Capítulo 39

Três noites de chuva, nenhuma embarcação ancorada no cais, nenhum apito de vapor, nenhum embarcado perambulando pelas ruas, bar do Eu fechado, três dias sem ver Toureiro. Seu corpo ansiava pelo corpo dele, pelos seus carinhos, seus beijos, por se sentir apertada até à quase sufocação quando ele gozava. Ah, como era bom se sentir amada!

Com chuva também não tinha lavagem de roupa e mesmo que tivesse ele não apareceria no porto das lavadeiras. Na última noite em que se encontraram, depois do esfrega, ela lhe perguntara por que ele não ia lá vê-la.

– Trabalhando, minha rainha. E depois, prefiro vê-la cantando, gloriosa, do que  debruçada sobre uma bacia, esfregando roupas.

– Só isso? Tem gente que diz que você é casado, é?

– Quando eu for seu empresário, respondeu ele, fugindo da pergunta, e você for eleita a rainha do rádio, nunca mais vai pegar numa bacia. Até o seu banho vai ser preparado pelas empregadas. Você não merece a vida que leva. Com a voz que tem, com essa beleza toda, tem é de ser servida, nunca servir.

– Bem que eu gostaria, disse ela, sorrindo. Minhas unhas precisam de cuidados, às vezes fico com vergonha de cumprimentar as pessoas.

– Suas mãos são divinas, minha rainha, mesmo sem ser cuidadas. Você é tão especial, que mesmo sem trato consegue conquistar as pessoas. Além de sua voz, meu anjo, você tem algo mais. Alguma coisa que fascina e conquista as pessoas. Um dia vou fazer o mundo inteiro reconhecer isso e se curvar a seus pés.

Ela não havia esquecido a sua pergunta e insistiu:

– Não é que eu me importe com isso, eu seria sua de qualquer maneira, mas eu preciso saber, você é casado?

Ele ficou calado por alguns minutos, uma expressão de tristeza ensombrando-lhe o rosto bonito. Depois, com voz sumida, disse:

– Há momentos na vida de um homem que ele gostaria de esquecer. Besteiras que se comete em determinadas circunstâncias e das quais se arrepende pelo resto da vida.  Coisas que magoam, porque foram cometidas num momento de insensatez, de loucura, contrariando a própria natureza. Coisas de uma juventude insensata. Armadilhas do destino que a gente não tem como escapar. Há muitos anos, quando eu era muito jovem, inexperiente, conheci uma linda mulher, criatura que tinha partes com o demônio. Como disse, era muito jovem, quase um garoto e para meu azar, muito fogoso. Sempre fui. Mas era um bobinho que se achava o maior e que as pessoas enganavam com facilidade. Caí em várias trampas e algumas deixaram marcas. A pior foi essa mulher, muito mais velha que eu, separada do marido, sedutora, que viu em mim um objeto de prazer. Me usou para seu deleite. Era uma mulher belíssima. Eu era um bobalhão, sem noção das coisas, caí como um patinho. Comecei a dormir com ela, entrava escondido na casa dela de noite e saía de manhã cedinho. O marido não desconfiava de nada ou fingia que não sabia.

Ele fez uma parada e olhou para ela, expressão amargurada.

– Aí aconteceram duas coisas terríveis, que destruíram minha vida: ela engravidou e seu marido foi assassinado.

Ele suspirou e fechou os olhos.

– Foi uma provação. Ela, como tinha ficado viúva, insistiu em se casar comigo. E eu, bobinho, me senti o mais feliz dos homens. Estava apaixonado por aquela megera e ia ser pai. Muito antes de terminar seu luto nos casamos. Cerimônia simples, só no juiz. Eu, feliz da vida, pensando que ia constituir uma família. Aí estourou uma bomba: a polícia começou a suspeitar que eu havia matado o marido dela e que ela era a mandante. Foi terrível, uma provação. Se não tenho o espírito forte…Inventaram coisas sobre mim, arrumaram testemunhas falsas, fizeram de tudo para me enredar. Ela me acusou de ter feito tudo sozinho, disse que eu era ciumento e ambicioso. Fui preso, sofri horrores na prisão, você nem pode imaginar. Fora o desgosto que dei à minha família, minha mãe adoeceu até.

Ela o interrompeu, intrigada:

– Mas por que ela acusou você? Se ela gostava docê a ponto de se casar, por que agiu assim?

– Porque queria ser livre.  Ela sempre me dizia que seus maiores sonhos eram ser rica e livre. Ela não me amou, me usou, a safada. Ela também ansiava por ter um filho e assim que se viu com a criança nos braços decidiu me tirar de seu caminho. Eu sempre jurei e continuo jurando que sou inocente. Ninguém quis me ouvir, sempre despertei muita inveja nas pessoas medíocres. E ela conseguiu provar que não tinha nada a ver com o crime, eu não. Tudo fora preparado para me incriminar. Eu não tinha emprego nem dinheiro para pagar um bom advogado e ela, mesmo sendo minha esposa, não se preocupou em arrumar um pra mim. Isso não lhe diz nada? Fui enredado por uns sujeitos que, desconfiei depois, ela tinha contratado para isso. Estava cansada de mim, queria se ver livre porque o marido lhe deixara uma bela fortuna e queria gozar sozinha com nosso filho.  Um dia Deus me fará justiça.

Jaçanã podia ver, mesmo na semi-obscuridade, que ele chorava. Ela se comoveu, puxou-lhe a cabeça, apertou-a junto ao peito.

– Foi o pior momento da minha vida. Na prisão passei por humilhações e sofrimentos que nenhum homem, por pior que seja, merece passar. Com o dinheiro que herdou do falecido ela comprou a polícia, o juiz e os advogados. Fui condenado num júri que envergonha a Justiça brasileira. Mas um dia, e Deus há de me permitir isso, vou provar que sou inocente, que tudo foi tramado por aquela bandida para me incriminar.

Ela chorava junto com ele e alisava seus cabelos.

– Um dia, uns bandidos perigosos da penitenciária, armaram uma fuga e como eu havia me tornado amigo deles, que acreditavam na minha inocência, me levaram para que eu pudesse provar em liberdade que nada tinha a ver com o crime. Assim que me vi fora da prisão me afastei deles. Alguns foram recapturados, eu vivo fugindo, quero provar que sou inocente, que nunca matei nem mandei matar ninguém. E é essa a finalidade de minha luta: provar que sou inocente. E seu amor, minha rainha, me deu mais forças.

– E seu filho?

– Nunca conheci. Ela vive com outro homem, se casou no Uruguai, se faz passar por madame. Soube, por uma velha amiga minha, do tempo da infância, que é um menino lindo, inteligente, puxou a mim em tudo. Um dia vou me encontrar com ele, não vou jogá-lo contra a mãe, mas a Justiça, ao reconhecer que sou inocente, vai mostrar a ele a peste que ela é. Uma jararaca. Deus não vai me negar isso e com seu apoio, minha rainha, tenho certeza que conseguirei. Você acha que tenho cara de ter matado um homem? Tenho horror à violência. Nunca matei uma barata!

– Claro que não, meu bem, tenho certeza que você é incapaz de matar uma mosca.

Ele chorara muito e ela sentira que ele enfim desabafara, tirara um peso de seu peito. E entre beijos reafirmara seu amor, sua vontade de vencer no rádio para ajudá-lo.

– Vou ganhar muito dinheiro e contratar os melhores advogados do Brasil para defendê-lo.

Acabou de forrar a caixa de sapato infantil com papel crepon e nela depositou, com cuidado, a bruxinha de pano que fizera para dar de presente à filha no Natal. Aprendera a fazer aquelas bonequinhas com a mãe e já fizera várias para Gracinha, inclusive aquela que lhe dera durante um de seus encontros na igreja e que ela não largava, mesmo censurada por Dinha, a cachorra. Se desse um presente mais caro, um vestidinho, um par de sapatos, na certa a desgraçada da Dinha não ia deixar que ela recebesse. Chegara a conversar com dona Cota, a costureira de Dinha, e que fazia os vestidos da menina, e ela a desaconselhara.

– Você está coberta de razão, Arlete, não há nada de mais em dar um vestido à sua filha. Mas nós conhecemos bem o gênio da Dinha, ela é mandona, desaforada, vai lhe fazer uma desfeita. Não paga a pena.

– Mas Gracinha é minha filha, Cota, ela roubou a menina de mim, choramingou Arlete.

– Todo mundo sabe disso, mas Dinha jura de pés juntos que você deu a menina pra ela e agora que se arrependeu quer de volta.

– É mentira, quase gritou Arlete. Ela pegou a menina contra a minha vontade por que o Afonso estava fraco dos pulmões e me disse que devolveria a menina assim que o pai dela melhorasse. Como ela era a madrinha da Gracinha, minha amiga do peito, vivia metida lá em casa, eu não me importei, achei que era para o bem dela. Mas a infeliz da Dinha, que nunca pode ter filhos, resolveu ficar com meu anjinho.

– Ela disse que fez isso a seu pedido e que depois da morte do Afonso você perdeu o rumo da vida, tornou-se uma devassa. Por que continua a cantar naquele bar, Arlete? Aquilo é um antro de maus elementos, de gente de vida torta.

– Isso é calúnia, uma intriga de Dinha. É um bar familiar, o Eu é um homem sério. Toco ali para me sustentar enquanto o inventário não se resolve e todos me respeitam.

– Dinha alega que você foi amante do Eu e agora está de agarramento com o Alberto. E que não dá pra contar nos dedos os homens com quem você andou nesse meio tempo.

– Ah, caluniadora, ela pode provar isso? se exaltou Arlete. Aquela infeliz, invejosa. Eu sempre foi meu amigo, só isso, juro. Cotinha, que mora do meu lado, sabe bem disso. Ela pode provar que Eu me ajudou muito quando estive doente. Ele salvou minha vida. O único homem que eu tive depois de Afonso foi o Alberto porque ele vai se casar comigo assim que seu luto terminar.

– Isso é uma outra coisa que Dinha anda espalhando por aí, que você vai se casar só por interesse, que o Alberto ia se casar com a cunhada dele e você entrou no meio, só de maldade, porque ele está bem financeiramente. Quer dar o golpe do baú.

Arlete arregalou os olhos:

– Como é que essa miserável pode inventar uma mentira dessas, meu Deus? Que mulher maldosa! Alberto sempre me disse que a cunhada é como uma irmã para ele.

Arlete saíra arrasada da casa da costureira. Sabia que ali era um dos focos de disse-me-disse da cidade e talvez por isso, para tomar conhecimento do que se falava a seu respeito tenha preferido procurar dona Cota e não outras costureiras. Considerara os conselhos da costureira e resolvera não provocar Dinha dando um vestido à filha no Natal. De alguma forma as coisas iam caminhando bem, ela se encontrando com a filha na missa de domingo e no dia em que entrasse com o pedido de guarda da filha, que faria logo que se casasse com Alberto, ganharia a questão. Ela não era uma mãe desnaturada, desinteressada, era uma mãe afastada à força do convívio com a própria filha por uma criatura desalmada, infernal, que merecia voltar para o inferno, de onde nunca deveria ter saído.

Capítulo 40 >>

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


%d blogueiros gostam disto: