Capítulo 24

Vestida de negro da cabeça aos pés, mangas compridas fechadas nos punhos, saia nos tornozelos e mantilha cobrindo quase todo o rosto, Arlete entrou na matriz e sentou-se na ponta de um dos últimos bancos. Daqui poderei ver minha filha comungar. Respirou fundo. Vou precisar de muita tranqüilidade, meu Deus, me ajude, para não estragar a festa dela.

Pouca gente na igreja, o silêncio rompido por murmúrios e alguns arrastares, uma tosse seca aqui, um pigarro ali, gente que esperava chegar os comungantes. Arlete baixou o rosto e se pôs a rezar. Precisava de muita força divina. Um bolo teimava em invadir sua garganta, junto com a vontade muito grande de chorar. Prometera a si mesma que não ia chorar, não ia passar vergonha diante do povinho que agora falava abertamente de sua conduta, achando, como Dinha, que era uma mulher perdida, entregue às farras noturnas, quando apenas lutava para sobreviver. Não vou chorar, não vou dar o que falar a essas fuxiqueiras, que desde que entrei na igreja me olham com o rabo do olho e cochicham. Vão por inferno, resmungou, e em seguida, arrependida por ter falado assim numa igreja, olhou para a imagem do são João Batista, se persignou e pediu desculpas.

Voltou a rezar com a cabeça abaixada, sentindo os olhares de fogo das mulheres na sua mantilha. A seu lado o banco ficara vazio, ninguém ousara sentar-se ali. Agora, pensou, além de empesteada sou mal vista, mulher falada, devassa. Não sei como a Cotinha ainda fala comigo. Que cruz, meu Deus, que me deste para carregar!

Pouco antes do órgão do coro começar a soar, sentiu que alguém sentava-se a seu lado. Olhou timidamente por entre os desenhos da renda da mantilha. Era Eu, de terno e gravata, cabeça levantada, ar sério. Viera lhe dar apoio. Grande amigo! Por que não queria casar-se com ela? Resolveria tantos problemas dos dois, pois também se murmurava que Eu, só por se manter solteirão, era fruta. Casando-se com ela, taparia essas bocas amaldiçoadas, que vivem só para injuriar e inventar maldades sobre os outros. Ah, Eu, bote sua cabeça no lugar, case-se comigo, eu farei você feliz, ao lado de minha filha.

Por mais que se segurasse, não conseguiu evitar que seus olhos se enchessem dágua quando a fila de meninas e meninos entrou na igreja, todos vestidos de branco, segurando uma vela e um lírio branco numa das mãos e o missal na outra. Eu apertava-lhe o braço discretamente, valendo-se da cobertura da mantilha, que descia pelos seus ombros. Tão linda sua filha, parecia um anjo, só faltavam as asinhas. E tão novinha para assumir esse compromisso religioso! Na certa a cretina da Dinha apressara a primeira comunhão da menina para que caso Arlete conseguisse recuperar a posse da garota, guardasse essa recordação. E também para dizer ao juiz, se fosse o caso, que cuidava tão bem de Gracinha, que até se preocupava com sua educação religiosa. Cretina, miserável! Não estivesse numa igreja, e pensaria coisas muito piores da sua falsa amiga.

O grupo de crianças passou e ela viu a filha de relance, por entre as lágrimas. Chorou silenciosamente durante toda a cerimônia, Eu sempre agarrado a seu braço, como a lhe dar forças. Na volta do grupo teve a impressão de que Gracinha pousara por um momento o olhar em sua figura negra, mas como a reconheceria, coberta por aqueles panos fúnebres? Tentou levantar-se, mas a mão forte do amigo a reteve.

– Calma, sussurrou ele, há tempo para tudo.

Sentada em frente à penteadeira, às voltas com a esponja de pó de arroz, Zuca olhava a foto que acabara de receber pelo Correio e encostara no espelho. Do retângulo preto e branco a irmã a olhava sorridente, soberba, metida num vestido longo de festa – dava para ver o broche de orquídea de pedras preciosas em ouro branco espetado no decote generoso que usava nas festas – ao lado do atarracado Maurício, a careca ocupando dois terços da cabeça. De salto alto, que nunca dispensava, a irmã ficava quase um palmo mais alta que ele, motivo de muitas chacotas na família antes do casamento. Para Titila isso nunca fora levado em conta e sim a excelente situação financeira dele, seu talento para negócios altamente lucrativos, e sua necessidade de viver na cidade do Rio de Janeiro, onde os negócios se apresentavam.

Fora este último atrativo, talvez o principal, que a levara a aceitar o pedido de casamento do jovem advogado que viera defender uma causa no Fórum da cidade e a conhecera numa festinha em casa do capitão Barros. Fora um romance curto e sua mãe, viúva, ficara muito apreensiva:

– Você não sabe nada sobre ele, minha filha, não conhece sua família, é um estranho.

– Posso ver nos olhos dele o meu futuro, disse ela, radiosa. A família dele é um tanto modesta, mas bem relacionada, seu tio foi secretário de uma importante repartição no Rio, conhece Deus e o mundo, e ele está subindo rápido na carreira que escolheu. Vou pedir para ele mostrar à senhora o elogio que o juiz de uma comarca do Rio de Janeiro lhe fez. Se continuar nessa tocada, em pouco tempo vai ser um advogado famoso e pode até enveredar pelo caminho da política, quem sabe eleger-se deputado?

– Não sonhe tão alto, tinha alertado Zuca.

– Se seu pai ainda fosse vivo, lamentou-se a mãe, poderia escrever aos nossos parentes que moram no Rio, indagar sobre a família dele. Como seu pai dizia, pela árvore se conhece os frutos. O que o pai dele faz?

– Ah, não sei, não perguntei, nem quero saber. Só sei que Maurício é independente, herdou do avô materno uma casa no Flamengo, onde iremos morar. Mas se a senhora quiser, posso pedir que ele nos mande referências, apesar de achar isso altamente deselegante e até mesmo ultrajante.

Da foto, Titila a olhava com ar de vitória. Maurício crescera na profissão, montara uma banca de advocacia que não perdia uma causa, se relacionava com personalidades do mundo social e político do Rio de Janeiro, freqüentava festas e solenidades oficiais, só não quisera dedicar-se à política.

– Prefiro ganhar dinheiro honestamente, dizia ele.

Ele só voltara à cidade para o casamento, depois Titila vinha sempre sozinha, nos primeiros anos acompanhada pelo único filho, o Winston, nome estrangeiro, Otília sempre fora metida a besta. Mas tanto a mãe, quanto ela e Bebé, haviam passado temporadas na bem montada casa deles, no Rio, comparecido a festas nos salões mais chiques, passeado por todos os belos recantos da cidade, feito amizades e tido alguns flertes. Maurício tinha uma queda por Bebé, chegara a lhe apresentar pretendentes, belos e promissores moços, mas ela não quisera nenhum, uma tola romântica. Sem que ninguém soubesse já flertava com Alberto, na época um simples empregado da firma, que estudava como um louco para melhorar de vida.

Os pretendentes que Maurício lhe apresentara eram diferentes, uns senhores, tinha até um desembargador, viúvo duas vezes, o mais insistente. Ela não entendia porque o cunhado lhe reservava os piores. Não era linda como Bebé, mas tinha suas graças, era bem educada, prendada, não fazia feio em sociedade. Maurício tinha uma quedinha pela irmã mais nova, era evidente. Zuca também deixara um amor na cidade, um amor que sabia nunca daria certo. Mesmo assim não quis aceitar a corte do barrigudo desembargador, esperava por coisa melhor.

Antes de terminar o período de luto pela irmã, Titila já se pavoneava nas festas e bailes, acompanhando o marido, como mostrava a foto. Por que não podia fazer o mesmo? A vida continua. E certamente Alberto gostaria, ele precisava voltar a viver. Depois que ela passara a se vestir com roupas mais modernas e alegres ele estava mais gentil, mais sorridente, e pelo menos às segundas-feiras passava a noite em casa, dormia cedo. Aos poucos estava se esquecendo da finada. Era a sua oportunidade.

Amanhã vou encomendar outro vestido, decidiu, enquanto se empoava, mais animada. Acho que vou passar um pouco de ruge, só um pouquinho. Não posso é abusar, aqui se fala demais dos outros. No Rio é diferente, cada um vive sua vida sem prestar contas a ninguém, mas aqui…Deus me livre!

Podia jurar que Tijolo amanhecera na esquina só para perturbá-la, que coisa! Com a roupa sebosa de sempre, o ar de cachorro faminto que viu lingüiça, ele se acercou, sorridente.

– Salve, salve a minha cantora favorita.

Fingiu que não ouviu, levantou o queixo e seguiu em frente. Ele veio caminhando a seu lado.

– Já está ficando prosa antes de ficar famosa? Não mereço nem um olharzinho de desprezo, minha deusa?

Ela continuou a andar, calada, remoendo a raiva. Ele, num gesto de audácia, pousou a mão na sua cintura. Das Dores, cuja irritação crescia a cada palavra que ele dizia, perdeu a paciência e gritou:

– Seu atrevido, tira a mão daí! Tá pensando que sou da sua laia?

Assustado com a altura do grito, ele puxou a mão rapidamente e ficou parado, a olhá-la, de olhos arregalados. O que dera nela?

– Que isso, minha nega, estou só brincando.

Ela havia posto a bacia de roupas na calçada e o encarava, mãos na cintura:

– E quem disse que lhe dou essa confiança? Sou moça de família, pobre mas decente, e não é qualquer um que toma liberdades comigo. Vai passar a mão na sua mãe.

Alguns passantes haviam parado e apreciavam a cena. Nas janelas surgiram cabeças curiosas. Grupos de crianças se postaram em volta, aguardando o desenrolar da briga.

– Que isso, Das Dores, está me estranhando? Tijolo ficara mais vermelho.

– Tô sim, por que? Já não cansei de avisar que não quero cachorro no meu rastro?

– Ô Dasdorinha, eu só quero conversar.

– E eu não quero conversa com você, dá o fora, vamos!

Vendo-se alvo da atenção das pessoas que formavam uma roda de cochichos e risadinhas, Tijolo recuou e foi se afastando devagar. Das Dores o fuzilava com o olhar.

– Vê se dou essas liberdades…

Como nada mais devia acontecer, as cabecinhas curiosas abandonaram as janelas, os passantes continuaram seu caminho, só um ou outro moleque olhava zombeteiro a lavadeira ou assoviava pra ela, gaiato. Bufando de raiva, ela pegou a bacia e recolocou na cabeça. Quanto mais rezo, mais assombração aparece, murmurou.

Algumas noites Alberto passou a ficar em casa, em especial nas segundas-feiras. O bar do Eu não abria em alguns dias e o máximo que ele fazia era dar uma volta curta pela cidade, que passava invariavelmente pela casa onde a flautista morava. Nunca a via, a casa parecia deserta. Era uma mulher recatada, não vivia de janela nem batendo pernas pelas ruas. Essa constatação o encheu de felicidade.

Naquela noite agradeceu não ter que sair. O vento sul varria as ruas, espalhando poeira. Olhando a rua pela janela ficou a imaginar a flautista deitada em sua caminha, toda enrolada num cobertor e tocando a flautinha. Ele poderia estar a seu lado, os pés metidos entre os dela, o nariz enfiado em seus cabelos e as mãos alisando a pele clara. Suspirou. Zuca surgiu por trás dele.

– É tão bom ter você em casa, murmurou.

Ele não a olhou, mas franziu a testa, aborrecido. Lá vem ela, pensou.

– Está ventando muito, disse. As crianças já foram dormir?

– Já. A voz de Zuca se adocicava. Preparei um leitinho queimado para elas. Como gostam, chegam a lamber os beiços! Deixei um pouco para você. Tenho reparado que anda magro, precisa se alimentar melhor. Quer que eu faça uma gemada? A Xixa já foi dormir, mas terei o maior prazer em preparar eu mesma uma para você.

– Não, obrigado, Zuca, você é mesmo uma jóia. Vou tomar o leite queimado e vou dormir.

Zuca ficou ruborizada de prazer. O caminho do coração do homem passa pelo estômago, sempre ouvira dizer. E chegarei lá, se prometeu.

Capítulo 25 >>

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