Capítulo 5

Zuca observava apreensiva os movimentos do cunhado. Distraído, mal passara a mão pelas cabeças dos filhos quando chegara, se metera no quarto até que o chamasse para jantar e depois de ficar muito tempo na janela, olhando a rua vazia, voltara ao quarto e se vestira.

– Onde está meu guarda-chuva? ele perguntou.

– No lugar de sempre. Você vai sair outra vez? O tempo está nublado.

– Vou dar uma volta, não demoro. Preciso de um pouco de ar.

– Está sentindo alguma coisa? Quer um chá?

Aproximou-se dele, apreensiva, as mãos apertadas sobre o colo.

– Não, respondeu com impaciência, só quero tomar um pouco de ar.

– Quer que o acompanhe? É perigoso andar sozinho à noite, com essa luz tão fraca.

– Que perigo, coisa nenhuma.

– Sabe-se lá. Esses marinheiros estrangeiros, uns abusados…

Ele sorriu, divertido;

– E o que você faria caso nos atacassem?

Ela fingiu não ter ouvido a provocação.

– Sair com esse tempo ameaçador. Precisa mesmo ir à rua?

Ele não se deu o trabalho de responder. Enfiou o chapéu, desceu a escada aos saltos, bateu a porta e se viu na calçada. Respirou fundo. A atmosfera de sua casa o asfixiava. Zuca, com seu excesso de cuidados, o irritava. Por que não se dedicava apenas às crianças? Era o suficiente. Ela queria sempre conversar e ele não estava para conversas, não queria saber o que os filhos tinham feito durante o dia, não achava graça em suas artes, nem nas gracinhas do bebê, queria paz. Na verdade queria Isabel, seus olhos luminosos, sua voz doce, suas mãos macias, seu corpo feito de seda e fogo, seus beijos de tirar o fôlego, sua disposição para o amor. Só em pensar sentia o início de uma ereção. Como éramos felizes! Por que não aproveitei mais?

Deitar-se era um tormento, o lençol, a fronha, tudo no quarto parecia impregnado do perfume dela, custava a dormir, rolava na cama, algumas vezes gemia de dor e prazer, poluía o pijama. Isso não podia ter acontecido, Isabel não morrera, era muita maldade da vida separar assim um casal que se amava tanto, que se dava tão bem, que se amava muito, muito, muito. A brisa noturna não conseguia secar as lágrimas em seu rosto.

Otto piscou repetidas vezes, o que sempre acontecia quando abria os olhos. A claridade que tanto o incomodava estava reduzida ao halo da lamparina colocada sobre o caixote. A bugra que o socorrera não estava presente, Otto ajeitou-se melhor sobre o catre. Era uma boa mulher, socorrera-o sem fazer perguntas, sempre atenta e risonha. No princípio a achara feia, os cabelos pretos, escorridos, emoldurando um rosto moreno, redondo, com olhos puxados, negros como a noite. Acho que é uma índia, pensou, mas não existem mais índios por aqui, pelo que eu soube. Deve ser a tal de cabocla, como chamam. Mestiça, concluiu com um esgar de desprezo. Deixa pra lá, o importante no momento é que estava cuidando dele e era discreta. Quase não falava.

Há quantos dias estava jogado naquele catre? Não fazia idéia. Olhava o telhado de palha, as paredes de barro socado e sentia que melhorava um pouco a cada dia. Nos primeiros dias seu rosto estava tão inchado e ardido que mal podia abrir os olhos. A cabocla estava constantemente a colocar panos molhados em seu rosto e em seu corpo nu. Era isso que eu tomava pelos cremes da Adriene, pensou. Pelas janelas abertas entrava um vento refrescante e os barulhos típicos da roça, passarinhos cantando, bois mugindo, cachorros latindo, galinhas em alvoroço. Tudo contribuíra para que se sentisse seguro e calmo. Aquela tapera devia estar muito longe da cidade.

E onde estava? Como chegara ali? Assim que se sentiu em condições de mover o pescoço, procurou localizar suas coisas. Estavam amontoadas num canto e aparentemente não haviam sido mexidas. O rádio continuava na bolsa de couro maior, envolvido por suas peças de roupa, e ao lado a pasta com os desenhos e a outra bolsa com o material de pintura. Isso o tranqüilizara e o mergulhara numa modorra por dias seguidos, sem pensar muito. Precisava ficar bom, poder mover-se sem sentir que tudo em seu corpo se repuxava e ardia.Viu que aos poucos a pele do rosto e do corpo se soltava, a mulher esfregava devagar uma pasta, uma pomada com cheiro de mato, e arrancava as peles soltas, com muito cuidado e carinho. Já sentia por ela uma afeição misturada a agradecimento.

Religiosamente ela o alimentava com uma espécie de papa sem gosto de nada, bem líquida, que aos poucos ia engrossando, tomando consistência e gosto, um sabor meio acre, mas gostoso e que estava lhe restaurando as forças. Como é que uma criatura daquelas, primária, criada num fim de mundo, sabia dessas coisas?  Onde aprendera não só a cuidar de suas queimaduras de sol, mas a alimentá-lo de forma correta? Pelo que sabia desses povos inferiores, que um dia o III Reich ia civilizar ou eliminar, caso não se adaptassem à civilização, é que eram broncos, rudes, destituídos de discernimento e capacidade de aprendizagem. O que faziam bem, lhe haviam ensinado, era muito sexo e se reproduziam como lebres. E até agora ela não havia tentando nada nesse sentido. Embora ele estivesse nu, nunca lhe surpreendera um olhar lúbrico, uma atitude suspeita.

O bar do Eu estava vazio, a noite prometia ser fria, todo mundo devia de estar metido em casa. E como não havia nenhum navio atracado, também não havia marinheiros sedentos. Num canto do bar, Eu solava seu violão.

– Cadê o povo?  gritou Tijolo.

– Enfurnado em casa. Quer alguma coisa? Daqui a pouco vou fechar a casa, que hoje não vai dar movimento.

– Então vou lá pro beco.

– Bobagem sua, se não tem marinheiro, as mulheres vão cuidar das suas coisas. Tá tão ruim hoje que nem uma prancha encostou no cais.

– Amanhã melhora.

– Pode ser. Há muito tempo que só ouço isso: amanhã vai melhorar. E cadê que melhora?

– Tem dias que o cais tá cheio de pranchas.

– É, também tem dias, como hoje, que só se vê uma canoa ou outra. Bons eram aqueles tempos em que os navios estavam sempre chegando e saindo, os estaleiros funcionando, emprego sobrando, os operários assoviando na volta pra casa. Hoje é esse deserto. E é pra sempre. Quando uma coisa acaba, acaba mesmo.

– Vira essa boca pra lá, Eu! Ainda quero ver esse porto funcionando como antigamente.

– Só por milagre.

Eu encostou o violão na parede e desceu do banco. Espreguiçou-se devagar, bocejou demoradamente e deu um tapa na perna.

– Não vai aparecer ninguém mesmo. Vou pra casa, informou Eu.

– Bota pelo menos uma pinga pra mim, pombas.

Capítulo 6 >>

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