Capítulo 7

Debruçada na sacada Zuca olha a noite. Está apreensiva. Por onde andará Alberto? A temperatura estava caindo, ele saíra só com um casaco leve, podia pegar uma pneumonia. Daí para uma fraqueza nos pulmões era um pulo. Pra onde ele terá ido? Não é possível alguém andar tanto tempo na rua sem ter nada para fazer. Será que deu pra beber? Ou jogar? Será que arrumou mulher? O que deu nele?

Seu coração apertava e o cérebro fervilhava. Só pensava em besteiras, que coisa! Gostaria tanto que ele estivesse em casa, sentado na cadeira de balanço, brincando com as crianças, como no tempo de Bebé. Será que ele nunca vai conseguir esquecê-la?  Tá certo que se amavam, eram felizes, mas ela havia morrido, a vida continuava, as crianças precisavam dos cuidados e carinhos que só um pai pode dar.

A brisa arrepiou os pelos do seu braço e a aflição aumentou. Preciso dar um jeito de segurar Alberto em casa, decidiu. Ou ele vai acabar adoecendo.

Sentada no banco da praça, Arlete toca sua flautinha. Os pensamentos ruins de sempre dançam por entre as notas singelas. A filha, principalmente, é sua obsessão. Pensa nela 24 horas por dia, sofre com a saudade, chora. Tão perto e tão distante.

Naquela tarde, mais uma vez, tentara vê-la. Só queria ver, estava disposta a renunciar a seu direito de abraçar e beijar a menina, passar a mão por seus cabelos, pelas suas roupinhas, até que Dinha se convencesse de que não estava doente, que não representava perigo para a criança. Queria apenas ver se a filha estava bem, se lhe faltava alguma coisa, se sentia saudades suas. Dinha não permitira. Nem sequer a deixara subir a escada, a empregada mantivera a porta fechada até que ela descera, séria, muito bem penteada e cheirando a sabonete.

– Por favor, Arlete, não insista, dissera às suas primeiras palavras. Você sabe o quanto é arriscado ter contato com a menina, deixa passar mais um tempo. Em breve ela voltará a viver com você. Mas por enquanto, não se aproxime dela. Não deixe que esses bacilos que mataram Afonso invadam aqueles pulmõezinhos. Ela é tão novinha e frágil. Você não pode ser tão egoísta assim. E pelo que eu sei, você está sem dinheiro até pra comer. Como vai dar comida a ela? Você mesma deve estar com fome, sei tudo o que se passa com você. Olhe aqui, tome isso, enquanto o açougue não é vendido você vai precisar de algum dinheiro, tome aqui, depois você me paga. Quer mais alguma coisa, um pão, ou prato de comida? É só pedir.

– Eu não quero dinheiro nem nada, Dinha, quero minha filha. Ainda tenho um pouco de dinheiro, juro, ela não vai passar falta de nada. E logo, logo, vou estar bem. Só falta o juiz autorizar a venda do açougue, na semana que vem ele vai dar o alvará.

– Bom, quando isso acontecer…

– Me deixe, pelo menos, ver Gracinha, dizer uma palavrinha à minha filha! rogou, chorosa.

– Você é mesmo irresponsável e egoísta, né, Arlete? Sempre foi assim, seus sentimentos em primeiro lugar, os outros que se danem, mesmo que seja sua filha. Que coisa feia! Sua filha está ótima, sadia, é bem tratada, tem tudo do bom e do melhor, não vive pedindo pra ver você, por que perturbá-la? Não seja cruel com ela.

– Mas, Dinha…

Antes de bater a porta na sua cara Dinha respondeu, de cenho fechado:

– Nem mais nem meio mais, Arlete. Quando você estiver em condições, sadia e podendo se manter, eu entrego a menina com o maior prazer, afinal não é minha filha, é só minha afilhada. Imagine se vou deixar a minha querida menina passar fome, não ter um casaquinho para se proteger do frio e acabar se contaminando. Não mesmo, não insista, e por favor, Arlete, vá embora, está entardecendo, a menina está brincando no quintal, não posso deixar que pegue sereno, é uma criança frágil, filha de pais doentes.

Eu, o gordo Eugênio Vilanova, caminhava de volta para casa, desalentado. Amanhã também não vou abrir, decidiu, só vai ter navio no cais na quinta-feira e nenhuma prancha deve chegar por esses dias. Os negócios estão cada vez piores, concluiu. Os marinheiros, quando chegavam, se metiam nas casas das mulheres, que limpavam seus bolsos. Seu bar, além de ficar um tanto distante do porto do mercado, só oferecia comida gostosa, bebidas decentes e o som do seu violão. Os marinheiros gostavam de sua comida, mas reclamavam da demora no servir. Não tinha como fazer tudo ao mesmo tempo, ou servia a comida e bebida ou tocava. Se as coisas melhorassem pretendia contratar uma cozinheira, talvez um garoto para servir as mesas, mas do jeito que as coisas andavam… Cada dia mais gente ia embora da cidade e menos navios aportavam.

