ou falo do sonho com a santa, fingindo que não sabemos que já sabem? Assim que a gente souber quando vai se mudar, juntamos todos e contamos pra eles. Tudo no seu tempo. Eles vão entender.

Ficou olhando a luz que se filtrava por entre os galhos do arvoredo cortada pela silhueta de pássaros. No meio da mata uma araponga batia seu martelo.

– Eu preciso é ficar sozinha com vocês dois, com a certeza de que ninguém está nos escutando para falar uma coisa importante, disse num sussurro.

Levantou-se, olhou ao redor, pediu que Felipe vasculhasse o mato em volta para ver se havia alguém escondido. Quando ele retornou, avisando que só os bugios gritavam nas grimpas das árvores, ela sentou-se no chão, indicando com a mão para que sentassem a seu lado. Araras vermelhas atravessaram o descampado.

– É o seguinte, disse sem altear a voz, a santa me avisou no sonho que no primeiro trecho do regato a gente vai achar muito pouco ouro, menos do que onde nós estamos garimpando. Vai ser uma poeira dourada no fundo da bateia. Isso vai ser bom porque vai afastar de lá os urubus, principalmente o cearense, não confio nesse sujeitinho, ele é falso, embora ocê diga que é seu amigo. Eles vão pensar que erramos o pulo. Adiante, bem mais adiante, depois de uma curva do riacho, é que vai estar a jazida. Muito cascalho e muitas pepitas. Assim, ó. Aí a gente vai ter de se apressar, pegar o ouro que puder e ir embora depressa depois que tirar o suficiente.

– Pegar o ouro, tudo no mesmo dia? indagou Felipe, abrindo muito os olhos.

– Não, respondeu ela com paciência. O que eu quero dizer é que assim que a gente pegar as pepitas em boa quantidade e juntar um bom número delas, vamos pegar o ouro e cair fora, porque pelo que a santa falou, mais adiante o riacho se alarga, afunda e vira quase um rio e aí… vai ser muito difícil pegar alguma coisa.

Tudo acontecera como ela previra. Laerte suspeitava que a indicação do local viera de algum velho garimpeiro com quem Bárbara tivesse dormido no tempo em que fazia a vida e não de um sonho. Ela teria vivido uns meses com ele e na certa o velho se apaixonara por ela e como sabia que estava para morrer, reclamava de fortes dores no peito sempre que se aborrecia, isso ela lhe contara, sem falar, porém, que ele decidira lhe confiar o segredo. Essa parte ele deduzira. Esperta como era, ela guardara o segredo e esperara encontrar um homem em quem tivesse confiança e com quem decidisse viver para então contar. E inventara a história do sonho para não vexar o amante. Para Laerte, milagre acontecia quando a pessoa estava doente e ficava boa sem tomar remédio. Santa falando em sonho ele nunca ouvira contar. Ainda mais de ouro. Como ela achava, na certa, que não seria agradável falar ao companheiro a verdade, inventara a história da santa no sonho. Bárbara era esperta e preparara tudo com antecedência. Senão, como explicar a coincidência da santa do sonho ter o nome dela? Tudo fora bem planejado e ele a amava mais ainda por isso. Até a santa fora comprada depois que ela decidira dividir o segredo com ele. Aquela história de que a santa os havia casado no meio da mata, qual!

Ela se preocupara em manter o segredo até depois de estar certa de que ele era o homem de sua vida, em quem podia confiar. Como sem dúvida já ouvira falar dos santos do pau oco, usados antigamente pelos mineiros para contrabandear o ouro, todo mundo ouvira essa história, e como Laerte queria construir uma capela na propriedade de sua família, mandara fazer uma imagem oca da santa que tinha seu nome. Tudo muito bem pensado, até se assustava com a sagacidade dela.

Numa madrugada, com o sol ainda por nascer, ela o acordara e sugerira que ele riscasse com a ponta do canivete na base da imagem da santa uma frase, para o caso de ser necessário manter seu tesouro escondido por mais tempo, o veio a acontecer.

– Sei lá se de repente a gente tem que sair às pressas sem poder levar a santa para salvar a vida. Tenho tido pesadelos, é só uma precaução.

A frase era a indicação de onde o tesouro estava escondido: “Se a casa cair, a árvore for derrubada e a cacimba soterrada pela boiada raivosa, procure o sofrido tributo no abençoado e santo regaço, longe da mão criminosa.”

– Entendeu a frase, amor? Ela tá dizendo que nós não escondemos o tesouro numa casa, que pode cair, nem numa cacimba que a boiada pode pisar e aterrar e sim no interior da santa. Só nós vamos saber disso. Desculpe fazer ocê madrugar pra riscar as palavras. É que acabei de sonhar com a santa e ela me ensinou isso e mandou fazer logo. Se eu voltasse a dormir podia acabar esquecendo. A santa acha que tamos ameaçados.

– Outro sonho? ele indagou ainda meio desperto.

Ela sorriu com candura. Certas coisas, pensava, só dão certo se a gente disser que foram sopradas por santos ou anjos. Aí o povo acredita e atende. Não lhe contaria os pesadelos que a assombravam, preferia um sonho de advertência. Se preocupava demais com o destino do ouro que garimpavam. Sentia que os outros não se conformavam em ficar de fora das novas possibilidades e poderiam fazer maldades contra eles. Amaro, Cabelo e Pernilongo os olhavam com ódio.

– E se nos roubarem? perguntou Laerte, também inquieto.

– A santa? Por que haveriam de roubar uma imagem de madeira? Vão querer roubar só o ouro que está no saquinho e as pepitas soltas que a gente carrega no bolso ou na bolsa. Essas são para gastar no caminho de volta pra casa, quando a gente ficar livre deste inferno aqui. Se roubarem, vamos fingir que estamos tristes, lamentamos o prejuízo, não queremos mais saber de garimpo, pegamos a imagem da santa e tomamos o rumo de casa. Nunca que vão desconfiar que temos ouro escondido.

No caso de serem separados, como ela adivinhava que ia acontecer, o trato dos dois era destampar o fundo da imagem só quando estivessem os dois reunidos e em lugar seguro. E caso morressem, como não tinham herdeiros, o ouro ficaria ali, guardado até o fim do mundo.

– A não ser que algum sortudo descubra que a imagem é um cofre.

– De que adianta isso? Só vale a pena ter dinheiro se for para melhorar de vida

– Não dizem que a gente volta em outra encarnação? Se for verdade, quando voltar a gente vai ter condição de entender a mensagem e pegar o ouro. Só a gente. E de aproveitar a fortuna.

A danada da mulher pensava em tudo, só não adivinhara a forma como ia acontecer o ataque dos invejosos antigos companheiros.

Bárbara saíra cedo para fazer compras na vila. Felipe fora junto. Laerte se metera na água, o riacho estava ficando cada vez mais fundo e a quantidade de ouro garimpada praticamente enchera o oco da santa. O batoque de madeira, mais a tampa, já tinham sido colocados, prontos para viagem. Algo lhes dizia que em breve teriam de fugir;

Bárbara não estava se sentindo bem e chegou a imaginar que estava prenha.

– Se não tô, é por que tô querendo ficar que tô com esses faniquitos. Acho melhor a gente arrumar as trouxas, já temos o bastante. Vamos pra outro lugar. Ando muito desconfiada dos seus amigos, acho que tão preparando um bote contra nós.

Ele gostara da idéia, também andava cansado de estar no mato, com as mãos engelhadas dentro dágua o dia inteiro. Cansado de ver e falar com as mesmas pessoas, todas as horas, todos os dias, todas as semanas. Queria saber o que estava acontecendo no mundo, queria rever Xandoca e sua família.E também se preocupava com as carrancas cada dia mais enfezadas dos antigos companheiros.

– Já é tempo de voltar a viver como gente, decretara. Temos o suficiente para viver bem pelo resto da vida. Vamos viver bem e ser felizes.

Só que o destino decidira de outra maneira.

Ainda seremos felizes, repetiu mentalmente, o ranger da cambona marcando o ritmo de seus pensamentos. Ah, Bárbara, onde ocê estará agora? E nosso filhinho?

O grito de Jair cortou mais uma vez suas recordações.

– Olha ali uma cobra! Ali, na beira da estrada!

Excitado apontava para o que parecia ser um risco escuro que se retorcia e ia ficando para trás, já que o cavalo acelerara o andar da carroça.

– Alá ela, gritava o menino.

– Calma, moleque, essa cobrinha não é nada diante das cobronas que eu vi. Deve ser um filhote. Um cobrinha de nada.

Jair continuava a olhar para trás, a boca arreganhada de espanto.

– Ocê era capaz de destroncar o queixo de tanto abrir a boca lá na floresta. Tem cobra de mais de cinco metros, tem de tudo quanto é bicho brabo lá, escorpião, lacraia, aranha cabeluda, muita cobra, cada uma mais venenosa que a outra. Tem ainda a sucuri, cobra imensa, que engole um homem inteiro de uma só vez. Tem a onça pintada e a parda, que eles chamam de suçuarana, tem jaguatirica, jacaré, ariranha, gatos do mato, bravos. E os macacos? Cada um mais esquisito que outro. Tem de tudo quanto é tipo e tamanho. O tal do bugio, só ocê vendo. Grande e barulhento. Vive lá nas grimpas, mas os caçadores derrubam eles com tiros e dizem que a carne é muito gostosa, mas nunca tive coragem de comer, depois de pelado parece uma criança, que nojo! Foram eles que evitaram que os bandidos me matassem na traição.

Até o carroceiro se mostrou interessado no assunto e diminuiu o andar do cavalo.

– Como é que é esse tal bicho? Macaco fala?

– Deixa de bobagem, moleque, cortou o carroceiro.

– Fala não, Jair, mas dá cada grito de arrepiar. O tal do bugio é grande, vermelhão, com barba de gente. De manhã cedinho começam a gritar no meio do mato. Uns gritam daqui, outros respondem de lá. Tem muito barulho no mato, só ocê vendo, é arara gritando, passarinho piando, bandos de maritacas voando que nem umas malucas e gritando, ó, uma barulheira daquelas!

– E como os bugios salvaram ocê? perguntou o carroceiro.

– Os bugios têm medo que se pelam de onça e de gente. Os índios estão sempre no rastro deles para caçar.  E as onças não dão descanso a eles. Até das jaguatiricas, que são menorzinhas, eles têm pavor. Assim que elas aparecem ou que o vento traz o cheiro delas, eles começam a gritar, enlouquecidos, para avisar os outros, e disparam a pular agarrados nos cipós. A maior algazarra!

Os olhos de Jair pareciam duas bolas e a boca quase chegava ao queixo. As mãos se enclavinhavam nos fueiros.

– Por causa do pavor deles me salvei. Eu tava sozinho no acampamento, deitado na rede, cochilando, esperando Bárbara, que tinha ido fazer compras de comida na vila. Ela tava demorando mais do que de costume, mas pensei que mulher gosta de fazer compras e resolvi esperar na rede e ferrei no sono. De repente, fui acordado com a gritaria dos bugios que costumavam dormir perto dali. São bichos inteligentes e sabiam que a gente não caçava eles, Bárbara então, detestava a carne deles, que além de parecer de criança era muito doce. Tinha de botar muito sal, ervas cheirosas, e ela achava que não valia a pena tanto trabalho. Já Pernilongo adorava apontar a espingarda e derrubar pra comer. Ele mesmo preparava o bicho. Tinha caça mais gostosa bem perto, como as cutias e pacas, e uns passarinhos como nhambu, jacu e carão. Perto de nós os bugios podiam ficar tranqüilos e por causa disso na hora de dormir iam praquela árvore. E não faziam algazarra, só de manhã bem cedo. Quando ouvi a gritaria fora de hora, imaginei que tinha onça por perto, eles não gritavam de tardinha a não ser para avisar que a bicha estava por ali. Com onça não se brinca. Apeei rápido da rede e entrei no mato pra pegar uma garrucha que guardava num toco de árvore. Nisso ouvi uns passos, um galho foi quebrado, alguém deu um pigarro, outro fez psiu e como já andava desconfiado, me escondi melhor e esperei.

– Era quem? indagou o carroceiro.

– Uns ladrões, pistoleiros, povo ruim que vivia num garimpo próximo.

– Conhecidos seus?

– Mais ou menos, é, eram sim, a gente tinha garimpado junto por um tempo, e quando encontramos um riacho mais rico e não chamamos eles, fomos nós que achamos o riacho, eles não tinham direito a nada, mas souberam, não se conformaram e ainda ficaram com muita raiva de nós, mas disfarçaram. Estavam sentindo uma baita inveja e resolveram nos roubar. Gente ruim, malvada.

Por um instante Laerte reviu as carantonhas, principalmente a de Pernilongo, só ossos, olheiras fundas, boca retorcida.

– Eu percebia essa intenção deles, via nos olhos dos sujeitos sempre que a gente se encontrava. Bárbara também, foi a primeira a notar as más intenções deles. Faziam umas perguntas sem pé nem cabeça, riam sem graça, já era o remorso. E Felipe contava que eles espionavam o acampamento. Bárbara sempre desconfiara deles, achava que eram sonsos, a gente sentia que queriam nos afastar dali e tomar a grupiara que a santa nos dera. Naquele dia, como Bárbara não aparecia, fiquei com medo que tivessem feito qualquer maldade com ela, alguma coisa me dizia que algo estava errado, mas confiava no negro Felipe, que era esperto e valente e parecia ter um olho na nuca. Não imaginei que viriam assim, na hora do trabalho.

No anoitecer fatídico, Laerte viu os canalhas chegarem com lanternas e armados com porretes e facas. Tinham ainda armas de fogo e ele viu tudo do meio do mato onde se escondera.

– Não dei um pio, sabia que devia ficar bem quietinho. Tive muito medo.

– Não é pra menos, disse o carroceiro, ocê esperou por demais. Eu já teria me prevenido. Mas ocê não tinha ido pegar a arma no oco do pau?

– Não deu tempo, tava no meio do caminho quando vi eles entrando no acampamento. Quando viram que não tinha ninguém, espumaram de ódio e chutaram o que viam pela frente, nossas coisas, a trempe com a panela, metendo com vontade o facão nos galhos e na barraca, rogando pragas, xingando e me afastei mais. Até a santa levou facãozada, mas de leve, esse povo tem medo de castigo, ainda bem. O cearense era o mais enfezado e gritava:

– Os filhos da puta fugiram levando tudo!

– Chegamos tarde, gritou Cabelo.

– Ocê não ficou encarregado de vigiar eles? Não viu quando fugiram? perguntou ao cearense o Funchal, que ainda bambeava das pernas por causa de recente ataque de sezão que Bárbara ajudara a tratar, ela era uma criatura muito prestativa.

Um ingrato, esse português, pensou Laerte ao recordar. E o cearense, hein? Dizia que era meu amigo. Como era o mais novo de todos ali, tinha umas regalias, a gente passava a mão na cabeça dele. Bárbara nunca confiara nele e não deixou que eu o chamasse para garimpar com a gente no riacho da santa. O tempo todo ele tava de olho no nosso ouro, descobrimos isso quando percebemos que nos vigiava.

– Aquilo é pior do que Judas, dizia Bárbara, a carinha de menino esconde um capeta. Raça de gente ruim, invejosa.

– Pelo que ouvi depois, contou Laerte, ele ficara encarregado de vigiar o acampamento e informar ao grupo do retorno de Bárbara e Felipe e bobeara, não percebera que os dois tinham saído para não voltar, que me deixaram ali apenas para que ela tivesse tempo de se afastar o mais possível. Ela tava esperando filho, não podia correr riscos. O plano dos bandidos era voltar quando escurecesse para matar os dois homens, levar o que tivesse valor no acampamento e raptar a Bárbara, a quem atribuíam a capacidade de encontrar ouro. É que povo é muito supersticioso e tinha botado na idéia que Bárbara era bruxa, que era uma mãe do ouro e podia descobrir os melhores lugares para garimpar ouro e até pedras, como o diamante. Dizem que tem gente capaz disso, eu não acredito. Nunca vi ninguém achar ouro no faro ou no palpite. Mas queriam era levar ela. Os patetas achavam que podiam obrigá-la a mostrar a eles onde garimpar com sucesso. Mesmo que pudesse ela não faria, tenho certeza. Genésio devia vigiar a gente, ficou o dia inteiro no meio do mato e só deixou o posto para comer qualquer coisa. Bobeou. Foi quando ela mais o negro foram para a vila. Na volta percebeu que eu estava sozinho. Ficou tiririca da vida e voltou depressa para avisar aos outros. Eles acreditavam que os dois só tinham ido comprar coisas no turco Abidel que tava na vila e mandaram que o cearense voltasse a vigiar e avisasse quando retornassem. Como o tempo passava e nenhum aparecia, o cearense desconfiou que Bárbara não ia voltar e deu o alarme. Foram pro acampamento e quando viram que tava vazio entenderam o que havia acontecido e se enfureceram. Dei sorte de perceber a chegada deles graças ao alarido dos bugios e me esconder no mato. Senão teria sido morto.Sem dó nem piedade.

– Ela fugiu com o crioulo, não estão vendo? gritou Cabelo, brandindo o facão. O Laerte tá por perto, a trempe tá acesa e a rede ainda guarda o calor do corpo dele, mas a safada fugiu com o negro e levou todo o ouro. Vai ver que o chifrudo nem sabe que a dona fugiu.

Um outro deu uma gargalhada e cuspiu:

– Corno! Bem feito! Queriam passar a gente pra trás e se ferraram.

– Levou até as roupas de uso dela, contou o português, que tinha entrado no casebre e revirado tudo.

– Logo o Laerte, que era tão nosso amigo. Culpa da mãe do ouro. A safada seduziu ele e agora que pegou o ouro deixou o corno a ver navios e fugiu com o crioulo.

– E ainda levou o ouro, concluiu o Amaro, bufando de raiva.

Haviam revirado o acampamento todo e nenhuma pepita acharam. Meu saquinho de ouro estava metido no oco do pau junto com a garrucha. O que tinha pegado naquele dia estava no meu bolso. Tinha me afastado de mansinho, de cócoras, sem fazer o menor barulho e me escondido no mato, bem distante, mas podendo ouvir as vozes.

Eles foram embora xingando a gente e descarregando a raiva nos galhos de plantas que encontravam pelo caminho cortando com o facão, sem dó nem piedade. Queriam era meter o facão em nós. Me afastei mais sempre em silêncio e fui dormir bem longe dali, num remanso onde costumava ir com Bárbara.

Laerte chegou a se arrepiar ao lembrar. Sem dúvida os miseráveis teriam passado os homens a facão e carregado Bárbara.

– Na manhã seguinte, quando senti que podia entrar no acampamento é que pude ver o tamanho do estrago. As folhas de palmeiras da cobertura do abrigo foram arrancadas e lançadas no mato, redes, cobertas e travesseiros queimados, panelas amassadas, facas e garfos jogados no mato, moringa quebrada, tudo quanto era roupa rasgada, mantimentos espalhados pelo chão, farinha e pedaços de aipim cozidos no meio da poeira, só a santa permanecia no seu toco, apenas com um corte de facão perto do ombro. Pensei logo, que desperdício, os bichos é que vão se aproveitar dessa comida! O feijão que Bárbara tinha feito de manhã jogado na areia, e o feijão dela era especial, o arroz espalhado, que ela havia deixado para eu comer enquanto Felipe não voltasse.

– E a sua mulher, fugiu mesmo com o negro? arriscou Jair a perguntar.

– Claro que não, sua besta! Foi o que naquele momento todos pensaram. Até eu. E o mais curioso é que, no meio de tanta bagunça, destruição e roubo, o que me perturbou, me deixou arrasado foi achar que ela fugira com Felipe. Nem me importava tanto com o que tivessem levado, o grosso do ouro devia estar ali na santa, intocada e altaneira, me machucava era a possibilidade de traição da mulher que eu amava.

– Se fosse comigo eu matava os cabruncos, rosnou Jair, apertando as mãos como se enforcasse alguém. Eu não nasci pra levar chifre.

– Que valente, zombou o carroceiro, tão novinho e já deve ter a testa toda enfeitada de cornos.

– Sai daí, velho desfrutável, nem namorada eu tenho.

– Me respeite, hein, moleque, senão largo ocê aqui pra voltar a pé quando for embora. E dona Xandoca inda vai me dar razão, malcriado.

Enquanto Jair e o carroceiro batiam boca, Laerte olhava encantado as pequenas propriedades que se sucediam nas margens da larga e maltratada estrada de areia. Tempo fazia que as vira, no tempo de sua ida para a cidade em busca de seu destino. Eram casas simples, com cerca de bambu e suas árvores de frutas, sua criação de aves, seus animais de tração e sua carroça. Cachorros preguiçosos dormitavam nos portais e vacas pastavam tranqüilas, enquanto os bezerros berravam por elas em curral próximo. Numa das propriedades, uma porca ia em direção ao tacho dágua, seguida por uma dúzia ou quase isso de bacorinhos. Mais na frente, um homem rachava com um machado a lenha que um menino levava para os fundos da casa; numa outra, a mulher puxava água de uma cacimba com uma lata, a saia sungada no meio das pernas. Era o que devia estar acontecendo em sua casa, pensou Laerte, sua velha mãe tirando água do tacho de barro para cozinhar, enquanto a irmã boba, sentada num canto da cozinha, brincava de boneca com uma batuera enrolada nuns retalhos.

E com Bárbara, o que estaria se passando? Tinha quase certeza que não voltara a procurar seus parentes, era muito orgulhosa, e ficava imaginando onde poderia estar e o que poderia estar fazendo para se manter. Bárbara deve ter levado umas pepitas, nem que fosse para se alimentar durante a viagem, imaginou, mas isso não duraria para sempre, ela teria de encontrar um meio de se manter e ao bebê. Tinha medo de, por necessidade, para sustentar seu filho, sem apoio de Felipe, voltasse à antiga vida de devassidão. Sentiu um aperto no peito.

Naquela tarde sinistra, Bárbara saíra depois do almoço para ir à vila. Soubera que o mascate Abidel tinha chegado e ia abrir as malas que trazia no lombo das mulas, carregadas de coisas bonitas, panos, rendas, linhas, botões, casacos, sapatos, pratos, panelas, redes, uma tentação. Ele aparecia a cada três, quatro meses, e voltava com as malas vazias e o bolso cheio das prestações que recebia do que na visita anterior vendera. Tanto as mulheres decentes quanto as de vida fácil faziam suas compras com ele, só que em horários diferentes, as de família pela manhã e as outras à tarde. O capim da pracinha ficava coberto pelos objetos à venda. Elas examinavam tudo, polegavam as fazendas, as fitas e rendas, agulhas e tesouras, panelas e talheres e davam gritinhos de prazer. Já as jóias falsas e os perfumes faziam a alegria da turma da tarde.

Além de escolher os produtos do turco, Bárbara teria de fazer compras para a casa na venda, por isso ele não estranhara a demora. Como bateara sem entusiasmo e poucas pedras pegara, desanimara e suspendera o trabalho. Estava ficando mais preguiçoso e acomodado a cada dia.

A corrente do riacho estava mais forte e as últimas chuvas tinham afundado mais o leito do rio. Ficava cada vez mais complicado arrancar alguma coisa das águas turvas. Voltara desanimado ao acampamento, acendera o fogo e preparara um café. Era cedo e não estava com ânimo para esquentar a janta e comer sozinho, preferia esperar a chegada dela. Ouvia os muitos ruídos dos matos, era comum, animais estavam sempre passando por perto, bichos se estranhando, como os bugios, até mesmo algumas pessoas caminhando, os sons na floresta eram confusos e emitiam ecos. Tomou café com tapioca, espreguiçou-se e se estirou na rede.  E adormeceu quase em seguida.

Acordou com a gritaria dos bugios e viu que Bárbara e Felipe não haviam retornado, o acampamento estava vazio, apesar de ser noite quase fechada. Estranho, muito estranho.

Um pressentimento invadiu seu coração. O que teria acontecido a Bárbara para não ter voltado até aquela hora? O medo apertou seu peito e num salto saiu da rede em busca da arma. Ouvira o barulho de um galho seco sendo quebrado no mato, pensara em onça e vira de relance os garimpeiros surgindo na clareira, fantasmagoricamente iluminados pelo fogo da trempe e das lanternas fumacentas de querosene que carregavam e a suspeita transformou-se na certeza de que não eram assaltantes comuns, mas seus ex-companheiros que tinham vindo para executá-lo e ao Felipe e seqüestrar Bárbara, conforme conversa ouvida pelo negro. O hábito de estar sempre alerta o salvara. Será que os dois já tinham sido agarrados ou assassinados? Ou estavam escondidos na mata? Num átimo meteu-se no meio duma moita um pouco afastada, que permitia que visse o que ocorria no acampamento.

De surpresa em surpresa vira seus piores temores confirmados pelos comentários maldosos dos invasores. Então, Bárbara, acumpliciada com o negro Felipe, fugira levando o ouro? Era o que eles diziam. Os dois o tinham deixado para trás, largado no acampamento, exposto à sanha criminosa de seus desafetos? Fora isso mesmo? Na hora sequer se perguntou por que ela não havia levado a imagem da santa, onde estava guardada a maior parte do tesouro. Ou não estava mais?  Será que antes de fugir eles abriram a imagem e levaram o fruto de tantos anos de seu trabalho?

Depois da partida dos malfeitores, sentindo-se febril e temendo um ataque de malária, se arrastou até à beira do acampamento, mas logo se enfurnou no mato. Queria examinar a santa mas desistiu, podia estar se expondo a um novo ataque dos bandidos. E se eles estivessem só esperando que um gesto impensado seu lhes mostrasse onde estava o tesouro? Vai ver tinham inventado a história da fuga da mulher com Felipe para desnorteá-lo, fazê-lo abrir a guarda e mostrar onde estava o ouro. Mas onde os dois se meteram? Por que não apareciam? Por que o largaram ali?

A cabeça de Laerte estourava de dor. A metade da moringa quebrada jogada no chão guardava um pouco de água boa para beber. Antes de procurar um refúgio, pegou-a e bebeu a água de uma só vez. Estava sequioso. Olhou ainda uma vez a imagem da santa a olhar tranqüila para o alto das árvores onde papagaios se bicavam. Ele sabia que havia um ponto mal feito na costura da história da fuga, mas não conseguia atinar qual. E não tinha coragem de pegar a santa e arrancar a tampa para ver se o tesouro continuava ou não em seu interior. Uma seriema gritou. Deitou-se no chão, a cabeça apoiada numa acha de lenha da trempe apagada. Ficou de olhos fechados, querendo que a dor de cabeça passasse. No peito, ódio e suspeitas digladiavam.

Quando tornou a abrir os olhos pensou novamente em voltar ao acampamento. Um animal grande passou correndo pelo mato, não muito longe e ele se assustou. Está muito escuro, pensou e apenas obedecendo seu instinto encontrou o recanto onde ele e Bárbara costumavam se refugiar. Ali estava seguro. A dor de cabeça não passava. Deitou-se e sua mente se fixou na mensagem gravada no pedestal da santa.

– Por que então a fingida teria gravado a mensagem na santa, chave do tesouro escondido, se pretendia fugir com o negro, levando o ouro? Era tudo tapeação? Mas pra que?

Pensar piorava a dor de cabeça. Cada vez entendia menos o que estava acontecendo.

Mais uma vez a voz desafinada do moleque interrompeu o fluxo de suas lembranças.

– Olha ali uma capelinha. Bonita, né?

Estremunhado, como se estivesse voltando de uma viagem, Laerte esfregou os olhos e virou-se para onde Jair apontava, um prédio singelo, caiado.

– É a capela de Santo Antonio, informou. É aí que minha mãe vem rezar ladainha.

– Então estamos perto? rejubilou-se o moleque. Oba! Minha barriga tá roncando.

– Pega um pedaço de bolo na cesta. Sua barriga parece um saco sem fundo.

– Eu não, tô com fome é de comida, arroz, feijão, farinha, um ovinho frito… hum!

Era a comida preferida de todos no garimpo e Bárbara fazia um feijão a que ninguém resistia. Quando podia ela juntava uns pedaços de toucinho. Aí até os bichos da floresta se assanhavam quando o cheiro do refogado subia pelos cipós e alcançava suas narinas. Gritavam, piavam, rugiam, gargalhavam. As arapongas batiam na sua bigorna, o tiziu pulava feito louco, os papagaios danavam a palrar.

Por causa dos barulhos e da fraqueza que sentia em todo o corpo e que não deixava que se levantasse, Laerte não viu a silenciosa chegada de Olga, uma das prostitutas da casa de Tetê Pisca-pisca. Era amiga antiga de Bárbara e vez por outra ia ao garimpo.

– Só como visita e não para trabalhar, avisava rindo e passando a mão na cabeça dos homens, que se derretiam, principalmente Cabelo, a sacudir sua cabeleira lustrosa.

Laerte não tinha nada contra ela, mas também não morria de amores e não estimulava a amizade de sua mulher. Ela sabia de coisas que ele preferia esquecer. No momento, porém, viu com simpatia sua chegada. Estava sem comer há dias, não sabia quantos, imundo, largado no chão, sem ânimo pra nada. Só conseguira se arrastar até à borda do acampamento. Olga trazia um pouco de comida numa cuia, coberta por um pano. Abaixou-se a seu lado.

– Trouxe pouca comida porque quem fica muitos dias sem comer não pode comer demais de uma vez só que o corpo reclama. A barriga dói e bota tudo pra fora. Toma e come depressa que temos de sair daqui rápido. Tem uma colher por aí?

Ela olhou em volta e descobriu uma colher semi-enterrada na poeira. Esfregou-a na barra do vestido.

– Agora come, vamos, não temos muito tempo. Custei a achar ocê, isso aqui é um buraco.

Ele a olhava apalermado. Ela destampou a cuia e colocou-a na sua mão. Alguns pedaços de carne seca boiavam num pirão e arroz. Estava cheirosa a comida e ele meteu a colher sem hesitar. Olga levantou-se e pôs a juntar algumas coisas, roupas, facas, garfos.

– Foram eles quem fizeram essa malvadeza? Que gente ruim! O que é isso aqui na garrafa?

– Água de cacimba, Bárbara separava essa água para cozinhar, a do rio é uma nojeira. Já acabei aqui, não tem mais?

– Não. Agora se levante e vamos embora. Temos que sair daqui antes que anoiteça.

– Tô tão cansado. Quero ficar por aqui mesmo, pelo menos até amanhã. Minhas pernas tão fracas.

– Nada disso, meu senhor, vamos embora e já.

– Por que tanta pressa?

– Por que eles mataram o Felipe e vão matar ocê também.

Com o choque Laerte se aprumou. Mataram o Felipe? Como, quando? Mal podia acreditar, mas devia ser verdade. Seu coração se acelerou e centenas de perguntas vieram à sua mente. Começou pela mais importante:

– E Bárbara?

Ela agarrou-o pelo ombro e o fez se levantar. Ele bambeou, logo se firmou. A notícia injetara adrenalina em suas veias, enrijecera seus músculos doloridos.

– Deve estar bem longe. Vamos, que conto tudo pelo caminho. Estou me arriscando demais vindo aqui. Ninguém tem notícias dela. Zé Mateus encontrou o corpo de Felipe ainda sangrando no meio da sua roça de batata doce. Mataram o coitado hoje de manhã cedo. Vamos, se avie, homem, vamos falando enquanto andamos.

– Ela não fugiu com ele? Se mataram ele foi pra poder raptar ela, que deve de estar no acampamento deles.

Olga sacudiu a cabeça com vigor, negando. Laerte estava atordoado, a cabeça confusa e o corpo mole. A notícia da morte do amante de sua mulher não fora o suficiente para despertá-lo. Olga o forçou a andar.

– Vamos pra onde?

– Não interessa, vamos fugir daqui. E rápido, daqui a pouco eles saem do riacho e vem pra cá. O cearense me viu passar.

– Então deixe eu levar minha santa.

A voz dele soava como a de um bêbado. Ela puxou-o com força.

– Larga essa santa pra lá, só vai atrapalhar.

– Sem ela eu não vou, disse ele, forcejando para ir na direção da imagem. Ela é minha protetora.

– Larga disso, Laerte, a imagem é pesada, como é que vamos romper o mato arrastando esse treco? Vai atrasar a gente, homem. Depois a gente vem pegar, outro dia.

– Não, não. Só vou se levar minha santa.

Seus pés afundaram na terra. Tinha de levar a santa, não poderia tirar a tampa da imagem para verificar se o ouro continuava ali, denunciaria a Olga onde estava seu tesouro. Seu instinto lhe dizia que o tesouro estava intacto e por via das dúvidas tinha que levar a santa, mesmo que fosse arrastando e atrasasse a fuga. Abraçou a imagem e seguiu a mulher, cambaleando.

Felipe voltara para buscar a santa, a pedido de Bárbara, era isso, e para lhe contar onde estava escondida. Não entendera porque não a levara quando fugira, talvez porque os outros garimpeiros… Tudo lhe parecia absurdamente confuso. Confiava cegamente em Bárbara e tentava encontrar justificativa para ser abandonado por ela no acampamento.

Olga enveredou por uma trilha estreita, perpendicular ao caminho que dava no lugar onde estavam os garimpeiros irados, na direção do braço maior do rio Pebaí. Ele andava com dificuldade, tropeçando, arranhando os braços, a imagem se prendendo aos cipós e galhos quebrados. Os mosquitos não davam sossego e ou os afastava ou usava a mão livre para empurrar os galhos do caminho.

– Mais rápido, pediu ela, pelo amor de Deus. Depressa, quero que a gente esteja bem longe quando eles …

– E Bárbara, interrompeu ele. Onde está Bárbara?

– Não sei. O Felipe estava voltando, depois de deixar ela em segurança, pra contar onde ela tinha ficado.

– Como assim? perguntou ele, sentindo uma luz brilhar no caos de seus sentimentos.

– Ai, arfou ela, é difícil falar e andar depressa ao mesmo tempo. Perco o fôlego. Sinto falta de ar e dor no peito. E não posso falar muito alto, ocê sabe que as folhas carregam as palavras dentro do mato.

– Mas, eu preciso saber, gemeu ele, desenrolando uns cipós finos que se agarraram às suas pernas, senão não terei tranqüilidade. Eles garantiram que ela fugiu com o negro e com nosso ouro.

– Cachorros! rosnou ela. Felipe era meu homem de fé. Era meu macho.

– E foi como, então? Por que os dois fugiram e me largaram? E por que mataram Felipe? E adonde ela está?

– Tanta pergunta! Eu entendo seu nervosismo, mas vamos com calma, Bárbara sabe o que faz. Ela tá bem escondida, não sei onde, mas longe daqui. O Felipe tava voltando para levar ocê mais eu pra lá. Felipe era amigado comigo, apesar de eu continuar a fazer a vida. Ocê sabia, né? Não? Bárbara não lhe contou? Eu ia largar dessa vida e ia morar mais ele, também tava cansada de tudo. Já tinha até avisado a Tetê que ia embora. Meu coração parece que foi arrancado do peito.

Laerte estava sentindo raiva misturada com alívio e paixão redobrada por Bárbara. Ela não o traíra, não fugira com o negro. Por que não lhe contara que Olga e Felipe… A mania dela de ser discreta às vezes só atrapalhava. Riu alto.

– Então o ouro ainda taqui, gritou, ela não levou!

– O que, Laerte? Que ouro? Apresse o passo, pelo amor de Deus. Ocê já sabe que vão vir atrás de nós. E não demora muito. Larga essa santa de lado.

– Agora é que não largo mesmo, disse ele, abrindo um sorriso de felicidade. Ela é a santa protetora de Bárbara.

– Deixa de ser teimoso, nós temos de fugir.

– Quem inventou isso que vão me matar? Por que não me mataram quando invadiram o acampamento?

– Ontem eu tinha ouvido uma conversa esquisita do Pernilongo com o português lá na sala da Tetê, quando fui levar a garrafa de pinga que pediram, mas na hora não atinei bem. Hoje, depois que me avisaram que haviam encontrado o corpo de Felipe é que fui entender. Ele diziam que iam matar ocê depois de matar Felipe. Que tinham errado deixando ocê vivo. Não dei atenção, até que acharam o corpo de Felipe. Se mataram Felipe, agora é sua vez.

– Eles querem é saber onde está nosso ouro.

– Uma praga de gente maldosa, disse ela com amargura, acabaram com meu futuro. Pobre Felipe! Agarraram o meu homem, amarraram ele, queimaram o peito dele com tição, dizem que o corpo do coitado está todo marcado, bateram muito nele, que ódio que me deu! Mas acho que Felipe não disse nada, ele era durão.

Olga soluçava sem chorar, Laerte seguia abraçado com a imagem.

– Não falei? Eles torturaram o Felipe pensando que ele sabia onde escondemos o ouro.

– Não me conte, pediu ela, pelo amor de Deus, eu sou muito fraca. Os bandidos fizeram misérias com ele, não só pelo ouro mas para descobrir onde tinha escondido a Bárbara, mas se bem conheço o Felipe, homem de ferro estava ali, já tinha passado por coisas piores nas mãos do coronel e além disso tinha verdadeira adoração por ela. Não disse nada, posso garantir.

Felipe morreu desse jeito porque não contou onde para onde ela foi, pensou Laerte. Se tivesse contado, a essa hora os bandidos estavam longe, tinham ido atrás dela.

– Quando vim pra cá, continuou Olga, tavam todos no riacho, espiei escondida, todos lá, de cara amarrada. Parecem uns animais! Que vontade que um raio caísse em cima desses desgraçados! Eles sabem que ocê tá aí, estropiado, não fugiu. Falaram disso. Aí imaginei que quando a noite cair, eles virão buscar ocê, porque vão achar que ocê sabe onde ela se escondeu. Eles não entendem é porque ocê ficou aqui. Tavam esperando ocê passar pra seguir atrás e pegar ele. Vão moer ocê de pancada até abrir o bico. Ocê não agüenta o que Felipe agüentou e como não sabe nada e eles não vão acreditar nisso, vão matar ocê no maior sofrimento. Meu negro veio buscar ocê para levar pra ela, tinha me dito no dia da fuga que ia fazer isso e ia me levar junto.

Respirou fundo para recuperar o fôlego. E continuou:

– Não posso levar ocê até ela, não sei onde ele escondeu ela, mas vou levar ocê pra longe daqui. Um dia, quem sabe, ocês vão se encontrar… É a última coisa que faço para o meu crioulo querido.

– E Bárbara, Olga? Ele não disse onde ia esconder a minha mulher?

– Como vou saber? Quem podia dizer isso era o Felipe, mas o pobre a essa hora está nos pés de Deus. Ele não me disse nada, sabia que os homens podiam me apertar. – E se persignou. – Temos de ir pralgum lugar seguro e quando tudo se acalmar a gente pode procurar por ela.Ela foi na frente, sozinha, para proteger o bebê. É uma mulher corajosa. Se ocês fossem juntos seriam perseguidos pelo bando e deus sabe o que poderia ter acontecido. Eu vou voltar pra minha terra, lá pelo menos não vou morrer de fome. Ocê também vai pra sua, né? Mas não me diga onde é não, pelo amor de Deus, não tenho a fibra e a raça de Felipe, se eles me pegarem e me baterem sou capaz de contar tudinho. Vamos mais rápido, homem, deixa de moleza, é nossa vida que está em jogo. Nesse tempo aqui anoitece depressa e não quero dormir no meio do mato. Tenho pavor de cobras e de aranhas.

Apesar das atribulações e dos riscos que corria, Laerte sentia-se muito feliz, mas com remorsos por ter acreditado nos cretinos e duvidado de Bárbara. Ela gosta de mim, murmurava, Felipe vinha me buscar.

– Me dá essa santa aqui, seu teimoso, que ela deve tá muito pesada. E ocê tá fraco, sem forças, deixa eu ajudar.

– Não, não, deixa que eu levo, disse ele, apertando a imagem contra o peito, é como se estivesse abraçado com Bárbara. É minha obrigação.

– Deixa de criancice, não vou jogar a imagem fora. Por mim deixava ela lá, mas já que ocê faz questão de levar, eu ajudo a carregar. Dá aqui.

E estendeu as mãos em sua direção. Ele se encolheu, apertando a imagem contra o peito.

– Não, levar a santa é minha obrigação, já disse. Vamos que eu agüento.

– Nesse passo os homens vão alcançar a gente num instante. Bom, já que ocê não confia em mim. Tá vendo aquela ingazeira ali? Vamos na sua direção, não parece, mas ali começa uma estradinha de servidão que vai dar na casa de um amigo meu. Vamos nos esconder lá até amanhã.

– Quem é ele? perguntou desconfiado.

– Um amigo, ocê não conhece, um freguês, um velho que se acha moço e me paga para ter recordações do prazer. Já passei alguns dias na casa dele, ele paga bem, não é sovina. E não adianta fazer beicinho, é o único lugar seguro nessas brenhas.

A estrada estreita era limpa e sem galhos a atrapalhar a passagem. Apenas gravetos secos e picos se agarravam à barra da saia de Olga. A tarde avançava e era quase noite quando avistaram o casebre. Tinham caminhado toda a estrada em silêncio e não foram pressentidos pelos dois homens, parados na porta da choupana, que conversavam com o velho. Olga apontou naquela direção e pôs o dedo nos lábios pedindo silêncio.

– Quem são? sussurrou ele.

– Sei não, devem ser vizinhos. De qualquer maneira, vamos esperar um pouco no mato, só urubuservando.

Uma moita que arrastava os galhos pela areia serviu-lhes de esconderijo. Laerte deitou-se no chão, um braço protegendo a imagem. Sentia sede. Olga sentou-se a seu lado. Estavam exaustos.

– Eu bem que tava precisando de um descanso, sussurrou ele.

– Quem manda ser teimoso e desconfiado? Falavam baixo, no mato o eco leva longe as palavras. Eu quis ajudar com a santa, ocê não quis…

– Também tô com fome e com sede, desconversou ele.

– Isso a gente resolve na casa do velho. Vamos deixar esse povo se afastar.

Os homens ainda ficaram conversando um bom quarto de hora. Sentaram-se nos bancos rústicos na frente da casa e ela suspirou, impaciente. Quando finalmente saíram, Laerte ressonava.

– Vamos, chamou, o cutucando com o dedo.

Mas ele se recusava a abrir o olho.

– Só mais um pouquinho, não dormi nada nessas últimas noites. Tô enfraquecido e tonto de sono.

– Então vou na frente conversar com o velho. Depois venho buscar ocê.

O barulhento silêncio da mata se intensificava com o acréscimo dos rumores da noite se espalhando por entre as sombras do arvoredo. Pios, uivos, miados, coaxares, silvos, a noite descia com sofreguidão e seus habitantes se preparavam para sair à caça de alimentos. Algum tempo depois de Olga entrar na casa do velho, mais três homens passaram pela trilha e se aproximaram da porta. Laerte não os viu, mergulhado em sono profundo, e eles não o viram nem à imagem, apagados pela noite no meio da moita.

Os homens rodearam a casa em silêncio, atentos a qualquer ruído. Pernilongo sussurrou:

– Tem mulher com ele.

– É ela, respondeu Cabelo, a vagabunda.

Bateram na porta com força, vezes repetidas. Alguém gritou na casa um já vai.

Daí a pouco a porta foi aberta, deixando ver à luz bruxuleante da lamparina o velho de pé, amarrando os cordões da calça. Ao fundo, no catre, uma mulher se cobria.

– Que foi, perguntou o velho de mau humor, não tá muito tarde pra visita não? Ocês não tem nada pra fazer? Querem o quê?

Os homens vasculharam o cômodo, único além da cozinha, com olhos atentos.

– Tamos procurando uns criminosos que fugiram do garimpo com nosso ouro, declarou o português. Achamos que vieram cá se esconder.

– Ara, e vou saber deles? Num tão vendo que tô ocupado, disse simulando raiva. Levo a tarde toda para conseguir endurecer o pau e quando consigo me aparecem ocês com essas besteiras.

Fez menção de fechar a porta e Cabelo impediu com o pé.

– E quem tá aí?

– É da sua conta? É ocê que vai pagar ela, hum?

– Não seja atrevido, velho.

– Trevido, eu? Ocês vem bater na minha porta a essa hora da noite, a procurar bandido em casa de gente séria e eu é que sou trevido? Vão cuidar de sua vida, vão, e me deixem em paz com minha muiezinha.

Fechou a porta com força.

– A gente faz o quê? indagou Pernilongo, o dedo no gatilho na garrucha.

– Deixa pra lá, se fosse ela, na hora que a gente bateu na porta tinha se enfiado embaixo da cama. Deve de ser outra puta qualquer, é o que mais tem por aqui. Vambora, ali mais na frente tem uma prainha de canoas, vai ver já estão lá arrumando condução e nós bobeando aqui.

Encostada na porta, Olga escutou a conversa. Sorriu. O velho tornara a se meter no catre.

– Vem cá, bichinha, ronronou ele, me aqueça.

As vozes de Jair e do carroceiro conversando se confundiam nas lembranças de Laerte com as vozes de Olga e de um homem tentando acordá-lo. Parecia não haver lapso de tempo entre elas.

– Levanta homem, já é de manhã, ocê dormiu a noite inteira aí.

Os chamados atingiram por fim seu cérebro e ele abriu os olhos com dificuldade. Ainda cansado e ofuscado pela claridade, sem saber onde estava, sentou-se, olhou em volta e viu Olga e um velho a seu lado. Lembrou-se que andara pelo mato com Olga, fugindo… e de repente tudo lhe voltou à mente, num clarão. Procurou a santa, achou-a a seu lado, sentiu-se melhor. Bocejou várias vezes.

– Como dorme, hein, moço? Ocê dormiu como uma pedra. O café tá na mesa, vamos lá, não está com fome?

A palavra fome trouxe à tona a sensação de urgência e apoiando-se nas mãos ficou de pé. Ela o ajudou. Ele pegou a santa.

– Vamos sim, tô com muita fome.

– Nessa noite, quando vim buscar ocê, seu sono era tão pesado que só podia ser o sono da fome. Não quis gritar com medo de ser ouvida pelos canalhas, caso estivessem atocaiados, esperando nós aparecer. Aí achei melhor deixar ocê dormir aqui mesmo e fiz bem. Ocê tá com outra cara, mais corado, e diz que tá com fome. Muito bom, vamos matar essa fome.

Quando se preparavam para sair o velho lhes recomendou evitar a prainha, onde os homens podiam estar vigiando.

– Mais adiante, explicou ele, tem outra prainha, menor, entulhada de galhos, onde tá fundeada a minha canoa. Fica a um estirão daqui, mas é melhor, mais segura. A canoa tá carregada de abóboras e batatas doces que eu ia levar hoje pra feira de São Domingos do Cupuaçu, mas ocês podem pegar ela. A carga vai disfarçar a viagem. Chegando lá, procurem Mané dos Fuios, caboco forte, de pele empoeirada, sem os dentes da frente da boca. Ele vai guardar a canoa pra mim e dizer procês onde drumi.

– Quanto tempo até lá? perguntou Olga.

– Bom, até à prainha, andando bem, metade do dia, ocês devem chegar lá ainda com sol. Se deixarem pra sair amanhã, bem cedinho, à noitinha, no mais tardar, tão chegando lá. Dali pra São Domingos é um passeio.

– Então vamos ter de levar o decomê, disse ela.

– Olha, essa madrugada ouvi uns mutuns piando, acho que caíram na arapuca, vou dar uma olhada. Ocê prepara os bichos, a gente almoça e ocês ainda levam um farnel de mutum com farinha. Tá bom assim?

Saíram. Laerte se lembrava de mais uma viagem tensa, os olhos ardendo de vigiar os matos e as margens do rio, o braço cansado de tanto remar, quando dava aproveitando a correnteza favorável para andar mais ligeiro. Olga ajudava a remar e ao se cansar se sentava no meio das abóboras com a garrucha na mão e olhos sempre atentos. O medo de viajar à noite por um rio que não conheciam fez com que procurassem um local abrigado onde pudessem esconder a canoa, descer e procurar um lugar para dormir.Era longe a feira.

Voltaram aos remos mal a claridade do dia despontou e pelo meio da manhã aportaram em São Domingos do Cupuaçu. A afamada feira, conhecida em toda a região, ocupava um amplo descampado entre o barranco que servia de ancoradouro para quase uma centena de embarcações de todos os tamanhos e a pequena estação ferroviária, onde a composição descansava. Ancoraram a canoa entre as embicadas na margem.

Mais de cinqüenta barracas, cobertas de folhas de palmeira, sapê ou lona grosseira, em fila dupla, com largas passagens entre elas, ofereciam todo tipo de produtos e serviços, e os negócios eram feitos a céu aberto. Todos falavam alto, quase aos gritos. No meio das barracas galinhas ciscavam e cachorros cochilavam.

– Muito dinheiro deve rolar por ali, comentou Laerte.

Passeou os olhos atentos pela redondeza, enquanto Olga localizava o Mané dos Fuios. Algumas barracas vendiam comida pronta, café com mistura, papa e angu borbulhante e cheiroso, cuscuz com coco, mingaus, carne seca frita, sarrabulho, cozido e comidas do gênero que eram devoradas avidamente pela multidão. A maioria das pessoas dormira por ali mesmo, em abrigos improvisados, ou havia chegado de manhãzinha, após remar ou cavalgar a manhã inteira, às vezes por toda a noite – e forravam o estômago para enfrentar o dia de compra e venda. Laerte reparou, perto da estação, umas barracas mais fechadas, com placas informando que compravam ouro, e homens, sentados diante de bancas pequenas, também comprando o metal. Havia ainda, andando pelo meio das barracas, uns sujeitos de olhos assustados e andar cauteloso, anunciando em voz audível apenas para os próximos, a compra de ouro e pedras preciosas. Notou ainda que todos estavam fortemente armados, os cabos de garruchas aparecendo nas cinturas. Outros eram seguidos por uns sujeitos fortes, que olhavam as pessoas de modo intimidativo. Junto às barracas maiores, homens mal encarados vigiavam compradores e vendedores.

– Não aceitei ir pra pensão que Mané indicou, disse Olga ao voltar, por que pra lá vão os garimpeiros e na certa nossos amigos tão lá à nossa espera. De qualquer maneira, o trem sai logo depois do almoço e vamos partir nele.

– Ocê sabe, disse Laerte olhando a locomotiva com preocupação, que nunca andei de nesse treco?

– No trem? Que isso, homem, há mais de 10 anos que o trem existe.

– Eu sei, ele se sentia encabulado e desconfortável, acontece que quando deixei a cidade o trem ainda tava pra chegar, depois me meti nos matos e só andava na mula. Hesitou antes de perguntar: é perigoso andar de trem?

– Que nada, uma maravilha. A gente vai sentada, apreciando as paisagens, conversando, comendo a matula, num instante chega onde quer. Ocê vai ver, amanhã pela manhã já estaremos numa estação, de onde ocê pode pegar o vapor para o Rio, não sei se já existe linha de trem direto pra lá. Adoro andar de trem.

– Prefiro vapor, já andei num, quer dizer, dei um passeio até uma cidade próxima, coisa de duas horas, mas não enjoei nem senti medo. Já o trem… Olha, e a voz dele se alterou: olha quem está lá na ponta a feira.

Ela olhou e se benzeu.

– Ah, meu Deus, eu sabia que iam acabar aparecendo aqui, mas como não tinha visto ninguém, tinha a esperança que viriam só depois da gente pegar o trem.

Na barraca do extremo da feira, sobre um caixote, Pernilongo examinava atentamente os arredores. Um pouco mais adiante, comendo uma fruta, Cabelo fazia a mesma coisa. Na beira da amarração das canoas, o português, como um gavião faminto, mãos na cintura, próximas do cabo da garrucha, vigiava cada embarcação que chegava ou saía.

– Ah, se eu tivesse aqui uma espingarda, suspirou Laerte.

– Só falta o Amaro, observou Olga. Todo cuidado agora é pouco. Abaixe a cabeça, o cabrunco tá olhando pra cá.

– Amaro tá por aí, bestando. Num ponto demos sorte, lembrou ele, chegamos muito cedo, eles ainda deviam estar dormindo naquela hora . E agora?

A feira se animava, grande número de pessoas circulava com bolsas  de palha, cestos e jacás, o calor aumentava sempre, Cabelo de momento em momento tirava o chapéu e sacudia a cabeça para exibir a bela e negra cabeleira. No fim de cada fileira de barracas um barbeiro atendia a freguesia em salão improvisado ao ar livre. Laerte esfregou a mão no rosto.

– Preciso fazer a barba, comentou, fico parecendo um pedinte com essa roupa suja e rasgada e essa cara barbada.

– Sua cara tá ótima assim, observou Olga, fica diferente, talvez até o espertinho do português tenha dificuldade em reconhecer.

– É, mas o pessoal do trem pode não querer me deixar entrar.

– Deixa sim, com dinheiro na mão qualquer um entra em qualquer lugar. Trem não é igreja.

– Por falar nisso, como vamos fazer pra trocar nosso ouro? Tem compradores por aqui, já vi. Ocê trouxe também o seu, não foi?

-É, os fregueses me pagavam em pepitas. Eu preferia dinheiro vivo, moedas sonantes, mas, vou fazer o quê, deixar a freguesia na mão? Nem sempre tem interessados mais perto… temos que ir até ali trocar as pepitas. É muito complicado. Nem sei quanto tá valendo o grama. E é arriscado. Como chegar às barracas sem ser vistos pelos cabras?

Laerte levantou a cabeça e arriscou um olhar na direção das barracas do ouro. Cabelo vigiava uma e Pernilongo a outra e de vez em quando arriscavam olhar em redor para

as barracas avulsas. Como é que vou fazer? pensou, nervoso.

– Ei, menino, chamou Olga em tom baixo, acenando com a mão para um garoto que passava chupando uma laranja. Chega aqui, depressa.

Laerte não estava se sentindo bem, de vez em quando um calafrio percorria seu corpo. A imagem pesava tanto que ao parar a depunha no chão. Sua altura chegava quase à sua cintura. Enquanto o menino se aproximava, ele mantinha os olhos nos bandidos. A todo momento continuava a aumentar o número de pessoas na feira e por uma ou duas vezes os perdera de vista no burburinho. Isso facilita um pouco nossa vida, pensou.

– Me conta uma coisa, menino, perguntou Olga com voz cariciosa, como faço para trocar pepitas de ouro por dinheiro?

– A senhora é garimpeira? estranhou ele.

– Não, meu filho, sou mulher da vida, os garimpeiros me dão as pepitas para pagar meus serviços na cama, entendeu? Ou ainda não sabe o que é isso?

O garoto, que devia ter cerca de 16 anos ou um pouco menos, corou e abaixou os olhos. – Ai, eu queria ter essa pureza, falou ela entre risadas gostosas.

Laerte também se encabulou, ainda bem que Bárbara não era desabrida assim.

– Meu filho, é o seguinte, preciso urgente trocar essas pepitas, porque tenho de viajar nesse trem que tá aí. Ocê pode chamar um desses homens que compram ouro?

– Olha, dona, ninguém vai vir não, a senhora é que tem que ir lá.

– Pois é, garoto, só que não posso. Tá vendo aquele sujeito que a toda hora tira o chapéu e sacode a cabeça? Veio no meu rastro e quer me matar. A mim e ao moço aqui, meu amigo. Ocê pode nos ajudar? Eu gratifico ocê com moedinhas.

Um tumulto movimentou a ponta oposta da feira, gritos, poeira no ar, braços e pernas se agitando. Um tiro de garrucha foi ouvido. Logo o sarilho foi controlado pelos cabras, que se deslocaram rapidamente para o local da baderna. Cabelo Bom se aproximou de Pernilongo e falou qualquer coisa em seu ouvido. Pernilongo olhou para o rio, cobrindo os olhos com a mão. Laerte não desgrudava os olhos deles. O português se mostrava impaciente, andando com as mãos na cintura de uma ponta a outra do barranco. E onde estariam o cearense e o Amaro? O menino se manteve calmo, tiroteio era parte de sua rotina desde que se entendia por gente.

Quando a calma retornou e a poeira baixou, Olga, que tinha se posto de cócoras ao lado do garoto se levantou:

– É sempre assim aqui?

– Mais ou menos, tem dia mais animado outro mais quieto, a gente se acostuma. O dono da barraca perto da estação é meu pai, informou o menino, timidamente.

– Ocê tá brincando, garoto lindo! exclamou ela, agarrando-o com força pelos ombros magros. Laerte, o pai dele também compra ouro! Não foi Deus que mandou ele pra nós? Laerte, ei, ocê tá olhando o quê?

– Nossos amigos, ué! Indagorinha deu outro arranca rabo perto do Cabelo e ele foi pros lados do Pernilongo e os dois estão confabulando e correndo os olhos pelo ambiente. Falando de nós, na certa. Ó, estão indo pro lado adonde está o português. A quadrilha se reúne.

– Menino, comé seu nome? indagou Olga.

– Tomé, a seu dispor.

– Olha, Laerte, tão educadinho. Me diga, Tomé, como a gente pode ir até à barraca de seu pai sem chamar a atenção dos disgramados que estão no rastro da gente?

– Alá, Olga, aparteou Laerte, eles foram pra baixo da árvore para conversar. Por que não aproveitamos e damos uma corrida até a barraca do pai do Tomé? Eles tão distraídos, devem tá com os olhos ardendo de tanto procurar por nós debaixo do sol.

Mais um tumulto estourou no meio da feira. Pessoas correram assustadas, uma criança berrou, cachorros correram com o rabo entre as pernas. Galinhas trocavam pernas na correria. Mais poeira no ar.

Pouco antes uma voz de mulher tinha berrado: tira a mão de mim, vagabundo, eu não sou sua mãe. O estalar de um tapa a calou. Os que pareciam seguranças correram pra lá. Um papagaio, pousado no pau de uma das barracas pôs-se a gritar pega ladrão.

O menino disse: Vamos aproveitar.

– Depressa, disse Olga, e pegou-o pela mão.

– Não, disse o menino, devagar, que o povo daqui é muito desconfiado. Tão sempre com um pé atrás e desconfiam de qualquer coisa. Em toda feira morre uma pessoa, pelo menos, às vezes à toa. Só porque alguém desconfiou de alguma coisa. Correr aqui é perigoso.

– Então vamos andando bem junto às barracas. Olha, Laerte, ali vendem chapéus e ocê precisa de um, esse seu tá um nojo de sujo e seus amigos conhecem ele.

Laerte tirou o chapéu e o jogou no chão.

– Na volta compro um, afirmou. Não agüento esse sol de brasa. Olhou pra trás por cima das barracas, os homens continuavam confabulando na sombra da árvore. Ainda estão esperando a gente chegar, pensou. Pra eles ainda tamos no rio, comentou, vamos agir.

O pai de Tomé chamava-se Josué, era gordo e atencioso. Uma cara redonda e simpática. Loja vazia, era cedo pros negócios. Contaram-lhe toda a história. Avaliou os dois detalhadamente, como se quisesse penetrar no fundo de cada um e depois olhou as pedras em silêncio. Olga resumiu a situação deles, sem omitir nada. Ela era hábil em perceber se alguém mentia pelo seu tom de voz e pelo olhar viu que o comprador devia ser do mesmo jeito. Ele avaliou as pepitas, abriu a gaveta, pagou o que cada um tinha direito e disse ao filho:

– Leve os dois lá pra casa e diga a sua mãe que eles são casados, entendeu? Ocê tem roupa limpa? perguntou a Laerte.

– Ele trouxe algumas do garimpo, respondeu a mulher, mas não sei se tão em condições. Não pude olhar antes.

– Dá pra ver que essas tão bem ruins. Fui com a cara de ocês e vou ajudar a arrumar uma roupa decente. Conheço esses casos de garimpo, lido com essa gente todo o dia. Devia também comprar umas botinas, esses tamancos estão se esfarinhando.

Laerte olhou envergonhado para os pés. Tinha pensado em comprar um par novo, tinha de chegar no Rio calçado decentemente. E o chapéu, claro. Não exagerava quando disse que parecia um mendigo andrajoso. Mas não botinas, um bom par de tamancos.

– Vai com eles, Tomé, com cuidado. É bom ver se os bandidos continuam no mesmo lugar. E fala pra sua mãe dar comida pra eles. Ocês podem pagar, não podem?

– Claro, disse Laerte, e ainda ficamos lhe devendo obrigações.

– Devendo nada, sou comerciante e procuro tratar bem meus fregueses. Tenho faro para saber quem é bom ou não. Depois de tantos anos nessa profissão e nesse lugar… E tenho certeza que se um dia ocês voltarem a São Domingos para negócios vão me procurar.

Saíram sorrindo. Tomé comentou.

– Sorte a de ocês, meu pai não costuma ser bonzinho assim;

Lavados, vestidos e almoçados, foram levados por Tomè, por caminhos discretos até o trem. Antes de partir, deixaram moedas nas mãos do garoto.

Casas, matas, pessoas e bichos passavam rapidamente pela janela do trem. Um bode era arrastado na estrada de terra que seguia ao longo da linha férrea por uma corda amarada ao pescoço por um rapazola. O céu era uma longa faixa azul cortada por montanhas. Laerte, olhava fascinado, sentia porém vertigens, que não sabia se atribuía à louca velocidade em que o trem tinha se deslocado até ali ou se juntava aos calafrios que percorriam seu corpo, uma péssima indicação.

– Acho que a malária tá querendo voltar, disse a Olga na despedida.

Ela desceu numa estação intermediária para embarcar em outra condução para sua terra e ele seguia para o Rio. Quem sabia o remédio para a sezão era a Bárbara, um chá de várias folhas que aprendera com a avó. Bárbara, preciso de ocê!

– E como ocê vai fazer se a doença surdir? perguntou ela, o cenho franzido.

– E eu sei? Por enquanto sei que tô sentindo uns calafrios e um pouco de dor de cabeça. Pode ser gripe, resfriado. Se daí a mais pouco começar o calorão de febre, aí deve de ser a maldita. Tomara que eu aguente até chegar em casa.

Ia agüentando. Por outro lado, as botinas apertavam seus pés e ringiam quando andava, a roupa que conseguira estava um pouco folgada e o saquinho com o ouro entre suas pernas ralava a pele e incomodava. Ai, meu Deus, pensava ele, quanto sacrifício que a gente tem de fazer. Tinha a impressão de que todos o olhavam, fazendo troça. Tomara que valha a pena e que eu encontre minha mulher. Sem ela a vida não tem graça, vou fazer o que com esse dinheiro?

O ritmo e o rumor constante do resfolegar do trem faziam com que tirasse grandes cochilos, mesmo sentado no banco duro. Desde que deixara a feira de São Domingos e os pistoleiros para trás relaxara. Por uns tempos estaria livre deles, mas não se iludia, mais cedo ou mais tarde iriam no seu rastro.

Uma de suas maiores preocupações era a ausência de Genésio na feira. Onde estaria o safado? Será que havia se juntado ao Amaro e ido em busca de pistas para descobrir onde Bárbara se escondera? Mas quem poderia informar o paradeiro dela, se o único que sabia, o Felipe, estava morto?

Laerte sentia remorsos ao pensar no negro, vergonha dos seus ciúmes e culpa por parte do que acontecera. Como pudera ser tão bobo, acreditar nas besteiras que os antigos companheiros falavam? Bárbara o amava e se o deixara no garimpo era para preservar sua vida e a do nenê. Na certa ela achava que não a encontrando os pistoleiros iam desistir. Triste ilusão.

A carroça parara e Jair o chamava. Custou a se incorporar, ainda estava no trem, o chiar da cambona que os acompanhava e o balançar da carroça reforçavam a ilusão. Jair e o carroceiro estavam voltados para ele e a carroça parada no meio de uma encruzilhada.

– E agora, perguntava Jair, pra que lado nos vamos?

– Vamos seguir em frente ou dobramos aqui? indagou o carroceiro.

Laerte ficou de pé, soltou a coberta dos fueiros e olhou em volta. Pouca coisa mudara desde que partira há mais de 10 anos. A cambona seguia em sua chiadeira, os pacientes bois, unidos pela canga, arrastando uma quantidade enorme de canas cortadas. Um gavião revoou e foi pousar num mourão mais adiante.

– Vamos dobrar à esquerda, ensinou ao carroceiro. Ali adiante ocê vai encontrar uma balança, onde a cambona vai parar pra descarregar as canas. Vamos andar um pouco mais e estamos em casa.

– Ufa, bufou Jair. Tô com a bunda dura de tanto tá sentado

– Olha a boca suja, moleque. Deixa Xandoca saber disso. Pare de reclamar e me dê um copo de cajuada. E um pedaço de bolo. Pro Militão também. Aproveita e come também para não desmaiar.

O trem entrara numa área mais povoada, casas e ruas se sucediam. Crianças soltavam pipas ao longo dos trilhos e se afastavam quando a composição se aproximava demais. Um perigo. Laerte levantou-se para ir ao banheiro. No trecho de viagem compartilhado com Olga, ela lhe ensinara como atender a suas necessidades no trem. Enquanto urinava tirou o dinheiro do bolso e separou-o em maços. Não trocara todo o ouro que trouxera no bolso do paletó. Algumas pepitas continuaram metidas na bainha do paletó. Colocou notas e moedas em bolsos diferentes, nas cidades grandes, cheias de punguistas, tinha de ser mais cuidadoso. Olga também lhe dera lições de como agir na cidade e ainda o endereço de um pequeno hotel, no centro, de um conhecido em quem confiava. Como esta mulher conhecia gente, sô! E como conhecia lugares! Até a capital conhecia! Essas mulheres andam muito, concluiu.

Voltou rápido ao banco, preocupado com a santa guardada na mala. Comprara a mala de Josué, embora bastante usada, servia a seus propósitos de ocultar a imagem.

– É melhor assim, lembrou o vendedor, uma mala nova poderia atrair a atenção dos ladrões descuidistas. Um amigo meu teve sua mala roubada em plena estação da estrada de ferro durante o dia. O Rio está cheio de ladrões. – Bateu na mala com a mão aberta – Veja ocê mesmo, é resistente, as malas de hoje parecem de papel de embrulho, essa aqui não, é de um papelão de primeira, importado da França, hoje em dia não se faz mais mala assim.

E ele comprara. Josué fora prestativo, mas não deixara nada por cobrar: comida, banho, roupas usadas, enfim, fora útil, mas não de graça, a preços um tanto majorados. Laerte só não fizera a barba, a conselho tanto de Olga, quanto de Josué, que viam perigo no deslocamento do barbeiro, cuja ida a uma casa significava que o dono estava doente e não podia ir até sua cadeira.

– O povo é por demais curioso, alertara Josué, ia logo querer saber quem estava doente e os homens podiam desconfiar. E a barba grande modifica as feições de um homem e dificulta o reconhecimento.

Quanto a cobrar pela ajuda, Olga admitia que ele tava certo, ninguém faz nada de graça. Compreendera que o comprador correra riscos, se os bandidos soubessem que tinham ficado acoitados em sua casa até o trem dar partida, sofreria conseqüências. Eles iam embora, mas Josué ficaria ali, com seu negócio.

E quanto valeria a ajuda que lhes dera? Não tinha como apreçar.

– Não gosto de ladrões de ouro, disse Josué, e me sinto feliz em poder ajudar ocês. Agora vão com Deus, que o trem tá pra sair.

O importante é que a cada apito do trem Laerte se sentia mais perto de casa. A cabeça doía e as vertigens preferia atribuir à rapidez do deslocamento da composição e por ficar olhando a paisagem passar quase voando, embora pudesse ser da doença. Não posso adoecer antes de chegar em casa, pensava a cada sintoma que surgia.

Chegou à estação de destino ao alvorecer. Saiu carregando a mala e logo alguns homens se acercaram. Fizeram propostas, convites. Não deu atenção, fez tudo exatamente como a amiga lhe ensinara e em pouco tempo tomava café num bar em frente ao cais onde pegaria o vapor. No tempo de espera aproveitou para ir ao barbeiro, ali do lado do bar, sempre agarrado à mala. Finalmente se livrara da barba que tanto coçava. Não gostara de ver no espelho o amarelo de sua pele. Mau sinal, pensou.

A viagem de volta no vapor não foi tranquila, vomitara algumas vezes, sentira tonturas, dores na cabeça e por todo o corpo e muita febre. Boca seca e suor intenso. Era a danada. Sua roupa ficara encharcada muitas vezes até chegar à pensão de Xandoca, seu porto seguro.

– Laerte, avisou Jair, já passamos pela balança.

Ele sentira forte vontade de chegar à pensão de Xandoca, o que não acontecia agora. Era a sua casa, agora ia à casa de sua mãe. Ergueu-se com vagar e olhou em volta. Lá estava a casa de Maneco Batista, a venda de Marechal, estavam enfim chegando.

– É aquela – e apontou para uma pequena casa num descampado.

– Aquela? E a voz de Jair mostrava sua decepção.

– É, ocê pensou o que, que era um palácio? A casa onde ocê nasceu não deve ser muito melhor que essa aí. Vai, salta, dá uma corrida e abre a cancela pra gente passar.

Aberta a cancela, Jair correu, gritando o nome de Marica. Ela surgiu justo quando a carroça parava em frente à sua porta descolorida pelo sol. Laerte olhou a mãe e sentiu um bolo crescer na garganta. Ela se tornara uma figura miúda, vestida de preto, costas curvadas, cabelos grisalhos presos num coque, boca desdentada. Agarrada a seu vestido, uma mocinha muito branca, com olhos de chinês e boca aberta o olhava. Sentiu vontade de chorar, mas se segurou.

– À bença, mãe.

Antes de estender a mão para ele beijar, ela perguntou:

– É ocê mesmo, meu filho Laerte? Tá tão diferente, grande, voz grossa, apeie, chegue mais perto, pra eu ver ocê direito.

Xandoca desejava muito visitar Laerte, mas depois que Jair lhe contara como fora difícil e incômoda a viagem desistira. Sentia-se velha para enfrentar esses percalços. E não tinha vontade de conhecer a mãe dele, que considerava sua rival.

Acho melhor esperar que ele apareça por aqui, pensou, o que não deve demorar muito, se ele for fazer realmente o que prometeu. Aí, quando inaugurar a capela eu vou lá.

Laerte teve muito que fazer antes de começar a construir a capela. Tinha pensado em resolver tudo em no máximo três meses, mas quase um ano se passara e a capela ainda não estava pronta. Faltava pouco, é verdade, mas queria vê-la terminada e a santa entronizada para então partir em busca de pistas de Bárbara e da criança. Ia primeiro atrás de Olga, tinha o nome da cidade onde morava, Santo André do Rio Acima, e ela o ajudaria a localizar a amada. Ela sabia muita coisa de Bárbara.

Encontrara muitos problemas em casa, a começar pelos irmãos, indolentes, cheios de dívidas e incapazes de reagir. Sua primeira idéia era deixá-los assim, se esvaindo na própria preguiça, mas tinham família, mulheres, filhos e a pedido da mãe emprestou dinheiro e ajudou no que pode. O único que demonstrava um pouco de vontade de trabalhar era o Jofre. Só que era muito lerdo. Acho que sofrem de anemia, pensou. Foi isso que disse um médico que visitou o garimpo ao ver um homem estirado no chão, a olhar as nuvens que se esgarçavam no céu.

– Que nada, é preguiça mesmo, disse um vizinho. Desde o tempo de seu pai que é assim. Antes se encostavam em seu pai, agora que ocê chegou…aí é que vão largar tudo o que tão fazendo é viver nas suas costas.

– Comigo não, sempre trabalhei, desde mocinho pego no batente e não vou sustentar malandros.

A mãe, porém, insistia para que ajudasse os irmãos e dizia:

– De que adianta, filho, ter uma capela, se meus filhos e netos passam dificuldades? Eles não têm sua fibra, sua força de vontade, faça alguma coisa por eles. Ocê tá rico e os coitados lutam com muita dificuldade. A terra daqui não presta, a lavoura não dá nada.

E lá se fora o dinheiro trocado na feira de São Domingos. Como prioridade havia estabelecido que antes da capela reformaria a casa da mãe, onde passara a viver. Para isso precisou lançar mão de mais um tanto do ouro guardado no saquinho que, mesmo estando em casa, não tirava de entre as pernas.

– Todo mundo é muito sério, são irmãos e parentes que aparecem para visitar, todos com algum pedido a fazer, mas não posso confiar em nenhum, pensava.

No garimpo aprendera a desconfiar de tudo e de todos, a procurar o que havia por trás das atitudes das pessoas. Sempre havia interesse oculto. Aos parentes contava a velha história do roubo no vapor, lamentava o tempo perdido no garimpo, mas à medida que ajudava os irmãos e reformava a casa para sua mãe, a desconfiança de que estava rico voltava. E os pedidos de dinheiro.

Não sabia como ressurgira a história do tesouro. Na brincadeira, dizendo que não falavam a sério, muitos perguntavam por ele. Alguém que viera da cidade espalhara o que ouvira por lá.

– Que tesouro é esse, gente? Ocês me viram chegar carregando algum saco, algum baú tampado de ouro?

Sabia que o sondavam, que observavam sua reação às perguntas e mantinha a expressão fria e desinteressada.

– Se eu tivesse um tesouro não tava aqui, pegava minha mãe e ia viver na cidade, onde tem mais conforto.

Quando se esgotaram os recursos obtidos com a troca do ouro na feira, voltou à cidade para trocar mais pepitas. Custou a encontrar comprador, ninguém sabia o preço do metal, não era área de garimpo e precisou se deslocar para uma cidade maior para efetuar a venda. Acreditou que o dinheiro obtido daria para terminar a obra, mas via que o preço encarecia quando procurava trabalhadores ou materiais. Não tinha experiência no assunto, sabia que era enganado, procurou outros fornecedores fora dali, o que lhe angariou antipatias. Os parentes a quem havia negado empréstimos não o procuraram mais e os irmãos, que sempre achavam que não eram atendidos a contento, que um recebia mais atenção e dinheiro que outro, também se retraíram, o que provocava severas repreensões da mãe, para quem ele não dava o devido valor aos irmãos, sobrinhos e primos. Estava difícil manter a família satisfeita.

Reformara sua casa, quando a idéia era construir uma nova, mas a mãe se recusava a passar algum tempo em outra casa até que a nova ficasse pronta. Fizera o que pudera, sem tocar no quarto onde a mãe dormia com a filha caçula, dependente dela em tudo. A única mudança feita ali foi trocar uma parte da parede de barro que se apoiava no chão por tijolos, para acabar com a umidade. A irmã boba vivia resfriada. Às vezes tinha a sensação que a mãe o considerava um parente chegado e não um filho.

Queixava-se a Xandoca quando ia visitá-la.

– É natural, né, meu filho, ocê passou tanto tempo sem dar notícias. No princípio ela deve ter sofrido muito com sua ausência e com a falta de notícias, depois o tempo foi apagando sua figura, as feridas foram se fechando, era como se ela tivesse um filho tão morto como os que ela enterrou. E quando ocê volta, tá irreconhecível, mais velho, mais forte, inteiramente diferente do filho que ela viu deixar sua casa e cuja imagem tava em sua memória. É justo que ela o estranhe, é justo que ela procure tirar de ocê e dar pros que ficaram junto dela, passando as mesmas dificuldades, mas sem condições ou saúde para sair dela. Ocê passou a ser o parente rico. Ajudar esse povo no que puder é a única forma de reconquistar sua mãe. Sua outra mãe, né? perguntou rindo, por que sua mãe de verdade sou eu.

Ele a abraçara e chorara, descarregando todos os sentimentos negativos que estavam atrapalhando sua vida. A continuar assim, pensou, volto pro garimpo. Antes, porém, ia encontrar Bárbara.

Não contara sobre Bárbara à mãe, um pudor trancava sua boca, ou então por achar que nunca mais encontraria a mulher e o filho, não valia a pena avisar aos parentes. Era um solteirão e a mãe vivia lhe falando das moças casadoiras da região, seus dotes e beleza física e moral. Sorria e desconversava. Muitas apareciam no portão para conversar com a mãe, olhando o tempo todo para a capela, onde ele orientava os homens que contratara. Fingia que as não via.

No dia em que, finalmente, começara a colocar o telhado da capela, um dos irmãos lhe dera uma péssima notícia. Um homem novo, baixo e corpulento, que falava cantando, andara pela região fazendo perguntas aos moradores, querendo saber onde vivia uma pessoa que, pela descrição, só podia ser ele. Queria saber se era verdade que o homem trouxera um tesouro.

Laerte ficou pálido, só podia ser o cearense arretado, a mãe disse apenas:

– Eu sabia que um dia isso ia acontecer.

– E cadê o tal homem? ele quis saber.

– Sumiu.

Deve ter ido avisar aos outros que me encontrou, pensou Laerte. E o medo não deixou que dormisse direito. No dia seguinte, deixou os dois homens trabalhando na colocação das telhas, selou o cavalo e viajou para a cidade. Encontrou Xandoca preocupada. Só podia ser mesmo homem, considerando suas características físicas e o interesse em saber do homem que trouxera um tesouro na mala. O sujeito se hospedara por uns dias no Hotel do Comércio. Ela nem chegara a vê-lo, quem falara com ele fora o Jair e por isso ficara temerosa, o moleque não sabia segurar a língua.

– Na certa contou tudo, só pra se gabar, e deve até ter ensinado ao tal como chegar em Valetas. Dei-lhe uma bronca, mas já era tarde.

– E o homem, perguntou Laerte, nervoso, cadê ele?

– Mandei Jair ficar de olho e no dia seguinte ele viu o tal embarcar num vapor.

– Minha situação ficou complicada, resumiu, e contou a Xandoca quem ele achava que era o homem e o perigo que representava. Jair devia ter ficado calado.

– O erro foi meu, disse ela. Sabendo como o moleque é espevitado, não devia deixar que ele fosse a Valetas com ocê. Mas estava preocupada, com medo que tivesse outra crise de maleita…

Xandoca fungou e enxugou uma lágrima disfarçadamente ao passar o pano de prato pelo rosto suado.

– Não vamos chorar pelo leite derramado, disse ele. Vamos aproveitar o boquirroto do Jair para espalhar pelo cais que eu viajei. O nome do tal sujeito é Genésio e deve ter deixado um olheiro vigiando meus movimentos. Vamos mandar Jair no cais dizer que viajei para a Bahia, não, não, Bahia não, que fui ao Rio de Janeiro consultar um médico. Por causa da crise da maleita. Acho que dá pra enganar aquele safado.

Antes de retornar a Valetas comprou outra espingarda, um revólver e munição.

Construíra uma capela simples, com paredes de barro socado, bem firme, como a mãe queria, um salão retangular com capacidade para umas vinte pessoas, o altar principal para a santa Bárbara e mais dois laterais, escavados nas paredes, para imagens pequenas que ela guardava há muitos anos sobre a cômoda do quarto. Duas jarras de vidro haviam sido oferecidas pelas filhas e a toalha ela bordara e cercara de rendas. Uma porta azul no meio da fachada e outra menor na lateral traseira, mais duas janelas azuis completavam o prédio, junto com dois ornamentos arquitetônicos em cada ponta do telhado. Pequena cruz de ferro foi posta no frontispício do telhado de telhas canal. Um muro baixo separava a capela da casa da mãe.

– Muito linda, a mãe disse. Só não sei se a santa vai ficar satisfeita, tomara que fique, santos gostam de igrejas grandes, cheias de enfeites e dourados.

– Vai sim, mãe, esta é uma santa muito compreensiva.

Ele parecia desconfortável, os olhos baixos e as mãos se enroscando uma na outra. Ela o observava com o rabo do olho até que falou:

– Desembucha logo, disse a mãe, desde pequeno que ocê fica assim quando comete um malfeito. O que foi dessa vez?

– Não é malfeito nenhum, mãe, é que tenho de fazer uma longa viagem.

– De novo? – Sua voz era severa – Parece que tem bicho carpinteiro no corpo!

– É sério, mãe, eu preciso. E já que a capela está pronta, posso dizer que cumpri o que prometi e a senhora fica sabendo que vou cumprir de novo. Vou voltar com Bárbara e com meu filho.

Numa daquelas noites, com o rosto meio borrado pela fumaça da lamparina, ele tomara coragem e lhe contara sobre a mulher e o filho. Ela não fizera qualquer comentário.

– Vai viajar pra isso? ela se impacientava. E adonde fica o lugar onde sua mulher e filho estão acoitados? É muito longe daqui?

A irmã boba o olhava atravessado, por sentir que ele estava aborrecendo a mãe.

– Eu vou deixar a senhora bem, não fique preocupada. Deixa eu dar uma olhada aqui em volta pra ver se tem alguém, preciso lhe falar sem ninguém ouvir.

Ela continuou sentada no primeiro banco, olhando a santa. Ele veio sentar-se a seu lado.

– Pede a ela, disse apontando a irmã com o queixo, pra ir brincar lá fora.

– Virge, que tanto mistério é esse? Vai, minha filha, pega umas batueras e vai brincar de boneca, vai. Daqui a pouco eu chamo ocê de vorta.

A adolescente deu um muxoxo, cruzou os braços sobre o peito mofino, mas saiu. As rugas de preocupação se acentuaram no rosto da velha.

Num tô gostando nada dessa história, resmungou Marica. É muito segredo pro meu gosto. Vamos, conta logo, num me deixa mais nervosa.

– Bom, mãe, eu preciso sair daqui o mais rápido possível porque tem uns sujeitos atrás de mim.

– Disso eu sei. Eles querem o quê, os sujeitos?

– Eles acham que eu trouxe pra cá um tesouro de ouro e pedras preciosas. A senhora sabe que eu trouxe alguma coisa sim, mas coisa pouca, afinal mourejei durante muitos anos naqueles matos, era justo. Tudo fruto do meu trabalho e não é grande coisa, pelo tempo que perdi lá, pela doença que peguei, devia ter muito mais.

– E quem são esses homens, meu filho?

– São bandidos, mãe, gente da pior espécie.

– E ocê andava metido com esse tipo de gente lá no garimpo ?

Estava escandalizada. Ele abriu os braços, num gesto de desânimo.

– Como é que eu ia saber que eles não prestavam? As pessoas se aproximam da gente, são simpáticas, prestativas, vão se tornando necessárias, não tem como a gente saber se são boas ou não. Aí, de repente…

– Foi por isso que sua mulher Bárbara não veio? O que aconteceu com ela?

– Eles queriam pegar ela, mãe, acham que ela tem o poder de descobrir onde tem ouro, que ela fala com a mãe do ouro, o que não é verdade. Tinham arrumado tudo de forma a me matar, matar o Felipe e prender ela. Felipe ouviu eles tramando e foi nossa salvação. Mesmo assim, pra não ser apanhada por eles, ela teve de sumir sem me avisar. Ela tá esperando um filho meu e nem sei onde eles tão.

– Não sabe onde tão sua mulher e seu filho? perguntou horrorizada. Como pode? Se seu pai estivesse vivo, eu nem sei.

Ele balançou a cabeça, desolado.

– Não sei, mãe, não sei mesmo. Eles escapuliram enquanto eu tava garimpando, era a única maneira de fugirem sem os bandidos perceberem. Para proteger o neném. Quem sabia o paradeiro dela era o Felipe, mas mataram o pobre coitado quando tava voltando pra me contar onde ela se escondera.

– Credo em cruz, que gente perigosa!

– E é por isso que vou viajar. Preciso encontrar ela. Eu até tinha pensado, como ela deve de tá em segurança, é o que eu acho, em esperar por aqui até benzer sua capela, rezar uma missa ou ladainha e depois ir, mas com certeza os pistoleiros tão no rastro dela, também às cegas, como eu, pois Felipe nada contou. Tenho medo que os lamparões encontrem ela primeiro. Gosto muito dela, mãe, é uma pessoa da melhor qualidade, e também tem o neném, que nem sei se nasceu, se tá bem…

Marica coçou a cabeça, o dedo fino entrando por baixo do lenço.

– Entendo, filho, e não se preocupe. Ocê tem de achar sua família e trazer pra cá. Nós já esperamos tanto tempo por ocê, podemos esperar um pouco mais. Seu pai é que achava que ocê nunca ia voltar, mas eu nunca perdi a fé. Agora, então, tendo essa santa para rezar vou fazer muita promessa, rezar e acender vela toda noite.

– Dessa vez vai ser um pouco diferente, mãe. Não vou deixar ocês passar necessidade.

Pegou um embrulho de papel e entregou a ela.

– Aqui, mãe, tem dinheiro procês comprar as coisas de comer até eu voltar. Não era assim que queria que fosse, queria ter Bárbara aqui, ocê ia gostar dela, tenho certeza.

– Se ela gosta docê…eu gosto dela. Ocê vai achar ela.

Ela pegou o pacote.

– Mãe, sei que não preciso fazer recomendações, mas sei também que quando a família souber que a senhora tá com esse dinheiro vai lhe apoquentar até pegar algum. Não diga a ninguém, nem ao Jofre, que é o mais sério, que tem esse dinheiro. Encontre um bom lugar para esconder. Evite guardar em lata de comida, debaixo de telha ou tijolo, do colchão, procure um lugar que ninguém possa desconfiar, tá bem?  Com esse dinheiro ocês tarão bem servidos.

Ela confirmou com um gesto de cabeça, mas ele não estava tranquilo. Se os irmãos desconfiassem que ela estava com tanto dinheiro… por isso, embrulhara notas e moedas em papel comum de venda, papel de embrulhar feijão, carne seca, farinha. E pressentia ainda que seus miseráveis perseguidores voltariam e… não, ele não queria pensar no que poderia acontecer. Não se pensa no mal, senão ele vem, dizia o ditado. A mãe é esperta. Tenho de acreditar nisso, senão não vou ter sossego.

As paisagens continuavam a se deslocar velozmente, mas já não estranhava nem sentia vertigens. Preferia mesmo o trem ao vapor. Mais confortável e não tinha que ficar olhando o mar assustador, sem fundo, sem ter onde se agarrar caso afundasse, a pensar como seria se houvesse um naufrágio. Com o trem não aconteciam acidentes.

Tinha deixado o cavalo aos cuidados de Jair, a quem dera uma pepita bem pequena. O menino se entusiasmara.

– Isso é pra ocê espalhar por aí que é rico, comentou rindo.

– Se ele fizer isso, cortou Xandoca, vai provar que é mais burro do que eu penso, pois vai ser perseguido por todos os miseráveis e ladrões da cidade.

– Falo não, tá doido, sô, disse o moleque, com os olhos grudados na pedrinha que rolava entre os dedos. E pode ir tranqüilo, Laerte, que vou cuidar muito bem do cavalo. Melhor até que ocê. E traga bastante ouro pra nós.

– E quem disse que vou garimpar? Vou é procurar minha mulher e filho.

Esperou que o moleque retornasse à cozinha e tirou do bolso interno do paletó um maço embrulhado em papel vagabundo, de embrulhar mantimentos nas vendas.

– Isso aqui, Xandoca, é para o caso do Jofre chegar aqui contando misérias. Muito cuidado que aquilo é um povo muito do safado. Só solte dinheiro se realmente for necessário e não dê tudo de uma vez. Se ocê for boazinha, vão gastar o dinheiro que tou deixando e ainda vão lhe pedir mais.

– Deixa comigo, não foi sendo mão aberta que consegui juntar dinheiro para comprar esta casa e abrir a pensão. Deixe esses crápulas comigo.

– Tenho medo também que os bandidos voltem e achem que deixei o ouro por aqui e invadam sua casa. Portanto muito cuidado, Xandoca, e me perdoe por atrair essa gente maldita pra cá.

– Ladrão, meu filho, existe em tudo quanto é lugar. Sei me defender. Vai com Deus.

Uma estranha sensação acompanhava Laerte desde fizera baldeação de trem na cidade vizinha. A sensação de estar sendo observado. Que bobagem, pensou, tou é ficando maluco. Como algum deles ia saber que eu pegaria este trem? De qualquer maneira olhou bem os passageiros e não viu nenhum dos antigos companheiros de garimpo. Mas a sensação não o abandonou.

Santo André do Rio Acima era um pouco maior que a feira de São Domingos, uma cidade para fazer negócios, via-se pelo tipo de homens que desembarcaram. Muitas pessoas circulando na praça, gente apressada que se misturava às galinhas, gansos e patos, cachorros, porcos, jegues, cavalos e até boi puxado por uma argola no focinho. Laerte saltou e procurou um lugar para tomar café e se informar.

Mas se informar como? Ia perguntar o quê? Pensara muito durante a longa viagem. Perguntar se conheciam uma tal de Olga? Certamente que o nome de batismo dela não era esse. Nenhuma mulher dama usa seu nome de batismo. Nem seria conhecida como mulher da vida na sua cidade. Ao voltar deve ter inventado um bom motivo para ter ficado tanto tempo fora. Como fazer para descobrir seu paradeiro?

A sensação de estar sendo seguido continuava forte, era como um papagaio pousado em seu ombro. Resolveu andar um pouco pelas redondezas para pensar melhor no que fazer e verificar se alguém o vigiava. Circulou pela pracinha maltratada, os tufos de capim ralo surgindo entre pedaços de terra vermelha nua, cercada de carroças e charretes. Entrou na igreja, rezou, andou à toa, parando de vez em quando, de supetão, para ver se alguém vinha atrás dele.

Não viu ninguém. Gastou assim a manhã inteira. Vou ficar aqui até descobrir alguma coisa sobre Olga, decidiu, é a única que pode me ajudar. Nem que tenha que passar a noite numa pensão. Não sei como, mas vou descobrir onde ela se meteu. O trem passava de novo pela estação só no fim da tarde.

A comida que lhe serviram não era gostosa como a de Bárbara ou de Xandoca, nem como a de sua mãe, mas dava para comer. Sentou-se junto da janela para continuar a vigiar a praça. Pediu pinga e encheu um copinho, que ficou rodando entre os dedos. Por um momento teve a impressão de ver atravessando rápido a rua, cabeça baixa, uma conhecida figura de homem. Lembrava o Amaro Neto, mas devia ser coisa de sua cabeça, eles não iam mandar para segui-lo o palerma do Amaro. Viu que do outro lado da praça havia outra pensão. A tal figura entrou lá. Quando chegava a um lugar estranho nunca conseguia ver tudo de uma vez, num só golpe de vista. Aos poucos identificava casas e ruas. Será que conheço esse sujeito? Depois vou passar por lá para tirar essa cisma, decidiu. Será que ele me segue a viagem inteira?

Laerte observou o homem que trazia sua comida, um tipo indiático, de cor vermelho- amarronzada, baixo e encorpado, os olhos puxados, o cabelo parecendo uma cuia negra que lhe haviam enfiado na cabeça, camisa branca de mangas compridas, calças de cor escura e descalço. Pelo menos parecia limpo. No prato, arroz com feijão, farofa, dois ovos estrelados, um naco de carne e couve cortada.

– Hoje só tem isso, desculpou-se sorrindo, amanhã vai melhorar.

Laerte sorriu compreensivo.

– Tem pouca gente na cidade.

– É, amanhã é que começa, né, mas no domingo vai tá apinhado de gente.O senhor veio comprar ou vender?

– Nem uma coisa nem outra, vim procurar uma pessoa.

– Daqui?

– É, ocê conhece uma dona chamada Olga?

Ele franziu o sobrolho, levou a mão à boca, apertando com os dedos o lábio inferior, formando um bico, pensou um pouco e respondeu.

– Conheço não senhor, nunca vi ninguém aqui com esse nome. Mas vou indagar de dona Zilda, quem sabe ela conhece? Ai, gente, num é que esqueci os taié?

Voltou correndo ao balcão. Laerte acompanhou-o com os olhos que esbarraram numa menina morena, vestindo bata branca, também de traços indiáticos, que bem perto do balcão o observava, as mãos se torcendo diante do colo. Ele sorriu e ela se animou a falar:

– Tia Durvalina pediu que depois que acabar de comer, se o senhor pode dar um pulo lá em casa. Ela precisa lhe falar.

O garçom se aproximou trazendo garfo e faca e mais uma moringa com uma caneca de lata acompanhando.

– Não conheço nenhuma Durvalina, disse Laerte, já com a sensação que se tratava de Olga. Mora aqui perto?

– Ali, disse o garçom apontando o outro lado da praça com o queixo. Ela morou muito tempo aqui, depois viajou, ficou muito tempo fora e agora voltou. Tá meio adoentada.

– Tá entrevada, coitada da tia, disse a garota.

Laerte sentiu um arrepio, era Olga. Quis largar tudo e ir ao encontro dela, mas pensou no homem que estava na pensão que ficava do outro lado da mesma praça e que podia ser o Amaro. Decidiu agir com cautela. Sorriu simpático para a garota

– Vou sim, pode ser que ela me conheça, né? esse mundo é tão pequeno, e não gosto de deixar na mão uma pessoa doente. Ocê espera eu acabar de comer?

Ela balançou a cabeça afirmativamente. Laerte comeu o mais depressa que pode, bebeu uma caneca dágua e foi ao balcão pagar a refeição. Estava sentindo uns arrepios de frio e isso o preocupava. Será que a maldita quer me pegar de novo? Será que é só eu me afastar de casa que ela aparece? Enquanto esperava o troco olhou a praça pela janela. Parecia coincidência, mas o homem que o seguia, ou parecia segui-lo, surgiu na porta da outra pensão. O chapéu de palha desabado não deixava ver seu rosto, mas o corpo seco, a maneira de andar, lhe lembrava bastante o Amaro Neto.

– É ele, pensou, sem dúvida nenhuma. Ou então tô vendo coisas. Vou esperar pra ver onde vai. A goiabada é da boa? perguntou ao garçom, olhando os pedaços de doce cobertos por um pano fino, quase transparente, o que atraía as moscas que zanzavam pela sala.

– Sim senhor, melhor não há por aqui. Quer um pedaço?

– Com uma fatia de queijo.

Laerte olhou a rua, viu Amaro, sob o sol inclemente, caminhar e entrar na igrejinha. Era ele, podia jurar. Dali vai vigiar minha saída, pensou Laerte e disse à menina:

– Tá uma solina danada na praça. Esse sol forte me dá dor de cabeça. Não tem um jeito de chegar na casa dessa dona sem pegar muito sol? Um caminho mais sombreado?

– Leva ele pelo quintal de dona Ambrosina, sugeriu o garçom, vai dar no quintal de Berê, que é cheio de árvores, e emenda com o quintal da escola. Entram por ali, dão a volta e vão sair no quintal de dona Durvalina. Sempre na sombra.

Era o que ele precisava.

– Depois eu volto pra pegar o doce, disse ao garçom e deu a mão à menina. Atravessaram o salão da venda, passaram pela cozinha cheirando a torresmo, saíram no quintal e daí a pouco estavam numa sala grande e arejada, do outro lado da praça. Amaro ia ter de esperar por muito tempo, pensou, sorridente.

Olga estava recostada na cama, em frente à janela que dava para a praça, respirando com dificuldade. Muito magra, só pele e ossos, seu sorriso semelhava-se a um esgar de agonia. Seus cabelos pareciam estopa desfiada. Ele ficou mal impressionado, mas não demonstrou.

– Tanto tempo, Laerte.

Ele se aproximou sorrindo sem jeito, de mão estendida.

– Não, não, pediu ela, fique onde tá, peguei uma fraqueza dos pulmões e isso é contagioso.

Disse para a menina: pede a sua mãe pra trazer um café pro moço, Frô.

– Tô no fim, Laerte, se ocê demorasse mais um pouco não me encontrava aqui. – Tossiu, cobrindo a boca com as mãos.- Essa é a casa dos meus pais, de onde fugi, iludida por um canalha. Como sempre acontece. Era bonita e assanhada, o que ocê quer mais?

Ele abriu mais o sorriso. As mãos suadas apertavam a aba do chapéu de palha. Sentia o coração confrangido diante do cheiro enjoativo do quarto e do resto de gente deitado na cama, mas não podia demonstrá-lo. Sem querer lembrou a bela e audaciosa mulher que o ajudara a escapar dos bandoleiros do garimpo.

– Foi uma fuga impressionante, comentou. Teve momentos em que achei que a gente ia ser apanhada pelos cabras.

– Isso é passado, não interessa mais, disse ela, entristecida. O presente é isso que ocê tá vendo, esse caco de gente em cima de uma cama. Quando eu voltei não tinha mais mãe nem pai, só uma meia irmã, mãe da Frô. Muito boa essa irmã, que eu nem conhecia. Me recebeu bem e cuida de mim com carinho. Também, ela sabe que assim que eu fechar os olhos as pepitas que guardo dentro do meu porta-seios serão dela. Disse isso a ela no dia que cheguei. Coitada, ela precisa, vive sozinha com a filha, o marido foi morto que nem Felipe, ela costura para viver, antes de minha chegada tinha dias das pobres passarem fome. O marido foi assassinado numa tocaia, deixou ela com uma mão na frente e outra atrás. E com uma filha nas costas.

Teve outro acesso de tosse. Laerte sentiu-se tonto e ficou pálido. Com a mão buscou o peitoril da janela para se apoiar. Olga apontou o canto do quarto.

– Senta ali no mocho. Não posso falar muito, fico com tosse e falta de ar.- Respirou fundo.- Minha irmã não sabe nada de minha vida fora daqui. Pensa que eu trabalhava na casa de um garimpeiro, por isso tenho as pepitas. Eu disse que vim embora porque fiquei doente. Sei que ocê não percebeu, mas quando nós fugimos pelo meio do mato, eu tava passando mal. Não passando mal como agora, que nem ficar de pé direito eu posso, senão não conseguiria fazer a maluquice de fugir por dentro do mato arrastando ocê. Foi loucura, não foi? Eu tava desesperada, tinha medo de ser morta. Quem matou Felipe podia querer me matar também, não podia? Na hora só queria ir pra longe. Tetê era uma sacana exploradora, mas na hora me ajudou, prometeu não contar que eu fugira levando ocê. Não sei se fez. Tetê me alertou para o pigarro. E eu achava que era só uma gripe forte, a casa da Tetê era úmida, pra mim era mais uma gripe, só isso, tanto que pretendia sair dali para morar com o Felipe. A gente se ilude, né?

Mais um ataque de tosse a interrompeu. Ela pegou a ponta do lençol e passou na boca.

– Vou falar depressa antes que minha irmã traga o café. Ela é muito curiosa, ela e a Frô vivem me fazendo perguntas. Elas não podem saber da minha vida de antes, tá bem?

Ele concordou com a cabeça. Os olhos dela ficaram rasos de lágrimas.

– Eu sei que ocê é um homem sério, senão a Bárbara não tinha… ah, e como está passando sua mãe?

Ela mudara rapidamente de assunto ao ver a irmã surgir com a filha no corredor. Ele entendeu.

– Tá bem, é uma velha forte.

– Ah, chegou o café, traz umas misturas, Frô.

– Não, acabei de almoçar, estou cheio.

E bateu na barriga de leve. A menina lhe passou a caneca que a mãe havia enchido.

– Arminda, disse Olga, esse moço é casado com uma amiga minha, a Leopoldina, lá de Laboral. Já lhe falei sobre ela, a que fugiu do garimpo com medo dos bandidos, lembra? Pois é, o moço veio atrás dela, agora que o perigo passou.

Ele pensou em desfazer o equívoco e contar que Amaro estava na cidade, o perigo continuava, mas temeu agravar o estado dela. Calou-se e sorriu para Arminda. Então Bárbara estava nessa tal de Laboral? Mas onde ficava esse lugar? E como encontrá-la? Será que seu nome era Leopoldina? Bárbara nunca lhe dera seu nome real.

Olga ajeitou-se na cama e Laerte vislumbrou manchas marrons de sangue seco junto com outras vermelhas no lençol. Ela já está cuspindo sangue e não vai durar muito, pensou. Entregou a caneca vazia à garota.

– Preciso ir. Parece que o trem da manhã passa de volta antes das quatro. Como eu vou fazer pra chegar a Laboral?

Olga teve outra crise de tosse e foi sua irmã quem respondeu, de olhos baixos.

– Daqui a três estações o senhor salta num lugar chamado Machadinho, lugar feio e pobre, dá pra assustar. – E riu, torcendo a boca. – Fica ali não, é pouso de malfeitores. Tem por lá uns homens que alugam carroça ou cavalo. Antes de escurecer o senhor vai chegar em Borbulhas, onde tem pensão decente. Dorme lá e de manhã cedo vai pra Laboral. Aí fica perto.

Outra crise de tosse atingiu Olga quando ela quis dizer qualquer coisa. Laerte pediu:

– Fique calma, não faça tanto esforço. Pode deixar que dou lembranças a ela.

Arminda o acompanhou até à porta. Laerte lhe disse, baixinho:

– Tem um estranho arranchado na pensão deste lado que vai procurar entrar em contato com sua irmã de qualquer maneira. Eu o conheço, é um bandido sem alma, um sujeito mau, covarde e vem para pegar as pepitas que sua irmã tá guardando. Tranque a porta e se ele bater não deixe entrar. Se forçar a entrada, grite pelos vizinhos, peça socorro. Ele é muito perigoso e audacioso. É foragido da cadeia. Tenha cuidado.

O trem estava superlotado. Tremendo de frio, cansado, a cabeça estourando de dor, Laerte conseguiu sentar-se no canto de um banco, fazendo o passageiro colocar no chão uma gaiola grande com um corrupião espavorido e um cacho de bananas verdes. Duas galinhas mestiças se debatiam no chão, atadas pelas pernas.

– Vai me desculpar, moço, mas tô doente, ardendo em febre, e não posso viajar em pé. E depois, lugar de carga é no chão e não em cima de banco.

O homem não reclamou e Laerte se jogou no banco duro. Encostou a cabeça no espaldar e puxou o chapéu sobre o rosto. Pouco antes de embarcar tinha visto chegar apressado o seu perseguidor. Embarcou dois vagões à frente.

– Deve ter tentado falar com Olga e a irmã não deixou. Antes de fechar a porta ela lhe havia mostrado um porrete grosso, uma borduna, e dito, enfezada:

– Aqui pra ele se me aparecer.

Gostaria de saber o que teria acontecido depois de sua saída, mas sentindo-se febril e dolorido, correu para a estação. O trem não demorara muito a aparecer e ele entrara como um furacão, para encontrar todos os lugares ocupados. Não vai dar pra viajar em pé, mesmo que seja só por três estações, nem pra ficar por aqui e esperar o próximo, que só vai passar amanhã. Vou nesse de qualquer jeito. Com dificuldade, passando por cima de jacás carregados de coisas, de sacos, pacotes e pequenos animais, vislumbrara o lugar ocupado pela gaiola do corrupião que requisitara. Crianças berravam aumentando sua dor de cabeça.

– Machadinho fica muito longe? perguntou ao dono do cacho de bananas.

– Lá pra noitinha nós chega. O senhor vai pra lá? indagou, arregalando os olhos. Lugar perigoso, tem parentes lá?

– Vou não, vou mesmo é dormir em Borbulhas e de manhã vou pra Laboral.

– Ah, inda bem. Machadinho é terra de gente ruim. Quem manda lá são dois irmãos e uma irmã que são o diabo em forma de gente.

Laerte fechou os olhos e desejou que Bárbara estivesse ali, com seus chás milagrosos contra a maleita e seus cuidados e carinhos. Amanhã, estaremos juntos de novo, minha flor. E para sempre. Batendo queixos se encolheu contra o banco.

Não saberia dizer por quanto tempo cochilou. Nem quando foi que sentiu que alguém o olhava, o papagaio que vinha no seu ombro desde sempre. O peso daquele olhar o incomodava. Era o próprio mal a espioná-lo. Despertou. Continuou fingindo dormir com o chapéu sobre os olhos, tentando ver por baixo da aba quem insistia em tentar ver seu rosto. Intimamente tinha certeza de que era Amaro Neto, o canalha. Ficou calado, na mesma posição, sendo sacudido de quando em vez por um calafrio, até ter certeza que o observador se afastava sem saber quem ele era. Pela fresta das pálpebras viu que o céu se tingia de vermelho e ouro. Ouro, sempre ouro, o ouro o perseguiria a vida inteira. Suspirou e se ajeitou no banco. As costas lhe doíam e as pernas pareciam de chumbo. Ergueu um pouco o chapéu. A testa estava molhada de suor. O homem das bananas parecia adormecido, mas tão logo se aprumou ele abriu os olhos amarelos.

– Onde nós estamos? perguntou Laerte.

– Tamos perto de Machadinho, tamos chegando na ponte.

– Ponte, estranhou ele.  Aqui tem ponte? Qual o rio?

– O rio Borbulhas, rio fundo, correnteza forte, cheio de peixes.

– Falta muito pra essa ponte?

– Nada, mais um tempinho.

Laerte olhou para a porta de saída do trem. Através do vidro viu Amaro encostado nas ferragens, olhando a paisagem noturna e pitando. Um pensamento cruel invadiu sua mente. Levantou-se, se espreguiçou e bocejou para tirar a morrinha que o dominava. Os calafrios continuavam, mas a dor de cabeça estava menos intensa. Amaro parecia alheio a seus movimentos. Perguntou ao vizinho de banco:

– Onde fica a privada do trem?

Com o queixo o homem indicou a direção onde ficava a porta.

– Guarda o lugar pra mim? Não demoro.

O outro sacudiu a cabeça, concordando e voltou a cochilar.

Laerte se esgueirou por entre os embrulhos, malas e jacás, que entulhavam o corredor entre os bancos e foi ao local indicado, que fedia fortemente a mijo. O povo da roça, desacostumado a urinar em privadas, especialmente com o trem em movimento, regava o piso e as paredes do vagão. Na saída, enquanto ajeitava as calças, discretamente observou Amaro, que sorria para a noite, muito seguro de si, sem se preocupar com ele. Deve estar pensando que na próxima parada vai me agarrar. Tá tranqüilo porque me viu tremendo, acha que tô doente e não vou resistir. Melhor assim, pensou, que fique bem à vontade, pensando que tô ferrado no sono.

A penumbra invadia aos poucos o vagão, brasas de cigarro piscavam sem cessar entre os passageiros. Alguém bocejou ruidosamente. Outra criança chorou. Um papagaio numa gaiola gritava por uma dona Maria de tempos em tempos. Laerte viu aparecer a cabeceira da ponte. É agora, decidiu. Abriu a porta e saiu para a noite jovem. Amaro levantou o rosto e o encarou, calmo. Mais forte que o sacudir do vagão nos trilhos era o barulho da correnteza lá embaixo, entre as pedras. Laerte sorriu e estendeu a mão, como para cumprimentar o outro. Surpreso, Amaro inclinou-se um pouco para a frente e estendeu automaticamente sua mão. Sem deixar de sorrir, Laerte firmou a perna e com a ajuda do outro braço empurrou Amaro violentamente. Ele foi projetado na noite.

O barulho da correnteza, mais o resfolegar das rodas do trem ao atritar no metal abafaram o grito de seu inimigo. É minha primeira morte, mas foi necessária. Desse aí estou livre, pensou, com o coração acelerado, mãos suadas e pernas bambas. Respirou forte, verificou se o grito fora ouvido pelos passageiros e como todos dormiam como antes, concluiu que ninguém ouvira. Apoiando-se nas paredes do vagão, caminhou até seu lugar.

Em algum canto, no meio do vagão, um bacorinho gruniu. As duas galinhas se debatiam e cacarejavam debaixo de seu banco. Sentou-se, afastando-as delicadamente com os pés.

– São de raça, disse o homem, sorrindo. Mestiças, boas de briga, completou orgulhoso, vou tirar boas ninhadas.

Laerte riu sem vontade, a dor de cabeça aumentando, os calafrios se amiudando. Como vou fazer, se perguntou, se a crise me pegar aqui, onde não conheço ninguém? De que me vai adiantar ter me livrado do biltre do Amaro, se posso morrer sem amparo?

– Tamos chegando, avisou o homem daí a pouco, já se levantando com a gaiola na mão.

– O senhor sabe onde encontro um homem pra me levar pra Borbulhas?

– Também vou pra lá, disse ele, tem uma carroça me esperando. Eu levo o senhor lá. Tem onde ficar?

Por que não disse logo, perguntou-se Laerte, irritado. Seria uma preocupação a menos.

– Não, vou procurar uma pensão pra dormir.

– Hum, hum, tem a casa de Mané Fogueteiro que aluga quartos. Não é lá essas coisas, ele costuma tar sempre meio chumbado, mas é boa gente. Pra dormir serve.

O chiado estridente do freio contra os trilhos tornou-se mais agudo e a pressão dolorida na cabeça de Laerte parecia prestes a fazê-la explodir. Estava a ponto de gritar. Manchas invadiram seus olhos, respirava com dificuldade. Por fim o trem parou, num forte sacolejo. Levantou-se, apoiando as mãos nos bancos. Estava zonzo.

– Me ajuda aqui, disse o homem, passando a gaiola para Laerte. Pegue também as galinhas que vou levar as bananas e o saco de batata doce. Té que a viagem foi rápida, né não? – riu, satisfeito – nada como a modernidade. Adoro andar de trem.

Laerte desceu os poucos degraus aos tropeções. Tonto, a luz difusa do anoitecer o deixava confuso. Espantou-se quando se viu sentado na carroça, ao lado do passageiro das bananas, sem entender bem o que acontecera. Subira sem se dar conta. A carroça sacolejava com vigor. Baixou a cabeça entre as pernas e não viu as poucas casas do arruado que chamavam de Machadinho. Aos poucos o vozerio e a poeira foram diminuindo e mais uma vez cochilou. Percebeu que o homem conversava com o condutor da carroça, mas não entendia o que diziam. E nem estava se importando. Abraçando-se para fugir ao frio que o incomodava, se esqueceu de tudo o mais. Nem se lembrava mais que havia empurrado um homem pra fora do trem, em cima da ponte, e que isso provavelmente o matara. Parecia ter ocorrido em passado distante.

Com a sensação de rosto inchado, Laerte abriu os olhos devagar. Estava deitado numa cama de varas, onde haviam posto uma esteira grossa, os braços largados ao longo do corpo, uma colcha leve a cobri-lo. Em algum lugar um pássaro cantava. Onde estava? Não era o quarto da pensão de Xandoca.

Quando acontecia de acordar num lugar estranho, o que vinha ocorrendo com certa frequência, percebia que tivera mais um ataque da maleita e a sorte de ser recolhido e tratado por alguém. Custoso era recordar o que acontecera antes do ataque.

Como das outras vezes, preferiu esperar, calado, alguém aparecer. A cabeça parecia oca, mas não doía. Correu os olhos pelo cômodo, estava numa casa de barro socado, limpa e arrumada. Uma janela pintada de azul, aberta, mostrava um pedaço de céu acinzentado, como se estivesse coberto de nuvens ralas. Um bando de maritacas passou gritando. Ele riu, sentindo-se bem. Daí a pouco uma criança enfiou metade do rosto pela porta e sumiu.

A mulher que entrou no quarto em seguida era morena e baixa, os cabelos escorridos pelos ombros, olhar compassivo e sorriso acolhedor.

– Olá, disse, já acordou. Já era tempo, há dois dias que o senhor tava de olho fechado.

Ele sorriu, encabulado. Murmurou um obrigado quase inaudível.

– A sorte do senhor foi ter viajado no trem com meu marido. Quando a carroça parou o senhor tava caído no fundo, tremendo que nem vara verde, ardendo em febre, falando bobagens. Logo vi que era a maldita, aqui na terra sofremos muito com ela. Minha falecida mãe era rezadeira afamada, e além das rezas conhecia uns chás de ervas, uns pós de casca de árvore que até hoje nós usamos, pra prevenir e pra curar. Era também parteira de mão cheia. Depois passo os nomes das ervas pro senhor. Agora vai se sentar na cama, devagar, pro mundo não desabar sobre sua cabeça. O senhor veio de onde?

Carinhosa e firmemente ela o ajudou a se recostar na cama. O mundo não desabou, mas rodopiou loucamente. Fechou os olhos e respirou fundo.

Ela se afastou um instante e ao voltar vinha acompanhada da menina, cuja metade da cabeça aparecera antes na porta. Trazia uma cuia e arrastava uma cadeira.

– Melhorou? – Ele confirmou, com os olhos semi-cerrados. – O senhor é forte e parece ter intimidade com a doença. Ou estou enganada?

– Tá não, balbuciou ele, de uns tempos pra cá ela tá sempre me atazanando.

– Fiz essa canjinha de rã, é um santo remédio pra fortificar e dar paz a estômagos rebelados. E muito gostosa. Prove só.

Na manhã seguinte sentiu-se renovado. As forças e a disposição pareciam ter voltado, mas a mulher não o deixou se levantar.

– Não senhor, continue deitado, comandou, amanhã o senhor se levanta, hoje dá pra sentar e lá pra tarde dar uma voltinha pelo quarto e chegar na janela pra respirar ar puro.

– A senhora é uma enfermeira e tanto, disse ele, sorridente. Parece até minha mãe. Se eu fosse rico e morasse por aqui montava um hospital só pra senhora tomar conta.

Ela sorriu, orgulhosa. Suas faces se avermelharam.

– Assim eu fico encabulada.

Na hora do almoço o marido dela, o homem com quem viajara no trem, viera conversar.

O céu estava mais escuro e o vento aumentara de intensidade. Pipas rodopiavam loucamente no espaço.

– Quer que feche da janela? perguntou o homem.

– Não, assim tá bom. Daqui a pouco é hora das maritacas passar fazendo balbúrdia. Eu gosto delas.

– Eu também gosto.- Ele sorriu. – Sulinha já vai lhe trazer o almoço, tá com apetite?

Todos eram tão simpáticos e prestativos que se sentia emocionado. Sem conhecê-lo, além de socorro, lhe davam um tratamento especial. Os olhos se encheram dágua.

– Vejo que tá bem melhor. Mas ainda não vai dar pra comer na mesa com a gente, Sulinha tá fazendo seu prato.

Ele sorriu, caloroso, sentindo-se um poço de ternura.

– Poxa vida, falou, se não fosse o senhor. Desde que saí de Santo André que comecei a sentir os calafrios, mas a gente sempre deseja que seja impressão. Espero amanhã não dar mais trabalho a ocês e retomar a viagem.

– O senhor me disse que vinha pra cá, num foi? Estamos em Borbulhas. Tá procurando alguém?

Não posso mentir pra essa gente, pensou, mas também não posso dizer toda a verdade.

– Sim senhor, procuro minha mulher.

Sulinha entrava com o prato de comida. Apreensivos, ela e o marido se entreolharam. O movimento para entregar o prato de comida ficou parado no ar.

– Não me levem a mal, é uma história triste essa minha, uma história de desencontros, cheia de trapaças do destino pra separar duas pessoas que se gostam. Ela não fugiu de mim, não vim pra fazer maldade com ela. É a mulher da minha vida.

– Ocês são casados? ela perguntou.

– Não senhora, porque onde a gente vivia, no meio dos matos do sertão bravo, não tinha padre nem escrivão. Mas era como se a gente fosse, todo mundo tratava a gente como marido e mulher. E ela tava esperando um filho meu quando veio pra cá.

– Pra cá? surpreendeu-se o homem. Pra Borbulhas?

– Não, ela é de Laboral, é perto daqui, não é? Se eu fosse destrinchar a história toda procês era capaz de chorarem. Passamos por coisas que nem Deus acredita, e assim continuamos até que apareceu uma gente ruim que nos separou. Agora o pior já passou e vim atrás dela pra regularizar nossa situação.

– Essa é uma semana surpreendente, considerou o homem, tanta coisa acontecendo num lugar pacato e pequeno como o nosso. No dia em que o senhor chegou, quer dizer, deve ter sido naquele dia, mas só ficamos sabendo dias depois, um homem estranho foi encontrado morto no rio, parece que caiu do trem. Teve também o caso da filha mais nova de Birolho, que fugiu de casa nesta madrugada e sua história. É o fim do mundo.

– Já sabem quem era o homem que caiu? perguntou Laerte, sabendo que a história se imbricava na sua. Era daqui de perto?

– Nada, ninguém conhecia ele. Deve ter vindo no trem que nós viemos, mas tanto eu quanto o senhor dormimos a viagem toda, não foi? Pode ter sido jogado no rio por um dos bandidos de Machadinho.

Laerte foi invadido pelo alívio. Ninguém iria acusá-lo de ter empurrado Amaro do trem, o passageiro que viajara a seu lado acreditava que haviam dormido toda a viagem, lado a lado. Decidiu reforçar a informação.

– Eu estava tão ruim, concordou, que nem sei como desci e subi na sua carroça. A última coisa que me lembro é de ter tropeçado em duas galinhas atadas pelas pernas.

– Fui eu que trouxe elas de Brenha, disse ele, orgulhoso, galinhas mestiças de primeira qualidade. Seus filhos são campeões. Estou reservando os ovos pra botar no choco.

Sulinha estendeu o prato para Laerte, o sobrolho franzido. Estava tentando localizar a tal mulher de Laboral, ela também era de lá e conhecia muita gente do lugar.

– Como é o nome de sua mulher? perguntou.

– Leopoldina, disse ele, os olhos brilhando.

– Leopoldina, Leopoldina, mão no queixo e olhos fechados, ela tentava identificar a pessoa. Não conheci ninguém com esse nome… e olhe que nasci e me criei em Laboral. Leopoldina… Dina, Leô, de repente abriu os olhos e sorriu: Didi, a filha do finado Zacarias Soleu. Faz uns meses que ela voltou, esperando filho. Didi, só pode ser ela. Como é que ela é?

Ele a descreveu, amorosamente, os olhos molhados de lágrimas. A mulher se apiedou.

– Ela mesmo, coitada. Chegou aqui sozinha, com aquele barrigão, com a roupa do corpo e sem bagagem nenhuma, dizendo que tava sendo perseguida por uns homens. Nervosa demais, coitada. Contou que com ela tinha vindo um negro, mas ninguém chegou a ver. Era um empregado não sei de quem, que protegia ela, que viajava desacompanhada do pai da criança.

– Era o Felipe, concordou Laerte, inteiriçado sobre a cama. Mataram ele depois. E aí?

A mulher hesitava , estava se sentindo desconfortável, tinha gente perigosa na história.

– Em Laboral mora uma irmã dela, a Marineida, o senhor deve saber. – Ele sacudiu a cabeça negativamente. – O marido da Marineida, um tal Olavinho, um cavalo batizado, não quis saber da cunhada quando ela chegou embuchada, achava que era mãe solteira, ele tinha filhas em casa, não queria mau exemplo, sabe como é. Foi um freje, a chegada dela. Eu não vi, mas soube de tudo. Aqui nada escapa dos moradores.

As mãos de Laerte se enclavinhavam e o pomo de adão subia e descia, em ansiedade crescente. Eu ainda pego esse miserável do cunhado, pensou.

– E aí?

– Aí que naquela mesma noite ela voltou pra cá e ficou na casa de uma tia ou prima, não lembro, acho que é tia, que recebeu ela com a maior má vontade. Gente de maus bofes, não escapa um. No dia seguinte, por obra e graça de quem não sei, tudo mudou e a parenta tratou dela como se ela fosse da família real até que a menina nasceu.

– Menina, soluçou Laerte, era uma menina?

Fez um movimento de deixar a cama, mas a mulher o travou com um gesto. Seus olhos estavam marejados.

– Nem adianta, elas não estão mais aqui. Acho que a menina ainda tava mamando no peito quando foram embora. A família de Didi sempre foi muito encrencada, deu bate-boca, uns irmãos que moram pros lados do Minduim, uns cascas-grossas, se meteram na confusão, é um povo mais cheio de histórias, uma encrenca só e ela foi viver num sítio aqui perto. Ficou um tempo e viajou não sei pra onde nem quando e levou a criança. Nem ninguém ficou sabendo. Não deve ter dito a ninguém, senão a gente saberia. Faz tempo isso, uns quatro meses.

– Bom, suspirou ele, pelo menos ela tá bem. E me deu uma filhinha! – Sorriu feliz. – Depois do almoço vou dar um pulo na casa da tia dela pra conversar. Quem sabe não me diz onde elas estão morando?

– Acho difícil, comentou a mulher, lhe passando o garfo. É um povo tinhoso, o dela. Mas num custa perguntar, né?

As pipas pareciam lhe enviar uma mensagem de parabéns.

Recostado no duro espaldar do banco do trem, olhos fechados, sorriso bobo no rosto, Laerte curtia a única informação concreta que conseguira sobre Bárbara com a tia: o nome de sua filha, Laércia. Ria, emocionado, ao lembrar. Laércia, como ele, Laerte, só que mulher. Imaginava como seria, um bebê rechonchudo, rosado, com covinhas no rosto, cabelinho claro com cachinhos na ponta, uma bonequinha.

Os parentes de Bárbara se recusaram a conversar com ele. Ninguém sabia ou queria dizer para onde ela fora, onde estava morando. Bem que Sulinha avisara que era povo encrenqueiro. Por pouco não fora expulso a pontapés da casa da família.

Só a lembrança da filha o impedia de se desesperar. Quando se detinha a imaginar como recomeçaria a procurar Bárbara e via a impossibilidade de encontrá-la, imaginava a filhota deitada no berço, agitando perninhas e bracinhos gorduchos na sua direção, sorrindo, e se sentia disposto a ir até o fim. Eu vou achá-las, se prometeu, minha filha não pode ficar largada, ao léu, talvez passando dificuldades enquanto o pai é dono de um tesouro.

Por onde começar? Bárbara, pelo visto, se aborrecera muito no sítio e sendo uma mulher decidida, que não aceitava desaforos, e sentindo-se em boas condições de saúde, pegara a filha e fora em busca de paz. Mas, onde? Esse mundo é tão grande, pensou ele, ela pode estar aqui perto e eu não saber ou pode estar muito longe. Sua esperança é que como ela sabia onde ficava a sua propriedade, nesse meio tempo se decidisse ir para lá com a menina.

Por outro lado, ela poderia achar que ele fora assassinado pelos bandidos e que seu tesouro fora descoberto. Será que ela sabia da morte de Felipe? Imaginaria que Laerte estava morto, enterrado na lama de um igarapé e que os bandidos continuavam a caçá-la para ajudá-los a descobrir novas minas? Ela podia pensar que ele e Felipe tivessem se antecipado e a estivessem aguardando na propriedade de Valetas. Então precisaria antes de se certificar. Tudo era possível e ela devia ter examinado todas as possibilidades, era muito esperta. Se achou que estava morto, certamente se escondeu até ter condições de ir para sua casa.

E dinheiro para a viagem? Ele acreditava que o pouco ouro que ela portava na hora em que fugiu deveria ter sido entregue à tia, ou prima, para conseguir ficar em sua casa e ser bem tratada até a menina nascer.

Pra onde ela teria ido? Onde estaria vivendo? Por que não se preocupara em levar mais dinheiro ou ouro na fuga? Deve estar passando necessidade, pensou, ela e minha filha, enquanto nosso tesouro santificado, guardado pela santa em seu próprio corpo, continua na minha propriedade, sem servir pra nada. Preciso fazer alguma coisa para encontrá-las o mais depressa possível.

Ela desconhecia o que lhe havia acontecido, não sabia de sua fuga, talvez nem soubesse que Felipe tinha sido assassinado, para ela a santa ainda estava lá, no meio do mato. Se eu fosse ela, pensou, não suportaria ficar sem saber o que tinha sucedido depois da fuga, teria voltado ao garimpo pra saber o que tinha acontecido com ele e com a santa. Se Felipe não voltara era porque algo lhe havia acontecido, mas com a barriga crescendo a cada dia, era difícil sair em busca de notícias. Ela poderia pensar que acontecera o pior aos dois, a ele e a Felipe, já que nenhum havia voltado e que a santa, largada no mato. tivesse sido guardada na capelinha do povoado. Ou que alguém podia ter descoberto que a santa era do pau oco e com uma faca ter arrancado o tampo e achado o ouro. Talvez os antigos companheiros tivessem feito isso, quem poderia saber? Não, eles não, senão não teriam vindo em seu rastro. O provável é que tudo continuasse como tinham deixado. Eram muitas, demais, as possibilidades que deveriam surgir em sua mente, era de enlouquecer um cristão.

Seu coração se angustiava, tinha vontade de ter asas, voar por toda a terra e lá de cima descobrir mãe e filha. Eram tantos e tão desencontrados os seus pensamentos que, para não ficar maluco, voltava a pensar no bebezinho lindo, deitado no berço, sorrindo para ele, seu papai, erguendo as mãozinhas gorduchas em sua direção. Quantos meses teria elazinha? Já teria dentinhos? Engatinharia? Balbuciaria algumas palavras, papá, dadá, mamã, gugu? Que coisa maravilhosa ver sua filhinha falando e rindo. Deus não pode me impedir de achá-la!

Cada família que nas estações entrava no vagão lhe provocava fortes emoções. Era invadido por sentimentos conflitantes de inveja, raiva, ternura, saudade, orgulho, amor, frustração, de alegria. Sou pai! seu coração gritava, impando de orgulho. Mas onde está minha filha? seu coração gemia de tristeza. Fechava os olhos com força para segurar as lágrimas e murmurava com fervor: Bárbara, onde ocê se meteu, mulher? Morro de saudade, quero conhecer minha filha! Tô morrendo de saudade docê. Não some desse jeito, não faz isso comigo.

Um desparrame de cores fortes, amarelo-ouro, vermelho-sangue, cinzas, roxos e verdes coloria as nuvens revoltas e lanhava o rio Paraíba quando Laerte chegou. Viera de trem, mas o medo que os bandidos restantes estivessem a esperá-lo na estação ferroviária ou no cais, fez com que saltasse assim que a composição diminuiu a velocidade ao passar pelo cemitério. Como não trazia bagagem, passara todo o tempo com a mesma roupa e devia estar com cheiro de gambá, foi fácil saltar na areia. Preferia exalar o cheirinho enjoativo a carregar mala ou outra coisa que atrapalhasse sua busca. Andando pelas ruas de terra, cumprimentando uns poucos que estavam nas portas de casa, chegou à pensão de Xandoca. Ela arregalou os olhos ao vê-lo, sorriu e se arrastou a seu encontro.

– Ah, meu filho, que bom que ocê apareceu. Eu andava tão nervosa, preocupada. Já teve na casa de sua mãe?

– Não, vim direto pra cá. Tem alguma notícia boa?

– Tenho notícias. Mas podem esperar. Antes ocê vai tomar um banho, trocar a muda de roupa, tá parecendo um mendigo, fedendo com essa inhaca, e comer alguma coisa. Jair! gritou. E ocê, conta o quê?

Logo o moleque apareceu.

– Põe a bacia no quartinho pro Laerte tomar um banho. E olha, nada de conversa fora de hora, falando do que ocê não sabe.

Jair sorriu, constrangido. Daí a pouco retornou com um pedaço de sabão e toalha.

– Aprontou o banho?indagou Xandoca. Não quero conversa mole, vai procurar o que fazer.

O moleque encarava Laerte com olhos preocupados. Ele a olhou, tenso,embora sorrisse.

– Só para deixá-la curiosa: descobri que tenho uma filha! Se chama Laércia, e só conto tudo depois que contar o que houve por aqui. Tá acontecendo o quê por aqui, Xandoca?

Ela o empurrou com carinho.

– Vai tomar seu banho, depois eu falo. E ai de Jair se abrir esse bico.

O moleque disparou a correr. Xandoca continuou a empurrar o rapaz em direção à bacia do banho.

– Deixa eu pegar uma muda de roupa e depois vou preparar alguma coisa procê comer, deve de tá azul de fome, né?

Laerte sentiu a estranha sensação de que alguma coisa de ruim havia acontecido na sua ausência. Temia que os gananciosos antigos companheiros tivessem tentado alguma coisa contra Xandoca ou imaginava que Bárbara tivesse sido raptada por eles assim que tivesse chegado com a filha na sua propriedade em Valetas. Alguma coisa muito séria acontecera. Por que Xandoca estava protelando em lhe dar as notícias? Coisa boa não era. Entrou na casinha e tirou o paletó sebento. O chapéu pendurara no cabideiro da sala. Jair despejava uma chaleira de água quente na bacia.

– Diga, moleque, que foi que aconteceu que deixou Xandoca tão cheia de mais mais?

– Sei não, respondeu com a voz incerta de adolescente e olhos baixos, sei de nada não.

Laerte o segurou pelo ombro.

– Deixe de história comigo, moleque, me conte o que aconteceu.

O rapaz distorceu o corpo e escapuliu do aperto.

– Dona Xandoca vai contar, eu não sei de nada.

E disparou para o quintal.  Xandoca apareceu na porta e avisou que a comida estava quente. Sorridente, juntou as mãos no peito.

– Ah, meu Deus, tenho uma netinha! Que coisa maravilhosa, Laerte! Ainda não se lavou, homem?

Laerte, terminada a sessão de limpeza corporal, sentou-se para comer.

– Tou parecendo manteiga derretida, disse ela curvando-se para beijá-lo no rosto. Fico emocionada só em pensar na minha neta. Se ela ainda não foi batizada, quero ser a madrinha, e se foi vou ser a madrinha de crisma. Ah, meu Deus, não posso morrer antes de conhecer minha neta. Laércia, né? Amanhã mesmo começo a preparar as roupinhas, uns babadouros, cueiros, ah, que alegria!

– Pois é, Xandoca, também fiquei assim, maravilhado, mas ao mesmo tempo muito triste porque não faço idéia de quando verei minha filha.

– Como é que é? Não encontrou as duas?

– Ocê acha que se tivesse encontrado não teria trazido elas?

– Ah, meu Deus, que pena. Vou rezar uma novena inteira pra achar elas depressa, disse ela com fervor. Conheço umas simpatias pra trazer gente sumida… deixa comigo e logo, logo, estarei com Laercinha no colo! Ai, que belezinha ela deve ser!

O restante das peripécias da viagem a interessou menos, achou muito confuso, Laerte misturava os fatos com seus comentários, só aumentava a atenção quando a menina entrava em cena.

Laerte encerrou a história e a refeição com um pequeno arroto. Xandoca levantou-se.

– Vamos, Xandoca, agora desembucha. Quero saber que mistério é esse.

– Calma, primeiro a sobremesa, aquele doce de mamão ralado com coco. Jair! Onde tá o palerma desse garoto? Não vou deixar que ele segure Laercinha, é capaz dele deixar a menina cair no chão. Jair!

– Não me enrole mais, Xandoca, o que aconteceu?

– Jair, tudo pronto? perguntou ela ao moleque que vinha caminhando devagar para junto deles e aproveitando para não responder.

– Olha, Laerte, o que tenho pra contar conto depois, o que aconteceu tá acontecido, não se pode mudar, vamos pensar em evitar o pior.

– Ocê tá me assustando, Xandoca, comentou ele, com o coração apertado.

– Depois conto tudo, agora ocê acompanha o Jair. Lá pros lado do convento tem um cavalo arreado e um homem esperando. Quando ocê chegar, o homem vai montar sozinho e disparar no galope, atravessar a propriedade de Manuel Cambota, cortando daqui e dali, ele sabe por onde passar, e vai até Valetas. Ocê fica escondido com Jair até os bandidos passarem, pois irão atrás. Os dois homens que tão a sua espera no Hotel do Comércio, de olho grudado em nossa porta, quando virem ocê sair vão atrás. Tão com os cavalos selados logo em frente, prontos. Não sei souberam que ocê chegava hoje e tão na tocaia. Quando chegarem lá vão pensar que o cavaleiro em disparada é ocê e vão no rastro dele. Só que não conhecem o lugar, como Juca Elísio, que vai levar o cavalo, destorcendo por tudo quanto é caminho, seguindo pelos diferentes rumos que encontrar na passagem. Duvido que peguem ele.

Laerte acompanhava o relato com os olhos fixos no rosto da velha.

– Nisso, o moleque vem pra casa e ocê, a pé, vai se encaminhar pra casa da velha Joventina, ocê passou por ela quando veio pra cá depois que saltou do trem, é um casebre coberto de sapê, bem maltratado, parece abandonado, mas por dentro dizem que é razoável, dá pra ficar por um tempo. E ocê só vai ficar ali até a gente decidir o que fazer. Depois de uma hora, mais ou menos, apareço por lá pra gente conversar direito. Agora se avie, acompanhe o moleque sem demonstrar que sabe que está sendo seguido. Vamos logo, gente.

– Ocê pensou em tudo, hein Xandoca! espantou-se Laerte.

– Pra mim ocê é como um filho, Laerte, minto, pra mim ocê é o filho que não tive, e tudo que puder fazer pra livrar ocê do perigo, eu faço. Sou capaz até de matar ou mandar matar esses bandidos que querem seu mal. Sem ficar com remorsos.  Muito mais agora que me deu uma netinha e precisa de saúde e tranqüilidade pra criá-la

Quando Jair reapareceu na sala da pensão, olhos arregalados e boca aberta, Xandoca se assustou e perguntou num arranco: o que houve?

– Ai, dona Xandoca, gemeu o rapazola, esses bandidos são muito mais pior do que a gente pensa.

Ela apertou o peito com a mão, pressentindo o pior:

– Pegaram o meu filho?

– Quase, dona Xandoca, quase. Mal a gente chegou no lugar do encontro, vimos Juca Elísio já amontado e foi a sorte. Os sujeitos apareceram, como daqui lá na esquina, de arma na mão, gritando, mandando nós parar. Rápido como um corisco, Laerte pulou na garupa do cavalo onde Elísio tava e bateu nele com a soiteira. O bicho disparou, quase derrubando os dois, enquanto os homens gritavam: para aí, seu isso, seu aquilo, diziam só nome feio. Eu colei na parede e fiquei quietinho até eles sumirem no rastro dos dois. Quase me breei todo.

– E aí?

– Aí que não sei mais, Elísio e Laerte desapareceram na mata depois da linha do trem, só foi o que deu pra ver.

– Ai, meu pai, que terá acontecido? Será que meu menino escapou? Fica aqui, Jair, depois que seu Lopes chegar pra dormir fecha a porta da frente e vai dormir também que eu vou rezar, rezar muito pro meu filho escapar dessa.

Na manhã seguinte, nem bem o sol começava a esquentar e Jair entrava correndo na sala da pensão sobraçando um saco de pães. Foi à cozinha, excitado:

– Eles tão de volta, dona Xandoca!

Ocupada em coar o café, ela precisou de alguns segundos para se conscientizar de que ele falava dos perseguidores de seu menino.

– Ai, meu Deus! ocê viu eles?

– Tão na praça e já passaram duas vezes pela frente da pensão, olhando pra sala com cara feia. Fiquei lá detrás da árvore espiando. Agora foram pro cais.

– Isso quer dizer, e ela deu um suspiro de alívio, que não pegaram Laerte.Eu rezei tanto, meu São João não havera de me deixar na mão. Depois, o Elísio conhece essa região como a palma da mão. Sabia que ninguém alcançaria ele. Agora vamos rezar, agradecer e esperar pelas notícias. Não sei se conseguiram fazer tudo o que eu disse.

Satisfeita, passou o pano de prato no bico do bule e foi para a sala. Sorrindo.

Na hora do almoço Elísio sentou-se a uma das mesas como um hóspede qualquer, discreto e calmo. Cabelo e Pernilongo mantinham-se perto da esquina, ora apoiados nos cavalos, ora sentados em algum fardo ou caixote, sempre de olhos pregados na porta da pensão. Não puderam ver o rosto do cavaleiro que levara Laerte e examinavam com cuidado cada pessoa que entrava ou saía. Jair descobriu que o terceiro malfeitor andava de uma esquina a outra na rua de trás, vigiando o portão do quintal.

Jair colocou o prato na frente de Elísio e ele murmurou:

– Quero falar com dona Xandoca.

– E Laerte? sussurrou o rapazote.

– Tá bem. Vai chamar dona Xandoca, vai.

Ela veio com a terrina de sopa, andando depressa. Serviu-lhe algumas conchas da sopa cheirosa, com pedaços de carne e de legumes boiando no caldo grosso. Indagou em voz baixa:

– E aí, Elísio, como foi?

– Ai, dona Xandoca, passamos maus bocados. Os lamparões querem beber o sangue do seu filho, foi uma luta pra gente se livrar deles.

– E Laerte?

– Tá onde a senhora mandou ele esperar.

– Graças a Deus. Sabia que podia confiar em ocê. Agora tome sua sopa sossegado, é bem merecida. Mais tarde vou dar um pulo lá. Jair, meu filho, vem cá, disse em tom baixo. Pega a vasilha de botar feijão no molho, enche de sopa e enrola num pano limpo. Bote também um bom pedaço de pão, amarre bem e disfarçadamente bota aqui em cima da mesa, junto do Elísio, que ele vai levar pro meu filho. Cuidado pra não derramar.

– Acho que a velha fez comida pra ele, objetou Elísio.

– Garanto que ele vai esperar a minha comida chegar, quer apostar? Conheço o meu filho, disse com orgulho. E a Jove não é boa na cozinha.

– Quantas conchas eu boto? perguntou Jair.

– Enche a vasilha, sem transbordar, é para almoço e janta.

– Dona Xandoca, olhe disfarçadamente, os miseráveis pararam bem na frente da janela e tão olhando pra cá. Será que vão querer almoçar?

Ela ergueu a cabeça, sentindo o rosto avermelhar de raiva.

– Bota essa terrina na outra mesa, disse ao empregado, e deixe que eu cuido disso. Aqui só comem os hóspedes da casa, falou alto, para ser escutada da rua. A comida é feita na medida, não sobra pra mais ninguém.

Cabelo e Pernilongo terminaram de examinar a sala e seguiram em frente. Se ouviram o que ela disse não deram sinal. Ela fervia de raiva. Suas mãos tremiam.

– Se eles entram e sentam pra comer aqui, eu era bem capaz de jogar a sopa quente em cima deles, rosnou. Abusados. Vamos ter trabalho com esse povo, já tou sentindo.Como ocê vai fazer, Elísio, pra levar essa comida pra Laerte? Eles vão ver e podem ir no seu rastro.

– Deixa comigo, dona Xandoca, eu conheço caminhos e descaminhos pra chegar onde quero. E vou jogar uma manta em cima dessa trouxa.

Quando o sol se pôs a escorregar para o rio, tingindo de vermelho e ouro também o céu, Xandoca passou pó de arroz nas faces, pegou a bolsa e a sombrinha e saiu. Os homens, que não perdiam de vista um movimento na pensão, levantaram os olhos.  Ela sabia que seria seguida. Depois do almoço, para ir sossegado, Elísio tinha parado na porta da pensão, soltado um belo arroto e olhado em volta. Cabelo bocejava e Pernilongo comia na pensão da esquina da praça onde se hospedava. Eles se revezavam na observação. Elísio desceu sem nada nas mãos, certamente eles desconfiariam que um embrulho de pano conteria comida para o fugitivo, deu uma caminhada até a esquina, preparou um cigarro de palha, acendeu, deu uma longa tragada e seguiu mais adiante, sempre sob a mira dos olhos dos lamparões. Enquanto isso, sorrateiramente, Jair foi até o cavalo e prendeu o embrulho de comida no arção da sela, que cobriu com um retalho de esteira. Magro, baixo, escuro, vestindo uma roupa sem cor definida, Jair se esgueirara pelo lado da sombra, atrapalhando a visão de quem estava ao sol. Nenhum dos pistoleiros deu sinal de ter visto a manobra. Foram atraídos para as manobras de Elísio.

Espiando pela fresta da janela, Xandoca sorriu satisfeita, seu menino ia se fartar com sua comida. Ao descer para a calçada, disposta a ir até onde ele estava, ia botar sua estratégia de despistamento em prática. Os homens se dirigiram de imediato para os cavalos ao vê-la sair.

A loja de armarinho de Manoel Totoca tinha sido uma das maiores e mais bem sortidas da cidade, onde Xandoca se abastecia do que precisava para seus trabalhos manuais, mas com o enfraquecimento das atividades navais, fora obrigado a diminuir as compras. Os fregueses rareavam, as mulheres dos embarcadiços, as do pessoal de escritório e das oficinas tinham acompanhado os maridos em sua busca de empregos em outras cidades para substituir os que tinham sido extintos na localidade. Levando família e mobília, os trabalhadores tinham se transferido para onde pudessem voltar a exercer seus ofícios, como Rio de Janeiro e Vitória.

Freguesa de caderneta, onde ele anotava as compras que ela acertava no final do mês, Xandoca, freguesa especial, boa compradora e pagadora, merecia toda a atenção de Totoca, por isso ele não se negou nem estranhou deixar que ela atravessasse a loja e saísse na outra rua pelo portão do quintal.

– Tem uns homens me seguindo, contou. São três. E se algum desse malfeitores me procurar, recomendou ela, diga por favor que fui lá em cima, na sua casa, conversar com sua esposa, tá bem? É muito importante.

– O que está acontecendo, Xandoca? Nunca vi a senhora fugir de ninguém. Precisa de ajuda?

– Deixa pra lá, Totoca, depois conto tudo pra ocê, uma desgraceira . Por ora só quero que me deixe sair pelos fundos.

Ela havia trazido duas sacolas grandes, uma com roupas e comida para Laerte e a outra, a mais colorida, para ficar bem visível, com panos velhos.

– Posso deixar essa sacola em cima de seu balcão, Totoca? Não tem nada de valor nela. Assim, se os lamparões entrarem na loja para me espionar, acharão que ainda estou por aqui. Ah, vou deixar também a minha sombrinha. Mais tarde venho buscar.

Antes de ultrapassar o portão do quintal, Xandoca amarrou um lenço estampado na cabeça e trocou o casaquinho de crochê bege por um tricotado de lã azul. E lá se foi pelas ruas arenosas.

– Jove, gritou ao chegar ao que se poderia chamar de porta de um casebre de barro socado com cobertura de sapé. Logo surgiu uma mulher encarquilhada, vestida de negro, os ralos cabelos brancos cobertos por um lenço estampado desbotado. Meu filho taí, Jove?

Para olhar a visita a velha teve de torcer o rosto para cima. Uma severa doença em sua espinha a obrigava a andar curvada, a cabeça voltada para o lado esquerdo.

– Tá no mato, foi catar lenha pra mim.

Xandoca arriou a bolsa e sentou-se num banco de madeira, embranquecido e rachado pelo sol, embaixo de um cajueiro de galhos retorcidos.

– Ai, que calor, andar depressa me deixa afogueada. Apareceu alguém por aqui? indagou Xandoca. Uns homens mal encarados? Eles tão atrás de meu filho.

– Que eu visse não, ela respondeu, sentando-se na outra ponta do banco e sungando a saia para o meio das pernas. Por aqui só aparece bicho.

– Ainda bem, suspirou a outra. Essa noite quase não dormi, agarrada ao terço, rezando, pedindo proteção pro meu menino..

– O que esse moço andou arrumando por aí? Boa coisa não foi, pra ter esse povo ruim no rastro dele.

– Ai, Jove, nem gosto de falar. Depois eu conto. Mas, olha, aí vem ele, tadinho, além de pesado, esse feixe de galhos deve ter arranhado ele todo.

Laerte sorriu para ela, deu a volta na casa e jogou o feixe de lenha junto à porta dos fundos. Veio depois sentar-se entre elas.

– E aí, Xandoca, como tão as coisas?

– Os cabruncos passaram a manhã inteira rondando a pensão, procurando por ocê.

– Elísio me contou.

Ela segurou sua mão, ansiosa.

– Como ocês se livraram deles?

– Foi danado, mas o Elísio conhece tudo por aqui. Quando pulei na garupa dele, depois que vi os bandidos, ele me disse: se segura que a corrida vai ser braba. E foi, Xandoca. Ele esporeou o cavalo e tomou uma boa dianteira. Atravessamos o roçado de seu Julio num susto, pegamos a estrada de ferro e seguimos por ela, tropeçando nos dormentes. E eles atrás, teve hora que pensei que fossem nos alcançar. Entramos no mato rasteiro e lá pros lado do Perigoso, ele deu uma guinada pra direita e disparou pelo meio do campo até alcançar a mata de São João. E os sujeitos na nossa cola. E o cavalo galopando. É muito ruim viajar na garupa, a cada pulo que o cavalo dava meu traseiro doía. Eu tava desacostumado. Mais uma guinada do Elísio e entramos numa mata fechada, os galhos batendo em nossa cara, nem adiantava abaixar a cabeça. Tinha lugares que ninguém acreditava que uma alma pudesse passar, que dirá um corpo. Pois lá fomos nós. Durante certo tempo ainda se ouvia o bater dos cascos dos cavalos deles no chão e seus gritos. Depois tudo foi ficando longe, até que parou. Só se ouvia os barulhos que os bichos fazem no mato. Saímos para um descampado e vi que a gente estava na margem do Porto Escuro. Elísio segurou o cavalo e apeamos. O pobre animal bufava. Seu pelo estava encharcado de suor, foi uma corrida e tanto pelo meio do mato. Esses arranhões que ocê tá vendo nos meus braços e na minha cara não foram de agora não, foram de ontem à noite. Tudo ardia. E meu coração parecia um tambor.

Ela o ouvia, mãos apertadas no colo, olhos cheios de lágrimas.

– Quando eu penso… disse ela, nem acredito.

– Aí viemos pra cá, devagar, Elísio puxando o cavalo pela rédea pra dar um descanso pra ele e eu caminhando do lado, minhas pernas doendo pra chuchu. Levamos tempo pra chegar. Coitada da dona Jove, ficou acordada, esperando por nós.

– Eu quase não durmo mesmo, disse a velha. E eu tinha prometido à Xandoca e não ia faltar à minha amiga numa hora de aflição.

Xandoca sorriu pra ela, os olhos ainda marejados.

– Agora, dona Xandoca, disse Laerte com voz forte, é a sua vez. Vai me contar tudinho o que eu não sei. Senão arrumo um cavalo e vou pra Valetas agora mesmo.

– Vou fazer um café, disse Jove se levantando. Só não tenho mistura.

– Ah, eu trouxe um bolo e umas rosquinhas de fubá que eu fiz. Pegue aqui na bolsa, Jove. – Passou a mão pelo rosto de seu menino. -Vamos esperar o café e depois conversar.

– Não senhora, não vai me enrolar de novo. Vamos lá pra dentro e a senhora me conta enquanto dona Jove faz o café.

A noite caía e o céu se coalhava de estrelas. Galinhas apressadas corriam em busca dos poleiros. Um bando de andorinhas dava seu último vôo de caça do dia. Galinholas piavam chamando o resto do bando para os galhos da árvore onde dormiam. Jofre se preparava para passar o arame na cancela quando três cavaleiros surgiram no rumo de Beira do Taí e foram em sua direção. Eram novos, por volta de 30 a 40 anos, e não tinham cara de bons amigos.

– É aqui que mora o Laerte? perguntou o que tinha uma cabeleira lustrosa, mesmo ao lusco fusco, saindo por baixo do chapéu.

– Sim senhor, é meu irmão e essa é nossa casa.

– Vai chamar ele, gritou o muito magro, que parecia um papa-fumo vestido, e que se mexia, muito agitado, sobre a sela.

– Ele viajou, não tá aí não.

– Eu não disse, falou o cabeludo, perdemos nosso tempo.Vai ver foi atrás da vagabunda. O corno se cansou de esperar ela voltar e foi atrás.

Jofre olhava os homens, sem entender muito bem a prosa. A janela da casa se abriu e Marica apareceu, curiosa com o vozerio exaltado. Teve vontade de mandá-la entrar, alguma coisa lhe dizia que os homens eram perigosos, mas a idéia de chamar a atenção deles para ela o fez continuar calado. Podia ser que, no lusco-fusco, não tivessem visto a mãe abrir a janela, estava cada dia mais sumítica. Ao lado do ombro da mãe apareceu a cara engraçada da irmã boba.

– E a gente faz o quê? perguntou o terceiro homem, que falava de maneira estranha, com a boca meio cerrada, como ouvira falar alguns dos frequentadores do cais da cidade. Eram portugueses, lhe explicaram.

– Viemos fazer o quê? Viemos procurar o tesouro, não foi?

– Que tesouro? perguntou Jofre, já assustado.

– O tesouro que seu irmãozinho roubou de nós e trouxe pra cá.

Da janela Marica gritou, com voz esganiçada.

– Meu filho não é ladrão, ladrões são vocês que vieram atrás do que é dele.

– Quem é a bruxa?

– Bruxa é sua mãe, desgraçado, se é que ocê tem mãe, respondeu ela, cuspindo para o lado e erguendo a mão fechada na direção deles.

O cabeludo jogou a cabeça do cavalo contra o rosto de Jofre, que se esquivou.

– Tá me vendo não?

Cabelo arreganhou a cancela.

– Sai da frente, palerma. Vamos lá, pessoal, mãos à obra.

Jofre, paralisado, não sabia que atitude tomar. O homem que vinha por último ao passar bateu-lhe na cara com a soiteira. Assim, de graça. O sangue jorrou de sua boca. Jofre deu um grito sufocado misto de espanto e dor. Marica e a menina boba gritaram, mas não havia ninguém por perto para ouvir, a casa mais próxima ficava a mais de meio quilômetro de distância. Marica correu para impedir que entrassem mas mesmo de cima da sela o cabeludo arremeteu o pé, quebrando a porta.

– Animal, ela gritou.

Entraram a cavalo na sala. Num canto, encolhida, Marica abraçava a filha. Um dos homens trouxe Jofre agarrado pelo colarinho e o atirou no meio da sala. Impacientes, os cavalos pateavam. O cachorro da casa se esgueirou para fora, rabo entre as pernas.

– Agora vamos conversar, dona bruxa. Quer dizer que o passarinho safado bateu asas? Foi atrás da mulher da vida que ele diz ser mulher dele, mas que é mulher de quem pagar mais?

Marica tapou os ouvidos da filha e gritou: mentira!

Os homens riram, debochados.

– Coitada da menina doentinha, ironizou o português, nunca vai ter o prazer de sentir um pau entrando na sua perseguida. Vai morrer cabaçuda.Tapa os ouvidinhos dela, mamãe, tapa. Tadinha!

Marica deu de mão numa almofada e jogou sobre eles.

– Covardes, gritou, malvados.

Riram mais ainda.

– Ela vai morrer virgem, gritaram em coro.

– Bom, disse o português, não vou voltar de mãos vazias. Diga logo, dona bruxa, onde seu filho escondeu o tesouro?

– Eu não sei de nada. Tem tesouro nenhum aqui.

– Só não lhe dou uns sopapos, disse ele, porque dizem que bater em velha feia dá dez anos de azar. E já chega o perrengue que estamos passando. Diga logo, sua velha tonta, onde ele botou nosso ouro? Não vê que vai ser pior se não contar?

A menina boba chorava de soluçar. Jofre tentou se levantar, mas a bota pesada na ponta da longa perna do papa-fumo o alcançou no rosto e o devolveu ao chão. Arrastou-se até à parede, gemendo de dor. Sangue escorreu do lábio rachado.

– Para aí, ô sujeitinho, não vai fugir não. Se a vaca da sua mãe não sabe, ocê deve saber. Seu irmão guardou onde o ouro?  Diz logo que estou perdendo a paciência!

Jofre sentiu um impulso de coragem e respondeu:

– Não sei e não quero saber.

A soiteira pegou de novo em cheio a sua cara. Uma lista vermelha e um filete de sangue brotaram de sua pele. Gemeu alto. O olho direito tinha ficado roxo. A menina gritou.

– Ninguém sabe, ninguém viu, todo mundo aqui parece bobo que nem a menina, falou Funchal, irritado. Precisam de um corretivo pra memória voltar

– Vamos ver se não sabem, disse Pernilongo, e do alto da sela agarrou Marica pelo coque. A menina gritou e avançou para o cavalo, com as mãos em garra. Sem soltar a velha ele desferiu um chute na cara da menina e a lançou violentamente contra a parede. Ela caiu de costas, com um som oco, e ficou ali, calada.

– Ocê matou minha filha, gemeu Marica, seu lamparão, desgraçado, filho do demônio.

– E se não calar essa boca murcha vou matar ocê também, bruxa. Vambora pessoal, vamos lá pra fora que aqui tá cheio de mosquito.

Saíram da casa, levando Marica arrastada pelo cabelo e Jofre pelo colarinho. A menina continuou imóvel, estirada no chão de terra batida, os olhos voltados para o teto. Um fio de sangue saía de sua boca.

– Ocês viram como somos ruins, não viram? Então é melhor abrir o bico e contar logo onde o filho da puta do Laerte escondeu nosso ouro pra gente não ter de matar todo mundo aqui.

– Ai, meu São Benedito me acode! Não deixe minha filhinha morrer, Santo Antonio!

Os soluços sacudiam com força o corpo magro de Marica, que tentava arranhar as pernas de seu captor, que a chutava com frequência em represália.

– Se essa velha fosse um pouquinho mais nova, disse o português, eu passava o ferro nela. Ando num atraso de dar dó. – Gargalhou, debochado – E cumé, vamos ficar muito tempo nisso? Ocê aí, maninho de merda, não acha melhor dizer logo onde ele escondeu o ouro? Deve ser uma sacola assim, cheia de pedrinhas. Será que escondeu dentro de casa? Olha lá dentro, Pernilongo, enquanto a gente dá uns carinhos nos caipiras metidos a sabidos. E segura essa bruxa remelenta, senão ela morde a gente.

Com o coração partido, Marica pensava na filha estendida na sala e nos estragos que intuía estavam sendo feitos pelo barulho que o homem fazia dentro de casa. Pelo som viu que pratos e panelas foram varejados no chão, as gavetas jogadas longe, os móveis quebrados. Quadros com imagens de santos zuniram pela janela e se espatifaram no terreiro. O cachorro latiu, desconfiado, e as galinhas, do poleiro, cacarejaram, confusas. Estava na hora de dormir, elas não gostavam de quebra de rotina. Marica não conseguia parar de chorar. O peito magro lhe doía. Ah, Laerte, pensou, sua ambição trouxe a desgraça pra nossa casa.

Cabelo desceu do cavalo, amarrou os pulsos de Jofre com a rédea, e entrou para acelerar a destruição. O barulho aumentou, o galo cacarejou, bravo.

– Em algum lugar esse ouro tem que tá, gritava Cabelo, enquanto jogava roupas pela janela. Ao passar pela menina deu-lhe um chute na coxa. Ela não se mexeu, nem gemeu.

– Sai do caminho, traste, gritou.

Marica gritou: Deus, me ajude, E entrou a rezar furiosamente.

Dois dos homens socaram as paredes com pedaços de pau, na esperança de encontrar um som oco que indicasse esconderijo. O reboco antigo caía em grandes pedaços.

– Na casa nada, concluiu o português. E na capela ali? Ela é nova, ele bem pode ter escondido o ouro na parede. Pega uma lamparina aí, Pernilongo, pra gente olhar.

– Pega ocê, não sou seu empregado. Eu, hein, tô só de olho nocê, ta abusado e me trata como um criado, mas comigo não, bacurau.

– Vamos parar com isso, interveio Cabelo, aqui todo mundo é igual. Vai lá, Pernilongo, pega a luz e vamos olhar a capela.

Não sentiram nenhum vazio na construção recente. As paredes eram maciças, o reboco ainda um pouco úmido. Cabelo coçou a cabeça.

– Nada. Onde será que o disgramado enfiou esse ouro?

– Tô com fome, reclamou o português. Se essa bruxa fosse boazinha ia preparar uma comida pra nós. E riu, escarnecendo.

Em resposta Marica avançou para ele de boca aberta e foi puxada com violência pelo cabelo. Desesperada, ela chutava o que lhe aparecia pela frente. Como os tamancos haviam caído, de vez em quando chutava um pé de cadeira ou de mesa e dava um grito de dor.

– São Jorge, meu santo guerreiro, gritava ela, me socorre com sua lança! Eu não aguento mais, meu São Benedito! Mande alguém pra me socorrer, santa Bárbara!

Atado como gado, machucado, humilhado, Jofre só podia chorar, embora sempre ouvisse dizer que homem não chorava. Baba grossa escorria de seu queixo. Pedia ajuda a todos os santos em pensamento. Marica tentava livrar o cabelo das mãos do bandido. Ninguém aparecia para socorrê-los.

– Só tem um jeito, lembrou Pernilongo, cavar esse chão.

– Como? indagou Cabelo.

– Com a enxada, ora pombas, como é que se cava? O tesouro tem que tá por aqui. Aí, velha, gritou, vai pegar uma enxada e junto com seu filho vão cavando em volta da casa e perto da árvore, até descobrir onde ele enterrou o ouro. Tem que tá por aqui, ora bolas. Vamos, todo mundo trabalhando. Solta o cabelo da velha, compadre, mas cuidado que ela é tinhosa. Morde que nem cobra.

Ao se ver livre, Marica se abaixou, pegou a pedra que vinha observando e lançou-a contra o português, não acertando. Como resposta imediata recebeu um trompaço na cara e cega de dor saiu tropeçando, urrando, mãos estendidas para a frente, tentando se agarrar em alguma coisa e se esborrachou junto ao pilão encostado na parede e que caiu sobre suas pernas. Deu mais um grito. Mais dor.

– Viu, sua bruaca, o que arrumou? Agora fica aí gemendo, querendo convencer que não pode cavar. Nada disso, deixa de fita, pega na enxada e vamos cavacar até descobrir onde seu filhinho querido escondeu nosso ouro. Vamos. Deixa de moleza, infeliz.

Como ela não se mexia, só gemia, pegou-a pelo braço, tentando obrigá-la a se por de pé. A perna dobrou de forma estranha e ela tornou a se estatelar no chão, berrando de dor. Jofre forçou para se soltar, em vão. Gritou também:

– Para, gente, pelo amor de Deus! Ela não pode ficar de pé! Tenham piedade!

– Ocê quebrou minha perna, miserável, berrou a velha, Deus há de quebrar as suas duas. Nunca mais ocê há de andar. Ai, meu São Benedito, como dói!

– Eu não fiz nada, gozou ele, foi a sua teimosia.

– Deixa a velha pra lá, disse Cabelo, e vamos cavacar o chão. Alumie com as duas lamparinas senão a gente vai acabar metendo a enxada um no outro.

Jofre foi libertado, tentou correr para junto da mãe, levou um soco na barriga e se curvou de dor. Quando se recuperou pôs-se a cavar sem pressa, lágrimas escorrendo pelo rosto. A mãe gemia e a irmã estava estranhamente quieta na sala. Será que tinha morrido?

Indiferente ao drama, as estrelas piscavam alegremente no firmamento. Um vento fresco perpassou por eles. Pernilongo enxugou o rosto, olhou em volta e disse:

– Loucura a gente ficar esburacando tudo aqui, sem saber se o ouro tá aqui ou não. E se ele levou pra outro lugar? Sabe o que mais, parei por aqui, meus braços estão doendo. Até parece que somos lavradores.

– Tamos plantando ouro, riu o português.

Largada no chão, Marica se retorcia de dor e gemia:

– Ai, que tormento, ai que dor! Ai, minha pobre filha! O que fiz a Deus para merecer isso? Ah, Laerte, meu filho, ocê acabou com nós! Piedade, meu Deus! Nós não tem culpa!

