Capítulo 43

Viajou na véspera do dia do concurso de calouros para ter tempo de se preparar para o grande momento, quando enfrentaria os melhores calouros da região. Não estava nervosa, e sim com o pensamento longe, querendo saber o que acontecera com Toureiro, por que deixara a cidade tão repentinamente, sem lhe dar um beijo de despedida? Sua partida seria apenas para fugir da polícia por ter escapado da cadeia? Ou algo mais havia? A polícia não perderia tempo por tão pouco. À sua mente voltaram as advertências de Eu. Seria por causa de mais um golpe que dera na cidade?

Por que não confiou em mim? se perguntou. Qualquer que fosse o enrolo em que se metera eu estaria pronta a ajudá-lo. Eu o amo muito, ele sabe disso. Por que fugiu assim, sem me comunicar? Podia ter me dado seu endereço, eu nunca o revelaria a ninguém e poderia esperá-lo com tranqüilidade. Mas assim, sem saber o que lhe aconteceu, mil coisas passam pela minha cabeça. Ele pode estar preso, fugindo, escondido em lugares horrorosos, passando fome e sede. Pode até ter sido morto, Deus guarde! É um homem tão orgulhoso, não foi capaz de pedir ajuda nem a mim, que o amo tanto!

O que não queria imaginar era que estivesse morto, largado no fundo de um buraco, coberto de terra. Não, isso não acontecera, ele sabia se safar das dificuldades. E se por acaso tivesse acontecido…não, claro que não aconteceu, ele está em um lugar seguro e qualquer dia desses vai entrar em contato comigo.

Mas até lá, como ficar sossegada, como ter a paz que preciso para cantar bem e ganhar o prêmio? E eu preciso vencer. Se ficar famosa posso ajudar Toureiro a se livrar dessas acusações. Fama e dinheiro sempre ajudam.

Apertando com força o embrulho onde levava as roupas para a apresentação, mais uma vez conseguidas com a amiga, vendo os canaviais passarem correndo pela janela do ônibus, começou a pensar que a vida era muito injusta, que estava contra ela, que fazia de tudo para prejudicá-la.

Podia também ser praga do infeliz do Tijolo. Como não pensara nisso antes? Nessa viagem Tijolo pode ter conhecido algum feiticeiro, gente voltada para o mal, e fizera um trabalho para que tudo desse errado para que ela fosse dele. Sentiu um arrepio de medo e automaticamente começou a balbuciar uma oração contra mau olhado que sua mãe lhe ensinara. Punha em dúvida até sua possibilidade de ganhar o concurso de calouros, coisa que nunca passara por sua cabeça. Se Tijolo fez isso e posso descobrir se fez com um pessoal da cidade que mexe com essas coisas, vou acabar com a raça dele! Desgraçado!

Ouvia ao longe o espocar dos foguetes e lembrou-se de outros finais de ano, das festas, dos bailes, de quanto gostava de dançar com Atilano. Tempos felizes. E as ceias? Sentia a boca cheia dágua ao se lembrar das mesas cobertas de iguarias, ninguém assava um peru como a negra Eudóxia, que Deus a tenha, um pernil dourado, o arroz branco e soltinho, o macarrão quase vermelho de tanto colorau, o empadão, meu Deus, cuja massa se desmanchava na boca, era bom demais. E os doces, o cacho de chuvisco, os bombocados, as brevidades? E os bolos? Ai, delícias puras. Quando comemoravam na cidade, a negra vinha dias antes da fazenda com seu sorriso branco de cintilar, suas panelas e ingredientes, e ali mesmo preparava a comidaria. A casa era toda enfeitada, todas as luzes eram acesas e se enchia de gente.

Como é que a gente sabe que é feliz? Lembrava-se de algumas briguinhas com sua mãe, com Atilano, com as empregadas, brigas tão tolas, que só serviam para empanar o brilho das festas. Era voluntariosa e mimada. Filha única, nada lhe era negado. E ela não soube aproveitar os presentes que a vida lhe dava. Por que a gente não percebe que é feliz e que deve preservar essa felicidade? Por que se desgasta com coisas tão bobas?

Numa dessas festas, uns dois anos depois de casada, dias antes o médico havia confirmado que estava grávida, lembrava-se bem, ficou insuportável a noite toda. A mãe, nervosa, preocupada, cheia de cuidados, e ela achando aquilo tudo ridículo, estava bem. Ainda não dava para notar sua barriga, estava chegando ao terceiro mês, mas sentia-se abrigando uma vida, em breve realizaria o sonho de ser mãe. Atilano, todo orgulhoso, lhe dava presentes, lhe fazia carinhos nas horas mais inesperadas, ele adorara a idéia de ser pai. E lá vinha a mãe com uns cuidados que considerava bobo, bobos, as recomendações ultrapassadas, do tempo do onça, quando uma mulher grávida era tratada como se fosse uma doente. Saíra dançando pela sala, bebera champanhe, rira muito, pulara algumas marchinhas de carnaval, alegre como nunca. Ai, que louca!

Uma semana depois abortara espontaneamente. E assim acontecera todas as vezes que engravidara, mesmo tomando todos os cuidados. Nunca passava do terceiro mês de gravidez. As últimas foram verdadeiros sofrimentos, esperando, a todo o momento, o sinal de que estava perdendo mais um feto. E ela sentira mais do que vira Atilano perder o entusiasmo pelo casamento, esfriar com ela, passando mais tempo na roça do que junto dela, nunca mais um presentinho, um carinho distraído em sua face, mil desculpas para fugir de seus abraços, que lhe adiantava fazer amor com uma mulher que não conseguia levar sua gravidez até o fim?

E agora ali estava Zerli, a bronca, a cabeça dura da Zerli, com a barriga se avolumando a cada dia, sempre aborrecida, doida, como dizia, para se livrar dessa obrigação, de ter esse filho que resistia a tudo para sobreviver. Verônica fantasiava que a vida entendera que seus sofrimentos haviam quitado seus pecados e lhe dera mais uma chance com aquela criança rejeitada pela mãe ainda na barriga. Aquele filho era seu. Só temia que o pai um dia retornasse e quisesse lhe tomar a criança. Para evitar isso desenvolvia em silêncio algumas idéias que poria em prática tão logo a criança nascesse. Aquela criança era sua, presente da vida.

A cada vez que Verônica perguntava pelo bebê Zerli sentia a angústia apertar seu coração. E lembrava-se com detalhes tão vívidos, que parecia estar acontecendo naquele momento, a força da cacetada que dera na cabeça de Otto. Ele afundara no poço, fora sepultado pelo manto de aguapés. Ela destruíra o homem que tanto amara, com seu corpo magro, sardento, sempre pronto para o amor. O bebê era filho do Otto. Como poderia querer criar, alimentar, amar um menino que era a prova viva de seu crime?

Arlete acordou numa cama estranha, não se lembrava de como viera parar ali. Estava nua, que coisa, ela nunca dormia nua. Onde estava? O que havia lhe acontecido?

Uma dor de cabeça atroz, um gosto ruim na boca, o corpo pesado, olhos ardidos, tudo lhe era estranho. Nunca se sentira assim. Devagar, gemendo, sentou-se na cama. Sobre uma cadeira com um braço quebrado, as suas roupas, reviradas, jogadas como se fossem lixo. Numa mesinha perto da janela, uma moringa com um copo encardido. Sentia muita sede. Levantou-se com dificuldade, enrolou-se no lençol, e caminhando bem devagar, que cada passada repercutia no seu cérebro em forma de fisgada de dor, encheu o copo e bebeu com avidez. A água, pelo menos, era fresca. Bebeu mais dois copos. Sentiu a bexiga apertada, precisava urinar urgentemente. Lutando contra a dor, vestiu a roupa e saiu para um corredor pouco iluminado. Viu a porta do banheiro e correu para lá. Estava limpo e se aliviou. Permaneceu sentada um longo tempo, a cabeça entre as mãos, sentindo o estômago se revirar. Sabia que ia vomitar e esperou. Daí a pouco, curvando-se sobre o vaso vomitou, longos jatos fedorentos saindo de sua boca direto para a privada, e até as paredes foram atingidas.

Batidas enérgicas e insistentes na porta a deixavam mais nervosa e quanto mais nervosa mais vomitava. Já não tinha mais nada no estômago além de uma água amarela, fétida. Por fim conseguiu chegar à pia e jogar água no rosto.

Uma mulher alta e corpulenta, de cara amarrada e tapando o nariz com os dedos, a esperava com um balde, uma vassoura e um pano de chão na mão estendida.

– Limpe a porcariada que tu fizeste.

Arlete a olhou ainda atordoada.

– Não fique com essa cara de pateta, pegue logo o balde e a vassoura e limpe tudo. Não quero um pingo de vomitado nos meus ladrilhos. Gente porca.

Alguma coisa na expressão de Arlete a impressionou. Mudou o tom de voz.

– Limpe tudo, tome um bom banho e venha até à cozinha, vou te preparar um chá. Quem não sabe beber…tem toalha? Arlete negou com um gesto de cabeça. Vou trazer uma e pendurar na maçaneta. E feche a porta que ninguém agüenta esse fedor.

Quase duas horas depois, alquebrada mas limpa, o banheiro sem uma mancha de vômito, Arlete se dirigiu para a cozinha onde a mulher a esperava sentada numa mesa.

– Ponha o material de limpeza na área e senta-te aqui. Fiz um chá de boldo com losna pra curar essa ressaca. Como é que uma pessoa pode beber desse jeito? O homem que te acompanhava já se foi.

Arlete colocou o material no chão de cimento e ainda tonta foi sentar-se na mesa, diante de uma xícara fumegante.

– O que foi que a senhora disse? perguntou, hesitante.

– Eu disse que o sujeito que dormiu contigo e te embebedou já se mandou. E só pagou a diária de hoje. Ele te pagou, pelo menos?

– Me pagou, como?

– Acorda, criatura. Pagou a noite, a trepada, porra. Será que tô falando grego? Como Arlete continuava com o ar apalermado, a mulher perguntou: vem cá, tu és novata na praça? Já até adivinhei o que te aconteceu, fazia a vida no interior, achou que podia tentar aqui na cidade grande, sem experiência, veio e se deu mal. Já vi isso acontecer outras vezes. Ninguém aprende a lição: quem não tem competência não se estabeleça.

Aos poucos Arlete entendia o que a mulher estava dizendo e se horrorizava. Sentia uma vontade enorme de chorar, um aperto no peito, uma pressão na cabeça, mas havia chorado tanto nos últimos dias que seu estoque de lágrimas parecia ter acabado.

– Eu não sou o que a senhora está pensando, conseguiu balbuciar. Eu sou uma mulher direita que veio a Niterói procurar sua filha.

– Sei, disse a mulher. Já ouvi estórias parecidas, há sempre um motivo nobre pra cair na vida. Quer um conselho? Volte pra sua cidade e continue a trabalhar lá. A não ser que tenha motivos para não voltar, um cafetão irado ou uma família destruída. De todo o modo, ouça meu conselho: se não puder voltar para tua cidade, procure uma outra, menor, onde encontre homens menos safados, por que safados e aproveitadores todos são. E use a cabeça, criatura, não há nada pior que puta burra.

Foi o golpe final. Arlete desabou a cabeça sobre a mesa e soluçou, murmurando que não era puta. A mulher levantou-se:

– Acabe de tomar teu chá, arruma tuas coisas e procura outro pouso. Aqui não é casa de caridade nem de tolerância. O máximo que faço é alugar quartos para casais. Vivo disso.

– Eu não tenho pra onde ir, soluçou Arlete. E não tenho dinheiro.

– Sinto muito. Olha, vou fazer uma coisa, muito a contragosto, porque estou com pena de ti: te alugo o quarto por mais um dia, pagamento adiantado. É pegar ou largar. Terás o resto da tarde e amanhã até o meio dia pra arrumar outro lugar pra ficar.

A mulher seguiu pelo corredor e sentou-se na varandinha da casa para esperar outros fregueses. Daí a pouco Arlete apareceu, olhos esbugalhados, gritando:

– Ele levou todo o meu dinheiro!

– Ah, é, que novidade. E agora, o que tu vais fazer é arrumar tuas trouxas e dar o fora.

– Pelo amor de Deus, pediu Arlete se ajoelhando. Ele tirou todo dinheiro que eu tinha escondido nas minhas roupas.

– Onde tu encontraste este sujeito? perguntou a dona da pensão, desconfiando que havia ali algo mais que a história de uma puta interiorana que viera arriscar a sorte em Niterói.

– No trem, soluçou Arlete, quando eu vinha para cá. Ele me viu chorando, disse que era advogado e prometeu me ajudar a encontrar e recuperar minha filha.

– Aquele sujeito não me era estranho, acho que trouxe mulher aqui uma ou duas vezes.

– Ele disse que costumava se hospedar aqui, mas que a senhora só aceitava se fosse casal, e me convenceu a ficar no quarto com ele. Eu estava tão desesperada, não conheço ninguém por aqui, vim com a cara e a coragem buscar minha filha que a Dinha raptou. Acreditei nele, parecia um homem distinto. Aí ele me convidou para jantar…eu estava com fome, aceitei, tomei um vinho…

– Como é isso, interrompeu a mulher, raptaram tua filha? Essa é nova.

Mais uma vez Arlete desfiou seu rosário de sofrimentos. A mulher ouviu em silêncio, observando os olhos inchados de Arlete, sua voz entrecortada de soluços.

– Acredito em ti, teu sofrimento é patente. E aquele safado se aproveitou de teu desespero para fazer essa molecagem contigo.

– Eu não queria tomar o vinho, choramingou Arlete, mas ele insistiu, insistiu, disse que era bom para me dar forças, porque no dia seguinte, hoje, a gente ia começar a procurar minha filha. Depois, lá no quarto, tirou outra garrafa não sei daonde e me abraçou com carinho, como se me consolasse, e eu precisava tanto de um ombro amigo, ele me deu mais vinho e, ah, meu Deus, que vergonha! Não me lembro bem do que aconteceu, mas…posso adivinhar, que vergonha!

A mulher a olhava com um misto de piedade e desgosto.

– Olha, é o seguinte, vou ser franca contigo: acho melhor que voltes para tua terra e procure ajuda da polícia para descobrir o paradeiro de tua filha. Aqui, sozinha, sem dinheiro, não conseguirás nada. Icaraí é grande, Niterói é maior ainda e essa história de ficar de tocaia na praia não creio que dê bons resultados. Se a tal amiga quer se esconder, não vai se arriscar a aparecer na praia com tua filha. Ela pode imaginar que tu acionaste a polícia. Como estás toda moída, vou fazer uma coisa que nunca fiz pra ninguém: vou te deixar ficar no quarto até amanhã, sem pagar nada e ainda vou te emprestar o dinheiro da passagem de volta. Se és realmente honesta, como tudo indica, um dia me devolverás. Agora vá arrumar teu quarto, aquilo lá está uma bagunça, o salafrário deve ter revirado tudo em busca do teu dinheiro. Como essas mulheres são otárias, meu Deus! Todo vigarista parece distinto.

Enxugando as lágrimas Arlete voltou ao quarto e olhou desconsolada as roupas espalhadas pelo chão e pelos poucos móveis.

Que canalha, pensou, enquanto juntava as peças de roupa. E parecia tão sério, tão distinto. Como esse povo é falso, bem que me avisaram. E como eu sou burra! Pior é que vou ter de voltar de mãos vazias, sem ter encontrado minha filha e ainda agüentar a reprovação de Alberto e de Eu. E como vou contar a eles o que esse miserável fez comigo? Não posso. Quem vai me acreditar? Que vergonha, meu Deus!

Dobrou a roupa e arrumou na mala. Um pé de sapato fora parar embaixo da mesinha de cabeceira, perto da parede e ó, milagre, ali estava um bolinho de dinheiro! que na pressa o lamparão não vira. Alegre, excitada, procurou o outro pé, que achou embaixo da cama. Também lá tinha dinheiro. Seu rosto se iluminou. Não era muito, mas devia dar para pagar o quarto – a dona fora tão compreensiva – e comprar a passagem de volta. Enfiou o dinheiro no porta-seios.

Fechou a mala e deixou-a sobre a cama. Uma idéia surgiu em seu cérebro como um relâmpago a clarear sua situação. Não, não vou dizer nada à dona sobre isso, só na hora de ir embora é que vou recusar o dinheiro da passagem. Ela vai desconfiar, mas aí invento uma história. Eu não vou voltar sem pelo menos tentar encontrar minha filha. Olhou pela janela, um sol fraco iluminava o muro em frente. Devia ser por volta das cinco horas, hora em que o desgraçado dizia que o povo de Icaraí passeava na calçada da praia.

– Vou até lá na praia, pensou alto. Vou dar a desculpa à dona de que preciso refrescar meus miolos. Estou muito nervosa. Quem sabe esbarro com Dinha e Gracinha?

Capítulo 44 >>

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