Capítulo 3

Otília andava de um lado para outro na plataforma da estação ferroviária, impaciente. Zuca, parada ao lado das malas da irmã, por sua vez olhava preocupada na direção da rua que vinha da praça de Santo Antônio dos Pobres. Alberto estava demorando, tinha prometido vir despedir-se da cunhada e não aparecia. Não fosse o atraso do trem e ela teria ido embora sem vê-lo. Ou será que era mesmo isso que ele pretendia? Alberto era caturrão. Reconhecia que a irmã mais velha era autoritária e prepotente, mas era sua irmã e de Bebé e viera exclusivamente para a missa de 7º dia. Conhecia muita gente que, desde que as atividades portuárias acabaram, fora morar no Rio e não voltava nem para enterro ou missa pelas almas dos próprios pais. Uns porque não tinham condição financeira ou de saúde para enfrentar viagem tão demorada e cansativa, mas outros…

Otília olhava o pequeno e brilhante relojinho de pulso – mais um mimo do marido eternamente apaixonado, que ela exibia com orgulho e vaidade – e o grande relógio da parede da estação. O trem estava mesmo atrasado.

– Um absurdo, reclamou ao parar perto de Zuca, não se pode admitir um atraso desses. No Rio isso jamais aconteceria. Como eu detesto essa roça.

Zuca quis lembrar-lhe que fora no que agora considerava roça que ela nascera e vivera, mas preferiu se calar. Não estava disposta a ouvir os argumentos esnobes da irmã nem a sentir seu olhar gélido, superior. Passara algum tempo na casa dela no Rio e não achara lá essas coisas. Lá havia um bom comércio onde passear, olhar vitrines, comprar, mas o resto do tempo ficaram trancadas em casa, Maurício trabalhava demais, não tinha tempo nem gostava de sair. Só ia mesmo às festas formais da empresa ou cerimônias como casamentos e batizados em casa de figurões, sempre reclamando. Ocasiões em que Otília se transformava num pavão, exibindo roupas caras e jóias.

– Eu lhe digo, Zuca, se continuasse morando aqui já tinha tomado minhas providências. O jornal daqui não reclama não? Também numa cidade que está se desfazendo, virando um cemitério de vivos. Quem viu esse porto, hein, Zuca? – Suspirou – Nos seus bons tempos, com aquela porção de navios, gente alegre, bonita, os marinheiros cantando, os saraus na casa de Zizi Henriques, a banda na praça, o magote de operários passando pela rua. Olha, contando ninguém acredita, parece que a cidade encolheu. Cruz credo, – e se persignou – não sei como Bebé, tão bonita, inteligente, jovem, foi se casar com esse mosca morta do Alberto e se enterrar aqui. Se ficasse lá em casa, como cansei de convidar, eu lhe teria arranjado um bom casamento, seria hoje uma madame e não morreria de morte tão inglória, atropelada na calçada por uma baratinha a 20 km por hora. Pobre Bebé, não merecia esse fim. Tornou a suspirar.

– Alberto não é mosca morta, é um bom homem, ousou replicar Zuca, era apaixonado por ela e ela por ele, tem um bom emprego, é um excelente pai de família.

– Eu, hein, estou estranhando defesa tão veemente. O que é, hein, Zuca? Também está apaixonada por ele?

Zuca ficou vermelha como uma pitanga.

– Você diz cada bobagem, Titila. Está irritada, eu compreendo, por causa do trem, mas tudo tem seus limites. Gosta de debicar dos outros.

Soou o apito do trem no mesmo momento em que Alberto chegava à estação. O chefe da estação tomou seu lugar, mão segurando a corrente do relógio de bolso, pose de autoridade. Daí a minutos o trem encostou na plataforma.

– Desculpem minha demora, mas tinha uns problemas urgentes a resolver e sabia que nosso trem tradicionalmente atrasa.

– Se sabia, por que não me avisou? perguntou Otília, irritada. Por que não me poupou dessa exposição pública, com essa gentinha a me olhar de cima embaixo como se eu fosse um bicho raro?

Alberto sorriu sem graça e Zuca baixou os olhos, contrafeita com a explosão da irmã.

– Essa gentinha, Otília, é a sua gentinha, de onde você saiu, disse ele, portanto… está em sua casa.

– Não me apoquente mais, senão vou passar mal na viagem. Faça alguma coisa de útil, me ajude com essas malas, vamos. Me sinto aqui como uma estrangeira, estranho até esse modo de falar, essa gente que não pronuncia o nh direito e parece fanha, quando acentua os a. Fârinia, gâlinia, que coisa! E riu, debochada.

O trem havia parado com grande estrépito. Meninos e mulheres surgiram com cestas de frutas e tabuleiros de doces, apregoando aos berros a mercadoria.

– Puxa-puxa, gritava um. Papa de milho quentinha, berrava outro.

-Depressa, vamos, se não acabo esmagada por essa gentinha. Que Babel, que desorganização. E que fedor! essa gente não toma banho, não bota um perfuminho? Ai, meu Deus, prevejo uma péssima viagem, pior que a vinda. Ainda bem que volto pra casa.

– Vá pela sombra, respondeu Alberto, irritado, jogando as malas pela janela.

– Que falta de educação, rosnou Otília, antes de subir os degraus.

– Desculpe, disse ele a Zuca, perdi as estribeiras. Ando muito atormentado.

– Ela mereceu, afirmou Zuca, e dando um adeusinho para a irmã, tomou-lhe o braço. Vamos, ela já está acomodada.

Otto decidiu voltar pra casa. Tinha ficado alguns minutos parado na calçada, tenso, esperando passar alguém que lhe desse informações mais precisas sobre os espiões, mas pensou que seu interesse poderia despertar desconfiança. E ninguém ainda tinha voltado da cadeia. Trancou a porta e sentou-se junto à mesa, onde havia colocado o material de trabalho.

Uma outra preocupação voltou a ocupar-lhe os pensamentos: e se os espiões não falassem português e as autoridades precisassem recorrer a um intérprete que soubesse alemão, não se lembrariam de chamá-lo? Era possível. E se as autoridades não acreditassem na tradução que faria do que eles dissessem, pois certamente negariam ser espiões, inventariam uma história louca que teria de repassar às autoridades, que por certo não acreditariam e ainda pensariam que estava a protegê-los. Não, melhor ficar em casa, trancado, não atender à porta, todos pensariam que já teria saído para pintar.

Enquanto os espiões eram levados para cadeia de Campos, sem ele saber, Otto esticava-se numa marquesa na sala, de onde poderia ouvir caso alguém viesse procurá-lo e imerso em medos, depois de horas imóvel, dormiu. A última imagem nítida daquela madrugada era seus preparativos para fugir. Chegara à conclusão de que ficando ali acabaria sendo envolvido na conspiração dos espiões. Melhor dar o fora.

Quase uma semana depois, em seus momentos de lucidez, Otto revia tudo o que acontecera no dia infeliz que se seguira à descoberta dos espiões. E se misturando às lembranças, a figura de Adriene, com suas mãos macias a esfregar cremes em sua pele, a minorar a dor difusa que percorria todo o seu corpo, a refrescá-lo, a acalmá-lo. Havia momentos em que sentia muito frio, arrepios que o faziam se encolher na cama, e se abria os olhos dava com aquele teto nu, sem forro, com as traves aparecendo sob a palha de cobertura da casa e imaginava que estava em sua aldeia, fugindo ao vento gelado que descia dos Alpes. De outras vezes se via junto ao fogão de lenha, a mãe com o vestido até os pés, uma colher de pau na mão a mandá-lo ir brincar, a explicar que ali estava muito quente, que não era bom para a saúde.

Mas Otto sempre voltava mentalmente àquela manhã, à casa escurecida, janelas e portas fechadas, onde esperava que ninguém da polícia o procurasse. Sentira fome, mas preferira não acender o fogão para esquentar um pouco de leite, torrar um pão dormido, enganar o estômago. A fumaça seria vista e a vizinha do quintal ao lado, mexeriqueira, como a chamavam, correria à cadeia para dizer ao delegado que o alemão estava ali sim, se escondendo, e por boa coisa não seria.

Uma dorzinha de cabeça enjoada se irradiava para as costas e o induziu a deitar-se. A cama ainda estava desarrumada, costumava ajeitá-la quando voltava do trabalho, mas nem se preocupou. Sem tirar as botas deitara-se de barriga para cima, olhos no teto cheio de picumãs. Lugarzinho decadente, desgraçado, pensara. Ainda bem que só falta desenhar a foz do rio para encerrar minha missão. Pôs-se a lembrar de Adriene para ver se continha a ansiedade. Adriene bela, um sorriso maravilhoso, um rosto lindo, um corpo de enlouquecer qualquer um, uma obra de arte da natureza. Adriene rindo, pendurada em seu braço, caminhando pela margem do Sena, Adriene jogando milho para os pombos, Adriene bebendo vinho aos golinhos, a olhá-lo de lado, marota, sensual, Adriene dando piscadelas safadas, indicando que era hora de irem para casa se perderem um nos braços do outro, num amor louco, sem fim…

Maria da Dores ouviu o apito do trem quando chegava ao porto com sua trouxa de roupas para lavar. Um tanto distante, mas gostoso, como sempre. O trem representava sua esperança. Um dia estaria nele, feliz, acenando com o lencinho branco para a mãe, que ficaria chorando na estação, abraçada à irmã De Lurdes. E ela sorriria, pocando de felicidade, sabendo que rumava para a glória, para o sucesso, para a realização de seu sonho de ser cantora de rádio. Famosa no Brasil e no mundo inteiro.

Ela ainda ouviria sua voz cruzar os céus do Brasil, Jaçanã Silva, a voz de ouro de São João da Barra, anunciaria o locutor da Rádio Nacional. Silva não, nome banal, precisava de um outro, sonoro, forte, capaz de ficar grudado na memória dos ouvintes, Jaçanã Lima também não, nem Santos, nem Souza, nada desses nomes comuns, banais, pensara num nome estrangeiro, tirado de alguma estrela de cinema, mas Caçula, uma das poucas pessoas com quem compartilhava seus sonhos, lhe lembrara:

– Crioula com nome estrangeiro? Vai virar chacota, se eu fosse você…

E então, como seria seu nome artístico? Pensara em Jaçanã Sodré, soava bem, precisava consultar alguém que tivesse morado no Rio algum tempo, freqüentasse auditórios e estúdios de rádios, manjasse da coisa. Alguém que realmente pudesse ajudá-la. Por enquanto ficaria assim, Jaçanã Sodré, lhe soava bem.

Olhou as colegas na beira do rio, com água até às coxas, esfregando roupa e papagueando. Que nojo. Fraldas cagadas, cuecas mijadas, vestidos com manchas de gordura, toalhas emboloradas. Ui, não nasci para isso, pensou. Mas por ora…

Trocou a trouxa de braço e cantarolando um sucesso radiofônico, caminhou em direção a elas.

– Lá evém a rainha do rádio! gozou Dodoca.

Das Dores pôs a bacia no chão e a olhou com desdém.

– Pode rir, pode gozar, mas espere só. Ainda vou esfregar um disco meu na sua cara.

Capítulo 4 >>

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