Jofre largou a enxada e correu até ela. O português estendeu o pé, ele tropeçou e caiu de borco em cima dela, aumentando as dores da perna quebrada. Ela urrou.

– É, concordou Cabelo, calmo, também acho melhor a gente ir embora. O Laerte não pode ficar fora de casa a vida inteira, um dia vai ter de voltar, principalmente depois que souber da lição que demos nos parentes dele. Safado, ladrão, ordinário. O Cearense tá morando aqui e se a gente tivesse escutado o que ele disse, não teria feito esse estrago todo e ficado tão cansado. Vamos dizer pra ele continuar de olho e voltamos pra cidade. Lá ficamos na tocaia, em breve ele vai aparecer e aí…

– E o cearense vai ficar aqui, só flanando? Sei lá, acho que ele se bandeou pro lado do Laerte, eram tão amigos até Bárbara chegar. Arranjou um motivo bocó pra não vir aqui nos ajudar. Aí tem coisa.

– Deixa de implicância, pombas. Ele vai continuar por aqui sim, para o caso de Laerte vir pra cá primeiro, o que não acredito muito. Vamos dar as instruções pra ele. Com essa de hoje Laerte vai ver que não estamos brincando. Se nos trair, mando-o pro inferno. Ocês dois aí, gritou, parem de gemer e vão cuidar da sua vida. E digam pro irmão ladrão que ele não vai escapar de nós assim não. Queremos nosso ouro.

Laerte chorou convulsivamente durante muito tempo. Xandoca puxou sua cabeça para seu colo e deixou-o chorar. Tinha contado o ataque dos bandidos da forma mais suave possível, mas era difícil, não provocar dor e revolta.  Ele precisava desabafar e sua mão carinhosa se contentou em lhe alisar os cabelos. Quando por fim dominou sua emoção, ela perguntou:

– Foi assim, Xandoca, com tanta crueldade?

– Viu por que não quis lhe falar antes?

– E o que aconteceu depois? ele indagou, enxugando os olhos na fralda da camisa.

– Seus irmãos cuidaram do enterro da menina, porque Jofre estava sem condições, bastante ferido e desnorteado. Sua mãe ficou muitos dias internada na Santa Casa, quebrou um osso da coxa e segundo os médicos, nunca mais vai andar.

Nova crise de choro sacudiu Laerte. O mundo tinha desabado sobre ele. Murmurou entre soluços:

– Minha mãe está certa, eu sou o culpado de toda essa desgraceira.

– Não pense assim, meu filho. Não foi culpa sua. Ocê fez o que achou que era o melhor, sofreu muito para conseguir melhorar a situação da família. Não podia era imaginar que iria esbarrar com esses criminosos sem alma em seu caminho. Ela falou aquilo num momento de raiva.

– Podia ter evitado isso sim, Xandoca, muita gente me avisou e não acreditei. Eu sabia que essa gente não prestava, são gananciosos, sanguinários, cruéis. Eu era ambicioso, me juntei a eles, deu no que deu. Quem se junta aos porcos… Besta que sou, fiquei muitos anos mergulhado nas águas, peguei doenças, arranquei quilos de ouro e de que me adiantou? Minha mãe hospitalizada, minha irmã morta, a mulher e filha sumidas, enfim, uma desgraça só.

O silêncio caiu sobre eles. Xandoca não sabia o que dizer para diminuir sua culpa. Só o tempo faria isso. Apenas o estalar da lenha no fogão era ouvido. Até o papa-capim cantador, preso na gaiola pendurada na parede, estava quieto. Após uns minutos Laerte perguntou, com voz rouca:

– Como tá minha mãe?

– Tá bem, afirmou Xandoca, tá sendo cuidada por sua irmã que mora perto da usina. Nos primeiros dias só conseguia ficar deitada e gemia muito. De uns dias pra cá já pode se recostar na cama.

– Vou fazer uma visita pra ela.

– Vai não. O médico proibiu que ela tenha emoções fortes. E depois, eu sinto dizer isso, ela não quer ver ocê.

– Tá vendo, ela não falou aquilo só na hora da raiva. Ela não vai me perdoar nunca.

Mais tempo de silêncio, Laerte com a cabeça entre as mãos, olhando desolado para o chão batido. O cheiro do café sendo coado se misturou ao da lenha se queimando.

– Vamos tomar o café da Jove com a mistura que eu trouxe. Eu acho que ocê deve ficar escondido aqui por uns tempos, até os canalhas irem embora.

Levantou-se e encheu uma caneca com o café. A velha Jove trouxe a bandeja forrada com um paninho bordado com as rosquinhas e o bolo.

– Eles não irão embora até me encontrar, disse ele. É bom, eu mereço esse castigo. Eu devia era ir ao encontro deles e acabar logo com isso.

– Não fala bobagem, repreendeu Xandoca. Vamos, segure a caneca, que tá queimando meus dedos. Tome um café para revigorar. E coma um pedaço do bolo que fiz hoje, especialmente para ocê. Vou dar um pulo em casa, tenho que pegar minhas coisas antes que a loja feche e mais tarde vou mandar umas roupas de cama pelo Elísio. Já combinei com a Jove, essa noite ocê dorme aqui e a gente pensa no que fazer depois. E olha, pelo amor de Deus, não se afaste daqui. Não piore a situação. Os desalmados devem  tá agora percorrendo a cidade, procurando um rastro seu.

– Eu devia mesmo ir atrás deles, acabar logo com isso, repetiu Laerte. Só não vou porque preciso encontrar minha mulher e minha filha. Antes desses bandidos

À noite Laerte teve outro surto de maleita. Quando Elísio chegou com a trouxa de roupas ele tremia, encolhido num canto da sala. Da porta, pitando um cachimbo de barro, Jove o olhava, preocupada.

– O moço num tá bem, avisou. Fala pra Xandoca.

Elísio nem saltou do cavalo, entregou a trouxa à velha e retornou de galope à pensão. Menos de uma hora depois voltava com Xandoca na garupa. Ela não esperou por ajuda e desceu do animal num pulo.

– Fica fazendo essas estripulias, disse Jove, fica e vai acabar indo mais cedo conhecer Papai do Céu. Ou vai ficar entrevada numa cama pelo resto da vida.

– Que me importa! Cadê meu filho?

E correu para onde ele estava, gemendo e batendo queixo, enrolado nuns trapos. Ela se agachou a seu lado e encostou a mão em sua testa.

– Como está, meu filho?

– Mal, Deus tá me castigando, Xandoca.

– Deixa de besteira. Não é a primeira vez que ocê tem dessas crises, é? E ocê sempre se safa. – Ele concordou com a cabeça. – Então? Deus é bom, meu filho. Quem faz coisa ruim é homem, homem ruim, que nem os que estão perseguindo ocê.

Arrancou os molambos de cima dele e jogou-os para o lado. Cobriu-o com o cobertor que havia trazido.

– Jove, bota um pouco dágua pra ferver.

– Já tá quase fervendo.

– Vou fazer um chá pra ele. Da outra vez deu certo. Demora um pouco mas vence a crise. Elísio, arruma uma esteira das grossas, compra uma, acho que aqui não tem, tou sem dinheiro mas ao chegar em casa lhe pago.

Xandoca não foi para casa. Depois de dar o chá e arrumar uma cama confortável para Laerte, sentou-se a seu lado e durante toda a noite cuidou dele.

Não podia, porém, permanecer ali por muito tempo, tinha que cuidar da pensão. Pela manhã preparou um caneco grande de chá, chamou Jove e lhe deu as instruções.

– Se ele piorar mande alguém me chamar. A qualquer hora. De noitinha volto pra cá. Vou mandar uma canja pelo Elísio.

Trabalhou inquieta o dia inteiro. Não vira os inimigos de Laerte por perto e ficou a imaginar que estariam ainda em Valetas. Fazendo o quê, Pai do Céu? Novas maldades? Botando a capela abaixo atrás do tesouro? Mandou Jair andar pela cidade para ver se conseguia saber do paradeiro deles. Como sempre, ele voltou de olhos arregalados e boca aberta:

– Dona Xandoca, a senhora não imagina o que aconteceu!

Ela se inteiriçou e deixou a faca com que cortava abóbora cair na pia. Engoliu em seco.

– Pelo amor de Deus, Jair, não me dê mais más noticias.

– Pelo contrário, dona Xandoca, a senhora vai ficar é feliz. A peste do Pernilongo, o tal que tem pernas de garça, passou muito mal, Maneco Ribas contou que ele começou a tremer na rua, quis andar, as pernas compridas não deram conta e ele desabou perto do coreto. O cabeludo mandou chamar o português, que proseava com uns conterrâneos que moram aqui, arrumaram uma carroça e levaram o mosquitão – ele não parece um mosquito com aquelas pernas grandes? – para a Santa Casa. Isso foi ontem de tarde e ele continua lá. De cama.

Xandoca sorriu, satisfeita com a nova.

– Vento que venta lá, venta cá, disse judiciosamente. O disgramado também tá com a febre, bem feito. Tomara que morra, remédio de farmácia não cura maleita. Vamos ter um pouco de folga. Fica de olho e ouvido bem aberto, Jair, e venha me contar tudo o que souber. Na hora, hein, não deixe pra daqui a pouco. E o português, continua a vigiar nosso quintal?

– Não, senhora, tá lá na porta da Santa Casa, junto com o Cabeludo, que pelo jeito também não tá muito bem não. Tá amarelo que nem cajá.

Xandoca retomou o descascar da abóbora, o sorriso irônico preso no rosto.

– Tomara que esse sujeito também adoeça, resmungou. Assim posso trazer Laerte pra cá em segurança. Ele não pode ficar mais tempo na casa de Jove, é uma pocilga, Deus me perdoe. Eu pensava que a velha Jove fosse mais limpa! Cruz credo! Ocê viu quanto lixo, Jair? parece que a casa dela nunca foi varrida. Gente mais porca!

– E por que a senhora mandou deixar Laerte lá?

– Por que nunca tinha reparado na casa, ora bolas! Acha que ia fazer de propósito? Logo com meu filhinho? E depois, pensei que se tudo desse certo, como eu queria, ontem à noite, depois de escapar dos bandidos, ele viria dormir em casa, ah, eu sei lá, não posso me enganar não?

À noite Jair voltou a rondar a Santa Casa. Viu Cabelo todo encolhido num canto da sala de espera. O português não estava mais lá. Jair voltou pelos fundos da casa e lá estava o tal português a pitar o fedorento cigarro de palha. Entrou em casa pulando e deu as boas novas a Xandoca.

– Fique de olho nele que vou sair pela frente. Se ele for no meu rastro dê um jeito de me avisar. Caso Laerte não tenha melhorado, vou dormir lá. Ocê toma conta da casa.

Antes de dormir, depois dos hóspedes estarem recolhidos e de trancar a porta da frente, Jair resolveu verificar, do muro de seu quintal, o que o tal português estava fazendo. Pé ante pé acercou-se do portão e através de uma greta no portão de madeira, olhou a rua. O sujeito estava sentado num caixote, pitando o cigarro que parecia nunca acabar e conversando com um homem sentado em outro caixote. Falavam muito baixo e sem poder ouvi-los, Jair foi dormir.

Em casa de Jove, Xandoca estava preocupada com a febre que não cedia. Assim que amanhecer, pensou, chamo o Elísio com sua carroça para levar meu filho para casa. Aqui ele só vai piorar.

Tinha acertado com Elísio que viesse logo cedo, mas por motivos que desconhecia ele só chegou depois das 10 horas, quando já havia preparado uma sopa para Laerte.

– A carroça estava com a roda empenada, explicou ele, por isso demorei.

– Faz o seguinte, comandou ela, enquanto dou a sopinha pra ele, ocê arruma essas coisas, junto com a esteira, as cobertas e os travesseiros no fundo da carroça pra ele ir mais confortável.

A carroça seguiu por ruas secundárias para evitar olhares curiosos, mas teve de parar numa esquina para a passagem de um enterro. Enterro de pobre e ela se assustou ao ver que um dos acompanhantes era o Cabelo.

– Quem morreu? perguntou a Elísio, em tom baixo.

– A senhora não sabe?

– Como é que eu ia saber, se desde ontem estava enfiada na toca da Jove? Conta logo, homem, que tou ficando nervosa.

– Foi o português, dona Xandoca, um dos bandidos que vigiava sua casa. Foi encontrado morto no cais, esfaqueado. Ninguém sabe quem foi nem porquê. Talvez tenha arrumado uma briga, sei lá. Pode ter sido roubo, pois não tinha nada nos bolsos. E todo mundo sabia que ele vivia com pepitas no bolso e pra se vangloriar costumava exibir as pedras no cais. Tava atraindo ladrão, tava não?

– A Justiça divina tá sendo feita, disse ela, contrita, se persignando quando o caixão passou carregado por quatro homens, entre ele o cabeludo. O de pernas compridas, porém, não estava. E ocê sabe me dizer se o canalha que tava na Santa Casa melhorou? Bem que podia era piorar de vez e ser enterrado com o traste que vai ali. Economizava-se um enterro.

E riu, cheia de maldade e prazer.

– Sei não senhora, mas posso saber.

– A justiça divina tarda mais não falha, disse com ardor, olhando para o alto. Os bandidos que maltrataram a família de Laerte vão morrer, um por um, se Deus quiser, de maneira vergonhosa. Só que eu queria que morressem bem devagarinho, sofrendo muito, pagando em dobro o que fizeram ao meu filho. Deus que me perdoe, mas essa raça tinha quem apodrecer em vida. E cuspiu no chão.

– Todo mundo tem sua hora, dona Xandoca.

– Vou contar pro Laerte assim que ele melhorar. Uma notícia dessas vai fazer ele ficar bom mais depressa.

Laerte melhorava devagar em sua cama na pensão. Tomava sopas e chás sem abrir os olhos, de tão inchados. A febre continuava, mais baixa, e sua pele perdia o forte tom amarelado. Xandoca ansiava para lhe contar da morte do bandido português, mas ele parecia alheado de tudo, não entendia coisa alguma, nem mesmo quando ela lhe falava de coisas triviais, como a chuva grossa que caíra dias antes e alagara a cidade. Ele não movera um músculo ao receber a notícia da chuvarada, nem mesmo a pálpebra se mexera.

– Tenho que esperar um pouco mais.

Jofre aparecera inesperadamente, um homem atarracado, pardacento, inexpressivo, o oposto do irmão, que não demonstrou ter tomado conhecimento de sua chegada. Ele olhou Laerte longamente, os olhos fundos mais desiludidos que nunca.

– Tá mal ele, né? E eu não sei o que fazer, disse a Xandoca, que o havia levado para cozinha onde lhe servira um café com bolo, soube que Laerte estava aqui e vim pedir uma ajuda, mamãe não tá bem e o dinheiro que sobrou do ataque dos bandidos se acabou. É muita despesa, a terra não rende nem para o diário, que dirá quando se tem doença em casa. Pra piorar, encontro ele nesse estado. Ô vida desgraçada.

Ela pôs café na caneca e cortou um pedaço de bolo. Ainda tinha boa parte do dinheiro que Laerte lhe entregara ao partir em busca da mulher, mas talvez ele não gostasse que o usasse sem sua autorização. A não ser na sua ausência. Por outro lado, sabia que as coisas não deviam ir bem em Valetas, os miseráveis tinham destruído a casa e roubado a maior parte do dinheiro que Marica guardara. Ela conseguira salvar apenas um pouco, o que tinha escondido num oco da árvore de cuité que ficava atrás do cercado do cabrito, como Jofre lhe contara que descobrira, mas era pouco e tinha acabado.

– É capaz de ter mais dinheiro lá. Mas onde? Ela não se lembra onde botou e não quer voltar na casa de jeito nenhum pra não se lembrar de nossa irmãzinha. Ela se esquece de tudo, menos disso.

E do jeito que Laerte estava era como se estivesse ausente.

– Olha, Jofre, vamos fazer uma coisa. Ontem eu recebi o pagamento de um hóspede que foi embora. Não é muito, mas pode ajudar. Também tô gastando com a doença de seu irmão. Espera um instante,

Foi ao quarto, tirou algumas notas que estavam na caixa de pó de arroz, por baixo da esponja, voltou para a cozinha e lhe entregou.

– Vamos esperar Laerte ficar bom, acho que daqui a uns quinze dias ele tá de pé, e a gente vê o que pode fazer mais.

Alguns dias depois o pior havia passado, ele já abria os olhos e mostrava entender o que ela dizia. Fora uma das crises mais bravas que o atacara desde que chegara. Ela sentira que envelhecera um pouco mais.

Sem prestar atenção ao estado do doente, Jair invadiu o quarto como um furacão.

– Dona Xandoca, mais um morreu! gritou, eufórico.

– Fala baixo, menino, não vê que tem um doente aqui? Essa doença dá uma dor de cabeça muito forte. Vai lá pra cozinha, depois nos conversamos. Aproveita e vai no quintal ver se as galinhas botaram ovos. Rápido!

Laerte tinha aberto muito os olhos. Quando Jair bateu a porta ao sair perguntou, com voz pesarosa:

– Quem morreu, Xandoca?

Ela conseguiu uns minutos para pensar e arrumar uma desculpa:

– Foi um pessoal de fora, ocê não conhece. Botaram gente demais num batelão, ele virou na barra e algumas pessoas se afogaram. Pelo jeito encontraram mais um corpo.

Ela tinha jeito para mentir. Ele suspirou.

– E por que Jair tá tão alegre?

– Por nada, bobagem. Cê não conhece esse moleque?

– Quando se fala em morte penso logo que é alguém lá de casa.

– E Jair ia ficar feliz por isso? Deus me livre e guarde, já chega de tristezas. Jair deve ter um parafuso meio frouxo na cabeça, liga não. Agora, ocê descansa mais um pouquinho, a febre tá baixando, amanhã, no máximo depois de amanhã, quero ocê bom, comendo com nós na mesa.

– Me diga uma coisa, teve alguém da minha família aqui?

– Teve sim, o Jofre. Veio saber e dar notícias. Sua mãe tá melhor, já tá sentando, o médico está muito esperançoso.

– Não mente pra mim, Xandoca.

Ela ajeitou a coberta em torno dele, sem olhá-lo nos olhos.

– E eu sou lá mulher de mentir?

Jair a esperava impaciente no quintal, um sorriso grande a lhe iluminar o rosto.

– Ele morreu, Xandoca. Quando eu vim da quitanda e passei pela Santa Casa vi o cabeludo andando de um lado para outro, o chapéu na mão, a sacudir a cabeleira. Que cabelo bonito ele tem, né não, Xandoca?

– Isso não interessa, o que tem o cabeludo a ver com a história?

– O cabra amigo dele foi quem morreu Xandoca! Poxa, a senhora não entendeu por que tô tão contente? Foi aquele bandido, o que estava doente, que bateu as botas. Babau! O enterro é amanhã de manhã. – Sorriu matreiro. – Tô pensando em ir.

Xandoca o olhava, admirada. Mais um se fora pros quintos dos infernos, Deus atendera a suas preces muito rápido. Olhou contrita para o céu, o rosto iluminado pela satisfação, disse obrigada, e depois se persignou.

– Preciso acender umas velas para essas almas penadas, murmurou. Quer dizer então que o tal mosquitão foi picar as almas do outro mundo? Já foi tarde, arre! Bendito seja Deus, que nunca falha. Olha, Jair, não fale nada ainda com o Laerte, não sei se tá em condições de se sentir tão feliz. O caso é que sobrou um e tem outro em Valetas e é capaz deles se unirem contra nós. Faz o seguinte, Jair, procura saber o que pretende fazer esse tal, pega algum amigo seu, um desses pinguços, dá um trocado e manda sondar. Mas com muito cuidado, ocê sabe que este sujeito é mau e covarde.

Sentada ao lado de Laerte adormecido Xandoca passava em revista os acontecimentos recentes, a doença do filho, as duas mortes providenciais de seus inimigos. Chorou em silêncio, emocionada. Deus tinha ouvido suas preces e os livrado do mal, amém.

Discretamente, o lenço cobrindo os cabelos, Xandoca foi à funilaria do Rochinha para encomendar umas canecas. Na verdade, era uma desculpa para estar num lugar discreto onde assistir à passagem do funeral do Pernilongo, que a terra lhe seja leve! A funilaria ficava no trajeto dos enterros.

– Vou acender umas velas agradecendo às almas benditas, pensou.

Depois que o caixão passou, carregado por quatro homens, três certamente arrumados pela Santa Casa, sentiu a alma mais leve. Só precisava saber quando o sobrevivente iria para Valetas. Por que sem dúvidas ele iria pra lá. Ela o olhara quando passara e o achara bem amarelo, com pernas não muito firmes. Ele não pareceu vê-la, cabisbaixo, triste, macambúzio, um trapo, o chapéu na mão e a cabeleira desabada sobre o rosto. Aposto que também tá sendo atacado pela sezão, pensou, será que vai morrer que nem o outro? – Sorriu, satisfeita. – Estou sendo cruel, pensou, mas ele foi mais cruel com os parentes de meu menino. Esse tisgo merece morrer devagarinho, sofrendo que nem condenado.

Jair vira Cabelo Bom, na manhã seguinte, esperando o trem na estação, encapotado, encolhido, o chapéu enterrado até às orelhas. Parecia desnorteado, contou a Xandoca, a caminhar de um lado a outro da plataforma. Carregava uma mala velha.

– Será que tá indo embora? especulou o moleque.

Xandoca exultou, até que se indagou e pra onde ele vai? Mandou Jair correr ao hotel onde ele estava hospedado para saber tudo sobre o maldito, se possível para onde tinha ido, se fora de vez ou se pensava em voltar. Pouco havia para ser dito, falou o hoteleiro, os três homens eram muito quietos, quase nem falavam entre si.

– Uns brutamontes, resumiu a mulher de Fidalgo, o hoteleiro. Nunca vi mostrarem os dentes pra ninguém.

Ela era comunicativa, brincava com hóspedes, mas com eles nem dava bom dia. Fidalgo contou que, como sempre fazia, na despedida perguntara para onde o homem ia, para o caso de aparecer alguma correspondência e ele respondera, mal humorado.

– Pro inferno.

– É pra lá que ele vai mesmo, comentou Xandoca.

Com o passar dos dias Xandoca ficou mais tranqüila. Laerte melhorava devagar e sempre. Já não tinha febre e comia melhor. Andava pelo quarto a princípio se apoiando nos móveis e nas paredes e logo sem qualquer apoio.

– Essa crise foi terrível, hein, meu filho?

– E tenho de melhorar para visitar minha mãe.

Xandoca ficou quieta, mas ia fazer o possível e o impossível para ele não ir tão cedo. A mãe não queria vê-lo, lhe atribuía todas as desgraças que atingiram a família. Alguém tinha de mudar o pensamento dela antes da ida dele. Não se soube mais notícias do cabeludo. Pegara o trem pro fim do mundo.

No final do mês Laerte caminhava normalmente e se cansava com facilidade. Xandoca deixou que saísse do quarto apenas para arejar. Antes contou das mortes dos meliantes. E da viagem do cabeludo.

– Esquisito, né? estranhou ele. Por duas ou três vezes Pernilongo teve à beira da morte lá no garimpo. Da última vez foi Bárbara quem o salvou.

– E o lamparão quis pegar ela. Que ingrato, né? comentou Jair.

– Pois é, um miserável. Pernilongo era magro porque quase não comia e bebia muita pinga. Andava com um vidrinho no bolso de trás da calça e sempre que tava sozinho tomava uma talagada. Não resistia. E quando não tava sozinho e a vontade de beber apertava, dava um jeito de encontrar um cantinho para se satisfazer. Ele era só pele e ossos. Um pau vestido.

– Ele era magro de ruim que era, resmungou Xandoca.

– Ruim era mesmo. O Cabelo deve ter ido embora com o ouro dos dois.

– Não, interveio Jair, quem matou o português é que deve ter levado o ouro dele. Foi assalto, todo mundo acha. O delegado disse que nada encontrou na roupa dele, nem documento. Documento serve mesmo pra que?

– É verdade, concordou Laerte, como todos nós do garimpo ele tinha um saquinho ou uma bolsinha de couro onde guardava o ouro. Será que não foi o Cabelo que… não, também não posso atribuir tudo a esse patife.

– Documento, explicou Xandoca a Jair, é um papel escrito serve pra dizer quem ocê é. Quando a gente viaja deve levar uma certidão de nascimento, qualquer coisa assim. A gente não sabe o que pode acontecer no caminho, não viu o caso desses bandidos? As famílias deles nunca vão nem saber onde estão enterrados.

– E essa gente tem família? No garimpo, às vezes, numa noite quieta, depois de uns tragos, batia aquela melancolia e uns contavam de onde vieram, falavam da família, choravam, mas no dia seguinte nem se lembravam mais do que disseram. Se fossem se impressionar com isso, não ficariam muito tempo por lá.

– Vida triste, suspirou Xandoca. Prefiro meu cantinho, tranquilo. Pouco dinheiro, muita saúde e muita paz.

– Pois eu não, afirmou Jair, quero ganhar muito dinheiro, encher os bolsos de pepitas de ouro. Vou garimpar quando puder.

Laerte o olhou com tristeza, era mais um fisgado pelo sonho de enriquecer depressa, de ter uma vida aventurosa. Nem o amargo destino do Português e de Pernilongo o desestimulara. Era a velha idéia de que coisas ruins só acontecem com os outros.

Com as duas mortes e a partida de Cabelo a tranquilidade retornou aos moradores da pensão. Mas Xandoca via no olhar perdido de Laerte uma inquietação que a assustava. O que estava perturbando seu menino? Seria saudade da mulher e da filha?

Os pensamentos de Laerte se atropelavam, se embaralhavam, não ofereciam saída para os problemas que precisava resolver. Primeiro, Bárbara e a filha Laércia, perdidas Deus sabe por onde, que queria achar de qualquer maneira e o mais depressa possível, embora não tivesse qualquer pista. Por onde começar?

Outra preocupação a atormentá-lo era o estado de saúde da sua mãe. Nunca fora muito ligado a sua família, tinha de reconhecer, no garimpo lembrava-se com saudade mais de Xandoca que daquela mãe calada, sempre ocupada, sem tempo pra nada nem ninguém e atendendo a todos de cara amarrada.

No entanto, desde que ela sofrera o ataque brutal de seus antigos companheiros, sentia-se responsável, cheio de remorsos, e em consequência o filho que não chegara bem a ser brotara de seu íntimo. Marica voltara a ser sua mãe e Jofre o irmão. Via, com um pouco de remorso, a morte da irmã boba como um alívio, como uma carga a menos a pesar nas costas de sua mãe.

Tinha muita vontade de visitar a mãe, conversar com ela, se mostrar arrependido do mal que sem querer lhe causara, lhe fazer um carinho, assumir enfim sua postura de filho, o que não acontecera quando retornara para construir a capela. A capela era apenas uma promessa que pagava, uma obrigação, um jeito de mostrar que vencera na vida. A capela só era importante para ele, forçoso era confessar, porque abrigava a santa com seu tesouro, elo de ligação de sua vida feliz com Bárbara e garantia de um futuro sem problemas financeiros.

Talvez a maior preocupação fosse com o cearense arretado, morando em Valetas, perto de sua casa, espreitando-o e aos seus, pronto para fazer maldades se desconfiasse que ali estava o seu ouro. Aquilo era bicho traiçoeiro, cobra coral. Se Cabelo tivesse ido se unir a ele, o desejo de encontrar o ouro, mais o ressentimento pela morte dos companheiros iam torná-los inimigos perigosíssimos. Haviam de querer tirar sua preciosa vida depois que descobrissem onde o ouro estava guardado. Pelo que fizeram à sua família podia bem  imaginar o que fariam com ele. Usariam de todos os meios, mesmos os mais cruéis, para arrancar a informação que desejavam. Resistiria às torturas? Por quanto tempo?

Mais do que nunca sentia que precisava se vingar de todo o malfeito e recuperar sua paz. Precisava destruir os dois.

Se Bárbara e sua filhinha haviam esperado até agora podiam esperar um pouco mais, raciocinou Laerte, obcecado pela idéia de vingança. Não podia trazê-las para viver sob ameaça. Cabelo e o Cearense eram a ameaça iminente, primeiro tinha de neutralizá-los. Jofre contara a Xandoca, que os moradores de Valetas e vizinhança ao ouvir dizer que ali fora enterrado um tesouro, tinham corrido para lá munidos de pás e enxadas e cavado alucinadamente, deixando a terra como se tivesse sido arada. Felizmente não mexeram na capela. Eram religiosos, ali era casa dos santos.

À noite, depois da janta, disse à Xandoca:

– Decidi ir a Valetas, mas antes tenho de resolver um problema que me preocupa desde que soube do nascimento da minha filha: registrá-la no cartório, dar a ela uma certidão de nascimento, coisa que eu só consegui quando vim morar na cidade. Aliás, foi ocê que viu isso pra mim.

A conversa de Jair com a velha sobre documentos o despertara para a necessidade.

– Minha filha vai ser gente, vai ter nome e sobrenome. Se Bárbara tirou certidão pra ela lá aonde tão morando, não tem importância, é melhor duas do que nenhuma.

Pediu a Xandoca que conseguisse registrar a menina no cartório. Previa dificuldades porque a menina não morava ali, o escrivão podia não acreditar que ela existia. Já com Xandoca havia vantagem do escrivão conhecê-la há muito tempo, sabia que não ia lhe mentir. Inda mais em questões de família. Xandoca encontraria a resposta certa para justificar a ausência de mãe e filha.

– Ocê disse que o nome da mãe da menina é Leopoldina. Não é Bárbara?

Ele hesitou, mas não podia mais mentir para Xandoca. E contou a verdadeira profissão da mulher que lhe dera a filha. Xandoca franziu o sobrolho, ficou alguns minutos em silêncio, depois indagou:

– E cumé que ocê sabe que a filha é sua?

– Porque nesse meio tempo ela tinha largado da profissão e morava comigo. Ninguém mais tocou nela, eu garanto.

– Tá bom, se ocê garante eu acredito. E qual é o sobrenome da mãe?

– Aí já é mais complicado, disse ele, coçando a face onde a barba despontava, mas lembro que numa noite, quando a gente conversava em volta da trempe, enquanto a carne de capivara cozinhava, ela falou de brincadeira que sua família era tão importante que um presidente da República tinha seu sobrenome. Lembro bem porque a capivara quem caçou fui eu e dificilmente eu saía pra caçar, não gosto de matar bichos, só pra comer. A capivara tava distraída e nem me viu chegar. Dei só um tiro de espingarda e pum! garanti comida por dois dias. Era uma baita capivara. Mas voltando à vaca fria.

– É vaca ou capivara? perguntou Jair de troça.

– Cala a boca, menino. Bom, voltando ao assunto, tá bom assim, moleque? Bárbara comentou que o tal presidente não pudera tomar posse porque tinha ficado doido e aí entrou outro no lugar dele.

– Tá vendo, ela disse, esse povo é assim, amalucado. Até o presidente endoida.

– A gente no garimpo nem sabia da história do tal presidente maluco, mas como ela vivia pra baixo e pra cima, conversando com todo o tipo de gente, acreditamos no que disse. A gente vivia na ignorância de tudo, só o ouro interessava.

– Tá bom, disse Xandoca, contrariada por Jair estar participando da conversa onde se falava da vida errada da mulher de seu filho, vamos terminar logo com essa prosa. Qual era o nome do tal presidente?

– Pera aí, e pela cara retorcida de Laerte percebia-se que revirava os miolos em busca do nome. Como é mesmo o nome dele, gente?

– Eu também não sou muito de me interessar por essas coisas, disse Xandoca, por mim o Brasil continuava com seu imperador, era um homem muito bom, mas sabe como é, pensão de beira de cais recebe gente que acompanha a política e gosta de falar sobre os canalhas. Já já vou me lembrar do nome desse ladrão.

– O presidente é ladrão, Xandoca? perguntou Jair, com os olhos arregalados.

– Modo de falar, criatura, é que todo político é safado. Era assim no tempo do imperador e vai continuar até o fim dos tempos. O nome do sujeito é… Moreira, Delfim Moreira.

– Isso mesmo, gritou Laerte, se erguendo para lhe dar um beijo na bochecha. Então o nome da mãe de Laércia é Leopoldina Moreira. Escreve aí, Xandoca, pra não esquecer.

Ela molhou a ponta do lápis na boca e anotou o nome no caderno aberto em sua frente com certa dificuldade. A mão estava ficando dura, era cada vez mais difícil desenhar as letras. Virou-se para Jair:

– E para ocê, que nem devia de tá ouvindo essa conversa, vou dar um aviso: bico calado sobre o que ouviu aqui da mulher do Laerte. Se eu souber de algum cochicho sobre isso, ai de ocê! Embrulho e devolvo ocê pros cafundós do mato de onde veio

– Que isso, dona Xandoca.

Dias depois ela lhe trouxe a certidão. Emocionado pegou um pequeno baú de folha, onde guardava seus documentos, notas de dinheiro e outras miudezas e mostrou a Xandoca.

– Que beleza, ele murmurou, olhando a certidão com ternura. Meu coração até ficou mais leve. Se um dia minha mulher e minha filha aparecerem por aqui e eu não tiver presente, entregue o baú pra elas.

– E por que ocê não havera de tá presente? Como elas vão aparecer aqui sem ocê?

– Sei lá, tudo pode acontecer nessa vida. Eu contei a Bárbara onde eu vivia, falei de Valetas, falei daqui, falei docê, não sei por que até hoje ela não apareceu. Tenho medo que tenha morrido e minha filha teja sendo passada de mão em mão. Meu coração chega dar um aperto quando penso nisso. Tenho medo também que Bárbara pense que morri, que os salteadores do acampamento me mataram depois que ela partiu. Principalmente porque Felipe não voltou, como devem ter combinado. Olga me contou que o Felipe levou Bárbara e voltou pra buscar ela e pra me avisar onde minha mulher se escondera. É até possível que a gente fugisse junto, pois Olga tinha tudo preparado para ir com ele, tanto que me ajudou a fugir e foi comigo. Bárbara pode ter pensado que Felipe não me encontrou ou que os bandidos tenham matado eu e ele, sei lá. Olga adoeceu logo que chegou na sua terra e não pode procurar a amiga, que ficou sem saber o que tinha acontecido com nós.

– Então nunca que ela vai aparecer por aqui.

– Quem sabe? Pode ser que minha filha, quando crescer, resolva conhecer os parentes, a avó, os tios, pode ser. E vai querer conhecer ocê e aí, ocê entrega a ela esse baú.

– Laércio, toma tento, quando sua filha ficar moça eu já terei virado pó.

– Que nada, ocê vai para mais de cem anos. De qualquer maneira vou no rastro delas assim que resolver os problemas aqui.

– Vai procurar onde, homem de Deus? Ocê tem idéia de como esse país é grande? É como dizia minha vó, é como procurar uma agulha no meio das palhas.

– Não sei como, mas vou achar as duas e trazer elas pra cá, afirmou sorrindo.

Amanhã vou a Valetas, anunciou Laerte na mesa do café da manhã.

– Não faça isso, pediu ela, não há necessidade. Ocê ainda não está de todo recuperado.

– Tô sim, nunca me senti tão bem. Preciso ver o meu povo, minha terra, Xandoca. Nem que seja para aproveitar os buracos feitos pelos caçadores de tesouro e começar uma lavoura de mandioca ou batata doce.

E riu, bem humorado.

– Ouve o que digo, meu filho, não vá, Valetas é longe, ocê vai se cansar, dá para esperar um pouco mais. Depois a gente não sabe o que foi feito do tal cabeludo. E se ele tá por lá esperando ocê numa tocaia?

– Ninguém sabe dele, concordou Jair. E o tal do cearense? Eles podem tá juntos e atacar ocê.

– É justo por isso que preciso ir. Tenho de prevenir meu povo, talvez trazer minha mãe pra cá até se resolver essa situação. Eles podem atacar de novo.

– Não sei, meu coração fica apertado só de ouvir ocê falar nisso. Se quiser, mando o Militão buscar sua mãe, que não tá lá e sim perto da usina, mando pegar ela e quem mais ocê achar que corre perigo.

– Não, eu vou amanhã.

– Ô, teimosia, que Deus nos ajude! Isso quando empaca é pior que burro!

O trem passava pela estação depois das sete da manhã. Resfolegava de cansaço antes mesmo do dia de trabalho começar. E apitava, desconsolado.

Jair acompanhou Laerte até à estação e ali ficou, esperando que ele embarcasse. Pedira, implorara a Laerte que o deixasse ir junto, nunca andara de trem.

– Ocê tem muito tempo pra isso, ele respondera. Não vou sair por aí arrastando esse peso.

– Poxa. Eu queria tanto passear de trem… deixa eu ir…

– Só vou de trem até à usina. Salto ali, faço uma visita a minha mãe, converso com ela, vamos fazer as pazes, falo com a minha irmã e vou pra Valetas a cavalo. Meu cunhado tem, ou pelo menos tinha, um animal bom e vai me emprestar.

Muita gente embarcou no trem. Laerte conseguiu sentar-se com certa facilidade, mesmo o trem vindo com muitos passageiros da praia onde o ramal começava. Manhã calma, leve névoa a cobrir o rio, enroscando na vegetação da margem, onde garças pescavam. As ilhas eram distantes manchas esverdeadas. Uma prancha singrava com as velas enfunadas, emoldurada pelas andorinhas que riscavam o céu. Sentado junto à janela, na primeira parada para o trem pegar os latões de leite, viu socós entre as plantas aquáticas. Sorriu de felicidade.

Passou o tempo de viagem imaginando o que diria à mãe para conseguir que aceitasse suas desculpas e quando se espantou o trem tinha parado na estação da usina. Levantou-se apressado, não fosse o trem partir com ele a bordo.

Poucas pessoas na pequena gare, alguns descendo e outras subindo no trem. Laerte não pretendia ficar muito tempo em Valetas, por isso trouxera apenas algumas roupas na valise. Olhou em volta, procurando a saída e o viu.

Alguns passos adiante Cabelo Bom o encarava, os braços caídos ao longo do corpo. Estava bem mais magro, os olhos fundos, a boca retorcida. Apenas os sedosos cabelos continuavam a escorrer para os ombros como uma manta de seda negra. Sobre eles o chapéu se equilibrava.

Laerte esperou que ele se aproximasse. Não esperava encontrá-lo tão depressa. Tinha de pensar rápido no que fazer. Cabelo entortou a boca num sorriso, mas os olhos estavam cheios de ódio.

Um menino passou quase correndo junto às janelas oferecendo aos passageiros os quitutes que trazia numa bandeja.

– Até que enfim voltamos a nos encontrar, disse Cabelo, irônico. Quanta saudade! Passei uns dias por aqui, me recuperando. Tava mesmo pensando em, de tarde, na volta do trem, ir à cidade para ter uma prosa séria com ocê, apesar de não gostar de conversar com ladrão. Por sua causa nossos amigos morreram, só restamos nós e o covarde do cearense.

– Covarde por que?

– Porque nasceu assim, cagão, medroso de tudo. Não quis ir conosco na casa de sua mãe naquela vez e não quer ir comigo para falar com ocê. Tive na casa dele ontem, negou fogo. E hoje de tarde eu ia procurar ocê pra acertar as contas. Vim comprar a passagem.

O agente da estação apitou e o trem partiu arrancando gemidos dos metais.

– Eu também quero muito falar com ocê, não sabia onde tinha se metido. É justo nós ajustar as contas. É tempo. Se ocê perdeu seus amigos, eu perdi mulher e filha. E ocê foi o responsável, um miserável sem alma, sanguinário, covarde, que tentou me matar. Bem que Bárbara me avisava que ocê num prestava.

– Quem? aquela bruxa fantasiada de gente ? Aquela puta mãe do ouro? – Cabelo cuspiu pro lado. – Foi ela que fez de ocê um ladrão safado, não foi? Se eu fosse ocê ficava bem longe dela. Aquilo é chave de cadeia.

– Não fale assim da minha mulher, gritou, irritado.

– A mãe do ouro, meretriz nojenta, bruxa, destruiu nosso grupo, nossa amizade, ocê devia agradecer por ela ter sumido de sua vida. Ela acabou com nós tudo. A gente vivia na maior harmonia, garimpava junto, caçava junto, comia junto, bebia e jogava junto, a gente era amigo. Amigo mesmo. Ocê deve se lembrar bem. Aí a disgramada chegou, eu juro que senti na hora que ela pôs os pés no acampamento que era a morte disfarçada de mulher que chegava. Ela veio, seduziu ocê, que era o mais fraco de todos, e desgraçou nosso grupo. Inventou a história de santa isso, santa aquilo, como era mãe do ouro ela sabia onde encontrar as pepitas e só contou procê. Era justo isso? A gente não trabalhou sempre junto? Por que só ocê ia garimpar no melhor riacho?

Algumas pessoas, atraídas pelo tom acalorado das vozes, se aproximaram, curiosas.Eles nem notaram. Recém saídos de crises de malária, pálidos e trêmulos, pareciam almas do outro mundo discutindo. Cabelo deu um passo à frente.

– Por que a santa quis assim, afirmou Laerte. Ela disse no sonho que o novo garimpo era pra eu mais Bárbara.

– Ara, não se faça de mais bobo do que é. Santa, sonho, uma ova. Palhaçada pura. A mulher dama disse isso e ocê acreditou porque quis, porque era bom procês. Encheram a burra de ouro e queriam dar o fora. Mereciam um tiro na cara. E cadê a puta? Largou ocê de mão. Levou o ouro?

Cabelo deu mais um passo com a mão esquerda enfiada no bolso do paletó. Laerte manteve os olhos naquela direção. Não sabia o que responder, pois muitas vezes pensara que era uma injustiça não dividir o garimpo com os outros. Havia ouro pra todos. Chegara a falar com Bárbara para convidar os outros, pois sabia que onde eles estavam a jazida chegava ao fim, era cada vez mais difícil e demorado achar uma pepita que valesse a pena. Argumentou com ela que desde que deixara o Forquilha e se juntara aos outros tinham repartido bons e maus momentos.

– De jeito nenhum, ela dissera.  A santa reservou esse riacho para nós dois.

– Que ocê me chame de ingrato, até de traíra, não acho nada demais, disse Laerte sem se alterar, ao adversário. Mas, ladrão? Todo ouro que juntei na minha vida foi garimpado com muito esforço, nunca peguei nada de ninguém. E depois, seu covarde, era assunto para ser resolvido entre nós dois e não atacando minha família daquela maneira cruel. Minha irmã mais nova morreu.

As pessoas espichavam o pescoço e apuravam os ouvidos. Cabelo deu de ombros.

– O que foi um alívio para todos, não foi? Seja honesto. E os outros bem mereceram os trompaços, são uns parasitas. Não servem pra nada. Foi pra manter essa corja que ocê traiu e roubou seus companheiros de trabalho?

Laerte fora atingido pela argumentação de Cabelo e sentia-se envergonhado.

– Foi por causa da ambição da disgramada que tudo de ruim aconteceu, continuou Cabelo. Tetê Pisca-pisca bem que me avisou, assim que soube que Bárbara estava morado no garimpo.

– Palavra de Tetê não se escuta.

– Aquilo lá não vale nada, Tetê disse, é mãe do ouro e onde se instala a desgraça vem junto. Botem ela pra correr enquanto é tempo.

Laerte sentia o rosto vermelho.

– Tetê era uma cafetina sem vergonha e ambiciosa que só sabia explorar as mulheres.

– Pior era a sua rameira. Ocê, que nunca deixou de ser o bobão da roça, caiu na lábia dela e deu no que deu. Quanta desgraça, quanta gente morreu sem necessidade.

– Tudo bandido, gritou Laerte. O mundo ficou melhor sem eles.

– Dois ocê matou com suas próprias mãos, não foi? O pobre do Amaro Neto, que foi no seu rastro e nunca mais apareceu e o Funchal, que ocê matou na rua atrás da pensão.

– Ocê tá enganado, o assassino aqui é ocê, não eu. O Amaro caiu do trem e quem matou o português eu não sei, pois estava de cama.

– Caiu do trem, muito engraçado. E o Funchal, se não foi ocê, foi a seu mando ou da velha intrometida que le criou. Ocê pensa que vai sair dessa todo lampeiro, né, que vai atrás da mãe do ouro e vão viver juntos e felizes o resto da vida, né? gastando nosso ouro. É o que ocê pensa. Vamos acertar nossas contas agora, rosnou.

E antes que Laerte pudesse fazer qualquer gesto, inclinou-se, estendeu o braço direito e enfiou-lhe na barriga, várias vezes, a faca que trazia no cós da calça. Laerte arregalou os olhos, tentou gritar, não conseguiu, e tombou no chão de cimento de olhos arregalados. Um filete de sangue escorreu pela pedra. As pessoas pularam para trás, uma mulher soltou um grito de horror e foi a última coisa que ele ouviu antes de morrer.

PARTE II

– Olha, Lalá, que coisa linda!

As duas moças se debruçaram na janela do trem, apreciando a corrente poderosa do rio que seguia na mesma direção.

– O rio parece que está apostando corrida com o trem, disse Lalá. Olha as aves, gritou e apontou um bando de pássaros que voava em formação. A terra do meu pai é bonita mesmo, como minha mãe dizia que ele contava.

– Você tem mesmo vontade de se encontrar com ele ou só veio para ver se recebe sua parte na herança de sua mãe? Ele não sabe que você vem, sabe?

– E você acha que vim fazer o que aqui? Que viajei tanto só pelo dinheiro? Quero conhecer meu pai! E nem sei se ele está vivo, nunca nos procurou. Por mim deixava pra lá, mas prometi a minha mãe, em seu leito de morte, que tentaria encontrá-lo. Ele vai ter uma baita surpresa ao me ver. Minha mãe garantiu que ele é muito rico, tem um tesouro em pepitas de ouro escondido.

– E você acreditou? perguntou o rapaz que as acompanhava e que até então se dedicara à leitura de um jornal. Mulher acredita em qualquer bobagem.

– Não é bobagem, rebateu a moça, com força. Minha mãe era pessoa séria, me contou dos tempos que viveram no garimpo, onde se conheceram, e do ouro que tiraram dos riachos. O ouro foi guardado em algum lugar que só ela e ele sabiam. Discutimos muito sobre isso. Eu acho que, pelo tempo que passou, faz mais de 20 anos, ele já se casou com outra e usou esse ouro para sustentar a nova família, mas ela teimava em dizer que não, que ele a amava e era um homem correto, e que algo o impedira de procurar nós duas e que jamais mexeria sozinho no tesouro dos dois. Eu teimava, por que essa ausência? Ela insista que alguma coisa o retinha. Se eu contar toda a história dos dois, que ela me passou, vocês nem vão acreditar, parece até folhetim de jornal.

– Não estou dizendo que mulher acredita em qualquer bobagem? Quanto tempo faz que seu pai sumiu? Vinte anos ou mais, né? Você acha que ele ficaria esse tempo todo com o dinheiro guardado, esperando sua mãe chegar? Ora, ora, Lalá, se ele fugiu, minha santa, é porque queria o ouro só pra ele.

– E será que tem ouro escondido mesmo? indagou Bete. Parece romance.

– E tem mais, lembrou Raul, pra botar a mão na sua parte do tesouro, você vai ter muito trabalho. Primeiro de tudo tem de achar seu pai e depois convencê-lo que é filha dele. Bom, sua mãe deve ter escrito uma carta pra ele, contando que você é a filha dele, né?

– Gente, mamãe era analfabeta de pai e mãe, respondeu Lalá já um tanto irritada. Mal sabia assinar o próprio nome. Primeiro tenho de encontrar ele, lógico, e vou começar pela cidade, pela tal pensão onde meu pai vive ou viveu. Ou na casa que construiu com o dinheiro do ouro, no interior.

– Isso se ele continua solteiro, interveio Raul, o que acho muito difícil. Já deve ter uma penca de filhos.

Ela fingiu não ter ouvido,

– Vou conversar com ele, ver como ele é, se ainda se lembra de minha mãe, se sabe que ela teve uma filha, essas coisas. Se for do meu agrado, se me tratar muito bem, posso até passar a morar com ele. Se não, digo que quero a parte de mamãe no tesouro, pego o ouro e volto pra nossa cidade com vocês.

– Por mim, tudo bem. A viagem vira um passeio. Eu só concordei em vir porque gosto de você e não queria deixar duas moças sem juízo, ingênuas, desmioladas, viajando sem companhia. E também porque mamãe pediu muito, ela gosta de você e acha que você vai precisar de um bom advogado, e isso eu sou. Imagino o que o povo lá do bairro deve estar comentando.

– E também porque prometi que se receber esse dinheiro vou dar uma parte pra você, replicou ela, a irritação aumentando. Ah, não enche, Raul! Já que veio, procure ajudar e não atrapalhar. Bom, meu pai vai confirmar ou não a história do tesouro que mamãe contava. Diz ela que juntaram pepitas de todos os tamanhos e puseram num saco de couro. Tinha uma do tamanho de um punho fechado.

– Que exagero! Cada vez mais penso que tudo isso pode ser uma lenda, coisa da cabeça dela depois que ficou doente, falou Raul.

– Não, discordou Lalá, isso não, porque me lembro bem que quando era pequenininha ela já falava nisso.

Laércia olhou o rio que corria ao lado do trem e suas águas encheram seus olhos. À medida que se aproximavam do destino sentia-se frágil, irritadiça, um feixe de nervos tensos, pronto a explodir em lágrimas por qualquer coisa. Temia o encontro com o pai.

– Se for verdade, continuou, emocionada, não sei como vou fazer para pegar a metade dela. Será que ele vai acreditar que sou filha dele?  Já perdi noites de sono pensando nisso. Acho que se ele for o homem correto que ela disse que ele é, terá guardado a parte dela, pois nem sabe que existo. Ele deve ter sabido que ela estava esperando neném, mas não sabe se nasci ou não. Nesse caso, espero que me dê o que é meu.

– Que coisa, murmurou a outra moça. Quero ver o encontro de vocês dois. Pai e filha que nunca se viram. Vai ser tão emocionante, vou me debulhar em lágrimas.

– Será que ele está vivo? indagou o rapaz. E mais importante: se está vivo, está disposto a dar a você a parte de sua mãe. Sua mãe registrou você no cartório?

– Registrar, Raul? E lá onde eu nasci tinha disso? Dizia ela que era um buraco, longe pra burro, só tinha mato e morro. E a parentada não quis saber dela, nem os irmãos, porque era mãe solteira. Meus tios eram homens rudes, tão selvagens quanto índios. Uns brutos, que não tiveram pena dela. E ainda tiraram as poucas pepitas que ela levava. A sorte é que tinha guardado umas duas ou três no porta-seios. Foi o que lhe valeu. Coitadinha da minha mãe, como sofreu!

– Pois é, um caso assim vai dar trabalho, não há como provar que você é filha dele. Você chega, na maior cara de pau e diz, oi, papai, sou sua filha, e vim buscar minha parte no tesouro, herança da minha mãe. Acha que ele vai cair nessa? Tem tanto vigarista por aí, aplicando golpes. Depois, faz tanto tempo. Ele deve ser um velhote resmungão e sovina. Das duas uma, ou morreu ou não quer saber de vocês. Aí vai ser difícil. Não tem nem como provar na Justiça.

– Ai, Raul, você me enerva. Claro que meu pai está vivo e vai me reconhecer, rebateu Lalá. – Silenciou por uns instantes e voltou a olhar o rio veloz, que insistia em invadir seus olhos – Se não, não sei como vou fazer para pagar o empréstimo que fiz com o Souza para fazer essa viagem. – Sacudiu a cabeça com vigor. – Não posso pensar no pior. – Fechou os olhos com força. – Meu pai está vivo e vai me receber muito bem.

– Você pegou dinheiro emprestado com o Souza, estranhou a amiga Bete, aquele agiota miserável? Ele cobra juros muito altos!

– Eu sei, mas fazer o que? Como eu ia arrumar dinheiro para a viagem? Todas as economias de mamãe foram gastas com a doença dela. Mal sobrou pra comprar o caixão. Fiquei lisa.

– Pobre Leopoldina, suspirou Bete, tão boa, tão amiga. Só por isso mamãe deixou que eu e Raul viajássemos com você.

– Se eu não pegasse o dinheiro com o Souza, amiga, como compraria as passagens? Se precisasse de arrumar emprego, ia levar não sei quanto tempo para juntar o necessário, e eu não queria esperar mais. Estou sozinha no mundo, sem pai nem mãe. Vou encontrar meu pai e vai dar tudo certo, tenho fé, disse de mãos postas e olhos fechados. Se Deus quiser, meu pai vai dar o dinheiro para pagar o Souza e vocês vão me fazer o favor de levar o dinheiro pra ele. Foi o que combinei com o Souza. O principal mais os juros.

Ela fechou os olhos e cruzou os dedos.

– Você não conhece ninguém aqui na terra dele?

– Ninguém, ninguém, por isso implorei pra virem comigo. Viajar sozinha era meio esquisito, mas dava para vir, mas chegar numa cidade estranha, sozinha, para procurar uma pessoa?

A cidade parecia um presépio dissolvido nos tons pastéis da tarde. A primeira coisa a ser avistada foi um pequeno cemitério cercado de muros brancos, com jasmins do cabo carregados com seus buquês de flores brancas entre os túmulos simples. O trem parecia deslizar pela areia onde brotavam pitangueiras, cactos e plantas rasteiras. Os apitos se tornaram mais frequentes, crianças, cachorros e cabritos cabriolavam por entre as moitas como alegre comissão de recepção. Ao longe, o renque de cocares de palmeiras imperiais se balançava na brisa da tarde como espanadores a se livrar dos fiapos de nuvens que triscavm o azul puríssimo do céu. O rio ficara para trás. Lalá se encantou. A amiga, debruçada a seu lado na janela, também se admirava.

– Tão bonito, suspirou. Nada de barulho, nada de confusão. Depois que você estiver instalada aqui, vou vir passar umas férias na sua casa. Se você me convidar, lógico.

Lalá a abraçou, comovida.

– Ô, minha amiga, minha casa será sua casa e garanto que papai vai gostar muito de você e do Raul. Tá sentindo o cheiro de café coado? perguntou, nariz levantado a aspirar o ar.

– Vocês repararam, perguntou Raul, com surpresa na voz, que percorremos muitos quilômetros sem ver um morro?

– Aqui parece que o horizonte não tem fim, concordou Laércia, enquanto empunhava a bolsa de viagem. Não há limites para o olhar.

Pouca gente desceu da composição. Meninos passavam com tabuleiros oferecendo puxa-puxas, bons-bocados e outros doces da região. Um velho cochilava sentado num dos bancos da estação. A seus pés dormia um cachorro sarnento.

– E agora, perguntou Raul, vamos pra onde?

Laércia abriu a bolsinha e retirou um pedaço de papel.

– Está escrito aqui, Hotel dos Viajantes. Foi a única referência que consegui.

O trem continuava parado, bufando. Ela olhou ao redor e viu uma mulher bem vestida parada junto a malas, devia ter viajado no outro vagão. Parecia simpática. Aproximou-se dela com o papel entre os dedos:

– Boa tarde, minha senhora, desculpe incomodá-la, mas é a primeira vez que venho a esta cidade e estou sem saber como chegar ao hotel. A senhora é daqui?

A mulher sorriu, receptiva.

– Não, mas vivo aqui há alguns anos.

– A senhora saberia me informar onde fica este hotel? Não conheço nada por aqui.

A mulher pegou o papel, leu e informou:

– Fácil, é só seguir esta rua, está vendo? até àquela praça lá no final, na beira do rio. Não tem como se perder, O hotel fica do lado direito. Estão passeando?

– Não, vim procurar uma pessoa da família que não vejo há anos. Vim com este casal de irmãos, meus vizinhos. Muito obrigada pela informação.

A mulher olhou-os com simpatia:

– É meio puxado para levar as malas, mas isso se resolve.

Voltou-se para onde estavam estacionadas carroças e seus condutores e chamou:

– Josias. Aqui é assim, eles ficam parados, esperando. Se não chamar… Sempre que precisar de alguma coisa chame, não espere que alguém venha lhe perguntar se precisa. É um povo bom, mas meio lerdo, sabe. Josias, leve este pessoal ao hotel dos Viajantes. São meus amigos, hein, leva eles direitinho.

– Eu vou andando, disse Lalá sorrindo, estou louca para conhecer a cidade de perto, ver a cara das pessoas. Brigadinha pela ajuda, viu, moça?

Laércia queria demorar um pouco mais antes de procurar o pai com medo de não encontrá-lo, ou de ser rejeitada, ou de não simpatizar com ele. Sentia todos os medos do mundo em relação a esse encontro tão sonhado. Quem garantia que ele ainda vivia na pensão da tal dona Xandoca? O endereço do hotel fora conseguido com um antigo marujo, que nos tempos de trabalho tinha visitado o porto inúmeras vezes. Inválido, vivia a poucas casas da sua e sua mulher era amiga de sua mãe. Não conhecera seu pai, sabia apenas da chegada de um garimpeiro com um tesouro e uma santa, que se hospedara na pensão. A história corria na cidade.

Seguiu andando absorta ao lado dos amigos, como se estivesse flutuando num sonho, fora da realidade, o que lhe dava uma aflição gostosa, misto de prazer e temor. Via as casas e as pessoas como se estivessem em outra dimensão e cada homem que acreditava ter mais de 60 anos com quem cruzava imaginava que podia ser seu pai e isso lhe dava uma estranha vontade de rir e de chorar. A figura de seu pai, pela sua ausência, trazida pelas recordações da mãe, estivera permanentemente presente em sua vida, no desejo de ter um pai para abraçar, como suas colegas e vizinhas. Era uma imagem vaga, ideal. Nas histórias mirabolantes que a mãe lhe contava, ele assumia uma dimensão de super-homem, que poderia satisfazer seu sonho de viver com mais conforto, sem que a mãe precisasse trabalhar tanto para sustentá-las. A mãe não se conformava em viver sem ele, pensava nele dia e noite, era uma obsessão, e pior de tudo, viver naquela dificuldade tendo, como dizia, um tesouro para desfrutar. Havia dias que a comida delas era arroz e ovo frito. Tristes tempos.

– Pior que no garimpo, contava tristonha, onde a gente, quando não tinha carne mandava o Felipe caçar e ele trazia paca, capivara, mutum e outros passarinhos, que eu preparava com capricho. Ficava uma delícia, seu pai lambia os beiços.

Ela ficava olhando, mão no queixo, a transfiguração que ocorria nas feições bonitas de sua mãe. Ficava mais bela e suave, os olhos brilhantes.

– Santa Bárbara há de trazer de volta os bons tempos, minha filha, dizia, com as mãos postas. Minha santinha não pode me abandonar.

Às vezes, revoltada, acusava o pai de tê-la esquecido, abandonado na miséria para ficar dono de todo o ouro. Não conseguia atinar com o que poderia ter acontecido para que ele não viesse no seu rastro.

Será que Laerte tinha morrido, assassinado pelos outros garimpeiros? Será que Felipe ao voltar se desencontrara dele e não lhe passara o endereço do lugar onde se escondera? Era um mistério o abandono por parte de um homem a quem tanto amara e por quem fora tão amada. Duro de acreditar que ele e Felipe tinham planejado se livrar dela, mas isso bem poderia ter acontecido. Não se pode confiar nos homens, sabia de casos. Sua mente fervilhava, se revolvia na cama, as noites eram um tormento.

Devo me acalmar, pensava, me preparar um pouco mais para ir atrás dele, para saber o que o impede de me procurar. Respirava fundo em busca de equilíbrio.

Daí a pouco, porém, as dúvidas retornavam com força. Será que o Felipe a traíra? Será que ao invés de ir procurar Laerte pegara Olga e fugira? Fugir por que, se sempre parecera gostar dela? Felipe valente e sagaz, lhe devia a liberdade e se mostrava fiel e agradecido. Por que então desaparecera? Por que não informara seu paradeiro a Laerte?

Noites de insônia e dias aparentando tranquilidade para não assustar a filha.

Estava certa de que Laerte não a procurara por não saber onde encontrá-la. Disso não duvidava. Felipe a enganara? Impossível, era seu amigo, ela o livrara do cativeiro. De olho no tesouro não devia estar, ele não ligava para dinheiro e não sabia do ouro na santa. Se soubesse teria comentado com Olga que lhe inculcaria a vontade de ficar com o ouro, quem pode saber? Ou será que armara a fuga precipitada deles e que a volta prevista, aparentemente para avisar Laerte, era na verdade para pegar a amiga e fugir com ela? Felipe era esperto, andava tão sorrateiramente pelos matos que ninguém percebia e isso fora bom porque evitara que fossem surpreendidos pelos outros. Mas podia ter visto quando guardavam o saco de ouro na santa, apesar de todos os cuidados. Outra dúvida que a atenazava de quando em quando era descobrir a razão por que Laerte não pudera fugir com eles. Quem decidira isso? Felipe? Não se lembrava, tudo fora tão precipitado que quando deu por si estava em plena estrada, no meio do mato, na garupa do cavalo de Felipe.

Haviam agido assim para não despertar a atenção dos outros para a fuga e Laerte ficara como penhor de sua volta? Partira dele a idéia? Ou era de caso pensado pelo Felipe para deixá-lo no mato, abandonado à sanha dos invejosos? Nesse caso, a idéia seria pegar a mulher e a imagem quando retornasse, deixando Laerte morto no acampamento, acusando os outros dessa morte? As hipóteses mais absurdas e dolorosas pipocavam constantemente, trazendo dor e ansiedade. Não, Felipe não era capaz de ter essas idéias maquiavélicas. Preferia pensar que acontecera uma série de desencontros, lembrava-se de ter Felipe falado em proteger o bebê que esperava, de deixá-la num lugar seguro e voltar para buscar Olga, Laerte e a imagem. Essa era uma atitude digna de Felipe. Mas seria real?

Noites havia em que não conseguia dormir, perseguida por suas dúvidas. Que teria acontecido de verdade? Por que Felipe não voltara? Teria sido morto pelos outros garimpeiros junto com Laerte? Por que Laerte não tentara encontrá-la? Obsessiva, não parava nunca de pensar no assunto e vivia na esperança de juntar algum dinheiro para viajar com a filha, primeiro ao garimpo, para saber o que tinha acontecido e depois à cidade do Laerte, caso ele não tivesse sido morto. Porque tinha certeza de que ele não estaria com outra mulher e que o tesouro santo estava bem guardado. O amor deles era maior que qualquer ganância.

Quando soubera pelo vizinho marujo da história da chegada de um garimpeiro com um tesouro no porto, ficara certa de que era Laerte. Mas já estava doente, com dificuldade para andar, seria difícil empreender a viagem.

Durante meses esperou que ele aparecesse em sua casa.

A caminhada até o hotel fora agradável, mas se juntara ao cansaço da viagem e mal chegaram, as moças se deixaram cair numa das poltronas de vime com almofadas forradas de chita estampada da recepção. Estavam exaustas. Raul cuidou de preencher as fichas e acompanhá-las ao quarto. Tinham combinado no caminho que descansariam o resto do dia e na manhã seguinte se informariam do paradeiro de Laerte.

– O cansaço da viagem me deixou muito sensível, comentou Laércia, e não vou aguentar a emoção do encontro. Preciso recuperar minhas forças, descansar um pouco mais antes de me encontrar com meu pai.

– Estou moída, reclamou Bete, nunca tinha viajado pra tão longe. – Deu um sorriso cansado, mas alegre – mas estou achando ótimo, você viu aquele soldado na estação onde fizemos a baldeação? Que chuchu, hein? Não tirou os olhos de mim.

Raul entregou as fichas preenchidas e perguntou ao recepcionista onde ficava a pensão de dona Xandoca.

– Não é que a gente queira ir pra lá, acrescentou depressa, é que viemos em busca de uma pessoa que dizem morar lá.

O rapaz, um louro com o rosto coberto de espinhas e que não tirava os olhos da moças, pensou um pouco:

– Dona Xandoca, dona Xandoca, o senhor me desculpe, mas nunca ouvi falar. – Ante a

expressão de decepção no rosto do rapaz, acrescentou: se puder esperar até amanhã, vou perguntar a outras pessoas, quem sabe os mais velhos…

Não jantaram, haviam comido bobagens na viagem e estavam tão cansados que se jogaram nas camas, pálpebras pesadas de sono.

– Amanhã, disse Raul entre bocejos antes de ir para seu quarto, nós vamos ao local, você não tem o endereço da pensão, Laércia? Não? A gente acha. Pelo jeito deve ser pensão de operários, de beira do cais, nem é conhecida no hotel. Cada vez mais me convenço que a tal fortuna é fruto da imaginação de d. Leopoldina.

– Pode ser, objetou sua irmã, que com tanto ouro ele tenha comprado uma bela casa e esteja morando lá. Pelo tempo que passou alguma atitude ele tomou e a pensão pode ter sido fechada, a dona Xandoca desistiu, sei lá.

– É, admitiu Laércia, ele pode ter ido morar na fazenda em Valetas.

– Ih, vou adorar ser amiga de fazendeira, brincou Bete.

Trocaram de roupa e Bete se meteu entre as cobertas.

– Aqui é meio friozinho, né?

– Deve ser por causa do rio aqui perto, disse Laércia e abriu a janela que dava para um quintal arborizado. – A lua prateava as copas dos arvoredos. – Meu pai, ela murmurou, como sonhei com o dia em que o encontraria, quantas vezes desejei correr para me refugiar em seu colo, sentir seu cheiro, ganhar seus beijos, sentir suas mãos calosas alisando meus cabelos e agora não sei se quero encontrá-lo, morro de medo, temo achar um velho sujo, usando pijama mal lavado, seboso, fedorento, óculos escorregando pelo nariz, rabugento, encatarrado, a cuspir no chão, como tantos que conheci, olhando as meninas de um jeito safado. Ah, meu pai, queria muito encontrá-lo enquanto minha mãe estava viva. Agora não sei mais. Tenho medo.

À medida que murmurava a voz foi aumentando até se tornar um pouco audível. Da cama Bete perguntou:

– Medo de que, criatura?

Ela fechou a janela, apagou o lampião e deitou-se.

– Dele não corresponder à imagem que minha mãe me fez construir durante todos esses anos, de ser um canalha, de se recusar a me reconhecer como filha, de rir na minha cara. Ai, amiga, estou cheia de dúvidas. Minha cabeça é uma confusão só. Apenas a presença de minha mãe me faria superar a decepção, se for o caso.

A luminosidade da cidade era extraordinária. As duas amigas cobriram os olhos com as mãos ao descer à rua. Raul puxou o chapéu sobre os olhos.

– Ai, que sol forte! gemeu Bete. E tão claro que não estou enxergando nada.

– Por que não puseram seus chapéus? perguntou ele.

– Porque quando lavei o rosto achei meus cabelos tão bonitos, sedosos…

– Que deu vontade de exibi-los, né? completou a outra.

– E você, não botou o seu por quê?

– Porque não quis, ora bolas. Vamos, vamos de uma vez. Estou louca para conversar com o tal Argemiro.

O recepcionista lhes havia recomendado procurar no cais o homem chamado Argemiro para indagar da pensão de Dona Xandoca.

– Se existiu ele sabe, garantiu.

Argemiro era um antigo embarcadiço que sofrera acidente no estaleiro e desde então, impossibilitado de trabalhar, passava os dias sentado num caixote no cais pitando cigarros de palha e conversando com quem dele se aproximasse. Tinha boa prosa e era bem humorado. Como era viúvo e sem filhos, cedinho já estava em seu posto. Sabia tudo sobre o porto e a cidade. O recepcionista avisara que certamente ele lhes pediria cigarros e uns trocados, o que fazia com que algumas pessoas procurassem não passar muito perto dele, por isso pouca gente parava para um dedo de prosa.

O trio atravessou a praça mal cuidada. Havia pouco movimento no cais e muita gente caminhando à toa, sem ter o que fazer, com as mãos nos bolsos e o olhar perdido nas águas barrentas do rio. Operários desempregados pelo fechamento de estaleiros, uns bêbados, e mendigos se esquentavam ao sol. Crianças imundas e seminuas e cachorros vadios completavam o cenário, que Raul achou um tanto deprimente.

– Esse povo todo não tem o que fazer?

Argemiro estava em seu caixote, pernas cruzadas, o cotoco de braço oculto pela manga comprida da camisa xadrez, muito usada e puída. Olhou-os sem interesse, não pareciam ser daqueles que lhe dariam cigarros e vinténs para jogar conversa fora. As moças o cumprimentaram e levantou os olhos para elas, surpreso. Moças bonitas. Devido à posição curvada para apoiar o braço inteiro nas pernas ossudas, ficara um pouco corcunda.

– Podemos conversar com o senhor? perguntou Raul.

– Sobre o quê? indagou desconfiado, aquele não era o tipo de gente que costumava procurá-lo, mas aproveitou para perguntar ao rapaz: por acaso o senhor teria aí um cigarrinho? Não precisa ser de palha, do outro mesmo serve. Prefiro o de palha, mas não estou em condições de escolher.

– Claro, e antes de começar, para o senhor ficar mais à vontade, vou na venda comprar material para fazer o seu cigarro.

– Muito obrigado, disse o velho, e se não for abusar de sua boa vontade, muito lhe agradeceria se me trouxesse fósforos também.

Raul se afastou e Bete tomou a palavra.

– Estamos procurando uma pessoa e o recepcionista do Hotel dos Viajantes me indicou o senhor.

– Aquele é um menino de ouro, sempre me dá uns trocados.

– Claro, nós também lhe daremos algum.

O velho sorriu, satisfeito.

– A quem buscam?

– Laerte, balbuciou Laércia, a voz tremendo.

– Assim de pronto não lembro, ele fazia o quê?

– Era garimpeiro.

– Sei… será um que foi esfaqueado na estação da usina, tempos atrás?

Laércia sentiu um risco de frio intenso lhe correr pela espinha.

– Esfaqueado? – Empalideceu, sentia o coração tão acelerado que parecia querer sair pela boca. – Não, não sei, espero que não. Sei que morava aqui perto, na pensão de dona Xandoca.

Raul voltou a passos largos, um embrulho com papéis, fumo e fósforos que ele recebeu com um largo sorriso de felicidade.

Vou ser feliz como o sultão da Pérsia por alguns dias, disse Argemiro, o sorriso de plena satisfação deixando à mostra a gengiva sem dentes. Os senhores sabiam que o sultão da Pérsia, além do harém com mais de mil mulheres e um pomar só de limeiras e romãzeiras, tem um fornecedor exclusivo que leva o fumo do nosso país especialmente para ele? Eu mesmo, muitas vezes, embarquei caixotes desse fumo nos navios. Fumo de primeira só o brasileiro. O cubano serve pra charutos e o americano da Virgínia agrada àqueles louros bárbaros do norte. Para quem gosta de bom cigarro, só esse aqui.

Cheirou o pacotinho, sorriu com prazer, separou uma pequena porção, arrumou-a cuidadosamente no papel quase transparente que retirou com delicadeza do maço, enrolou, lambeu a borda e colou-o. Tudo com a mão que lhe restara. Raul acendeu um fósforo e ele aceitou o fogo com evidente prazer. Deu uma tragada, fechou os olhos e sorriu, deliciado. Lalá o olhava, expectante.

– O senhor conhece a dona Xandoca?

– Conheci muito. Dona Xandoca, murmurou, a boa dona Xandoca. Almocei muitas vezes em sua pensão, comida de primeira, limpa, gostosa, não como essas porcarias que servem hoje no cais. E barata.- Suspirou – Pobre dona Xandoca, perdeu o filho assassinado, esse garimpeiro que contei há pouco, esfaqueado na estação de trem da usina.

– O nome dele era Laerte? indagou a filha, cada vez mais trêmula.

Bete passou o braço pelos seus ombros.

– Isso mesmo, moça, Laerte, conheceu ele?

– Não, mas era meu pai, afirmou Laércia, com a voz a fugir.

Ela estava pálida e Bete pediu ao irmão que arrumasse rápido um copo dágua.

– Ali, na venda onde o senhor comprou o fumo, instruiu Argemiro, pegue também um pouco de conhaque, é bom para evitar desmaio. Era seu pai, moça? Pobrezinha. Se eu adivinhasse teria sido mais cuidadoso ao dar a notícia. Pensei que tinham vindo também atrás do tesouro.

– Tesouro, indagou Bete, fingindo desconhecimento, que tesouro?

Argemiro se levantou.

– É melhor sentar a moça aqui. Ela tá branca que nem papel e não tá se aguentando em pé. Minha boca é grande demais, arre.

– Não, obrigada, já estou melhor, disse Laércia, puxando o ar com mais força. Foi o choque. Eu devia ter imaginado que alguma coisa assim teria acontecido. E dona Xandoca, seu Argemiro, o que aconteceu com ela?

Ele tornou a sentar-se.

– Ela adorava esse moço, que considerava como o filho que não teve. Não durou muito mais que ele não, coitada. Algum tempo depois pegou uma pneumonia brava e partiu dessa para uma melhor. Nesse tempo tinha um neguinho que morava com ela e ajudava a pobre e que, se não me engano, ficou com tudo o que era dela, por vontade dela, expressa num testamento. Ela não tinha herdeiros! Como era mesmo o nome dele? Joaquim, Juca, ai essa minha cabeça esquecida! Ele ainda mora aqui, de vez em quando aparece no cais, me traz uns trocados.

Raul meteu a mão no bolso do paletó e trouxe algumas moedas.

– Essas aqui eu tinha reservado para o senhor comprar mais fumo, disse, entregando-lhe os tostões. Agora faça uma forcinha, lembre-se do nome do garoto.

– Ah, disse ele, dando um tapa na testa, espalhando cinza. Lembrei, lembrei, é Jair. De que não sei. Sei que mora lá perto do cemitério, numa casinha que foi da velha Jove, quer dizer, era de dona Xandoca, mas a velha Jove é que morava lá. Depois que a velha morreu ele foi pra lá, melhorou um pouquinho a casa, quase nada, aquilo é um negro relaxado, acho que casou, gastou tudo o mais que a velha Xandoca lhe deixou e vive de biscates, não sei muito mais. Um sem juízo.

– E como a gente o encontra?

– Ah, as cores da moça já estão voltando. Fazer o quê, né, filha, a vida é assim, cheia de surpresas desagradáveis. Mas, olha, não tem o que perder. Tá vendo aquela rua ali? Ela vai reta até o cemitério. Antes dele, depois da igreja de São Pedro, os senhores quebram à esquerda até uma estradinha de areia que segue prum capão de mato da propriedade de Norival. A casa fica logo na primeira encruzilhada. É só olhar o mau estado em que está pra saber de quem é. O crioulo é muito relaxado.

Debaixo do sol ofuscante, o trio seguiu o caminho indicado, sob os olhares curiosos das pessoas postadas nas janelas ou paradas nas portas das vendas. Laércia soluçava.

– Aconteceu o que eu mais temia. Nunca vou conhecer meu pai.

– Mas ficou sabendo, disse Bete, que ele não abandonou sua mãe. Só por isso a viagem valeu a pena.

– E o que terá acontecido com o tal tesouro? indagou Raul. Será que ele foi morto por causa dele? Pelo visto outras pessoas falaram com o Argemiro buscando informações, o que aumenta a possibilidade de sua existência ser real.

– Vamos parar na igreja, fungou Laércia, enxugando o nariz com um lenço de cambraia bordado, quero rezar pela alma dele e pedir desculpas por tê-lo julgado mal.

– A igreja está fechada, observou Raul.

– Não tem importância, tornou Laércia a fungar, vou parar um instante na porta e rezar.

Ela encostou a cabeça na porta e chorou e rezou por bastante tempo. Abraçada com ela, Bete também rezava.

No estreito adro, Raul olhava o rio deslizando majestoso no final da praça. Pranchas carregadas de sacos e outros volumes, deslizavam na água barrenta, o vento a fazer suas grandes velas tatalar. Garças e biguás cruzavam a corrente.Será que o tal tesouro existia mesmo? Será? Ele se dividia entre a dúvida de que tudo não passasse de fantasia de gente que não tem o que fazer ou de que realmente existisse e estivesse escondido. Mas por que outras pessoas estavam interessadas em sua localização? Não seria um sinal cabal de sua existência? Se for real, como o encontrariam?

– Será que esse Jair vai nos ajudar? indagou Bete, enquanto caminhava ao lado de Lalá pela ruela arenosa margeada de tufos de capim, pitangueiras e moitas de urtigas com dificuldade. A gente não pode enfrentar uma viagem penosa dessas para se decepcionar…

– Pior é a situação da Laércia, observou Raul, sem parentes e endividada.

– Eu queria tanto conhecer meu pai, murmurou ela. Agora então que eu sei que não nos abandonou, que foi assassinado… além do mais sinto tantos remorsos pelo mau juízo que fiz dele. Ah, meu pai!

Mais na frente a linha férrea atravessava o caminho.

– Aonde vai dar essa estrada de ferro? perguntou Bete.

– Acho que numa praia. Ouvi uns passageiros comentando.

– Eu perguntei ao rapaz da recepção, completou Raul. É numa praia sim, onde a Marinha manda os marinheiros com beribéri tomar banho de areia. Lá tem uma areia curativa que dizem que é tiro e queda para doenças nervosas.

Quase duzentos metros depois da linha do trem surgiu uma casa pequena, coberta de palha, paredes descascadas, com uma aroeira do lado direito e um mamoeiro esquálido nos fundos. Na sua sombra, num banco de madeira rachado, um menino negro sentado na areia brincava com um filhote de cachorro. Galinhas ciscavam distraídas.

– É aqui a casa de seu Jair? lhe perguntou Laércia.

– É sim senhora, mas ele num tá, respondeu o menino.

– E sua mãe?

– Minha mãe foi lavar roupa no rio com minha irmã.

– Seu pai demora?

– Num sei.

– A gente pode esperar por ele aqui? perguntou apontando o banco de madeira, cercado por uma planta rasteira ornada pelo que parecia ser pequenas margaridas amarelas. Ele foi muito longe?

Ele assentiu balançando a cabeça e as duas moças se ajeitaram no banco rústico. Raul preferiu olhar os arredores.

– Ei, ali adiante tem um homem parado, será seu pai, garoto?

– É, pode ser.

– Então vai lá chamar ele pra gente.

– Eu não, tô ocupado.

– Olha, disse Raul com a mão estendida, pegue essa moeda e vai lá chamar ele, vai.

– Povinho interesseiro, concluiu o rapaz.

Olhos brilhantes, moeda apertada pelos dedos finos, ele disparou a correr em busca do pai. Jair veio caminhando na frente, os pés descalços e de sola rachada parecendo não se incomodar com o calor de areia. Era alto e magro, trajando roupas velhas e chapéu de palha esfiapado. Na mão calosa, com uma vara grossa ia riscando o chão. Os passos lentos e o cenho franzido demonstravam seu pouco interesse pelos visitantes. A seu lado, a pular, o menino brincava de jogar a moeda para o alto. Quando desembocaram na clareira, Raul se adiantou, de mão estendida. Ele o ignorou e seus olhos arregalados se fixaram no rosto de Laércia. Ela se levantou do banco.

– Laércia? ele quase gritou.

– Como sabe meu nome? perguntou ela mais que surpresa.

– A senhorita, senhora, é a cara de seu pai.

Ela voltou a explodir em pranto e Raul teve certeza que haviam encontrado o homem certo. Jair continuava parado diante dela, boquiaberto, emocionado. A lembrança de Laerte era uma coisa boa. Ela se recompôs devagar, com o lencinho enxugou os olhos e tentou sorrir. Um segundo depois se abraçava a ele.

– Eu tinha certeza que você viria, disse Jair, por isso guardei o baú com todo o carinho esse tempo todo.

– Baú? perguntou Raul, o baú do tesouro?

Os dois pareceram não tê-lo ouvido. Bete puxou-o pela manga do paletó, demonstrando desagrado por sua falta de tato. Ele entendeu e se calou.

– Seu pai tinha preparado um bauzinho com uns papéis que dona Xandoca disse que eram para a senhora. Parece que ele tava adivinhando o que ia acontecer. Foi muito triste, Laércia, que sofrimento pra nós! naquele dia ele acordou tão alegre porque ia ver a mãe, queria saber se ela tava bem, pois ia sair de novo em busca de Bárbara.

– Quem é Bárbara? indagou Laércia. É a santa? E onde ela está? A mãe dizia que seria nossa salvação, tinha muita fé na santinha. Ou alguma namorada dele?

Num relance Jair se lembrou de Xandoca dizendo que ele nunca deveria comentar com ninguém que a mulher de Laerte havia sido mulher da vida. Bárbara era o nome que ela usava quando se prostituía. E lhe disse qual era o nome pelo qual ela devia ser chamada, mas ele se esquecera.

– Não, desculpe, a santa ele tinha deixado no altar da capela. – Bateu com a palma da mão na testa. – Essa minha cabeça doida. A mãe dele, sua avó Marica, se recuperava do ataque dos bandidos, mas perna quebrada de velho custa muito a curar, daí…

– Quem atacou minha avó?

– Os bandidos, os tais que vieram no rastro do seu pai por causa do tal tesouro que a gente nunca viu por aqui. Eles achavam que seu pai tinha escondido o tesouro em algum lugar, foram lá em Valetas, não encontraram seu pai, que tentava descobrir o endereço de sua mãe com uma amiga dela que tinha também fugido do garimpo junto com ele, olha é uma história tão complicada…

Jair se enrolava nas palavras, temia falar demais. Tinha de ter cuidado.

– Quer dizer então que meu pai queria achar minha mãe? Verdade? – Surpresas mais que agradáveis se sucediam – E o Felipe não contou onde ela estava?

– O Felipe foi assassinado pelos tais bandidos antes de se encontrar com seu pai.

Laércia levou a mão ao coração. Soluçou.

– Ah, meu Deus, então foi isso. E mamãe lá… sem saber, pensando o pior.

– Era só no que seu pai pensava: encontrar vocês duas. Só falava nisso, dia e noite, enchia os ouvidos de dona Xandoca reclamando das dificuldades que encontrava.

A cada nova informação sobre o pai o coração de Laércia dava um salto que se expressava num soluço alto.

– E eu pensei tão mal dele, coitadinho!

– Calma, Lalá, você não podia adivinhar.

– Eu gostaria, seu Jair, que o senhor me contasse tudo sobre meu pai, sobre minha família, quer dizer, sobre os parentes de meu pai. Existe ainda alguém vivo?

– Claro, lá em Valetas. Todo mundo, seus tios, primos, sua avó Marica faleceu faz tempo, mas o resto do pessoal…

– Bete, nós vamos conhecer Valetas, decidiu.

– Lógico, disse Raul, parte das terras de lá também lhe pertencem.

Ela fez um gesto de enfado.

– Não estou preocupada com isso, Raul. Meu pai construiu a capelinha, seu Jair?

– Então não? Eu fui lá conhecer, era muito bonitinha, mas deve de tá um pouco arruinada por causa do tempo que passou. E a santa Bárbara tá lá, muito linda, no altar.

– Lalá, interveio Raul, não seria melhor primeiro você receber o baú com as coisas que seu pai deixou?

– O baú, gente, esqueci do baú, disse Jair, vou lá dentro buscar e volto num instantinho. Vocês não querem entrar? A casa não tem conforto, mas…

Entraram. Como Láercia disse depois a Raul, que reclamara da poeira, do desmazelo e do cheiro desagradável da sala penumbrosa onde entraram, não ia fazer desfeita a um amigo do seu pai. Como se negar a entrar?

Jair surgiu em seguida, limpando a tampa do baú com a fralda da camisa.

– Vamos ver lá fora, sugeriu Raul, lá é mais claro.

Só depois de se sentar no banco tosco Laércia pegou o pequeno baú. Suas mãos e lábios tremiam violentamente. Pôs o baú no colo, respirou fundo e murmurou:

– Não vai dar pra ver de uma vez só porque vou chorar tanto.

Bete sentou-se a seu lado:

– Seu Jair, dá pra arrumar um copo dágua com açúcar?

– Claro, respondeu ele, e voltou logo a seguir com uma caneca de ágata cheia dágua.

Laércia bebeu, respirou fundo, enxugou os olhos e olhou o baú de folha. Raul encostou-se no tronco da árvore. A tampa foi levantada devagar, havia receio nos gestos lentos. A mão de Lalá continuava a tremer. Não sabia o que podia encontrar. O conteúdo ocupava cerca de um terço do espaço interno do baú. Uma folha de papel branca, dobrada pela metade, ocultava a maior parte das coisas. Ela pegou a folha e sua mão tremia tanto que não conseguiu abri-la. A amiga teve de ajudá-la.

– Uma certidão de nascimento, a minha certidão de nascimento! gritou, lancinante. Com meu nome, nome de minha mãe e data do nascimento tudo certinho, só o lugar… diz aqui eu nasci em Valetas! Como ele sabia de meu nome?

– Ele foi atrás docês e conseguiu encontrar uma amiga de sua mãe do tempo do garimpo, uma mulher que ajudou ele a fugir dos bandidos, como eu disse. Essa ele sabia onde morava e assim que ficou bom, porque ele ficou muito doente trabalhando naquelas águas sujas para catar ouro, sabia? – Ela negou com a cabeça.- Quando ele voltou caiu de cama com uma crise muito forte da malina e levou meses para ficar bom. Foi dona Xandoca que cuidou dele, com muito carinho, para ela ele era o filho que nunca teve.

– Quem era essa amiga da minha mãe?

– Sei o nome não, sei mais nada, naquele tempo eu era muito novo, não me interessava muito por essas coisas.

Ele sabia que Bárbara e Olga tinham sido prostitutas do garimpo e para falar do que uma fazia teria de falar da outra. E já era difícil mentir por uma, que dirá pelas duas.

– E o que você vai fazer com a certidão antiga? perguntou Jair.

– Aí é que está o amor de pai, eu não tinha certidão, não falei, Raul? Não pude entrar na escola mais avançada por isso. Mamãe nunca teve dinheiro sobrando para me registrar. Como ele adivinhou isso?

– Meus parabéns, disse o rapaz, você acaba de existir oficialmente, é uma cidadã.

Ela tinha o rosto banhado de lágrimas. Apertou o papel contra o peito, com força, e sorriu para todos, até para a galinha que ciscava a seus pés. Entregou o papel à amiga e voltou ao baú. Lá estava ele, de pé, inteiro e sorridente, numa foto de cartão, o seu pai. Soltou um grito pungente, cheio de lágrimas.

– Ah, explicou Jair, esse retrato ele tirou quando teve aqui um tal de Estívessom, que tirava retratos do povo. Ele quis que dona Xandoca também tirasse um, insistiu, mas não houve meio. Tirei um também mas perdi. Acho que minhas crianças consumiram com ele. Tava muito feio.

Laércia olhava a foto em adoração. O homem que lhe sorria, os cabelos repartidos ao meio, bigode aparado encimando uma boca carnuda, sensual, vestia terno e colete e o paletó estava aberto na altura na cintura, afastado pela mão, deixando ver a grossa corrente do relógio presa no bolsinho da calça. Na outra mão, o chapéu de panamá. Ficou maravilhada, olhava cada detalhe, mirava e remirava a foto como querendo fixar a imagem do pai em sua mente.

– Minha mãe tinha razão, murmurou, ele era lindo! Olha que pose elegante, Bete! Eu pensei que era um roceiro. Agora é que eu vou lamentar não tê-lo conhecido.

Voltou-se para Jair: o que aconteceu com o homem que o matou?

– Tá por aí, o canalha. Inda outro dia esbarrei com ele no mercado. Eu soube que de vez em quando ele visita as sepulturas dos amigos. Até na do seu pai ele acende velas, o infeliz deve se roer de remorsos.

– Não foi preso, esse desgraçado?

– Foi, foi sim. Foi julgado, fui lá no Fórum assistir ao júri porque dona Xandoca não tinha força para ir. Ele pegou acho que uns quinze anos de cadeia, mas foi solto bem antes, por causa do bom comportamento. Não sei onde ele mora nem quero saber. A justiça divina vai cuidar dele.

– Vai arder no fogo do inferno pela eternidade, rosnou ela, desgraçado, infeliz!

Beijou o retrato e o pôs no colo. Bete quis apanhá-lo para juntar à certidão. Não deixou.

Voltou ao baú. Umas fitas de devoção de irmandades religiosas e um catecismo para meninas. Sorriu, terna. Era para ela que ele tinha comprado, na certa. Um pequeno embrulho em papel pardo. Abriu com cuidado e viu oito a dez pedrinhas marrons com pontos de brilho.

– Ouro, gritou Raul. Ele lhe deixou essas pepitas de ouro que podem pagar sua viagem de ida e volta. – Ela tocou as pedras com as pontas dos dedos, entusiasmada e receosa. – Será que ele deixou só isso? indagou Raul. Será isso o tesouro?

– Não, disse Jair, tem outras coisas. – Olhou para os lados e abaixou a voz: há um tesouro que ele escondeu em Valetas, dona Xandoca me contou depois que ele morreu. Muito ouro, de anos de garimpo, ele guardou em algum lugar lá na propriedade. Foi no tempo que construiu a capela. Só que ninguém sabe aonde, nem ela sabia. Ele morreu sem contar, não deu tempo. Sua mãe não sabia?

– Sabia, disse ela, também abaixando a voz, mas o trato deles era que um não mexeria no tesouro se o outro não estivesse presente. Eu achava que era pura imaginação dela, ou que ele a estivesse enganando, mas depois do que vi, dessa história toda, acho que ela também levou o segredo para o túmulo. Ou não quis ou não pôde me contar. Como vamos fazer? Ela me deixou um papelzinho, me entregou um dia antes de morrer, com um versinho, dizendo que era a chave do tesouro, mas eu não sei onde botei, pode estar aqui na minha bolsa como pode estar lá na minha casa. Achei que era fantasia dela.

– Será igual a esse aqui? perguntou Bete mostrando um pedaço de folha de caderno escolar que retirou do baú.

– Gente! Laércia arregalou os olhos, é esse mesmo. Mas o que significa?

E releu, alto:

“Se a casa cair,

a árvore for derrubada

e a cacimba soterrada

pela boiada raivosa,

procure o sofrido tributo

no abençoado e santo regaço,

longe da mão criminosa.”

– Mais que um verso de pé quebrado, disse Raul, é um verso codificado.

Desde que lera sobre mensagens utilizadas pelos adversários durante a Guerra Mundial ele ficara apaixonado por códigos e transmissões. Lia muito sobre espionagem.

– Sim, mas e daí? Quem poderia decifrar já morreu, disse Bete, desalentada.

– Cabe a nós agora descobrir a chave. Seus pais eram muito inteligentes e precavidos, Lalá, parabéns. Eles não fizeram mapas e sim um código que leva ao esconderijo do tesouro. O negócio agora é decifrar o código.

– Como podemos decifrar a mensagem? O tributo deve ser o tesouro, né? perguntou Bete. E o santo regaço? O que é mesmo regaço?

Lalá sorriu orgulhosa e guardou o papelucho no baú, junto com a foto e a certidão. O restante do conteúdo não tinha muito valor. Estava adorando conhecer seu pai lindo e misterioso.

Nos dias seguintes Laércia ia toda tarde à casa de Jair. Fez amizade com a mulher dele, Tereza, e com os dois filhos. Perdia horas e horas, ouvindo Jair contar sobre seu pai. Queria sempre mais detalhes, algumas passagens Jair floreava, ampliava, para satisfazê-la, para ver seus olhos brilhar e se umedecer de emoção. Falou-lhe longamente da dona Xandoca, do amor de mãe que ela votava ao filho emprestado, visitaram os túmulos deles no cemitério enfeitado com jasmineiros de buquês brancos.

– Já me apaixonei por dona Xandoca, disse Laércia, com um bolo ardido a se formar na garganta. De agora em diante só vou chamá-la de vó Xandoca.

– Láercia, disse-lhe um dia Raul na hora do almoço, o tempo está passando, telegrafei à mamãe para dar notícias nossas e ela respondeu perguntando quando vamos voltar. Tem trabalho à minha espera. O que você pretende fazer?

– Gente, ando tão envolvida com meu pai que me esqueci que o mundo segue em frente. Me perdoem. Sinceramente, ainda não pensei no que fazer, aqui me sinto tão perto de meu pai, tenho a sensação de que ele está aqui, a meu lado. Aí me desligo da realidade.

– Não seria bom dar um pulo nas terras de seu pai? perguntou Raul, sempre prático.

– É, lembrou sua irmã, conhecer a capela da santa Bárbara, que tal? Sem dúvida que o espírito de seu pai nos acompanhará.

– Boa idéia. Jair, como fazemos para ir a Valetas? O mais breve possível, preciso decidir minha vida e liberar meus amigos. Você pode nos acompanhar?

– Amanhã tá bom? Vamos de trem até à usina e lá pegamos uma charrete ou carroça pra Valetas.Tem um ônibus que circula por ali, mas não sei o horário.

– E não há como saber? Nessas localidades, lembrou Raul, não costuma haver pensões e a gente tiver de dormir…

– Tá bem, concordou Lalá, só vamos lá pra conhecer. Vamos e voltamos no mesmo dia. Deixamos a bagagem no hotel, não vamos sair carregando esses trambolhos. Qualquer coisa e se for o caso da gente ficar lá mais tempo, pedimos ao Jair para vir pegar.

– Nas terras da usina, informou Jair, mora uma tia sua, só que não sei o endereço. Nem o nome. Tinha também um tio seu, Eraldo, o irmão mais novo do seu pai, mas se mudou para outra cidade depois que sua avó morreu.

– Só que, minha querida, para deixar as malas no hotel, vamos ter de pagar diárias, lembrou Raul.

– Eu guardo as bagagens aqui na minha casa, ofereceu Jair, é casinha de pobre mas de gente honesta, ninguém tocará nas malas. Se quiserem podem dormir aqui. Na volta a gente pega elas

Laércia percebeu o desgosto que a idéia causava em Raul.

– Vamos fazer o seguinte: a gente vai a Valetas, vê o que tem lá e volta para dormir no hotel. Podemos fazer isso por dois ou três dias, não vamos incomodar Jair tomando o quarto dele e da Tereza. A gente pode pagar. Quando decidirmos o que fazer, aí a gente toma as providências, tá bom?

– Por mim tudo bem, disse Jair, só quero lhe pedir pra não me chamar de senhor.

A viagem no dia seguinte para Valetas foi tranquila, céu claro, o sol brilhava como uma bola de ouro, desfazendo o nevoeiro que encobria parte do rio e as ilhas. Jair discorria sobre a corrente poderosa de água barrenta, contava das grandes enchentes periódicas, sugeriu passeio de prancha até Gargaú. Nas ilhas o gado pastava, perseguido por pequenas garças e anus a lhes catar carrapatos. Aves maiores voavam ao longo do rio Uma paz muito grande invadiu o peito de Laércia. Era como se o pai estivesse a lhe guiar os passos com amor e segurança.

– Eu viveria aqui, comentou.

Na plataforma da estação da usina se sentiu muito triste. Ali seu pai tombara, varado traiçoeiramente pelas facadas de alguém que fora seu amigo. Não sentiu vontade de chorar, apenas ódio e uma sensação de vazio dolorido misturada a de impotência diante das injustiças da vida. Seu pai partira dessa vida de uma forma violenta que ele não merecia. Por tudo que ouvira, ele era um homem bom, não merecia esse fim cruel. Nem merecia que seu assassino pegasse pena tão pequena e já estivesse solto, pronto para liquidar outros desafetos.

Não foi difícil conseguir uma charrete para levá-los a Valetas.

Tudo que Laércia imaginou que sentiria na busca de suas raízes veio à tona assim que a charrete entrou nas estreitas estradas de terra, ladeadas em muitas partes por canaviais. Uma vaga de emoções fortes brotava de todos os seus poros e atingiam peito, garganta, boca do estômago, olhos, de uma maneira desordenada que lhe causava desconforto e até dor física. Embora sua mãe nunca tivesse vindo àqueles lugares, ela lhe narrava, geralmente na hora em que estava costurando ou lavando louças, como era a terra em que iriam viver tão logo Laerte fosse buscá-las. Até o tom entusiasmado da voz materna ela recordava. Aos poucos foi se acalmando, respondendo às perguntas de seus amigos ou de Jair, contemplando a singela paisagem que corria ao lado da carroça.

– Engraçado, comentou com os outros, minha mãe descrevia essa terra pra mim tal qual é e nunca esteve aqui. Incrível isso.

– Nem tanto, retrucou Raul, o interior do país, com exceção de alguns estados do sul, que sofreram influência de colonos estrangeiros, é muito parecido. O mesmo tipo de gente, de plantações, de animais, de moradias, de meios de transporte. Tudo brasileiro, bem como ensinou o professor Tiradentes.

– Ah, você é do tempo de Tiradentes, brincou Bete.

– João Tiradentes, minha cara, um dos melhores professores da região, sem favor algum.

Os buléus da carroça por pouco não lançavam fora os passageiros. Eram tantos os buracos, os calhaus, os alagados e pequenos bancos de areia fofa, que o veículo seguia como se estivesse vogando em mar tempestuoso.

– Estou enjoando, avisou Bete.

– Guenta firme, brincou Jair, falta pouco mais de cinco horas de estrada para chegar.

A brincadeira surtiu efeito contrário e a moça vomitou todo o café. Carroça parada, alívio geral.

– Onde seu pai veio nascer, Lalá, que buraco é esse?

Um pouco mais e a carroça seguiu adiante aos solavancos. Bete fechou os olhos e agarrou com força as bordas da carroceria. A cabeça rodava. De um lado desfilavam canaviais, de outro pastagens com bucólicos boizinhos e cavalinhos pastando sob um céu muito azul. A carroça seguia numa lentidão desgastante. Mais adiante, num buraco maior, mas disfarçado por tufos de capim, a carroça deu uma sacudida mais forte e Lalá, que se levantara para pegar alguma coisa, foi pega de surpresa e lançada na estrada que por sorte, naquele trecho, era de areia.

Não chegou ao chão, porém, logo um braço forte, masculino, segurou-a firme pela cintura, evitando que se esborrachasse. Um jovem, que cavalgava alguns metros atrás deles, de olho nas moças, ao ver a ameaça de queda, saltara lépido de sua montaria, a tempo de segurá-la. Ela gritou.

A carroça estacou e ela se aprumou, ainda abraçada pelo rapaz. Ela lhe sorriu, grata:

– Obrigada, perdi o equilíbrio.

Ele também sorriu. Um sorriso cativante, caloroso. Seus olhos escuros emitiram um brilho que a impressionou.

– De nada. Essa estrada é mestra em lançar moças bonitas no chão.

Sua voz era cariciosa, envolvente. Arrepiava. Sentiu que seu rosto se avermelhava. O coração acusou o golpe. Apreciara ter sido socorrida pelo moço. E ouvir o galanteio. Ele tocou no chapéu, montou no cavalo e seguiu sob os agradecimentos do restante do grupo. De tempos em tempos se voltava para olhá-los. Ela sorria, feliz, certa de que era pra ela que ele olhava.

Raul sentira uma pontada de ciúme, mas ficaria até feio demonstrá-lo, o moço tinha evitado que Lalá caísse no chão.

A carroça seguia aos solavancos. Tamos chegando, animava Jair. Com olhar ausente, Lalá mal notava os mil tons de verde da paisagem, sua atenção se focava na lembrança do olhar carinhoso e envolvente do rapaz que a socorrera. Quem seria? Seria morador da região? Parecia bem jovem, talvez tivesse a sua idade, um pouco mais, um pouco menos, isso pouco lhe importava, ainda sentia em todo o corpo o calor que as mãos dele transmitiram ao segurá-la. Um pouco antes, Bete havia inticado com ela:

– Aí, hein, está com tudo e não está prosa, né?

– Ih, Bete, deixa de bobagem.

– Olha, se fosse comigo… é um belo jovem, esse seu salvador.

Raul interveio, irritado:

– Para de palhaçada, Bete. Vê se Lalá vai se interessar por um capiau.

– Está com ciúmes, maninho?

– Claro que não. Só penso que se Lalá nunca se interessou pelos moços da nossa cidade, educados, com boa situação financeira, vai logo se interessar por um capiau bronco, que não deve ter nem onde cair morto. Tem graça.

Até então Laércia não havia namorado. Pretendentes não faltavam, olhares, bilhetinhos, desenhos de corações atravessados por flechas, flores e bombons e outras manifestações românticas lhe chegavam constantemente. Nos bailes encontrava sempre alguém com propostas, algumas sérias, umas poucas safadas, que ela fingia não ouvir. Arnaldo, dono de uma loja quase em frente a sua casa, não muito depois de enviuvar fora procurar sua mãe com propostas de casamento para ela. A mãe lhe contara, claro; e nem quisera considerar a possibilidade. Não estava interessada em namoro ou qualquer outro relacionamento.

– Converse com ele, filha, não custa nada. Você está passando da idade de casar.

Não se interessou. A mãe achava que ela reagia assim às propostas dos homens porque acreditava que o pai as havia abandonado e passara a considerar todos os homens como egoístas, infiéis e maldosos. Não deixava de ter razão, pensava, dado o sumiço do pai. Nem adiantara a mãe argumentar que deviam primeiro encontrar o pai para saber o que havia acontecido antes de julgá-lo.

– Ele não nos abandonou por vontade própria, tenho certeza, a mãe dizia, alguma coisa aconteceu que o impediu de vir nos buscar. Tenho absoluta certeza.

Ela não conseguia acreditar nessa hipótese. Os homens eram seres livres, independentes, que podiam sair pela vida fazendo o que lhes desse na telha sem ter de prestar contas. E não seria por falta de dinheiro que o pai deixaria de procurá-las. Dinheiro ele tinha e bastante. Não guardava um tesouro? Quando ficava indignada com esses pensamentos, atribuía as piores intenções à ausência do pai, que a seu ver era um moleque que queria usufruir sozinho o ouro do garimpo.

Com a vinda à terra de Laerte e a descoberta dos reais motivos da aparente falta de interesse em encontrar mulher e filha, uma janela se abrira em seu cérebro e clareara seu entendimento. Seu coração ficara livre e vazio. Até esbarrar no príncipe encantado que a socorrera, montado no fogoso corcel, nos momentos antes de pegar no sono pensava em alguns dos rapazes que haviam mostrado interesse por ela e decidira que daria chance a quem voltasse a procurá-la. Adormecera sorrindo. Agora não mais.

Os debiques entre os companheiros de viagem continuavam, mas ela mal ouvia.

– Um sujeito rústico, dizia Raul, boca rachada de sol, mal vestido, com as pontas dos cabelos queimadas de sol, deve ter as mãos grossas de calos, sem nenhum trato, Lalá merece coisa melhor.

– Eu acho, arriscou Jair, que dona Bete tem razão. O senhor tá com ciúme.

– Deixe de tolices e pense em achar o que viemos buscar, respondeu brusco.

Como Lalá continuava embevecida a olhar a paisagem, o assunto morreu. Adiante, após uma curva surgiu a ponta da cumeeira da casa de Marica, que Jair bem se lembrava.

– Vou saltar aqui, disse ele. A casa da sua avó tá com a ponta do telhado aparecendo. Enquanto vão pra lá, dou uma carreira na casa do Jofre pra avisar que ocês chegaram. É um instantinho.

Láercia tinha sido alertada por Jair para a simplicidade da casinha onde seu pai tinha nascido, mesmo assim a achou muito ruinzinha. Dês que Marica morrera ninguém mais ia lá. Jofre era um homem sem iniciativa e os outros irmãos seguiam a mesma linha. E a casa, sem uso, se deteriorava cada dia um pouquinho mais. O mato crescera nos fundos da capela, que só abria as portas para ladainhas e em época de novenas, batizados ou casamentos. Dona Senhora, uma viúva beata, zelava por ela, e as calçadas laterais e o passeio da entrada limpos mostravam isso. Um mínimo de cuidados.

Árvores mirradas montavam guarda do lado esquerdo da capela, perto da casa familiar; do outro lado, arbustos enfezados cresciam ao longo do muro baixo. A velha guardava a chave e teriam de esperar a chegada de Jofre para que fosse buscá-la. A casa dele não ficava muito longe.

Desceram e pediram que o charreteiro aguardasse, talvez precisassem ir a algum lugar onde servissem refeições, Raul avisara que estava faminto. Mais fome ainda sentia a irmã, que esvaziara o estômago no caminho.

– Aqui é meio difícil de achar onde comer, alertou Gegê, o charreteiro, cuspindo no chão.

A figura mirrada de Jofre não surpreendeu a sobrinha, alertada previamente por Jair. Velho, desdentado, cabelos grisalhos amassados pelo chapéu de palha, roupa suja e puída, calçando tamancos, ombros caídos, olhos baixos, Jofre era a humildade em pessoa. Olhou Laércia longamente, sem emoção aparente, o chapéu entre os dedos, um sorriso tímido a título de boas vindas. Meu Deus, pensou ela, como é diferente de meu pai! Ele a achou muito parecida com o falecido irmão.

– Cara de um, focinho de outro, observou.

Dois de seus filhos, homens feitos, o acompanhavam. Ela beijou todos na face, sentiu-se emocionada e deixou que lágrimas escapassem pelo rosto.

– Obrigada por ter vindo, tio.

– A senhora demorou a aparecer.

– Que senhora, tio, custei porque minha mãe estava muito doente, entrevada. Só pude vir depois que ela faleceu.

– Ah… e como souberam da morte de Laerte?

– Não soubemos, minha mãe morreu sem saber, morreu esperando que ele aparecesse por lá a qualquer momento. Eu soube aqui, quando cheguei.

– Como ele podia ir atrás, e na sua voz transparecia irritação, se não sabia do paradeiro docês?

– Nem nós do dele. Só sabíamos que tinha essa propriedade aqui porque ele contou um dia lá no garimpo. Minha mãe pretendia vir ao encontro dele, mas adoeceu e ficou anos deitada numa cama.

– São seus irmãos? o tio perguntou, olhando de lado para Bete e Raul.

– Não, não tenho irmãos, são amigos que me acompanham na viagem. Minha mãe não se casou, esperou pelo meu pai até morrer.

– Você vai fazer o que agora? Tomar posse do que é seu? Ninguém abriu inventário.

Havia certa agressividade em sua voz.

– Tio, eu vim aqui para conhecer a terra de meu pai…

– …e tomar posse do que é seu de direito, completou Raul, a voz mais grossa que de costume.

– Mas, objetou um dos filhos de Jofre, chamado Antero, seu pai não teve tempo de reconhecer você como filha.

– Ele deixou uma certidão comigo, afirmou Jair, para entregar a ela.

O rapaz o olhou de lado, irritado com a intromissão e com certo ódio no olhar.

– Bom, temos que ver isso, tia Dalila também tem pedido pro pai abrir o inventário, afinal ele agora é o irmão mais velho. O problema são os gastos.

– Faremos isso, disse Laércia, serena, na hora certa. Acabei de chegar, fiz uma longa viagem, estou cansada. Vamos cuidar do hoje, do agora. Tio, será que tem condições de meus amigos e eu ficarmos nessa casa aqui por uns tempos? Uns dias, uma semana? – Ele anuiu com a cabeça. – E antes de mais nada, onde podemos comer?

Apesar das expressões pouco amigáveis dos parentes, Lalá sentia-se bem. Jofre abrira a casa de Marica e ela entrou respeitosamente, como se entrasse num templo. A poeira cobria tudo, picumãs pendiam do telhado, teias de aranha pelos cantos, velhos móveis carunchados e gavetas quebradas, o chão coberto com cacos de louça e emboloradas roupas amontoadas nu canto. A impressão é que ninguém se preocupara em arrumar a casa depois do ataque dos garimpeiros. A luz que entrava pelas frinchas das telhas enchia a sala de colunas luminosas onde a poeira refletia a claridade.

– Desculpe a bagunça, falou Jofre, mal humorado, é que ninguém teve coragem de entrar aqui depois do que aconteceu. Eu, então! Parece que tô vendo tudo de novo, aí nesse canto, perto da porta, a irmãzinha ficou caída, morta, a língua saindo da boca …

– Que horror, gemeu Lalá. O senhor estava presente?

– Então não? Apanhei feito boi ladrão, mas mais pior que tudo foi ver o que fizeram com minha mãe e com minha irmã doentinha. Ver tudo aquilo, sem poder fazer nada e apanhando ainda por cima. Ô sofrimento! Mas os disgramados agora tão ardendo nas chamas do inferno, menos o tal do Cabelo Bom. Inda outro dia ele passou por aqui, o descarado, tem veis que passa dias na casa do safado do cearense.

– O cearense arretado mora aqui perto? ela perguntou, nervosa, conhecia a participação dele na trama contada por sua mãe.

– Antão não? O ordinário mora um pouco antes da pracinha, numa venda que cuida mais de jogo carteado que de vender coisas. Eu já avisei à polícia, ali é um antro de jogatina, mas ele é protegido por um político…

Vistoriaram toda a casa, o abandono imperava. Lagartixas fugiram esbaforidas. Sobre o fogão baratas passeavam.

– Se você pretende passar uns dias aqui, alertou Raul, vamos ter que pegar vassouras, baldes e ter muita disposição pra faxinar. Assim mesmo… E temos que comprar tudo, roupa de cama, pratos, panelas, olha, nem sei se vale a pena. – Virou-se para Jofre: quando vão dar entrada no inventário?

– Sei lá. Tem pressa?

– O senhor não sabe? Quando uma pessoa falece e deixa bens, a lei manda que se abra um inventário. Para ver o que cabe a cada herdeiro. O senhor agora é o herdeiro mais velho, o inventariante.

Ele olhou para Jair, perdido.

– Sei nada disso não.

A terra onde tinha sua lavoura e a sua casa estavam ainda em nome de seu falecido pai.

– O inventário, Jofre, ajudou Jair, é obrigatório, dona Xandoca lhe falou isso quando Laerte morreu. E você ficou sendo o mais velho e é o inventariante. Seria Laerte, mas como ele morreu, é você.

– Não sei como fazer isso não, disse o Jofre, abrindo as mãos, desamparado. Aqui tudo ainda tá em nome do pai. A minha propriedade e a dos irmãos homens, o gadinho, tudo.

– E as filhas?

– Elas têm direito? Num já são casadas, num tem as terras dos maridos?

– Nós cuidaremos disso pra vocês, disse Raul, pode deixar. Enquanto isso, se for desejo de Laércia, como herdeira pode ocupar esse imóvel, que está abandonado.

Jofre levantou os ombros. Seus filhos olhavam desconfiados.

– Por mim tudo bem, não sei se os outros irmãos… aqui era a casa de mamãe, não de Laerte. Quero ver na hora da partilha…

– Mas Laerte gastou um bom dinheiro reformando a casa, observou Raul.

– Isso depois se resolve, interveio Laércia. Bete, minha amiga, vamos abrir todas as portas e janelas para tirar esse cheiro horrível. Estou sufocando.

– E onde a gente pode comer por aqui? indagou Raul. Do jeito que a casa está não dá para fazer comida aqui.

– É, concordou Jofre, aqui não dá.

– Sua senhora não pode fazer o almoço?

– Se for preciso a gente paga, disse Bete.

Jair abriu os braços, uma expressão de espanto no rosto.

– Que isso, exclamou, cobrar almoço da sobrinha? O Jofre não é sovina e muitas vezes foi socorrido pelo irmão. Não foi, Jofre?

A custo, indeciso, negaceando, Jofre olhou desarvorado para os filhos, que ficaram impassíveis, mas concordou que almoçassem em sua casa. Para isso saíram na frente.

– Vou avisar lá em casa, justificou, sabe como é casa de pobre, né, comida pouca, aqui tudo é muito difícil, carne só no sábado. Vou mandar matar um franguinho. A criação anda magra, falta dinheiro pra comprar milho, mas com Deus o pouco é muito, né mesmo? Daqui a pouco mando um dos minino chamar ocês.

Quando ele se afastou, Raul murmurou:

– Isso aí é um finório. Olho nele, Lalá.

– Não é só ele não, concordou Jair. Os outros irmãos são tudo igual, uns sanguessugas. Laerte passou uns apertos com eles, que tavam sempre pedindo mais dinheiro, nunca ficavam satisfeitos. O dinheiro que Laerte deixou procê tava escondido com dona Xandoca, que tinha ordem de seu pai de só entregar aos irmãos em caso de necessidade. São uns sabidões, esses caipiras.

O almoço saiu tarde e incluiu o condutor da charrete. Eles haviam decidido voltar para a localidade da usina, dormir lá, arrumar o que pudessem para ajeitar a casa e voltar no outro dia. A mulher de Jofre, Silvina, magra e de olhos sempre voltados pro chão, não lhes fez nenhuma graça. Deu as pontas do dedos para a sobrinha apertar, sem olhá-la nos olhos, e um olá chocho para seus amigos. As duas filhas e o rapazola foram mais simpáticos. Faltavam dois, ambos casados, que tinham voltado para trabalhar na roça.

– Aqui, minha sobrinha, disse Jofre, é uma vida de luta, todo mundo tem de trabalhar duro para se ter um pouco de conforto. Quando seu pai era vivo, nos ajudava.

– Pouco, mas ajudava, resmungou a mulher dele. Um homem com tanto dinheiro e tão pouco apreço com a família. Minha sogra Marica muito se lastimava.

Jair entrou na conversa, mal humorado:

– Olha, a moça não tem nada a ver com isso e vai sair daqui com má impressão de ocês. Vai pensar que são uns ingratos.

A mulher de Jofre virou-lhe as costas com brusquidão e foi para a cozinha. De lá gritou, chamando as filhas.

– Então vamos sentar, convidou Jofre, sem entusiasmo. Podem comer à vontade que as crianças já comeram.

– É só por hoje, disse Lalá, puxando a cadeira. Aqui não tem onde se comer. A partir de amanhã não daremos mais trabalho.

Ele riu sem graça e não contestou. Os outros se sentaram. As moças da casa trouxeram a comida, uma moringa com água e copos.

Na despedida, com a mulher de Jofre apoiada no batente da porta a olhá-los de lado, aborrecida, Lalá observou:

– A gente agradece, a comida estava muito boa, a recepção é que não foi tanto. Não queríamos incomodar, pensamos que iam ficar felizes conhecendo a filha do homem que tanto ajudou a família, como fiquei sabendo.

– Tem nada não, completou Jair, cada um dá o que tem. Vambora, meu povo, que a estrada é longa.

– Eu, hein! resmungou Silvina, mal agradecidos. Enchem o bandulho e ainda reclamam.

A semana foi gasta em idas e vindas entre a localidade da usina e a propriedade em Valetas. Jofre não mais tinha aparecido, mas sua filha mais nova, Toninha, surgia no final da tarde, sorridente e agitada, para ver como andavam as coisas, como dizia. Fez amizade com as moças, era alegre e faladeira, contava as novidades do lugar e acabou por se integrar ao que Lalá chamava de turma da reintegração da casa ao mundo dos vivos. Também pegou na vassoura e no balde de boa vontade. Por Toninha ficavam sabendo das intrigas familiares, da reação negativa de seus pais às palavras de Lalá na saída, depois do almoço, da briga constante entre os parentes por qualquer coisinha, da pretensão dos outros primos virem no fim de semana em visita.

– Não são muito diferentes de papai, não, disse ela. Eles acham que você se considera dona de tudo e vai botar nós tudo na rua. Tia Ursulina, irmã de vó Marica, então, fala cobras e lagartos, diz horrores de você.

– Sem me conhecer?

– Hum, aquilo é cobra caninana, liga não. Eu ainda nem era nascida, mas soube que ela falava mal até do tio Laerte, que ajudara o marido dela a comprar uma carroça. Ela duvida que você seja filha do tio. Disse que você vai ter de provar diante do juiz. Tá açulando os herdeiros.

– Esse povo é assim mesmo, consolou Jair. Olha tudo com desconfiança, não aceita conselhos de estranhos e acaba sempre caindo em contos do vigário por se acharem muito espertos. Povo ruim esse de Laerte, só ele escapou, desculpe moça.

Nas idas e vindas Laércia estava sempre atenta, buscando entrever nas casas, nos campos ou nas roças, a figura do rapaz que a tinha amparado na vez que caiu da carroça. Chegou a perguntar à prima quem era ele num momento em que as duas ficaram a sós. A outra não soube dizer.

– Não conheço ninguém bonito aqui não. Só se é de fora e tava passeando.

Aos poucos a figura dele foi se esbatendo na sua memória.

No segundo dia visitou a capela de santa Bárbara. No dia anterior a zeladora havia viajado para ir ao médico e ninguém sabia, ou não dizia não saber, onde ela guardava a chave. No dia seguinte ela foi pessoalmente levar a chave, assim que soube que tinham ido procurá-la e estavam á sua espera. Queria ver de perto os estranhos. Mais simpática que os parentes, vestia roupa escura e cheirava a lavanda. Discreta, deixou que Lalá entrasse sozinha na capela e ficou com os outros, do lado de fora.

Laércia teve outro momento de intensa emoção ao entrar na capela varrida pelo sol da manhã. Duas grandes janelas laterais deixavam a luz entrar em quantidade. Ajoelhou-se aos pés da santa, que parecia lhe sorrir e chorou muito.

– Eu queria conhecer meu pai, dizia baixinho.

Parados na porta os outros esperaram ela se acalmar.

Ao contrário da casa, a capela estava limpa, o altar forrado com uma toalha branca com bordados de crivo e duas jarras de vidro com flores de papel vermelhas. Em cada ponta, um castiçal com uma vela. As lágrimas não deixaram que Lalá ver detalhes da imagem, mas Raul estava atento e lhe perguntou depois que saíram.

– Você viu as letras no pedestal da imagem?

– Não, só vi o sorriso e os olhos dela. Parecia minha mãe. Ela vai me ajudar.

– Não deu pra ler tudo, pois os dizeres acompanham a curva do pedestal, me pareceram iguais aos dos versos que estavam no baú de seu pai.

– Será? É que dona Senhora foi pra casa, senão ia dar uma olhada. Mas ela prometeu mandar uma chave igual pra ficar comigo. O verso será mesmo igual, Raul? Será que eles copiaram o verso que veio na imagem? Ou é coincidência?

– Acho que não, opinou Raul, nunca vi imagem com frases no rodapé. Quem sabe não é a pista que seus pais deixaram para se encontrar o tesouro? A imagem veio do garimpo onde eles viviam?

– Ih, que tesouro, replicou ela com enfado. O meu tesouro, que ele deixou pra mim, foi o que estava naquele baú. Um tesouro maravilhoso.

– A imagem veio ou não veio de lá?insistiu ele.

– Ai, Raul, que chato. Veio sim, mas o verso não deve ter nada a ver com tesouro, deve ser verso devoção, reza, qualquer coisa assim. Esquece isso, Raul.

Raul não ficou satisfeito. Por tudo que estava vendo e ouvindo, ficava cada vez mais convencido que o tesouro existia e estava em algum canto da propriedade. Por enquanto deixaria tudo como estava, mas em breve entraria em ação e desvendaria o significado do verso de pé quebrado.

Dormiram no povoado junto da usina de açúcar e voltaram logo cedo no dia seguinte. A casa precisava de remendos, havia pedaços das paredes, principalmente nos rodapés, onde tijolos foram juntados ao barro socado, na certa para maior obter firmeza e que resultara numa espécie de relevo acidentado. O telhado tinha telhas quebradas, mas com a ajuda de Jair e de Gegê, o charreteiro, consertaram quase tudo. Faltou cuidar do reboco de alguns cômodos, onde alguns tijolos se destacavam como verrugas quadradas.

A faxina era absolutamente indispensável e todos, até o condutor da charrete, pegaram nas vassouras. Nenhum dos parentes apareceu para oferecer ajuda. Nem os primos que haviam anunciado uma visita deram as caras.

Juvenil, irmão de Laerte, passou pela estrada montado no jumento com jacás carregados de compras e não parou para conhecer a sobrinha. Ao saber por Toninha, Lalá deu de ombros. Já estava se acostumando aos rudes modos do povo do lugar.

No fim da tarde a casa podia ser ocupada, mas voltaram ao arruado da usina pra dormir. Alguns dias mais e a casa enfim ficou novamente habitável. Feliz, Lalá recolocou na parede da sala a foto ampliada e colorida a lápis de seus avós.

– Que gente feia, disse Raul, baixinho.

– Não, discordou Lalá, a culpa é da foto, que era em preto e branco e foi colorida com lápis de cor. Nunca fica bom, parece uma dupla de fantasmas com ruge nas faces. E deixe de implicâncias.

E riu. À noite liberaram Jair e o charreteiro.

– Mas eu volto assim que ajeitar as coisas lá em casa, avisou Jair.

Raul, que era advogado, dias depois foi à cidade e deu entrada no inventário e para isso convocou todos os irmãos de Laerte para se reunir na casa de Jofre. Como argumento tornou a lembrar que a lei os obrigava a fazer a divisão dos bens e que seria bom para todos, iam regularizar a situação das terras.

Jofre exigiu que a reunião fosse no sábado de tarde, sua mulher, Silvina, indisposta, não pretendia ficar na cozinha preparando, como ela disse “manjares para desocupados. Que cada um enchesse o bucho na própria casa.”, gritara, provocando sorrisos debochados.

Lenilse, que morava em Barcelos, não compareceu, alegou estar com muita dor nos quartos, mal podia andar.

– Sei, resmungou Silvina, dor nos quartos é o cabrunco do marido dela, cavalo batizado, que trata a mulher como se fosse escrava. Se não deixa a mulher chegar na porta da rua, ia deixar ela vir aqui? Tá bom. Ah, se fosse comigo!

Toda a movimentação de Lalá e seus amigos exigia deslocamentos para lugares às vezes bastante distantes, como a usina. Jair sugeriu que comprassem um cavalo e charrete.

– Não podemos alugar uma? indagou Raul.

– Alugar charrete? – e Toninha riu gostosamente – aqui a gente aluga casa, pasto, coisas paradas, charrete e cavalo não.

– Por quê? quis saber Bete.

– Ora, respondeu a mocinha com petulância, vai que ocê aluga o cavalo ou a charrete e o sujeito dispara por essas estradas afora? Já a casa e o pasto ninguém pode levar.

– E quem tem cavalo aqui pra vender?

– Ninguém. Quem tem o seu não dá nem vende, só quando a égua pare e aí já tem um monte de gente esperando pelo potrinho.

Decidiram que na próxima ida à cidade com Jair, Raul compraria um cavalo manso e resistente.

– Conheço um pessoal lá pras bandas do Porto Escuro, que costuma ter bons animais pra vender, informou Jair.

Dias depois a propriedade recebia um novo morador. Era um animal rústico, com cerca de quatro anos de idade, castanho claro com rajadas marrons, dócil, bem treinado e chamava-se Coió.

– Que nome mais feio, disse Bete. Vamos rebatizá-lo. Cada um diz um nome e o melhor vence.

Depois de uma renhida disputa, ganhou o nome de Ouro Velho, que tinha tudo a ver com a cor do seu pelo e com a razão porque fora comprado. A partir daí, aos sábados Jair o selava – haviam encontrado arreios usados num dos quartos dos fundos da casa, que precisou de alguns consertos para servir – e ia passar o domingo com a família.

O clima da reunião era de hostilidade explícita. Os tios de Laércia, diretos e afins, a olharam com uma curiosidade ostensiva, misturada com suspeita e repulsa e ficaram encostados na parede, desconfiados, só ouvindo. Poucos a encararam. Amparo, mulher de um dos irmãos mais novos, o Joilson, comentou em voz alta que primeiro de tudo seria preciso provar que a moça era mesmo filha de Laerte.

– Existem muitos trapaceiros soltos no mundo, observou ela, olhando para o teto, como se não quisesse atingir ninguém. Queremos provas.

Raul lembrou a certidão deixada por Laerte e recebeu um muxoxo aborrecido.

– Isso prova que ele deixou uma filha, mas não prova que a filha dele é essa daí, disse ela, e apontou Laércia com um movimento de queixo.

Laércia a olhou, espantada. O irmão mais novo, Eraldo, solteiro empedernido, que vivia na cidade e tinha pouco contato com a família, declarou:

– Me lembro pouco do mano, era bem garoto quando ele foi pro garimpo, mas acredito na moça, se não fosse filha dele, como teria chegado até aqui? Como saberia onde ele morava? E o Jofre não disse que ela se parece com ele?

– Não se meta, gritou Silvina, olhos esbugalhados de ódio. Você é daqueles tais que só aparecem quando esperam tirar alguma vantagem. Onde você tava quando sua mãe, pobrezinha, ficou aqui sozinha com a menina e foi atacada pelos amigos de Laerte?

– Eles não eram amigos de meu pai, interveio Lalá. Garimpavam juntos, só isso.

– Disso eu sei, afirmou a irmã Ester. E que ela lembra o falecido, isso lembra.

– Você também não sabe de nada, berrou Silvina. É outra que só pensa em tirar proveito.

– Ora, não enche, cunhada. Bem que mamãe dizia que você era a rainha da encrenca, disse Ester. Não tinha ninguém aqui porque tava todo mundo trabalhando, ora. Meu marido nunca quis depender de ninguém, nem do meu irmão rico, sempre ganhou seu próprio dinheiro, não fazia como certas pessoas.

– Sua mãe era uma velha implicante e egoísta, isso sim, replicou Silvina. Só pensava nela e na boba da filha, e se esquecia dos outros filhos.- Virou-se para a outra irmã, que se mantinha calada. – Marica lhe ajudou alguma vez, Dalila?

– Nunca, disse a outra. Nem nunca me visitou. Mas quando quebraram a perna dela, foi pra minha casa que ela foi.

– Por que você insistiu, revidou Ester, bem que botei minha casa à disposição dela. Mas ocê, de olho grande na herança, fez de tudo pra ela ir pra sua casa. Não me provoque.

– Ocê deu foi graças a Deus por encontrar uma boba pra servir de Cristo, rosnou Silvina. Sai fora! Nunca antes tinha se preocupado com a velha, mas quando achou que ela ia bater as botas carregou pra sua casa. Esse, e apontou um dos olhos, é irmão desse.

– Ninguém pode nos acusar de tá de olho no dinheiro da mamãe, disse Joilson. Lembro bem que depois que ela foi pra sua casa, a gente tinha dificuldade em visitar, ocê sempre inventava que ela tava dormindo, tava no banho e mais isso e mais aquilo, só pra ninguém conversar com a velha. Na certa ela ia contar o que sofria nas suas mãos.

Lalá assistia a cena, horrorizada. Raul interveio, enérgico:

– Nós não chamamos vocês aqui pra brigar e sim para iniciarmos o inventário. Quanto à Laércia, não há qualquer dúvida de que é filha de Laerte, tendo em vista a certidão dela, que ele deixou nas suas coisas na pensão e sem dúvida será reconhecida por qualquer juiz. E temos o testemunho aqui do Jair. E quanto a gastos com o inventário, é bom esclarecer, não precisam se preocupar, vamos cobri-los. Quando o inventário terminar, depois de feita a partilha, serão descontados do total, é a lei. Vocês só terão de assinar uns papéis. Estão aqui todos os membros da família?

– Só os filhos, os netos estão trabalhando e as netas, moças recatadas, estão em casa.

– E quem é o senhor pra se meter em briga de família? se intrometeu Silvina.

– E que papéis são esses? quis saber Amparo. Como podemos saber se são verdadeiros? Já soube de casos que documentos foram falsificados e os advogados sumiram com o dinheiro todo de uma herança que…

– Pessoal, prestem atenção! disse Raul em tom mais alto, se não houver confiança em mim vai ficar difícil. Jofre já disse que não sabe como fazer, os outros não se dispõem a entrar com o pedido de abertura do inventário e o tempo está passando, vão acabar tendo de pagar multa ao governo. Com esse bate-boca, como podemos avançar?

– Ocês querem é avançar em cima do que é nosso, do que nossos pais deixaram, disse a irmã Ester. Como vamos saber se não tem patranha nisso?

Nacinha, a obesa mulher do outro irmão, olhava nervosa de um lado para outro, se refrescando com o abano de palha trançada. Parecia atarantada, como se perguntasse o que estava fazendo ali. A cada intervenção dos parentes, exclamava:

– Ai, meu Deus, minha Nossa Senhora!

A seu lado, seu marido, calado, de cara fechada e mãos nas costas, só abriu a boca pra dizer:

– O doutor tem razão, é melhor mesmo fazer logo a partilha, cada um com o que será seu, sem briga. Eu tenho sido prejudicado, sempre, pode ser que dessa vez, com o juiz a decidir, eu não leve a pior. E depois da partilha, nunca mais na vida quero ver a cara docês. Nós temos de confiar no doutor.

– Você é outro, aparteou Silvina, rascante, que só abre a boca se for ganhar alguma coisa. Tudo gente falsa, interesseira. Prejudicado em que, me diz? Eu, hein! Tá pensando que os outros são bobos?

O outro irmão, Juvenil, abriu a boca como se fosse dar sua opinião, mas antes que pudesse falar, a cunhada continuou a gritar, ela não conseguia falar em tom baixo, e ele preferiu continuar quieto:

– E ocê, Joirso, só vai apoiar essa estranha porque ela veio com o namorado doutor. Tá pensando em levar arguma vantagem, lhe conheço, tem boca grande. Não sou boba que nem meu marido. Só queria ver o que a veia Marica ia dizer.

– Fica quieta, disse Jofre num murmúrio que ninguém ouviu.

– Quem vai decidir é o juiz e não o advogado, disse Laércia. Tenham calma.

Nacinha, nervosa, cara de coelha assustada, algumas lágrimas já abrindo sulco no pó de arroz que lhe cobria as faces, se misturando ao suor que porejava, abundante, se apoiou no braço do marido para se levantar do banco onde esparramara suas banhas.

– Vambora, seu Joilson, que isso aqui pode acabar em sangue. Isso não se faz, tirar uma criatura do conforto de sua casinha para vir brigar com parentes e ouvir ofensas.

– Deixe de choramingas, comadre, falou Silvina, ocê não sai de casa pra nada, porque é preguiçosa, por isso tá gorda como uma porca.

– Porca é a sua mãe, respondeu a outra, arfando, lutando para se por de pé. Na minha casa há respeito e consideração. Aqui só vi ganância e falta de educação. A pobre da minha sogra deve tá dando voltinhas de raiva em sua sepultura.

– Marica era outra fingida, só sabia se aproveitar do Jofre. Para as vantagens eram os outros filhos os escolhidos, mas para os trabalhos, viajar para cidade, meter a enxada na terra dura era meu marido. Era uma peste! Que a terra lhe seja leve e o diabo a receba de braços abertos.

– Mais respeito com minha mãe, disse Eraldo, se debruçando para dentro da sala com os cotovelos apoiados na janela.

– Ah, cala a boca ocê também, frôzinha.

Erguendo o amplo peito majestosamente, Nacinha saiu, arrastando o marido pelo braço. Silvina, boca retorcida de desprezo, deu as costas para todos e foi para a cozinha. Ester perguntou, escarninha:

– Vai fazer café pra nóis, cunhada? É melhor chá de cidreira para acalmar o povo.

– Só se for pra botar veneno dentro do chá, disse Eraldo, em tom de deboche. Para isso basta ela cuspir na água.

– Estamos perdendo tempo aqui, concluiu Raul. Vamos embora, Lalá, antes que a casa pegue fogo. Atenção pessoal , quando tiver noticias do inventário aviso ao Jofre.

Laércia ficou decepcionada com a recepção dos parentes, esperava outra coisa, pensava que iam ficar felizes por encontrá-la, a filha perdida do irmão falecido, e não hostilizá-la. Soube por Jair que o mesmo acontecera com seu pai, que foi mal recebido a partir do momento em que acabou sua disposição em dar dinheiro para os parentes. A presença da herdeira de Laerte diminuía o montante que cada um ia receber de herança, assim como diminuiria a parte do tesouro, que também sonhavam encontrar. A hostilidade mostrava o medo de ter de dividir os bens deixados por Laerte e sua mãe.

– Olha, fiquei apavorada, admitiu Lalá. É como se cada um fosse inimigo do outro.

– Só pensam em dinheiro, concordou Raul. Nunca usaram esta casa, cheios de medo do fantasma da mãe, na certa. Foi você aparecer e se interessar e se sentirem ameaçados em tudo o mais que era dela.

– Eles querem que tudo caia do céu, avaliou Bete, e direto nos bolsos deles. Não querem saber de trabalho, só de dinheiro.

– Além do mais são uns moleirões, disse Jair, que só pensam em viver à sombra de alguém. É só ver essas terras de dona Marica, abandonadas, eles não plantaram um pé de milho, não criaram uma galinha, não cuidaram de nada, nem mesmo pensaram em vender. Querem que os outros façam tudo para eles. Seu pai já dizia isso. Vamos largar eles de mão e tocar a vida pra frente.

– Pelo jeito, comentou Laércia, relaxando, não são muito melhores que os irmãos de minha mãe. Ô família! Esconjuro!

No sábado Raul viajou de volta para casa, a pedido de sua mãe. Tinha clientes a sua espera.

– Mas volto, ele afirmou, não vou deixar vocês entregues à sanha desses sanguessugas, que pelo visto são capazes de tudo.

Antes da partida de Raul um incidente o deixou preocupado. Láercia ia da capela para casa, levando os lençóis que acabara de tirar do varal, onde estavam para tirar o cheiro de loja, como ela dizia, quando um homem idoso, encostado na cancela, a chamou com um psiu.

– Eu? perguntou ela, incomodada. Quer falar comigo?

Ele confirmou com um gesto da cabeça e ela se encaminhou devagar para onde ele estava, distante meia dúzia de passos. O homem não era jovem, vestia roupas bem amarrotadas e trazia o chapéu na mão. De vez em quando sacudia a cabeleira grisalha, como um cacoete. Muitas rugas cortavam seu rosto. Os olhos escuros esquadrinhavam a moça e o que estava à sua volta.

– A senhorita é a filha de Laerte? ele perguntou, brusco.

– Sou e quem é o senhor?

– É, se parece com ele. Sou um velho conhecido dele. – sorriu, torcendo a boca – Veio tomar posse de sua herança? E sua mãe, como vai? Ela lhe falou sobre o tesouro?

– O senhor conheceu minha mãe?

– Claro, no garimpo. Todo mundo conhecia ela por lá. Uma criatura dadivosa. Soube que morreu, depois de muito tempo acamada, né? Pagou seus pecados, a infeliz. A vida não perdoa.

Intrigada e aborrecida com a falsa compunção da voz dele, ela indagou:

– Quem é o senhor afinal?

– Um amigo que veio do passado do garimpeiro ardiloso, respondeu com voz cavernosa. Tô interessado no tesouro, tenho direito a uma parte dele. Já o encontrou?

Ela franziu o cenho.

– O senhor é atrevido e irritante. O tesouro, se lhe interessa saber, já está comigo.

Ele se inteiriçou e empalideceu e fez que ia abrir a cancela. Falou duro:

– Eu quero ver. Agora. Tava aonde? E quantas pepitas tinha lá?

Mais intrigada, ela resolveu dar corda: Sorriu também.

– Todo o tesouro de meu pai coube num baú deste tamanho – e prendendo as roupas sob o sovaco, mostrou o tamanho com as mãos – e os bens mais importantes eram o retrato dele e minha certidão de nascimento.

A cor voltou ao rosto dele, junto com uma expressão mista de frustração e de ódio.

– Que merda! Não banque a espertinha pro meu lado, moça, que posso mandar ocê também pro inferno, pra fazer companhia a ele. Não brinque comigo, não gosto de brincadeiras. Vou voltar, tá ouvindo, quero minha parte do tesouro, e quando encontrar o ouro, pode ficar certa disso, eu vou tá por perto para reclamar o que é meu de direito. Por bem ou por mal, não se esqueça.

Virou-lhe as costas e se afastou, rápido, sacudindo a cabeleira. A prima Toninha, que se aproximara durante o diálogo, perguntou:

– Sabe quem é esse aí?

Láercia se voltou pra ela, interrogativa.

– É o tal Cabelo bom, o homem que matou seu pai.

Ela empalideceu, seu corpo balançou, como se atingido por um tiro. Raul, que tinha se aproximado, agarrou-a pela cintura no momento em que ela se lançou sobre a cancela para ir atrás de Cabelo.

– Calma, Lalá, não vai adiantar de nada discutir ou brigar com esse sujeito. Tem todo o jeito de bandido e você ia levar a pior. Vamos aguardar um momento mais oportuno.

– Ele é muito mau, disse a prima, todo mundo aqui tem medo dele.

– Eu não tenho, sibilou Láercia. – E berrou para o homem que se afastava: assassino, covarde!

Mas ele pareceu não ouvir ou não dar importância.

Raul viajou preocupado com um provável novo encontro entre eles. Laércia, apesar de sua aparência frágil, não era de levar desaforo pra casa, ainda mais do homem que matara seu pai. Raul há muito tempo era apaixonado por ela, mas a amizade das famílias, o desinteresse dela por namorados o tinha freado. Ao ver que ela se interessara pelo rapaz que a impedira de cair da carroça, sua atenção amorosa fora reativada. Se ela havia de se interessar por alguém, era dele a preferência.

Durante o tempo em que estivera ao lado dela o tal rapaz não aparecera. Ele sabia, porém, que era só uma questão de tempo.

No domingo após sua partida, pela manhã bem cedo, ela olhava maravilhada o novo dia nascendo por trás das roças, saudado pelos ruídos dos animais despertando, animada e alegre sinfonia, o ar fino cheirando a plantas orvalhadas, quando um cavaleiro surgiu na estrada em frente, olhou-a, sorriu e tirou o chapéu, num cumprimento. Reconheceu-o de imediato e sorriu de volta. Era o herói da carroça. Seu coração bateu mais forte. Queria que ele tivesse parado para um dedo de prosa, para ver o que se escondia no poço dos olhos escuros e quentes, mas ele seguiu impávido, o cavalo corcoveando num belo trote, de quando em quando se voltando sorridente para vê-la, que ficou estática no mesmo lugar até ele desaparecer.

– Bonitão mesmo, pensou. Podia ter dado uma paradinha, não podia? Vai ver foi atender algum compromisso.

A manhã passou rápido como um cometa e quando espantou estava o sol alto e sua barriga roncando de fome. Bete arrumou a mesa e a chamou.

Mais tarde, ao escurecer, Dona Senhora chegou com um grupo de pessoas. Todas sérias e contritas. Vinham rezar a ladainha. Formal nos gestos e palavras, a mulher apresentou-a aos fiéis, moradores da localidade, os homens de olhos baixos e chapéus apoiados na barriga e as mulheres de véu, os olhinhos acesos matando a curiosidade. Olharam cada detalhe de seu rosto e de suas roupas. Era excitante ver de perto a herdeira do famoso tesouro. Lalá, no entanto, estava cada vez mais desconfiada da existência da tal fortuna.

Na tarde do dia anterior, quando estava ao lado da cacimba, acabando de encher a lata de água e pensando no verso-chave do tesouro, por acaso pisou na borda e a areia se esboroou sobre a água. O pé mergulhou na água morna. Deu um gritinho de susto e prazer pelo suave toque da água. Um pouco mais forte e a cacimba, cavada na areia, percebeu, ficaria soterrada.

– Soterrada… murmurou pensativa, realmente a cacimba não é um lugar apropriado para se guardar um tesouro, se é que ele existe. A árvore pode ser cortada e a casa derrubada. Aconteceu quando os bandidos, que seriam a boiada, vieram atormentar vó Marica. A casa só não foi ao chão porque escurecia, os meliantes tinham muita pressa, e as árvores escaparam da derrubada por pura sorte quando os moradores, quem sabe mesmo alguns dos que ali estavam contritos, balbuciando rezas, cavacaram todo o sítio, alucinados, em busca do pretenso tesouro enterrado. Só o regaço santo, ou seja, de uma santa, salvaria o fruto da colheita de pepitas no garimpo… Trouxe a imagem da capela à lembrança e se perguntou desolada que regaço santo seus pais poderiam ter usado, se a imagem à sua frente não tinha colo, nem mesmo os braços estendidos pra frente para segurar ou amparar qualquer coisa? O que pode ser um regaço santo? Poderia ter outro significado? Tinha discutido exaustivamente o assunto com Raul e Bete, examinaram a imagem minuciosamente e se desiludiram. A imagem de uma princesa trazia um ramo numa das mãos e uma espada na outra, não tinha colo. E que outro significado a palavra regaço poderia ter senão o literal?

– Eu pensei, disse Raul, que eles poderiam estar se referindo a uma imagem oca, como as usadas pelos mineiros na época colonial, já que a santa é de madeira, mas se assim fosse, seu pai não a cimentaria no altar.

– E se não foi ele? desconfiou Bete.

Lalá tinha batido com os nós dos dedos na bela estátua, esculpida numa peça única de madeira nobre junto com a torre onde se apoiava, e não achara som a indicar que fosse oca. Soltou um suspiro, o que fez uma beata olhá-la com piedoso carinho. Ela suspirou e sorriu, entristecida. A santa de madeira e seu sorriso fixo a desesperavam.

Onde o pai teria escondido o tes…  olhou para o teto da capela e pediu: ô, paizinho, me ajuda, me prove que existe o tal tesouro e me faça achá-lo. Já que não pode encontrá-lo e usufruí-lo com mamãe, que pelo menos garanta meu futuro. Os pais não cuidam de garantir um bom futuro para seus filhos? Então? O senhor ajudou seus parentes, pense em me ajudar agora.

A tarde do domingo se fez macia, toda desenhada em tons claros e suaves, com uma espécie de leve neblina dourada a esfumar o perfil de árvores e animais distantes. Poucas aves cortavam o espaço. Um ou outro mugido, muitos pios, cacarejos e latidos distantes eram ouvidos. Garotos munidos de porretes, que chamavam gorumbumbas, usados para caçar preás, passaram correndo e se açulando com gritos para a caçada. Ela soubera que alguns meninos só contavam com aqueles bichinhos, que pareciam ratos sem rabo, para melhorar o jantar das famílias. Dava-lhe uma pena!

Laércia e Bete, sentadas na soleira da porta da frente da casa, em silêncio esperavam a noite baixar para se recolherem. Em cima da mesa da sala os lampiões preparados, abastecidos de querosene e a caixa de fósforos ao lado; na cozinha reinava a luz fumacenta das lamparinas. Toninha tinha ido pra casa mais cedo, nunca deixava que a escuridão a surpreendesse na estrada deserta. Uma certa nostalgia as dominava. E então, ao longe, um rolo de poeira quebrou a harmonia aquarelística da tarde. Elas olharam sem maior interesse a nuvem de poeira se aproximar.

– Esse está com pressa, observou Bete.

– Vai tirar o pai da forca, brincou Lalá.

A nuvem empoeirada chegava veloz e num movimento espetaculoso o cavaleiro puxou bruscamente a rédea, sustendo o galope desembestado, e o cavalo empinou em frente à cerca, diante das moças assustadas. Lalá gritou e se levantou, nervosa.

– Que isso, gente?! estranhou Bete.

Um pouco depois, quando a poeira se espalhou, devolvendo as cores da tarde, viram que o cavaleiro exibido era o jovem que amparara Lalá na queda da carroça. Mãos no peito, ela se curvou numa risada nervosa. Bete tinha passado um braço pelos seus ombros e apertou-a.

– Você é maluco? perguntou Bete, minha amiga quase morre de susto.

– Não, ele respondeu, mas acho que estou ficando, pois não paro um minuto de pensar numa certa senhorita que recebi em meus braços uns dias atrás.

Lalá sentiu que ficou vermelha, e se reprovou por esta atitude absurda numa moça ativa, moderna, desinibida e desembaraçada, que viajava apenas na companhia de amigos. Ele apeou num pulo, as botas levantando poeira, atou a rédea num mourão da cerca, abriu a cancela e postou-se ao lado delas. O cavalo bufava. O cão que o seguia deitou-se a seu lado, língua de fora, a arfar. Ela o achou mais belo com o rosto sorridente afogueado pela disparada.

– É muita doidice sua, ela falou. E se o cavalo cai pra trás ou lança o senhor sela a fora?

– Senhor, estranhou ele, cadê o senhor?  – Olhou para os lados, gaiato – Sou só Ribamar, seu criado. E estou acostumado a fazer gracinhas com meu cavalo, o Leão.

E estendeu-lhe a mão, de cujo pulso pendia a soiteira.

– E eu sou Laércia, que chamam de Lalá, e esta é minha amiga Elisabete, a Bete.

– Prazer imenso, ele disse, se curvando para lhe beijar a mão.- Assim tinha visto o galã fazer num filme e achara oportuno imitar. Era fã de cinema.- E como é, acharam o tesouro?

– Como sabe disso? estranhou ela.

– Aqui se sabe de tudo, mal acontece. É verdade que pretende morar aqui?

– Ainda não sei, tudo está ainda muito confuso. Não sei o que me pertence, o que é dos tios. Vamos ter de abrir inventário.

– Seu namorado não é advogado? Então?

– Não é meu namorado, é um amigo, vizinho lá onde eu moro e irmão aqui da Bete.

O sorriso dele se alargou, cerrou e levou a mão ao coração.

– Que bom ouvir isso, me tirou um peso do coração!

– Ué, peso por que? perguntou faceira.

– Porque eu quero namorar você.

Ela riu e sacudiu a cabeça.

– Devagar com a louça, moço, mal nos conhecemos.

– E isso é importante?

– Pra mim é. Vamos nos conhecer melhor. Essa é a segunda vez que nos falamos. Onde esteve a semana toda que não o vi?

– Na cidade, estudando. Fico lá semana inteira, cara enfiada nos livros, amanhã cedinho estou indo pra lá.

– Muito bom, está cursando o quê?

– Técnico em agronomia. Ano que vem me formo. Você vai ser minha madrinha.

Ela soltou uma risada gostosa, que ecoou na tarde.

– E se eu não quiser ser? perguntou com petulância brincalhona.

– E por que não haveria de querer? retrucou ele.

As duas voltaram a sentar-se no banco de madeira, sorrindo. Ele ficou de pé, a biqueira da bota apoiada na ponta do banco.

– Nossa, falou Bete se levantando logo em seguida, parece que os homens daqui são do tipo mandão.

– E isso é ruim, ele perguntou em troca, o homem não é o chefe da casa?

– Alto lá, interveio Lalá, isso mudou junto com o século, há mais de 20 anos. O povo daqui está desatualizado, ao que parece. Homem e mulher são iguais nos direitos e deveres. Muito em breve vamos conquistar o direito de votar, espere só!

– Não duvido, mas não acho bom. A mulher tem tomado atitudes que destroem a aura romântica que envolve sua figura. Mulher nasceu para ser flor, estrela…

– E enfrentar o fogão e o tanque.

– Ih, interrompeu Bete, pelo visto temos um cavaleiro da idade média por aqui. A mulher, meu amigo, tem sido impedida há anos de participar da vida pública com esses argumentos tolos de que é uma bonequinha mimosa, a rainha do lar. É mais uma forma do homem exercer seu domínio sobre elas.

– E pelo que vejo, espantou-se ele, estou diante de duas feministas?

– Não, você está diante de duas moças do seu tempo.

A conversa entre os três se prolongou, a noite foi escorregando sorrateiramente pelo telhado e quando deram de si estavam envolvidos pelas sombras. Lalá se levantou.

– Agora, se o cavalheiro nos der licença, vamos entrar, senão seremos devoradas pelos mosquitos.

– Eu queria muito ser um mosquito, suspirou ele, para pousar nessa pele macia.

– Cuidado, alertou ela, tenho ótima pontaria para matar mosquitos. Agora vá, que já é tarde.

Ele pegou-lhe a mão.

– Posso voltar no domingo que vem?

– Venha sim, respondeu, às vezes nos sentimos muito sozinhas, não conhecemos quase ninguém, é bom ter com quem conversar.

Jair só retornou na terça-feira. Na sexta tinha ido passar o fim de semana com a família na cidade. Sentia-se cansado e desiludido. Rodara por toda a propriedade e nada encontrara que lembrasse um tesouro. Laerte fizera um bom trabalho ao esconder suas pepitas. Até nas moitas e nos capões de mato remexera em busca de uma pista. Remexia também no fundo da memória para ver se encontrava pista em alguma conversa do garimpeiro, um indício, uma possibilidade que fosse. Ouvira, muitas vezes escondido atrás da porta, as conversas de Laerte com dona Xandoca e por isso podia informar muitas coisas sobre ele e suas atividades, o que tinha ajudado Láercia a se situar, mas nada com relação ao tesouro. Concluíra que ele não tocara no assunto com a velha, o que fora um erro, pois agora a filha, que também perdera a mãe, estava às cegas, uma rica muito pobre.

Laerte não contara com a morte repentina, na certa esperara encontrar sua mulher e filha e então desfrutar do tesouro. A vida prega peças.

Lalá pensara em lhe perguntar, mas ele foi logo avisando que de nada se lembrava, ninguém havia falado do tesouro em sua presença.

– Temos é que continuar a cuidar da casa, senão ela vai cair em nossas cabeças. Já consertamos o telhado do quarto de casal, não tem mais goteiras, podem dormir sossegadas que não serão acordadas por pingos de chuva caindo na testa. Vou agora preparar massa para tapar os buracos das paredes.

Atrás da cama de casal havia um tijolo fora de nível, com uma parte saindo da parede. Lalá foi empurrá-lo para nivelar a parede, ele se soltou ela gritou de surpresa ao ver um amarrado de notas de dinheiro empoeiradas impedindo que o tijolo voltasse a seu lugar.

– Gente, corre aqui. Depressa!

Jair olhou a maçaroca de dinheiro atada com um barbante e concluiu:

– Deve ser parte do dinheiro que Laerte deixou com a mãe para sustentar a família na ausência dele. Como fez com dona Xandoca. Olha, se eu fosse vocês não contava a ninguém, especialmente aos parentes, sobre essa descoberta. Senão são capazes de botar abaixo as paredes da casa.

Bete tinha os olhos arregalados. Lalá pegou o maço de dinheiro que Jair lhe devolveu.

– É, disse Bete, com sua parentada não se brinca. Só dá gente invejosa e gananciosa, de olhos maiores que a boca.

Jair reforçou.

– Esse dinheiro é fruto do trabalho de seu pai e uma das causas da sua morte. Não fale disso com ninguém, nem com a prima que vem toda tarde. Falar nisso, cadê ela? Você não acha que ela pergunta demais, é muito metida? Ela joga verde pra colher maduro. Ela está especulando, foi mandada pra nos espionar, pra ver se encontramos o tesouro e então a família dar o bote. Olho vivo!

– É cedo ainda pra ela chegar e acho ela muito boba para ser espiã. E esse dinheiro veio em muito boa hora.

– E deve haver mais por aí, lembrou Bete, ainda bem que seus tios não cuidaram da casa. – Correu os olhos pelas paredes.- Vamos ficar atentos. E Jair tem razão sim, essa menina se mete em tudo, dá palpites, faz perguntas, sei não, deve estar nos espionando, se faz de boba pra não despertar suspeitas. A mãe é uma cobra, invejosa, gananciosa, é capaz de tudo por dinheiro. Viu como os outros detestam ela? Raça ruim. E olhe, não conte nem ao bonitão dos domingos, pelo amor de Deus, a gente não sabe que tipo de gente ele é.

– Imagine. Mal conheço o sujeito. O importante é que esse dinheiro nos garante mais algum tempo por aqui. O problema é se a gente não encontrar o tesouro para saldar a dívida com o agiota. Quanto mais tempo passa mais juros a pagar. É o que mais me preocupa.

– Laerte vai ajudar, disse Jair, espere só.

– Quem dera, resmungou Lalá.

Nos fundos da casa, próximo da parede da cozinha, havia uma touceira de bananeiras. Rente à parede da cozinha, desde que batera os olhos em cima que Lalá tinha decidido tirá-la dali.

– Tenho medo que junte cobra, esclareceu. Dizem que por aqui tem até jararaca. Vamos replantar em outro lugar, longe da casa, lá perto onde Jair fez a roça de aipim.

– Vambora, estimulou Jair e correu para buscar a enxada, comigo é assim, plantar pra colher. Essa bananeira pode botar filho por baixo da casa e botar a casa abaixo. Vou dividir em duas e plantar depois da rocinha.

– Será que ainda dá bananas? perguntou Bete. Não tem nenhum cacho…Pra que conservar uma planta que não dá fruto? Corta logo pela raiz.

– Normalmente no meio das bananeiras, nessas palhas aí, as galinhas botam os ovos, explicou Jair. E ela vai dar fruto sim, é que está muito apertada aí.

– Esquece as galinhas, Jair, mete a enxada. Vamos levar lá pra perto da cerca. Só em pensar nas cobras estremeço.

– Primeiro deixa eu tirar as palhas ali do meio, pra facilitar.

Com a enxada inclinada foi puxando para o terreiro as folhas secas acumuladas, algumas já podres ou apodrecendo. No meio delas uma lata velha, preta de ferrugem, voou e quicou no chão. Lalá, curiosa, olhou e viu que a tampa havia se soltado e mais um maço de notas aparecia. Seus olhos se arregalaram.

– Meu Deus, papai agiu mais depressa do que eu esperava. Mais dinheiro, gente! Olhou para o alto e disse: um beijo, paizinho, obrigado.

– A velha escondeu o dinheiro em vários lugares, afirmou Jair. Por isso os bandidos reclamaram de ter achado tão pouco. Laerte não era miserável, deve ter deixado muito dinheiro com a velha, pois não sabia quando voltaria da viagem. Deve haver mais notas por aí, vamos ficar de olho.

Lalá se abaixou e pegou as notas.

– Guarda isso logo, aconselhou Bete, que daqui a pouco sua priminha taí, vai dar com a língua nos dentes quando chegar em casa e amanhã vamos ter o velho Jofre e a matraca da mulher dele em nossa porta reclamando sua parte.

– Aqui pra ele, disse Lalá. Papai deixou o dinheiro pra vó Marica, não para os filhos dela.

Láercia gostava, no final da tarde, sozinha ou em companhia de Bete ou Jair, apoiada na cancela, apreciar a paisagem descortinada em torno da estrada de chão. Passavam meninos carregando alçapões e porretes, bois e boiadas, vacas madrinhas atreladas a bois que iam ser abatidos para consumo, cabritos espevitados, cachorros vadios, de olhar espantado e desconfiado, carroças com talhas de água para beber e cambonas entulhadas de canas cortadas, cavalos em disparada ou arriados com o peso dos jacás carregados de mil coisas, cachos de banana, espigas de milho, ramas de mandioca, galinhas amarradas pelas pernas, gaiolas de passarinho, lenha cortada, tudo cabia naqueles cestos feitos com cipós duros. Pelos ares bandos de aves em formação, patos e gansos selvagens, garças e garcinhas, anus e carões, marrecas e quero-queros, periquitos verdes e maritacas, uma enorme variedade de seres aéreos. Do meio do mato vinham os gritos agoniados das seriemas, os golpes de martelo das arapongas ou trinados maviosos de coleiros, sabiás, bicos de lacre, sanhaços, gaturamos, a multidão de afinados pequenos cantores.

Ela sentia uma paz enorme e satisfação por ter feito a viagem, apesar do cansaço e de todos os problemas. Mesmo que não achasse o tesouro propalado, que tivesse de voltar e trabalhar duro para pagar o empréstimo ao agiota teria valido a pena. Visitar a terra de seu pai, ver o retrato dele, conhecer as razões por que ele nunca fora a seu encontro era o bastante. E aquela paisagem gostosa, tranqüila, repousante… se soubesse pintar passaria os dias a retratar a casa de paredes caiadas e janelas azuis onde o pai nascera, a capelinha, as muitas árvores, a estrada por onde ele correra na infância e em alguns momentos chegava a distinguir seu vulto amado caminhando devagar, seguido por um vira-lata, assoviando, imitando os passarinhos que não paravam de saltitar de um galho a outro. Seu coração se expandia de felicidade.

Rapazes da região, enfatiotados e com ares de conquistadores, costumavam desfilar em frente à cancela, lançando olhares sedutores. Um deles passou tão próximo que deu para elas sentirem o forte perfume que usava. Elas sorriam de lado e olhavam para a outra banda da estrada, mostrando desinteresse. Moçoilas vinham em bandos, segredando elas imaginavam que comentários a seu respeito, acompanhados de risadinhas e tapinhas.

Num desses dias quem apareceu foi o tal do Cabelo, o assassino. Ele a encarou com um sorriso cruel a lhe fuxicar as muitas rugas do rosto. Sentiu o ódio brotar com força, mas se conteve, deu-lhe uma banana. Ele manteve o olhar desafiador sobre ela e o sorriso de escárnio. A raiva a tomou de vez, abaixou-se, pegou um pedaço de lama endurecido e atirou na direção dele. Não acertou, lamentou, ele estava do outro lado da estrada e ela não tinha forças para jogar mais longe. Ele riu mais, debochado, e seguiu adiante.

– Um dia você ainda me paga, seu cachorro, assassino, desgraçado, berrou ela.

Seus gritos atraíram a amiga e Jair. Ela continuou a gritar todo o repertório de termos insultantes que conhecia, mas o homem apenas a encarou, sério, e seguiu em frente. Ao ver chegar os outros dois, apertou o passo. Desapareceu na curva da estrada.

– Estava satisfeita da minha vida, aqui, olhando o movimento, apreciando os pássaros cantando e me aparece esse demônio! Que ódio, meu Deus! Ainda vou fazer esse miserável pagar direitinho pelo que fez. Desgraçado, ordinário, infeliz!

– A justiça já o condenou, Lalá, ele cumpriu pena, agora vaga sem rumo, sem amigos, dizem que tem pepitas de ouro guardadas, mas nem isso faz as pessoas procurarem por ele. Falam que qualquer dia vai esticar as canelas, soube que tá fraco dos pulmões, todo bichado, consolou Jair.

– É pouco, rosnou ela, devia ser cortado em pedacinhos, com uma faca bem cega, para pagar todo o mal que fez. Ao matar meu pai ele destruiu a minha família e antes já havia espancado minha avó, uma pobre velha, e meus tios. Não, nenhum castigo seria demais para esse infeliz.

– É isso que ele é, Lalá, infeliz. Agora vamos entrar, já está escurecendo, lembrou Bete.

O infeliz gostava de passar pela estrada, cabeça levantada em desafio, talvez esperando uma provocação. Numa das vezes veio com mais dois homens, com quem ficou parado em frente à cancela, do outro lado da estrada, conversando, mas sem tirar os olhos da casa. Lalá bateu a janela, com força.

Enquanto caminhava para casa, abraçada pela amiga, Lalá tremia de raiva e pensava que poderia, em vez de Bete, ser o Ribamar a abraçá-la. Ódio se combate com amor, se dizia para justificar a lembrança. Quando ficava na cancela vendo a noite chegar aos poucos, esperava que, entre os que passavam pela estrada, estivesse o belo e fogoso cavaleiro dos domingos. No entanto, para sua decepção, fora o assassino quem lhe havia aparecido. Amor e ódio juntos, sempre.

– Ah, se eu fosse homem, resmungou, pegava um revólver, garrucha, ou mesmo uma faca, qualquer arma, partia pra cima do canalha e sem remorsos liquidava o delinquente.

No domingo seguinte, falou a Ribamar da irritação que lhe causava a visão de Cabelo.

– Deixe pra lá, disse ele, conciliador. É um homem condenado, pode morrer de uma hora para outra. Não deixe que ele estrague sua vida.

– Como você sabe que ele está pra morrer?

– Por duas razões. A primeira é que nesse mundinho da roça todo mundo sabe de tudo, e segunda é que meu pai é amigo desse sujeito. Também não gosto dele, sinto que é falso e malvado, mas…

Bete apareceu com uma bandeja de bolinhos de arroz.

– Aceita um?

– Claro, eu adoro bolinho de arroz.

E a conversa se generalizou. Ficaram conversando até que a estrada começou a ser apagada pela noite.

– É hora de você ir, disse Lalá, penalizada.

– Tenho mesmo que ir? Não posso entrar, ficar até mais tarde?

– Como você disse, o mundinho da roça sabe de tudo. E eu acrescento: e o que não sabe, inventa. Se entrar, demorar na conversa e sair já com a noite fechada, as pessoas são capazes de dizer que dormiu comigo. E não quero saber desse tipo de comentário. Já basta o que falam injustamente do meu pai e do famoso tesouro que não aparece.

Bem que gostaria que ele ficasse, apreciava o tom de sua voz, o modo como ele mexia a boca, o sorriso cativante, os olhos que pareciam despi-la, a conversa, a inteligência de suas observações, era um homem que lhe agradava em tudo.

Queria que percebesse que seu interesse era grande e perguntava-lhe sobre seu dia a dia, sobre os estudos, sobre as perspectivas de carreira e ouvia com atenção. Ele vivia numa pensão de estudantes na cidade para poder estudar, os meios de transporte eram poucos e mal conservados, assim como as estradas. Gostava de imaginar que se o pai a tivesse achado quando era mocinha, teria feito tudo para estudar, queria se formar, ser professora, gostava muito de ler, chegara a prestar exame de admissão para o ginásio, mas a mãe adoecera e aí seus sonhos viraram pó. Tinha certeza que o pai a estimularia, que seria capaz de ir morar na cidade para que pudesse estudar. Podia ser professora ou enfermeira. Ah, vida madrasta.

Jair chegava sempre na segunda-feira antes do almoço, servido às onze da manhã. Era muito cedo, mas as moças tinham resolvido seguir os costumes da terra para não causar mais estranheza. Sabiam por Toninha dos comentários maliciosos do povo ao ver duas moças vivendo sozinhas, sem a companhia de um homem.

– Podem ser assaltadas, era o mínimo que diziam, fingindo preocupação. Podem ser roubadas e atacadas por algum doido ou bêbado. Até mesmo por bandidos. Não se lembram do caso da avó da Lalá?

– Eta povinho falador, exclamava Lalá. Diz pra eles, prima, que somos moças direitas e só viajamos pra cá por conta de conhecer a terra de meu pai. Não temos namorado, nem amantes, nem amigos e não recebemos ninguém em casa.

Toninha sorria e alertava que ninguém se convencia de tudo aquilo.

– A gente fala, explica, mas esse povo… tem gente que acha que vocês são mulheres perdidas, aventureiras. A língua do povo daqui não para.

– Mas se Lalá achar o tesouro, se é que ele existe, vai virar santa, maravilhosa, conheço bem esses canalhas, observou Jair.

Jair encontrava a mesa posta. Deixava o que houvesse trazido na cozinha e lavava as mãos, hábito que as moças lhe haviam ensinado e imposto. Era bom garfo. Da vez em que estavam na varanda, no que chamavam de momento de digestão, Lalá se lembrou de perguntar:

– Jair, foi papai quem cimentou a imagem da santa no altar?

– Não, respondeu ele com firmeza. Eu tava aqui no dia da inauguração e me lembro de ter visto seu pai mudar a imagem de posição a pedido de sua avó, que queria a santa olhando para a casa dela. A imagem tava solta e como não é muito pesada, podia ser mexida com facilidade. Alguém depois prendeu ela com cimento. Vou procurar saber quem foi com o Jofre.

– É bom, porque o tio nunca mais apareceu por aqui. Acho que a tia não deixa. Nem ele nem os outros tios e tias, só a Toninha. Ô gente encrencada.

– Se preocupe não, seu pai também reclamava disso. Eles só apareciam quando queriam dinheiro ou algum favor, como pagar imposto na cidade. E era seu pai quem pagava.

– E você sabe, Jair, que esse povo novidadeiro está inventando um monte de coisas sobre nós duas? Toninha me contou.

– Se eu fosse você não dava trela pressa menina, ela é um cabrunco de inventeira.

Jofre afirmou de mau humor que não sabia de nada, não vira nada, não queria saber de nada, Laerte nada lhe dissera.

– Ele só falava essas coisas com mamãe, lembrou, emburrado. Nós, seus irmãos, a gente não existia pra ele. Um ingrato, posudo, metido a bom de sela. Mas Deus não dorme, e por isso levou ele tão cedo. Bem feito. E deixou nós na miséria de sempre, depois de ter catado tanto ouro.

Restava conversar com dona Senhora, que há anos cuidava da capela.

– Que mal lhe pergunte, respondeu ela, pra que o senhor quer saber? Pra mexer no altar tem que ter autorização do padre.

– Nada disso, respondeu ele, melífluo, não vamos mudar nada, é a filha de Laerte quem quer saber de tudo sobre o pai, me enche de perguntas.

A mulher o olhou de lado, sem acreditar muito na resposta.

– Quem prendeu a imagem no altar foi meu finado esposo, o Nico Soares. Quando dava vento forte e as janelas estavam abertas, ela balangava e corria o risco de cair no chão. Mas olhe, vou repetir, não se pode mexer em nada na capela sem antes falar com o padre, viu? E o padre só concorda com o que eu digo.

A duplicata da chave da porta da capela fora entregue por dona Senhora a Lalá e no dia seguinte, depois do almoço, foram lá. Moscas voejavam, tontas, fazendo a claridade que se infiltrava pelas janelas estreitas e pequenos buracos no telhado se espalhar pela nave em finas colunas de poeira dourada.

– Essa capela me traz uma paz tão grande, murmurou Laércia, é como se papai estivesse a meu lado, sorrindo.

Um beija-flor estouvado entrou por engano na capela e ficou alguns minutos voando de um lado a outro, tonto, e antes de sair, num vôo rasante sua asa roçou o rosto dela.

– Papai me beijou, sussurrou ela, olhos marejados, levando a mão aonde o pássaro havia tocado.

– Ui, disse Bete, estreitando os ombros, que coisa! Estou toda arrepiada. Vamos rezar pela alma dele, gente?

Jair acompanhou-as na prece, ajoelhando junto delas.  Dona Senhora, que tinha estado inquieta desde que Jair lhe indagara sobre a santa, surgiu inesperadamente na porta da capelinha. Eles não a viram e para não interromper a reza, ela se afastou para a sombra da árvore, sem tirar os olhos de cima deles.

– Desculpe incomodar, disse ela quando eles se levantaram, mas fiquei preocupada. Nem dormi direito esta noite. Vocês pretendem mexer no altar ou na capela? É que o padre me avisou que até pra consertar alguma coisa é preciso avisar a ele. Mesmo que seja para tapar uma goteira.

– No momento não, disse Lalá, calma. Tenho pensado em aumentar um pouco o altar, talvez aumentar o pedestal da santa, não sei ainda.

– Eu sei que a capela foi construída pelo seu pai, eu era mocinha naquele tempo, lembro bem, mas se forem reformar, por favor, me avisem a tempo para que eu mande recado pro padre. Todo ano, na festa de Santa Bárbara ele vem aqui. Eu até ia falar com a senhorita porque ele sempre pede uma espórtula e tem falado com insistência na cobrança de dízimo, mas o povo daqui é mão de onça, tá difícil conseguir que dêem algum dinheiro. Só na missa da festa da padroeira é que a gente consegue recolher um pouco. Pingam moedas na sacola. Nem todo mundo dá, nunca vi uma coisa dessas.

– Pode deixar, dona Senhora, a gente vai resolver tudo isso. Quando chegar perto me avise, por gentileza. E quanto a obras na capela, fique tranqüila, se eu quiser fazer não vai ser agora, o dinheiro está curto, gastei muito com a viagem. E não deixarei de lhe dar conhecimento.

– Imagino o seu gasto, disse ela, os lábios finos se abrindo num meio sorriso, e admiro muito sua coragem de viajar tantos quilômetros, só com sua amiga, para reverenciar a memória de seu pai. Que Deus a abençoe.

– Vocês duas não têm medo de dormir aqui sozinhas? perguntou a acompanhante da zeladora, uma mulher magra, toda vestida de preto, com voz de medo. Por esses matos, de noite, lobisomens e boitatás passeiam e às vezes perseguem as pessoas. Ainda na semana passada…

– Chega, Matilde, interrompeu dona Senhora, as moças já devem ter muito com que se preocupar.

Mais um pouco de conversa e a mulher se afastou, tisnando com sua roupa escura a claridade da manhã refletida nas cercas e pastos.

– E aí? perguntou Jair depois que ela se afastou, vamos fazer o que?

– Minha idéia é livrar a imagem de todo o cimento e olhar por baixo dela. Talvez assim a gente encontre o regaço santo. E, quem sabe, o tesouro de meus pais. Mas temos de fazer isso com cuidado, sem despertar suspeitas. Como tenho a chave da porta, podemos entrar a qualquer hora, mas tem de ser numa hora em que o movimento na estrada seja pouco. O povo daqui é novidadeiro e vive de olho em nós.

– De noite é praticamente impossível, lembrou Bete, será preciso acender um lampião ou velas e quem passar pela estrada vai ver o movimento e contar para a zeladora.

– Vou arranjar um vergalhão, disse Jair, limar uma das pontas até ficar bem amolada para raspar o cimento.

– Vai demorar muito tempo, lembrou Bete, e na certa, como a velha está desconfiada que vamos mexer no altar, ela vai perceber a raspagem.

– Se eu conseguir fazer a ponta do vergalhão nessa semana, na segunda-feira depois do almoço começo a raspar e até o sábado, quando a velha vem rezar a ladainha, já teremos livrado a imagem e verificado se é recheada.

Desde a conversa na capela com dona Senhora, havia sempre um menino passando nas imediações, ora com um alçapão para pegar papa-capim, ora com um bodoque, ora com a gorumbumba de caçar preá. Ficavam andando pela estrada, às vezes atravessavam a cerca como se estivessem atrás de algum animal, açulando o cachorro vira-lata. Eles desconfiavam que vinham espionar a mando de dona Senhora. Não bastava Toninha?

Toda semana Bete aproveitava o tempo ocioso e escrevia para o irmão e Jair ia levar na agência do Correio da localidade, casa de duas irmãs gordas e com buços marcantes que vendiam selos. Aproveitava para pegar a correspondência para elas. Lalá, que percebera o ciúme de Raul e não querendo alimentar ilusões, já que nada sentia por ele além de amizade, nada escrevia. Não tinha mais parentes, não tinha a quem prestar contas a não ser ao agiota. A seu pedido Bete escreveu contando da intenção de Lalá de mexer na imagem da santa, da reação de Jofre e de dona Senhora à pergunta sobre quem a prendera no altar com cimento do que estavam pensando em fazer. Como que sem interesse em magoá-lo, Bete também narrou o interesse da amiga pelo brioso cavaleiro e suas visitas dominicais. Era preciso que o irmão se desiludisse.

No sábado, como sempre, participaram da ladainha e Laércia observou que a primeira atitude de dona Senhora foi, antes de começar a cantoria, disfarçadamente, como se tirasse poeira com a mão, rodear a estátua, olhando com atenção o pedestal. Só então puxou a reza.

Na saída, ao se despedir, Lalá comentou, irônica.

– Como pode ver, dona Senhora, a santa continua intocada, não mexemos em nada.

– Eu sei, imagine, eu só estava limpando a poeira.

– Não precisa se preocupar com isso, duas vezes por semana Bete ou eu espanamos ou passamos um pano molhado em toda a capela. Como também pode ver, os bancos estão sempre limpos e o altar não tem um grãozinho de poeira. Descanse, dona Senhora, vou cuidar muito bem do que meu pai deixou.

– Não faz mais que sua obrigação de filha, respondeu já irritada.

E saiu para a estrada escura pisando duro.

– Tá danado, comentou Bete. Essa aí se adonou da capela.

Bete já se cansara da aventura para descobrir o pai da Lalá. Fizeram uma viagem longa, descobriram o que havia acontecido e que o propalado tesouro era provavelmente uma lenda, reformaram a velha casa para ter onde morar e lutavam para investigar a última possibilidade de encontrar o tesouro – tirar a santa do altar e verificar o que havia dentro dela. Já era hora de encerrar a aventura e voltar para casa.

Havia a velha e chata zeladora, os irmãos do falecido que queriam parte do tesouro, se ele existisse, a prima faladeira e muitas vezes, nas noites sem lua, na escuridão de seu quarto, onde literalmente não se enxergava nada a um palmo do nariz, pensava que se o tesouro fosse encontrado ia ser difícil sair dali ileso e com todo ele, principalmente na ausência de Raul. Bastava uma desconfiança e todo aquele povo invadiria a propriedade pondo em risco a vida delas.

Bete se aborrecia com a timidez do irmão. Há anos apaixonado por Lalá, nunca tinha tido coragem de se declarar, nem ao menos de admitir que gostava dela. E agora, com a presença do belo e cativante cavaleiro, tinha um forte rival pela frente, pois o moço também se apaixonara por Lalá. Ou parecia. No domingo anterior, com seu sorriso sedutor, ele lhe dissera:

– Você fica tão sozinha, Bete, acho que da próxima vez vou trazer um amigo meu lá da escola para lhe fazer companhia.

Ela respondera seca e fria:

– Não estou interessada. Você não pode saber, mas sou quase noiva na minha cidade e só espero resolver alguns probleminhas para marcar a data do casamento. Gosto dele e só me afastei pela amizade que eu tenho a Lalá. Não estou interessada em companhias de estranhos.

Lalá sorrira sem jeito ao ver a decepção estampada no rosto do Ribamar com a mentira da amiga. Bete não deixara ninguém, exigente como ela, podia também ser considerada solteirona.

Bete deixou Lalá entrar em casa e caminhou ao longo da cerca, o olhar perdido no negrume da noite. Quando voltarei pra casa? se perguntou. Não estou suportando ficar longe dos meus. E sentiu um bolo se formar em sua garganta.

Ribamar sabia da existência de Jair, sempre citado nas conversas com as moças, mas não se lembrava de tê-lo visto na carroça nem tivera ainda a oportunidade de encontrá-lo. O mesmo acontecia com Jair.

– Não lembro desse sujeito. Dia desses vou voltar no domingo só pra conhecer o tal, prometeu Jair, que sentia gastura no peito toda vez que alguém falava no cavaleiro, não sabia dizer porque. Talvez porque tivesse se tornado amigo de Raul.

– Você o conheceu no dia em que ele me livrou da queda.

– Mas não gravei as fuças dele, brincou Jair. Nem me interessou. Agora, como parece que ele tá demonstrando um interesse grande pelas pessoas da casa, especialmente pela filha de um amigo meu, que tá ausente, minha obrigação é olhar o bicho bem nos olhos e saber qual é a sua intenção.

– Eu, hein! Preciso de ama seca não, exclamou Laércia, fingindo-se amuada.

– Vamos ter um fim de semana movimentado, comentou Bete. Meu irmão, como sempre, está muito preocupado com a situação aqui e avisou que chega a qualquer momento.

– Muito bom,comemorou Jair. Fico assim mais tranqüilo, gosto muito do Raul, homem sério, garanto que Laerte também apreciaria a companhia dele. Ele marcou dia?

– Não, está dependendo de resolver uns assuntos pra mamãe e de assinar contrato com um cliente.

– Muito boa essa notícia, nada como ter caçador por perto quando um gavião começa a rondar o terreiro. Não acha, Lalá?

Ribamar franzira a testa ao saber do interesse de Jair e Raul em conhecê-lo.

– O interesse de Jair é por conta do seu pai, comentou, mas e o de Raul? Acho que ele gosta de você.

– Que bobagem, agastou-se ela, somos amigos, quase irmãos.

– Não acredito em amizade entre homem e mulher, ainda mais uma mulher linda e jovem como você e um sujeito besta como ele.

– Ih, para com isso.

– Tá bom. Você já viu um ninho de anus ali na beira da estrada? Já viu um ninho de anus? Pertinho daqui, vamos lá ver? Os anus vivem em bando e fazem ninho juntos, como uma casa de muitos andares. Todas as fêmeas botam seus ovos ali e chocam juntas. Quer ir lá ver?

– Vamos, Bete? convidou ela. Vem com a gente.

– Não, deixei a chaleira no fogo e deve estar quase fervendo. Vou coar o café pra gente tomar quando vocês voltarem. Vão, mas não demorem, está bem?

No caminho, braços balançando, acompanhando o ritmo da brisa da tarde, ele se animou e pegou na mão dela. Ela sentiu um calor gostoso subir pelo braço e aquecer seu peito. Olhou para ele e sorriu, meio encabulada. Pareço uma menininha, pensou, irritada com seu comportamento. Que mal tem dar a mão a um moço?

O ninho não ficava muito longe da cerca. Ele levantou o arame para ela passar. Ao vê-los, um bando de pequenos pássaros negros, de compridas caudas, levantou vôo. Alguns pousaram em galhos mais altos, o restante em outras árvores, atentos aos movimentos deles. O ninho descia entre os galhos da aroeira, em camadas. O rapaz fez menção de pegar alguns ovos da camada superior para lhe mostrar, mas ela gritou:

– Não, não mexa.

E olhava, sorrindo, a exótica maternidade.

-Ah, Ribamar, adorei! Você é um amigo maravilhoso!

Ele se pôs na frente dela e colocou as mãos em seus ombros.

– Não, Lalá, eu não sou seu amigo e nunca serei. Gosto de você, gosto muito, muito! Eu estou apaixonado por você!

E rápido puxou-a para junto de si enquanto beijava sua boca com sofreguidão. Surpresa hesitou um instante antes de retribuir tanto ardor. Os lábios dele a transportaram para uma outra dimensão onde o amor prevalecia. Sentia-se no céu.

A brisa balançava levemente as folhas das árvores, os anus pulavam de um galho para outro, ansiosos, e o casal se entregava à paixão. As experientes e esfomeadas mãos dele percorriam o arrepiado corpo dela com sabedoria e carinho, mas em determinado ponto, ela empurrou-o de leve.

– Que foi?

A voz dele era de legítima surpresa.

– Nada, disse ela, se contorcendo para se livrar do abraço. Há certas coisas que uma moça não deve permitir antes do casamento.

– Moça? – ele se mostrava surpreso – Você ainda é cabaço?

Ela não gostou do que ouviu, forcejou e conseguiu se afastar um pouco mais.

– Ai, que expressão, sou moça sim. Me solta.

Ele deixou cair os braços, desanimado.

– Poxa, uma moça na sua idade, criada em cidade grande, instruída, que viaja sozinha…  eu não entendo. Tem alguma coisa errada aí.

– E daí? Isso quer dizer o que, que tenho que ser desfrutável? E isso é modo de falar com uma moça? Não sou o que você está pensando.

Ela ajeitou a roupa amassada e deixou depressa o meio das árvores onde entrara para ver o ninho. Estava nervosa e constrangida. E com medo. Sabia de casos. Andou rapidamente pelo caminho de areia, atravessou a cerca e o esperou na estrada.

– Eu estava pensando no amor, na felicidade, disse ele ao alcançá-la. Você não acredita no amor?

– Não dessa maneira grosseira, carnal. Gosto muito de ser respeitada.

– Pois é… e eu gosto de ser amado, vamos voltar? disse ele de cara amarrada, está esfriando. Acabou a graça do passeio.

E ela apertou os braços cruzados sobre o peito com as mãos trêmulas.

– Vamos. Pelo jeito você não pensava em dar um passeio quando me convidou. Só que chamou a pessoa errada. Sou moça de família.

Ele abriu a boca, como se fosse falar alguma coisa e desistiu. Caminharam devagar, lado a lado, ambos emburrados. Ele ia dizer besteira, pensou ela, ainda bem que se calou.

– Olha, Ribamar, também já tenho idade suficiente para entender a sua frustração. Lamento não poder fazer o que você quer… e não vou ficar nem um pouco chateada se não aparecer mais lá em casa, vou entender. Também me enganei com você, pensei que era um cavalheiro, não só um cavaleiro. Com seu gesto de me amparar na estrada, de nos visitar aos domingos só para conversar, educado e respeitoso, acabei lhe vestindo uma capa do cavaleiro andante que não lhe serve. Portanto, não fique chateado, a culpa não foi só sua.

Raul chegou no meio da semana e encontrou Lalá ensimesmada, o olhar perdido.A decepção que sentira com a desastrada investida do cavaleiro encantado a desnorteara e entristecera. Investira numa possibilidade de romance que culminaria em casamento com final feliz! Ela se vira morando ali com ele, a casa toda reformada, ele trabalhando na lavoura, aplicando os conhecimentos de agronomia, ela criando os filhos, amando muito, compensando com a felicidade conjugal todo o sofrimento que experimentara até então. Chegara mesmo a imaginar que Ribamar era o tesouro escondido. No entanto, ele se revelara um conquistador barato, interessado apenas em tirar proveito da situação. Achou que ela era uma qualquer. Nem tivera a hombridade de admitir e se desculpar, de lhe prometer amor de verdade, se despedira com frieza, sem encará-la, e sequer falara com Bete que os esperava na soleira da porta. Fora um choque. Esses homens, concluiu, são todos iguais. Ainda se lembrava das palavras de despedida do cavaleiro cretino antes de chegarem à cancela:

– Pensa bem, Lalá, que o tempo está passando e daqui mais um pouco e ninguém vai querer saber de você.

Ficara tão indignada que se tivesse alguma coisa nas mãos atiraria nele. Nada contara a Bete, se envergonhava por ele. Ela também ia ficar decepcionada. Só dissera que não o veriam mais. Bete entendeu.

Raul, sem noção do que teria lhe acontecido, já que nem com a amiga Bete comentara o incidente, tentava conversar, mas ela se mantinha retraída. Ele nunca a vira assim. Ela o olhava com estranheza, ele seria a opção para esquecer o cavaleiro abusado, sabia que há muito a amava, mas nada sentia por ele a não ser uma grande amizade, como a que a unia a Bete, nada mais que isso. Como poderia se casar com o homem que considerava como irmão?

O toque dos lábios, das mãos e do corpo de Ribamar a excitaram, ela correspondera, o que sabia que jamais aconteceria com Raul. Ficou pensativa. Talvez tivesse de aceitar essa idéia. Em várias ocasiões Jair sugerira que seu pai aprovaria o romance. Tapou o rosto com as mãos.

O amigo a encontrou olhando a estrada da janela, sem nada parecer estar vendo.

– Olha, disse ele, se não sou bem vindo, dou meia volta e manhã embarco pra casa.

Ela se assustou e se recompôs.

– Ah, Raul, não faz isso, pelo amor de Deus, esperamos tanto pela sua volta!

– É o que é, então, que a deixa assim?

– Bobagem minha, coisas de moça. Faniquito. Não ligue.

E sorriu, contrafeita.

– Não acredito, você nunca foi disso. Chilique não combina com você.

Ela sorriu, e abaixou os olhos.

– É que só dava chilique dentro de casa, longe de vocês. Aqui não tenho como esconder. Me desculpe, vou melhorar.

– Foi o namorado?

Ela franziu a testa, desgostosa:

– Eu não tenho namorado, Raul, nunca tive, você sabe disso.

– E o tal do Ribamar?

Ela hesitou um pouco ao responder:

– Um caipira bobo metido a esperto. Nem considerei a possibilidade de namoro. Não é o tipo do homem que quero para marido, só quer se divertir. E não namoraria alguém que não fosse para casar.Detesto quem conta muita vantagem, e se diz aventureiro, abusado, que só gosta de se aproveitar das moças e no fundo é um desastrado.

– Ele tentou abusar de você? perguntou ele, o rosto já vermelho de raiva.

Ela se assustou, falara demais:

– Tá doido, Raul?  E eu ia dar a ele essa oportunidade? Eu hein! Tirei isso da prosa dele, das bobagens que fala, pura garganta. Além de tudo é boquirroto, conta o que fez e o que não fez, especialmente de seus romances. Um chato. Mas esquece isso, no domingo dei-lhe um chega pra lá e tão cedo aqui ele não me aparece.

O pior, descobriu Lalá, é que estou sentindo o que estou dizendo. Aquela cara linda não deixava perceber como ele é enjoado, bobão. Ai, agora também estou exagerando, ele é um pedaço de mau caminho e deve ter posto muita moça a perder. Não podia ter sido diferente? Ele seria meu tesouro.

– É, Bete me contou que ele saiu todo emburrado, sem se despedir de ninguém.

– Pra você ver o tipo de gente que ele é. Roceiro e mal educado. E falastrão.

Ela melhorou de humor no decorrer do dia e o almoço, que contou com a alegria do Jair, foi relaxante. De vez em quando Raul a olhava, preocupado. Ele desconfiava que havia acontecido entre ela e o capiau mais do que ela lhe contara, mas como imaginara que rechaçara com firmeza a investida do patife, preferiu aguardar os acontecimentos. Mas vou ficar prevenido, pensou, a qualquer momento vou bater de frente com aquele sujeito nojento. E tiraremos nossas diferenças.

Ele viera disposto a se demorar uns quinze dias, mas depois da desconfiança de que algo de grave acontecera entre ela e o capiau decidira ficar o tempo que fosse necessário. Para descobrir o tesouro, pelo menos.

Lalá terminara de lavar a louça e sem nada de urgente a fazer, sentou-se no banco sob a árvore atrás da capela. Lá estava Raul, com fina vareta a escavar a parede encardida. Sorriu quando ela se aproximou:

– Olhe só, Lalá, dei uma raspada em cada parede e descobri que não é feita de tijolo e sim de barro socado.

– Eu sei, disse ela, por aqui a maioria das casas tem paredes assim.

Eles haviam conversado durante o almoço sobre a possibilidade de arrancar a imagem do altar sem que os outros percebessem. Raul fora incisivo:

– Porque simplesmente não arrancamos a santa do pedestal e a examinamos? A imagem era de seu pai, não era? Então?

– Chegamos a pensar nisso, concordou Lalá, mas concluímos que todos iam querer ver a abertura da imagem e se ali estiver o tesouro, meus tios vão cair em cima, querendo uma parte e o próprio povo do lugar, que na época chegou a esburacar quase a propriedade toda, não vai nos deixar sair com o tesouro. Achamos até que correríamos risco de vida.

– Pode ser. O tesouro era de seu pai, não era? Então você pode fazer o que quiser com ele, ora, disse Bete, que se aproximara.

– Sei não, tenho medo desse povo ganancioso.

Raul apoiou a mão no queixo e concordou. Os parentes esganados iam querer parte do tesouro, se é que não tomariam tudo. Desse povo finório deve-se esperar tudo.

– Temos de encontrar outra solução. Vamos abrir a estátua sem que ninguém perceba. Eu reparei que o seu pai fez o altar um pouco diferente. Lembra só: é uma espécie de mesa alta e estreita, que também deve ser de barro socado, um arco retangular com as pontas arredondadas, onde a santa foi afixada. Está lembrando?

Fez que sim com a cabeça. Jair se aproximara, enxada na mão, limpava parte do terreno de sua capa de capim. Estava fazendo roças, dessa vez plantava ramas de batata doce.

– A gente podia, prosseguiu Raul, abrir um buraco nos fundos da capela e sair embaixo do altar. Ele é coberto por um pedaço de pano, não é? O que se guarda ali?

– Coisas da igreja, roupas do padre, paramentos, objetos do culto, disse Bete, que viera atraída pelo ajuntamento. Duas prateleiras, tem pouca coisa.

– Então, falou Raul, se entusiasmando, a gente rompe a parede, tira as coisas que estão debaixo do altar e guarda dentro da capela, e como a parte de cima do altar também é de barro socado, podemos fazer um buraco por debaixo da imagem para examinar. Se ali tiver uma tampa, disfarçada que seja, a gente tira por debaixo e chegaremos ao santo regaço ou regaço da santa. Que tal?

Os olhos de todos brilhavam e Jair esfregava a mão na outra. Lalá mordia os lábios.

– Nesse tempo, disse Jair, ninguém vai poder entrar aqui, senão atrapalha. E aí voltamos à dona Senhora e suas ladainhas.

– Se a gente começar na terça-feira, no sábado a parede já estará recomposta e nós bem longe daqui. Ufa! exclamou Bete.

– Vai restar apenas a chatinha da Toninha, a espiã do lado cretino da família, que vem todo dia, religiosamente, enfiar a fuça aqui. Ela vai ver o buraco na parede.

– Não se a gente o cobrir com uns galhos secos, como se fosse lenha acumulada ou um móvel velho.

– Já sei, gritou Bete, perto daquele quarto que usamos pra guardar o que não serve tem o resto de um armário de copa ou coisa parecida, que podemos trazer pra cá. Toninha só aparece de tarde, de manhã ajuda as irmãs a cuidar da casa. Por falar no diabo, olha lá ela chegando com aquela cara de sapa intanha.

– Amanhã é terça-feira, não vai dar tempo, lembrou Jair.

– Podemos deixar pra semana que vem, opinou Raul. Vai dar tempo pra gente preparar tudo, inclusive um plano de retirada, com e rapidez e eficiência, vamos ver o que disfarçará melhor o buraco na parede e a maneira de manter essa menina bem longe daqui. E disfarcem que ela abriu a cancela.

– E outra coisa, explicar porque resolvemos botar o móvel ali.

Toninha, sorridente, olhou o grupo que se calara e lhe sorria.

– Então é verdade? perguntou.

– O que que é verdade? replicou Jair.

– É que dona Senhora anda espalhando por aí que vocês vão derrubar a capela.

– Derrubar pra que, essa mulher está é doida. Sábado vou conversar com ela.

– Brincadeirinha, estava só provocando vocês. Mas que vocês estão olhando demais pra capela não podem negar.

– Estamos é procurando um lugar pra botar aquele móvel quebrado que era de sua avó.

D. Senhora rezou sua ladainha no sábado com tranquilidade, depois de dedicar a Raul um olhar que o examinou dos pés à cabeça. Ele sorria e andava pela capela, olhando cada detalhe. D. Senhora acompanhava com olhos duros cada gesto seu. Parece que estava adivinhando, contou ele depois aos outros.

– E o empregado de vocês, onde está? perguntou ela a Laércia.

– Não é empregado nosso, respondeu, é um amigo do meu pai, que está nos ajudando.

– Ajudando como? E por que ajudar?

Laércia ficou meio atrapalhada. Raul foi em seu socorro.

– Nós não conhecíamos este lugar. Como ele vinha sempre aqui com Laerte, nos guiou e está nos ajudando a botar a casa em condições de ser habitada.

– Ele vinha aqui? Não me lembro. Bom, eu vinha pouco à casa de Marica, naquele tempo o falecido estava vivo e eu cuidava de tudo na nossa casa, ele só cuidava da lavoura. Não lembro desse, como é o nome dele mesmo? Jair, não é? Pois é, e eu me pergunto porque vocês estão preocupados em reformar essa casa, que era quase uma tapera, pretendem morar aqui?

Ainda foi Raul quem respondeu.

– Morar, morar, não, viremos passar tempos aqui, de vez em quando, até o inventário ser fechado. Depois, veremos.

– Não tenho nada com isso, disse ela, com as mãos abertas diante de Laércia, mas se me permite… acho que deveria deixar tudo isso aqui para os irmãos do falecido Laerte, tão pobrinhos, tão necessitados, enquanto você vive à larga numa cidade grande.

– Olha, dona Senhora, começou a responder Laércia, mas a outra olhou para a porta da capela, onde os fiéis começavam a chegar.

– Desculpem a interrupção do povo, gente simples mas sincera, disse ela com frieza,

noutra hora voltamos a conversar. Primeiro a obrigação, depois a diversão, com licença.

E se afastou, sombra negra e altiva. Os amigos se olharam. Láercia se indignava com a falta de cerimônia da velha de se meter em seus assuntos.

– Viu só o desaforo? Pobrinhos uma ova, têm mais que eu pra viver. Se achar o tesouro não deixo um vintém pros parentes. Cambada! Os únicos que ganhariam alguma coisa seria Jair e vocês. Pobrinhos, essa é muito boa! Cada um com sua casa, seu pedaço de terra, gado, galinhas e tudo o mais. E eu, tenho o quê? Deixa esse povo fingido comigo!

– Não queremos nada de seu tesouro assegurou Bete. Viemos porque somos amigos seus há muito tempo e não íamos deixar você se aventurar sozinha nesses sertões.

– Não, nós tínhamos combinado que se o tesouro fosse real eu dava uma parte a vocês. E assim vai ser.

Depois que dona Senhora e seus seguidores partiram, eles se sentaram nas cadeiras que puseram diante da porta. A noite estava fresca e estrelada, uma brisa suave os envolvia e afastava as muriçocas.

– Aqui é bom de viver, né, essa tranqüilidade, essa paz…

– Pena é que o povo daqui é tão…

– Amanhã começo a abrir o buraco na parede. Pelo que pude ver, a mesa do altar é do mesmo barro batido e o que prende a santa é a massa de barro misturada com um pouco de cimento e areia.

– E foi bom falar que a gente não pretende morar aqui, eu ia acrescentar que a qualquer momento podemos viajar, mas ela não deu tempo. Ela é dessas mulheres que gostam de falar, não de ouvir.

– Deve ser uma intrigante.

– Dona Senhora só vai perceber que mexemos na capela quando for muito tarde, e aí já estaremos longe daqui. Amanhã cedo começo a trabalhar.

– Amanhã é domingo, Toninha não costuma vir, tem uma programação não sei aonde, mas na segunda-feira… vocês repararam que ela está chegando mais cedo desde que Raul voltou?

– Eu percebi, concordou Bete, ela tem se arrumado mais, um pouco de pó de arroz nas fuças, ruge, batom, um pouquinho de perfume, faz carinha de melindrosa pro lado dele. Aí tem coisa. Acho que ela está querendo conquistá-lo, Raul.

– Sai pra lá! Meu coração já tem dono.

– E eu sei quem é, disse Bete, maliciosa.

– Vamos dormir? perguntou Lalá, se levantando nervosa e segurando a guarda da cadeira. Se a gente quiser começar a trabalhar com os galos temos que dormir com as galinhas.

Deitada, olhando sem ver os caibros do telhado, tanta era a escuridão, Lalá pensava que seria bem mais fácil se pudesse se apaixonar pelo amigo. Não é feio, tem uma profissão, é educado, parece gostar de mim… mas, ah, meu Deus, por que a vida é tão complicada?

Eu não disse? Lá vem ela, toda serelepe, disse Bete, apontando com o queixo Toninha que saltitava pela estrada.

Eles ficaram tensos. Jair, que chegara cedo e passara toda a manhã ajoelhado, ajudando Raul a tirar pedaços de barro socado da parede, machucando os dedos nas ripas de bambu que os retinham, levantou-se depressa e junto com o outro empurraram o móvel para diante do buraco que se abria. Bete correu a recebê-la na cancela. Raul brindou-a com um sorriso e ela se desmanchou em poses apaixonadas.

– Eta ferro, murmurou Jair, num é que é verdade?

Foi uma tarde perdida. Para evitar que Toninha visse o que estava sendo feito, entraram em casa e foram jogar víspora. Raul sentou-se ao lado de Laércia e não perdia a chance de se roçar nela, de tocar sua mão num carinho dissimulado, de olhá-la ternamente. Toninha não perdia um gesto dele e aos poucos foi ficando irritada. Estava sentada na ponta da mesa, entre Bete e Jair e como sem querer disse a Láercia:

– Seu namorado não veio ontem, né? Ele precisou ficar na cidade, está fazendo provas.

Lalá assustou-se.

– Que namorado, menina? Eu não estou namorando ninguém e se quer saber, nunca namorei.

– Hum, vai entrar prum convento? Não tem cara.

– Não é de sua conta.

– Também, continuou Toninha, com maldade na voz, você foi escolher o rapaz errado pra namorar. Sabe quem é o bonitão?

Mesmo contra a vontade todos estavam presos na boca maliciosa.

– É filho do seu Genésio, o cearense companheiro de seu pai no garimpo. Ele não participou da surra que a vovó e o papai levaram porque a mulher dele tava parindo justo esse aí, mas foi ele que mostrou o caminho pra cá pros outros. Gente braba, raça ruim. Todo mundo lá em casa ficou chocado de ver você namorar com ele.

Laércia sentiu-se revoltada. Por que a faladeira não a havia avisado?

– Tenho nada com ele não, respondeu Lalá, ríspida. Eu, hein! Só conversava com ele por educação, e não sabia quem era o peste. Não sou daqui nem obrigada a adivinhar. Deixa comigo, na próxima vez que aparecer vou tocar ele daqui a vassouradas.

– É bom, porque todo mundo daqui sabe que ele tem namorada firma na cidade. Com ocê só queria mesmo se aproveitar. Olhou-a com desprezo e disparou: eu pensava que as moças da cidade fossem mais sabidas.

Raul sentia-se constrangido e fingiu se interessar pelos caroços de milho que marcavam as pedras cantadas. Toninha sorria, satisfeita com o resultado de sua intervenção. A raiva de Lalá foi crescendo e decidiu aproveitar para se livrar da encrenqueira:

– Por falar nisso, Toninha, acho que você devia ficar mais em casa ajudando a sua mãe querida. Está sempre metida aqui, tentando aramar confusão. Ó, me faz um favor, não apareça tanto por aqui. Somos parentas, mas não somos amigas. Não leve a mal, mas gostamos de ficar sozinhas. O jogo acabou, pode ir embora.

Toninha fechou a cara.

– Não vejo porque não vir aqui, esta casa também é do meu pai e, portanto, minha. Vou aparecer na hora que quiser. Você não manda em mim.

Lalá empurrou os cartões do víspora para o centro da mesa e se levantou.

– Pra mim, chega. Não estou aqui pra aturar desaforo. Dá o fora, dá.

– Ocê devia dizer isso pro Ribamar, rebateu a mocinha, não pra mim. Sou sua prima, se é que você é mesmo filha do tio Laerte. Muita gente da família duvida disso. O pai de Ribamar disse horrores sobre sua mãe. Contou que ela, no garimpo…

– Chega, cortou Raul. Sua dose de veneno já foi suficiente.

Também empurrou os cartões para o centro da mesa e se levantou, no que foi imitado por Bete. Jair a olhava com ódio.

– E pensar, moça, que o pai de Lalá tantas vezes matou a fome de ocês. Some daqui, sua encrenqueira.

Ela o olhou com desprezo:

– Cala a boca, negro folgado, você aqui não é nada, nem pra empregado serve.

Bete pegou seu braço e levantou-a.

– Vai embora, vai.

Ela puxou o braço e encarou a outra com ferocidade.

– Vou porque embora quero, viu? também não suporto gente catingosa como ocês.

– Some daqui, gritou Lalá, perdendo a compostura. Vou esganar você!

Toninha saiu rindo alto, dando rabanadas, depois de ter despejado em cima da mesa as pedras do jogo que ainda estavam no saco. Os quatro ficaram parados, aturdidos, olhando sem ver as pedras espalhadas.

– Miserável, rosnou Raul.

Laércia cobriu o rosto com as mãos e soluçou. Bete abraçou-a.

– É, disse Raul, temos que ir embora daqui o mais depressa que pudermos. Essa menina vai nos intrigar com a vizinhança, nossa vida vai ficar insuportável.

– Por outro lado, lembrou Jair, vai ficar mais fácil trabalhar na parede sem ela por aqui.

– E você acha, duvidou Raul, que ela não vai aparecer mais?

Cabelo sumiu, mas não por muito tempo. Na tarde da terça-feira, Lalá estendia a roupa no varal, quando o ouviu gritar:

– Ô, mocinha!

Fingiu não ter ouvido, nem o olhou, continuou a estender a roupa. A pretexto de ajudá-la com o lençol, Bete veio se por a seu lado. Dos fundos da capela, onde trabalhavam com estiletes improvisados, cavando a parede, Raul e Jair pararam e ficaram atentos. Cabelo chegou à cancela.

– É com ocê que tô falando, dona sem educação. Não disse que ia me castigar por causa da morte de seu pai? Pois bem, tô aqui.

Ficou hirta, sem voz. Bete falou com firmeza:

– Vá embora, estamos trabalhando em paz.

– Não estou falando com ocê, sebosa, quero falar é com essa aí, a filha do garimpeiro ladrão.

– Não converso com assassinos, respondeu ela, colocando na corda, com mão trêmula, um prendedor a segurar o lençol.

— Mas vai falar sim. Eu até que tava disposto a esperar sossegado pelo meu tesouro, mas depois da desfeita que ocê fez a meu afilhado… tá pensando que é o que, sua filha da puta?

Ela arregalou os olhos e engoliu em seco. Jair surgiu ao lado da capela com o estilete na mão. Raul veio logo atrás dele.

– Dá o fora, gritou Raul.

– Ah, é o cafetão! Uma puta metida a santinha, dando um fora no meu menino. Sabe por que seus parentes nunca mais voltaram na sua casa? Sabe não? Por que não querem conviver com a filha de uma mulher da vida. A filha que deve ser igualzinha à mãe. Tá pensando o quê? Sua mãe era a puta mais famosa do garimpo, todo mundo queria ir pro mato com ela. Era a famosa Bárbara, a mais requisitada do garimpo. Um pitéu!

– Cala a boca, gritou Jair e partiu para cima dele com o estilete em riste.

– Para, Jair, gritou Lalá, correndo a segurá-lo, não suje suas mãos com esse canalha.

Raul que vinha em seguida, alcançou rápido a cancela, abriu-a, se atirou sobre Cabelo e rolaram na poeira da estrada, aos tapas e gritos. Dois cavaleiros que vinham na direção, apressaram os cavalos e apearam, não antes de Raul acertar o soco na boca do outro, quebrando-lhe um dos poucos dentes cariados. Cabelo meteu-lhe os pés nos peitos, com força, lançando-o quase nos pés dos animais. Os cavaleiros apearam e os apartaram.

– O que está acontecendo aqui? perguntou o mais velho.

– Esse aí, e Raul apontou para Cabelo, além de ser o assassino do pai daquela moça ali, ainda veio aqui ofendê-la com mentiras e calúnias.

– Calúnia nada, a mãe dela era uma mulher da vida no garimpo.

O homem mais novo ajudou Raul a se levantar e impediu que tornasse a avançar contra o outro. Cabelo recusou com brusquidão a ajuda.

– Bom, já lavaram a roupa suja, tentou apaziguar o cavaleiro, agora cada um vai pro seu lado, em paz. É preciso respeitar a honra das pessoas.

– Que honra, meu senhor, retrucou Laerte, esse sujeito é um crápula, um homem mau, condenado por homicídio e que veio ofender pessoas honestas em sua casa não tem honra. Merece é um tiro no meio da cara.

– Acabou, acabou, disse o homem com firmeza. Ocês não são daqui, né mesmo, num to reconhecendo nenhum. Acho bom que cada um se acalme e pegue seu rumo.

– Sou sobrinha de Jofre, disse Lalá junto à cerca. Esses são meus amigos e esse sujeito matou meu pai e agora me persegue.

– Conheço o Jofre, É filha de quem?

– De Laerte, filho de vó Marica.

– Ah, o garimpeiro, o homem do tesouro.

– E é por causa do tesouro que esse homem nos persegue.

O homem encarou Cabelo e determinou.

– Então é isso? Atrás do tesouro fabuloso? Lembro agora, por isso ocê esfaqueou o filho de Marica. Vá, vá andando antes que perca a paciência. Não queremos malfeitores por aqui. Nem malucos em busca de tesouros.

Cabelo olhou para Lalá com ódio.

– Perdi essa, dona, mas não perdi a guerra. Ocê não perde por esperar. E volto a avisar: quero minha parte no tesouro.

Dessa vez o cavaleiro perdeu a paciência e o ameaçou com a soiteira:

– Some daqui, sujeito. Se disser mais uma palavra, sou eu que vou lhe partir a cara. E ainda vou peá-lo como um animal feroz e levar para a delegacia na cidade. Quem sabe não ganha mais um período de férias na cadeia?

Limpando a boca suja de sangue com a fralda da camisa, Cabelo se afastou devagar; voltando a cabeça para fuzilá-los com os olhos de vez em quando. Os cavaleiros só tornaram a montar nos animais depois que o viram bem longe.

– Fiquem atentos, aconselhou, esse camarada não tá de brincadeira. Qualquer ameaça e aconselho a procurarem o subdelegado Martins.

Um silêncio pesado, constrangido, tomou conta de todos. Os cavaleiros retomaram seu rumo. Cabelo sumira na curva da estrada. Todo o entusiasmo se evaporara. Restaram apenas, tristeza, desgosto e inquietação. Bete falou:

– Vou fazer um café, tá na hora.

Desarvorada, Lalá saiu andando pelo quintal. Cabisbaixa, olhava sem ver a areia fugindo sob seus pés, os camaleões em suas rápidas carreiras, as pequeninas flores entre folhas ásperas. Sua cabeça era um caos, dolorido rodamoinho de emoções, sentimentos, paixões, lembranças. Ao conhecer Jair ele chamara sua mãe de Bárbara, lembrava-se bem e rapidamente consertara o erro, encontrara uma desculpa para a troca de nomes, como se houvesse confundido a santa com ela, mas na verdade, chamando-a pelo nome que Laerte a chamava e que todos a conheciam. Bárbara, a mulher da vida mais requisitada do garimpo. Sentiu ganas de gritar.

Lalá queria gritar, xingar, chorar, talvez as lágrimas desmanchassem o bolo que lhe apertava o peito e a sufocava. Sua mãe, uma prostituta. Aquele homem era um louco, só podia ser. Lembrava-se dela em casa, com as roupas do dia a dia, trabalhando sem parar, suando muito, passando o braço pela testa para não perder tempo enxugando o suor. A imagem de mulher sofredora, lutadora, trabalhadora, não se casava com a de uma mulher sedutora, fazendo sexo com os homens por dinheiro, depravada, cínica. Sua mãe não era assim, se acabou trabalhando para sustentá-las, se fosse mulher da vida não terminaria seus dias numa cama estreita, sem dinheiro para consultar médicos e comprar remédios, morrendo aos poucos, sofrendo como uma condenada. Tudo era invencionice de Cabelo. Só podia ser. Era raiva, despeito. Como podia acreditar no homem que assassinara seu pai?

Garimpeiro ladrão. Seu pai? Nunca! seu coração gritava. O homem que perdera parte de sua mocidade enfiado até os queixos nas águas paradas de riachos ocultos nas macegas, que adoecera e quase morrera de tanto trabalhar, enfrentando os perigos das selvas, mosquitos, cobras, onças, índios. Um homem desses, que ia arrancar as pepitas de ouro da lama dos riachos, não precisaria roubar.

Seu pai, um homem admirado por todos que o conheceram, honesto, trabalhador. Dona Xandoca o considerava com o filho, Jair o idolatrava, esse homem podia ser um ladrão?

O assassino de seu pai queria também matar seu amor por ele. Não ia conseguir.

Como um robô ela caminhava sem rumo, queria andar, andar, andar, até se cansar e cair exausta em algum canto e dormir para esquecer o que vira e ouvira na última hora.

Ah, se eu pudesse esquecer, fingir que nada havia acontecido.

– Lalá.

Assustou-se ao ouvir a voz de Jair tão perto, pensava que ele tinha ficado na capela junto com os outros espectadores de seu drama. Como poderia encará-los novamente? Eles haviam ouvido as acusações do canalha, ouviram os nomes de seu pai e de sua mãe enxovalhados. Como poderia voltar a falar com eles normalmente? Não haveria sempre as acusações do caluniador entre eles?

A voz de Jair era firme e serena. Disse:

– Lalá, precisamos conversar.

Ela não o encarou, com os olhos no chão, murmurou:

– Quero ficar sozinha, Jair.

– Tudo bem, disse ele, vou deixar você sozinha, mas só depois de me ouvir.

Ela fungou e passou o dedo sob as narinas:

– Preciso de um tempo, Jair, entenda isso. O que eu ouvi foi muito forte, me magoou, preciso compreender e absorver a vergonha e a dor dessa descoberta, para poder voltar a ser como antes e olhar para vocês, conversar, brincar, sem me sentir envergonhada. Por enquanto não, estou muito machucada por dentro, Jair. Agradeço muito sua vontade de me ajudar, mas nesse momento ninguém pode.

– Eu só deixo você sozinha depois de me escutar, já disse. – pegou-a pelo braço – vamos nos sentar ali debaixo da ingazeira, preciso lhe dizer algumas coisas que deveria ter dito desde que a conheci.

Sentaram-se nas raízes do centenário pé de ingá. Jair tinha levado uma moringa e uma caneca que antes de iniciar a conversa encheu de água.

– Toma, bebe isso, água acalma. Vamos conversar aqui, longe de seus amigos, há coisas que devem ficar entre poucos. Talvez por isso eu não tenha lhe falado antes, seus amigos estão sempre por perto.

Ela bebeu mais um copo dágua. Estava ressequida, a boca seca, a garganta ardendo.

– Não sei o que está pensando depois que ouviu o que disse o patife do Cabelo. Não sei se acreditou e se tá julgando seus pais. Dona Xandoca dizia que antes de julgar e condenar é preciso ouvir a história das pessoas que tão sendo acusadas. Já lhe falei bastante sobre seu pai, tudo que sei sobre ele. Não preguei uma mentirinha sequer, é tudo verdade. Muita coisa ouvi da boca dele próprio, outras de dona Xandoca. É que ela não me deixava ouvir todas as conversas. Então, muitas vezes eu ficava escutando atrás das portas. Ou embaixo das mesas, eu adorava ouvir as conversas, naquele tempo eu era doido para ir para o garimpo, viver umas aventuras. Depois de tudo o que aconteceu com Laerte, desisti.

Lalá suspirou como se gemesse. Pássaros pousaram nos galhos da ingazeira.

– Mas sobre sua mãe ocê nada sabe, né? Pelo que entendi ela só lhe falou do tempo em que viveu no garimpo,assim mesmo nem tudo, né? Ela sabia que ocê ia sofrer. Viu como era boa? Quis poupar ocê desse sofrimento desnecessário. Antes de mais nada ocê tem de se lembrar que tudo ficou no passado.

– É, eu achava esquisito ela ter de escolher as palavras para me contar as coisas, em alguns casos faltavam pedaços nas histórias, mas eu não dava muita importância, era minha mãe, tudo o que viesse dela, para mim, estava certo. Quando você, no dia em que o conheci, sem querer a chamou de Bárbara, pra mim foi apenas uma confusão, achei natural, você trocou o nome dela pelo da santa e só.

– Pois é, a memória é meio safada e me pregou uma peça. Na hora me lembrei de dona Xandoca me alertando que nunca deveria pronunciar esse nome, mas também não me disse que nome eu deveria usar quando falasse da mulher de Laerte. Ninguém poderia imaginar que pouco tempo depois ele seria morto pelo bandido nem que você me apareceria, sozinha, tanto tempo depois.

A medo ela perguntou:

– Quer dizer que ela…

Ele confirmou balançando a cabeça.

– É, ela era a Bárbara dos garimpos. Não fique chateada. O importante é entender como ela virou Bárbara. Ela lhe contou o tipo de irmãos que tinha?

– Contou, uns brutos, quase animais.

– Isso mesmo. Um dos tios dela, não lembro o nome, a possuiu à força quando ela tinha apenas 11 anos, enquanto os outros trabalhavam na roça. Durante uns dois ou três anos isso se repetiu, embora ela reclamasse e chorasse. Não havia ninguém por perto para ouvir e acudir, estavam todos na roça. Por sorte ela não engravidou. Um dia, sabe-se lá porque, a mãe dela voltou em casa fora de hora e pegou os dois na cama. Fez um escândalo. Chamou toda a família para ver os dois nus – ela não tinha deixado que se vestissem – e a pancadaria comeu solta. Os dois levaram coças, mas ele logo foi desculpado, ela era a pecadora, vivia tentando os homens, e foi expulsa de casa. Tinha 13 anos.

Lalá ouvia tudo boquiaberta, tentando preencher as lacunas da história de sua mãe que já conhecia. Ficou imaginando a menina desonrada, ferida, humilhada pela surra, perdida, sem saber o que fazer de sua vida. Para onde ir?

– Estou aqui tentando imaginar o que ela sentiu, pobrezinha, abandonada, sem dinheiro, sem ter a quem recorrer.

– E aí, continuou ele, foi obrigada a seguir o caminho que todas as meninas desonradas seguem até hoje: um pouco distante dali, numa cidade um pouquinho maior, havia uma pensão de mulheres. Ela foi praticamente obrigada a ir pra lá ou morrer de fome na rua.

Mais uma vez, na cabeça de Lalá surgiu a visão da menina-moça escorraçada, sentada numa sala, vestida de maneira escandalosa, como ela já ouvira contar, esperando que um homem, qualquer homem, feio ou bonito, branco ou preto, limpo ou sujo, educado ou grosseiro, a chamasse para ir para o quarto. Que tristeza!

– Deve ser terrível, né, Jair, a gente ser posta porta a fora de casa, por alguma coisa que fez sem ter culpa. Como minha mãe deve ter penado naquela pensão.

– Ela não ficou muito tempo lá. Os irmãos mandaram um aviso que fosse embora para bem longe para não envergonhar a família.

– Veja só, que cretinos! Tenho vontade de esganar os cretinos!

– Foi quando ela conheceu uma tal de Maria Oranza ou Olença, sei lá, que fazia a vida nos garimpos e em outros lugares onde os homens ficavam muito tempo sem mulher.

Ela não tinha escolha e pegou a estrada junto com ela. Foram uns poucos anos nessa vida. Adotou o nome de Bárbara e ficou famosa porque era educada, carinhosa e muito bonita. Até que foi parar no garimpo onde seu pai trabalhava e o resto nós sabemos. Você não deve se envergonhar dela.

– Jamais, ela quase gritou, me orgulho muito dela. Quando lembro aquela mulher sofrendo dores em todas as partes do corpo, as mãos encarangadas, mas trabalhando duro assim mesmo para me criar, a vejo como uma heroína.

Ele sorriu, satisfeito.

– Agora temos de pensar nos seus amigos. Não por vergonha, mas para que continuem a se lembrar dela do jeito que era, honesta, trabalhadora, fiel, dedicada à filha e sempre à espera do Laerte.

– Claro, para todos efeitos o canalha a caluniou. Vamos dizer que ficamos pensando numa maneira de impedir que ele continue a ofender a memória dela e do meu pai.

– Mas de um jeito…não, sabe de uma coisa? Nada disso, eu não sei manter uma mentira. Bete e Raul são meus amigos desde a infância, conheceram minha mãe, viram sua luta, seu sofrimento, vou contar tudo a eles.

Lalá voltou a encher a caneca de água, que tomou aos golinhos. Jair sentiu que ela recuperara a tranquilidade. Sentada na raiz, braços se apoiando nos joelhos, ela olhava o horizonte, no final do campo crestado pela longa estiagem. No alto, urubus voavam em círculos; numa moita próxima, anus saltavam de um galho a outro:

– Tomei implicância com esses passarinhos por causa do Ribamar. Agora entendo porque que ele tomou liberdades comigo, sabia quem foi minha mãe que ele, filho do cearense, conhecia bem a história. Mas comigo não, bacurau.

Atiraram-se com gana ao trabalho de esburacar a parede depois que ela se desabafou com os amigos. Tudo indicava que haviam entendido que ela e a mãe foram vítimas de um destino caprichoso.

– Nada muda para nós, afirmou Raul. Não vai ser essa história do passado de sua mãe que vai mudar o que pensamos e sentimos em relação a você e a ela. Existem coisas piores por aí e vocês sempre foram pessoas de bem.

Era preciso andar rápido e à medida que avançavam no ataque à parede, mais difícil ficava. O barro, com a secura do ar ficara mais duro, mais resistente à ação do estilete. Era necessário primeiro cortar e retirar os pedaços de bambu metidos na massa de barro com cuidado, pois a parede teria de ser recomposta.

Depois do almoço Toninha passou pela estrada e olhou de lado para a casa, com ar de desprezo, como se estivesse desinteressada. Mais tarde foi a vez de Jofre, acompanhado de um de seus filhos. Passaram devagar, olhando, avaliando, mas eles haviam tomado todo o cuidado de nada deixar à vista de quem passasse. O barro retirado era levado em panelas pelas moças e despejado atrás de moitas.

– A encrenqueira já cochichou nos ouvidos do pai, comentou Raul e ele veio com os filhos investigar. Como estão zangados conosco, não sei por quê, não entraram, ainda bem. Ele perceberia o que estamos fazendo.

Talvez alertada por eles, de tarde dona Senhora apareceu suando muito em seu vestido negro e cinza com gola rendada até no pescoço. O trabalho parou e Lalá conversou com ela sentadas no banco em frente à casa.

– Só hoje tomei conhecimento, disse a velha com ar compungido, do bate-boca com o sujeito detestável. Situações deploráveis que chateiam a gente. Esse sujeito, que volta e meia aparece por aqui, é um canalha, todos nós sabemos disso e ninguém, a não ser o seu Genésio da venda o recebe em casa. Soube das coisas horríveis que ele falou pra você, não ligue, é um desaforado, um desclassificado, que não de nós merece qualquer consideração. Por aqui ninguém gosta dele.

Lalá lhe sorriu, com os olhos cheios dágua. Esperava que a mulher a hostilizasse, no entanto. Sentiu-se grata. Esse mundo é mesmo complicado, pensou, vendo dona Senhora retornar pela estrada poeirenta com seu passinho miúdo.

O tempo começara a mudar. Desde que chegaram na região ainda não havia chovido, só uns pingos nas madrugadas e o capim e as ervas rasteiras esturricaram, ressentidos pela falta de água. O gado emagrecera, a poeira penetrava em todos os cantos, a estrada parecia permanentemente coberta por um nevoeiro. O barro ressecado dificultava sua retirada da parede. As mãos de Raul se enchiam de calos e sangravam em alguns pontos; as de Jair, acostumadas com o trabalho braçal, sofriam menos.

No dia seguinte Toninha reapareceu. Diferente, simpática e parou junto à cancela. Sorria. Todos a olharam com desconfiança.

– Aí vem confusão, pressentiu Bete.

– Vai lá, Laércia, vê se consegue despachá-la dali mesmo, aconselhou Raul, mas com jeito, já arrumamos inimigos demais por aqui.

Ressumando má vontade, Laércia foi à cancela. Os olhos miúdos da prima brilhavam.

– Vim mostrar pra você e seus amigos que não sou a peste que vive a vigiá-los.

– Eu nunca disse isso, respondeu Lalá, sem graça.

– Não disse, mas pensou, eu senti pelo seu jeito de me tratar. Mas não tem nada não, como diz minha mãe, não há nada como um dia depois do outro.

Laércia continuou calada, aguardando. Alguma coisa viria a seguir.

– Sabe da maior? O pai do seu namoradinho foi levado com urgência para um hospital na cidade.

– Eu não tenho nem namoradinho nem namoradão, já disse, que coisa!

Laércia tentava manter a serenidade, mas a prima sabia cutucá-la. Começava a sentir um formigamento nas mãos, vontade de agarrar seu pescoço e torcer. A outra estava a fim de provocá-la. Procurou manter a calma.

– Tá bem. E não quer saber por que o velho foi internado?

– Por mim, tanto faz.

– Ah, é? Não era ocê que rogava pragas contra ele porque era da turma dos amigos de seu pai?

Laércia se irritava. Falou entre dentes:

– Nunca disse que eram amigos do meu pai, muito pelo contrário. Diz logo o que houve com ele que tenho de preparar a janta.

Ela sorriu, vitoriosa.

– Tá muito mal no hospital e é capaz de perder uma perna.

A curiosidade de Lalá despertou:

– Por que?

– Sabe o bicho de pé, esse lamparão que entra nos dedos da gente e dá uma coceirinha gostosa? Aí cria uma toca que a gente tem de tirar com agulha? O cearense cria porcos para vender e lá tem muito bicho de pé.  Lógico que ele pegou um ou uma porção, vivia mancando, os pés cheios de bicho, até seu namora…  desculpe, até Ribamar vive tirando bichos do próprio pé. Pois no cearense a coisa ficou feia, não tirou direito, metade da toca ficou no dedão, que arruinou e agora, crás, vão cortar a perna dele. – Riu com gosto – O filho alugou um carro e veio buscá-lo. Pelo que corre por aí, a situação do velho não é nada boa.

– E só isso? perguntou, seca. Obrigada pelo aviso, pode ir.

– Eu, hein? Pensei que fosse dar pulos de alegria.

– Não vou dizer que não fiquei satisfeita, mas eu gostaria que fosse com o outro, o assassino. Aquele sim, merece todos os castigos do mundo. Esse tal de cearense é quase nada, só participou da vigilância sobre meus pais, não sujou diretamente as mãos de sangue.

– Nós ficamos sabendo do que aconteceu com o cabeludo aqui. Papai até veio falar com vocês, mas disse que tava todo mundo de cara amarrada.

– E queria que a gente estivesse como, sozinhos, sendo atacado por um malfeitor? E com tanto parente morando perto. Imagino que vó Marica deve ter pensado o mesmo que nós.

– Vó Marica… ocê nem conheceu ela…

– E daí, deixa de ser minha avó por isso? Ó, já deu seu recado, pode ir embora.

– Sua antipática, mal agradecida.

Só depois de ver a prima longe, seu vulto sumindo na curva da estrada voltou a trabalhar com o grupo. Raul estava com as mãos em fogo.

– Acho que já dá para entrar de gatinhas na capela e retirar as prateleiras e trabalhar na base da estátua depois de abrir um buraco no altar. Vamos deixar para amanhã.

No início da noite desabou o temporal. A água era tanta e caía com tanta força que não dava para continuar o trabalho. O remédio era ficar em casa, jogando víspora para se distrair. Ou se debruçar na janela para ver, iluminados pelos relâmpagos, os animais fugindo do aguaceiro, procurando refúgio sob árvores ou telheiros. Uma vaca alongava o pescoço para berrar em busca do seu bezerro. Galinhas entanguidas desciam dos poleiros em busca de proteção nos beirais da casa contra o toró.

Na manhã seguinte o mau tempo continuava, ninguém passava pela estrada. Chão de areia, a água da chuva pouco empoçava.

Lalá, os cotovelos fincados na janela, olhava a água desabar do céu e encharcar o chão.

– Ainda bem que é areia, se fosse barro, como na nossa terra, era pior, comentou Raul, encostando-se a seu lado, aqui a água logo é absorvida. A janela estreita permitia que seus ombros se tocassem e ele sentia um prazer enorme com o contato da pele macia da mulher que amava.

Bete ultimava o almoço e Jair amolava ferramentas na cozinha. Lalá, braços cruzados no peito, se encostava no batente da janela, como se quisesse fugir do contato. Raul se entristeceu, nuvens escuras invadiram seu coração.

– Enlameia do mesmo jeito, disse ela. Só que seca mais rápido. Estava aqui pensando, esta é a terra de meu pai, não tem nada a ver comigo, o que estou fazendo aqui? Será que vale a pena tanto esforço e aborrecimentos por um tesouro que nem se sabe se existe mesmo? Será que não estamos fazendo papel de bobos?

– O que nos leva de volta à santa… É dela o regaço santo, sem dúvida. Quando mais penso mais acredito nisso. Por que gravaram com canivete os versos no pedestal?

– É, deve ser isso.

– E se fosse você, eu soltava a santa do altar no peito e na raça e a examinava. Se fosse ilusão, devolvia pro lugar, dava uma explicação qualquer a dona Senhora e desistia dessa busca no escuro; se não, se o tesouro estiver no oco, tirava de lá e ia embora, sem dar satisfações a ninguém. Afinal o tesouro é seu, seus pais o esconderam para você, deram até a chave para descobri-lo. Esses seus parentes tem mais é que sossegar o facho e se recolher à sua insignificância. Não merecem nem um vintém.

– Tenho medo, Raul. A ambição embrutece os homens. Depois de tudo o que ouvi, do ataque à minha avó e do assassinato do meu pai, fiquei com muito medo. Tem muita violência no rastro desse tesouro. Dois dos homens do garimpo ainda estão vivos e aqui perto. – Ela se encolheu. – Um está doente, mas em breve fica bom e eles são capazes de tudo, não hesitaram em espancar uma velha e sua filha doente, nem de esfaquear meu pai. Não, Raul, temos que agir discretamente, só devem saber da descoberta do tesouro quando estivermos bem longe daqui.

– Você não deixa de ter razão. Em parte. Acho melhor agir às claras, a gente convoca o tal subdelegado, pede proteção. Do contrário, como escapar daqui com o tesouro sem que eles percebam? Teremos de alugar uma carroça ou charrete, que pode ser facilmente alcançada por bons cavalos. Não se esqueça que seu quase namoradinho é ótimo cavaleiro.

– Namoradinho o escambau! Me desculpe, mas fico irritada só de ouvir o nome dele. Mas ele não estará aqui, só vem pra casa dos pais aos domingos. E antes disso tem de cuidar do pai no hospital. Esquece esse indivíduo, Raul, que já esqueci.

Um sorriso iluminou o rosto do rapaz. Ainda havia chance para ele.

– E Jair, já pensou nele? Ele vive na cidade para onde terá de voltar depois que nós formos embora e os malfeitores sabem ou facilmente saberão onde ele mora, e aí…

– Jair e sua família vão embora com a gente. São a minha família.

Choveu forte durante dois dias. Os nervos de todos estavam esticados ao máximo, nada e qualquer coisa os irritava. Mesmo sob chuva grossa identificaram Jofre em seu cavalo castanho a espionar a casa.

– Ele está desconfiado de alguma coisa, murmurou Jair, senão não ia sair de casa com um tempo desses.

– Alguma intriga a Toninha deve ter feito, aquilo é uma cobra.

Na quarta-feira o sol reapareceu, tímido, envergonhado. O céu se encheu de pássaros e os rabos dos bezerros se sacudiram alegremente diante do capim que brotava com força. O ar estuava de boa eletricidade.

– Vamos lá, pessoal, incentivou Raul, mãos à obra.

Junto com o sol chegou dona Senhora, carregando a sombrinha como se fosse uma arma, o cenho franzido, a boca transformada num risco cor de rosa seca.

– Aí vem confusão, previu Lalá e foi até à cancela.

– Não deixe ela entrar, pediu Jair.

Laércia apoiou os braços na cancela de forma a impedir que a atravessasse.

– Bom dia, dona Senhora, dando um passeio?

– Estou indignada com vocês. – os olhos dela zanzavam de um lado a outro. Fiquei sabendo que estão reformando a capela sem me avisar e sem comunicar ao padre. Isso não se faz, você me prometeu que…

– Não estamos reformando nada, interrompeu-a Lalá, agastada. O que estamos fazendo e isso em nada altera a capela é cavacar um pouco, só um pouco, a parede de trás para encaixar ali um armário antigo de vó Marica que estava jogado num dos cômodos da casa e que vamos aproveitar para guardar coisas sem utilidade no momento, só isso.

– Posso ver o que está sendo feito?

– A senhora não acredita no que eu digo? E olhe, o Raul é advogado, como a senhora sabe, e ele procurou no cartório e não achou nenhuma escritura de doação da capela à mitra, logo, o padre não tem nenhum direito de se meter no que estamos fazendo. – mentira com desfaçatez – Nem a senhora, nem ninguém. Se quiser derrubar a capela eu derrubo e ninguém tem nada com isso. Não quero ser desaforada, e lhe dou explicações por consideração, mais nada. E boa tarde, dona Senhora, temos muito o que fazer.

A pele do rosto da mulher tinha passado por várias mudanças de cor: do vermelho quase roxo da indignação à palidez da desfeita não absorvida. Lançou um olhar desolado para a capela e retornou sobre seus passos.

Os dias de chuva tinham sido úteis para curar as pequenas feridas nas mãos de Raul e de Jair. A chuva amolecera um pouco o barro da parede, não o suficiente.

– Seriam precisos anos de chuva para amolecer esse barro, concluiu Raul. O povo antigo sabia como fazer uma parede resistente às mudanças do tempo.

Sem deixar de ficar atentos ao que ocorria na estrada, tiraram pelo buraco e levaram para casa os objetos guardados sob o altar. Depois soltaram as duas prateleiras e as deixaram no chão da nave. O terreno estava limpo, mas o trabalho lhes consumira o dia. Raul tentou trabalhar iluminado por uma lamparina e depois por um lampião de carbureto, mas não havia luz suficiente. E a fumaça das lamparinas os sufocava. Sem enxergar direito, quase às cegas, cavaram até encontrar o fundo do pedestal da santa. Era muito complicado, o barro esfarelado lhes caía no rosto, tinham de parar a todo momento para limpá-lo e cuspir placas de barro. Cada um cavacava por cerca de 15 minutos e passava o estilete para o outro. Era noite fechada quando deram por limpo o campo de trabalho.

Com a agressividade demonstrada por Lalá, Toninha não reapareceu e ficaram sem notícias do cearense e de Cabelo, o que preocupava Raul, podiam estar tramando algo contra eles. Não deviam ficar sem saber notícias.

-Você devia ter sido mais gentil com aquela menina novidadeira, observou Raul, ela é a melhor maneira da gente saber o que está acontecendo por aqui. Ela sabe de tudo.

Na manhã seguinte dona Senhora tornou a aparecer. Bateu palmas na cancela. A capela ficava dentro da propriedade e depois do desaforo da filha de Laerte, que lhe jogara na cara que ali era propriedade particular e tinha dona, não tinha coragem de ir entrando sem licença da moça. Mas não podia também ficar sem saber o que estava acontecendo. Mais uma vez a filha do Jofre enchera seus ouvidos. Sorriu para as moças ao vê-las se aproximando. Lalá, depois da advertência de Raul, procurava ser mais receptiva e devolveu o sorriso, mas não abriu a cancela.

– Bom dia, dona Senhora, está precisando de alguma coisa?

– Não, obrigada, vim mesmo ver se a chuva forte causou algum estrago na capelinha. Tanta chuva, né? Uma parede da casa do João Matungo veio abaixo e temi que…

– Nada aconteceu com a nossa capelinha, dona Senhora, interrompeu-a Lalá, continua o brinco que a senhora deixou. Era só isso?

– Sim, falou a mulher, sem jeito.

Elas sentiram que a mulher não ficara satisfeita, mas não podiam permitir que olhasse a capela naquela hora.

– Então fique sossegada, está tudo como a senhora deixou e a ladainha do sábado será realizada como sempre. Agora, me conte, a senhora teve notícias do cearense que foi levado para o hospital?

A mulher se sentiu mais à vontade, achou que as moças não haviam guardado rancor. Ela apenas era uma pessoa responsável que se preocupava com os bens colocados sob seus cuidados. Não vinha incomodá-las por implicância ou maldade. Felizmente haviam entendido suas preocupações e se dispôs a contar a elas o que queriam saber.

– Não, o que fiquei sabendo foi que ele não tá nada bem. A família até levou um padre para dar extrema unção ao coitado. Muitas vezes, ao aplicar os santos óleos, o doente se recupera. No caso do sr. Genésio acho meio difícil. O filho dele é seu amigo, né? O Ribamar é um bom rapaz.

Não quis rebater a informação da amizade com o cavaleiro andante.

– E daquele velho descabelado que veio aqui nos insultar, sabe se voltou? Pensei até em comprar uma espingarda.

– Pelo amor de Deus, minha filha, não faça isso. Arma de fogo dentro de casa é muito perigoso, aqui tem havido muitos acidentes, até com morte. Aquele sujeito vai ficar longe daqui enquanto o cearense, que é amigo dele, estiver no hospital. O rapaz não gosta dele, apesar de ser seu afilhado. Aliás, eu acho que nem o cearense gosta, só o atura por obrigação, sei lá. Pai e filho são boas pessoas, nunca ouvi falar mal deles.

– Pôxa, dona Senhora, foi muito bom conversar com a senhora, fiquei mais aliviada. Só não a convido para entrar porque sei que é mulher muito ocupada e também porque estou fazendo o almoço.

Foi um alívio vê-la se afastar, tranquila e sorridente. Lalá ficou um tempo encostada à cancela, seguindo sua figura até desaparecer, pensando no bom moço, filho do doente. Nenhuma emoção a perturbava. Não havia mais lugar em seu coração para ele. A estrada voltou a ficar deserta. E se Ribamar surgisse com seu cavalo fogoso e a raptasse? Ai, que imaginação mórbida! Ribamar não existe mais, é uma sombra do passado, coisas da vida. E por que tinha que pensar nisso numa hora dessas? Por que não se esquecia dele? Fora dona Senhora que o trouxera de volta, ela não queria mais saber dele. Não mesmo?

Sentado no chão, pescoço torcido, olhos fixos no fundo da mesa do altar e tateando a imagem com as pontas dos dedos, Raul tentou encontrar um encaixe, qualquer coisa que a abrisse. Delicadamente ia sondando cada pedaço da madeira.

– Achei, gritou satisfeito.

Os outros se aproximaram, sorridentes.

– Só que não dá posição para forçar e abrir. Pelo que pude sentir, são dois pequenos ressaltos, que fazem a tampa do fundo girar. São pequenos o bastante para não serem vistos a olho nu. Vamos ter de tirar a santa dali e trazê-la cá pra fora. Precisamos de luz e de espaço. O escultor dessa estátua era danado de bom.

Deixando Bete de vigia, os três entram pelo buraco e saíram no interior da capela. A santa os olhava beatificamente, encostada na torre, a espada descansando ao longo do corpo. Era uma bela obra de escultura rústica em madeira.

– Agora, comandou Raul, vamos escavar a massa que está prendendo a imagem.

Lá fora o silencio era cortado pelo ranger de uma cambona que passava carregada de cana em direção à balança da usina. Um bando de galinholas gritava, parecendo esbaforidas. Em pouco tempo, com os três trabalhando no desbaste, a imagem estava solta.

– Ufa, exclamou Jair. Esse povo sabe prender uma coisa, hein? Podemos deitar ela? Você, Raul, que é maior, segura a cabeça e vai baixando devagar, que seguro o pedestal.

– Ela é pesada, hein? observou Lalá, como é que meu pai conseguiu fugir arrastando essa imagem pelo meio dos matos?

Lalá acompanhava a operação, o coração batendo acelerado. Era a última chance de encontrar o tesouro. Seus olhos seguiam cada movimento de Raul que, após deitar a imagem, foi em direção ao pedestal e quase deitando o tronco no altar, examinou a base, com os olhos apertados, buscando os dois pontos que seus dedos haviam percebido.

E lá estavam elas, duas minúsculas ranhuras, uma diante da outra.

– Aqui estão, murmurou Raul, e as cabeças dos outros se aproximaram. Quase nada, é preciso enfiar as unhas para mover. Trabalho muito bem feito. Quem olhar pode pensar que é defeito da madeira.

E com um pouco de esforço e paciência os dedos do rapaz fizeram a tampa se mover. Os olhos de Láercia, arregalados, viram a tampa girar devagar até que as ranhuras opostas formaram uma linha reta, perpendicular, e a tampa se desprendeu, deixando ver um saco de couro pardo. Raul puxou-o. Devia pesar muitos quilos e sua boca estava amarrada por um cordão feito do mesmo couro. Bete soltou um grito abafado.

A boca de Jair se abriu quando Raul despejou o conteúdo do saco no altar. Pepitas, muitas pepitas marrons e douradas. Lalá, trêmula, balbuciou:

– Meu tesouro, o ouro de papai!

E se pôs a chorar com tanta força que Raul, esquecendo a fortuna e a precaução, saiu da capela de gatinhas em busca de um copo dágua. Estava aturdido. Nunca acreditara na existência da fortuna embora agisse como se acreditasse. Era preciso, para não deixar Lalá deprimida. Era um homem dividido, sofrido. De um lado não acreditava que o pai de Lalá tivesse deixado um tesouro escondido e nem queria que fosse verdade, pois seria mais fácil conquistá-la se continuasse pobre; por outro lado queria que o tesouro existisse e que o achassem, pois ela teria do que viver, seria independente dos parentes asquerosos. Podia voltar a morar em sua cidade e viver de rendimentos. Aí na certa perderia a coragem de tentar conquistá-la, ela podia pensar que era puro interesse, já que até aquele momento não ousara pedi-la em namoro. Embora em tudo fosse extrovertido, audacioso, firme, perto dela virava um bobão, sem coragem para encará-la, demonstrando o afeto que sentia. Ah, como a vida era complicada!

– Lalá, você está rica, nunca mais vai precisar trabalhar na vida!

Ela tomou a água e sentou-se no primeiro banco da fileira. Suas pernas estavam bambas. Não podia acreditar no que estava acontecendo, parecia estar dentro de um sonho. Então era verdade o que sua mãe contava? Seu pai havia garimpado todo aquele ouro e não pudera usufruir dele? Sua mão suada segurava uma pedra de tamanho razoável, que deixou sua palma cheia de brilhos.

Não conseguia pensar direito, estava rica, muito rica! Como seria sua vida a partir daí?

A manhã surgiu clara tão logo se dissiparam os últimos fiapos da névoa da madrugada. Jair encheu a chaleira de água e acendeu o fogo. Apesar de estar em local fechado, a lenha estava úmida e custou a pegar fogo. Jair abanava o fogão furiosamente, enchendo a cozinha de fumaça. Raul apareceu na porta do corredor, tossindo e correu a abrir a que dava para o quintal. Junto à porta, numa atitude insólita, Ouro Velho o olhava, com todo o corpo a tremer.

– Jair, olha aqui o nosso cavalo, acho que está sangrando.

Lalá veio correndo, ainda amarrando a faixa do vestido, os cabelos por pentear.

– Que aconteceu com Ouro Velho?

Jair e Raul olhavam a anca do animal, marcada por um risco de sangue.

– Tentaram matar nosso cavalo, disse Raul, porque esse ferimento foi feito a faca.

E apontava com o dedo um risco não muito profundo que descia pela anca do animal, coberto de sangue seco.

– Posso até adivinhar quem foi, disse Jair, enraivecido.

– Jair, dê uma corrida na casa do subdelegado Bartô, explique a ele o que aconteceu e peça para vir aqui, com urgência, pediu Laércia. O bandido ficou ousado demais e estamos correndo sério perigo.

– O nome dele é mesmo Bartô? Olha lá, hein? O homem é bravo, depois me manda pren der, e aí?

– Deixa de besteira. O nome dele é Bartolomeu, mas todo mundo chama de Bartô, confirmou Raul.

– Vai depressa e enquanto isso vou limpar o ferimento do cavalinho com água com sal – Lalá tinha a testa franzida – Tadinho do meu amigo, murmurou, passando a mão na cara do cavalo. Está sofrendo por nossa culpa!

Bete apareceu, enrolada no cobertor. Ouvira a fala de Lalá e olhava o animal com pena e medo.

– Temos que ir embora daqui o mais rápido possível.

Não demorou muito para o sub-delegado aparecer. Examinou o animal com cuidado e depois alongou o olhar pelo terreiro.

– Alguém ouviu alguma coisa, barulho, vozes, relinchos durante a noite?

– Eu durmo como uma pedra, contou Raul, se a casa desabar eu só vou acordar quando a parede cair na minha cabeça.

– Espere aí. – E Bete franziu a testa no esforço de lembrar. – Eu ouvi alguma coisa sim. De madrugada, ouvi uns barulhos que me pareceram de bichos correndo pelo terreiro, às vezes isso acontece, cachorros do mato correndo atrás de preás, ratos, gambás subindo no telhado, o pessoal até brinca dizendo que é lobisomem, acho que ouvi Ouro Velho relinchar, tonta de sono pensei que estivesse fugindo de cobra, sei lá, nunca imaginei que estava sendo atacado, pobrezinho.

E ela passou a mão carinhosamente pelas suas crinas. Bartô ouvia em silêncio. O sol já estava quase no alto do céu e ele saiu andando pelo terreiro, devagar, observando cada pedaço de chão.

– Ali, disse, se encaminhando para uma moita rala próxima da cerca, onde a luz do sol tirava faísca de uma faca, como eu pensei.

Abaixou-se e como todos o haviam seguido de perto, viram quando ele pegou uma faca longa, com as bordas manchadas de marrom.

– Bem que senti que haviam esfaqueado o cavalo, disse Raul. Mas por que fariam isso?

– Só posso pensar naquele verme cabeludo, disse Lalá com raiva. Ele quis nos assustar, é isso, mostrar que pode nos matar como matou meu pai.

– E por que não fez? indagou Bete. A oportunidade era boa, a gente estava dormindo, era fácil. Será que Ouro Velho saiu em nossa defesa?

– Ele é um belo e inteligente animal, observou sorrindo Bartô, mas não teria como saber que o atacante queria matá-los. Além do mais, esta noite, além de muito escura, estava coberta de nevoeiro o que, em princípio, facilitaria o trabalho do assassino, mas acabou por atrapalhar.

– Como assim? perguntou Jair, os olhos arregalados de medo.

– Vou dizer o que penso que aconteceu. Acho que foi mesmo o tal Cabelo e veio para matá-los. Houve alguma mudança nos planos de vocês?

– É, disse Lalá, constrangida, a gente estava pensando em deixar isso aqui e ir embora.

– Não encontramos o propalado tesouro, interveio Raul, e só temos tido aborrecimentos aqui. A família de seu Laerte nos recebeu mal, e pensamos em encerrar a viagem logo e voltar para casa. Tanto eu quanto elas temos assuntos a tratar em nossa cidade, chega de aventura.

De alguma forma ele soube disso, concordou Bartô, e frustrado por ocês não terem achado o tesouro resolveu se vingar. Veio para liquidá-los.

– Ui, gemeu Bete, estreitando os ombros num calafrio. Não fico mais aqui.

– Voltando à tentativa de atentado do bandido, continuou Bartô, acho que por causa da escuridão da noite ele foi meio às cegas em busca da porta da cozinha, talvez a mais fácil de ser aberta sem fazer muito barulho e por acaso esbarrou no cavalo. Com o susto, tentou espantá-lo com a mão que segurava a faca e o riscou. O animal, ferido, assustado, desfechou-lhe um coice e também por acaso jogou a faca longe. Ele deve ter tateado em busca da arma, mas no escuro não encontrou e desistiu. O braço, onde o coice pegou, devia estar doendo e ele bateu em retirada.

– Desgraçado, disse Jair entre dentes, ele ainda vai pagar por isso, Deus é pai!

– Mais uma vez, lembrou o subdelegado, aconselho vocês a tomar muito cuidado. Infelizmente não dispondo de homens para vigiar a casa e acho melhor que viajem o mais rápido possível.

Jair, que adquirira certa prática como pedreiro depois da morte de Xandoca, quando se viu obrigado a ganhar a vida, antes que o juiz lhe entregasse o que ela lhe havia deixado, ajudou Raul a recolocar a estátua no lugar, aplicando barro em volta do pedestal.

– Até a noite de sábado, disse Jair, isso deve secar e nem vai parecer que a imagem foi mexida. E eu vou embora logo que puder, esse tal de Cabelo é doido de pedra e pode atacar de novo.

Para ficar mais parecido, esfregou um pouco de picumã e de poeira no barro fresco. Depois limparam o melhor que puderam a capela, recolocaram as prateleiras e os objetos nos lugares aproximados onde os haviam encontrado e cobriram o rombo da parede com barro e com o velho móvel. Mesmo feito com capricho, o remendo podia ser notado. Eles esperavam que a ausência só fosse sentida como fuga em 15 dias.

O céu voltara a se cobrir de nuvens pesadas, o que lhes seria favorável.

– Santa Bárbara vai mandar chuvas e trovoadas para nos ajudar, disse Jair, se benzendo.

Raul, com sua racionalidade, depois de olhar os arredores, onde durante a tarde passara um grupo de meninos em busca de preás, levou Lalá para as grossas raízes do pé de ingá. Os outros dois os seguiram.

– Vamos conversar aqui, onde ninguém pode nos ouvir. Fiquei com a impressão que havia alguém ao lado da capela quando descobrimos o tesouro, o tal bandido. Como éramos quatro, ele esperou a noite para nos atacar.

– Aquilo é traiçoeiro como uma cobra, afirmou Jair.

– E agora, perguntou Lalá, como vamos fazer para levar, sem dar na vista, o tesouro para fora daqui? Foi por isso que você quis conversar aqui, não foi?

– A minha idéia, disse Jair, era colocar em dois sacos que a gente podia levar nos jacás, cobertos por uns cachos de banana ou ramas de mandioca até à estação do trem.

– Não exagere, não há tanto ouro assim, contrapôs Raul. O que você acha, Lalá?

– Bom, na minha opinião, devemos fazer tudo às claras. Não estamos roubando. Noite passada pensei muito, e hoje de manhã, depois da covardia com o cavalo, minha idéia se reforçou, acho que temos de contar aos parentes que encontramos o tesouro, mas que ele me pertence e por isso vou levá-lo comigo.

– Acho uma temeridade, logo todo mundo saberá, sua prima é boquirrota e teremos Valetas inteira atrás de nós.

– Também acho uma bobagem, concordou Bete, e por falar em parentes, disse, sempre atenta ao que ocorria ao redor, seu tio Juvenil está na cancela.

Todos se voltaram para a estrada. Lalá acenou e caminhou em sua direção, seguida pelos amigos. Aquele parente era um dos que menos a perturbaram, e sua obesa mulher não era encrenqueira. Enjoada e gananciosa era a família de Jofre, que tinha os olhos maiores que a boca.

– Oi, tio Juvenil, o que o traz aqui? Apeie e venha tomar um café.

– Não minha filha, obrigado, minha demora é pouca. Vou ali adiante ajudar compadre Antero a matar uns porcos e resolvi dar uma passadinha para lhe dar uma notícia que é possível que não saiba, vocês vivem enfurnados nesse sítio.

– Notícia boa, tio?

Ele riu de lado e baixou os olhos.

– Depende, né? Toda notícia é assim, né? Pra uns é boa, pra outros pode ser péssima. Coisas da vida. Genésio morreu ontem à noite.

– Quem? indagou Lalá, sem ligar o nome à pessoa.

– Genésio, o cearense, esclareceu Raul. Os médicos não conseguiram salvá-lo?

– Que nada. Chegaram a decepar a perna doente, mas a gangrena já tinha se espalhado pelo corpo, e aí. O enterro foi hoje cedo, o corpo fedia muito. Uma catinga terrível.

– O penúltimo dos carrascos de meu pai foi pro inferno, vibrou Lalá. Resta agora o cabeludo, o pior deles.

– Vaso ruim custa a quebrar, filosofou Bete. É o último e está em atividade.

– Por falar nisso, descobriram quem matou o português, Jair? indagou Juvenil.

– Descobriram por acaso. Foi um patrício dele que perdera o emprego e não se dera bem nos negócios e vivia pedindo dinheiro aos outros portugueses da cidade e que depois da morte do outro começou a gastar muito dinheiro com o jogo e bebida. Aí, teve gente que estranhou a gastança de um duro e avisou a polícia. Não deu outra, na casa dele encontraram tudo o que era do tal Funchal, o português.

– Como sempre, disse Juvenil, Deus escreve certo por linhas tortas. A ganância do português transformou o conterrâneo dele em inimigo. Deus seja louvado.

– Inda tenho esperança de ver o cabeludo estirado no meio da rua ou atropelado pelo trem. Sabe, tio, que essa madrugada ele invadiu nosso terreiro e meteu a faca no cavalo? Por pouco não mata o bichinho.

Juvenil franziu a testa, horrorizado.

– Foi assim que ele fez com o pobre Laerte. Já avisaram ao subdelegado? Esse sujeito tem de voltar para a prisão.

– Avisamos sim, ele esteve aqui, viu tudo e vai tomar providências. Estamos pensando em viajar, tido, e não sei se voltaremos. E olha, tio, dia desses vamos fazer outra reunião para falar do inventário – sorriu – mas sem briga.

– Não sei se vou não, não entendo de leis e Nacinha fica muito nervosa. Façam o que vocês acharem melhor. Só tenham cuidado com a Silvina, que ela morde.

E riu, satisfeito. Deu com dois dedos no chapéu e partiu.

– Tá vendo, Lalá, é inútil falar com essa gente, disse Raul tão logo ele se afastou.

– É, concordou Laércia, desanimada, a notícia do encontro do tesouro vão saber de outro jeito.

Na tarde desse dia Jair seguiu para a cidade. Pegou no pasto atrás da casa o cavalo, que não parecia muito afetado pelo ferimento, a faca passara de raspão. Colocou uma manta extra para proteger a anca do animal e abastecido de dinheiro por Lalá, ao chegar na estação da usina comprou passagens para a viagem de trem de seus familiares. Antes de pegar a estrada tinha corrido até à roça de mandioca que havia plantado e olhou-a com carinho e saudade:

– Tô com uma pena de deixar minhas rocinhas… bem que eu gostaria de comer aipim e batata doce plantados por mim e falta pouco para  aipim ser colhido. – Suspirou – Se eu fosse ficar por aqui, disse a Lalá, ia comprar uns ovos e umas galinhas chocas, e em pouco tempo a gente ia comer galinha do nosso terreiro.

– Quem sabe se pra onde nós vamos não fazemos isso? Fazenda eu não quero, é muita responsabilidade, mas um sítio perto da cidade para você cuidar, quem sabe?

Ele se abriu num sorriso largo. Na localidade da usina, Jair combinou com Gegê, o dono da charrete, um horário bem cedo na manhã seguinte para pegar o pessoal em Valetas. Jair deixara os amigos com o coração apertado, temiam mais um ataque do Cabelo. Pediu que reforçassem as portas com cadeiras e empurrassem os móveis para impedir que o bandido abrisse as janelas.

– Eles vão pegar o trem da manhã, avisou Jair a Gegê, e precisam estar aqui a tempo. Vá o mais cedo que puder.

E contou a história do ataque de Cabelo ao cavalo, mostrando o ferimento na anca do animal.

– Sujeito covarde, atacar um animal indefeso. Deixa comigo, caboco, já faiei arguma veis? Mas que sujeito bandido esse tal de Cabelo, hein?

– Eu não posso ir com ocê, mas quero lhe recomendar muito cuidado. O cabeludo tá cada vez mais audacioso e tenho medo que prepare uma emboscada assim que souber que o povo pegou a charrete. O lamparão tá vigiando a gente, dia e noite, pensa que achamos o tesouro e vamos fugir com ele. Nós tamos preocupados, se souber da viagem ele pode armar uma tocaia no caminho, ocê tem de ficar com olhos e ouvidos bem abertos. E não fale da viagem com ninguém, nem com sua família, que ele pode tá por perto e escutar. Se tudo der certo, seu Raul vai lhe dar uma gratificação em dinheiro muito boa.

Gegê, o carroceiro, sorriu, satisfeito. Ergueu o peito, desafiador.

– Deixa com a gente, sei despistar como ninguém. E se esse bandido tá pensando que vai levar vantagem tá muito enganado. Comigo ninguém tira farinha.

– Ocês vão vir se encontrar comigo aqui em Barcelos, entendido? Eu e minha família vamos estar no trem que vem da praia.

Jair havia preparado não só a família, mas os conhecidos e vizinhos mais próximos, para a viagem que ia fazer e na manhã seguinte, vestindo as melhores roupas, e com alguns trecos de primeira necessidade pegou o trem com a família, todos espantados e nervosos porque nunca haviam viajado, ainda mais de trem, que costumavam ver passar ao longe, bufando. Raul tinha avisado para não levar nada além do essencial, o resto eles proveriam quando chegassem ao destino.

– A filha de Laerte, contou ele aos amigos e vizinhos, demonstrando orgulho, desistiu de procurar o tesouro e volta para sua terra, um lugar chamado Santa Rita dos Guanandis, onde tem uma fazenda e vai me dar o emprego de capataz. Tô viajando, completou, para encontrar com ela na estação de Barcelos e para depois pegar condução para a fazenda. É longe daqui.

A informação fora forjada por Raul, que dera um nome fictício à cidade para despistar quem tivesse interesse em encontrar seus rastros.

– Por mim, disse Lalá com olhos melancólicos eu levava essa linda santa.

– É verdade, concordou Bete, é uma santa muito especial, que guardou o tesouro para você esse tempo todo.

– Só que não temos a força do desespero do velho Laerte para sair arrastando a imagem pesada por aí, disse Raul. Quem sabe um dia a gente manda buscá-la? Depois de tudo acertado, dívidas pagas, vida estabilizada, a gente contrata uns camaradas ladinos para surrupiar a estátua.

– Deus me livre, rebateu Lalá. Eu vou é comprar uma santa Bárbara maior, de louça, bem bonita e colorida, e mando alguém negociar a troca com dona Senhora. Não gosto de nada escondido, a gente passa o resto da vida morrendo de medo que descubram. Não vou me despedir dos parentes, que não merecem a menor consideração, e não quero nenhum urubu no meu rastro, a cobrar. Quero poder voltar na hora que bem entender, de cabeça erguida.

– Eu tenho um colega bom pra esse tipo de negociação, disse Raul.

O saco do tesouro era pesado e dividiram o conteúdo em porções menores para facilitar o transporte. A bolsa de Laércia ficou estufada, Bete colocou outra porção entre as roupas da mala que Jair havia trazido a seu pedido tão logo pressentiu que iam demorar mais que o previsto e Raul embrulhou o restante no próprio saco de couro, que envolveu com papel de embrulho.

A madrugada estava fria, um vento úmido a zunir entre as árvores. Lalá não conseguira dormir e passara a noite escrevendo duas cartas.

Uma para dona Senhora, explicando a razão dela encontrar alguns remendos na capela e avisando que em futuro próximo enviaria um advogado para negociar a troca da santa. A que estava no altar, informava, fora adquirida por sua mãe e no seu interior fora guardado o tesouro da família, finalmente encontrado.

Para compensar os transtornos e pequenos estragos lhe informava que faria o possível para que a capela e o terreno onde fora construída ficassem sob sua guarda e desde já determinava que lhes seriam doados ou a quem fosse responsável pelo templo quando o inventário fosse concluído. Se achasse por bem, que solicitasse ao juiz para que a doação fosse feita à paróquia, o que autorizava. Se necessário, enviaria um documento para formalizar a doação. Fazia questão, porém, que a imagem da santa voltasse às suas mãos para ser entronizada numa capela que construiria em sua terra. Essa carta reservou para deixar aos pés da imagem.

A outra carta, mais longa, tinha Jofre como destinatário. Optara por começar dizendo que haviam encontrado o tesouro de Laerte escondido dentro do corpo da imagem da santa. Era o regaço santo, onde o pai guardara o ouro que garimpara para o casal e do qual era a única e incontestável herdeira.

– Para compensar, escreveu, vou renunciar a meus direitos aos bens deixados pelos meus avós e meu pai. Apenas reservei o terreno da capela para doar a quem cuida da capela ou à paróquia. À parte estou escrevendo carta a dona Senhora comunicando isso. E vou enviar documento ao cartório falando dessa minha disposição.

Lalá temia que Silvina, ao se apossar da carta, que ia deixar sobre a mesa da casa de Marica, resolvesse procurar a carta para dona Senhora e fazê-la desaparecer para que a doação não constasse do inventário. Pelo que pudera ver da mulher do tio, era bem capaz desse feito. Com um sorriso divertido, imaginou a reação alucinada da tia quando tomasse conhecimento do teor de sua carta, que certamente seria lida por uma de suas filhas, já que não sabia ler nem escrever.

Já passava das três horas da manhã quando por fim fechou os envelopes, deixou-os em cima da mesa e deitou-se para cochilar, um sono leve, repleto de pesadelos. Amanhã deixo o de dona Senhora na capela.

Lalá não dormira direito por ficar a imaginar o que o cabeludo estaria planejando contra eles. Cabelo era homem de desaparecer no ar, de se confundir com a estrada e os matos e de aparecer de repente para atacá-los. Fizera isso com seu pai e outras vezes com ela, assustando-a. Com seu faro de bandido pode ter adivinhado que o tesouro já teria sido encontrado ou ter escutado a conversa deles na capela no dia do achado e ao vê-los partindo concluiria que estavam fugindo com  o ouro.

O que faria então? Ela temia que durante a viagem ele surgisse de repente, numa curva fechada da estrada estreita, um fantasma velho e doente, a cobrar o que achava que era seu e poderia lhes causar problemas. Desde a morte do cearense não tinham notícias dele, não sabiam por onde andava. Toninha não voltara a visitá-los e Ribamar devia estar muito ocupado com o enterro do pai e os cuidados com a mãe. Pelo que sabia era filho único e a ele caberia todo o procedimento após a morte do pai.

A charrete chegou com os primeiros albores. A estrada parecia mergulhada numa cuba cheia de nevoeiro. Silêncio total, Valetas custava a despertar. Estava muito frio e Lalá se envolveu num casaco grosso. Seus olhos assustados não paravam quietos, tentando penetrar na paisagem esmaecida. Um galo cantou ao longe. Bete saiu de casa correndo e subiu na charrete.

– Que frio, Lalá, estou batendo queixo.

– Vamos, Raul, senão perderemos o trem.

Estava preocupada com um provável súbito aparecimento de Cabelo e achava que quanto mais cedo pegassem a estrada menos chance ele teria de surpreendê-los. Os cavalos bufavam, emitindo jatos de vapor. Nenhum ser vivente se mexia nas cercanias,

De mãos postas Lalá rezava só mexendo com os lábios. Raul sentou-se ao lado dela, de costas, de olho na estrada que iam deixando para trás. Bete sentara-se na frente, ao lado do cocheiro Gegê. Galopando pelos caminhos arenosos, recostada no banco da charrete e ouvindo os suaves ruídos de mais um amanhecer na roça, Lalá mantinha sua bolsa com o tesouro no chão do veículo, os dois pés a prendê-la firmemente. Fora uma divisão só para o transporte do achado.

– O que vai caber a cada um nós veremos quando chegar em casa. Prometo ser justa, tinha dito aos outros.

– Na nossa casa, lembrou Raul, a sua você entregou ao dono antes de vir, se esqueceu?

– É mesmo. Vou ter de comprar uma casa nova, exclamou sorrindo e apoiou a cabeça no peito de Raul, sentado a seu lado. Vou comprar uma casa tão linda! E vou colocar a santa Bárbara bem na sala, não, na sala não, vou providenciar um oratório.

Ele ficou feliz com o gesto espontâneo e inesperado. A cabeça da moça querida era um peso suave no seu peito. Ela deve estar sentindo que o meu coração bate forte de paixão. Será que terei chance? se perguntou.

O céu ia se pondo rosa e Bete se encolhia de frio. Passaram em frente à venda do finado cearense. Lalá olhou longamente a paisagem que se descortinava e murmurou:

– Meu pai que me perdoe, mas nunca mais volto aqui, decidiu.

– Jair deve estar na estação pronto para embarcar, comentou Raul, satisfeito. Queria mesmo que ela ficasse bem longe daquele calhorda sedutor.

No momento de ultrapassar a curva que levava à fazenda do barão, que fora muito produtiva no tempo do império e agora se achava em decadência, da cerca de gaiolinha surgiu um vulto escuro que saltou na frente da charrete com os braços abertos, gritando. As moças gritaram ao mesmo tempo e Lalá imaginou que seu pesadelo se tornara realidade e ali estava Cabelo, com a faca em riste, pronto para atacá-los. Raul abraçou-a e Bete se apoiou na lateral do banco enquanto o cocheiro tentava conter os animais, e evitar atropelar a misteriosa figura. Conseguiu em parte, por pouco não passava por cima do sujeito, mas o paralama lateral o atingiu e devolveu para a cerca de onde emergira.

Raul viu que o homem, cujo rosto a neblina não deixava distinguir, ficara caído, braços abertos, imóvel. Um pouco adiante, após deter os cavalos, Gegê avisou:

– Vou lá ver quem é e como está.

– Cuidado, alertou Laércia, ele pode estar fingindo e atacar vocês.

– Ele está sempre armado, lembrou Bete, toda encorujada de frio e medo.

Gegê caminhou até o local onde o homem continuava estatelado e Raul o seguiu com a lanterna acesa. A chama tremulava e precisou aproximar bem do homem caído para ver com nitidez sua cara esfumada pelo nevoeiro, de onde escorria um filete de sangue. Tomou um susto.

– Não é o Cabelo, murmurou.

Bete soltou um grito e o cocheiro encostou o ouvido no peito do homem.

– Tá vivo e daqui a pouco vai tá de pé. Podemos continuar a viagem.

Subiram na charrete. As duas moças os olhavam, apavoradas.

– Não é o tal bandido, disse o cocheiro. Eu conheço esse sujeito aí, é maluco de pedra e vive andando pelas estradas, assustando as pessoas. Tá cansado de levar coças por causa dessa mania de assustar os outros. Podemos ir.

– E Cabelo? indagou Bete.

– Sei lá, disse Raul, ele estava muito doente e depois da morte do amigo e do fracasso da tentativa de nos liquidar deve estar largado por aí. – ao tentar acalmar as moças tentava se acalmar também – Não ia sair de casa novamente com essa neblina para esbarrar em outro bicho. E ele não sabia a hora em que íamos sair. Vocês acham que ele ficaria, com esse frio danado, sentado na beira da estrada só pra nos esperar? Acho difícil. Ele é mau mas não é doido como o pobre coitado que se jogou na frente da charrete.

De volta ao balançar macio da charrete, Raul aproveitou a tensão do momento e passou o braço em volta dos ombros de Lalá. Ela se deixou ficar, quieta, se recuperando do susto e ele sentiu-se à vontade para perguntar:

– E quando o inventário terminar e for feita a partilha?

– Aí, você aqui vem pra mim cuidar de tudo. Quero que seja meu advogado.

Seu sorriso ampliou-se. Quero ser mais ele que isso, pensou, e vou ser. Não existe um só caminho para o coração das moças. Vou encontrar o meu.

A seu lado, Bete sorria de olhos fechados. Apesar do desencanto com o cavaleiro, a viagem de Lalá terminava bem, com uma nova imagem do seu pai e um tesouro que a tornava independente para o resto da vida, se tivesse juízo. E a nossa também, pensou, otimista, a amiga estava rica e se antes torcia para que namorasse seu irmão, agora é que ia fazer a maior força. E ela ia lhe dedicar todo o seu amor.

Laércia via a estrada escorrer, se dissipando na distância, e uma certa tristeza se juntava à euforia por ter tido sucesso na viagem. Nunca mais veria o cavaleiro encantado, isso era certo. Nunca mais aqueles olhos cariciosos pousariam nos seus, as mãos macias não mais segurariam sua cintura, nem a boca úmida se apertaria contra a sua. Nunca mais.

O braço de Raul trazia calor e segurança a seu coração. Gostava dele, confiava demais nele, queria ser sua amiga até o fim da vida, mas… só isso. Não se via casada com ele, tendo filhos com ele, embora tivesse certeza que ele seria um excelente marido e pai. Talvez, no final das contas, se casasse mesmo com ele, seus pais lá do céu aprovariam, os amigos ficariam alegres, Raul era considerado excelente partido para casar, mas não era Ribamar, seus braços não a apertariam com a ternura e a paixão de Ribamar, seu corpo…  sacudiu a cabeça com força para se livrar dos pensamentos. Estavam chegando.

Gegê ajudou-os a carregar a bagagem pela rampa da estação.

– Olhe quem está ali, falou Raul, mostrando com um esticar do queixo um homem todo embrulhado em panos, magro, sujo, olhos vidrados cravados neles, sentado num banco próximo ao guichê das passagens. Cabelo arfava e tossia sem parar e ao vê-los se ergueu com dificuldade, os olhos esbugalhados no esforço de respirar.

– Ele quer nos assaltar, disse Raul. Está com uma faca no bolso.

– Não, afirmou Lalá, segurando com força o braço do amigo, assaltar não, ignora que trazemos a fortuna de papai. Como antes, ele compreendeu que não vai botar a mão no tesouro e veio para tirar a minha vida, como fez com papai.

– Bete, enquanto me livro dele, para não atrasar, compre as passagens. Tome o dinheiro.

Ao ver Raul entregar o dinheiro à irmã os olhos de Cabelo Bom se arredondaram de ódio e, tentando correr, avançou em sua direção, tossindo sem parar, as mãos enfiadas nos bolsos, o que afetou seu parco equilíbrio e tropeçando nas próprias pernas, se estatelou no cimento, de bruços. Lalá e Bete gritaram, as pessoas que esperavam o trem espiaram, curiosas, e viram o homem soltar um jato de sangue pela boca.

– É a hemoptise, disse Raul, se afastem. É o fim da linha para ele.

Os passageiros recuaram, horrorizados, o chefe da estação cobriu a boca com um lenço e se aproximou do corpo inerte. A locomotiva se delineou no final dos trilhos, próximo da estação. Bete correu para o guichê e o cocheiro ficou junto às malas, de vigia. Tentando falar, tentando se levantar, tentando respirar, mas soltando golfadas de sangue escuro a cada esforço, Hélio Cabelo Bom, rosto torcido de dor, pavor e ódio, caiu pela última vez e ali ficou, no frio cimento, olhos arregalados para o trem que apitava, avisando sua chegada. O agente da estação virou o rosto, enojado.

– Morreu onde matou meu pai, disse Lalá, com os olhos marejados. A vida me vingou.

FIM

São João da Barra, 11 de outubro de 2010


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


%d blogueiros gostam disto: