Capítulo 34

A janela enquadrava uma lua clara num céu limpo. Finalmente a chuva parara e Verônica se animara a levar a mãe para a cidade. Ela estava cada vez pior, já não a reconhecia, dizia palavrões, o que nunca fizera na vida, e cuspia os remédios que lhe ministrava. Sozinha e nesse lugar sem recursos não dou conta.

Não precisara argumentar muito para que Zerli aceitasse ir com ela para a cidade. O estrangeiro bispara e a deixara com um filho na barriga. Vai ser o nosso filho, pensou Verônica, sorrindo. Vou finalmente realizar meu sonho de ser mãe.

Na sua frente, recortado contra a moldura da janela, o luar a iluminar os parcos cabelos, Felismino rodava o chapéu com os dedos nodosos. Ela mandara chamá-lo para providenciar o transporte da doente de charrete até à cidade e ele se sentia muito contrafeito em ter de dizer que haveria dificuldades.

– A estrada tá que é um lameiro só, dona, contou, até os ônibus estão atolando. Para conseguir chegar na cidade só de cambona.

Ela se imaginou junto com a doente e a empregada empoleirada no grande carro de transportar cana cortada puxado por três juntas de bois, chiando, se arrastando pela estrada.

– É também a maneira mais confortável de transportar a senhora sua mãe, continuou ele. Ela pode viajar deitada num colchão, ponho uma lona presa nos fueiros, não pega sol nem chuva, é muito melhor.

Ela sacudiu a cabeleira castanha.

– Não sei…a verdade é que na charrete ela ficaria mal acomodada, mamãe anda tão imprevisível…E se a gente pegasse o trem em Barcelos? Ela podia ir deitada e na cidade eu chamaria um carro de praça…

– Vai ser um problema sério fazer o transbordo da doente pro trem, argumentou Felismino. Primeiro é que vamos ter de sair de manhã bem cedinho, por que ele pára na estação por volta das oito horas, oito e meia, e não demora muito. Depois, como acomodar a doente naquele espaço apertado? Com o mau estado das estradas e os ônibus passando com dificuldade, o povo voltou a procurar o trem. De manhã vai assim de gente. Os vagões ficam entupidos. Como arrumar um lugar para sua mãe viajar?…nesse estado…agitada como ta…a senhora me desculpe, mas eu levaria ela até à cidade na cambona.

– Ai, Felismino, como é que vou entrar na cidade numa cambona puxada por bois, levando a mamãe…eu morreria de vergonha. E os outros, vão dizer o quê? Vou virar motivo de troça. Antigamente ainda podia ser, mas hoje em dia…

– Então é melhor esperar o tempo firmar bem e a estrada secar. Pra senhora ter uma idéia, até de cavalo tive dificuldade de passar em alguns pedaços, o bicho enfiava as patas até às canelas. Vamos esperar mais uns dias, quem sabe?

– E se chover mais? perguntou Corisco, como sempre se metendo em conversa de adulto.

– É verdade, isso pode suceder. A gente dá um jeito. Olha, dona Verônica, a senhora fica à vontade, estou à sua disposição, qualquer coisa é só mandar esse moleque me avisar. Sorriu. Esse aí eu tenho certeza que não se atola. O menino encheu o peito de orgulho.

Verônica andou pela sala, os braços cruzados sobre o peito, os dentes mordendo os lábios, balançando a cabeça de um lado para o outro. Estava desesperada. Felismino a olhava por baixo das pálpebras semi-cerradas. Por ele, o melhor era esperar, aquela viagem ia dar um trabalho do cão.

– Que cê acha, Zerli? perguntou Verônica à empregada, que se mantivera calada, apoiada no batente da porta do quarto da doente.

Zerli encolheu os ombros. Não ia se meter na decisão da patroa, a mãe era dela.

– Pois é, Felismino, meu medo é que mamãe piore de repente e a gente se veja numa situação de grande desespero e urgência. Na cidade basta chamar o médico e em caso mais grave é só levar mamãe para o hospital, mas aqui e com a estrada assim…a pobrezinha pode morrer por falta de atendimento.

– Lá isso é verdade, concordou ele, mas com fé em Deus nada de mau vai acontecer.

Verônica foi até à janela, olhou os pastos úmidos de orvalho, as vacas presas no curral. Não posso brincar com a sorte, pensou, não posso deixar mamãe a mercê do acaso. Ajeitou os cabelos com gestos nervosos, alisou a blusa, rodou várias vezes o anel e a aliança que teimava em manter no dedo. Não me desquitei, portanto, continuo casada e uma mulher casada usa aliança, dizia a quem a criticava. Só estou separada por decisão dele. E ele pode se decidir a voltar um dia. Nada é impossível neste mundo.

– Olha, Felismino, juro que não sei o que fazer, só sei que não posso deixar mamãe aqui.

– Quanto a entrar na cidade de cambona, dona Verônica, a gente pode dar um jeito. A senhora manda um portador alugar um carro de praça para esperar a gente na entrada da cidade, num lugar seco. Pouca gente vai reparar, ali é quase roça. E faz o caminho até sua casa no carro. Se a senhora quiser, eu mando meu filho na frente a cavalo, para alugar o carro.

Ela pensou um minuto, era a única solução.

– É a solução, Felismino, obrigada. Vamos amanhã de manhã. Zerli, podemos continuar a fazer as malas. Aceita um café, Felismino?

Para que Jaçanã voltasse a cantar todas as noites em que houvesse função, Eu e Arlete tiveram de conversar longamente com a mãe dela e prometer vir buscá-la e trazê-la. Era um transtorno, mas a moça agradara tanto aos fregueses com sua voz harmoniosa que aceitaram. Todos queriam ver e ouvir a moça que era finalista no concurso de calouros. Durante o dia, depois de levar para a casa a roupa lavada, ela ia para a casa de Arlete e os três juntos ensaiavam as músicas da noite. Na hora de ir para o bar os dois a apanhavam em casa. Jaçanã estava feliz. A cada dia sentia que se aprimorava e não tinha dúvidas que ganharia o concurso de calouros. Na sua mente, um milhão de maravilhosas possibilidades se desenhavam.

Toureiro a esperava na porta do bar no dia em que retornou, ladeada pelos novos amigos. Terno de linho branco impecavelmente engomado, gravata vermelha, aba do chapéu desabada sobre os olhos matreiros, bigode encerado e perfumado, um cigarro entre os dedos. Ao passar na sua frente, a mão que ele mantinha atrás das costas se ergueu, lhe oferecendo uma rosa. Jaçanã sentiu o rosto pegar fogo e retribuiu com um sorriso derretido o sorriso cativante dele.

– Toureiro, repreendeu Eu, sem elevar a voz, essa moça não é para seu bico.

O sorriso dele alargou-se, enquanto seus olhos pareciam entrar pelos dela, sedutores.

– Estou apenas fazendo uma homenagem à futura rainha do rádio. Permita-me dizer, minha bela – e seus dedos prenderam de leve os dela ao entregar a rosa – que nunca ouvi voz mais linda em toda a minha vida. E olha que sou um homem viajado, já ouvi vozes maravilhosas por esse Brasil afora, mas nenhuma tão maviosa como a sua.

Ela sentiu que o coração ia saltar pela boca e só soube sorrir. Na ponta dos seus dedos a impressão dos dedos dele custava a sair. Eu a empurrou levemente para o salão do bar.

– Ele me disse coisas parecidas quando me conheceu, sussurrou Arlete, enquanto andavam. Não caia na conversa dele, é um don Juan.

Se ela ouviu não escutou e não percebeu o aviso de Arlete. Estava tão nervosa que tinha as mãos molhadas de suor. Isso só lhe acontecera na fase do concurso de calouros que vencera. A verdade é que o sorriso de Toureiro ocupava todo o seu ser, não só o pensamento ou a visão, sentia o perfume do bigode ele em seus dedos e uma gastura gostosa na barriga. Meu Deus, o que é isso? Por que esse homem me deixa nesse estado?

Sentado de frente para os artistas, pernas cruzadas exibindo sapatos bem engraxados, Toureiro passou a noite a patentear-lhe sua admiração, o sorriso sedutor permanente nos olhos e nos lábios. A princípio ficou nervosa, quase errou uma música, mas Eu murmurou “Se concentre!” e fechou os olhos para cantar. Aos poucos os reabriu e encontrou aqueles olhos que pareciam brasas a encará-la, a jogar energia em seu corpo e harmonia em sua voz e cantou como nunca. Toureiro era quem mais a aplaudia e fervorosamente.

Saiu junto com Eu e Arlete. Alberto se juntou ao grupo e caminharam pelas ruas desertas comentando a noite. Ela sentia que os olhos de Toureiro a seguiam, mas em nenhum momento o vislumbrou. Um misto de decepção e alívio a invadiu.

Eles a deixaram no portão de casa e antes de fechar a porta ela ainda correu os olhos pela rua escura. Nenhum sinal do belo toureiro.

A esplendorosa manhã de domingo contribuiu para levar Arlete ao máximo da felicidade. Mesmo tendo dormido tarde, Eu apareceu bem cedo no seu portão. Tinha uma novidade: o marido de Dinha o procurara para combinar outro encontro entre ela e a filha. Também seria rápido, mas serviria para matar as saudades. Embora a filha tivesse avisado que viria todos os domingos, no domingo anterior ficara sentada o tempo todo da missa ao lado de Dinha. E Arlete saíra da igreja decepcionada e tristonha.

Escondida atrás da pesada cortina da capela do Santíssimo ela aguardou entre impaciente e conformada. Prestara atenção aos conselhos do amigo, até então ele tinha conduzido a situação com acerto, e ficara quieta, esperando a igreja se encher para a missa. Ousou puxar um tantinho da cortina para poder observar a nave central e viu o casal com sua filha ao lado. Era tão linda a sua menina!

O órgão encheu a igreja de um som que lhe pareceu celestial e logo o coro o seguiu. Uma grande paz invadiu sua alma. Algo lhe dizia que estava próximo o momento em que teria novamente a filha em casa, não há mal que sempre dure, pensou. Dinha vai receber o castigo que merece, a solidão. O seu marido morrera, mas o dela a rejeitara, assim como a natureza, que lhe negara filhos. Ela tinha amigos que amenizavam sua solidão, Dinha morreria sozinha, sem ninguém para lhe acender uma vela.

Distraiu-se com seus pensamentos e demorou a ver a figurinha que passou pela cortina e entrou na capela. Gracinha, murmurou ao ver a filha a seu lado. Abriu os braços e a menina se aninhou neles. Cobriu-a de beijos.

Arlete não soube dizer quanto tempo haviam ficado abraçadas, matando saudades. Tinha tanta coisa a dizer à filha, tanto carinho preso em seus dedos, mas só sabia olhá-la com toda a ternura de seu coração.

– Agora vou voltar pra igreja, mãe, senão Dinha desconfia. No domingo passado ela não me deixou levantar do banco.

– Como você faz pra vir até aqui?

– Ah, eu inventei que tinha prometido rezar um terço todo domingo pro Nosso Senhor. E sabe pra que? Para levar a senhora ao bom caminho. E sorriu, divertida. Dinha ficou toda prosa, crente que era verdade.

Arlete sorriu da saída encontrada pela filha e lhe deu mais beijos.

– Todo domingo eu vou vir rezar, tá bem? A senhora me espera, né?

– Vou esperar você a vida inteira, se for preciso. Para mim, desde aquela vez, as manhãs de domingo são sagradas.

A verdade é que o retorno da filha ao banco da igreja lhe foi doloroso. Até quando isso continuaria? Parecia uma criminosa, vendo a própria filha às escondidas. Quando teria a filha de volta? Olhou o Cristo carregando a cruz no altar e rezou. Todos nós carregamos uma cruz, pensou, mas a minha é muito pesada. Eu não tenho forças para carregar a minha, me ajuda, Cristo. > <? saram pela prancha e chegaram à borda do manguezal, distante do posto policial. O amanhecer não estava longe. Alguns caranguejos atravessavam a rua e mal eram visíveis na fraca claridade. Perto da borda do mangue o guarda o fez parar.

– Aqui estamos, malandro, e vamos ter uma conversinha.

Vou levar uns catiripapos, pensou Gau, de novo assustado, e depois ele vai me empurrar pra dentro do mangue. Tá crente que aqui é fundo. Se eu puder, pulo nágua na primeira pancada. Contraiu-se para aguardar as bordoadas.

O praça o olhou com ferocidade. Podia bem distinguir sua carantonha enfezada graças à luz de uma lanterna presa num bote a poucos metros.

– Muito bem, malandrinho, roubando os tabaréus, né? Estou de olho nocê há muito tempo, mas cê é esperto, seu tisgo, num deu pra pegar. Agora tá funicado. Cadê o dinheiro? Me dá.

Gau meteu a mão no bolso e tentou separar algumas notas e moedas.

– Hoje a noite não foi boa, murmurou.

– Deixa de lérias, safado, passa a grana pra cá. Por bem e pra depois sair de mansinho e nunca mais voltar por essas bandas, tá certo? Se alguém perguntar pelo dinheiro, já sabe, repete que a noite foi fraca, ganhou quase nada. Se botar meu nome na roda, eu vou caçar você até no fim do mundo.

Gau entregou o dinheiro que tinha separado. O praça pegou o dinheiro.

– Só isso? Deixa de ser safado ou vai virar comida pros peixes. Manda o resto.

– Só tem isso mesmo, choramingou.

A mão do praça estendida para pegar o dinheiro, virou-se rápida e acertou-o no meio da cara, explodindo uma espinha perto do nariz. Com o susto Gau perdeu o fôlego. Ia abrir a boca para dizer alguma coisa e levou um trompaço que lhe partiu o lábio inferior. Um filete de sangue lhe escorreu pelo queixo.

– Quer mais ou vai soltar o dinheiro todo, seu safado?

E antes que pudesse responder levou outra tapona que fez seu rosto quase virar pra trás. Num minuto enfiou a mão no bolso e entregou o restante ao praça. Ele o empurrou para o chão. Caiu de joelhos.

– Agora cata a mixaria que me deu antes e se espalhou por aí. E nunca mais tente me enganar, pois não sou de brincadeira.

Depois que o praça se afastou, Gau passou a fralda da camisa pelo rosto, enxugou algumas lágrimas e o sangue que escorria. Rápido, o soldado sumiu na madrugada. Gau olhou em volta dos pés, esperando ver alguma moeda que não tivesse sido vista quando se abaixou para catar o dinheiro espalhado pela primeira bordoada. Nenhuma. O bolso também estava vazio. Gemendo e fungando, foi se abrigar na prancha do Zé Bé.

Capítulo 35 >>

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