Capítulo 26

Assim que Zerli saiu de casa, Otto se preparou para sair também. Estava preocupado. Na tarde do dia anterior, um desconhecido ficara muito tempo parado na estrada de rodagem em frente à sua casa, aparentemente consertando seu automóvel. Pelas frestas da parede de barro socado viu que o homem olhava com muita insistência para sua porta. Seu instinto de espião o aconselhou a ficar quieto dentro de casa, só observando. O homem poderia estar apenas esperando alguém da casa aparecer para pedir socorro, mas também poderia estar conferindo sua presença na casa. Na dúvida preferiu ficar a observar seus movimentos. O homem olhava para a estrada, na direção do rio, para os matos, e ninguém apareceu. O que isso significaria? Daí a pouco o homem, que em nenhum momento desligara o motor do automóvel, subiu na cabine e seguiu em frente.

Aqui que ele esperava por socorro, concluiu Otto, estava mesmo me espionando. Eu conheço bem esse tipo e seus métodos. Não foi à toa que passei tanto tempo aprendendo a identificá-los. Vai espiar sua mãe, resmungou, vai ver se tá dando pro vizinho.

Esperou um pouco, tirou uma banana do cacho pendurado ao lado do fogão e a comeu, bem devagar, saboreando. Na Europa a banana era uma fruta cara, para ricos, que a serviam em salvas de prata. Quando os soldados das tropas invasoras descobrissem um bananal, tinha certeza, voariam sobre as frutas como gralhas. Sorriu e jogou a casca na mesa. Depois jogo lá fora. Fechou a porta com cuidado e antes de passar o arame no portão olhou demoradamente em todas as direções e atravessou a estrada. Duque corria na frente, sacudindo o rabo de contentamento.

Uma neblina rala esmaecia as silhuetas das árvores e impedia que se visse o fim da estrada, de ambos os lados. Gotas de orvalho pingavam das folhas brilhantes de umidade. Alguns urubus, pousados nos mourões da cerca que acompanhava os trilhos da via férrea, abriam as asas à espera do sol.

Abaixou-se para atravessar por entre os arames da cerca. No meio dos trilhos Duque parara para esperá-lo, o rabo balançando de impaciência. Otto sorriu, pegou um graveto e jogou-o longe. Duque correu atrás, feliz por se movimentar. Um socó levantou vôo quando ele passou perto da árvore onde pousara. Divisou uma ou outra garça cruzando majestosa e silenciosa a corrente do rio.

Ia mudar o rádio de lugar, para um esconderijo mais protegido. Havia uma touceira de tabúa, bem próxima ao que chamavam de poço, onde seria mais difícil ser achado. A presença do espião, mais a certeza que suas emissões haviam sido captadas, e por isso mandaram um homem localizar a fonte, o convenceram de que precisava mudar o esconderijo do rádio, o mais breve possível, e partir. O que o prendia ainda era a dificuldade que sentia em ser localizado na praia. Se os inimigos haviam detectado suas emissões, sem dúvida estariam promovendo uma varredura em toda a região e numa praia deserta, quase sem árvores ou moitas de mato, seria quase impossível se ocultar para tentar fazer contato. As tentativas poderiam durar horas ou dias. Assim como também poderia demorar a hora do resgate. Teria de esperar sob o sol, sem comer nem beber, suportando o ardor em sua pele sensível. Mesmo que levasse um farnel e um cantil, dependendo do tempo que teria de esperar, talvez não fosse suficiente. Teria de amarrar bem o chapéu de palha sob o queixo por causa do vento constante, o que não impediria que os reflexos do sol na areia atingissem sua pele. Perdera os seus óculos escuros na desastrada fuga da cidade, deviam estar atolados em algum trecho do brejo e seus olhos se ressentiriam da claridade potencializada pelos reflexos na praia. Tinha que pensar e planejar bem sua fuga e esperar na praia deserta, tendo em mente o que acontecera na fuga da cidade. Tinha que considerar também a possibilidade de, ao fugir, despertar suspeitas na dona Verônica, que podia acionar a polícia ou as forças armadas. Tinha de agir com todo o cuidado.

Atravessou os trilhos e caminhou devagar para o local do rádio. Duque, conhecedor de sua trajetória diária, parara junto à moita e latia, animado. Fez um psiu enérgico e o cão veio até seus pés. Seguiram juntos e depois de se certificar de que ninguém estava por perto, com a ponta da bota arrancou o couro que cobria o rádio. Duque, saliente, avançou e de repente, um risco no ar, o ganido assustado do animal e um rápido rastejar pelo capim, fez com que saltasse para trás. Uma cobra! Duque gania, retorcendo o pescoço, onde brotavam dois pontos de sangue. Otto, lívido, não sabia se socorria o animal ou se vigiava a cobra, que se metera no mato e podia voltar. O cão deu umas voltas sobre si mesmo, arregalou os olhos e caiu. Estertorando. Para um animal com seu porte médio a dose de veneno tinha sido fatal. Mais um pouco e morreu, o branco dos olhos virado para cima. Pobre Duque!

Otto tremia. Uma das coisas que mais o assustavam era o ataque de cobras e normalmente andava armado com uma rija gorumbumba para matá-las, mas naquela manhã, muito preocupado com o espião e o rádio, viera de mãos nuas. Olhou em volta, quebrou um galho de árvore e o desfolhou. Nada mais podia fazer pelo pobre do Duque, precisava, porém, ocultar o rádio. Bateu com o galho na moita e com todo o cuidado, com sua ponta, puxara o aparelho. Ali a serpente se abrigara para passar à noite, se assustara com a chegada do cachorro e dera o bote. Com a ponta do galho Otto examinou o aparelho e depois de se certificar que nenhum outro animal ali se escondera, pegou-o com cuidado e foi ocultá-lo entre as tabúas. Não sem antes espancar as plantas em volta para afastar qualquer outro animal perigoso.

Não posso deixar o bichinho aqui para ser devorado pelos urubus, pensou. Pobre cão. Sentiu tristeza ao olhar o rabinho que há pouco se sacudia de alegria e agora jazia sobre o capim. Vou em casa pegar uma enxada, decidiu.

Subiu a pequena rampa e do meio dos trilhos viu Corisco no seu portão a chamá-lo. Ainda bem, pensou aliviado, o moleque vai me ajudar. E gritou por ele. Ouvido jovem, afiado, o menino atravessou a estrada aos saltos num átimo e logo estava a seu lado. Contou-lhe o que havia acontecido, explicando que o animal farejava nas moitas do caminho quando foi atacado pela cobra.

– Ali onde o senhor esconde o rádio? perguntou o garoto.

Sentiu um frio na barriga,

– Que rádio, moleque? Não já lhe expliquei que aquilo é um limpador de pincéis?

– O senhor não limpa o pincel com um pano?

– Claro, primeiro lavo o pincel, enxugo bem com o pano e depois passo pelo limpador parra livrrar o pincel de impurrezas. Que menino burro.

– Sou burro não, respondeu, se amuando. Que parece um rádio, isso parece. Já vi um igual numa revista.

– E daí? Você não sabe distinguir um urrubu de um gavião. Lembrra? Naquele dia você jurrou que a ave que estava em cima do boi morto era um urrubu e depois vimos que era um gavião.

– É por que estava de longe, respondeu desconcertado.

– E agora você achou o limpador parrecido com o que viu na revista. E não é. E quem disse que o que viu na revista era um rádio? Você não sabe ler.

Corisco fechou a cara, cruzou os braços e ficou olhando o chão.

– Vamos lá, disse Otto, vamos enterrar o Duque e esqueço essa bobagem que você falou.

Corisco olhou-o enfezado.

– É só jogar ele no rio.

– Nada disso, ele morreu envenenado pela cobrra e pode envenenar os peixes. Deixe de ser prreguiçoso, moleque. Anda, corre lá em casa e pega uma enxada. Vamos enterrar ele bem fundo.

Mais uma vez a velha o mandara encomendar marmita para o almoço. Alegou que não estava sentindo-se bem, a cabeça zonza, as pernas fracas, o corpo todo dolorido.

– Vai ver a senhora está constipada, observou ele.

– Que nada, estou é velha mesmo, perto de morrer. E vou morrer aqui sozinha, longe de meu povo.

Sempre curioso, ele perguntou:

– E tá adonde o seu povo? E é quem, filho?

– Deixa pra lá, respondeu, abanando a mão com desalento. Se eu morrer, já sabe, tem uma carta na mesinha de cabeceira, cê pega ela, entrega ao comandante da Capitania dos Portos, ele vai saber o que fazer.

– Seu filho é embarcado?

– Não. Meu falecido marido foi por uns tempos. Mas só por diversão. Deixa de ser curioso, menino, e vai comprar o pão e encomendar a comida. Chispa!

Pelo caminho não pode deixar de pensar, preocupado, que se ela morresse perderia aqueles trocados, o café com pão, o almoço, a janta e os restos de comida que levava para casa. Ela anda mesmo esquisita, será que tá pressentindo a morte? Diz que tem gente que é assim, sabe quando vai morrer. Persignou-se, cruz credo, tomara que ela fique viva até eu entrar para o Exército e ir para a guerra.

Na volta encontrou-se com Gau.

– Olha, lá na feira foi melhor do que eu pensava, aqueles muxuangos são bem facinhos de passar pra trás, disse o amigo, todo sorrisos. Ganhei um dinheirinho bom, ói só. Meteu a mão no bolso e tirou um pequeno maço de notas amarrotadas.

Louro olhava o que considerava uma dinheirama com inveja. Gau se aproximou mais e lhe disse no ouvido:

– Se quiser ser meu sócio…eu lhe ensino uns truques. Nós dois juntos ninguém segura a gente, vamos ficar ricos num instantinho.

– Num dou pra isso não, Gau, sou atrapalhado, vou é estragar tudo. Suspirou. Se eu pudesse ganhar um dinheiro como esse. Ah, se eu pudesse… Pegava o trem e ia me alistar lá no Rio, lá eles não devem ter essa bobagem de idade, quanto mais soldado melhor. Ai… bobagem mesmo é ficar sonhando, tenho é que arrumar dinheiro. Abriu a mão, onde brilhavam algumas moedas. A velha vai me dar esse troco, mas vou comprar o quê com isso? Tem nada pra comer lá em casa, vou furtar uns ovos, furtar não, vou pedir mais uns ovos pra velha pras crianças comer com farinha. E com isso aqui vou comprar o quê? Um naco de carne seca?

Gau se aproximou mais, os olhos faiscando de malícia.

– Tem uma coisa que cê pode fazer, sem prejudicar ninguém e ainda gozando. Louro o encarou com interesse. Sabe o mercado? Toda noite, lá perto das palmeiras, fica um fresco que paga pra chupar a piroca dos meninos. Não é muito, mas é muito mais que isso aí. Apontou com o queixo as moedas na mão do outro com desprezo. Quando estou apertado de dinheiro vou lá.

– Sai fora.

– Bom, você é quem sabe. Não dói, não fica marca, lavou tá novo, ninguém vai ver porque o canto lá é escuro, e você ganha um dinheiro honestamente.

– Sai fora! Não sou dessas coisas.

– Tem jeito procê não, Louro, vai morrer na merda.

Quando Mané Relógio passou gritando: três horas, Zuca ajeitou o cabelo e foi para a cozinha.

– Sobrou coalhada? perguntou à empregada. Acordei com uma fome danada. E coalhada não engorda, ouvi no rádio.

– Tem um resto ali no pote. Mas pega você mesma que vou dar banho nas crianças.

– Você é bem abusadinha. Queria ver se fosse no tempo de mamãe se me dava essa resposta. E olha, quando eu me casar com o Alberto, as coisas vão mudar por aqui.

– É bom que mude mesmo, que ando muito cansada, não tenho mais idade pra burro de carga. Cê não arruma nem a cama onde dorme, onde já se viu? E ainda quer casar. Ainda bem que seu Alberto não pensa nisso. Pra ele foi Bebé e mais ninguém. Acho que ele vai morrer viúvo.

Zuca a olhou com ódio. Sabia que a empregada falava desse jeito pra irritá-la e não suportava isso. Atrevida! Alberto estava se esquecendo sim da falecida e já não era sem tempo. Ontem ele não pusera o fumo no paletó, sinal que estava aliviando o luto. Hoje também não, acho que não vai usar mais. E já ficava mais em casa, se distraía com as crianças, elogiava seus trabalhos de crochê, voltava a se interessar pelos problemas da casa. E ela se fazia cada vez mais doce, procurava se vestir melhor, lançava-lhe uns olhares sensuais que ele não podia deixar de notar. Quando estreara a blusa de seda bordô, com discretas ramagens coloridas e um decote redondo, ele a olhara com atenção e exclamara:

– Que blusa bonita, cunhada. Onde mandou fazer?

Ela dera o nome da costureira, a mesma que costurava para Bebé, e perguntara, vaidosa:

– Você gostou mesmo? Acho que já podemos aliviar um pouco mais o luto, né?

E lhe falou sobre Otília e Maurício indo a festas, passeando.

– Claro, disse ele, a vida continua. Tenho certeza de que Isabel concordaria comigo.

Virou-se para a empregada:

– Pois vou me casar com ele sim, sua boba. E mais cedo do que você pensa. Bem mais cedo.

Capítulo 27 >>

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