Capítulo 29

Com o rosto encostado no vidro da janela do ônibus, Das Dores revia seu momento de glória. Desta vez, de verdade, com uma platéia real a aplaudi-la pra valer. Olhando a planície que o ônibus atravessava, com sua vegetação esturricada, o gado emagrecido, as aves que cruzavam o horizonte, via apenas as cadeiras cheias de gente com as mãos estalando palmas e depois, ah, a ansiedade do depois, o medo a lhe apertar o coração, a lembrança dos outros calouros também aplaudidos após as apresentações, quem seria o escolhido? O andar pausado e angustiante do sorridente locutor, papel na mão, a olhar ora para os candidatos expectantes, ora para a platéia em suspenso, a dizer gracinhas sem fim até encostar a boca no microfone e a proclamar que ela fora escolhida uma das finalistas do concurso.

Envolvida no turbilhão de abraços e palavras elogiosas, olhos arregalados e coração pulando no peito, sentiu-se como se estivesse numa nuvem e desejou ardentemente que sua mãe estivesse ali na platéia assistindo seu sucesso. Chorou de alegria, limpou o rosto com as costas da mão, borrando o ruge e o pó de arroz tão bem aplicados horas antes. Depois, puxada pela mão do locutor, se aproximou do microfone, mas nada conseguiu dizer ante a barulheira dos aplausos.

Passara uma noite maravilhosa na casa onde estava hospedada, todos a bajulá-la, sentiu-se uma estrela. Mas não se esquecia da recomendação do maestro:

– Saiu-se muito bem, você tem o dom natural de cantar, boa memória, ritmo, mas precisa ensaiar mais se quiser vencer na final. Temos ótimos candidatos entre os já selecionados.

Cantara Ave Maria no Morro, há pouco tempo lançada por Dalva de Oliveira, e todos ficaram estupefatos ao saber que aprendera a música ouvindo rádio de vizinhos, sem ensaios nem arranjos. Ela tinha uma memória privilegiada, dissera o maestro, capaz de gravar a letra, a música e o ritmo sem precisar ensaiar. Por isso ele lhe dissera que ela nascera com o dom de cantar.

– E de encantar, dissera alguém em seu ouvido, no meio do turbilhão, ao mesmo tempo que alisava sua bunda. Irritada, voltou-se para ver quem era e reclamar e viu uma parede de rostos masculinos sorridentes. Logo depois, ainda se aproveitando da confusão, alguém a puxara pela cintura e cheirara seu pescoço. E dessa vez era uma mulher, que lhe sorriu com doçura.

– Você tem futuro, querida, precisamos nos encontrar, almoçar juntas para traçar uns planos para você atingir o estrelato. Sabe como é, né, a luta vai ser dura, os candidatos são fortes. Para promovê-la posso arrumar uma reportagem no jornal, sabe aquele moço que estava tirando seu retrato? É meu amigo. Quer ir conversar com ele agora?

– Não posso, respondeu assustada, estão me esperando lá fora.

– Diga-me onde posso encontrá-la durante a semana. Preste atenção, Jaçanã, vou fazer de você uma estrela do rádio. Não perca essa oportunidade.

E alisara seu braço, os olhos brilhando de desejo, o mesmo brilho que via nos olhos de Tijolo. Nesse momento, só nesse momento, Tijolo viera à sua mente. Seria bom que também ele estivesse ali, para ver seu sucesso, para entender porque não se interessava por seus galanteios. Sorriu de volta, forçou passagem para safar-se do bolo de pessoas que a envolvia.

Antes, porém, de alcançá-los, um homem moreno e alto, os cabelos reluzindo de brilhantina, um sorriso sedutor estampado no rosto marcado por espinhas, segurou-a pelo braço e murmurou, com os olhos semi-cerrados;

– Deixe-me cumprimentá-la, Jaçanã, você foi formidável! Maravilhosa! Que voz! A final já está no papo. Vamos sair para comemorar, tomar umas cervejinhas…Tenho algumas propostas interessantes a lhe fazer.

Libertou-se com um safanão e já querendo chorar, agora de raiva, desceu as escadas e correu para a portaria onde o pessoal da casa onde estava hospedada a esperava.

No dia seguinte, logo cedo, aparecera um rapazinho para lhe avisar que deveria estar presente a todos os programas. Segundo o remetente, que ela não conhecia, precisava ouvir seus concorrentes para melhor se preparar. Mas quando cantei não havia lá nenhum calouro dos já classificados, pensou desconfiada. Sorriu para o rapaz, agradeceu e guardou o bilhete na bolsa.

– Diz a ele que tudo bem, respondeu. Sábado estarei lá.

Tinha de ser esperta. Se fosse coisa séria diria que a mãe adoecera, inventaria qualquer desculpa. Não ia cair em conversa mole.

Uma sombra toldava sua alegria. Vencera uma etapa, e as outras? Como ia fazer para se preparar para enfrentar seus concorrentes? Ficou triste.

As nuvens que passavam pelo céu não se importavam com seu acabrunhamento.                                               Passei por essa primeira prova, mas preciso me preparar para a final, preciso ensaiar. Será que o Regional que toca no Hotel Cassino me daria a oportunidade de ensaiar? Ah, meu Deus, me ajude! Eu posso até cantar pra eles de graça se me aceitarem. Mas como irei toda noite pra Atafona? Andando, claro, não é tão longe. Mas com quem? Sozinha minha mãe não vai deixar, muito menos com minha irmã assustada, que tem medo de tudo, de cobra, de assombração, dos encaretados. Como é que vou me arranjar? Eu não posso perder essa oportunidade.

Tijolo!

O grito venceu a barulheira do cais, ultrapassou as sacas, caixas, rolos de corda e de arame, pedaços de madeira, barris, homens conversando e cachorros sarnentos se coçando e o alcançou quando se aproximava do trapiche dos Araújo. Parou e o homem que o chamara veio rápido a seu encontro.

– Tô batendo cabeça atrás de você, homem.

– Sai fora, bacurau. Que cê quer?

– Tô sabendo que cê num tá fazendo nada e tamos precisando de um sujeito forte assim como ocê. Zé Cruz adoeceu e temos de ponhar outro no lugar. Topa? Vamos fazer uma viagem longa, de uns dois meses pra mais. Vamos até à Bahia e depois a Recife e a Belém levando carga. Tudo coisa de comer, farinha, café, açúcar.

– E os alemão? Vão botar ocês no fundo.

– Vão não. O navio é de madeira, não é muito grande, eles pensam que é de pescaria e deixam passar. Já naveguemo do norte ao sul e nada sucedeu. Vamo nessa?

Tijolo olhou o navio balançando no porto da imperatriz, olhou pro céu claro e pra cara do homem. Estava pensando em Das Dores, que via andando lá na esquina, rebolando com a bacia de roupa na cabeça.

– Pagam bem?

– Pagam sim, metade na Bahia e o resto na volta.

Era uma oportunidade de ganhar dinheiro e provar àquela negra safada, mas gostosa, que o desprezava, que era trabalhador sim, só não tinha oportunidade. Tornou a olhar o navio e achou-o seguro. Uma bela embarcação. Acho que vou nessa.

– Quando a gente embarca?

O homem sorriu, satisfeito:

– Quando cê chegar, só tamos esperando completar a tripulação.

– Tá feito, vou dar um pulo em casa pra buscar minhas coisas e já volto.

Escorado na parede do trapiche, Louro ouviu a conversa e se aproximou:

– E pra mim, perguntou ao homem, não tem um lugarzinho?

O homem o olhou de alto a baixo e fez cara de pouco caso:

– Que idade cê tem, garoto?

– Dezesseis, mas trabalho desde os dez.

– Tá bom, só que cê é muito magrelo, não vai dar conta do serviço. Faz o seguinte: vai pra casa, come bastante farinha, mas bastante mesmo, pra cobrir de carne esses ossos, espera uns dois anos e me apareça. Fui com a sua cara.

Tijolo disparou pela rua, levantando poeira. Passou por Das Dores como uma flecha e nem a olhou. Ela se surpreendeu: ué, que é que deu nesse intojado? Não me viu ou não quis me ver? Hum, tá pensando que vou me incomodar? Deve de estar furioso com o meu sucesso, sabe que agora mesmo é que ele não tem vez.

Tijolo a tinha visto e até pensado em parar para lhe dar a notícia de sua viagem, mas ao ver sua expressão de enfado desistiu. Vou arrumar dinheiro, minha nega, e na volta vou arrancar seu cabaço. Espere só pra ver. E foi com esse espírito que arrumou seus poucos trecos.

Uma pequena boiada seguia pela estrada, acompanhada por um homem envolto em poeira. Otto preferiu se esconder atrás do pé de espirradeira antes de atravessar para a estrada de ferro. Observou o homem quando ele passou frente ao portão. Não era conhecido, não tinha cara de muxuango, e olhou demais para a sua casa. O que que gente de fora fazia por aquelas bandas? Era raro ver gente na estrada além dos ônibus que passavam duas vezes por dia e dos raros carros de passeio que seguiam sem os motoristas precisar olhar pros lados. Poucos também eram os que tocavam bois e conhecia todos de vista. Aquele viera para observá-lo, tinha cara de espião.Estou sendo vigiado, pensou apreensivo, tenho que sair daqui o mais depressa possível. Apoiado na grossa gorumbumba, um porrete de madeira dura e pesada, mas flexível, que a seu pedido Corisco lhe arrumara para matar cobras e outros bichos peçonhentos, ou botar fora de combate um desses atrevidos espiões que o perseguiam, enfrentou o sol quente da estiagem que não passava, apesar das pancadas de chuva ocasionais. Seria preciso que chovesse muito mais para aplacar a sede da terra.  Com cautela, olhando em volta, atravessou a estrada.

No pasto ressequido da fazenda algumas reses tinham as costelas à mostra e já vira Verônica olhando o gado com preocupação. Tinha pena dela, uma bela mulher, solitária, cheia de problemas. Além da estiagem lutava com a doença progressiva e incurável da velha mãe que, como dizia Zerli, estava cada vez mais biruta.

Antes de levantar o couro com a ponta do porrete, Otto olhou em volta, primeiro o chão, o mato rasteiro, seu medo de cobras aumentara, e depois o entorno, as moitas, o rio e suas margens. Ninguém à vista, nem uma prancha, nem uma canoa singrava as águas barrentas. Muito ao longe um tiro ecoou e um bando de aves se espalhou pelo céu, como pingos de lama. Caçadores de marrecas.

Otto esticou a antena e manipulou o rádio. A estática de sempre. Esperou um pouco, impaciente e tentou de novo. Em meio à estática, uma voz falando em alemão. Seu coração exultou. Sentou-se no capim e preparou-se para responder quando uma interferência atrapalhou a comunicação. O medo substituiu a alegria. Alguém está entrando em nossa freqüência, pensou, assustado. Desligou o aparelho, cobriu-o com o couro, enfiou-o um pouco mais dentro da moita e se afastou depressa. O homem da boiada, pensou de imediato, ele deve estar aqui perto, me monitorando. Bateu com o porrete nas moitas, olhou inquisitivamente os arredores e voltou quase correndo para casa.

Estava cansado de aturar as maluquices da velha. Ontem ela estava toda borocochô, triste, resmungando, falando sem parar, contando histórias sem pé nem cabeça, de um povo que vivia longe, o povo dela, pelo jeito, de uns ingratos e esquecidos. Nessa manhã a encontrara alegre que nem passarinho, toda sorrisos, até cantarolando. Tá ficando doidinha, pensou, enquanto arrumava a toalha da mesa.

– Deixa que eu termino, disse ela, toda serelepe. Vai lá na padaria, compra pão e umas cem gramas de manteiga, passa na Conceição, vê o que tô devendo, paga tudo e encomenda marmita pra hoje. Resolvi que não vou mais cozinhar, chega, não estou mais aqui pra consertar peixe, matar galinha, fritar ovos. Deixa eu aproveitar um pouquinho esse meu fim de vida.

– Que isso, retrucou ele, a senhora ainda é forte, vai viver por muitos anos.

– Sei, respondeu irônica. Não importa, um ou dez anos nesse fim de mundo, nessa cidade decadente pouca diferença faz.Voltar ao que era antes é impossível, nem eu quero, quero mais é distância daquele povo fingido. Só quero que ele continue assim, a me mandar o que é meu. Parentes, diz o ditado, só os dentes, assim mesmo mordem a gente.

Então era isso, observou Louro, a velha recebera o dinheiro do mês. Como sempre, ele não vira a entrega, um mistério. Será que vinha pela Capitania dos Portos? Pegou a nota que ela lhe entregou, desta vez nem moeda era, e sim uma nota meio amarfanhada, mas uma nota. Será que vai me dar o troco? Aos pulos alcançou a rua. O sol estava radiante, as árvores mais verdes, os passarinhos cantavam mais forte nas gaiolas. Como tudo muda, filosofou, só por causa do dinheiro. Até eu tô achando a vida mais bonita. Mais dinheiro, mais alegria. Preciso dar um jeito de ganhar muito dinheiro.

Pelas grades do casarão onde morava seu Rubens Fidelis viu seu filho, um rapaz moreno, fortão, fazendo ginástica. Junto com um amigo levantava pesos e suava como um condenado. Sob os raios do sol seu muque chegava a luzir. É disso que eu preciso, pensou, fazer uns exercícios para ficar forte e conseguir emprego num navio. Aí, sim, vou ganhar um bom dinheiro e ainda vou conhecer o mundo. Magro desse jeito, não vou nem conseguir entrar pro exército e ir pra guerra matar alemão, como diz o Gau. Ele tem razão, preciso ficar forte. Parou junto à grade e ficou observando os dois rapazes se exercitando. Com um corpo desses, ninguém vai gozar da minha cara. Vendo que eram observados os rapazes redobraram os esforços, fazendo cara de quem levantava o mundo de cada vez. Fascinado, Louro deixou-se ficar ali, olhando de boca aberta, quase babando.

– Quer experimentar? perguntou o filho de Fidelis, sem parar. Quer ser halterofilista?

Eles se conheciam da rua, umas poucas vezes conversaram bobagens. Os atletas usavam umas roupas agicadas, que ressaltavam ainda mais os seus músculos e o peitoral. Louro se encabulou.

– Agora não, respondeu com timidez, tenho que ir na padaria.

Continuou olhando, impressionado, o grosso muque dos rapazes. Queria lhes pedir ajuda pra também ficar forte, mas a garganta parecia emperrada. O outro sorriu e ele se animou.

– Num outro dia cê me ensina a fazer ginástica? Ficou vermelho. Eu preciso encorpar pra poder arrumar serviço.

– Pode vir, todo dia a essa hora estamos aqui.

Tinha se transformado numa doce rotina para Alberto aguardar a saída de Arlete e acompanhá-la até sua casa. Por discrição ou conluio amigável, Eu ficava sempre no bar, cuidando da limpeza. O casal seguia junto, ombros roçando, falando tolices, coisas de namorados, pensava ela. De vez em quando ela falava na filha, na sua vontade de refazer a família para tê-la de volta. Alberto concordava, mas não se declarava. Ela rezava pra que a pedisse em casamento.

As mãos às vezes se tocavam e o coração dele se enchia de ternura e esperança. Numa noite escura o vento jogou o chapéu dele no chão e ambos correram para pegá-lo. Ela o apanhou. Antes de devolvê-lo, limpou cuidadosamente a poeira. Estavam chegando em casa.

– Afonso tinha chapéus lindos, comentou, tinha um de pele de castor que custou muito caro e ele adorava. Riu. Só usava quando ia a uma festa. Deu um suspiro. Tive de queimar todos, cê sabe, tudo o que foi usado por uma pessoa que morre fraca do pulmão tem que ser queimado. Fiquei com uma pena danada, ainda agora fico emocionada só de lembrar.

Ele aproveitou a oportunidade de pegar o chapéu para segurar suas mãos, com firmeza e carinho. Estavam diante de seu portão.

– Queimei tudo, lençóis, enxugadores, toalhas de mesa, tudo que ele tocou, continuou ela, a voz embargada. Foi recomendação da Dinha, aquela miserável. Depois mandei caiar a casa e fiquei praticamente sem dinheiro. Mas isso não tinha importância, se era pra ter minha filha de volta. Só que a Dinha inventou uma tal de quarentena, disse que eu tinha de ficar pelo menos seis meses longe de Gracinha, mesmo o médico tendo garantido que eu não estava doente. Dinha era minha amiga desde pequena, eu acreditava em tudo o que ela dizia. Falsa! Tudo pra me roubar a menina.

Seus olhos se encheram de lágrimas. Alberto aproximou-se mais e alisou seus cabelos, em silêncio. Arlete fungou, limpou as lágrimas com a mão e tentou sorrir.

– A casa ficou limpinha, quer entrar pra ver? Só um instantinho.

– Claro, com muito prazer. E seu coração se acelerou.

A lâmpada mortiça não era de grande valia, mas era o suficiente para eles.

– Não dá pra ver direito, né? Qualquer dia…

Ela se encostara no umbral de uma porta interna. Num impulso ele a segurou pelos ombros. Ela se jogou contra seu peito. O coração dele batia furiosamente, parecia até a primeira vez que se apaixonava. Ela rodeou seu corpo com os braços, ele a apertou contra si e com o pé empurrou a porta da sala.

– Eu quero me casar com você, sussurrou ele, assim que meu luto terminar.

Ele falara a fórmula mágica. Ela levantou o rosto e procurou sua boca. Sem sentir foram se encaminhando para o quarto dela. Vou ser feliz, pensava ela, vou ter de novo uma família e vou pegar minha filha de volta.

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