Epílogo

Em seu bar vazio, um melancólico Eu olhava as palmeiras agitadas pela brisa noturna. Mais um ano terminava, um ano agitado, confuso, em que tivera alegrias e tristezas, esperanças e decepções. Soubera que Jaçanã não vencera o concurso de calouros. Em breve ela estaria de volta ao bar, cantando. Só com seu violão, por enquanto, sem a companhia de Arlete, de quem não tinha a menor notícia. Onde estaria ela? Por que não dava um telefonema, ela sabia que ele pagaria a ligação, por que não acalmava os amigos?

Pensar em Arlete fazia seu coração transbordar de angústia. Como uma criaturinha ingênua, sensível e machucada como Arlete poderia enfrentar a vida numa cidade grande, movimentada e desumana? Se tivesse um problema de saúde, quem a socorreria? Eu tinha conhecimento de diversos casos de pessoas que iam parar nos hospitais públicos, onde eram mal atendidas, morriam e eram enterradas como indigentes. As pessoas frágeis e inocentes como Arlete eram engolidas pelas grandes cidades. Simplesmente sumiam, evaporavam. E isso podia ter acontecido com ela. Do contrário como justificar que tendo viajado para lá há dois dias anterior ainda não desse qualquer notícia?

Arlete se precipitara. Ele não podia acreditar que Dinha fosse tão audaciosa a ponto de raptar a menina. Na certa foram apenas passar uns dias em Niterói, em casa de parentes. A menina estava em férias, que mal havia num passeio? Maldade fora não comunicar à sua mãe. Dinha parecia pensar que tudo podia e que Gracinha era sua. Ela decidira isso e pronto. Ela gostava de demonstrar poder e a menina era um excelente instrumento para isso. Arlete sozinha, tola, entrava no jogo da tirana e sofria.

Se eu fosse ela, pensou, depois que elas voltassem, entrava um dia na casa da Dinha, pegava a menina e levava pra casa. Quem poderia me impedir? Mas Arlete era uma pobre e tola mulher e por isso a outra abusava.

Debruçado na amurada, olhando o mar que espalhava cintilações a cada avanço do navio, Tijolo antecipava cada momento após seu desembarque no velho e querido cais. Que saudade! suspirou. Que vontade de rever Das Dores, inticar com ela, gostava de ver a bichinha brava, toda arrepiada como uma galinha de briga. Isso é um bom sinal, da raiva ao amor é um passo, é o que todo mundo diz. Chegando com dinheiro – só gastara com um presente que comprara em Salvador pra ela, uma pulseira cheia de balangandãs, de prata – podia levá-la a uma sessão de cinema, a um baile, a qualquer coisa que ela quisesse. Mulher nenhuma resiste a um homem com o bolso forrado de notas, ainda mais bem apessoado como sabia que era. Vou me casar com ela, decidiu.

Como um pateta, olhava as estrelas e sorria. Fora muito bem ter feito aquela viagem, conhecera lugares novos, fizera amizades que seriam proveitosas no futuro quando se estabelecesse. E voltava antes do que imaginara. Sua idéia era fazer mais algumas viagens assim, juntar o dinheiro e montar uma venda bem sortida. Até lá a guerra teria acabado – prouvesse Deus – e faria pequenas viagens ao Rio ou a Salvador para se abastecer, e com o tempo, quando se firmasse na praça, mandaria apenas os pedidos e as firmas entregariam no seu estabelecimento, como vira ser feito nessa viagem. Dera muito duro carregando sacos, latas, caixotes e fardos, aprendendo como se lidava com eles, como eram feitos a encomenda e o pagamento, estava quase pronto para tocar seu negócio, com Das Dores ao lado, claro. Ela pode me ajudar no balcão, ficaria livre de lavar roupa na beira do rio.

Por falar nisso, se perguntou, será que ela ganhou o concurso de calouros? Tomara que não, senão vai ficar mais besta e insistir nessa idéia maluca de tentar carreira no Rio. E aí…nosso casamento vai pra cucuia.

Verônica cortou um pedaço de bolo, separou um bocado com os dedos e colocou-o na boca. Pela ampla janela da copa-cozinha o céu se mostrava em todo seu esplendor noturno, pontilhado de mil estrelas.

– Daqui a pouco, disse ela a Zerli, que enchia sua xícara de café, vão começar os foguetes. Mais um ano que se inicia. Espero que seja melhor que esse. Mas com mamãe nesse estado…

Zerly cortou seu pedaço de bolo.

– Será que ela vai ficar boa?

Uma sombra de tristeza cobriu o rosto de Verônica.

– Não. O médico disse que o caso dela não tem jeito. É daí pra pior. Não há nada que a medicina possa fazer, isso é duro de ouvir.

Zerli a olhou e viu o belo rosto sulcado pelo desânimo. Ousou perguntar:

-E quanto tempo cê acha…

Verônica não esperou que ela concluísse a pergunta:

– Diz o médico que ela pode viver um dia, um mês, um ano, dez anos, só Deus sabe quanto. Sua voz se embargou. Pobre mãezinha, reduzida a isso.

– Vai ser um ano triste.

– Em compensação, teremos uma criança na casa. É a vida que se renova.

Por um instante Zerli visualizou a cara torcida de Otto, seus olhos arregalados pela surpresa, os braços se movendo desordenados, o desequilíbrio de seu longo corpo e o mergulho entre as flores lilases dos aguapés. Uma vida se foi, pensou, outra vem. E tudo por mim. Sorriu, tristonha.

– Pensei muito e resolvi que quando ele tiver desmamado, disse ela, vou deixar ele com você de vez e voltar pra minha casinha.

– É seu filho, Zerli.

– Ele me lembra o Otto, eu não quero ficar por perto dele, não quero me lembrar.

Verônica imaginou que o abandono de Otto deixara feridas profundas no coração de Zerli. Quando Atilano a deixara sentira raiva de tudo e de todos, todos pareciam ter contribuído para que ele a abandonasse. Custou a superar a separação. Entendia o que se passava no coração da empregada. E se o Otto voltasse?

– Olha, Zerli, você me deu a criança, vou registrá-la em meu nome e no do Atilano, como se fosse nosso filho. É uma coisa que Atilano não pode me negar. Se não topar, nunca concordarei em me separar oficialmente dele e ele não poderá pedir o desquite e assumir a nova família. Seu filho será nosso filho e nosso herdeiro. Não abro mão disso. Por isso é bom você pensar melhor antes de me dar a criança. Mesmo que Otto volte…

Zerli a interrompeu:

– Ele não voltará.

– Como você sabe?

– Meu coração me diz. Depois, ele não quis esse filho. Ele é seu. Só quero é voltar pra minha casinha depois que esse tormento tiver acabado.

Verônica hesitou um pouco antes de falar:

– Sabe, Zerli, também andei pensando, a usina quer comprar minhas terras e estou pensando seriamente em vendê-las. Mamãe doente, não sei se poderei um dia voltar pra fazenda. Os homens da usina me telefonaram essa semana, insistem em comprar as terras.

Zerli se assustou e interrompeu o gesto de levar o pedaço de bolo à boca:

– E eu? A gente não tinha combinado que a casinha seria minha?

– Calma, você não será prejudicada. Vou dar sua parte em dinheiro, você abre uma poupança, continua a morar aqui e garante seu futuro. Como Corisco não tem pai nem mãe, também vou trazer para viver aqui comigo.

– Acabei de dizer que não quero morar com a criança, você pode arrumar uma pessoa para cuidar dela. Se me der minha parte em dinheiro vou comprar uma casinha na cidade, bem perto do rio. Estive lá uma vez. Gostei muito de ver os navios chegando e saindo, os trens, aquele burburinho. Gosto de ver gente, conversar. Depois arrumo um emprego lá mesmo, numa casa de família, e vou viver minha vida. De vez em quando venho visitar ocês.

Verônica a olhou com intensidade, a decepção estampada no rosto.

– Por mais que faça, não consigo aceitar sua rejeição à criança, Zerli. Entendo que esteja sofrendo, mas ela não tem culpa.

Zerli olhou para a janela. Milhões de estrelas piscavam e entre elas surgia o rosto contorcido do Otto. No seu olhar claro, além da surpresa, Zerli viu ironia, como se ele a estivesse gozando por causa do filho. Como ele pretendia, ela não ficaria com a criança.

– Não se preocupe com isso, Verônica, vai dar tudo certo. Só quero que cuide bem do neném.

– Ah, quanto a isso. Ele terá a vida de um rei, frequentará as melhores escolas, terá tudo que meu filho teria, porque passou a ser meu filho.

Zerli olhou para figura distorcida entre as estrelas e murmurou, mais para si mesma: nosso filho não será um macaco, como você disse. Será um homem e será feliz.

Louro ajeitou-se sobre o telhado do trapiche, ajustou a mira do poderoso canhão que o Exército lhe emprestara e mirou o destróier que singrava pelo meio do rio. Um tiro só, bem acertado, e o vaso de guerra partiu-se em dois. As aves aquáticas se assanharam em revoada, descontroladas pelo susto. Metade da tripulação do destróier se afogou. Da margem o pessoal do cais gritava e aplaudia. O restante dos marinheiros alemães nadou em direção à ilha, mas pegando da metralhadora que estava a seu lado, no telhado, Louro fez pontaria e caçou um por um.

Gau se aproximou, cenho franzido:

– Que isso, endoidou? Tá atirando com os dedos nos pobres do miuás? ironizou.

Louro ficou corado. Riu sem graça e murmurou:

– Tô realizando meus sonhos. Manoel de Sabina me contou que deu na Rádio que os americanos estão vencendo a guerra e que ela não dura mais que um ano. Será? Fez uma cara triste. Deve ser conversa fiada, né não? Eu quero ir pra guerra e só posso me alistar daqui a dois anos. E se a guerra acabar no ano que vem?

– Cê fala, fala, mas na hora de ir embora…e sua família, seus irmãos? Sem ocê vão tudo morrer de fome.

– Penso sempre nisso, fico preocupado, mas Deus dá um jeito. Eu tenho que viver minha vida, Gau. Cê acha que a guerra acaba mesmo no ano que vem?

– Pra mim tanto faz como tanto fez, quero distância de guerra. Ocê tá é variando das idéias. E fica aí, que nem um maluco, atirando de mentira nos miuás.

– Não era nos miuás que eu tava atirando, Gau, era num navio de guerra alemão. A gente tem que realizar os sonhos de alguma maneira.

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