Capítulo 32

Zerly olhou com desconfiança as coisas do Otto arrumadinhas num canto da sala. Ele assoviava uma música que ela nunca ouvira, alegre, saltitante. Aqui tem coisa, pensou. Lá fora uma chuva fina encharcava o pasto. Terminada a estiagem, a chuva se alternava com o céu nublado, sempre ameaçador. Pelo menos tá bom pros bichos e pras plantas, pensou ela, antes de se embrulhar num oleado e sair para o emprego.

No meio do caminho, voltou. Na sua cabeça confusa, preocupada com o filho que trazia na barriga e com a reação de Otto, ora tinha vontade de lhe contar tudo, ora de esperar a barriga crescer mais para ele mesmo notar. Ultimamente ele olhava pouco pra ela e sempre com aquela cara de quem comeu e não gostou. A arrumação que ele fizera nas suas coisas despertara sua curiosidade e uma desconfiança: e se ele estivesse decidido ir embora? Nada prendia ele ali, quem sabe se soubesse que ia ser pai não desistisse de ir embora? Estacou, os olhos embebidos do cinza que a rodeava e se decidiu. Vou tirar isso a limpo.

Otto a olhou surpreso quando ela abriu a porta e entrou, pingando chuva pelo chão. E nada disse. Ela correu novamente os olhos pelas coisas arrumadas em cima da cama, a cara alegre dele e perguntou:

– Vai viajar?

Ele hesitou por um minuto, só queria lhe comunicar a partida quando tudo estivesse resolvido, quando soubesse quando e onde ia deixar aquele país de macacos e de judeus. Mas já que ela perguntara, respondeu com displicência:

– É, tô pensando. Acho que vou me emborra daqui.

Ela continuou a observá-lo, o que dizer a ele ainda se formando em sua mente. Ele continuou a assoviar, sentado na cama, preocupado em arrumar uns papéis.

– Eu vou ter um filho, disse ela, num arranco.

Ele a encarou com estranheza, como se não tivesse entendido o que dissera.

– Estou enxertada, afirmou ela, vou ter um filho seu.

Ele se levantou num pulo, os olhos arregalados:

– Você disse o quê?

– Que vou ter um filho seu.

O rosto dele se avermelhara.

– Não vai não, gritou ele, sentindo que de alguma forma fora logrado, levado a contribuir para que o mundo que queria perfeito fosse maculado por seres inferiores.

– Vou sim, insistiu ela, sentindo que tudo que de ruim imaginara estava acontecendo.

– Eu não querro, tornou ele a gritar, não querro! O ódio fazia o sangue subir-lhe a cara, parecia que ia explodir a qualquer instante. Não querro ter um filho com carra de macaco, não quero misturrar meu sangue ariano com o sangue de uma raça inferrior, de uma bugrra.

– Eu não sou bugra, respondeu ela, com vontade de chorar.

– É de raça ruim sim, de raça inferrior, gente ruim, que não prresta prra nada. Você se aprroveitou da minha ingenuidade para engr0ravidar, mas eu não querro. Eu não querro filho macaco, cê vai tirrar ele.Vai tirrar esse monstrro de sua barriga!

– Não vou, gritou ela, e meu filho não é macaco, eu não sou macaca, eu sou gente como você!

– Como eu? Não seja besta. Você pertence a uma raça ruim que nós vamos extirrpar do mundo. Vamos terrminar o que os portugueses começarram a fazer aqui. Já chega de gente inferrior nesse mundo. Vai, procurra uma mulher dessas que fazem aborrto e se livrre desse trraste. Eu dou dinheirro. Senão eu mesmo vou arrancá-lo de sua barriga. Veja só, ter um filho macaco, só me faltava essa! Eu não querro saber dessa aberração.

Apavorada, doída, ela voltou ao pasto e à chuva, que se misturava com suas lágrimas. No coração uma grande dor, na cabeça a confusão. Queria apagar o que tinha escutado da boca dele, do homem que pensava que gostava dela. Ele não era assim, era carinhoso, estava perturbado com alguma coisa, vai ver era olho grande que tinham botado em cima deles. Esse povo não pode ver ninguém feliz. Caminhou devagar, chapinhando nas poças, tentando organizar seus pensamentos. Não podia chegar assim na frente de Verônica, ela não ia acreditar que ele dissera aquelas barbaridades.

Na varanda Corisco lhe acenava, pedindo pressa. Como é que vou fazer, meu Cristo? Eu não quero tirar meu filho. Apertou os olhos até conter o choro, apressou o passo, nem precisava limpar a cara, era chuva misturada com lágrimas.

Corisco a esperava no primeiro degrau da escadinha de pedra.

– Corre, Zerli, vai ajudar dona Verônica, que a mãe dela está passando mal.

A velha está ficando meio pancada, concluiu Louro. Assim que chegara com o dinheiro dos ovos, ela o tomara de sua mão com impaciência. E dissera:

– Amanhã vamos vender um frango. Meu povo está cada vez mais miserável, qualquer dia vai me mandar só uns tostões. Eles querem me matar de fome, bandidos!

Por essas e outras tivera que surrupiar os siris do Galinholo. E nessa manhã também tivera de pegar umas batatas doces no quintal de Zé Crisanto, que esquecera o portão aberto. Arrancara as batatas cavando a terra dura com os dedos, enchendo as unhas de terra, com um olho nas plantas e outro na porta da cozinha da casa do Zé. Enfiara as batatas por baixo da camisa e saíra correndo, segurando a barriga para que nenhuma caísse. E reforçara o almoço da família.

Depois passara na Conceição para pegar as marmitas e ao chegar de volta encontrara a velha com o ânimo completamente mudado, a cara enrugada iluminada com um sorriso, no olhar um brilho moleque.

– Louro, cê não sabe o que aconteceu!

Ele depositou as marmitas sobre a mesa e pôs-se a abri-las. A seu lado a velha saltitava. Parecia criança.

– Meu povo não é tão ruim assim, eu é que sou muito esquecida, meu Deus, estou ficando velha! Sabe aquele livro que eu estava lendo?

A velha tinha a mania de mandá-lo comprar uns livros, qunado o trem chegava, romances baratos, cheios de emoções, que ela lia devagar, sempre à tarde, sentada na cadeira de balanço. Às vezes comentava a história com ele, passagens em que ele não acreditava ou entendia, problemas dos personagens, descrições de paisagens.

– Pois é, veja só que cabeça a minha. Não sei como, botei uma das notas entre as páginas daquele livro. Cê sabe que não tenho o hábito de ler pela manhã, a claridade é muito forte, me dói a vista. Hoje, não sei porque cargas dágua, me deu vontade de ler um pouquinho enquanto esperava você trazer o dinheiro, peguei o livro e o folheei. Não é que a nota caiu no chão? Graças a Deus! Eu andava meio preocupada, porque o dinheiro não estava dando…

– A senhora não pensou que andei roubando seu dinheiro, pensou?

– Deus me livre, meu filho! Confio em você cegamente.

Essa fia das unhas tava duvidando de mim, pensou ele, mas ela acrescentou, com doçura na voz:

– Gosto tanto de você, que como o Natal tá chegando, vou mandar uma carta pro meu povo comprar um presente pra você. Você gostaria de ganhar uma camisa nova, bem bonita? Eu jamais pensaria mal de você, um menino tão atencioso, minha companhia, meu único amigo, que me ajuda em tudo, Deus me livre! Eu tinha muita vontade de levar você pra conhecer o Rio, um lugar tão lindo, movimentado, mas meu povo, sabe, deixa pra lá. Você precisa ver como é o Natal por lá, uma beleza, eles enfeitam um pinheiro com bolas e luzes, compram nozes, amêndoas, avelãs, coisas finas, tudo importado, caríssimo. Não sabem dar valor ao dinheiro. Eu também não sabia e agora…bom, vamos deixar as coisas ruins pra lá, vamos almoçar. Ah, meu Deus, muito obrigado por me mostrar onde estava meu rico dinheirinho.

Enquanto comia, ouvindo o papaguear incessante da velha, ficou matutando. Devia haver mais dinheiro espalhado por aí, entre as páginas dos livros que ela já havia lido e que guardava numa prateleira do quarto. Essa devia ser a razão por que ultimamente o dinheiro que recebia nunca chegava para as despesas.Ela enfiava o dinheiro nos livros e esquecia. Preciso dar uma olhada naqueles livros, pensou. Mas como, se ela nunca sai de casa?

Sentada na espreguiçadeira, olhando sem ver os desenhos do friso da parede da sala, Zuca maquinava. A sujeitinha escapara dessa vez, mas não ficara livre de uma conversa séria com ela. Não ia nem esperar Alberto viajar de novo, numa dessas tardes, enquanto ele estivesse ocupado no escritório, ia lá dizer uns desaforos para a cadela. Já sabia onde era a casa. Não estava preocupada se ia se rebaixar, queria era mostrar pra tal sujeitinha que Alberto não era um qualquer, em quem ela podia meter as garras de meretriz, era um homem de família, e principalmente que tinha dona. Ia se casar com ela, Zuca, que cuidava de seus filhos, e não com uma desclassificada. Olhava os desenhos e sorria, vitoriosa.

Xixa surgiu na porta, queria saber o que fazer para a janta, e olhou curiosa a patroa com aquele riso estranho, a olhar o alto da parede, um livro aberto abandonado no colo. Que será que ela anda tramando?

– Tá pensando na morte da bezerra? indagou.

– Ai, Xixa, que susto! Mania que você tem chegar assim, como um fantasma.

– É que meus chinelos não fazem barulho, vim saber o que vai querer pra janta.

– Ah, sei lá, Xixa, tenho coisas mais sérias pra pensar. Faça qualquer coisa, Alberto não tá aí mesmo.

– Hum, não estou gostando do seu jeito. A empregada pôs as mãos nas cadeiras amplas. Ainda tá chateada porque não encontrou a zinha? Foi melhor assim. Ou tá acontecendo alguma coisa que eu não sei?

– Não, respondeu ela com displicência, fingindo-se preocupada em fechar o livro. Nada de importante.

Aí tem coisa, pressentiu a negra, e vou saber o que é. Essa menina sempre foi muito sonsa, cheia de artimanhas.

– Diga logo, criatura, no que tá pensando. Acha que me engana? Tem minhoca nessa sua cabeça oca.

Zuca levantou-se e sem olhar a empregada, comentou:

– Estou pensando só em duas coisinhas que preciso fazer para resolver minha vida. Primeiro é que não desisti de dar uma boa lição naquela vagabunda. Ela precisa saber com quem tá se metendo.

– Zuca, toma juízo. Alberto não vai gostar nem de saber que você foi a casa dela, que dirá…

– A segunda, continuou Zuca, ignorando a interrupção, é um tiro na mosca. Mas não adianta insistir que não vou falar agora. Na hora cê vai ver. Vai ser tiro e queda.

– Vê lá o que cê vai aprontar, Zuca. Pensa bem antes de fazer bobagem. Você não cria juízo!

A sesta o deixara de ânimo renovado. Dali a pouco receberia as instruções para deixar esse país dos infernos, onde fora obrigado a conviver com essa gentinha por tempo demais. Tudo pela vitória de seu país. Deitara-se preocupado com a história do filho seu que Zerli estava esperando, mas a comida farta e gostosa que ela mandara mostrava que a bugra entendera bem suas ordens e que em breve se livraria daquele trambolho. Imagina se concordaria em ter um filho mestiço, ter seu sangue puro misturado com aquele sangue inferior. Como poderia, daqui a um tempo, invadir aquela região, como reduziria aqueles caboclos à condição de servos se um filho seu, mesmo mestiço, estaria entre eles? Era um homem duro, mas filho é filho, não teria coragem…teria sim, tanto que mandara jogar o feto no lixo. Não podia compactuar com uma miscigenação que só servia para corromper a humanidade. Não era esse o ideal dos nazistas, que sonhavam com um mundo ariano, formado por homens e mulheres fortes, belos, sadios, bem proporcionados e inteligentes. Como se poderia esperar isso dessa raça mestiçada, inferior em tudo? Se fosse necessário, mandaria fuzilar todos eles, inclusive Zerli e o filho, caso insistisse em pari-lo.

Deu uma verificada no que separara para levar. Pouca coisa, uma muda de roupa, material de pintura, e por falar nisso tinha de falar com Zerli para pegar a pasta de desenhos que mandara para dona Verônica escolher um para ela, e só. O resto, que Zerli aproveitasse como lhe aprouvesse. Trouxera a sela e os arreios do cavalo para a sala, caso precisasse se deslocar rápido para a praia.

Estiara, mas o céu continuava coberto de nuvens pesadas. Ótimo para uma fuga, pouca gente pelas estradas, nenhum aeroplano cruzando o horizonte. Nem sol forte para assar sua pele. Pegou seu porrete e saiu. O chão ainda estava encharcado, mas a areia logo absorveria o excesso de água. Atravessou a estrada com os cuidados de sempre, cruzou a linha férrea e entrou no mato ribeirinho. Dizem que em dia frio as cobras não aparecem, pensou, mas não deixou de bater com o porrete nas ervas e plantas rasteiras para afastá-las.

O rio marulhava, caudaloso. No manto de aguapés que cobria o poço, alguns cachos de flores violáceas apareciam. Encostou a gorumbumba no arbusto que ficava às suas costas, sorriu para o céu, e tirou o couro que cobria o rádio. Não demorou muito a armar a antena e iniciar a transmissão. A estática, como sempre, dificultava o contato. Esses paspalhões que interferem na transmissão em breve vão ter que se preocupar com outras coisas, pensou satisfeito, pois estarei bem longe daqui. Estava orgulhoso de ter enganado tantos rastreadores por tanto tempo. Isso certamente seria levado em conta por seus superiores. Não se deixara apanhar pela contra-espionagem do país.

Quando a voz, falando em alemão, entrou no ar, seu peito se expandiu de felicidade. Seria resgatado nessa noite, na praia, disse a voz. Anotou com cuidado as coordenadas, teria toda a tarde para traçar o rumo e chegar no ponto indicado. E o rádio? perguntou, o que faço com ele? Dê um sumiço nele, respondeu a voz, venha com a menor bagagem possível. Agitado, com gestos bruscos e precisos, desmontou a antena, embrulhou o aparelho no couro que o protegia, amarrou-o com os fios e o lançou no poço. Rapidamente o rádio desapareceu por entre o raizame dos aguapés. Sorriu satisfeito, limpou as mãos e virou-se para tomar o caminho de volta. Precisava agir rápido.

Deu de cara com Zerli. Ela o olhava, de cenho cerrado, apoiada no porrete. Sorriu contrafeito, como uma criança apanhada fazendo arte.

– Isso que cê jogou no poço é o rádio? perguntou ela, apontando o manto de aguapés com a gorumbumba.

– É, respondeu ele, recuperando a arrogância. É o rrádio sim, porr que?

– Então não era invenção do Corisco. Ocê é mesmo um espião.

– Sou um homem que luta pelo ideal de um mundo melhorr, mais limpo.

– E eu, boba, sem desconfiar de nada, botei ocê na minha casa, cuidei de suas feridas, matei sua fome, dormi cocê, criei cobra pra me morder… E ainda estou com um filho seu na barriga…

– Mas vai tirrar, interrompeu ele, incisivo. Não querro um filho macaco, já disse.

– E agora cê vai embora, sem mais aquela, sem ter remorso nem nada.

– Grraças a Deus! Vou voltarr para o mundo civilizado, já estou fora de casa há muito tempo. Quando eu voltarr, à frrente do exército de meu Führer, serrá parra dominarr e limparr esse país, você serrá poupada, isso eu prrometo.

Ela ficou calada, pensando, olhos postos nos aguapés. Seu rosto parecia uma máscara de pedra, que não refletia a revolta e o desespero que enchiam seu peito. Então nós somos macacos, eu e o filho que estou esperando. Ele não quer saber de nenhum de nós, vai embora e não quer nem saber o que vai acontecer com a gente. Mas eu não vou deixar ele ir assim. Se quer ir, que vá pro inferno.

– A antena do rádio parece que ficou de fora, avisou ela, entre dentes. Aquilo é o que o Corisco chama de antena, né?

Ele torceu a cabeça para olhar o poço e mal sentiu a violenta cacetada que ela lhe deu com a gorumbumba. Acertado em cheio na nuca pelo porrete pesado de ódio, por um momento oscilou, o corpo grande e magro tentando se equilibrar, os braços se agitando desordenados, os olhos abertos de espanto. E mergulhou no meio dos aguapés. Um chuá, e tudo estava acabado.

Horas, minutos, quem sabe? Zerli ali ficou, apoiada na gorumbumba, a olhar o poço, olhos secos, coração pacificado, a cabeça parecendo oca. O emaranhado de raízes, folhas e flores de aguapés aos poucos se recompôs e o manto voltou a ficar perfeito, sem uma falha. Otto mergulhara pra sempre no seio da natureza, um mundo sem imperfeições.

No instante em que se viu diante do bar do Eu, Maria das Dores da Silva se transformou em Jaçanã Sodré. O cenário era tacanho, não se aproximava sequer da Rádio onde mostrara sua linda voz ao público, mas havia uma platéia, um bando de homens que se acotovelavam na porta e nas mesas da pequena sala. Ela cantaria para eles.

Jaçanã esperara a mãe e a irmã adormecerem para pular a janela e ir para a rua. Depois da conversa da tarde, em que a mãe se opunha de toda a maneira que fosse cantar no bar do Eu, decidiu desobedecer. Na hora logo depois do almoço dera uma passada na casa de Eu e conversara sobre a possibilidade de cantar à noite em seu bar, acompanhada por ele no violão e pela flautista.

– Não quero ganhar nada, afirmara, quero apenas ter a oportunidade de treinar minha voz e de ensaiar a música que vou defender na final do concurso de calouros.

– Não senhora, vou lhe dar uma gratificação. Provavelmente não é a que merece a vencedora de uma etapa de um concurso tão difícil, mas é o que posso arrumar.

Ela sorriu, encabulada:

– Seu Eu, não precisa…

– Nada disso, não será muito, mas servirá para comprar seus alfinetes.

– Eu só queria uma coisa, que alguém me levasse em casa quando a apresentação terminar. As ruas andam muito escuras, fico com medo.

E ali estava ela, as mãos molhadas de suor, o coração parecendo querer saltar do peito. Nem no programa de calouros se sentira tão nervosa. É que ali estaria entre seus conhecidos, e qualquer erro, qualquer desafino, seria comentado no dia seguinte por toda a cidade. Não suportaria o vexame.

Sorrindo e pedindo licença abriu caminho entre os homens. Seu rosto queimava, um misto de medo e vergonha a invadiu. Era diferente de subir num palco para cantar. Na sala enfumaçada, a conversa era generalizada, bebidas consumidas entre risos e piadas. Ela seguiu em frente. Um homem alto, com um sorriso fascinante, se interpôs no seu caminho.

– Onde vai essa rainha banto? lhe perguntou e sua voz era suave e sedutora.

Parou, aturdida, nunca vira homem mais bonito, os cabelos negros e lisos penteados para trás com brilhantina, os olhos escuros cheios de estrelinhas.

– Ô Toureiro, deixa a moça passar, gritou Eu por trás do balcão.

O bar inteiro olhava para ela, mas seu corpo amolecido não conseguia se mexer. E seus olhos não se desgrudavam das estrelinhas que brilhavam nos olhos dele, nem da fieira de dentes muito brancos de seu sorriso sob o bigode bem aparado. O cheiro de macho mexeu com todo o seu corpo. Ai, gente, acho que vou ter um troço, imaginou. Eu, percebendo seu embaraço, saltou o balcão e a resgatou.

– O espetáculo já vai começar, disse ele, só estou esperando a vinda de Arlete, a flautista, que chegou hoje de viagem. Venha conhecer o bar.

Ela tremia e pensava que estava se portando como uma roceira, com medo do público e se extasiando diante do primeiro homem bonito que parava na sua frente. Como se lesse seu pensamento, Eu levou-a à cozinha do bar e alertou:

– Olha, toma cuidado, aquele bonitão, cheio de mesuras e rapapés, é um cafajeste. É conhecido como Tonico Toureiro, chegou aqui junto com uma tourada e foi ficando, ficando, ninguém sabe de onde veio nem o que faz na vida, vive de pequenos golpes. Já se engraçou com a Arlete e anda cheio de problemas por causa de mulheres. Por isso, cuidado, não se deixe enganar pela bela aparência, aquilo não vale a comida que come.

Jaçanã sentiu-se repreendida e se envergonhou. Teve vontade de desistir e voltar correndo para casa. Só a mãe podia lhe chamar a atenção, jamais um quase estranho, mesmo que estivesse lhe dando uma oportunidade. A chegada de Arlete desanuviou o ambiente.

Arlete fora avisada da presença da nova cantora logo depois de entrar em casa, de volta da pequena viagem. Ainda em estado de euforia pelos dias passados com Alberto, aceitou a novidade sem problemas. Se Eu achava que a moça merecia a chance, quem era ela para se opor? Arlete jamais recusaria qualquer coisa ao amigo que a arrancara do desespero e da depressão.

Eu sugeriu que tocassem um pouco, acompanhando Jaçanã, para se ajustarem. Arlete não se fez de rogada. Antes do rápido ensaio, correu ao balcão e avisou aos freqüentadores que a apresentação começaria em meia hora. Serviu bebida aos que estavam sedentos e voltou para o ensaio. Diante do som, Jaçanã esqueceu a reprimenda e soltou a bela voz.

Do lado de fora do bar, encostado em uma palmeira, com um sorriso de felicidade a lhe brincar no rosto, Alberto assistia à movimentação.

Capítulo 33 >>

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