Capítulo 28

Otto juntou as aquarelas e colocou-as na pasta de papelão. Um sorriso feliz alargava seu rosto sardento. Naquela manhã, finalmente, conseguira entrar em contato com seus companheiros. Chegara a chorar de emoção, ele, um homem forte, treinado para resistir a tudo, a ameaças, pressões psicológicas e físicas, um homem de aço, um legítimo representante da raça ariana, nascida para dominar o mundo. Um homem assim não podia chorar. Mas ao ouvir, depois de tantas tentativas frustradas, uma voz o saudando em alemão, desabara. Um bolo invadira sua garganta e o impedira da falar. Precisou de alguns minutos, respirando fundo, temendo que a ligação fosse cortada ou que do outro percebessem sua fraqueza.

Um dos homens da tripulação do submarino o ouvira, comentara que todos estavam preocupados com seu desaparecimento e, depois que contou sucintamente o que lhe ocorrera e onde estava, disse que em breve viriam resgatá-lo. No momento estavam passando no litoral do Ceará a caminho do sul. Que ele ficasse atento, em alguns dias fariam o contato. E avisou que ia desligar para evitar que sua posição fosse descoberta.

Encerrada a transmissão, Otto passara da comoção à euforia. Dera pulos de alegria dentro do mato e lamentou Duque não estar ali para comemorarem juntos. Com quem falaria sobre o contato? Com a mestiça que o servia? Com aquele ser sub-humano, destinado a ser varrido da face da terra quando o III Reich dominasse o mundo?

Corisco notou sua mudança de humor quando lhe trouxe o almoço. Disse:

– Eu, hein! Parece que viu passarinho verde.

– Vi passarrinhos de todas as corres, respondeu com um sorriso aberto.

Passou a tarde arrumando suas roupas, seus pincéis, paletas, tintas e as aquarelas. Queria deixar tudo pronto para a partida. Não estava preocupado com o que a mestiça pensaria ou deixaria de pensar sobre sua ida. Durante alguns dias procuraria manter a calma, agir como se nada tivesse acontecido, não queria chamar a atenção e estragar tudo. Estava difícil conter a alegria.

Quando Zerli chegou ele estava deitado na cama, olhando o teto de palha como um sonâmbulo, o mesmo largo sorriso no rosto. Ela, porém, não parecia bem.

– Ando tão cansada.

Ele a observou e falou com displicência:

– Você engordou, minha carra, e se continuar comendo assim vai ficar parrecendo uma…baleia, não uma porrca.

– Puxa, Otto, não podia ser mais delicado?

– Oh, desculpa, eu estava pensando em outra coisa, riu ele, que há algum tempo vinha perdendo o interresse sexual por ela.

Diante do espelho da casinha Das Dores examinava atentamente o próprio rosto. Franziu a boca, fez beicinho, jogou beijo, sorriu, arregalou os olhos, piscou, ajeitou o cabelo, fez diversas poses, treinou olhares. Ficou satisfeita com o que viu. Preciso é de arrumar um pó de arroz e um perfume, concluiu. Havia experimentado o vestido e os sapatos e tudo estava como queria. Andou um pouco pela casa para se acostumar com os saltos, mais altos que os que normalmente usava quando ia a uma festa. A irmã a olhava com inveja.

Ela sonhava acordada. Estava no palco iluminado, não da Rádio, mas do Cassino Atlântico, no Rio, e a multidão de homens e mulheres bem vestidos a aplaudiam sem parar. Ela já bisara seu número e eles insistiam, insistiam. As palmas a ensurdeciam. Seu empresário, por trás da cortina, a mandava cantar de novo. Estava exausta e feliz. Tudo o que lera nas revistas estava lhe sucedendo: o camarim coberto de corbelhas de rosas rubras, os telegramas e telefonemas, as pessoas que vinham cumprimentá-la, os pedidos de autógrafos e lá no canto, sentado num pufe, vestindo um smoking, um belíssimo homem a esperava sorrindo, os olhos azuis cintilando de orgulho, os cabelos lisos penteados para trás, faiscando de brilhantina. Na mão trazia uma caixa de veludo preta, mais uma jóia caríssima para lhe presentear. Era esse o destino que sonhava e era esse o destino que lhe cabia na vida: ser uma estrela adorada pelas multidões e muito amada por um conde.

Quando finalmente abandonou a imagem do espelho e saiu da casinha encontrou a mãe a esperá-la de cara amarrada:

– Que história é essa de discutir na rua como uma nigrinha? Não tem compostura?

Sentiu-se gelar. O maldito do Tijolo cumprira sua promessa e contara tudo o que pensava à mãe. Como ia sair dessa?

– Quem lhe contou essa mentira?

– A Tonica. Ela viu você e aquele rapaz batendo boca em plena rua, como se fossem dois moleques. Cê não se envergonha? Foi isso que lhe ensinei?

Não fora então o Tijolo, melhor, podia contornar. Respondeu, humilde:

– Desculpe, mãe, mas o Tijolo me tira do sério. Eu já disse a ele, mil vezes, que não quero nada com ele, que sou uma moça direita, mas ele me cerca na rua, me faz propostas indecentes, só a senhora vendo. Ainda inventa coisa de mim pros outros, já nem sei mais o que fazer. Dessa vez ele me agarrou pelo braço, queria me beijar à força, mãe, vê se pode. Só parou porque ameacei gritar, chamar a policia, aí apareceu o pessoal da rua, pode perguntar a quem quiser, ele afrouxou o aperto da mão no meu braço, olha só a marca que ficou, e saí na disparada. Essa Tonica também, hein, tá me saindo uma futriqueira nojenta. Se topar com ela na rua vai ver só uma coisa.

– Vai ver coisa nenhuma, sossega o facho. Se continuar com esse disse-me-disse acabo não deixando você ir no tal programa de rádio.

– Pelo amor de Nossa Senhora, mãe, não me faça uma desgraça dessa que morro. Juro – e beijou os dedos cruzados – que não vou falar nada com ela. Juro!

A samambaia chorona, tão grande que Afonso a apelidara de manhosa, parecia sacudir festivamente suas longas folhas. Tudo estava mais bonito, mais alegre, mais feliz. O céu de um azul tão claro que parecia transparente, o vento roçando de leve seus cabelos e passando pela rua sem levantar poeira. O mundo se transfigurara para Arlete desde a manhã quando pudera ver sua filha de perto, quase tocá-la.

Eu conseguira o que parecia impossível. Com a cumplicidade do marido de Dinha foram introduzidos pelo portão dos fundos no quintal do casarão e se esconderam numa grande moita de bananeiras. Dinha costumava levar a menina para brincar ali, enquanto sentando seu corpanzil numa espreguiçadeira, à sombra de uma latada de maracujá silvestre, bordava ou tricotava. Normalmente convidava uma ou duas meninas da vizinhança para fazer companhia a Gracinha. No fim da tarde lhes servia um lanche, arroz doce ou badanha acompanhado de suco de caju ou laranja.

Chegaram depois do almoço, tão logo a empregada saiu com a bacia de louças e talheres para lavar na beira rio. Nessa hora, segundo o marido, Dinha punha a menina para dormir, fazer a sesta. Era muito bom para o crescimento, dizia ela, e a menina, obediente, tirava uma soneca de uma hora, aproximadamente. Quando acordava, tomava um copo de leite e a empregada saía para buscar as coleguinhas.

Para Arlete o tempo que passou ali, sentada num banco baixo, ao lado de Eu, pareceu uma eternidade. Sentia vontade de urinar, de tossir, de espirrar, as mãos ficaram geladas, suadas, as carnes do braço moles, uma sensação estranha lhe oprimindo o peito. Teria condições de resistir ao impulso de correr ao encontro da filha, tomá-la nos braços e levá-la pra casa? O marido e Eu recomendavam prudência, estavam trabalhando para lhe devolver a filha, mas tinham de contar com o temperamento explosivo e brutal de Dinha, ninguém sabia o que ela poderia fazer se desconfiasse ou se visse alguma coisa.

– Você vai ter sua filha de volta muito em breve, asseverava Eu. Ela o olhava apavorada, as mãos se retorcendo. Por agora fique quieta.

Quando Gracinha surgiu no alto da escada, vestida de cor de rosa, com laços de fita nos cabelos claros, Arlete sentiu um nó tão grande na garganta que quase sufocou. Sua filha estava cada vez mais linda, não havia em toda a cidade uma criança bonita como ela. Nascera linda assim, com traços de Afonso e cabelos como os seus. Uma pintura. Eu lhe segurava o braço com firmeza, adivinhando suas intenções. Arlete soltou um soluço tão alto, que Eu temeu que fosse ouvido. Dinha só apareceu, acompanhada do marido, quando a menina já estava ao pé da escada. Em seguida entraram duas garotas, uma magrinha como um caniço e outra mais gordinha, simpática, que correram ao encontro de Gracinha.

Por mais de uma hora, encolhida, lágrimas rolando pelo rosto, ficou apreciando a filha brincar com as amigas. Sentado ao lado de Dinha o marido conversava, mas de onde estavam não podiam ouvir o que diziam. Arlete estava grata a ele do fundo de seu coração. Só mesmo uma alma boa poderia se compadecer de seu sofrimento. Ela olhava aquele homem corpulento e se lembrava do rapaz alto e esguio, grande dançarino, que começara a freqüentar a cidade como caixeiro-viajante de diversas firmas de material para armarinhos e tecidos, e muito extrovertido fizera amizade com outros rapazes e passara a freqüentar bailes e festas. Não se podia dizer que era um homem bonito, era muito simpático e elegante em suas roupas bem cortadas.

Quando começou a arrastar a asa para Dinha, todos estranharam. Ela era bonita, mas meio abrutalhada, mandona, sempre metendo o nariz onde não era chamada. Arlete estava acostumada com esse gênio irritadiço e prepotente, além de vizinhas eram amigas há muito tempo. Dinha era solidária, atenciosa, sempre disposta a ajudar os outros, mas intrometida como ela só e disposta a impor suas decisões a quem ajudava. Ela e o rapaz não pareciam feitos um para o outro, muito pelo contrário. Ele era gentil, pacificador, e muitas moças das melhores famílias o olhavam com interesse. Se não era rico, era trabalhador e todos lhe auguravam um futuro promissor.

Apesar dos poucos pontos em comum, vitimados pela atração dos opostos, eles se casaram. Ela recebera de herança do pai o sobrado próximo da praça do padroeiro, com um quintal com jardim e árvores frutíferas, que ia até à outra rua, onde sempre morou. Como condição para o casamento ela exigiu que morassem ali. Ele viajava, mas estava constantemente em casa. Arlete lembrava-se bem que quando começara a namorar Afonso costumavam encontrar-se ali, namorando à sombra de um imenso pé de araçá-pero, o mesmo que sua filha rodeava com as amigas na brincadeira de pique. Quem tocasse no centenário tronco estava salva. Arlete riu, por entre as lágrimas. Eram todos felizes naquele tempo, sua mãe ainda vivia e Afonso estava apaixonado, tanto quanto ela.

Suspirou, emocionada com a lembrança. Afonso fora um belo presente que a vida lhe dera e tomara em menos de 10 anos. O casamento de Dinha começara a dar sinais de fracasso quando eles constataram que não poderiam ter filhos. As viagens do marido ficaram cada vez mais longas e dizia-se que ele formara outra família numa cidade próxima, onde cuidava de uma enfiada de filhos. Por conveniência, para evitar falatórios, o casamento prosseguiu, e continuava a se arrastar pelas ruas poeirentas, pelas tardes calmas, pelas noites mal dormidas, pelas madrugadas insones. Dinha exibia olheiras, engordara e tinha um ar cada vez mais carrancudo.

Imersa em suas recordações e na visão da filha a correr atrás das amigas, Arlete não sentiu o tempo passar. Voltou à realidade quando Eu lhe apertou o braço e apontou com o queixo Dinha e o marido se levantando e as meninas se despedindo. Inesperadamente Gracinha pegou uma bola colorida, que jazia esquecida junto à parede e jogou-a na direção das bananeiras. Arlete se inteiriçou. A menina gritou para Dinha, que estava quase a alcançar a escada.

– Vou pegar minha bola.

E viera saltitando na direção onde eles estavam, abaixou-se, pegou a bola, e por um momento – tão rápido, pensou Arlete depois – olhou para as bananeiras, abriu um lindo e caloroso sorriso e voltou correndo para onde Dinha a esperava.

– Ela me viu, Eu, e sorriu pra mim, murmurou Arlete com a mão no peito, excitada. A minha filha sabe que sou sua mãe! A minha filha me quer, Eu! Ela riu pra mim!

A custo Eu a manteve onde estava.

– Não estrague tudo, disse Eu, em voz baixa e incisiva. Cê acha que ela ia esquecer a mãe em tão pouco tempo?

– Pouco tempo? Pra mim é uma eternidade.

No alto da escada, antes de entrar, Gracinha ainda deu uma parada, olhou para as bananeiras e deu um discreto adeusinho. A essa altura Arlete soluçava com força e Eu teve quase de arrastá-la para saírem do quintal.

Por isso a samambaia sacudia alegremente suas folhas e passarinhos cantavam no quintal. Ela apertou um travesseiro contra o peito e cobriu-o de beijos. Depois pegou a flauta e tocou até sentir os lábios doloridos.

Capítulo 29 >>

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


%d blogueiros gostam disto: