Capítulo 44

Envolvida pela multidão que festejava o calouro que venceu o concurso, Jaçanã não se sentia frustrada. Desde que ouvira o vencedor se apresentar sabia que ele seria o campeão. Uma voz linda, melodiosa, romântica, um jeito sensual de cantar, um rosto bonito, expressivo, tudo contribuía para sua vitória. Não foi surpresa para ninguém quando o apresentador anunciou seu nome. O auditório veio abaixo com palmas e gritos. As moças pulavam nas cadeiras, gritavam seu nome, jogavam-lhe beijos, uma apoteose.

Vitória merecida, concluiu Jaçanã, assim como o segundo lugar, dado a uma moreninha sestrosa, olhinhos brejeiros, voz educada e bonita. Apesar da candidata ter ficado o tempo todo nos bastidores de cochichos com a mulher que, no dia em que fora aprovada finalista, passara-lhe a mão na bunda e fizera propostas indecentes em seu ouvido. Seria injusto, porém, dizer que a moça vencera por isso. Cantava bem. Noutros tempos, se esse empurrãozinho fosse necessário talvez cedesse, mas depois de conhecer o amor nos braços fortes e macios de Toureiro, não seria de mais ninguém. Conhecera um homem que preenchera as suas expectativas em relação ao amor. Por Toureiro era capaz de ir ao inferno. E onde estaria ele agora?

Jaçanã conseguira o terceiro lugar e fora muito festejada. Ganhara um troféu, maços de flores. Sentia-se uma estrela, estava entre os melhores. Por incrível coincidência, ao chamar seu nome o locutor dissera:

– Em terceiro, essa deusa negra, a rainha banto, Jaçanã Sodré!

Só Toureiro a chamava de rainha banto. Como o apresentador fora chamá-la assim? Sentiu lágrimas lhe subirem aos olhos e só não chorou porque em seguida, conhecidos os três primeiros colocados, o palco fora invadido por concorrentes, funcionários da rádio e pessoas do auditório em delírio. Envolvida no rodamoinho, não viu sequer o pessoal em casa de quem estava hospedada e que havia ido assistir ao concurso. O troféu quase lhe caiu das mãos, o ramo de flores foi esmigalhado. O dinheiro, disse-lhe o locutor, ainda ao microfone, deveria ser apanhado amanhã, na secretaria da rádio, quando assinaria um contrato para participar de programas radiofônicos.

Na medida em que as atenções se concentravam no vencedor, que esmagado pela multidão era levado de um lado para outro, feliz da vida, Jaçanã se afastou e ficou entre os demais concorrentes, alguns reclamando do júri, outros chorando. Um moleque de seus 10 a 11 anos agarrou sua mão. Olhou-o, pensando que queria um autógrafo, já que trazia um papel na mão. Sorriu orgulhosa. Ia lhe explicar que estava sem caneta, quando ele lhe disse:

– Um moço lá fora mandou lhe entregar esse bilhete.

Seu coração disparou, só podia ser Toureiro, ele havia lhe garantido que viria assistir a seu sucesso. Prendeu o troféu contra o seio e abriu o papel. Era um bilhete dele, onde pedia que fosse encontrá-lo ao pé da escada.

Sem pensar duas vezes, atravessou o palco e seguiu em direção à escada. Seu coração batia loucamente, chegava a doer. Desceu os degraus correndo. Lá embaixo, vestido num terno escuro, gravata também escura, um homem lhe sorria. Quase não o reconheceu, acostumada a vê-lo sempre em seu impecável terno de linho branco. Quando chegou perto, ele tirou o chapéu e aumentou o sorriso. A princípio teve um choque, ele havia raspado o belo bigode alourado. Mas o sorriso, as estrelinhas nos olhos, as mãos fortes estendidas em sua direção, eram inconfundíveis e após um segundo de hesitação atirou-se nos braços dele.

Pessoas eufóricas, agitadas, passavam por eles constantemente, subindo e descendo a escada, falando e rindo alto, numa algaravia atordoante.

– Vamos sair daqui, disse-lhe ele ao ouvido. Estou louco de saudade.

Levou-a pela mão, passaram pela porta da Rádio, abrindo caminho às cotoveladas. Na sua frente, a grande mole da catedral criava uma zona de sombra. Desceram a rua, abraçados. Ele continuou a conduzi-la e na primeira esquina pararam. O abraço dele foi tão forte que quase não pode respirar.

– Toureiro, meu amor, eu já nem acreditava que você viesse.

– Nada, nem ninguém, disse ele, cobrindo seu rosto de beijos, me impediria de vir assistir sua vitória.

Ela sorriu com melancolia:

– Que vitória, Toureiro, fiquei em terceiro lugar.

– Para mim você está e sempre estará em primeiro lugar, por isso vim.

Nova explosão de beijos, de apertos, de carinhos, se seguiu, até que ele disse:

– Agora, vamos falar de assuntos sérios. Vou amanhã para o Rio de Janeiro e você vai comigo.

Ela se afastou um pouco e o encarou, de olhos arregalados:

– Pro Rio? Está louco, meu amor? Estou na casa dos outros, não posso fazer essa desfeita. Tem também este vestido que tenho que devolver á dona. E mamãe? Já pensou como ela vai ficar se não me ver chegar?

– Você fica ainda mais linda com esse arzinho espantado.

– Não brinca, Toureiro.

– Tudo será resolvido. Você volta com esse pessoal pra casa, embrulha o vestido, escreve um bilhete pra sua mãe e deixe o resto comigo. Nós vamos ser muito felizes, minha rainha banto, eu garanto.

– Toureiro, Toureiro, tenho tanto medo. É uma decisão muito séria, que vai envolver todo o meu futuro. E tem ainda o contrato da Rádio e o prêmio.

– Esqueça, não são dignos de você. Seu futuro só será radioso nos meus braços. Acredite em mim, Jaçanã, me deixe provar que posso fazer você feliz e realizar todos os seus sonhos.

Sentado ao lado de Gau nuns caixotes largados no cais, Louro olhava desalentado a massa escura do rio refletindo os milhões de estrelas do céu. Ia sentir falta disso.

– Guento mais não, Gau, tenho que ir embora daqui. Depois que a velha morreu então, fiquei sem nada pra fazer, passo os dias sentado no cais pescando umas piabinhas, uns mandis. Isso é vida?

– Melhor do que ir pra guerra. Que idéia mais maluca essa sua, morar em barraca, andar na lama, passar o dia caçando alemão.

– Melhor do que pescar essas piabinhas de merda. Mamãe também pensa que nem ocê, fica preocupada porque daqui a um tempo vou fazer 18 anos. Só que antes disso vou pular fora.

– Cê é doido. Eu quero mais é sombra e água fresca e uns patos pra depenar no jogo. Ontem lavei a égua num joguinho lá na praça de São Benedito. Por falar nisso, tem festa lá hoje também, vamos olhar as meninas?

– Pra quê? Sem dinheiro no bolso não dá pra namorar. E se ela quiser um saco de pipocas? Digo que estou duro?

Gau se levantou.

– Passa antes no fresco. Eu vou dar uma passadinha na praça. Aquele pessoal do jogo do caipira se acha muito esperto, mas ontem ganhei um bom dinheiro deles. Ficaram danados da vida, não me deixaram jogar mais. Hoje vou tentar as argolinhas. Os prêmios são porcarias, mas a sensação de vencer vale a pena. Vamos lá, Louro. Cê fica olhando enquanto eu jogo.

Louro continuou sentado.

– Assim não tem graça, prefiro ficar aqui, olhando o rio que um dia vai me levar pra bem longe daqui, prum lugar onde eu possa viver decentemente. Quero ganhar dinheiro grosso, ser rico, não essas melecas que cê ganha.

– Por falar em dinheiro, cês já torraram o que a velha deixou?

– Que dinheiro ela deixou? Só umas roupas usadas, que mamãe está reformando pra ela e pras meninas. E umas panelas e pratos, mais nada. Ah, e as galinhas, que nós estamos comendo porque não temos dinheiro pra comprar milho pras coitadinhas. Tão indo tudo pra panela. Eu pensei em vender os ovos que elas iam por, mas pra isso elas têm que comer e pra comer a gente tinha que comprar milho. E cadê dinheiro pro milho? É uma bosta. As galinhas que sobraram estão vivendo do que catam no quintal e de restos de comida. E botam um ovo de vez em quando.

Gau esticou os braços.

– E o fresco, continua indo lá? Ele brigou comigo, me xingou, quase poquei a cara dele, por isso não apareci mais.

– Ele me contou. Ah, mas tá chato, ele reclama que tá sem dinheiro, também não deixo ele me chupar se não der o que quero. Ele acaba dando, mas reclama muito.

Louro levantou-se também. Gau sorriu, satisfeito.

– Ó, eu vou, disse Louro, mas se ocê se meter em alguma confusão por causa de jogo saio de fininho e finjo que nem te conheço.

Sentaram-se nas cadeiras da varanda para esperar o sono chegar. De vez em quando um resmungo da doente soava mais forte, Verônica virava o rosto na direção do som e assuntava. Se não continuasse, voltava a se relaxar na cadeira.

– Ela hoje tá um pouquinho mais calma, né? comentou Zerli.

– É, mas daqui a pouco, quando começarem a soltar foguetes, eu não sei…por isso vim esticar um pouco as pernas para segurar o rojão depois.

Zerli alisou a barriga.

– Infelizmente não posso ajudar muito, esse trambolho aqui não deixa.

– Ai, Zerli, não fala assim! Que coisa mais feia! Que culpa tem a pobre criança?

– Culpa ela não tem, eu sei, mas incomoda muito.

Verônica tinha a testa franzida pelo aborrecimento de ouvir a empregada falar de forma tão pouco maternal do filho que esperava.

– E quando a criança nascer, como vai ser?

– Jogo ela no canavial pros cachorros do mato comer.

Verônica levantou-se da cadeira num pulo:

– Zerli, gritou, nunca mais diga uma coisa dessas.

A outra sorriu, sem graça. A brincadeira fora pesada.

– Tô brincando, Verônica, nunca que eu faria isso com a pobrezinha.

– E ela não será pobrezinha, já disse, terá tudo que uma criança precisa para crescer saudável e feliz. E ainda vou assegurar seu futuro.

– Tá certo, respondeu Zerli, com certa indiferença, mas quem vai cuidar dela sou eu, quem vai ter trabalho, dar de mamar, agüentar choro, ficar sem dormir sou eu. Isso me revolta, acho que não nasci pra ser mãe.

Verônica sentou-se, de cara amarrada:

– Bobagem sua. Cê tá revoltada por ter sido abandonada pelo Otto. Quando a criança nascer, todo o seu amor por ela florescerá.

– Duvido. Em todo caso, vamos esperar pra ver. E uma coisa, não me leve a mal, se eu não sentir esse tal amor pelo nenê…não quer ele procê? Dou de papel passado.

Os olhos de Verônica brilharam:

– Jura, cê faria isso? Depois não ia me pedir de volta?

Zerli olhou o céu estrelado emoldurado pela janela e ficou algum tempo em silêncio. Depois, com voz desanimada, respondeu:

– Não sei, acho que não. Com uma criança nas costas não vou poder nem arrumar um marido. Quem vai me querer? Se você quiser, dou sim. Só quero que me deixe continuar morando na minha casinha na fazenda.

– Faço melhor, registro a criança em meu nome e passo a escritura daquele pedaço de terra para você.

Os olhos de Zerli marejaram.

– É tudo o que eu quero. Ali posso recomeçar minha vida. E se continuar a trabalhar pra você, vou poder ajudar a cuidar dela.

Verônica era pura excitação, seus olhos cintilavam como cristal líquido. Os braços agarravam com força os braços da cadeira e seu corpo se inclinava para a outra:

– Vamos fechar negócio? Não quer esperar a criança nascer para decidir? Zerli negou com a cabeça com veemência. Jura que não vai voltar atrás?

– Juro pela alma de minha mãe.

Verônica lhe estendeu a mão aberta:

– Então toque aqui, seu filho passa a ser meu filho.

Do andar superior um gemido mais forte, seguido de um chamado: Verôoooonica! As duas se levantaram ao mesmo tempo.

– É, murmurou Verônica, acho que temos uma longa noite pela frente.

A linha curva da calçada era o limite para a enxurrada de estrelas que o céu exibia. Do outro lado da baía luzes de várias cores piscavam e riscavam o céu. O mar batia sereno na areia onde pessoas se aglomeravam, brincavam, cantavam, acendiam velas. Apesar de seu estado de espírito, Arlete estava achando tudo muito bonito. Sua dor, porém, em nada encontrava alívio.

Passara toda a tarde caminhando pela calçada que parecia não ter fim, olhando as pessoas, se assustando quando via algumas que se pareciam ora com Dinha, ora com Gracinha. Nesses momentos o coração se enchia de esperanças e ela disparava em direção às figuras só para constatar que não eram as que queria tanto. Parecia uma louca encarando todas as mulheres e meninas que encontrava. Tirou os sapatos, desceu à areia, caminhou sem parar, sem desgrudar os olhos de qualquer figura feminina que entrasse em seu campo de visão.

Tudo em vão. Gracinha e Dinha não estavam entre a multidão alegre. Ela estava morta de cansada, as batatas das pernas enrijecidas pelo esforço de caminhar na areia fofa. Sabia que precisava dar uma parada, descansar, aliviar a dor que sentia no corpo. Seu cérebro emitia avisos de parar, mas seu coração não atendia e suas pernas seguiam em frente. Tinha medo de, justo no momento em que parasse num local, Dinha, levando Gracinha pela mão, aparecesse em outro.

Escurecera, as pessoas na praia ficavam cada vez mais indistintas, só as que estavam na calçada seus olhos inchados distinguiam. Houve um momento em que sua perna esquerda fraquejou, dobrou e por pouco não foi ao chão. Uma mulher que passava a amparou. Sorriu agradecida e se forçou a caminhar mais um pouco.

A noite chegou e finalmente resolveu se sentar um pouco antes de voltar à pensão. Num banco de cimento uma mulher nova fumava um cigarro e olhava a escuridão do mar. Gemendo, Arlete se aproximou e praticamente se jogou sobre o banco. Não agüentaria dar mais um passo. Respirou fundo e esfregou as pernas. Não encontrou alívio imediato.

– O melhor seria sentar no chão, observou a mulher, com as pernas esticadas.

– O povo vai reparar, respondeu Arlete.

– E o que é mais importante: dar alívio às tuas pernas ou dar atenção ao povo? Eu nunca me importo com que os outros possam pensar de mim.

Arlete sorriu e esticou as pernas, mantendo-as no alto por uns minutos.

– Assim alivia um pouco. Estou que não agüento mais andar.

– Pudera, tu bateste pernas desde noitinha. Fui eu que te segurei agora pouco.

– Desde noitinha? Estou andando por essa praia desde às cinco da tarde, por aí, não agüento mais. Não sei quantas vezes fui de uma ponta à outra, pela calçada e pela areia.

– Fazendo exercício? Ou procurando freguês?

– Não, tô procurando umas pessoas, não sou mulher da vida, mas parece que não vieram. Amanhã de manhã eu volto, na hora do banho de mar. Tenho de achar as duas.

– São tão importantes assim essas pessoas?

– São sim, minha filha e a mulher que a raptou.

A mulher esmagou a ponta de cigarro com o pé e a olhou com atenção.

– Roubaram tua filha?

Mais uma vez Arlete contou toda sua história. Achava bom falar, desafogar seu peito, dessa vez quase não chorara, só fungara em alguns pontos do relato. A mulher lhe fez um carinho no ombro.

– Que situação. Eu gostaria de poder te ajudar, mas não sei como.

– Eu quero ficar aqui e procurar minha filha, tenho certeza que vou acabar encontrando as duas. Mas vou ter de ir embora. Depois da vergonha que passei na pensão com o tal advogado fajuto, não tenho nem jeito de pedir pra ficar. E também não tenho dinheiro.

Cautelosa, Arlete decidiu não contar sobre o pouco dinheiro que encontrara em seus sapatos. Ficara mais esperta.

– Vou ter que ir embora, continuou, amanhã. Vou com o coração partido e não vou ter sossego enquanto não voltar.

– Bem, pode ser que a mulher esteja só passeando com tua filha e um belo dia…

– Não acredito. Dinha é má e descobriu que minha filha conversava comigo na igreja durante a missa de domingo. Por isso fugiu com a menina. Ela não quer devolver minha filha. Eu tenho de encontrar as duas e dessa vez faço o maior escândalo, chamo a polícia, faço o diabo. A vida está me ensinando que não adianta ser boazinha, as pessoas acham que é fraqueza e se aproveitam. Não, eu vou encontrar minha filha. Me diga, você que é daqui, será difícil arrumar um emprego, até de empregada doméstica eu trabalho, só para ficar aqui e procurar por elas?

– Ó, a mulher parecia embaraçada, eu estava pensando que tu podias fazer o que eu faço, mas não sei se tu vais topar.

– É longe daqui o seu trabalho?

– O problema não é esse, aqui tem ônibus e bonde para todos os bairros…Tu tocavas flauta num bar em tua cidade, não é? Arlete concordou com a cabeça. Aqui ninguém dá valor a flauta, senão eu poderia te apresentar a uns amigos que tocam onde eu trabalho. Bom, vamos deixar de rodeio. Tu precisas trabalhar para ficar aqui e procurar tua filha. Por outras razões eu trabalho numa espécie de clube noturno, danço com fregueses, quanto mais dançar, mais ganho. E vou para a cama com alguns, esse é o meu trabalho.

– Você é puta?

– Mais ou menos. Não gosto desse nome. Se não quiser não atendo os fregueses, só danço. Mas rende pouco, não dá pra me sustentar, preciso de vestidos, sapatos, a dança acaba com os sapatos, tem o aluguel do quarto, as refeições, e ainda mando um pouco de dinheiro pra meus pais que moram na roça. Não é uma profissão muito digna, mas foi a única que me apareceu. Se tu quiseres…

Arlete olhou a mulher. Não teria muito mais que 20 anos, era bonita e estava bem vestida. Não parecia uma mulher da vida.

– Não sei…tem minha filha, tem meu noivo, meus amigos, se eles souberem…

– Não precisam saber. Tu mudas de nome, e bem arrumada e pintada nem parecerás a mesma. E como vais encarar teu noivo depois do que houve com o vigarista? Será que vai entender? Acha que vai acreditar? Os homens sempre acham que a mulher é a culpada, que deu bola, que seduziu, a mulher sempre leva a pior.

– Não sei…Alguém pode me reconhecer, alguém lá da minha cidade que esteja passeando aqui, ou um desses homens daqui me encontrar em outro lugar e contar pros outros.

A mulher acendeu outro cigarro. Olhou o mar escuro.

– Os homens, pelo menos a maioria deles, depois que nos pagam, nos esquecem. Se os encontramos na rua, no comércio, em outros lugares, nem nos vêem. Ficamos invisíveis.  Eles não tem interesse nenhum em dizer que nos conhecem, senão vão…bom, é isso.

A mulher passou a mão pela roupa, limpando a areia que o vento jogara.

– Está ficando tarde, venho aqui sempre que posso para olhar o mar, sou apaixonada pelo mar, mas tenho de ir embora, me preparar para mais uma noite de trabalho. Hoje é reveillon, os homens estarão assanhados, querendo se divertir. Queres vir comigo, conhecer o lugar onde trabalho, sem nenhum compromisso?

– Estou com a cabeça muito confusa, acho melhor ir dormir. Acho que vou embora amanhã, é melhor. Com é mesmo o seu nome?

– Pra ti eu posso dizer, é Edelmira, mas lá no clube todos me chamam de Mimi. Então decidiste mesmo ir embora amanhã? Pensaste bem?

Arlete sentia-se tentada a aceitar. Por outro lado, seria confirmar as maldades de Dinha. Será que não podia fazer alguma outra coisa menos comprometedora? Perguntou:

– Estou muito confusa, meus pensamentos estão batendo uns nos outros dentro de minha cabeça. Será que lá, onde você trabalha, eu não poderia tocar minha flauta? Toco bem, lá na minha cidade todo mundo gosta, o bar vive cheio.

Mimi sorriu, condescendente:

– Aqui é outro mundo, Arlete, flauta é coisa de criança ou de feira livre, entendes? É uma pena, mas trabalhando comigo tu conseguirias dinheiro e tempo para procurar tua filha. És uma mulher bonita, conversas bem. Mas, se não quiseres, é melhor voltar pra tua terra e chamar a polícia.

Arlete estremeceu. Voltar? Deixar de lado a possibilidade de achar sua filha?

– Não sei o que fazer, Mimi, juro que não sei. Olhou desesperada para a outra. Tenho essa noite para me decidir, né? Seu trabalho fica longe daqui?

– Mais ou menos. É um lugar chique, não é qualquer homem que vai lá, é caro e a gente ganha bem. Se queres ficar, é a melhor opção. E irás conhecer gente muito importante, advogados, polícias, que podem até te ajudar na busca de tua filha. Se quiseres…Posso te arrumar um lugar no meu quarto até encontrares um lugar pra ficar.

– Eu nunca freqüentei esses lugares. Vou passar vergonha.

Mimi respondeu com dureza na voz:

– Vergonha tu passaste quando acordaste num quarto estranho, bêbada e violentada. O pior já te aconteceu. E ainda por cima sem dinheiro, tendo que ouvir desaforos da dona da pensão. E aqui, minha filha, sem dinheiro a gente é nada, te tratam pior que cachorro. Eu sei o que digo, passei por situações parecidas. O que te ofereço é trabalho honesto. Vais vender o que é teu, o teu corpo. Mas tu é quem sabe.

Arlete olhou para as estrelas cintilando no alto. As pernas lhe doíam e o corpo reclamava descanso. A mulher se levantou.

– Tens até amanhã pra decidir, disse.

– É, estou um bagaço, preciso dormir, esticar minhas pernas. Mesmo que eu quisesse não teria condições de andar mais. Só até meu quarto.

– Já comeste?

– Nada, só tomei um chá, meu estômago estava embrulhado, não ia aceitar nada. Agora estou com um pouco de fome.

– Vamos até naquela esquina, ali tem um bar, eu te ofereço um sanduíche de mortadela, serve?

Quando Mimi enfim se foi, alimentada e com a cabeça menos perturbada, Arlete decidiu ficar. Se tivesse que ser puta para recuperar sua filha, era o que ia fazer. Dinha não dizia a todo mundo que ela era uma desclassificada? Não levava fama sem tirar proveito? Não contaria nada à dona da pensão, sairia como se fosse para a estação ferroviária e lá esperaria por Mimi, conforme combinara. O trem expresso só sairia às duas da tarde.

– Pra mim ainda é muito cedo, dissera Mimi, sou muito preguiçosa. Mas pra te ajudar…Podemos nos encontrar num bar perto da estação das barcas, só tens de pegar um ônibus aqui na praia e saltar lá. Deu-lhe um guardanapo de papel. Anota aí como fazer.

No burburinho da festa na casa de praia do chefe, aonde fora quase obrigado, Alberto não se sentia à vontade. Muita gente estranha, bonita, bem arrumada, falatório, foguetes, uma alegria esfuziante da qual não conseguia compartilhar. Estava preocupado com a falta de notícias de Arlete. A seu lado, num vestido novo, sentada imponente como uma imperatriz, Zuca apreciava sorrindo o movimento. As crianças se haviam misturado aos convidados.

Uma hora antes o chefe o havia convocado e diante de todos os convidados e de uma Zuca expectante, lhe perguntara, sorrindo, se decidira a pedir a mão da cunhada em casamento. Sua vontade era enfiar a cabeça num buraco. A gravata lhe apertava o pescoço e o terno se transformara numa armadura. Esperara que o chefe lhe pedisse a resposta num lugar discreto, e num outro dia. Não ali, diante daqueles rostos risonhos, que pareciam rir-se dele e da situação em que estava metido.

Sorriu sem graça, sentindo o rosto pegando fogo. Pensou em Arlete perdida numa cidade estranha, sem dinheiro, sem conhecidos e sem dar notícias. O que poderia ter acontecido com aquela maluca? Por que não esperara um pouco mais para ver se Dinha voltava ou não? No fundo do peito sentia que ela estava perdida, que mesmo que retornasse não seria a mesma que partira, ninguém passava incólume por uma situação dessas. Eu era da mesma opinião. Para ele, a Arlete que eles conheceram se perdera na viagem de trem.

E como recomeçariam, se não haviam terminado? Como continuar o que fora bruscamente interrompido, sem qualquer consideração?

Arlete viajara sem saber o que lhe estava acontecendo, não tivera tempo para lhe falar da proposta do patrão, do caradurismo de Zuca.

Uma única vez, em casa, se dirigira a Zuca:

– Como é que você pode fazer isso? perguntou, quando se viu em casa.

Ela o encarou, sem qualquer constrangimento:

– Eu cuido de seus filhos, se vou ser a mãe deles, quero ser também sua mulher.

– Mas eu gosto de você como amiga, como irmã.

– Um dia vai gostar, tenho certeza.

E agora ele se via ali, no meio de gente com quem não tinha intimidade, que o olhava como a um bicho raro e divertido, tendo que responder a uma pergunta que mudaria toda a sua vida, que comprometeria irremediavelmente seu futuro. Tinha que dar uma resposta, era o que todos esperavam, estavam pendentes de seus lábios. E ele precisava ganhar tempo. Vou só ficar noivo, decidiu. Noivado não é casamento, pensou. Até lá muita coisa vai acontecer, ainda teria uma conversa séria com Zuca, diria a ela que nunca seriam felizes, que não a amava, que era louco pela Arlete. Ela tinha que entender, um casamento assim só traria infelicidade para os dois.

– E então, meu caro Alberto, como ficamos? perguntou o chefe, tirando uma baforada do charuto fedorento.

Alberto respirou fundo, voltou-se para Zuca, que o olhava com desavergonhado ar de paixão.

– É isso que você quer, Zuca?

Ela juntou as mãos sobre o peito farto e sorriu, beatífica:

– É tudo o que eu quero.

Alberto virou-se para o patrão, que sorria, benévolo:

– Se é desejo de todos, farei o que me pedem. Ficaremos noivos.

– Muito bem, aplaudiu o chefão, no que foi seguido por todos. Meu caro gerente-geral, garanto que não se arrependerá. Sua família fica recomposta e seu cargo na firma vai ser reestruturado, para melhor. E como me prontifiquei a ser seu padrinho de casamento, junto com minha esposa – e voltou-se para ela – não é, querida? para demonstrar a minha satisfação por sua decisão, como presente de noivado vou lhe dar um carro.

Novamente a turba prorrompeu em aplausos. Zuca segurou seu braço com as duas mãos e encostou a cabeça em seu peito. Alberto parecia anestesiado, olhava sem ver, sorria sem perceber, recebia cumprimentos mecanicamente. A sorte estava lançada.

Epílogo >>

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