Capítulo 27

Das Dores estava num pé e noutro.A muito custo convencera a mãe a deixá-la participar do programa de calouros da Rádio Cultura. Como o programa era de tarde, viajaria na manhã do sábado, levaria qualquer coisa para comer e finalmente enfrentaria o júri com sua voz maviosa. Tinha certeza que tiraria o primeiro lugar, impressionaria o dono do rádio de tal forma que ele a chamaria para assinar contrato.

O grande problema que a estava impedindo de participar era o horário das conduções. O ônibus saía de lá às três e meia e o trem um pouco depois. Nesse horário estaria participando do programa que só terminaria perto do começo da rádio-novela. E sua mãe não permitia que dormisse numa cidade estranha.

– Nem pensar, ela dissera, filha minha dorme em casa.

Desta vez conseguira que uma família amiga de sua mãe, que se mudara para lá quando o pai perdera o emprego no estaleiro, e estava na cidade em visita aos parentes, a convidasse para dormir em sua casa. Voltaria no domingo. A contragosto sua mãe concordara, não faria uma desfeita a gente tão amiga.

Ela precisava estar bem apresentável e não tinha roupas finas. Correra na casa de Elídia, filha de um vereador, que costumava freqüentar o Cassino, e quase implorara que lhe  emprestasse um vestido. Chegara com o coração aos pulos, disposta a lembrar à outra que muitas vezes a ajudara nos serviços de casa sem nada cobrar, apenas por amizade. Não fora preciso. A amiga fora generosa e além do vestido lhe emprestara bolsa e sapatos. Nem lhe pedira que tomasse cuidado. Quase estourara de felicidade. Ia se apresentar no programa no maior chiquê.

Não sabia como a notícia chegara aos ouvidos do idiota do Tijolo e agora estava ele ali, a seu lado, falando bobagens. Ela apertava contra o peito alvoroçado a caixa com os apetrechos para seu momento de glória. E ele buzinando em seu ouvido.

– Pára, Tijolo, nada do que disser vai me fazer desistir. É a minha oportunidade.

– Cê é mesmo uma trouxa, né? Como vai cantar na rádio se não ensaiou, se nunca cantou com um Regional?

– Já cantei sim, numa festa. E fui muito aplaudida. O que ocê quer é que eu não faça sucesso, que fique enterrada aqui pra sempre, pra me casar com você, aqui, coió. Jaçanã Sodré vai fazer sua estréia no mundo artístico e vai ser um sucesso.

– Meu Deus, como pode ser tão boba, assim? Cê tá iludida. Sabe como essas cantoras fazem sucesso? Dormindo com os locutores, com os donos da rádio, com os donos das lojas que fazem propaganda na rádio. E depois, quando ficam velhas, quando a voz fica ruim, vão parar na sarjeta, vão ser mulher da vida. É isso que você quer?

– Comigo não vai ser assim. Cê acha que cantoras como Carmem Miranda, Bidu Sayão e Linda Batista precisaram fazer isso que cê diz? Elas venceram no palco, conquistaram o público com sua voz, escolhendo bem seu repertório, apresentando-se nos programa das rádios. Carmem Miranda está agora no estrangeiro, riquíssima.

– Todas elas têm padrinho, tem protetor. Como caloura até que você serve, mas pra ser cantora de verdade vai ter de ir pra cama com alguém.

– Pois comigo não vai ser assim. E tome nota, ainda vou ser uma estrela, cê vai ouvir falar muito de mim, espere só.

Ele a segurou pelo braço e a fez parar. Olhou-a com ferocidade:

– Se vai ter que dar pra subir na vida, por que não começa dando pra mim?

– Me solta, seu indecente, senão eu vou gritar. Cê nasceu pra ser sapo, eu nasci pra ser estrela. Cê vai passar a vida olhando as estrelas e morrendo de inveja. Dá o fora.

Ele parou na sua frente, os olhos fuzilando de desejo e raiva:

– Cê num vai a lugar nenhum. Vou falar pra sua mãe, vou contar tudo, quero ver ela concordar.

– Vai, faz isso pra ver o que acontece. Eu conto pra ela que ocê me cantou no meio da rua.Vai. A vida é minha, eu faço o que quero. E quer saber? Se tiver que dar pra fazer sucesso eu dou, dou pra todo mundo, menos pra você, infeliz, candongueiro.

Sua voz alterada chamou a atenção e algumas janelas se abriram. Tijolo, que a segurava pelo braço, com força a ponto de deixar marcas, ficou constrangido e soltou-a.

– Isso não vai ficar assim, rosnou. Quando você viaja?

Ela apertou a caixa com as roupas contra o peito e gritou: não é da sua conta, e disparou a correr pela rua.

Alberto sentia-se pleno de felicidade ao ver a flautista aparecer na esquina da antiga Cadeia. Sozinha, o que era raro, e carregada de sacolas de pano. Ele foi a seu encontro.

– Isso deve estar pesado. Posso ajudá-la?

Ela o olhou surpresa. Conhecia-o de vista, era o chefe do escritório e ficara viúvo quase na mesma época em que ela ficara. Não chegava a ser bonito, era alto, simpático, fazia presença e passava uma imagem de confiança e força.

– Não precisa, disse ela, estou acostumada.

– Por favor, deixe-me ajudar. Quero retribuir o grande bem que me faz com sua música.

Ela arregalou os olhos:

– Já me ouviu tocar? Eu nunca vi o senhor lá no bar.

– Fico escutando do lado de fora. Não gosto muito de lugares cheios. Toda noite, quase religiosamente, estou lá, encostado numa palmeira, me deliciando com os sons de sua flauta. Acalma meu coração.

Ela ficou vermelha. Ele pegou as sacolas.

– O meu também. A música me ajuda a suportar os problemas que estou passando.

– A sua filha, né? Eu sei. É uma injustiça, já falou com o juiz?

– Juiz…murmurou com desprezo, nem o inventário do falecido terminou.

– Lamento muito, se eu puder ajudar em alguma coisa.

Ela suspirou. As pessoas que passavam os olhavam com curiosidade. Amanhã a Dinha vai saber, pensou, que bem me importa. E continuou caminhando ao lado dele.

– Obrigada, mas o Eu já tentou e não adiantou nada. Tenho mesmo que esperar.

– Desculpe a intromissão, mas…você e Eu estão namorando?

Ela riu, gostosamente:

– O Eu? Eu não quer saber de compromisso com ninguém e não estou aqui pra…não me entenda mal, não é que o Eu queira alguma coisa de mau comigo…sabe o que quero dizer, nada de errado, né? Ela se atrapalhava e não encontrava as palavras certas. O senhor sabe, sou uma mulher honesta e não é por que sou viúva que…

– Me perdoe, disse ele, não estou fazendo mau juízo da senhora, pelo amor de Deus, nem pense nisso, é que como a senhora é viúva e ele é solteiro…acho que a senhora tem todo o direito de reconstruir sua vida.

Estavam chegando perto da casa dela. Ela pegou as bolsas, dando um jeito para que suas mãos roçassem nas dele. É que uma pequena idéia havia brotado em sua mente. Ele era viúvo e ela também. Podiam reconstruir sua vida juntos. Talvez fosse a sua chance de casar e recuperar a filha, ele era um homem respeitado e bem de vida. Sorriu-lhe, coquete:

– Agradecida. Mais tarde vou tocar no bar. Por que não aparece por lá?

Ele sentiu o coração se expandir de esperança. Pelo seu olhar podia ver que ela não estava sendo apenas grata por tê-la ajudado. Alargou o sorriso.

– Lá dentro? Não, muita fumaça, muita confusão. Não me sinto bem. Vou ficar lá fora, encostado em minha palmeira, me deliciando com sua música. Mas posso esperá-la e levá-la em casa?

– Acho que pode. Só até à porta de casa, tá bem?

Louro passara em casa para pegar uma camisa limpa. Tudo no escuro. Os irmãos e a mãe se amontoavam junto ao fogão, um dos meninos dormindo encostado no ombro da mãe. As chamas davam um tom avermelhado às caras normalmente pálidas.

– Que escuro é esse, gente?

– O querosene acabou, explicou a mãe.

– E as velas?

– O último toquinho acabou faz pouco. E não temos dinheiro pra comprar outra. Também, a essa hora, nada tá aberto.

– Vou ver se consigo uma com a velha.

A voz da mãe parecia vir de muito longe, como se fizesse um grande esforço para falar. Devia estar morrendo de sono, tão cansada.

– Precisa não, já vamos dormir. Prefiro que arrume uns ovos com ela, um pouco de feijão, não temos nada pra gente comer amanhã. E uns pães dormidos pro café.

– Ovo de novo, mamãe? Já tô enjoado de ovo, disse o irmão Nico.

A irmã completou, com ironia:

– Um ovinho ensopado com mandi.

– E um pirãozinho de farinha com água, disse o menino, com raiva.

– E um ensopadinho de casca de melancia, completou o mais novo.

– Com pouco sal, que não temos cartão de racionamento, insistiu a irmã. Que droga de vida! Queria estar como a Lurdinha.

Louro ouvia tudo de cabeça baixa, envergonhado. Quando ia acabar aquele miserê? A mãe percebeu seu desconforto.

– E vocês devem dar graças a Deus por seu irmão ainda conseguir essas coisas pra nós. Se tivessem que esperar por mim…dona Silvina tá me devendo duas lavagens e não dá sinal de pagar, ô gente caloteira. Se seu irmão não tivesse ido no mato catar essa lenha, nem fogo na casa a gente tinha. Liga pra esses ingratos não, meu filho. Você jantou?

– A velha continua comendo de marmita e sobrou muito pouco, por isso não tive o que trazer. Ela também tá apertada. Hoje de manhã me mandou pegar um frango e levar no mercado pra vender. Parece que o povo dela se esqueceu dela. Ela hoje tava muito triste. Pegou uma revista que tinha comprado dia desses, me mostrou uma casa bonita e disse assim: sabe que já morei numa casa dessa? Vivia que nem uma rainha. Aí eu quis saber se a casa era aqui e ela disse que não, que era numa cidade malvada.

– É lá que vive seu povo? perguntei.

Ela deu um suspiro e acho que os olhos dela ficaram cheios dágua, porque esfregou o pano de prato na cara. Só disse assim: nas cidades malvadas vive gente malvada, sem coração. Mas vamos deixar isso pra lá que tristeza não paga dívida. Vai lá, meu filho, vende esse frango e paga as contas na Conceição pra gente poder comer até a grana chegar. ansada,”ot{0 idade pra burro de carga. Cê não arruma nem a cama onde dorme, onde já se viu? E ainda quer casar. Ainda bem que seu Alberto não pensa nisso. Pra ele foi Bebé e mais ninguém. Acho que ele vai morrer viúvo.

Zuca a olhou com ódio. Sabia que a empregada falava desse jeito pra irritá-la e não suportava isso. Atrevida! Alberto estava se esquecendo sim da falecida e já não era sem tempo. Ontem ele não pusera o fumo no paletó, sinal que estava aliviando o luto. Hoje também não, acho que não vai usar mais. E já ficava mais em casa, se distraía com as crianças, elogiava seus trabalhos de crochê, voltava a se interessar pelos problemas da casa. E ela se fazia cada vez mais doce, procurava se vestir melhor, lançava-lhe uns olhares sensuais que ele não podia deixar de notar. Quando estreara a blusa de seda bordô, com discretas ramagens coloridas e um decote redondo, ele a olhara com atenção e exclamara:

– Que blusa bonita, cunhada. Onde mandou fazer?

Ela dera o nome da costureira, a mesma que costurava para Bebé, e perguntara, vaidosa:

– Você gostou mesmo? Acho que já podemos aliviar um pouco mais o luto, né?

E lhe falou sobre Otília e Maurício indo a festas, passeando.

– Claro, disse ele, a vida continua. Tenho certeza de que Isabel concordaria comigo.

Virou-se para a empregada:

– Pois vou me casar com ele sim, sua boba. E mais cedo do que você pensa. Bem mais cedo.

Capítulo 28 >>

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