Capítulo 36

Camisa encardida fora das calças menores alguns centímetros que suas pernas, tamancos desbeiçados e ar de profundo tédio, Gau vagava pelas ruas. Pouca gente circulando, alguns cachorros vadios fuçando lixo, nada para fazer. Acho que vou pra casa dormir, pensou.

Depois da sessão de cinema, um filme espetacular, muitos tiros, tropas marchando em ordem unida por uma cidade semi-destruída por bombas, saíra passeando com Louro.

– Vamos tomar um caldo de cana? propôs ao amigo.

– Vou não, tô com pouco dinheiro.

– Eu também, a gente junta os tostões, compra um copo e divide. Vamos ali no seu Augusto.

– Vou não, aquele velho vive emburrado, fica danado quando alguém pede um caldo e é obrigado a se levantar para moer a cana.

– Vamos sim. Deixa o velho pra lá. Faz uma coisa: cê fica com o copo e eu tomo um cadinho, só um cadinho, pra matar a vontade.

Gastou muita saliva pra conseguir a concordância do Louro. Queria um pouco mais de companhia, até sentir sono. Gau também não gostava de ir para casa, aonde só chegava para comer ou dormir. Não agüentava ouvir as admoestações da mãe. Na sala mal iluminada por lampiões de querosene, enfumaçada e vazia, o velho dormitava na cadeira de balanço. A poucos passos a moenda e o depósito de canas raspadas, prontas para moer. A seu lado, encostada na parede, uma banca de madeira com pencas de bananas maduras demais para ficarem penduradas nos caibros como as outras.

Gau se encarregou de acordar o velho e enfrentar sua cara feia. Louro se manteve calado e quando a cana começou a ser moída, aproximou-se, como se estivesse curioso de assistir à moagem. De cabeça baixa, cenho franzido, gestos lentos, o velho separava um copo não muito asseado. Louro, com o rabo do olho, calculou a distância até a banca das bananas. Teremos bananas hoje em casa, pensou, e foi se encostando à parede, mãos para trás, como se estivesse atento aos movimentos da moenda. Por cima do ombro olhou a sala vazia e rápida sua mão pegou uma penca de banana e antes que o velho levantasse a cabeça, enfiou-a dentro da calça. Gau fazia perguntas ao velho, entretendo-o, tinha percebido a intenção do amigo.

Dividiram irmãmente o copo de caldo de cana e saíram conversando. Na primeira esquina que dobraram, Gau estendeu a mão.

– Me dá uma banana aí, seu sacana.

– Que banana?

– As que você enfiou na calça. Eu vi. Anda, me dá uma.

– Não vou dar não, vou levar pros meus irmãos, eles comeram pouco hoje.

– Você é um bocó mesmo. Correu o risco de levar uma esculhambação do velho só pra levar as bananinhas pros irmãozinhos vagabundos, que já podiam estar procurando um jeito de ganhar um dinheirinho.

– Prefiro assim. Fico com remorsos porque como na casa da velha, e eles…amanhã vou

ter de arrumar uns ovos ou uma abóbora com a velha, senão…

– Eu já lhe disse o que fazer. Vai lá atrás do mercado e deixa o fresco chupar sua piroca.               Vai ganhar um dinheiro fácil. Não dói nem demora muito.

– Tenho nojo e vergonha. Louro cuspiu no chão.

– Nojo não enche barriga. E vergonha é roubar e não poder carregar.

– Deixa isso pra lá. Vou passar em casa, deixar as bananas e dormir na casa da velha.

Louro se afastou e Gau ficou andando à toa. Na beira do cais havia uma roda de 21. Ficou piruando, doido para entrar no jogo. Conhecia uns truques infalíveis para ganhar naquele jogo, mas para entrar na roda precisava de dinheiro e estava sem nenhum. Podia ir lá no fresco, mas da última vez se desentendera com ele, o camarada estava ficando sovina, prometera que não voltaria mais, mas de repente…

Cansou de olhar o jogo dos outros, deu uma volta pelo cais e decidiu ir no fresco. A gente muda de idéia quando interessa, pensou. Num to precisando de grana? Então? O porto do mercado estava silencioso, a luz de uma que outra lanterna se refletia nas marolas do rio. Ao dobrar a esquina da cadeia velha viu Louro abotoando a braguilha e andando. Ah, então cê foi lá, seu safado! pensou. Depois vem querendo bancar o santinho.

– Aí, Louro, chamou, saindo da obscuridade.

Louro tomou um susto e rápido enfiou o dinheiro no bolso.

– E então, não foi fácil? Quanto ele deu a você? Deixa eu ver.

Encabulado, Louro tirou as moedas do bolso e as exibiu na palma da mão. Qualquer gesto suspeito de Gau e estava pronto para fechar a mão com rapidez. Gau se limitou a contar as moedas com os olhos.

– Que viado safado! Deu metade do que dá pros outros. Olhou na direção das palmeiras. Mas deixa comigo, vou resolver isso.

E caminhou depressa na direção do mercado. Sem saber o que fazer, Louro guardou as moedas e ficou por ali, olhando o rio. Daí a pouco Gau voltou sorridente e ao chegar a seu lado abriu a mão mostrando moedas.

– Dei uns tabefes naquele descarado e num instantinho ele soltou o dinheiro. E nem precisei tirar a pica pra ele chupar. Estava merecendo, o safado. E avisei: se ele fizer isso de novo com você, dou uma coça nele.

Os olhos de Louro brilharam. Estendeu a mão.

– O que que você quer? perguntou Gau.

– O dinheiro. Não é meu?

– Ué, quem é que foi lá pegar o dinheiro, foi você? Esse aqui é meu. Isso é procê aprender a deixar de ser bocó.

Deixando o amigo de boca aberta, Gau se encaminhou sorridente para o grupo que jogava no cais. Já podia dar uma arriscada.

Cê tá tão quieta que vim ver o que tá acontecendo? disse Xixa adentrando a sala onde Zuca folheava um figurino.

– Botou as crianças pra dormir? respondeu a outra, sem tirar os olhos da revista.

– Já estão na cama. Vai mandar fazer mais vestidos, é? Seu guarda-vestidos tá quase pocando, de tão cheio.

– Não se meta onde não é chamada, que mania de se meter em tudo. Vai para cozinha, vai. Não tem nada pra fazer lá? Já terminou a janta?

Xixa se aproximara e olhava o figurino.

– Ué, vestidos de noiva? perguntou, sarcástica. Hum, hum, cê vai casar, é? E com quem, pode-se saber?

– Deixa de ser enxerida, mulher. Que mania…Culpa da mamãe e da Bebé que lhe deram confiança demais. Mas em breve isso vai mudar, espere só. Vai, desinfeta.

A negra riu, irônica.

-Se ocê acha que cê vai casar com quem eu tô pensando, pode tirar o cavalinho da chuva. E ainda quer se casar de véu e grinalda?

Zuca não respondeu. Fechou a revista num gesto brusco. Xixa foi se afastando devagar.

– Claro que não vou usar o vestido de noiva tradicional no meu casamento, falou Zuca, embora esse seja meu grande e impossível sonho. Vou usar um vestido simples, mas chique, cor pastel, talvez um rosa-chá, luvas e chapéu combinando com o vestido e no lugar de buquê, um ramo de rosas com raminhos de melindres. É o que aconselha a revista. Não sou uma moça vulgar. Meu estilo é clássico.

Os dentes alvos da empregada brilhavam no sorriso desaforado.

– Primeiro vai ser preciso convencer o noivo. Acho que cê tá botando o carro na frente dos bois.

– Não sei porque ainda lhe dou atenção, resmungou Zuca. Cuide de sua vida, que é melhor, ao invés de inticar com os outros.

– Tá bom, deixa eu ir pra minha cozinha. Não aprecio essas presepadas.

– Negra atrevida. Só pra deixar de ser enxerida vai fazer uma coisa pra mim: vai perguntar ao Alberto em que dia que o chefe dele vai vir na cidade.

– Eu? Pergunta você.

– Custa alguma coisa fazer isso?

– Custar não custa, mas quero saber porque tá interessada. Cê nunca se preocupou com isso…eu, hein!

– Não é da sua conta. Só pergunte ao Alberto quando é que o patrão dele vem visitar o escritório. Só isso.

– Ai, ai, ai meus canários amarelos, que isso num tá me cheirando bem. Aí tem coisa. Essa sua cara de sonsa não me engana. Diz logo, pra que cê quer saber?

– Ele deve vir pelo natal, eu acho. Mas preciso ter certeza.

– Pra quê?

– Interessa? Ele foi tão atencioso na época da morte da Bebé, sempre me trata com finura. Um homem distinto, educado. Acho que vou bordar as iniciais dele num lenço e dar de presente de natal.

Debruçada na janela, olhando a rua vazia, Verônica descansava do duro dia cuidando da mãe. Pensara em sair, dar uma volta, espairecer, visitar amigas, mas a mãe não admitia ficar sozinha. Nos raros momentos em que estava lúcida a mãe ainda colaborava, mas na maioria do tempo estava viajando pelo passado, reclamando de tudo, exigindo toda atenção. Zerli, cada vez mais enjoada, mal dava conta de seu serviço. Verônica estava exausta. Para se distrair pensava no filho que Zerli esperava, imaginava sua carinha, via-se cuidando dele, trocando fraldas, dando-lhe papinhas. Pena que não possa amamentá-lo. Eu seria a melhor mãe do mundo, tenho certeza, não sei por que Deus me fez essa desfeita. Custava deixar que um dos meus filhos vingasse?

Um cachorro uivou ao longe, tristeza. Um gato negro atravessou a rua em seu passo descansado. Zerli se aproximou:

– Já fechei tudo, posso ir dormir?

– Claro, melhorou dos enjôos?

– Pouquinho. O pior é a azia, a boca amarga, o cuspe grosso, esse filho só veio me atrapalhar a vida.

– Não diga isso, Zerli, nem brincando. Verônica não concebia que uma mulher pensasse assim. Um filho é uma dádiva de Deus.

– Quando tem pai, né, Verônica? O meu, coitadinho, vai viver por aí aos trancos e barrancos. Acho que o Otto estava certo, eu devia era tirar ele.

Os olhos de Verônica se arregalaram. Juntou as mãos.

– Pelo amor de Deus, não diga uma barbaridade dessa! Ele vai ser nosso filho, enquanto eu for viva ele terá tudo, do bom e do melhor, e quando crescer vai estudar numa boa escola, o futuro dele eu garanto.

– Tomara. Eu sei o que é ser filha sem pai. Teve até um tempo que sua mãe implicava comigo, achava que eu era filha de seu pai, mas minha mãe me jurou, diante do oratório da fazenda que não, que eu era filha de um peão que aparecera prum corte de cana, emprenhara ela e suvertera no mundo. Que nem o Otto. Acho que é nossa sina. Tomara que esse seja homem, pra não sofrer como nós.

– Vai ser homem sim, eu sinto, um lindo moreninho de olhos azuis como os do pai. Não sei se você se lembra, os olhos de Atilano também eram azuis.

– Ai, Verônica, pelo amor de Deus, não vai botar na sua cachola que é filho de seu marido. Nunca mais vi ele, dês que se separou docê. Esse é filho do Otto.

Verônica riu, divertida, mas naquele instante uma idéia louca surgiu na sua cabeça.

A flor amarela jogada no chão parecia cintilar sob a fraca luz do lampião da esquina. Jaçanã sentiu todo o seu corpo se alvoroçar. Mais uma vez ele passara todo o tempo de sua apresentação com os olhos grudados nela, percorrendo cada canto de seu corpo, e sentia aqueles olhares como se fossem toques. Quando seus olhos batiam nos deles, sem emitir som, seus lábios formulavam uma pergunta: hoje? Ela baixava os olhos, entrava em transe e por sorte cantava ainda melhor.

Olhar a flor repousando sobre a calçada era reavivar possibilidades de muito amor e carinho nos braços dele. Jaçanã não podia negar que estava apaixonada. Perdidamente. Como as mocinhas das novelas de rádio. Tudo o que queria na vida era ser abraçada e beijada por ele, possuída por ele, viver com ele e ser feliz para sempre e para isso se sentia capaz de esquecer tudo, até da carreira de cantora. Só ele a faria feliz.

O olhar desnudante de Toureiro a perseguia até em sonhos. Acordava alagada de suor, arfante, se debatendo, o ventre em fogo, chamando por ele. Ao chegar ao bar, ladeada pelo casal, e avistar a mancha branca do terno de linho colada à parede, já sentia o ardor dos olhos de paixão a delinear seu corpo.Um comichão quase insuportável, ao mesmo tempo que delicioso, pinicava sua pele. Sua respiração se acelerava e o coração disparava feito um trem. Iniciava ali seu doce suplício de todas as noites em que se apresentava no bar.

Eu caminhava a seu lado, calado, cansado. Arlete e Alberto, também cheios de amor, tinham dobrado numa esquina antes, loucos para chegar em casa. Jaçanã imaginava os dois trancando a porta da casa e aos beijos se atirando na cama. E de repente Alberto virava Toureiro, Arlete virava ela e os dois se confundiam num abismo de paixão. Seu corpo chegava a doer, de tanto desejo. Quando realizaria seu sonho de ser dele?

Eu disse qualquer coisa, mas tão absorvida estava em suas fantasias e emoções que precisou lhe pedir que repetisse.

– Nada de importante, disse ele. Por onde cê anda? perguntou ele, pelo mundo da lua?

– Mais ou menos, respondeu constrangida. Acho que fico muito cansada, cê sabe, além de lavar roupa e ajudar em casa, ainda canto. Adoro cantar, mas me cansa.

– Sem dúvida. Eu também, quando fico muito cansado, saio do ar.

– Você também trabalha demais, Eu. Devia ir pra casa mais cedo. Ainda ter que me trazer em casa…esses dias todos tudo tem estado tão calmo, há tanto tempo não se fala mais em encaretados.

– Mas eu prometi a sua mãe.

– Ela nem precisa saber. Aqui é calmo até demais, não vai me acontecer nada. O medo de mamãe é que algum marinheiro me ataque, mas não tem nenhum vapor no cais, só pranchas. Fica descansado.Eu venho com vocês até à esquina onde Arlete dobra. Depois eu sigo sozinha. Não tem perigo, eu garanto.

– Sei lá. Realmente ando muito cansado, caio na cama e desmaio. Tá bem, a partir de amanhã, amanhã não, do próximo show, nós vamos fazer assim.

Uma onda de alegria e excitação a invadiu. Não dormiria direito naquela noite. Toureiro não aparecia durante o dia, nunca fora procurá-la na beira rio, precisava descobrir um meio de avisar a ele sem dar na pinta.

A senhora tem certeza que estou fazendo 16 e não 17? A senhora não contou que papai errou a data de meu nascimento?

– Errou o mês, não o ano. Naquele tempo seu pai, que Deus o tenha, trabalhava muito e não tinha tempo pra fazer o registro. Foi preciso brigar muito com ele para ele ir no cartório e como não queria pagar multa pelo atraso, botou que você nasceu neste mês e não em julho. Mas por que cê quer ficar mais velho? Não tenha pressa, depois dos 18 anos o tempo voa.

– É que quero entrar pro Exército, mãe, me livrar dessa vidinha chata, ir pra guerra.

A mãe o olhou aterrorizada e se persignou.

– Deixa de ser bobo, menino, Deus nos livre e guarde. Cê quer morrer, quer? Quer matar gente? Bata na boca quando falar uma besteira dessa.

– Eu quero é viver, mamãe, eu quero é ter uma oportunidade de ser gente, de não viver nessa miséria, pedindo comida aos outros, usando roupa velha, sem sapatos.

Ela suspirou e o olhou com tristeza:

– Ninguém mais que eu quer isso, meu filho. É muito duro perder uma filha por fome, o marido bêbado porque não conseguia trabalho e empregar as filhas ainda meninas na casa dos outros para tirar elas dessa miséria. Mas não desse jeito, indo pra guerra, atirando nos outros, matando, sendo baleado. Eu conheci um homem já velhinho, que vivia pedindo esmolas na beira do cais, sem a metade de uma perna, que havia perdido na guerra do Paraguai. Eu era muito menina mas me lembro bem porque ele tinha uns ataques de loucura, saía gritando, dizendo um monte de bobagens. As crianças morriam de medo. Quando ele estava no seu normal, contava coisas de arrepiar que vira no campo de batalha. Não quero ver você metido nisso. Tira essa idéia maluca da cabeça.

Louro se afastou, macambúzio. Como sempre, seguiu para a beira do cais. Gostava de ver o sol morrer por trás da ilha, avermelhando todo o céu. Na guerra deve ser assim, pensou, muito sangue por toda parte, os soldados correndo agachados, fugindo dos tiros, das bombas, gritando, se jogando na água, na lama, liquidando os inimigos, igualzinho nos filmes. Eu queria estar lá, mas até eu ter idade a guerra pode ter acabado. Que porcaria!

Capítulo 37 >>

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