Um fiapo de música surgia e desaparecia no ar, de acordo com o vento. Eu, a princípio alheio, preso a seus soturnos pensamentos, pôs-se a prestar atenção. De onde vem esse som? se perguntou. Apenas uns batelões dançavam na água escura, dormidos, e não podia vir dali. Continuou a andar, tentando localizar a origem da música que lhe soava bem. Violão não é, pensou, nem cavaquinho. Não é sanfona, será banjo? Uma música suave, melancólica, gostosa de ouvir. Música boa para levar para seu bar, música para fazer marinheiro sonhar, lembrar da amada, chorar de saudade da família. E beber um pouco mais. Preciso descobrir quem está tocando essa música. Preciso de mais uma atração para o meu bar.

Ao chegar à praça a música ficou mais nítida e mais interessante. Excitado, apertou o passo e viu, sentada num banco, perto de um cachorro adormecido, a mulher tocando um instrumento. Mais alguns passos e viu que era a viúva do Afonso do açougue e tocava flauta. Nem pensei em flauta, comentou para si mesmo. Bonita e pequena, a mulher ficara viúva há pouco tempo. O que fazia ali na praça, assim de noite, tocando uma flauta? Será que endoidou?

Olhos fitos no cão, ela não percebeu de imediato quando Eu parou, sorrindo de prazer, a pequena distância, o corpo roliço apoiado nas pernas abertas, os braços apertando contra o peito o embrulho com as sobras de alimentos do bar. Quando ela acabou, ele deu um suspiro de satisfação e ela o olhou, assustada.

– Linda música. Onde aprendeu a tocar tão bem?

– Com o profess…oi, Eu, é você, que susto! Estou tocando para me distrair, estava tão sozinha em casa.

Ele se aproximou.

– Adorei sua música, não sabia que tocava bem assim.

– Obrigada, Eu. Sentiu o rosto ficar vermelho. Foi Afonso que me deu a flauta, ele sabia que eu gostava de tocar…por isso toco em homenagem a ele, não estou me divertindo.

– Que isso, não estou pensando nada demais, sei que você deve estar sofrendo muito.

Ele sentou-se a seu lado.

– Dá licença. Eu também gosto de tocar, e sei que os artistas expressam melhor sua dor através da música. Eu vinha andando, pensando justamente…você não gostaria de tocar no meu bar? Eu pago.

Ela suspirou

– Bom seria, mas estou de luto Eu, não posso. Ando tão precisada de dinheiro que você nem imagina. Estou esperando o inventário terminar, enquanto isso não posso vender nada, nem alugar, estou cheia de dívidas, até pra comer…

– Então? Vá tocar no bar. Você ganharia um dinheirinho. Não posso pagar muito, as coisas andam feias, mas sempre é uma ajuda. Pelo menos até o inventário ficar pronto.

– Não sei, além do mais sou muito encabulada, toco aqui porque não tem ninguém por perto, quando vejo alguém lá longe guardo a flauta. Só quem me escuta é este cachorro. E depois, o que o povo não vai dizer me vendo tocar num bar? Uma viúva desfrutável é que vão dizer, não vão querer nem pensar nas minhas dificuldades. Não vai dar certo não, Eu.

– Não ligue pro que esse povo fala. Quem bota comida em sua mesa? E você tem uma filha, não tem?

Os olhos dela se encheram dágua.

– Nem me fale nisso, Eu. Por causa dela tenho chorado mais do que pelo falecido Afonso. Se eu te contar…Sou uma desgraçada.

– Não sei o que aconteceu com a menina, está doente também?

Já chorando Arlete desfiou pra ele toda a história de Gracinha e Dinha.

– A Dinha é uma boa mulher, disse ele, embora um pouco dura. Mas realmente ela não tem o direito de ficar com sua filha. Quer que eu vá falar com ela?

– Você me faria esse grande favor? Depois a gente conversa sobre tocar no bar, tenho de deixar passar o tempo do luto.

– Tá bom, mas vamos dividir essas coisas de comer que tenho aqui? Foi o que sobrou hoje do bar, deu poucos fregueses. Aceita? Também ainda não jantei.

Capítulo 8 >>

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


%d blogueiros gostam disto: