Capítulo 37

Pela fresta da cortina da capela Arlete viu a filha chegar, acompanhada por Dinha. O marido dela estava atrasado ou viajando. Devia estar viajando, pois a manda-chuva da Dinha não deixava ninguém perder horário. Parecia um general.

Embevecida, Arlete ficou observando a filha. Gracinha era compenetrada, nem por um momento olhou para o lado da capela, seu rostinho de boneca cercado por cachos de cabelo alourado, parecia uma pintura. Benza Deus a minha filha, murmurou Arlete.   Dinha permanecia hirta, como se tivesse engolido uma vara de remar, as costas afastadas do espaldar do banco, véu negro cobrindo os cabelos ralos, os olhos duros fixados no altar-mor, os lábios finos balbuciando orações enquanto os dedos desfiavam as contas do rosário. Será que Deus ouvia aquela peste? Se eu fosse Ele, virava o rosto para o outro lado. Ela não merece atenção. Ela não presta, Deus deve saber disso.

Mal o padre começou a falar e Gracinha se levantou, meio encurvada, o véu branco cobrindo parte dos cachos, e pedindo licença aos que estavam sentados no banco, se dirigiu para a capela. Do seu posto de observação Arlete viu os olhos argutos de Dinha seguirem os passos de sua filha. Ela está desconfiada de alguma coisa, essa mulher é uma cobra traiçoeira. Preciso ficar de olho.

Os primeiros momentos com a filha foram o encantamento de sempre, os beijos babados, os abraços apertados, os carinhos, as conversas sem assunto mas cheias de intenção. Arlete queria saber tudo sobre o dia a dia da filha, como Dinha a tratava, comia direito? Tomava banho todos os dias? Escovava os dentes direito? E na escola?

Um aviso de seu instinto materno, um alerta divino, a fez olhar pela fresta e ver Dinha se levantando.

– Corre, minha filha, se ajoelhe no altar e fique rezando. Vou me esconder atrás da cortina. Aí vem a cobra peçonhenta.

Não conseguiu ver o que se passou, mas algum tempo depois, um toque na cortina, certamente um aviso de Gracinha, fê-la entender que as duas haviam se retirado. Com muito cuidado, puxou levemente a cortina e olhou a nave, a tempo de ver as duas chegando à porta intermediária da igreja. Gracinha ainda se voltou para o altar, fez uma genuflexão, se benzeu e sorriu diretamente pra onde ela estava. O coração de Arlete se encheu de alegria. Por mais que Dinha faça, pensou, minha filha é minha, só minha e em breve voltará para minha casa. Obrigada, meu Deus!

Ainda bocejando, Zuca se aproximou do fogão. Não conseguia deixar de tirar uma pestana depois do almoço, nem que fosse por dez minutos. Só que nunca se levantava antes de hora e meia de sono. Xixa fingiu não vê-la chegar.

– Tem café pronto? indagou Zuca.

– Ainda não, é muito cedo.

– Quem determina isso é minha vontade, bota água pra ferver.

Xixa a olhou de lado, mas obedeceu.

– Perguntou ao Alberto quando o patrão dele vem?

– Eu não. Eu sou paga pra cuidar da casa, fazer comida e mais nada.

– Imprestável.

A palavra saiu como uma cuspida e Xixa se encolheu. Zuca foi à janela e olhou a rua.

– Eu preciso saber disso logo, reclamou, e não tenho ninguém para me ajudar. Mas não vou desistir. Não pense que vai me vencer com sua má vontade, quando eu quero uma coisa, sai da frente.

– Eu só queria saber o que ocê tá pensando em aprontar. Boa coisa que não é. Ó, se quiser pão, manda alguém na padaria comprar que tenho muito o que fazer e não vou entrar na fila. Ou então se contente com um pedaço de bolo.

– Aquele bolo solado que você faz? Deus me livre. Manda pelo menos chamar o Zé Preto.

– Toma tento, criatura. Se eu pudesse sair para chamar o Zé, podia sair para ir na padaria. Cê não entende nada direito, parece que bebe. Credo!

– E cadê a moleirona que toma conta das crianças? Ô menina mais descansada. Eu vou ficar tomando conta delas enquanto ela vai na padaria. Chama ela, anda.

– Cê num tem boca não, é? Chega na janela e grita que lá embaixo ela escuta. Melhor, desce no quintal e fica logo olhando as crianças enquanto ela sai.

– Tá bom. Enquanto o café côa vai arrumando a mesa.

– Quer ensinar padre a rezar missa?

Irritada Zuca desceu as escadas. A ama dormitava, empurrando com o pé descalço o carrinho de Verinha. Tomou um susto quando Zuca gritou:

– Acorda, preguiçosa.

A mulatinha magra, de 12 ou 13 anos, levantou-se num pulo, olhos arregalados:

– Tava dormindo não, dona Zuca, só fechei os olhos por causa da claridade.

– Além de preguiçosa, mentirosa. Não sei porque trazem essas meninas da roça pra tomar conta de crianças. São preguiçosas e mentirosas. Anda daí e vai na padaria comprar pão e no caminho manda o Zé Preto vir aqui.

– Na padaria eu sei ir, mas esse Zé eu não sei por onde anda.

– Pergunta, ora, cê tem boca pra quê? E na volta sobe com as crianças pro banho, elas estão imundas. Enquanto você dormia, elas se espojaram na lama. Ô gente ruim de serviço. Só servem pra comer.

Louro voltava para casa satisfeito, com um saco de estopa com algumas preás e frutas. Os irmãos traziam cajus e pitangas. Gau se escafedera, pau da vida. Que se dane, ora, um dia é da caça, outro do caçador. Já me enrolou demais, hoje dei uma volta nele.

Eles tinham se juntado a um grupo de mulheres e crianças que iam catar pitanga e caju nos matos. Sempre faziam isso no verão.  Era uma forma de encher a barriga. Levara os irmãos, nisso de catar pitanga e subir nos cajueiros eles eram bambas.

Gau tinha outros planos. Chamou-o de lado, antes de se juntarem ao grupo barulhento que seguia beirando a linha férrea, explicou:

– Quando o povo começar a se distrair catando pitanga, nós vamos sair de fininho e roubar umas galinhas no sítio de Amaro de Rita. Cê manda seus irmãos ficar junto com a turma e caso perguntem por nós, dizer que estamos no meio do mato.

Louro ficou preocupado, esse negócio de roubar galinha costumava dar rolo.

– Só pro povo da cidade, contestou Gau, que rouba para fazer galinhada de farra e ainda convida o dono das penosas para participar. Aqui no mato não dá nada, as galinhas se espalham para ciscar, se afastam da casa e fica fácil pegar uma, torcer o pescoço dela e levar. Hein, já pensou uma galinha assada pros meninos?

– Sei não, lá tem uns cachorros…

– Que ficam na frente da casa, já sei tudo. E são uns cachorros velhos, molengas.

Mais adiante, quando a turma se atirou com vontade às pitangas, eles se afastaram. Louro ainda objetou:

– Eles vão sentir nossa falta.

– Vão nada. Ficam tão entretidos em achar as frutas que vêem mais nada. É por isso que tanta moça aparece prenha quando volta das pitangas. Enquanto os mais velhos se distraem, elas vão pra detrás das moitas e perdem o cabacinho. Vamos.

– Eu não gosto de roubar, disse Louro.

– Ah, é? E o que todo mundo aqui está fazendo, tirando pitangas, cajus e outras frutas das terras dos outros? Essas frutas são de quem, hein? De quem cata ou do dono da propriedade? indagou Gau, irônico.

– Essas frutas são da natureza, ninguém plantou, ninguém cuida delas, não têm dono.

– Bela desculpa. Só que estão na terra dos outros, pertencem aos donos das terras. E o povo vem aqui, cata tudo na maior sem-cerimônia. Aqui, ó.

O sítio do Amaro não ficava longe, Gau sabia de trilhas que encurtavam o caminho.

Perto do quintal ficaram de tocaia. Junto à porta da cozinha uma velha batia um pilão. As galinhas e dois perus ciscavam em volta, esperando as migalhas que caiam. Do lado da casa um cachorro malhado dormia na sombra. Um bando de galinholas que chegava, atraídas pelas batidas da mão do pilão, ao ver os dois arrepiou caminho, gritando como loucas. A velha olhou para o capão onde se haviam metido, desconfiada. As galinholas voltaram, evitaram o local onde estavam e invadiram o terreiro por outros caminhos. A velha tornou a olhar em sua direção. Gritou para dentro de casa:

– Ô Amaaaro, acho que tem cobra querendo chegar no terreiro. Traz o facão.

– Já vou, berrou o homem em resposta.

Gau puxou Louro pelo braço:

– Vambora, que o trabalho michou.

E agachados retornaram para o meio do mato, se arranhando nos espinhos. Mais adiante deram com uma galinha rodeada de pintos.

– Oba, falou Gau, não vamos voltar de mãos abanando. Cerca de lá que eu pego ela daqui.

– É galinha choca, Gau, disse Louro com desdém.

– E daí?

– Daí que não se come galinha choca, dá doença. Só depois que ela largar o choco é que pode ser comida. Vamos voltar pras pitangas.

Chateado, Gau caminhou depressa por entre a galharia e acabou por errar a trilha. Foram dar na beira do rio, junto a um capinzal. Alguns rapazes corriam e gritavam, açulando cachorros. Uma preá passou em disparada e cães e garotos foram correndo atrás, entrando pela macega.

– Até que uma preá no espeto não ia mal, né? perguntou Gau, de olho comprido.

– Então pega um pedaço de pau e vai atrás, respondeu Louro, aparentemente desinteressado. Ele vira, no capinzal, três preás grandes e uma pequena, abatidas, amarradas com embiras. Ficou parado, enquanto o amigo avançava na direção da correria, sem se decidir. Assim que o viu de costas, Louro se aproximou da caça e meteu-a depressa no saco que trouxera para os cajus.

– Vambora Gau, daqui a pouco vão dar por falta da gente.

E entrou no mato, na direção contrária a dos caçadores. Gau o viu se afastar e veio atrás. Em pouco tempo estavam fora do alcance. De longe ainda ouviram gritos indignados, xingamentos. Louro ficara bamba nesses pequenos furtos, carregava o que podia, aos poucos se livrava dos remorsos e do arrependimento. O importante era botar comida em casa e uma preazinha assada era um delicioso prato.

– Que será que aconteceu? perguntou Gau.

– Sei lá, vai ver a preá escapou.

Os meninos haviam feito boa colheita de cajus e pelo caminho Louro ainda pegara uns bacuparis e alguns araçás que serviram para cobrir as preás roubadas.

E agora ele despejava sobre a mesa da cozinha a sua coleta. O jantar seria reforçado.

Capítulo 38 >>

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