Capítulo 4

Enquanto o trem resfolegava entre a precária estrada de rodagem e o Paraíba do Sul, as paisagens do rio trouxeram lembranças de uma infância quase feliz para Otília. Lembrava-se dos passeios dominicais de trem a Atafona, sentada bem arrumada ao lado do pai, lugar duramente disputado com Zuca, que se achava dona dele. Bebé ainda não era nascida e as duas disputavam o pai com fervor. Ele sorria, todo bobo. Zuca era a menor das duas, mas tinha determinação de ferro. Quando queria alguma coisa, não media esforços nem conseqüências. Certa vez chegara a se deixar cair numa calçada, ralar os joelhos, só para conseguir tirá-la dos braços do pai. Zuca não sabia o que eram obstáculos quando queria alguma coisa, era como o trem, rompendo os matos, atropelando bichos, derrubando sem pena o que viesse pela frente. Uma sonsa.

A cidade onde nascera e se criara ficara para trás, com seu cheiro de coisa velha, mofada, que nem o vento nordeste conseguia dissipar. Esse bodum deve estar entranhado nas pessoas, concluiu, com uma certa repugnância. E lembrou-se de Maurício, com suas ácidas críticas à cidade e seus habitantes, que ela, de alguma forma absorvera. No princípio aborrecia-se quando ele falava mal de sua velha cidade, mas depois…Eu não suportaria mais viver aqui, concluiu.

Nos seus ouvidos soavam as palavras do marido:

– Uma cidade também naufraga, meu bem, ainda mais se é na zona portuária. Não por causa das enchentes do rio ou de outros efeitos provocados pelas rebeliões da natureza, mas por incompetência, por ganância ou má administração. A cidade é como um navio ou uma empresa, precisa de um bom comandante ou bom administrador. É ele, a sua visão, a sua maneira de agir, que vão determinar o sucesso ou o fracasso. Nossos administradores municipais, com raras exceções, só pensam em se locupletar nos cofres públicos.

– E se a empresa fale ou o navio naufraga, completara ela, quem paga o pato são os empregados ou moradores, é isso?

– Exatamente o que aconteceu ali. Quando um navio de grande porte naufraga, muitos tripulantes morrem na hora, outros nadam para alcançar uma praia, qualquer uma que seja, para preservar sua vida. Alguns se agarram aos destroços que bóiam e se deixam levar pela correnteza. Também esses têm chance de recomeçar. Outros grudam no que restou no navio e vão afundando com ele, na esperança de que chegue socorro de algum lugar ou que papai do céu se apiede deles. Socorro que pode nunca chegar, como acontece na maioria das vezes. Esses são os naufragantes, os que ficaram na cidade, sobrevivendo de biscates, esperando que o futuro traga progresso, desde que não precisem se esforçar para isso. Não querem passar pelo sacrifício de nadar ou boiar por horas nem de se adaptar a uma terra estranha. São os naufragantes, como seu cunhado Alberto e outros, que não souberam sair, cavar novas oportunidades depois que as atividades portuárias cessaram e eles se viram no olho da rua. Preferem viver assim, se lamentando, criticando os que partiram, esperando que a solução para suas vidas caia prontinha do céu.

– E ainda tem aqueles que se agarram aos que estão nadando e os arrastam para o fundo, completou ela, melancólica. Alberto agarrou Bebé pelo coração e não deixou que ela procurasse novos caminhos.

A noite caía depressa. Louro, com a barriga cheia do jantar da velha, caminhava devagar para casa, por entre grupos de meninas brincando de roda e os meninos de picolê e vilão do cabo. Gostaria muito de se juntar a eles, como em outras tardes. Vadiar era muito bom, mas não podia, tinha de ir pra casa. Não dormiria esta noite na casa da velha, de vez em quando precisava aparecer em casa, senão a mãe mandaria um dos irmãos procurá-lo. Pelo menos uma vez por semana se dispunha a passar por aquele tormento. E para evitar confusões, antes que o pai chegasse se meteria na cama, com sono ou sem sono, e só se levantaria se o pai ameaçasse a mãe. Que batesse nos irmãos, pouco lhe importava, mas na sua mãe não. Semanas atrás a coisa ficara tão feia que ameaçara o pai com uma faca. Os gritos lancinantes da mãe atraíram vizinhos que apartaram a briga e acalmaram o pai. Droga, o velho não fazia nada, não trabalhava, não trazia um mísero centavo para casa e ainda queria se arvorar em senhor de todos. Nada o satisfazia, tudo o irritava. Era preferível dormir.

Tinha noites em que o pai chegava mais cedo, cabisbaixo, macambúzio e danava a falar, a lembrar o tempo em que trabalhava no estaleiro, quando nunca deixara de botar comida em casa e a família vivia bem, dizia que agora era um inútil, um fósforo riscado, carta de baralho jogada fora, um merda que não servia para mais nada, que preferia morrer, por que Deus não o levava logo, não o tirava dessa vida lamparona? O monólogo lastimoso sempre acabava em choro, a mãe, coitada, ia se abraçar com ele, a chorar também, mulher boba, devia era dar o fora, arrumar um emprego em casa de família, o velho só lhe dava aporrinhações. Odiava aquele trapo humano. Por que o pai não fizera como muitos, que foram atrás de emprego em outras cidades? De lá mandaria dinheiro para casa, viria de vez em quando, não armaria aqueles escândalos, todos seriam felizes. Merda de vida.

– Ainda acabo com a raça de vocês! gritava o pai quando estava furioso. Cambada de vagabundos, só sabem pedir comida. Mato um por um e ainda boto fogo na casa.

Eles tremiam e choravam. A mãe os acalmava. O pai jamais faria uma coisa dessas, Deus me livre, era um homem bom, só que estava desesperado por que não conseguia emprego. E só falava essas bobagens quando bebia. Bebida e desespero o faziam ficar naquele estado, fora de si. E a família em pânico.

– Tenho ódio, dizia ela, é dos miseráveis que dão bebida a ele. Sabem que é fraco das idéias, pagam bebida só para botar ele assim. E ainda ficam gozando ele, coitado! São uns canalhas. Querem ver a desgraça desse pobre infeliz.

Por isso, mil vezes dormir no quarto apertadinho e sem luz da casa da velha, mas em sossego. Chato é que cedinho ela batia na porta e lá ia ele para as filas depois de tomar café. Comia pão dormido, esquentado na chapa do fogão, ninguém podia afirmar quanto tempo ficaria na fila da padaria. Mas pelo menos tomava café com leite e pão com manteiga. E o que sobrava guardava num saco de papel que levava para seus irmãos quando ia em casa. Os olhos da mãe brilhavam de alegria.

Depois do café a velha aparecia na cozinha com o dinheiro para as compras do dia, contadinho. Poucas vezes sobrava um troco. Ela dizia que em tempos de fartura se abria a mão, em tempos de aperto se fechava. E parecia que na cidade todo mundo andava apertado. Pelo menos todo mundo com quem se relacionava.

Gau lhe sugerira que observasse onde a velha guardava o dinheiro. E lhe contasse.

– Ocê nem precisa fazer mais nada, só me conta onde ela esconde o dinheiro e se mete no seu quarto que de noite eu vou lá e faço uma limpa. Depois divido a grana com ocê.

Era tentador. A velha tinha dinheiro guardado, não sabia onde, nem como ela o conseguia, pois não trabalhava, ficava o dia inteiro dentro de casa, cuidando das plantas e dos passarinhos. Era a única coisa que não pedia pra ele fazer, tinha medo que deixasse um passarinho escapulir ou quebrasse alguma planta.

– Você é muito estabanado, dizia ela. Deixa que dos bichinhos eu cuido.

A noite já estava fechada quando Arlete seguiu para a praça. Um cheiro forte e adocicado de dama-da-noite inundava o ar. Lembrou-se dos antigos passeios nas noites de lua, quando ia pendurada no braço forte de Afonso pelas ruas, pela beira do rio, pela praça, conversando, rindo, namorando. Era bom demais. Ela falava pelos cotovelos e ele respondia o que ela queria ouvir, sempre sorrindo. Quando passavam por um trecho mais escuro ele lhe roubava um beijo e a apertava contra seu corpo. Mesmo casados se portavam como namorados. Sorriu, feliz com as lembranças.

As luzes das embarcações oscilavam no breu do rio. Um homem gritou de uma prancha e foi interpelado por outro que estava num patacho. Alguém cantava com voz desafinada uma melodia em língua desconhecida. Em algum ponto uma coruja piou.

Arlete encostou-se na amendoeira e ficou olhando, perdida nas lembranças, a imensidão escura. Do rio parecia vir o forte cheiro de homem que Afonso exalava. Ela sentiu como uma cólica sem dor a lhe torcer o corpo. Há quanto tempo não sentia o abraço apertado de um homem, não se sentia sendo penetrada com firmeza e doçura, o corpo pesado imprensando o seu em movimentos regulares, ritmados, que a princípio lhe provocavam uma espécie de gastura gostosa, que crescia, crescia, acelerando seus movimentos, levando seus dedos a se aferrarem às costas dele, cada vez mais forte, até que tudo explodia num paraíso de gozo. Que outro homem a faria se sentir assim?

Não conseguia chorar mais, por isso a angústia doía em todo o seu corpo. Fechou os olhos e ficou quietinha, esperando que Afonso surgisse de qualquer canto e a segurasse pela cintura e a puxasse contra si, bem junto, murmurando aquelas palavras sem nexo, deliciosas, que preparavam seu corpo para o assalto dele.

Capítulo 5 >>

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