Capítulo 41

Naquela noite a mãe de Verônica passou muito mal. Agitada, se debatia, delirava, falava sem parar, emendando um assunto em outros, todos alucinados, sem lógica, e xingava, blasfemava. Logo ela, pensou a filha, mulher religiosa, que a vida inteira nunca disse um palavrão. Agora parecia uma dessas mulheres desbocadas que vagam pelas ruas, agredindo os passantes. Ainda bem que ela não sabe o que está dizendo, que não pode se ver nesse descabelo.

Zerli, sentada aos pés da cama, a ajudava a contê-la. Num momento de distração a  velha se jogara da cama e agora ostentava um galo no meio da testa. Fora uma luta para levá-la de volta pra cama, Verônica não tinha forças, estava exausta, e Zerli, com a barriga já fazendo volume, estava desajeitada.

– Cuidado, Zerli, não se esforce demais, vamos esperar ela se acalmar, parar de se debater. Não quero que nada prejudique nosso bebê. Se continuar assim, acho que vou mandar buscar o Corisco para nos ajudar.

Por fim conseguiram dominá-la e a muito custo fazê-la deitar-se. Zerli se queixou de dor nos quadris e se espreguiçou.

– Não é nada não, Verônica, já senti isso outras vezes. Daqui a pouco passa.

– A cambaxirra também dá fricotes? perguntou a mãe. Chama seu pai pra dar uma coça nela. Gente presepeira.

Segurando a mãe pelos ombros para evitar novos solavancos, Verônica examinou a figura de Zerli, toda apertada no vestido.

– Essas roupas não cabem mais em você. Vou pegar alguns vestidos de mamãe, ela não vai usá-los mais mesmo e vou mandar Nicéia reformar pra você. São vestidos bonitos, bons, pouco usados. Alguns estão fora de moda, mas Nicéia dá um jeito. Não quero ver nosso nenê tão apertado.

– Não sei pra que tanta preocupação. As mulheres lá da roça usam a mesma roupa, só descosem do lado pra alargar. Daqui a uns meses vou estar boa de novo, graças a Deus.

– Você não está doente, Zerli, está esperando um filho. Vou ficar boa de novo, eu hein!

– Pra mim é como se estivesse. Ele só me incomoda.

– Cê não sente nada por ele?

– Às vezes sinto raiva, não dele, que não tem culpa, mas de mim, por ser tão burra.

A água revolta do rio expressava bem o que se passava na alma de Alberto. Estava num beco sem saída. A cretina da Zuca mexera seus pauzinhos e o encurralara. Nunca pudera imaginar que ela chegasse a tanto. Criatura diabólica. Arlete o alertara, essa mulher quer que você se case com ela, olha lá, hein! Na hora ele rira gostosamente, era difícil pensar naquela quarentona rolando na cama com qualquer homem, que dirá com ele. E Arlete estava certa, por detrás a solteirona encalhada tramava sua perda.

Em princípio precisava de calma e de pensar muito antes de tomar qualquer decisão. Tinha uma vida estável, um bom emprego e três filhos pequenos para criar. Não podia jogar tudo isso fora, não podia fugir de suas responsabilidades. Por outro lado, estava muito apaixonado por Arlete, há muito não vivia um tão longo período de felicidade. Como fazer? Ela não aceitaria ser sua amiga, a outra. Isso tiraria suas chances de ter a filha de volta. Sua cabeça estourava de dor.

Para completar, o problema da filha de Arlete que Dinha levara às escondidas, Deus sabe para onde. Como descobrir o paradeiro das duas? Arlete queria ir para Niterói, para onde presumivelmente elas foram, uma cidade que ela não conhecia e sem dinheiro suficiente para ficar lá por muito tempo. Como ajudá-la? Dinheiro ainda podia adiantar algum, mas como ela ia fazer para investigar o paradeiro da filha? Onde moraria? Por onde começaria a procurar? E como enfrentaria os sabidões de uma cidade grande, uma mulher simples, nascida e criada numa cidadezinha do interior? Ele sabia bem dos riscos que pessoas de fora corriam nas mãos dos malandros. Conhecia casos. Não seria melhor aguardar qualquer notícia, alguém haveria de saber onde elas estavam. Não se some assim de uma hora para outra. Arlete não concordava.

Eu, chamado às pressas, também não sabia o que dizer e estava vivendo às voltas com outro problema: a tristeza de Jaçanã desde que o tal Toureiro dera no pé. Ele bem que avisara, mas mulher apaixonada fica cega, surda e muda e logo nas vésperas de se apresentar no concurso de calouros curtia uma dor de cotovelo sem tamanho. Isso poderia atrapalhá-la. Sim, porque para Eu, Toureiro simplesmente fizera mal a ela e fugira para outra praça e também para escapar da porção de credores que o perseguia. Ah, essas mulheres! Fugira delas, fugira dos problemas que elas traziam e eles vinham estourar em suas mãos.

Alberto olhava as fortes marolas que chacoalhavam as embarcações ancoradas ao longo do porto e sentia o mesmo tumulto na sua alma. Saíra direto do trabalho para a casa da amada, buscando consolo e solução e encontrara a confusão, Arlete chorando como uma desesperada, querendo viajar de qualquer maneira, já com a mala arrumada. Fora um custo dissuadi-la. Mas até quando conseguiria segurá-la?

Eu, por sua vez, estava macambúzio, não haveria espetáculo no bar naquela noite, Arlete não tinha condições de tocar.

No horário de sempre Louro estava de pé. Desanimado, pensava no longo dia que tinha pela frente, com as tarefas miúdas para fazer, tarefas de mulher. Por que seus 18 anos não chegavam logo? Sonhara a noite toda com guerras e pouco antes de acordar ouviu um barulho forte, que no sonho era o do corpo de um soldado caindo morto na trincheira, acertado por um tiro de seu fuzil. Ele adorava sonhar com batalhas, onde sempre saía vencedor.

Bocejou algumas vezes, abriu a porta da traseira de seu quartinho para mijar no chão do quintal, fingiu que atirava num bem-te-vi que gritava na goiabeira. Tornou a se esticar, sem vontade nenhuma de enfrentar as tarefas. Trocou de roupa lentamente, os braços moles, as mãos sem força.

E foi nesse estado de desânimo que entrou na casa da velha. E o que viu o paralisou: a velha caída, de cara pra cima, olhos abertos e boca torta, um braço estendido para a frente como se quisesse agarrar alguma coisa, atravessada na porta entre o quarto e a sala. No mesmo instante teve a certeza de que o barulho da queda que no sonho era a do soldado tinha sido do tombo da velha. Ela me avisou, pensou, se arrepiando todo.

Foi se chegando devagar, sem tirar os olhos da mulher. Uma calma profunda o invadiu. Não sentia mais medo. Como é que se fazia mesmo para descobrir se a pessoa estava viva ou morta? Fixou a vista no peito dela para ver se respirava. O vestido estava imóvel, naquela manhã não havia vento, nem mesmo uma brisa. Constatou que ela não estava mais respirando. Agachou-se, colocou a mão na testa dela: quase fria. Chamou-a. Nenhuma resposta. Chamou de novo. Os olhos dela olhavam para o teto. Está mortinha da silva, concluiu. E como vira outras pessoas fazerem nessas ocasiões, correu a procurar uma vela pra colocar na mão dela. Quem morre sem luz fica vagando no espaço, lembrava-se de ter ouvido alguém dizer.

Depois de acender a vela e prendê-la com o auxílio da pedra de segurar a porta na mão da defunta, fechou com carinho os olhos dela e se perguntou: o que faço agora? Veio à sua memória a carta para entregar ao comandante da Capitania dos Portos que ela sempre lhe lembrava. Na cadeira de balanço o livro, ainda com a nota a aparecer. Dessa vez não titubeou, pegou a nota e enfiou no bolso, sem nem olhar seu valor. Depois, persignou-se e entrou no quarto da velha. Lá estava a mesinha de cabeceira e acima dela a estante. Pegou os livros, um a um, e folheou-os. Apenas uma nota entre as páginas e de pouco valor. Meteu-a no bolso.

A gaveta da mesinha parecia empenada, custou a se abrir. Lá estava a carta, dentro de um envelope comprido, fechado. Sopesou-a e enfiou no outro bolso. Passou uma revista na gaveta, nada achou de interessante. Fechou-a e correu os olhos pelo quarto. Coisas bobas, paninhos bordados, um pinico de louça, desbeiçado, bem antigo, um par de sapatos, um tapete de retalhos.

Saltou por cima da morta, fechou a porta da sala e correu em casa avisar à mãe. Ela saberia o que fazer com a defunta.

Não foi fácil falar com o comandante, ele estava em reunião, Louro pediu ao marinheiro que lhe entregasse a carta e dissesse que era urgente, um caso de morte. O comandante apareceu logo depois, a carta ainda fechada nas mãos.

– O que é isso? perguntou, com voz tonitruante.

– Foi a velha que mandou. Ela morreu.

– Como mandou se ela morreu? E que velha é essa?

Louro estava afrontado com a corrida que dera até ali e com dificuldade de arrumar as palavras certas para contar o que acontecera. Mas aos poucos, devagar, foi falando, explicando tudo e o comandante balançando a cabeça afirmativamente.

– Pode ir, disse ele, menos bravo, vou mandar uns homens pra providenciar tudo. Você disse que pediu à sua mãe para cuidar da defunta, não foi? Pois vá depressa pra lá e não deixe mais ninguém entrar na casa antes dos meus homens chegarem. Chispa.

Fora um dia complicado para Verônica. A dor nos quartos de Zerli agravou-se, teve medo que ela estivesse abortando, mandou buscar um médico, nada demais, disse ele, mas recomendou repouso e tranqüilidade.

O que a mãe não permitia com seus ataques de alucinações cada vez mais freqüentes, gritando que o ladrão de cavalos invadira a fazenda, estava de olho no tordilho da filha, manda armar seus homens, Zizinho, que a mulher do governador vomitou na mesa e ninguém sabe engomar uma camisa nessa casa, tem picumã por tudo quanto é canto, que gente mais porca e relaxada, só chicote resolve, cadê aquela cambaxirra que não serve pra nada e por aí afora. Quando se afastavam do quarto era preciso amarrá-la à cama para que não caísse e isso doía no peito de Verônica, a mãe parecendo uma prisioneira, que tristeza.

Precisava urgentemente arrumar uma cozinheira para substituir Zerli. Providenciara uma lavadeira e mandara chamar a costureira, a quem entregara vários vestidos usados da mãe para que fossem remodelados para a grávida, um inferno de vida, um mundo de coisas a fazer, ela sozinha pra tudo, no fim do dia estava um caco.

Como se não bastasse, mal acabara de dar janta à mãe e recebera uma visita. Um representante da usina, engravatado e pomposo, queria saber se estava disposta a vender a fazenda, a usina estava decidida a produzir suas próprias canas, já adquirira algumas propriedades e a sua ficava bem no meio, dividia as terras em duas partes, era só botar preço para fechar negócio.

– Agora não tenho condições de tratar disso, disse Verônica, ajeitando a mecha rebelde que insistia em cair sobre o seu olho, mal tivera tempo para passar um pente no cabelo. Mamãe está muito doente, precisando de meus cuidados e preciso pensar nisso com calma. Uma parte da fazenda é minha, herança de meu pai, mas meu marido tem de concordar e não sei por onde ele anda. Está difícil pensar nisso agora.

O homem se despedira cheio de mesuras.

– Me desculpe, senhora, eu não sabia da doença da senhora sua mãe, se precisar da usina pra qualquer coisa é só nos chamar, não faça cerimônia.

Verônica tentou sorrir, sabia o quanto de oportunismo havia no oferecimento.

– Me desculpe mais uma vez, senhora, podemos ter esperanças? perguntou ele na saída.

Verônica se impacientou, respondeu de má vontade:

– Já disse, está difícil pra mim, nesse momento, meu senhor, pensar em qualquer outra coisa que não seja a saúde de mamãe. Mas se houver alguma novidade eu aviso a vocês, pode deixar.

Ele sorriu e deixou-lhe um cartão com o telefone.

Zerli franziu a testa quando Verônica lhe contou da visita.

– E minha casa? perguntou, ela fica dentro da fazenda.

– Papai deu aquele pedaço de terra pra sua mãe, não foi?

– Mas não de papel passado.

– O que ele decidiu será respeitado. Pelo amor de Deus, Zerli, não ponha mais caraminholas na sua cabeça, não quero que isso afete a saúde de nosso bebê. Se um dia eu resolver vender, você terá a sua parte, fique tranqüila.

Capítulo 42 >>

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