Capítulo 9

Na tarde dolente, ensolarada, Otto sentia-se bem melhor. Sentou-se na cama, abriu sua mala e tirou roupas. Já podia pelo menos vestir calça e cueca. Ia se sentir menos constrangido diante da bugra. E o que o intrigava e contrariava todas as informações que tinha sobre o caráter dos mestiços, é que ela não parecia nada interessada em sexo, apesar de lavar cuidadosamente seu corpo. Não sou um homem feio, muitas e muitas mulheres já se interessaram por mim, por que ela nem me olha com desejo? Não sou um tipo musculoso, mas tenho um bom corpo, sou alto, desempenado. Tá certo que nesse momento estou meio abatido, a pele avermelhada demais, mas acho que ainda sou um tipo que interessa às mulheres. Por que não à Zerli? – esse era o nome da cabocla.

Otto sentia-se praticamente recuperado. O corpo não ardia nem doía e já andava com certa facilidade, sem sentir a pele repuxar a cada movimento A única coisa que o incomodava era o ofuscamento ao sair para o sol. O excesso de claridade da região sempre o incomodara. Por isso passava a maior parte do dia em casa, mexendo nas suas coisas, tentando relembrar como chegara ali e fazendo planos.

O dia da sua fuga ainda lhe aparecia um tanto embaralhado. Naquela madrugada decidira sair da cidade não pela estrada onde, apesar do cedo da hora, poderia encontrar alguém que mais tarde se lembraria e poderia informar seu rumo aos caçadores de espiões. Havia sempre um madrugador transportando feixes de lenha nas laterais da sela ou legumes e galinhas nos jacás de cipó. Era o povo da roça que vinha vender seus produtos na cidade e chegava bem cedo para atender à freguesia. Todos muito curiosos, faziam muitas perguntas, devia evitá-los. Seguindo por ruas silenciosas atravessara os trilhos da estrada de ferro em busca de uma trilha que sabia que ia sair na praia. Era estreita, com alguns buracos, mas à medida que o dia clareasse poderia seguir sem risco de se enganchar nos espinhos ou esbarrar com algum animal perigoso. Assim foi até que ouviu latidos de cachorros que se aproximavam. Teve medo que fosse a concretização de seus temores, imaginou que era a polícia com cães para farejar seu rastro e esporeou o cavalo. É provável que na sua ansiedade tivesse apertado demais a espora na ilharga do animal, que relinchou, deu um pinote e disparou pela trilha.

Galhos finos e com espinhos lanharam seu rosto e o chapéu de palha caiu em algum ponto do caminho. Preciso parar esse bicho, pensou assustado, enquanto tentava inutilmente puxar as rédeas, e voltar para pegar o chapéu. Não podia deixar marcas de sua passagem. O animal, insensível ao freio, por certo ainda surpreso com a ferroada brutal que acabara de sofrer, continuou em sua disparada louca. Parte da manga do casaco bege que usava ficou enganchada nos espinhos. Em seguida viu a camisa ser rasgada pelos gravetos, deixando pedaços de sua pele sensível expostos ao sol.  Quase deitado sobre o pescoço do animal, gritava em alemão, em português, em espanhol, xingava, praguejava e nada do animal se deter. Não sabia mais o que fazer.

Atravessou toda a trilha botando os bofes pela boca, como dizia o povo, coração acelerado pelo medo, até desembocar numa área de brejo, onde o cavalo, num estacão, o jogou dentro dágua. Aliviado, ao mesmo tempo que irado, as roupas encharcadas, os arranhões ardendo, não resistiu ao ver o cavalo, mais adiante, descansadamente, beber água do brejo.

– Desgraçado, gritou, quase me mata e depois fica aí a se refrescar. Eu te mostro o que é bom. E ameaçou-o com o punho.

Seus olhos deram com um pedaço de pau seco emergindo da água lodosa. Não hesitou, pegou-o e avançou sobre o animal. Refeito e dessedentado, mas arisco, o cavalo percebeu a ameaça, recuou alguns passos, voltou ao rumo anterior e disparou.

– Volte aqui, miserrável! gritava Otto, chapinhando na água e brandindo o pau.

Bufando, os músculos tremelicando sob o pelo luzidio, o cavalo entrou por uma vereda lateral, mais estreita. Os jacás carregados com suas coisas se prenderam nos galhos e interromperam a corrida louca, o que fez o animal retornar bruscamente, esbarrando nele, que estava a ponto de alcançá-lo, jogando-o sobre uma moita de urtigas. Otto berrou. As partes descobertas de seu corpo se puseram a arder e a coçar, e levantou-se num pulo, urtiga ardia pra valer. Que inferrno, murmurou. Eu mato esse infeliz! Sempre assustado, o cavalo correu pelo descampado coalhado de poças dágua em direção à praia que já se avistava. A pele de Otto empolava por efeito do toque das urtigas e do sol. As roupas estavam reduzidas a farrapos. O fogo dos infernos lambia seu corpo.

Manquejando ligeiramente e se coçando furiosamente, Otto seguiu o cavalo. Se para o animal a distância era curta, para ele era uma imensidão que tinha de atravessar sob um sol que inundava a terra de uma luminosidade cegante. Seus olhos claros, sem a proteção do chapéu e dos óculos escuros, se apertaram até se transformar numa linha de pelos louros. Não fazia idéia do que havia acontecido com seus óculos nem se se lembrara de levá-los.

Nem pensara em parar, não podia e não devia, tinha que pegar o maldito cavalo para sair daquele inferno luminoso. Procurou apertar o passo, mas numa das quedas havia torcido o tornozelo e ficar em pé doía muito, que diria caminhar ou correr. Mordendo os lábios finos, sentindo o sol esquentar a cada minuto, seguiu o animal, cuja silhueta mais adivinhava que via. Tudo estava saindo errado.

O cavalo diminuíra a marcha, seguia calmamente, mordiscando as parcas ervas e tufos de capim que encontrava pela restinga. Otto buscara na borda do mato um mínimo de sombra, mas as árvores da restinga não lhe davam cobertura suficiente. Suando por todos os poros, arrancou o que restava do casaco. Na pele clara de suas costas o sol batia com vigor, acentuando os vergões causados pelos galhos e espinhos. Enrolou a camisa em volta do pescoço, deixando que uma parte do pano cobrisse seu dorso e continuou caminhando. Devagar, arfando, se aproximou lentamente do animal, que parecia ter se esquecido de sua existência. Ao vê-lo se aproximar, porém, se afastou.

– Droga, berrou, pára quieto!

Por quanto tempo caminhou ao sol? Horas? Dias? Uma eternidade. Que tempo seria necessário ficar sob o sol ardente para sua pele ficar vermelha como um pimentão, repuxando-se a cada movimento? Não dava para calcular. A sede o atormentava, o cantil com água estava preso na sela que o cavalo levava sempre para cada vez mais distante. A boca seca parecia que ia rachar. O sofrimento era intenso e crescia a cada passo. A pele empolava toda, o olhar turvava e a última cena de que tinha consciência era ter chegado tão perto do cavalo que pode tocar sua sela com a ponta dos dedos. Depois, a escuridão.

Só em se lembrar Otto sentiu os olhos cheios dágua. Tinha atingido seu limite. Padecera além da conta na fuga. Não saberia dizer como montara no animal nem como chegara ao casebre de Zerli. Perdera a consciência, sem dúvida. Vagara por aquela praia deserta, pelo meio da restinga, por trilhas e estradinhas sem saber o que fazia, desmaiado no lombo do animal. O cavalo o conduzira até ali, também sedento ou cansado de suportar seu peso morto. De alguma forma ele se redimira e o levara até à casa da bugra bondosa.

Arlete sentou-se na cama e arriscou um olhar ao relógio preso na parede. Meio dia em ponto. Acordara com o som dos sinos. Que porcaria, queria dormir mais, se esquecer de tudo, queria mergulhar no sono mais profundo do mundo. Ah, minha filhinha, sem você mamãe não sabe viver, não vê graça na vida, é melhor morrer. Mas se eu morrer, Dinha vai ficar com você para sempre. Eu não quero, minha filha é minha. Maldita Dinha, maldita a hora em que lhe entreguei minha filha para cuidar!

Deitou-se novamente e enfiou a cabeça no travesseiro, soluçando. Dinha calculara tudo. Nunca pode ter filhos, vivia enchendo minha filha de presentes, de agradinhos, tudo para conquistá-la. Deve ter ficado feliz quando Afonso adoeceu, percebeu que era sua chance de pegar a menina. E eu, burra, nem desconfiei de suas intenções. Ah, se arrependimento matasse!

Pôs-se a socar o travesseiro.

– Ah, que arrependimento! Ah, como fui boba, meu Deus! A desgraçada fez tudo de caso pensado, viu que Afonso ia morrer, meu Deus, que criatura má! E eu pensando que era minha amiga! Não se pode mais confiar em ninguém, se lamentou alto.

Louro passara todo o dia capinando o quintal da casa da velha. Não pelos tostões que ela prometera lhe dar, mas porque não tinha para onde ir. Se fosse para casa teria de aturar as reclamações da mãe, as brigas dos irmãos e os gritos do pai, caso aparecesse por lá. E não se sentia com ânimo para isso. Na noite anterior quase voara no pescoço daquele porrista imundo, que mais uma vez dera uns safanões na sua mãe. Queria dinheiro para beber, o desgraçado, o contado dinheiro das roupas que a mãe lavava.

– Você só sabe botar filho no mundo, gritara ele, dinheiro que é bom, nada. Gasta tudo para encher a pança desses fedelhos fedorentos. Eu preciso de dinheiro, merda! Preciso de dinheiro senão vou quebrar tudo aqui dentro. Cadê o dinheiro da lavagem?

– E quem é que faz filho em mim, seu pinguço?

Sentado no quintal, junto à porta da cozinha, Louro fervia de ódio. O vagabundo, beberrão, maltratando sua mãe. Vai procurar trabalho, rosnou entre dentes. Nesse instante ouviu o barulho de alguma coisa batendo forte no chão, entrou na cozinha e viu a mãe caída e o pai avançando sobre ela. Embolados na porta do corredor, os irmãos choravam. Louro avançou como um cego e empurrou o pai com toda sua força. Ele caiu entre as crianças, que se afastaram aos gritos. A mãe tentou segurar a perna de sua calça, soltou-se, e com as mãos tremendo avançou para a garganta do pai. Não fosse o Zé Ramiro ter aparecido naquele momento, atraído pela gritaria dos irmãos, e o teria estrangulado. O ódio e a revolta lhe davam forças.

Só de pensar na cena sentia o corpo se contrair de ódio. Por quanto tempo suportaria aquilo? Até quando aquele bebum ia infernizar a vida da família?

A mãe devia ter mandado um recado para a velha que o recebera com um ar de pena e lhe dera a tarefa de capinar o quintal.

– Não quero nem uma folhinha no chão, dissera ela, com disfarçada ternura.

Já podia ter acabado, os pulsos doíam com o peso da enxada, mas enrolava o que podia para ficar ali. Se não, pra onde iria? Para o cais? Adorava ficar horas no cais, sentado, vendo os peixes saltarem fora dágua, olhando as embarcações, o movimento de carga e descarga, ouvindo as conversas do povo, divertindo-se com suas brincadeiras, mas temia que Gau aparecesse com uma nova proposta de roubo e não queria mais fazer isso, se fosse preso a mãe ficaria sozinha, entregue à sanha do pai. Não, melhor ficar por ali mesmo, arrancando a menor folha de capim.

Tijolo aguardava na esquina do beco e quando Das Dores passou, bela e sensual, andando sestrosa com a bacia cheia de roupas secas na cabeça, e sempre cantando, a acompanhou bem de perto. Não parara de pensar nela desde que acordara.

– Ih, não sou defunto para ser acompanhada, reclamou ela.

– Se você fosse um defunto eu queria ser sua cova, minha nega.

– Não estou pra prosa, disse ela aborrecida, e não sou sua nega. E se pôs a cantarolar enquanto caminhava meneando os quadris ao ritmo da música.

– Não me maltrate, minha flor. Quer que eu tenha um troço e caia duro no chão?

– Nada seria melhor que isso, riu ela. Eu não ia nem parar pra ver. Não tem nada pra fazer não? Que cara chato!

– Tenho. Agarrar você, apertar bem apertadinho, cobrir sua boca de beijinhos!

– Sai pra lá, urubu.

Chegaram à esquina seguinte. Ela parou, esperando a passagem de uma carroça. Ele a segurou pelo cotovelo.

– Me solta, estrepe. Se essa roupa cair no chão…

– Eu cato tudo e lavo de novo, disse ele, ardoroso. É uma pena uma moça tão linda, com uma voz maravilhosa como você, perder o tempo lavando roupa pros outros.

– Preciso comer e vestir, não sou malandra que nem você. Ah, e vai dando o fora, vai. Que foi que fiz a Deus para ter que agüentar esse tisgo?

– Um dia cê ainda vai implorar pelo meu amor, gritou ele, ao vê-la se afastar quase correndo. Essa mulher me enlouquece.

A tarde caía suave, ouro e sangue se espalhando pelo céu e manchando as águas do rio. Bandos de garças cruzavam o céu. Um navio apitou ao longe. Alberto chegou à janela do escritório, as mãos sobre os rins e o rosto contraído. Mais uma noite chega, pensou, mais caminhadas pelas ruas vazias. Se eu pudesse acabava com as noites.

Em sua casa, após dar banho nas crianças, Zuca foi a seu quarto, passou um pouco de pó no rosto, ajeitou a roupa e foi até à cozinha.

– Cê acha, Xixa, que estou bem?

A outra a olhou rapidamente e continuou a lavar os pratos. Na sala as crianças brincavam e a neném choramingava.

– Tá. Nada mau.

– Poxa vida, Xixa, que coisa. Eu queria um elogio. Eu sei que não sou bonita como a falecida, mas também não sou de se jogar fora, não acha? Ainda tenho meus encantos.

– Não é de mim que você quer ouvir elogios, criatura. Bota um pouco de juízo nessa cabeça de vento.

– Não sei do que está falando.

– Sabe sim, sua sonsa, conheço você desde os tempos em que era mocinha. Toma juízo.

– Ih, você continua a chata de sempre. As pessoas não podem se cuidar não, é? Vou lá pra sala olhar as crianças e esperar Alberto chegar.

Capítulo 10 >>

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


%d blogueiros gostam disto: