Capítulo 6

Na madrugada da descoberta dos espiões, lembrou-se Otto, depois que não ouviu mais qualquer rumor, ele levantou-se, pegou suas coisas, fechou a porta com cuidado e caminhou sem fazer ruído pelas ruas até à cocheira onde guardava seu cavalo. A casa do dono da estrebaria ficava um pouco distante e ninguém o ouviu selar o animal, colocar seu material nos jacás e partir. O cachorro que tomava conta o conhecia e se limitou a lhe cheirar as pernas.

Nas poucas horas de sono agitado padecera de terríveis pesadelos onde se via preso, escarnecido pela população, algemado e levado para alguma prisão onde sofria maus tratos. Exatamente como fora alertado por seus treinadores e preparado para resistir. Seria torturado até contar o que viera fazer ali. Estava pronto para tudo, era duro na queda, não abriria a boca para dizer nada sobre sua missão, continuaria a afirmar que era um aquarelista que fugira da Áustria por causa do avanço do nazismo e preparava material para uma exposição no exterior. Se descobrissem a tinta invisível diria que era um corretivo para apagar os traços mal feitos, jamais saberiam que no verso de seus trabalhos desenhava com aquela tinta o mapa detalhado das regiões por onde ia passando. Mapeara todo o rio Paraíba do Sul, desde sua nascente e estava prestes a chegar à foz quando o incidente da prisão dos espiões o interrompera. Adriene ou Mercedes iam entender a falta de remessas, não podia se expor. Sua missão era muito importante.

Cavalgou naquela madrugada em busca de um lugar calmo, de preferência perto do mar ou à beira rio, para solicitar pelo rádio a vinda de um submarino ou navio para resgatá-lo. Como já dera algumas voltas pela foz, tinha uma idéia precisa de seu traçado e com um pouco de esforço chegaria bem perto de seu desenho real. Sua memória era fotográfica. Podia até dizer às mulheres que deixara essa parte para o final, de propósito, para desenhar em local seguro. Não gostaria, diria, que descobrissem ou adivinhassem a verdadeira função de seu trabalho, a de preparar a invasão do país através do rio Paraíba do Sul pelas tropas alemãs. Se a polícia descobrisse, perceberia logo que o principal alvo seria a usina de aço em Volta Redonda, em construção, e que o mapa também indicava a maneira de atingir a capital pelo interior e todo o plano iria por água abaixo.

– Não podia me arriscar, diria a seus superiores, nem abortar a missão.

Chapéu puxado para cima dos olhos, mãos nos bolsos, e rosto contraído, Alberto caminhava pelas ruas semi-desertas, procurando não pensar. Queria apenas se cansar o bastante para se jogar na cama e apagar sem pensar em nada, sem lembrar de Isabel, sem pensar no que seria seu futuro e das crianças sem ela.

Não podia, porém, deixar de remoer, irritado, as interferências da cunhada querendo saber aonde ia, quando retornaria, se estava bem agasalhado, se tomaria cuidado, essas coisas que ficam bem numa mãe, nunca na pessoa que só cuidava de seus filhos. A seus olhos surgia o rosto balofo de Zuca, as bochechas começando a cair, o corpo a criar protuberâncias adiposas, o olhar ansioso, buscando seus olhos, como se quisesse penetrar em seu cérebro e descobrir o que pensava.

Meu Deus, vai ser difícil suportar essa mulher.

Munido de iba de bambu e anzol, Louro sentou-se no cais. Com a farinha de mesa misturada com um pouco dágua preparava as bolotinhas que serviriam de isca. Naquele ponto não dava para pegar peixes grandes, mas se conseguisse umas piabas, uns mandis ou bagres, talvez um piau gordo, garantiria o jantar da família. Mais uma vez o pai chegara em casa aos tropeções, de pileque, e se jogara na cama. Daqui a pouco, certamente, vai se levantar para vomitar no quintal, se der tempo de chegar lá. Depois vai berrar que está com fome. A mãe, coitada, tremeria; os irmãos ficariam sentados muito juntos na calçada da frente da casa, quietinhos e assustados, aguardando que ele voltasse a adormecer. Então a mãe prepararia seus pratos, com o feijão e arroz que comprara com o dinheiro da lavagem de roupas. Carne, nem pensar. Nem carne seca, que era bem mais barata. Por isso fugira para o cais e pretendia pescar alguma coisa para reforçar a alimentação dos irmãos.

Já tinha conseguido algumas piabas, que se debatiam nas pedras presas numa fieira, quando Gau apareceu. Fechou a cara, não estava com disposição para ouvir os conselhos nem as propostas do outro, nem ia contar onde achava que a velha guardava o dinheiro, mesmo porque não sabia.

– E aí, grande pescador, vai acabar com os peixes do rio?

Louro ficou calado, olhando a água barrenta passando.

– Não tem nada melhor pra fazer não? Estou com uma idéia da pontinha da orelha, mas preciso de sua ajuda. – Louro continuou calado, a observar o rio. – Sabe o velho Quincas, que mora ali na rua do Vigário? Eu descobri que toda tarde ele toma banho na casinha do quintal. O sem vergonha do velho tira a roupa toda, pendura num prego da parede do lado de fora da casinha e toma seu banho. Fica nuzinho em pelo.

– Como cê sabe disso?

– Por que tem uma falha na cerca dos fundos e fiquei observando. E não é de hoje. E descobri que ele deixa a carteira cheia de dinheiro no bolso detrás da calça pendurada do lado de fora. É mais fácil pegar ela do que tirar doce da mão de criança. E só ir devagarinho, sem fazer barulho, e pegar. A casa do lado está vazia, é dum pessoal que se mudou pra Vitória e por ali dá pra entrar.

– E se não tiver dinheiro?

– Claro que tem, quer dizer, hoje tem. Sei porque hoje é dia do pagamento dele, vi quando embolsou a grana. Igualzinho das outras vezes, ele vai tomar banho, vestir a mesma calça, só troca a camisa, e vai pra casa da amiga, lá pros lado de São Benedito. Daqui a pouco ele entra no banho, vamos lá?

– Eu? O que que eu tenho com isso?

– É o seguinte: a falha na cerca é estreita, não dá pra mim passar. Você é magrinho, só tem pele e osso, pode entrar por ali e pegar a carteira pra nós. Eu fico na tal casa vazia, vigiando pra ver se aparece alguém. Nunca aparece, ele não se dá com ninguém, é um velho rabugento, mas por via das dúvidas fico de tocaia. Qualquer coisa, assovio e você volta correndo.

– Não quero saber disso não.

Gau se impacientou:

– Deixa de ser bobo! Não tem perigo, há tempos que atocaio o velho.

– Por que não vai você mesmo?

– Porque não consigo atravessar a cerca, já tentei. Cê acha que ia querer dividir o dinheiro com ocê à toa?

– Isso num tá me cheirando bem.

– Puta que pariu, cê é mesmo um cagão. Tá aí pegando uns merdas duns peixinhos para alimentar seus irmãos, que eu sei, e não é a primeira vez, e fica se recusando a ganhar um dinheiro fácil, sem arriscar nada. E não fique com pena do velho, que é um unha-de-fome, não ajuda ninguém, até a amiga dele passa necessidades. Um dia ainda vou entrar naquela casa velha e vou encontrar muito dinheiro. Estou sendo seu amigo, se alembra daquela noite na prancha? Deu tudo certo, não deu? Então. Vamos lá, já está na hora. Pense nos seus irmãos.

Na fieira as poucas piabas se debatiam. Olhou-as demoradamente. Gau insistiu:

– Isso aí não vai dar para matar a fome de seus irmãos. Mas com o dinheiro do velho cê pode até comprar um bom pedaço de carne seca. Vambora, cacete!

Louro respirou fundo, pegou os peixes e a iba.

– Vou deixar isso em casa.

– Não, deixa aqui mesmo, ninguém vai pegar essa porcaria de peixe.

Capítulo 7 >>

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