Capítulo 8

Na manhã radiosa o vento brando empurrava a vela do batelão no meio do rio. Uma garça, imóvel, observava a água barrenta. Na ilha em frente bois pastavam, indiferentes aos barulhos vindos das embarcações. A caminho do trabalho, Alberto conversava com o Souza, um de seus funcionários.

– Pois é, pareço um maluco, andando pelas ruas, de noite, sem rumo, qualquer dia desses vão dizer que viro lobisomem ou sou um dos encaretados. Fico andando a toa, vendo as casas com as janelas fechadas, imagino os casais felizes, conversando, trocando carinhos, os filhos brincando e eu vagando feito alma penada. Não mereço isso, Souza, não acho justo que Isabel tenha morrido daquela maneira, tão nova, tão cheia de alegria, uma mulher maravilhosa. Não me conformo. Aí, ando, ando, até ficar exausto. Volto pra casa, bato na cama e durmo. Por quanto tempo vou agüentar isso?

– Acho que o senhor precisa de arrumar uma mulher, ousou dizer o funcionário.

Alberto não se aborreceu. Disse apenas:

– Mulher pra mim só existiu uma. Existiu não, existe, ela continua a viver dentro de mim.

Tijolo Velho saltou da cama, espreguiçou-se lentamente, uma baita ereção a esticar a calça do pijama como lona de circo. Na noite anterior não encontrara uma mulherzinha para tirar o atraso. Tomara uns tragos no Eu e se metera na cama. Preciso me casar, me amigar, sei lá, encontrar uma mulher pra ficar comigo, tô cansado dessa vida de cigano, come aqui, dorme ali, roupa suja se amontoando, a casa precisando de uma boa limpeza. Levantou-se e tornou a se espreguiçar.

Vou tomar café na venda do Lula, depois vou ver se arrumo alguma coisa pra fazer e ganhar uns tostões. Com esse vento é possível que alguma prancha apareça. Mindinho, que ajudava descarregar os latões de leite, tinha ficado uns dias de cama, com febre, mas já voltara a trabalhar, portanto nada a esperar dali. Quem sabe não vou pescar? pensou. Vou ver se Eraldo me empresta o bote.

Fechou os olhos quando deu com a luminosidade violenta da rua. Quando os abriu viu Das Dores caminhando com a bacia na cabeça, os quadris redondos balançando ritmadamente. Taí uma mulher que me agrada. Tem tudo que eu gosto e é trabalhadeira. Mas é cheia de história, quer ser cantora, ir pro Rio. Coitada. vive de ilusão.

– Ô, Das Dores!

Ela o olhou de soslaio e continuou caminhando. Ele a alcançou.

– Tá sumida, minha nega.

– Eu não sou sua nega, respondeu de mau humor.

– Não é porque não quer, já disse. Com você faço qualquer negócio, monto casa, dou comida e roupa lavada. E muito carinho.

– Com que grana? Vai te catar, Tijolo.

– Cê inda vai se arrepender de tanta soberbia.

– Eu? Tá bom. Coisa muito melhor do que você botei pra correr. Vê se enxerga, homem. Não tem onde cair morto e ainda quer manter uma mulher. Cai fora, muriçoca.

– Deixa estar, jacaré, a lagoa há de secar.

Com dinheiro no bolso, Louro não fora dormir na casa da velha. Embora Gau tivesse ficado com a maior parte, o que lhe coubera dava pra ajudar bastante em casa. Mas não podia entregar tudo de vez à mãe, na certa ela ia desconfiar, a velha nunca era tão generosa. E também ela podia não resistir aos pedidos de dinheiro do pai. Separou uma parte pequena, guardou o resto no fundo do quintal, debaixo de umas telhas quebradas. Ia tirar aos poucos, na medida da necessidade.

Não fora difícil roubar a carteira do velho sovina. Seguindo as instruções de Gau, rompera pela cerca e caminhara cautelosamente, pé ante pé, até à casinha. Ficou um instante ouvindo o rumor da água que o velho jogava sobre o corpo com um caneco. Num minuto pegou a carteira, correu de volta e foi ao encontro de Gau, que pegou a carteira, tirou as notas e jogou-a num canto.

– Vambora, sussurrou, no caminho a gente divide a grana. Mas devagar, um de cada lado da rua, pra ninguém desconfiar. Lá no cais, no lugar de sempre, a gente se encontra.

Louro atravessou a rua e seguiu em frente. Gau dobrou na primeira esquina. Fora tão fácil desta vez, seu coração não batera forte como da vez da prancha. Suas mãos nem tremeram. Será que tenho instinto mau? Sacudiu a cabeça com força. Não, tenho é um pai pinguço e irmãos com fome. E depois o velho tem dinheiro guardado, o que tiramos não vai lhe fazer falta.

Quando, discretamente, Gau lhe estendeu as notas, estranhou:

– Ei, não era metade pra cada um?

– E é. Olha só, meu maço é igual ao seu. Pode contar.

– Peraí, não tinha só essas notas não, tinha mais.

– Então me revista, vê se tenho alguma coisa? Revirou os bolsos da calça. Vazios.

Louro botou as notas no bolso na certeza de que mais uma vez Gau o passara para trás. Sacana, murmurou, um dia cê me paga. Com juros.

Zuca observava a empregada arrumar a mesa. Era uma negra gorda, que andava com dificuldade, mas desempenhava suas obrigações a contento. Estava com eles desde o tempo em que eram solteiras, quer dizer, desde o tempo em que Bebé era solteira, se corrigiu. Pessoa de inteira confiança, como se fosse da família.

– Xixa, o que cê acha que o Alberto faz o que quando sai à noite?

– Sei não, Zuca, dizem que anda por aí sem rumo que nem um maluco. Ele gostava muito da Bebé, ainda não se conformou com a morte dela. Mas um dia isso passa.

– Fico tão nervosa com essa atitude dele. Nessa friagem, ele pega uma fraqueza.

– Bate na boca, Zuca. Ele só tá cansando o corpo. Daqui a pouco isso passa.

– Sei não, noite dessas estive pensando, será que ele arrumou alguma mulher? É um viúvo novo, bonito, com boa situação financeira. E tem tanta moça solteira nessa cidade onde os homens não param.

– Que nada, seu Alberto gostava demais da Bebé, tão cedo não vai ter olhos pra outra mulher. E depois, se arrumar alguma, o que se pode fazer? É a lei da vida, viúvo é quem morre.

– E quem vai querer um viúvo carregado de filhos?

Xixa lançou-lhe um olhar malicioso.

– Sei de gente que tá morrendo de vontade, respondeu com azedume.

Capítulo 9 >>

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