Capítulo 25

Espreguiçando-se, Louro chegou à porta da cozinha que dava para o quintal. Pretendia aliviar-se na casinha. Os irmãos estavam mijando, tentando um atingir o outro com o jato de urina. Riam e pulavam.

– Vamos parar com isso, gritou. Os meninos riram mais e terminaram de mijar mirando a cerca.

Louro entrou na casinha, arriou as calças e sentou-se na privada. Dormira em casa naquela noite, ficara conversando com Gau até tarde e preferira ficar por perto. Gau queria que ele participasse do furto de uma quitanda na praça São Pedro, com o auxílio involuntário, mas planejado, dos bêbados que por ali viviam. O plano poderia dar certo, mas além da quantia ser pouca, como ele imaginava, usar os bêbados tocava numa corda muito sensível na sua vida: o pai. Quantas vezes malandros não devem ter se utilizado do coitado do seu pai para aprontar alguma patranha, pensou. E recusou-se a participar.

Não quis tomar café em casa, os pedaços de pão dormido que trouxera da casa da velha e que a mãe esquentava na chapa do fogão de lenha, ficariam pra a família. Passou um pente no cabelo e sem se despedir foi para a rua.

A velha ainda dormia ou pelo menos se mantinha trancada no quarto quando chegou. Acendeu o fogo, botou água para ferver e lavou a louça que ela deixara na pia. Arrumou a mesa e passou a vassoura pela casa. A velha continuava no quarto. Preparou o coador e abriu a janela. Isso é serviço pra homem? se perguntou, aborrecido. Abriu a porta da cozinha e as galinhas já o esperavam, amontoadas, aguardando o milho. Encheu a mão e atirou os grãos sobre elas como se estivesse atirando pedras. Cacarejaram assustadas e o galo reclamou, com cacarejos fortes. Vá pro inferno, resmungou. Correu os ninhos e voltou para a cozinha com a mão pesada de ovos. Pelo menos pra isso as barulhentas serviam. A velha estava sentada na mesa, os cotovelos enrugando a toalha, a cara parecendo amassada.

– Dormi mal essa noite, gemeu. Quando fico sozinha morro de medo de ladrão.

Ele ficou quieto, depositando os ovos na fruteira de vidro colorido. Medo de ladrão, por que? Aqui não tem nada pra ser roubado. Só no final do mês. Jogou água fervente no coador. O cheiro forte de café invadiu suas narinas e fez o estômago roncar.

– Botou a quantidade certa de açúcar? perguntou ela. Ultimamente cê anda exagerando na mão, o café tem ficado muito doce. E o açúcar está difícil de ser encontrado, cê sabe. O açúcar, o feijão, a carne, tudo tá difícil. É essa maldita guerra, vai tudo pros soldados ficarem fortes pra matar os outros. Ai, que dor nos quartos, meu pai, ficar velha é uma maldição.

Levantou-se com dificuldade. Ele acabou de coar o café e levou o bule pra mesa. Isso é serviço pra homem? tornou a se perguntar. E ainda tenho de aturar essa velha rabugenta. Ela lhe deu umas moedas que tirou do bolso do vestido.

– Toma aqui. Vai buscar pão na padaria e não demore com essa história de fila. O troco é seu, se andar rápido. E passe na Conceição, hoje vou comer de marmita, estou com muita dor nos quartos e sem pacha pra cozinhar. Diz a ela que quero feijão, arroz, farinha não, que tenho em casa, e como não vai ter carne mesmo, um peixinho cai bem, mas nada de bagre, quero peixe de verdade. Diz assim pra ela, entendeu?

– Pode deixar. Eu queria saber se a senhora podia dar uns ovos desses pra mamãe, ela ainda não recebeu a lavagem de roupa e a comida está fraca.

– Leva, pode levar, aquela mulher é uma sofredora, uma santa. Pega uma meia dúzia, dá pra ela. Mas não demora, hein?

Sentiu os olhos se encherem dágua com a referência à mãe. Era esse tipo de coisa que ainda o fazia ajudar a velha, que dinheiro que era bom, só mixaria. Se não fosse o envolvimento dos bêbados teria topado o plano do Gau. Estavam muito precisados de dinheiro. Olhou as moedas que tinha na mão. Com o troco talvez pudesse comprar umas 200 gramas de feijão para reforçar o almoço.

Otto Trabant recuou para a sala ao sentir a ventania. Os galhos das árvores dançavam loucamente e a poeirada cobria as juntas de bois que puxavam a cambona que passava na estrada, rangendo. Duque cochilava, enroscado junto ao fogão. Dia para ficar em casa, decidiu. Sem nada pra fazer, o que é ruim. Vou ficar pensando na guerra, essa história de submarino alemão afundado não me convenceu, acho que é mais uma contra-informação que a imprensa passa pra enganar o povo. Nossa marinha é a melhor do mundo.

