Capítulo 38

Verônica ficou preocupada ao encontrar Zerli na cozinha, aérea, junto ao fogão, com uma acha de lenha nas mãos, a olhar, sem parecer ver, a parede em frente.

– Zerli, chamou.

A empregada se voltou, como se saísse de um sonho, e a olhou com estranheza.

– Que está acontecendo, Zerli, está sentindo alguma coisa?

– Nada não.

– Não fique tanto tempo assim perto do fogo, pode prejudicar o neném.

Ela estalou os lábios, num gesto de pouco caso.

– Por mim…

Zerli colocou a acha de lenha no fogão e como se a presença da patroa não importasse, continuou parada, a olhar a parede enegrecida. Verônica se preocupava.

– O que tá incomodando você, Zerli?

– Nada não, só tô pensando na vida.

– Pensando no Otto?

– E eu vou perder meu tempo pensando naquele lamparão? Pra mim ele tá morto. Penso é nessa pobre criança que vou parir.

Pensava pouco em Otto, só de vez em quando relembrava sem emoção a cena de seu mergulho no manto de aguapés. Dali ele nunca mais vai sair, se dizia, ainda cheia de raiva.

Verônica estava assustada. Sentia que a cada dia aumentava a rejeição de Zerli pelo bebê. Isso pode prejudicar o desenvolvimento da criança, pensou.

– Eu não já disse pra você não se preocupar? Eu estou me responsabilizando pelo futuro do bebê, será nosso filho, será o filho que não pude ter. Verônica aproximou-se mais e passou-lhe as mãos nos cabelos. Não fique assim, não me deixe mais nervosa do que já estou com o estado de mamãe. Cê viu, ela não quis almoçar e acho que não vai comer o mingau que cê tá fazendo. Vira a cara com nojo quando aproximo a colher. Fica só se debatendo, falando bobagens, xingando, procurando por papai. É muito triste. Já mandei chamar Dr. Lourenço, mas ele só pode vir amanhã, estou com tanto medo. Ah, vou aproveitar a vinda do doutor e pedir pra ele examinar você. Me ajuda, Zerli, com mamãe nesse estado e você desse jeito eu fico transtornada.

Zerli suspirou e pegou o caneco com leite.

– Eu vou melhorar. Não fica preocupada não, isso passa.

A noite fora maravilhosa. Jaçanã havia tomado uma decisão e isso iluminava seu rosto e clareava sua voz. Sentado no lugar de sempre, Toureiro a olhava com paixão. Mais uma vez, só com o movimento dos lábios, ele lhe perguntara “Hoje?” e ela afirmara com um discreto movimento de cabeça. Ele sorriu e ela sentiu o bigode dele roçando seus lábios.

Quando Eu e o casal dobraram na esquina ela sentiu um frio na barriga, seu destino estava selado. Que aconteceria agora? Olhara com um certo receio a esquina deserta, não vira a flor no chão. Acelerou os passos e bem perto da esquina viu um braço surgir com uma rosa na mão. Ela pensou que ia desmaiar.

Toureiro apareceu sob a luz mortiça do lampião, todo de branco, sorrindo sempre, a mão estendida com a flor. Nervosa, tremendo, ela estendeu sua mão em direção à flor e viu-se puxada firme mas docemente para junto dele. Um perfume seco e excitante invadiu suas narinas quando ele a apertou contra o peito largo. Completamente aturdida, viu a mão dele levantar seu queixo e o bigode, com que tanto sonhara, se encostar nos seus lábios, pressionando com delicadeza e ir aumentando a pressão, enquanto a mão dele descia por suas costas, parava um instante em sua cintura e depois descia para sua bunda, puxando-a para cada vez mais perto, a ponto de sentir que algo duro forçava sua coxa. Com a outra mão envolvendo suas costas, ele a mantinha presa. Docemente aprisionada pelo amor.

Assim agarrados, sem poder respirar direito, foram se roçando pelo muro em ruínas até encontrar um espaço, para onde ele a arrastou, sempre beijando, ora sua boca, ora seu pescoço, num crescendo de fogo que a ia consumindo, não deixando que raciocinasse, era um torvelinho que a envolvia e fazia esquecer tudo que não fosse ele, seu perfume, suas carícias. Nenhuma palavra fora trocada, nem quando ele a deitou sobre uma esteira, que certamente ele havia colocado ali para isso, vai ver que há dias, na espera de sua concordância, mal sentira quando sua saia e as anáguas foram levantadas, a calcinha abaixada, os gestos dele haviam se tornado rápidos e precisos, e com as pernas entre as suas, abrindo-as, o bigode macio roçando seus lábios, ele penetrou-a devagar, tão suave que ela mal sentiu. Estava tão excitada que não notou que com a aceleração dos movimentos dos quadris dele os seus também se elevavam e seguiam no mesmo ritmo até que explodiram em gritos abafados e suspiros. Ela se sentiu no céu.

Ele tombou sobre seu corpo, parecendo inconsciente, e assim ficou por uns minutos. Depois murmurou no seu ouvido.

– Você era cabaço.

Ela concordou com a cabeça e sorriu.

– Agora é minha, para sempre.

Ela o abraçou com paixão, sem saber o que dizer. Ele a beijou na orelha.

– Você é a mulher que eu sempre quis encontrar.

E com essas palavras soando em seus ouvidos ela entrou em casa algum tempo depois. E eu achei finalmente o homem de minha vida, murmurou baixinho para si mesma.

Alberto gostava de ficar ao lado dela, na cama, depois que faziam amor, a conversar, falar sobre o cotidiano, sobre os filhos, os vizinhos, comentar sobre a noite no bar, fazer planos, tecer sonhos.

– A finalíssima do concurso de calouros está se aproximando, comentou Arlete, e tenho certeza absoluta que Jaçanã vai ganhar. Ela está cantando cada vez melhor.

– Graças a vocês dois, que ensaiam com ela todos os dias. Assim, até eu.

Ela riu e beijou-lhe o ombro.

– Fiquei preocupada quando ela me contou que estava namorando o Toureiro. Aquele sujeito não presta. Todos os dias converso muito com ela, explico que tem uma bela carreira pela frente, que não deve ceder às cantadas dele. Ela me jurou que até agora tudo não passou de beijinhos, mas que está apaixonada por ele. Tenho medo.

– Ela é adulta, sabe o que quer. Você avisou não foi? Agora é com ela.

– Eu também lhe deu muitos conselhos, parece até pai dela. Ela ri e diz que está tudo bem, que é uma moça direita e quer ser cantora.

– E se ele quiser casar com ela, como eu quero me casar com você?

– Você é viúvo, ele diz que é solteiro, mas quem pode garantir? Ninguém sabe nada da vida dele, nem sabe de onde ele veio.

– Não morava no Rio?

– É o que ele diz, mas quem garante? Mas vamos deixar Jaçanã pra lá, vamos falar de nós? Como vai sua doce cunhada?

– Aquela lá é maluca. Voltou a ser como antes, toda atenções, sorrisos, comidinhas especiais e agora inventou que vai dar uns lenços bordados por ela ao meu patrão, veja só, e não sossegou enquanto eu não disse o dia em que ele vem.

– Hum, isso não está me cheirando bem. Que será que ela está pensando…bom, deixa isso pra lá também, ela é adulta, deve saber o que faz.

O livro estava largado sobre a cadeira, a ponta de uma nota de dinheiro aparecendo por entre as páginas. Louro apoiou-se na vassoura e por uns instantes ficou olhando, fascinado, pensando que poderia com um simples puxão, sem precisar tirar o livro do lugar, pegar a nota e enfiar no bolso. Resolveria por uns dias o problema de alimentação de seu povo. A velha estava no banheiro, se aliviando, e pelo tempo, numa boa barrigada. Depois que pegasse a nota, continuaria a varrer a sala, sem pressa, para que ela o encontrasse ocupado e de nada desconfiasse. Era bem possível que ela nem se lembrasse que havia posto o dinheiro ali

A tentação era grande e se curvou para tentar ver o valor da nota. As mãos coçavam. Estava fácil demais. E se a velha tivesse deixado o dinheiro ali de propósito para ver se ele merecia confiança? Era uma velha sabida, morara muito tempo no Rio de Janeiro, podia ser uma armadilha para ver se ele caía.

Voltou a varrer a sala, mas seus olhos não se despregavam daquela ponta de nota que parecia chamá-lo. E se a velha nem se lembrasse mesmo daquele dinheiro? Um dinheiro que não faria falta pra ela, que devia ter outras notas enfiadas em outros livros. Talvez ficasse ali esquecida pra sempre. Pela abertura das páginas podia ver que ela já lera as páginas entre as quais a nota despontava.  E aquele dinheiro lhe seria de grande serventia. A mãe continuava sem poder trabalhar e até mandara o Nico acompanhar o povo que ia cortar tabua para ganhar uns trocados. A irmã embuchada nem da casa cuidava, estava enjoada, indisposta e mesmo com problemas nas pernas era a mãe que ia para o fogão, quando havia o que cozinhar.

Naquela manhã encontrara-se com Gau. O amigo tinha um arranhão na testa e um olho arroxeado. Devia ter se metido em alguma briga.

– Foi o que isso, Gau?

– Nada não, uma briguinha de rua.

Louro desconfiava que Gau mais uma vez tentara passar a perna em alguém no jogo de 21. Gau se achava muito esperto, mas acabava se dando mal. Sempre. Quando se afastou, Louro observou que o amigo mancava. Foi feio o frege, concluiu.  E Gau ainda viera com a proposta de assaltar a casa de dona Cota, uma costureira que, segundo ele, ganhava muito dinheiro fazendo vestidos para mulheres endinheiradas e guardava as notas numa botija de barro que escondia entre o galinheiro e o depósito de lenha.

– E o cachorro dela? perguntara Louro, um tanto interessado.

– Um bacamarte, respondera o outro, só serve pra latir. A gente arruma uma carniça no açougue do Lino, joga pra ele, parece morto de fome, e bota a mão na botija. Enquanto eu vigio o beco, você, que é mais magro, pula o muro e pega.

Louro estava escaldado e sabia que se tivesse sucesso, Gau haveria de querer ficar com a maior parte do dinheiro. Não queria romper com o amigo, estava cansado de ser passado para trás. E se negou a participar.

– Cê é um cagão mesmo. Que merda! Tá precisado de dinheiro e prefere deixar o fresco chupar sua bichoca por uns tostões a ganhar um bom dinheiro, sem nenhum risco. Já sei que não posso contar com você pra nada.

– É que não quero ficar com a cara amassada que nem a sua.

Gau virara as costas e fora embora.

E mais uma vez se via diante do dilema: pegar a nota ou não. E concluiu: sou um cagão mesmo, tenho que morrer pastando. E continuou a varrer a sala.

Capítulo 39 >>

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