Capítulo 35

Só quando viu a mãe deitada em sua cama, Verônica se sentiu aliviada. Espreguiçou-se devagar, tinha o corpo moído como se tivesse levado uma sova. Os músculos doloridos se distendiam devagar, provocando uma sensação de alívio. Enquanto Zerli prepara a sopa para a janta vou tomar um banho morno, bem demorado, decidiu. A mãe comera o pirê com carne desfiada onde, seguindo instruções dos médicos, ela misturara o tranqüilizante. Como a mãe se recusava a tomar qualquer remédio e cuspia longe o que lhe punham na boca, era obrigada a usar desses artifícios.

A viagem fora terrível, a começar pela dificuldade de alçar a mãe para a cambona. Ela não queria colaborar, muito ao contrário, resistia, balançava braços e pernas, gritava, levantava a roupa, uma luta.

– Eu num sou um bicho, gritava a mãe.

Zizinho e Felismino tiveram muito trabalho. Para evitar que ela pulasse ou se jogasse da carroça, passaram uma corda em volta de seus ombros e de suas pernas. Verônica se horrorizava.

– Eu quero ver minha filha, Veroooônica, cadê você? gritava ela se debatendo. Os bandidos estão me raptando, socorro!

– Estou aqui, mãe. Vamos levar a senhora ao médico, se acalme.

– Sai daqui, lambisgóia, pensa que não sei quem você é? Pensa que me esqueci que ficou flertando com meu marido o baile de carnaval inteiro? Eu quero minha filha, o que você fez com ela?

Verônica a acariciava, passava a mão por seus cabelos que a confusão desmanchara. Ela balançava a cabeça com vigor, tentando fugir do carinho. Eu devia ter dado a ela o tranqüilizante no café da manhã, pensou. Zerli segurava firme as pernas da doente para que Zizinho pudesse imobilizá-las. Verônica desatou a chorar.

– Fica assim não, dona Verônica, é para o bem dela.

Corisco ia trazendo malas, objetos, e até o farnel que Zerli havia preparado.

– Ela tá doidinhazinha, num tá? perguntou, observando a doente com os olhos esbugalhados.

– Não fala bobagem, gritou Zerli, não tá vendo o estado de Verônica? Vai buscar o resto das coisas, se avia, rápido!

Aos poucos, cansada pelo esforço, a mãe adormecera. Verônica quis livrá-la das cordas, mas Felismino desaconselhou.

– O que os outros vão pensar vendo minha mãe assim, preada como um animal?

– A senhora se preocupa demais com o que os outros vão pensar, dona, tem é que cuidar do que é melhor pra ela. Ela não tem que viajar? Então? A gente tapa ela com uma coberta, ninguém vai ver. Antes de Barcelos a gente dá uma paradinha, vai ser hora de dar comida pra ela e aí a senhora bota o tal remédio pra ela continuar a dormir. Senão a viagem vai ser um inferno.

A viagem foi um inferno. Mesmo puxada por três juntas de bois, a cambona avançava com dificuldade no lamaçal ou pelos montes de areia que haviam jogado para cobrir a lama. Nos buracos maiores a cambona balançava como um navio desgovernado ao sabor de ondas fortes, adernava perigosamente, e todos tinham de se agarrar aos fueiros para não ser lançados no mato. Zerli vomitou algumas vezes.

A mãe acordou antes da parada prevista e num lugar onde a cambona atolara as rodas até a metade. Para aliviar o peso tiveram de descer, justo no momento em que a doente abriu os olhos e se viu amarrada:

– Socorro, gritou, estão me raptando. Verônica, minha filha, me acode, que esses bandidos vão me matar. Chama seu pai, minha filha, manda ele pegar a garrucha e vir me salvar. Socorro meu Deus, o que vão fazer comigo?

Com as pernas mergulhadas na lama, Verônica chorava e Zerli vomitava.

– Me ajude, Virgem Santíssima, me livre desses malfeitores, gemia a doente. Eu sou uma mulher honesta, minha mãe, e eles querem me fazer mal. Socorro, minha gente. Cadê a negra Felícia, onde se meteu essa preguiçosa? Já viu como tanque está cheio de roupa suja?

Mais de uma hora durou o esforço para liberar a cambona, mais de uma hora durou o delírio da doente, que passava de uma situação imaginária ou já vivida para outra, às vezes provocando o riso, quase sempre exacerbando o sofrimento de todos.

O tranqüilizante misturado na comida, um arroz de papa com um ovo frito, que a mãe adorava, esquentado num fogareiro, fez efeito e ela dormiu o resto da tormentosa viagem. As cordas puderam ser desamarradas. Os bois pareciam prestes a estourar pelo esforço, e numa fazenda no Caetá, Felismino os trocou por animais descansados, emprestados pelo fazendeiro, sensibilizado com a situação. Ele conhecia a família de longa data.

Chegaram ao local onde os esperava o carro de praça no meio da tarde. Com a mãe adormecida foi mais fácil colocá-la no banco de trás do veículo. Como Zizinho ficara na roça, tiveram de pedir o auxílio do motorista, pois Felismino não quis deixar sozinha a cambona carregada de malas. Mais tarde o carro voltaria para pegá-las.

A doente acordou quando estavam no portão da casa. Levantou a cabeça, olhou intrigada em volta e perguntou:

– Onde nós estamos?

Paciente, Verônica lhe disse que estavam voltando para a casa da cidade para ela poder ir ao médico. O motorista abriu a porta do carro, mas ela se recusou a descer.

– Não vou a uma festa no palácio do governo com essa roupa. Cadê seu pai, que nessas horas nunca está por perto?

Com o auxílio do motorista conseguiu fazê-la descer. No sobrado em frente surgiu a

cabeça de Izita Carmélio. Verônica a cumprimentou com a mão.

– Daqui a pouco todo mundo vai saber que chegamos, murmurou, vamos mamãe, colabore, vamos entrar antes que a Izita desça para bisbilhotar. Me ajude, mãezinha.

Devagar, mais devagar do que Verônica desejava, subiram os poucos degraus. Zerli correra para abrir a porta e descera para ajudar na escalada.

– Quem é essa cambaxirra? perguntou a doente, ao vê-la pegar no seu braço.

– É Zerli, nossa empregada da fazenda.

– E o que ela faz aqui, flanando? Hoje em dia não tem um empregado que preste. Já avisou a seu pai que estamos chegando? Estou morta de fome. Não há ninguém nessa casa capaz de assar um bom peso de carne?

Na clara e ampla sala de estar pararam para descansar. Verônica suava.

– Vamos sentar um pouquinho, mamãe? A Zerli vai preparar seu banho.

Ela se deixou sentar. Olhou em volta, tentando reconhecer o lugar onde a deixavam.

– O governador vai nos receber em audiência? O palácio é mais simples do que eu imaginava. E onde se meteu minha filha Verônica?

Durante meia hora ela papagueou coisas disparatadas, mudando rapidamente de uma para outra. Verônica recostou-se na poltrona. Queria fechar os olhos, descansar, dormir. Zerli avisou que a banheira estava cheia e se aproximou para ajudar a levantá-la.

– Quem é essa cambaxirra? perguntou a doente. É criada do governador? Que criadagem mais mal vestida, cruzes. E seu pai, por onde anda aquele velhaco?

– Deixa que vou dar o banho nela, Zerli. Prepare um purê de abóbora com carne.

– Abóbora não, que não sou porco, interrompeu a velha. Na minha casa quem come abóbora são os empregados e os porcos. E Verônica que não aparece. É sempre assim, quando a gente mais precisa o povo some. Ô vida!

– Tá bom, mamãe, purê de batata, tá bem? deve ter vindo algumas na bagagem. Desfia e pica bem miudinho um pedaço de carne, Zerli, e não se esqueça de botar o temperinho – piscou para a empregada – aquele que está naquela garrafinha.

No final da tarde, Gau e Louro conversavam na beira do cais. Louro era fascinado pelo contínuo movimento das embarcações que, mesmo num domingo à tarde, era sempre animado.Apitos e silvos cortavam o ar. Gau queria que fossem ao cinema.

– É um filme de guerra, como você gosta.

– Cê paga minha entrada?

– Tá doido? Desde aquela confusão em Gargaú que ainda não me aprumei. Tô mais duro que testa de bode. Bem que ando por aí de olhos bem abertos vendo se consigo afanar uns trocados, mas…e a velha não te deu nada para passar o domingo?

Louro negou com a cabeça.

– Ô, velha mendiga, rosnou Gau. Cê precisa descobrir o dia em que ela recebe a grana e onde ela guarda. Já disse, cê não precisa se meter, eu vou lá e faço a limpeza.

– Sabidinho. Se eu soubesse, pegava era pra mim. Lá em casa a situação continua brava, com as pernas inchadas mamãe não pode pegar roupas para lavar e Terezinha…

– Ah, é, interrompeu Gau, de olhos acesos, eu soube que ela pegou filho do patrão, né? Riu, cínico. Vou lá dar uma namoradinha com ela. E esfregou as mãos.

– Não fala isso nem brincando, senão nossa amizade acaba agora.

Gau estendeu os braços com as mãos abertas em sua direção:

– Calma, amigo, eu nunca que ia fazer isso.

– Eu conheço você muito bem, Gau, e se pegar você rondando minha casa…

– Fica tranqüilo – beijou os dedos cruzados – prometo que não vou chegar nem perto dela. Mas outros vão chegar, cê sabe, né? Tá cheio de urubu procurando carniça por aí. Fica de olho bem aberto.

Louro fechou a cara e voltou a se fixar no movimento do cais.

– Comigo o buraco é mais embaixo, quem se meter com ela vai se dar mal.

– Tá bom, tá bom, disse Gau, conciliador, vamos deixar isso pra lá. Agora a questão é a seguinte: vamos ao cinema ver os americanos dar tiros nos alemão?

A tentação era grande. A guerra fascinava Louro não só porque representava uma oportunidade de servir o exército e deixar a cidade e seus problemas, mas pelo heroísmo

dos soldados, com seus belos uniformes e seus capacetes, as botas engraxadas, as imponentes marchas militares, os fuzis e metralhadoras, o som dos tiros, o estrondar dos canhões e das granadas, corpos de inimigos despedaçados, voando pela tela. Sonhava muitas vezes com essas cenas e se via uniformizado, armado com fuzil com baioneta furando a barriga dos boches, trepando nos tanques, se arrastando pela lama, invadindo o reduto dos inimigos, passando todos os alemães pela sua metralhadora. Não sobrava um. O pipocar de tiros o emocionava, acelerava as batidas do seu coração. Uma cena que não saía de sua mente era a do soldado com um joelho na terra, apoiado no fuzil, de cabeça baixa, diante do amigo morto. Vira a cena num cine-jornal e chorara muito. Aquela solidariedade o comovia.

A mancha clara na porta do bar era inconfundível. Toureiro a esperava, fumando um cigarro, um pé encostado na parede e os olhos brilhando de malícia. Ela gostava daquela expressão, de uma sensualidade safada que bulia com todo o seu ser. Se não se concentrasse muito, a presença dele atrapalharia sua apresentação.

Arlete conversava com Alberto e Eu abria a porta do bar. A mão de Toureiro tocou a sua, caída ao lado do corpo. Como não a retirasse, ele segurou-a de leve, olhos postos na sua nuca. Ela arrepiou-se toda. Eu entrou e ele a reteve o tempo suficiente para murmurar:

– Repare que toda noite, quando for para casa, vai achar uma flor jogada numa esquina. É ali que um dia vamos nos encontrar.

E após um leve aperto, soltou-lhe a mão. Ela o olhou e com um fuxicar de lábios ele mandou-lhe um beijo. Era demais. Para fugir do atordoamento, entrou rápido no bar.

Eu preparara o banheiro do bar como se fora um camarim, com espelho e cadeiras. Ainda afogueada pela emoção, ela sentou-se numa cadeira e pôs a mão sobre o peito.

– O que acontece comigo quando topo com esse homem? se indagou. Por que fico de pernas bambas, meio tonta, meio abobada? Isso nunca me aconteceu. Homem de todo o tipo já tentou me namorar, Tijolo vive se declarando a mim e isso nunca me incomodou nem comoveu. Me livro deles como se fossem cachorros vadios e minha mãe sabe disso, por isso tem tanta confiança em mim. Ela só tem medo de violência, que algum desses embarcadiços, que estão aqui só de passagem e andam pelas ruas sempre chumbados, me agarre à força. Por que então o bandido desse homem mexe tanto comigo? Por que fico esperando que me agarre, me beije, me faça carinhos, me torne sua mulher? Dessa vez estou enrascada e preciso tomar muito cuidado.

Arlete entrou no banheiro e se espantou ao vê-la sentada, pensativa.

– Aconteceu alguma coisa? Eu vi Toureiro falando alguma coisa no seu ouvido, ele a ofendeu? Foi grosseiro?

– Não, não, não tem nada a ver com isso. É que me senti meio tonta, acho que é problema no fígado, no almoço abusei da comida, mamãe fez bucho no feijão, que eu adoro, logo mais vou tomar um chá de boldo com losna.

– Prefere não cantar hoje?

Ela levantou-se.

– Deus me livre! Aprumou-se, respirou fundo e se dirigiu ao espelho para passar um pouco de pó de arroz e ruge. Não há dor de barriga que me faça deixar de cantar.

Arlete ficou preocupada. Toureiro tinha dito alguma coisa que perturbara Jaçanã. Mas nada podia fazer se a outra não se abria. Durante o show notou que ela cantava não mais virada para a porta, mas fixando um ponto qualquer da parede e teve certeza de que o mal estar tinha a ver com o que Toureiro dissera. Hoje só largo do pé dela depois que ela tiver entrado em casa e fechado a porta, decidiu.

Na volta para casa Jaçanã parecia meio aérea, distraída. Não respondia com a vivacidade de sempre aos comentários de Eu. Não riu nem brincou. Uma esquina antes de sua casa arregalou sem querer os olhos. Arlete procurou ver o que atraía sua atenção. Nada viu de importante, nem sombra do malandro.

O coração de Jaçanã batia com força. Jogada na calçada, quase no meio fio, uma margarida gritava de paixão.

Capítulo 36 >>

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