Capítulo 33

Vamos ter de ir embora daqui, exclamou Verônica, nervosa, entrando na cozinha. Sua mão tremia a ponto de derramar gotas de café sobre a toalha. Não agüento mais, mamãe piora a cada dia, tenho medo que de repente ela tenha um troço e morra…e além do mais estou muito cansada. Além de cuidar da fazenda, tenho de cuidar dela. Minha vida está passando e…

Zerli a observava, calada. Ela também tinha seus problemas, também se sentia muito cansada. Na pia a louça do dia anterior se acumulava, ainda não tivera ânimo para lavá-la. Fizera o café, fervera o leite, pusera a mesa e se sentia exausta.

– Eu queria tanto que você fosse passar uns tempos comigo na cidade, Zerli. Deixo a fazenda nas mãos de Zizinho, confio muito nele, e deixo os animais pequenos para Corisco cuidar.

E olhou para o menino que, sentado num banco sobre as pernas dobradas a olhava, meio perplexo.

– Vou ficar aqui sozinho?

– Vai sim, que que tem? Fica tomando conta da casa pra mim. Você já é um homenzinho.

– Eu, dormir sozinho nessa casa grande? Deus me livre! Se a senhora for embora vou dormir na casa do Zizinho, nem que seja do lado do fogão. Com a senhora aqui a casa de noite já é cheia de barulhos esquisitos, imagine… Essa casa é mal assombrada.

– Deixa de bobagem, menino. E então, Zerli, será que o Otto deixa você passar uns tempos comigo na cidade?

O semblante de Zerli se anuviou.

– Otto foi embora.

– Foi embora como? perguntou Verônica, a surpresa interrompendo o gesto de levar a caneca de café à boca.

– Foi embora, sumiu, suverteu no ar, respondeu a outra de mau humor, o rosto voltado para a louça na pia.

– Chi, fez o menino. Eu sabia.

Ninguém lhe deu atenção. Verônica levantou-se e se pôs ao lado de Zerli.

– Não, espera aí, por favor, me explica isso direito. Otto a abandonou?

– Acho que sim. Ele ficou muito bravo quando contei que estava esperando filho dele, quase me bateu.

– O Otto? Que estranho, um homem tão educado.

– É, mas não gostou de saber do filho, queria que eu tirasse ele.

Os olhos de Verônica arregalaram:

– Meu Deus, que barbaridade! Custo a acreditar. E você, disse o que?

– Ora, que não ia fazer isso.

– Muito bem. E Verônica pousou o braço sobre os ombros dela. Nunca imaginei…bom, e aí, acha que ele fugiu por isso?

– Não sei, acho que foi.

– Foi não, atalhou Corisco, os amigos dele devem ter vindo buscar ele. Eu ouvi ele falando no rádio. Não entendi nada, ele falou naquela língua enrolada dele, mas depois deu um pulo, riu muito e ficou feliz. Isso foi ontem, não, foi antontem, ontem eu não fui espiar, estava fazendo um mandado pro Zizinho, não pude ir lá.

Ainda bem, pensou Zerli, senão tinha visto o que eu fiz, e recobrou o ânimo.

– Bom, comentou Verônica, ele pode ter apenas saído, foi dar uma volta, pode estar abalado com essa história de filho. Ele levou as roupas?

Durante a noite Zerli tinha cavado um buraco do outro lado da cerca e enterrado tudo o que ficara na casa. Isso também contribuíra para sua canseira. Só a sela e os arreios ficaram pendurados na parede. O cavalo agora é meu, pensou ela na hora, ele não vai precisar mais dele.

– Levou tudo. Só deixou o cavalo.

Corisco tinha saído de mansinho.

– Puxa vida, que calhorda, murmurou Verônica. Você quer esperar uns dias para ver se ele volta?

– Volta não, eu sei. Há pouco tempo ele me disse que não estranhasse se qualquer dia fosse embora. Nesse tempo eu ainda não sabia que estava prenha.

– Grávida, Zerli, quem fica prenha é vaca, égua, cachorra. Verônica foi até à janela. Bom, isso, por outro lado, facilita as coisas. Você pode ir comigo para a cidade, vou ver um médico para acompanhar sua gravidez até o parto. E nós vamos criar esse bebê com muito amor.

Corisco entrou na sala como um foguete.

– Ele levou o rádio, gritou, não vai voltar mais. Ele pensou que me engabelou quando veio com aquela história que o rádio era máquina pra limpar pincéis. Eu sou da roça mas não sou burro.

Sentada na cadeira de balanço Zuca tricotava furiosamente, o que a fazia errar os pontos com freqüência. Precisava se ocupar com alguma coisa para não explodir. Desde que Alberto chegara que ela se recusava a lhe dirigir a palavra. Respondia às suas perguntas, que a irritavam mais ainda, com monossílabos, sem olhá-lo nos olhos. Não conseguia engolir aqueles dias que ele passara com a sujeitinha, no bem bom de um hotel, como marido e mulher, passeando, se divertindo, se amando. Pensar nisso a levava a um paroxismo de raiva. Aquele homem era seu, como uma mulher sem classe podia se aproveitar dele, beijar seus lábios, sentir as pontas do bigode roçar sua boca, receber carícias, aquelas mãos apertando seus seios, ser abraçada…Zuca jogou o tricô e as agulhas no meio da sala com força e foi à janela. Os pensamentos que invadiam seu cérebro eram insuportáveis.

A chuva passara e muitas pessoas circulavam pelas ruas, satisfeitas, felizes, só ela se ralava com a traição. Doía no mais fundo de seu coração. Considerava mesmo que o interesse de Alberto pela vagabunda era uma traição à memória da pobre Bebé. E de repente seu pensamento era invadido pela imagem de um corpo masculino muito branco, esbelto, como entrevira certa vez que entrara no quarto de Bebé sem avisar, as pernas longas, cabeludas, o peito largo…

– Posso servir o almoço?

Xixa cortara seu pensamento e lhe dera um grande susto. Era como se a negra tivesse ousado entrar na sua intimidade. Ficou vermelha e respondeu ríspida, sem se voltar:

– Não vamos esperar o Alberto?

– Ele mandou dizer que não vem comer.

Novamente a ira irrompeu em seu peito. Isso vai bonito, rosnou. Na certa vai comer na casa da amiga, pensou, e um grande sentimento de tristeza se mesclou à raiva.

– Então também não quero almoçar, respondeu, sentindo o bolo de sua garganta prestes a explodir.

A empregada a observou por um momento com olhar crítico.

– Cê continua a agir como uma boba, disse. Como é que Alberto havera de querer almoçar aqui, se ocê fica na mesa de cara amarrada e mal responde ao que ele pergunta? Isso até faz mal pra digestão do pobre.

– E o que é que você queria que eu fizesse? Ele viaja com a vagabunda, passa dias fora, volta todo feliz e você acha que eu devia recebê-lo com flores e mimos?

– Não, não tô dizendo isso. Tô dizendo que ocê devia de tratar ele como sempre, sem mostrar raiva nem despeito. Homem não gosta de ser censurado. Acho até que ocê devia tratar ele melhor que antes, se é que tá querendo conquistar ele. É o que a outra deve estar fazendo, tratando ele bem, não criticando o que ele faz, nem vigiando ele, fazendo que ele se sinta bem. Isso é que prende um homem.

Zuca virou-lhe as costas e voltou a olhar a rua.

– Não tenho sangue de barata.

– Ô Zuca, ele não é obrigado a gostar docê, nem a querer casar com ocê só porque cuida dos filhos dele e é irmã da finada. Bota um pouco de juízo nessa cabeça. Ele quer uma mulher, não uma ama seca. Se quer casar com ele, trata de conquistar ele.

Gau caminhava pela rua com a cara enfarruscada, mãos nos bolsos, chutando o que topava pelo caminho. O lábio rachado o incomodava. A chuva tinha passado e deixara o céu tão limpo que as estrelas apareciam em profusão e iluminavam tanto quanto a lua. Gau não tinha olhos para a beleza da noite. Na sua mente, como numa fita de cinema, passava o aperto vivido no dia anterior na feira de Gargaú, com o povo gritando, a chamá-lo de safado, trapaceiro e outros nomes, ameaçando cair de pau em cima dele. Bastara um minuto de distração, olhando uma roceira sestrosa, de vestido estampado e decotado, bonita como uma lamparona, para pôr a perder o trabalho de meses.Mulher é perdição, concluiu.

Ô ódio! Lembrava-se com nitidez do momento em que o parceiro da direita agarrara sua mão em pleno ar, apertando seu pulso, expondo a carta marcada, desmascarando-o diante dos olhos arregalados dos outros jogadores. O silêncio sinistro que se seguiu, foi cortado pelo berro do denunciante:

– Trapaceiro safado!

– Ladrão! gritou um outro.

O parceiro da frente tentou, num salto, agarrar sua camisa, a cara franzida de ódio e os dentes arreganhados como uma fera. Seu instinto de animal acostumado a viver na selva humana lançou-o para trás, derrubando a cadeira, fazendo a mesa se inclinar e jogar no chão o pano verde, cartas e dinheiro. Ergueu-se rápido, apoiado na mão direita, para dar de cara com um praça troncudo, que o agarrou pelo pescoço.

– Vamos dar uma coça nesse safado, gritou um dos parceiros lesados.

– Nada disso, berrou o praça, a mão aberta estendida para frente. Eu sou a autoridade aqui e não admito bagunça. Vou levar esse cabrunco pro posto policial e registrar a ocorrência. Quando chegar, o sub-delegado é que vai dizer o que vamos fazer com ele. De quanto foi o roubo?

– Quem sabe lá, disse um jogador, procurando a custo se conter. Entrega ele pra nós e num instante o dinheiro vai aparecer.

– Pelo tempo que tá trapaceando, disse outro, com um sorriso cruel, deve de estar com os bolsos cheios. Dá elezinho aqui pra gente ver.

E estendeu as mãos em garra em sua direção e só não o pegou porque o praça puxou-o com um solavanco e ficou entre ele e os acusadores. Gau tremia, apavorado.

– Arreda, povo, gritou ele, empurrando Gau para o lado, que vou levar o meliante pro posto. E não quero ninguém atrás de mim, senão…

Tirou o revólver do coldre e levantou-o.

– Não admito insubordinação, gritou, a cara fechada ressumando autoridade. Quem vinher atrás de nós leva um tiro no meio dos cornos!

E foi empurrando Gau pela lateral da feira, onde a jogatina campeava.  Não que Gau se incomodasse com os olhares que lhe lançavam, olho não machuca, apenas teve a percepção de que tão cedo não poderia voltar para exercer suas habilidades manuais. Não tinha medo do guarda, se quisesse lhe meter o cassetete teria feito ali mesmo.

Aos tropeços foi levado para junto ao ancoradouro. Lá adiante a prancha do Zé Bé balançava suavemente. Se eu conseguisse fugir, pensou Gau, podia me meter no meio dos trecos da prancha, enfiava uma panela na cabeça e ninguém me ia me achar. A mão de ferro do guarda forçudo em seu pescoço só lhe permitia movimentos contidos e passos curtos, por isso se aquietou. Vamos ver no que isso vai dar, conformou-se.

Passaram pela prancha e chegaram à borda do manguezal, distante do posto policial. O amanhecer não estava longe. Alguns caranguejos atravessavam a rua e mal eram visíveis na fraca claridade. Perto da borda do mangue o guarda o fez parar.

– Aqui estamos, malandro, e vamos ter uma conversinha.

Vou levar uns catiripapos, pensou Gau, de novo assustado, e depois ele vai me empurrar pra dentro do mangue. Tá crente que aqui é fundo. Se eu puder, pulo nágua na primeira pancada. Contraiu-se para aguardar as bordoadas.

O praça o olhou com ferocidade. Podia bem distinguir sua carantonha enfezada graças à luz de uma lanterna presa num bote a poucos metros.

– Muito bem, malandrinho, roubando os tabaréus, né? Estou de olho nocê há muito tempo, mas cê é esperto, seu tisgo, num deu pra pegar. Agora tá funicado. Cadê o dinheiro? Me dá.

Gau meteu a mão no bolso e tentou separar algumas notas e moedas.

– Hoje a noite não foi boa, murmurou.

– Deixa de lérias, safado, passa a grana pra cá. Por bem e pra depois sair de mansinho e nunca mais voltar por essas bandas, tá certo? Se alguém perguntar pelo dinheiro, já sabe, repete que a noite foi fraca, ganhou quase nada. Se botar meu nome na roda, eu vou caçar você até no fim do mundo.

Gau entregou o dinheiro que tinha separado. O praça pegou o dinheiro.

– Só isso? Deixa de ser safado ou vai virar comida pros peixes. Manda o resto.

– Só tem isso mesmo, choramingou.

A mão do praça estendida para pegar o dinheiro, virou-se rápida e acertou-o no meio da cara, explodindo uma espinha perto do nariz. Com o susto Gau perdeu o fôlego. Ia abrir a boca para dizer alguma coisa e levou um trompaço que lhe partiu o lábio inferior. Um filete de sangue lhe escorreu pelo queixo.

– Quer mais ou vai soltar o dinheiro todo, seu safado?

E antes que pudesse responder levou outra tapona que fez seu rosto quase virar pra trás. Num minuto enfiou a mão no bolso e entregou o restante ao praça. Ele o empurrou para o chão. Caiu de joelhos.

– Agora cata a mixaria que me deu antes e se espalhou por aí. E nunca mais tente me enganar, pois não sou de brincadeira.

Depois que o praça se afastou, Gau passou a fralda da camisa pelo rosto, enxugou algumas lágrimas e o sangue que escorria. Rápido, o soldado sumiu na madrugada. Gau olhou em volta dos pés, esperando ver alguma moeda que não tivesse sido vista quando se abaixou para catar o dinheiro espalhado pela primeira bordoada. Nenhuma. O bolso também estava vazio. Gemendo e fungando, foi se abrigar na prancha do Zé Bé.

Capítulo 34 >>

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


%d blogueiros gostam disto: