Capítulo 30

Seu irmão Nico está ardendo em febre, disse a mãe, preocupada, assim que Louro entrou em casa. Essas crianças vivem doentes.

Ele pegou o troco que a velha lhe dera e entregou à mãe.

– Vou levar ele no médico, mas será que esse dinheiro dá pros remédios?

– Se não der, mãe, a gente dá um jeito de arranjar mais. Eu pensei que trabalhando, as meninas pudessem mandar algum dinheiro pra gente.

– Hum, exclamou a mãe, enquanto passava o pente nos cabelos do filho mais novo, neca de pitibiriba. Nem um vintém.

_ Se fosse eu que tava lá, aparteou Marilda, mandava. Elas sabem que a gente vive nesse aperto. Não custava nada.

– Vai ver ela não recebe nada, falou Chico, o irmão mais novinho.

– Ainda dou graças a Deus, pois pelo menos lá elas têm o que comer e o que vestir, respondeu a mãe. Inda ontem Lurdinha mandou um recado pela Nerildes dizendo que está muito bem e que no fim do ano deve vir passar uns dias aqui, pois o patrão vai viajar com a família. Fico muito alegre em voltar a ver minha filhinha, mas ao mesmo tempo fico nervosa, pensando que a despesa vai aumentar, a gente vai ter de comprar mais coisas de comer, ela vai estranhar, tadinha, acostumada no bem bom…

– A gente dá um jeito, disse Louro, pra tudo tem jeito. Só não tem pra morte.

– E a velha, está melhor?

– Hoje está, acho que mandaram o dinheiro dela. Mas está falando muita bobagem. A senhora acredita que ela diz que já foi muito rica, tinha carro com chofer e tudo? Como é que veio parar aqui, nesse miserê, dependendo desse dinheiro que o povo dela manda? E se é verdade que foi dona disso e daquilo, que vestia seda e usava jóias, o que foi que ela aprontou para ser jogada aqui que nem um móvel velho, sem valor?

A mãe estreitou os ombros.

– Pode ser verdade, sim. Já vi de tudo nesse mundo e filho jogar a mãe fora não é novidade. Por isso é que eu digo, ninguém deve zombar de quem está por baixo nem puxar o saco de quem está por cima porque o mundo gira e as coisas mudam. Bom, deixa eu ir levar o menino ao doutor. Tomara que não seja nada sério.

– Deve ser verme, a senhora não viu a Cotinha? Tava toda ruim, magrela, sem comer nada, jururu pelos cantos, tomou um purgante, dizem que botou bicha de mais de metro e agora tá aí, forte e alegre.

– Mais alegre até do que devia, ponderou a mãe, séria. Ficou muito da assanhada e a mãe dela está se ralando de preocupação.

– E acabou levando uma coça de cinteiro, completou Louro, pra sossegar o facho.

Verônica se aproximou da pia, onde Zerli acabava de enxugar os pratos.

– Mamãe hoje está impossível, reclamou. Foi uma luta pra ela tomar banho, esperneou, cuspiu em cima de mim o que comeu e o pior é que não quer tomar remédios, tranca os dentes, sacode a cabeça, um inferno.

Zerli escutava calada, passando pano de prato na pia.

– Vou mandar um recado pro Felismino, não agüento mais ficar aqui com ela, acho bom ir pra casa da cidade até ela melhorar ou…Fez o sinal da cruz. Deus que me perdoe, mas tem horas…pra que viver nessa agonia, dando trabalho a todo mundo? Quem viu mamãe antes e vê agora, cê lembra, Zerli, como ela era ativa, risonha?

– Lembro sim, mas Verônica, quero lhe falar uma coisa…

– Ai, Zerli, que cara é essa? Mais problemas não, pelo amor de Deus!

– Eu acho que tô enxertada.

Verônica se assustou: o quê, Zerli?

– Acho que tô esperando filho.

Verônica arregalou os olhos:

– Do estrangeiro, Zerli?

– De quem mais havera de ser, ora!

– Desculpa, saiu sem querer. Claro, um filho do alemão. Vai ser lindo, Zerli, um moreninho de olhos azuis.

– Será que ele vai gostar? Tô com medo, esse povo estrangeiro é tão esquisito.

Verônica se sentiu invadida por uma onda de alegria. Ia ter uma criança em casa. Sem dúvida que a criança passaria o dia ali, onde ela poderia extravasar todo o amor que guardara para um filho.

– Se ele não quiser o filho, Zerli, não se amofine, eu vou dar todo o apoio que você vai precisar, vamos ao médico, vamos melhorar sua alimentação, vamos cuidar de nosso filho.

Zerli sorriu, encabulada.

– Tô com medo de contar pra ele. Será que ele gosta de criança?

– Esquece isso. Se ele não gostar, que se dane. Nosso filho vai ser tratado como um rei.

Zuca estava furiosa. Depois de esperar horas para que a ligação telefônica fosse completada e ainda ter de pagar mensageiro, tivera de ouvir as bobagens de Otília. Fora em busca de conselhos, de palavras amigas e o que ouvia? Gozação, ironias, palhaçada.

O assunto que a levara a telefonar para a irmã era muito sério: soubera, com certeza, que Alberto estava dormindo com uma mulher, uma artista da noite, uma sem vergonha, uma boêmia desclassificada. Alberto enlouquecera, por Deus! Sentira o rosto vermelho de vergonha ao ouvi-lo responder à sua pergunta:

– Alberto, não sou de dar ouvidos a essas bisbilhoteiras, nem dou muita atenção a fuxicos, mas vieram me contar que você está dormindo com uma sujeitinha…

Ele a fuzilara com os olhos.

– Meça as palavras, Zuca, respeite quem você não conhece.

– Então é verdade? perguntara, sentindo-se desmoronar. É verdade mesmo, Alberto? Você está traindo minha irmã com uma vagabunda?

– Isabel está morta, Zuca, que Deus a tenha em bom lugar. Não estou traindo ninguém, sou viúvo, posso me casar com quem eu quiser.

– Você disse casar, Alberto? Ela arregalara os olhos. Não é só uma aventura inconseqüente, embora indigna de um homem de sua…

– Da minha o quê? Pára com essas bobagens, Zuca. Como bem diz seu cunhado, somos passageiros de uma velha cidade que naufragou. Somos naufragantes. Sem nenhuma importância. Deixe de se dar ares. E você ouviu muito bem, vou me casar com ela sim, assim que meu luto acabar.

– Você está maluco, gritou ela, tão alto, que Xixa veio se arrastando da cozinha, o mais rápido que pode, a tempo de lhe oferecer o ombro para que chorasse à vontade.

Por sua vez, Otília fizera chacota de seus sentimentos.

– Quer dizer então que Alberto arranjou uma costela e você ficou no ora veja? A gargalhada da irmã, vinda através do fio telefônico, parecia mais cruel, insensível. Eu não queria lhe dizer, mas sabia que isso ia acontecer.

– Mas não pode e não vai acontecer, berrou Zuca, chamando a atenção de quem aguardava completar sua ligação na pequena sala de espera do posto. Eu crio os filhos dele, ele não pode se casar com outra, não pode!

Otília parecia não perceber a gravidade da situação.

– Pode sim, Zuca, e vai. É melhor você se conformar.

– São anos de dedicação, Titila, que não posso nem quero jogar fora.

– Que anos, Zuca, não faz nem um ano que Bebé morreu. Deixa de ser exagerada.

– Eu sempre cuidei dessas crianças como se fossem meus filhos, Titila, mesmo no tempo em que Bebé vivia.

E sempre de olho comprido no marido dela, pensou Otília, mas nada disse.

– Sabe de uma coisa, Zuca, deixa de drama. Faz o seguinte: larga Alberto e as crianças de mão e vem pra cá que logo, logo lhe arrumo um marido, agora que conheço bem o povo daqui. Tem sempre um desembargador caquético ou um comerciante falido, você tem seu dinheirinho guardado, não tem? Então, num instante você está casada e bem casada. Dinheiro, Zuca, é a mola do mundo, aprendi isso aqui.

Zuca chorava, magoada pela incapacidade da irmã de entender seu verdadeiro problema: ela amava Alberto, ela queria Alberto com seu corpo e sua alma, ela era apaixonada por ele desde os tempos em que era casado com a irmã mais nova. Sofrera calada, conformada, por muito tempo. Agora ele estava livre e não ia desistir dele, não ia mesmo.

– Eu vou lutar por ele, completou Zuca, soluçando.

– Bom, Zuca, você ouviu o que eu penso. Se for inteligente vai fazer as malas e vir pra cá. É só o que posso dizer.

E Zuca chorara até não poder mais. Xixa morria de pena, mas nada podia fazer. No coração dos outros ninguém manda.

Antes que Zerli saísse Otto pegou a pasta com suas aquarelas e lha entregou:

– Manda a dona Verrônica escolher uma prra ela e me trraz as outrras de volta.

Otto não queria deixar fama de ingrato. Comera, bebera e dormira de graça esse tempo todo e pretendia recompensar a fazendeira quando retornasse com os homens do exército do Fuherer; por enquanto deixava aquela lembrança. Um dia, quando fosse famoso, a aquarela valeria muito dinheiro. Deixaria uma pra Zerli também, bem como o cavalo, e tudo o mais que atrapalhasse sua fuga.

Zerli sorriu e seguiu para o trabalho. Otto acabou de tomar café com tapioca – uma bela invenção dos nativos que um dia aproveitaria para alimentar seus soldados – e seguiu para a beira rio, com todos os cuidados que essa simples operação de deslocamento passara a requerer.

A estrada estava vazia e no céu nublado algumas aves voavam aparentemente desorientadas. Otto atravessou a linha férrea e embrenhou-se no mato, batendo a vegetação rasteira com o porrete, espantando cobras e outros bichos. Puxou o rádio para fora da moita e ajeitou a antena. Pouca estática, sinal que ia conseguir a comunicação. Sorriu satisfeito.

Além do ruído da estática, um outro, distante, como o vôo de um besouro, chamou sua atenção. Dividido entre o rádio, que dava sinais de completar a ligação e o ruído que crescia, custou a perceber que se tratava de um teco-teco, um pequeno aeroplano.

Levantou-se, percorreu o céu com olhos atentos e viu no horizonte pequena mancha se movimentando. Aves levantavam vôo enquanto a mancha crescia. O que faz um aeroplano nessa região? se perguntou, já apreensivo. O rádio emitia sinais e se abaixou para ouvir melhor. Sons ainda indistintos, estavam lhe enviando uma mensagem em código. Em código, por que? Aquela freqüência era exclusiva para que pudessem falar livremente.

O rumor do avião aumentava, estava se aproximando. É por causa do avião, imaginou. Alguém que não conseguiu localizar o rádio nas batidas por terra, mandou o aeroplano para me descobrir pelo alto! Nervoso, procurou um papel no bolso da calça, molhou a ponta do lápis na boca e anotou depressa o que estava ouvindo. Aguardou tenso a repetição da mensagem, conferiu o código, desligou o rádio e camuflou-o novamente. Apoiou-se no porrete e se meteu sob um arbusto mais encorpado. Instantes depois o avião cruzou o céu acima de sua cabeça.

– Não me virram, tenho cerrteza, e porr isso vão voltarr. Desgrraçados! Não vão descansar enquanto não me localizarrem.

Com o coração aos pulos, refez e caminho e se meteu em casa. Tudo continuava tranqüilo, mas podia ver as mulheres e o moleque, na varanda da fazenda, olhando para o céu, acompanhando o vôo do aeroplano. Sorriu aliviado ao se ver sob o teto de palha.

– Não foi dessa vez que me descobriram, pensou, satisfeito.

Sentou-se e abriu o papel com a mensagem. Decifrou o código. Dizia: “Aguarde nova comunicação amanhã à tarde. Prepare-se para deixar o país.”

Seu sorriso se ampliou. Deu um soco no ar. Viva! gritou, até que enfim! Vou voltar para minha pátria, largar essa gente inferior, que me enoja. Jogou o papel no fogão, que ficava permanentemente aceso, e esperou que as chamas o consumissem. Depois voltou-se para suas coisas e pôs-se a ordená-las.

O pequeno avião continuava a dar voltas. Não importa mais, pensou Otto, vou sair fora do alcance desses caça-espiões. E deu uma banana para o céu.

Das Dores estava sem nenhuma vontade de bater roupa. Sua cabeça se fixava numa idéia: como conseguir ir até o cassino e pedir para ensaiar com seu Regional. Escolhera para a próxima apresentação a música Aquarela do Brasil e precisava ensaiar bastante. Aos poucos, sem dizer claramente o que queria, tocou no assunto com a mãe e sentiu que ela não deixaria. Falou com a irmã que a olhou de lado, receosa.

– Por que tem de ensaiar no cassino? perguntou. No bar do Eu tem cantoria quase toda a noite, a viúva do açougueiro toca flauta e o Eu canta e toca violão. Por que não ensaia com eles? Ali você pode ir até sozinha.

A princípio não gostou da idéia, como cantar com um Regional depois de ensaiar com uma flautista e um violão? Não era a mesma coisa.

– Fica até mais fácil procê cantar com o Regional depois de ter ensaiado com os dois, pensa bem, argumentou a irmã. O problema, você disse, é a afinação e quem canta afinado com eles dois na certa vai se sair muito melhor com o Regional. Quem sabe cantar, canta bem de qualquer jeito. E você canta muito bem, tanto que é finalista do concurso de calouros.

A idéia não lhe agradava, as palavras da irmã não serviram de consolo nem de estímulo. Vou conversar hoje de novo com mamãe, ela vai acabar entendendo. Ela não pode atrapalhar minha carreira de cantora, meu futuro.

Pensara até em apelar para Tijolo. O coitado era enrabichado por ela, bastaria uma palavrinha sua e ele obedeceria, feliz da vida, não tinha dúvidas. Mas não é que o miserável fora arrumar emprego num barco logo agora? Ia ficar fora uns meses. Porcaria! E o bobão achava que ia ficar rico com uma viagem de poucos meses e que na volta a conquistaria. Era um bobão mesmo. Se emprego em navio enriquecesse, não haveria mais ninguém embarcado, todos estariam em suas mansões, gozando a vida.

Era um paspalhão, o Tijolo. O intojado pensava que ia conquistá-la com promessas. Sai fora, bacurau! Sabia muito bem o que acontecia às moças que davam antes do casamento. Tava aí mesmo a Querubina, deflorada e largada pelo Arnaldo, com um filho na barriga, tocada pra fora de casa pelo pai e agora vivendo no beco, vendendo o corpo. Comigo não, violão! Sua mãe não se cansava de alertar: “Filha minha não é carniça para qualquer urubu comer. Daqui de casa só sai casada.”

De qualquer maneira, casar com Tijolo pra quê? Pra viver mal, se encher de filhos, passar necessidade como a maioria das pessoas que conhecia e, pior de tudo, abandonar o sonho de ser uma cantora famosa? Acho que vou procurar o Eu, decidiu.

Capítulo 31 >>

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