Capítulo 42

De manhã cedinho, antes de Alberto ou Eu aparecerem, Arlete pegou sua mala e foi para a estação ferroviária. A manhã estava fresca, o vento enxugava seus lacrimosos olhos. Discutira consigo mesma a noite toda, não dormira um instante. Pesava os argumentos de Alberto, pesava as palavras de Eu, pesava os reclamos de seu coração. Podia ser até que eles tivessem razão, que devesse esperar, mas seu coração mandava que fizesse o que decidira desde o princípio: ir atrás da filha. Em Niterói ou no fim do mundo, tinha que ir. Não vou ter um minuto de sossego enquanto não souber, pelo menos, onde elas estão.

A estação ferroviária estava quase vazia. O sol nascia devagar, pincelando de rosa o céu pros lados da praia. Comprou a passagem e embarcou. Quando seus amigos se dessem conta estaria bem longe dali. No fundo de seu coração, coberto de medo, tinha a certeza que encontraria as duas. E que eles acabariam por entender.

Em Campos trocou de composição. Raspara todo o dinheiro que tinha e para não ser roubada o dividira em maços que guardava em lugares diferentes, sempre colados ao corpo. Enquanto comprava a passagem notou que um homem a observava guardar o troco no decote. Olhou-o de cara feia. Vem pegar, seu safado, vem, pensou desafiadora. Faço um escândalo. Ninguém vai me impedir de seguir no rastro de Gracinha.

Sentou-se junto à janela do vagão e embora não fizesse frio, sentia-se gelada. Nada sabia sobre Niterói, como era ou onde ficava. Sabia que era uma cidade grande. Já fui a Campos com Afonso algumas vezes, pensou, tentando se acalmar. Estava nervosa, mas não intimidada. Por minha filha vou até o fim do mundo. O longo apito do trem lhe pôs no peito um sentimento de tristeza e angústia. Vou rezar, se prometeu, vou rezar muito para tudo dar certo. Eu vou achar minha filha.

Então relaxou, o sono a venceu e adormeceu. Acordou com o movimento de alguém sentando-se pesadamente a seu lado. Abriu um olho e viu um senhor de mais de 40 anos, vestindo terno e gravata. O chapéu estava sobre a pasta apoiada em seus joelhos. Seria o mesmo homem que a observara guardar o dinheiro no porta-seios? Tornou a olhá-lo, de esguelha. Estava em dúvida, o outro usava um chapéu que lhe ocultava parte do rosto. E a roupa, era aquela mesma? Os guarda-pós brancos que os homens usavam em viagens a confundiam, todos pareciam iguais, apenas o olhar que lhe lançara o homem da estação era mau. Ah, meu Deus! Estou desconfiada demais, nem todo mundo é ruim. Por via das dúvidas, apertou mais a bolsa contra o corpo.

O homem parecia desinteressado dela, tirou um jornal da pasta, colocou os óculos e dedicou-se à leitura. Parecia gente honesta. Seria? Não posso, não devo confiar em quem não conheço. Daí a pouco ele dobrou o jornal e devolveu-o à pasta. Por cima de sua cabeça olhou a paisagem por um instante. Depois a olhou, sem curiosidade. Se ele puxar conversa não vou responder, decidiu, pode ser um bom sujeito e pode não ser. Para evitar aproximação, fechou novamente os olhos e apertou mais os braços sobre o peito. Vou dormir até Niterói, decidiu.

Não conseguiu retomar o cochilo. Os pensamentos se atropelavam em sua cabeça, nenhum animador. Grudou o rosto na janela, ficou olhando a paisagem e pensando que estava se afastando cada vez mais de sua cidade, onde tinha seus amigos, onde se sentia segura. Gracinha devia ter pensado o mesmo, tadinha, sendo afastada de sua mãezinha. As lágrimas escorreram pelo seu rosto. Um soluço sacudiu seu peito. O homem tocou em seu braço:

– Está sentindo alguma coisa, minha senhora?

Negou com a cabeça. O homem insistiu:

– E por que está chorando? Posso ajudar em alguma coisa?

Voltou a negar com a cabeça e tornou a soluçar.

O homem parecia aflito:

– Está viajando sozinha, senhora? Quer que eu chame alguém?

– Não, pode deixar, estou bem, só estou chorando porque…

Não continuou, interrompida por um soluço.

– Me deixe ajudá-la, senhora, por favor. Não quer me contar o que a está afligindo? Quem sabe se desabafando…sou um estranho, depois que desembarcarmos nunca mais irei vê-la, pode falar, o que eu ouvir ficará comigo. Falar sempre ajuda, descarrega a tensão.

Ela fungou. Olhou-o. As feições dele irradiavam simpatia e solidariedade. Animou-se:

– Vou para Niterói, soluçou, atrás de minha filha, mas não conheço a cidade. O senhor conhece Niterói?

– Claro, também estou indo pra lá. Onde sua filha está morando?

– Em Icaraí, uma praia, o senhor conhece?

– Muito. Sempre que vou a Niterói me hospedo numa pensão perto da praia. Se quiser posso acompanhá-la até à rua onde sua filha está morando.

– Aí é que está o problema, soluçou ela, eu não sei onde ela está. Uma amiga, quer dizer, uma conhecida roubou minha filha e levou ela pra Icaraí.

– Isso é muito grave. Essa mulher raptou sua filha?

Ela sacudiu a cabeça com força. Os cabelos cobriram seu rosto.

– Era a minha melhor amiga e não podia ter filhos. Quando meu marido adoeceu…

E Arlete desfiou todo o seu drama entre lágrimas e soluços. O homem a ouviu em silêncio, atentamente. Ao final lhe apertou a mão que segurava o lenço encharcado.

– E não chamou a polícia?

– O que que eu ia dizer? E se Dinha estiver apenas viajando?

– Arlete, me permita chamá-la assim, devo ter o dobro de sua idade. Meu nome é Admardo Souza, sou advogado para causas cíveis e criminais e, sem falsa modéstia, um bom  advogado. Nunca perdi uma causa.. Seu drama me comoveu profundamente, quero ajudá-la. Primeiro vamos procurar sua filha em Icaraí, é um bairro não muito grande, com uma bela praia. É possível que a Dinha vá à praia ou fazer o footing à tarde na calçada. Ou vá à missa. Conheço as igrejas do bairro. E certamente levará a menina. Vamos ficar de atalaia por uns dias. Se ela não aparecer, aí vamos recorrer à polícia.

Para Arlete era como se um anjo pousasse em seu caminho. Dr. Admardo era advogado, distinto, atencioso, preocupado com sua situação e podia resolver seu problema. Seu aspecto inspirava confiança. Fora tola em desconfiar dele, o homem que a observara guardar o dinheiro no decote era outro.

– Desculpe a pergunta, Arlete, mas é preciso: quanto de dinheiro você trouxe? Vamos ter despesas nas buscas.

– Assim de cabeça não sei, peguei tudo o que tinha.

– Cuidado, advertiu ele, essas megalópolis estão cheias de malandros, escroques, estelionatários. Não deixe seu dinheiro à mostra.

Ela estava fascinada pelas palavras estranhas que ouvia, o que fazia crescer o prestígio dele a seus olhos.

– Não, não, não sou tão boba assim. Dividi tudo em pacotinhos espalhei pelas minhas roupas.

Ele apertava sua mão com delicadeza.

– E tem onde ficar em Niterói? Algum parente?

– Não senhor, nenhum. Só eu e Deus.

– Que loucura a sua. Só uma mãe desesperada seria capaz de um gesto audacioso, impensado e generoso como o seu. Não se preocupou com os perigos que poderia enfrentar, só pensou na filha querida. Comovente. Sinto-me na obrigação moral de ajudá-la a encontrar e reconquistar a guarda de sua filha. E ainda processaremos aquela mulher por rapto.

Arlete sorriu por entre as lágrimas. Seu peito se aquecia.

– Antes, porém, temos que pensar nas providências imediatas. Onde você vai ficar, por exemplo. Já vi que é uma mulher de classe, não pode ficar num pardieiro. Como eu lhe disse, quando vou a Niterói me hospedo numa pensão muito simples, mas limpa e acolhedora, familiar, em Icaraí. Vou reservar um quarto para você. A pensão será a nossa base de operações.

A súbita viagem de Arlete criara mais um dilema para Alberto, a firma estava em plena época de balanço e sua presença era indispensável, não podia ir atrás dela. Mas como se concentrar, tendo o pensamento em Arlete e sua louca aventura, indo sozinha para um lugar que não conhecia? Maluca, por que não me ouviu? Dinha vai voltar, tenho certeza. E se não voltar podemos acionar a polícia. Viajar assim, na certa com pouco dinheiro, chegar a uma cidade que não conhece, vai ser enganada por malandros, vai ser roubada, meu Deus, o que que eu faço? Devia ter ido com ela.

Conversara com Eu, que já andava preocupado com a situação da cantora e ficara muito nervoso com a partida de sua flautista.

– Não porque ela vai fazer falta no espetáculo do bar, não é isso, os amigos em primeiro lugar, mas porque ela é uma criatura ingênua, uma tola que se precipitou, um cordeiro que vai se meter na boca do lobo. E eu lhe aconselhei tanto a esperar um pouco mais, não se pode garantir que Dinha tenha fugido mesmo com a menina ou se foi só passear.Como ela vai fazer para se hospedar em algum lugar decente, para comer, dormir, para iniciar suas investigações se não conhece ninguém em Niterói? E o pior é que não deve ter levado muito dinheiro, se tivesse me avisado eu podia até ir com ela, tenho conhecidos daqui que se mudaram para lá…mas se afobou. Viajou sem me avisar.

Eu sentia-se desolado.

– E agora, Eu, o que podemos fazer? perguntou Alberto. Como localizar essa maluca em Niterói? Também tenho amigos lá, mas como eles poderão encontrá-la? Que loucura!

Eu apertou os ombros e murmurou desanimado:

– Só nos resta esperar pelo grito de socorro dela e rezar para que nada de grave lhe aconteça. Logo, logo ela vai nos procurar, ou por telefone ou por carta, pode crer. Arlete nunca viajou para tão longe, uma vez ou outra foi a Campos com o finado marido, imagine chegar numa cidade como Niterói, onde não conhece vivalma…acho que muito em breve teremos notícias dela. Espero que sejam boas.

Alberto sentiu um calafrio percorrer seu corpo.

Em casa Alberto passava pelo constrangimento de conviver com Zuca. Depois do que ela aprontara, e isso era imperdoável, depois que ficara patente o que era que ela queria, ele passou a se sentir desconfortável, perdera a espontaneidade ao lhe falar, sentar-se à mesa para as refeições. E o dia da resposta se aproximava velozmente e não sabia o que dizer ao chefe. Casar com Zuca, dormir com ela, ter relações sexuais com ela? Não podia conceber isso, não se via a acariciá-la, a fazer carinhos naqueles peitos que adivinhava grandes e moles, a penetrar…nesse momento interrompia o pensamento, tomado de horror. Estou vivendo um duplo pesadelo.

A sala estava cheia, mais pela curiosidade do povo em ver o comandante da Capitania do Porto e sua mulher do que para velar a velha, que quase não se dava com seus vizinhos. Louro olhava, chateado, a figura triste de sua mãe, metida num vestido de luto desbotado, encolhida, ao lado da elegante mulher do comandante, num vestido preto de seda, luvas e chapéu. A mulher lhe fazia perguntas e a mãe respondia de olhos baixos, murmurando, pouco à vontade. Louro torcia as mãos, queria que o velório acabasse logo, estava sendo um tormento para ele.

Pouco antes da hora marcada para a saída do enterro, o comandante pigarreou e postado à cabeceira do caixão, correu os olhos pelos presentes até vê-los atentos e falou:

– Dentro em pouco procederemos ao funeral da senhora que habitava esta casa. Seu nome era Adélia Silva de Guiot, de família desta cidade e casada com um francês, empresário naval, que vivia no Rio de Janeiro há longo tempo. Adélia tinha 81 anos e conforme atestou nosso médico, morreu de morte natural na manhã de ontem. Foi uma mulher rica, muito rica, que por razões que desconheço rompeu com a família e veio morar aqui, onde viveram seus avós maternos. Conheceu-me na viagem de navio, mantivemos contato e por isso deixou-me uma carta com suas disposições finais, que vou ler na presença de todos.

As pessoas se juntaram mais e esquecendo-se da morta, que parecia sorrir para as moscas que pousavam em seu rosto lívido, prestaram atenção ao que dizia o comandante, empertigado em seu uniforme militar. Ele pigarreou mais uma vez ao começar:

“Senhor comandante, como combinamos desde que nos conhecemos, há muito tempo, estou lhe pedindo que leia esta carta e faça cumprir o que nela lhe peço. Agradeço penhorada e antecipadamente.

Como pode ver, minha caminhada por este vale de lágrimas chegou ao fim. De uma maneira que nunca imaginei, nem nos pesadelos. Sozinha, dependendo da família. Minha vida sempre foi tranqüila, alegre, despreocupada. Tive uma vida boa, passeei muito, visitei países estrangeiros, fui a mil festas, comi, bebi, dancei e namorei, ou melhor, amei muito. Pois a cada vez que me entregava a um homem era por paixão, nunca por simples diversão. Eu amava, era amada, cortejada, adulada. Por outro lado, despertei muita inveja, ciúmes, rancores e falatórios, com os quais nunca me importei. Minha situação social e financeira me dava esse privilégio. Vivi, meu caro comandante, intensamente, e de nada me arrependo. Fui uma mulher feliz durante muito tempo. Agora pago o preço.

Minhas filhas, tive duas, tiveram apenas parte dessa sorte, que durou até o tempo de mocinhas. Casaram mal, com criaturas que sempre desprezei. Interesseiras e oportunistas, sem caráter. Com a morte súbita de meu marido, Clemente escondia que sofria do coração, fui atingida pelo rodamoinho post-mortem. Eu estava acostumada a viver, usufruir e gozar, e tudo o mais ficava nas mãos de Clemente, os negócios me aborreciam. O pior de tudo foi a ambição despertada por sua empresa, pelo valor de seus negócios, pela fortuna que acumulou e que eu desconhecia, nunca parei pra pensar nisso. Eu só fui fazer idéia da montanha de ouro onde estava sentada quando a tempestade me atingiu em cheio. Não quero entrar em detalhes que até hoje me magoam e que envolveram amantes de meu falecido marido e filhos, filhos, comandante, ele tinha filhos bastardos e eu nunca soube de nada, nunca desconfiei, era uma boba e Clemente era matreiro e safado. E eu era uma borboleta, alegre e desatenta.

Pois bem, ao final me vi despojada de tudo, de tudo mesmo, a que teria direito, e até hoje processos rolam na Justiça, dos quais, sem qualquer sombra de dúvida, nunca saberei o resultado, graças à criminosa morosidade de nossa Justiça. Triste foi ver minhas filhas, as filhas a quem tanto amei, apesar de alegarem que eu só lhes dedicava um olhar distraído, açuladas por seus maridos calhordas, tomarem parte na trama que me jogou…mas deixemos o passado pra lá, passado é defunto e deve ser enterrado.

Vamos falar sobre o que interessa no momento, quando vou ser despachada para outra esfera. Já comprei um pedacinho de terra nesse simpático cemitério, ao lado da tumba de meus avós, e ali quero ser enterrada. Na lápide, mande por apenas meu nome, data de nascimento e de morte, para que, se algum dia, alguém quiser saber de mim, nem que seja para pedir perdão, saiba onde me encontrar.

A casa onde moro é alugada e deve ser devolvida a seu dono, o Joaquim Tibúrcio. Todos os aluguéis estão pagos, inclusive o deste mês, sempre paguei antecipadamente, os recibos estão na gaveta da mesinha de cabeceira. Cair em desgraça me ensinou algumas coisas. Os móveis pertencem à casa e estão em perfeito estado de conservação, como poderá comprovar. Os livros devem ser doados a alguma instituição, não sei qual, nem se tem alguma na cidade, fica a seu critério. As roupas de cama, de banho e mesa e as de meu uso, as panelas, pratos e talheres, devem ir para a família do menino Lourival, assim como as galinhas e o que de mantimentos houver no armário da despensa. A esse pobre menino devo a ajuda e a companhia nesses últimos anos de minha vida. Dei-lhe muito trabalho, nunca reclamou, nunca me fez cara feia e sei que o que lhe deixo não compensará o que passou a meu lado. Acredito mesmo que será ele quem descobrirá meu corpo morto. A ele, meu muito obrigado. Aos demais o meu silêncio.

Adélia da Silva de Guiot

Louro sentiu que ficava vermelho ao ver que todos os olhares se voltavam para ele. Não entendera muita coisa da carta da velha, mas ficara satisfeito. Pelo menos por alguns dias teriam comida e a mãe reformaria os vestidos da velha para as irmãs e para ela mesma. Pena que os livros fossem para outras pessoas. Não que gostasse de ler, temia era que houvesse corrido as páginas muito depressa e esquecido alguma nota entre elas. Será que ainda daria tempo de dar mais uma olhada?

Capítulo 43 >>

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