Ontem o safado do Corisco lhe trouxera páginas de um jornal de dias atrás contando que um quinta coluna fora preso na região. Apertado pela polícia – e Otto sabia como era doloroso esse aperto – entregara uma rede de espiões nazistas, dos quais um fora localizado, preso e remetido para o Rio. Por isso entendia bem a cautela de seus chefes impedindo-o de fazer contato com qualquer tipo de simpatizante. Debaixo de pancada eles abriam o bico com a maior facilidade. São uns frouxos, esses nativos. Não podia sequer contatá-los pelo rádio. E assim ficava obrigado a saber as notícias através dos jornais locais ou nacionais, todos cooptados pelos inimigos, principalmente pelos norte-americanos, veiculando notícias mentirosas para assustar a população e fazê-la acreditar que os países aliados estavam vencendo a guerra. E os bobos acreditavam! Ninguém poderia se opor ao rolo compressor das divisões alemãs, um a um os países iam caindo sob seus tacões e em breve, esperava que muito em breve, entrariam vitoriosos pelo rio Paraíba que ele mapeara com tanto carinho e eficiência e destruiriam a usina metalúrgica que estava sendo construída com o sujo dinheiro americano, preço que Getúlio Vargas exigira para o Brasil entrar na guerra. Os americanos despejavam dinheiro para vencer esta guerra. Aqui que venceriam, ó! O patriotismo alemão e o desejo de melhorar o mundo venceriam.

Os generais brasileiros estavam organizando os primeiros batalhões dos chamados pracinhas para ajudar a fazer frente à ofensiva nazista na Itália e não tinham nem idéia de como iriam se arrepender por esse apoio. Soldados fracos, inexperientes, mal alimentados, iam morrer como moscas. Hitler não perdoa os fracos e traidores. Esse país de mestiços, de gente indolente e mentirosa, iria sofrer uma transformação brutal nas mãos dos homens do Fuhrer. Limpo dos judeus, dos homossexuais, dos deficientes, dos negros e dos mestiços, abrigaria uma civilização moderna, avançada, digna de entrar no século XXI.

Otto jogara o jornal longe e via com raiva que ele rolava pelo pasto ressequido como um papel sujo e sem importância. E não era mais que isso, Tudo o que dizia era mentira. Ele ansiava por notícias reais do seu povo, ansiava saber dos progressos da guerra, da derrota dos inimigos, e na impossibilidade de conseguir um contato, tentara ouvir uma transmissão, uma que fosse, da Rádio de Berlim, que tinha uma antena poderosa assestada na direção do Brasil. Maldito seu aparelho de transmissão, que não conseguia um mero contato com uma rádio tão poderosa.

As revoluções da folha de jornal pelo pasto acabaram por alertá-lo do risco que corria. Quando Corisco lhe trouxera o jornal ficara observando cada um de seus movimentos e de suas expressões. Sabendo disso, manteve-se frio, distante e devolvera o jornal com ar de pouco caso. O vento o arrancara das mãos do moleque.

– E agora, seu Otto, será que nós vamos vencer a guerra?

– Não sei. Pode ser, pode não ser. Vamos aguarrdar os acontecimentos.

– E o senhor, vai continuar escondido aqui?

Otto sentiu a malícia da pergunta do moleque.

– Eu não estou escondido, que idéia! Estou fazendo meu trrabalho, pintando minhas aquarrelas para uma exposição, já disse.

– É, e o moleque sorriu escarninho, mas tem muita gente por aqui que acha que o senhor está escondido, fugindo de alguma coisa…

– Esse povo fala muita bobagem. Vim parrar aqui porque o sol me queimou a pele, passei muito mal, você viu, foi o cavalo que me trrouxe parra cá. Já estou quase bom e qualquer dia arrumo minha trrouxa e vou emborra. E depois mando para vocês um convite para minha exposição em Nova Iorque.

– Adonde?

– Ah, deixa pra lá, você é um roceiro, só conhece as fazendas daqui, nunca viu uma cidade, que dirá Nova Iorque.

Com a decretação do blecaute, nem mesmo as fracas lâmpadas dos postes podiam ficar acesas. As pessoas evitavam sair à noite, só em caso de necessidade, mais que bombas, temiam os cachorros e os vagabundos. Já se ouvira falar de moças sendo atacadas por tarados. O porto, ainda que em decadência, ainda atraía muita gente. Gente boa e gente ruim, ninguém podia adivinhar o caráter de quem desembarcava no cais. Havia ainda os tais encaretados, que não se sabia se era gente de verdade ou almas do outro mundo, que apareciam para as pessoas e as assustavam. Todos andavam munidos de lanterna acesa e quem não podia, ia mesmo com uma lamparina, protegida do vento pela mão em concha, que o vento era constante, e uma vara, bengala ou gorumbumba.

O botequim do Eu passou a funcionar só quando havia bastante movimento no porto ou nas noites muito claras. Alberto estava decepcionado e impaciente. Acostumara-se a ouvir a música delicada da flauta e a assistir à passagem da flautista quando a sessão de música terminava e isso acontecia cada vez mais raramente. Na semana anterior Eu só abrira na sexta-feira e no sábado. Uma ansiedade doentia crescia em seu peito. De dia a casa dela fechada, de noite o bar do Eu fechado, não dava para agüentar. No dia em que viu um navio se aproximar do porto, puxado pelo rebocador, seu coração deu saltos de alegria. Ia rever sua amada flautista.

Jantou depressa, mal ouvindo as bobagens que a cunhada dizia, pegou o chapéu e foi para a rua. Ainda era cedo, andou até à beira-rio, observou o movimento das pranchas, a azáfama no navio que era descarregado. Confusão, vozerio, encontrões, os bons tempos pareciam ter voltado. Nada o aborrecia mais que o cais vazio. Sentia-se bem ao olhar o movimento. Um rapazinho magro pescava piabas sentando na borda do cais. Acendeu um cigarro, deixou-se levar pelas volutas azuladas que contrastavam com a cor metálica das águas. Quis se lembrar de Isabel, rememorar alguns momentos em que apreciavam o por de sol no rio e o rosto dela não tinha mais a nitidez de antes, apenas a risada alegre e cristalina, como gelo chacoalhando num copo de cristal, lhe veio á memória. Estranhou não sentir a sensação angustiante de perda que sentira em ocasiões recentes. Isabel finalmente partira para o céu e ele sentia uma leve tristeza. Só isso.

Ao se voltar viu a flautista a caminho do trabalho, sempre tagarelando com seu patrão. Eu ouvia, sorria, fazia leves interrupções. Como ela falava, pensou, e como teremos o que conversar quando estivermos juntos. Não falaremos de nosso passado, nunca, dois viúvos não devem ficar cavoucando as sepulturas dos entes queridos, devem é pensar um futuro. Ele tinha certeza de que se dariam muito bem. Pressentia que ela até então não arrumara companheiro porque estava esperando por ele. Sorriu satisfeito.

O casal se aproximou. Mãos nos bolsos, um sorriso largo a lhe iluminar as feições corretas, Alberto cumprimentou Eu com a cabeça, na esperança de que ela se virasse para ver a quem ele estava cumprimentando, mas ela continuou a conversar, sem se dignar a voltar o rosto em sua direção. Com a luz do fim da tarde, viu que os cabelos dela eram sedosos e cor de mel. Deviam também ser cheirosos, que sabonete ela usaria? Na certa poria algum perfume antes de sair para o trabalho, qual seria? Alberto respirou fundo, tentando absorver um pouco do perfume dela, mas o vento ia em sentido contrário. Todos esses obstáculos, imaginou, são uma preparação para nosso encontro. É como se a vida espicaçasse bastante minha curiosidade para que eu chegue aos braços dela ardendo no fogo da paixão. Sentiu um arrepio gostoso lhe percorrer o corpo.

Sentada junto com a mãe no banco em frente de sua casa, Das Dores se surpreendeu com a aproximação de Tijolo. O que esse cretino vem fazer aqui? se perguntou. Ele sorria e ela admitia que tinha um sorriso simpático, um olhar carinhoso.

– Boa noite, saudou ele, e sua mãe levantou os olhos cansados do palhão em que trabalhava e o encarou com benevolência.

– Boa noite, respondeu, e Das Dores se inteiriçou no banco. Esse palerma está buscando uma aproximação, não estou gostando nada disso.

– Tá uma bonita noite, boa para passear, disse ele. A senhora não acha que está forçando por demais a vista?

– Fazer o quê, meu filho, tenho encomenda pra entregar ainda nesta semana.

– Trabalhei uns tempos com palhão, na casa da falecida Ermelinda, se quiser posso dar uma ajuda à senhora.

– Se preocupe não, meu filho, estou quase acabando e minhas filhas sempre me dão uma mãozinha.

– Quando precisar disponha desse seu criado.

Das Dores passara todo o tempo olhando para um graveto no chão. Estava ardendo de ódio do atrevimento do sujeito. Sua vontade era dar um passa fora no atrevido.

– Então vou andando. Boa noite, meninas.

Tirou o chapéu, reverente. Cretino, murmurou Das Dores entre dentes. A mãe voltou ao trabalho e ele se afastou devagar, sorrindo, se voltando de quando em quando para olhá-la.

Capítulo 26 >>

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