Capítulo 23

Louro olhava a mãe arrumando os longos cabelos de Lurdinha e sentia a raiva crescer em seu peito. Mais uma que ia viver longe da família, enfrentar tão novinha Deus sabe o que, ser empregadinha dos outros, trabalhar feito escrava, aturar desaforo, sofrer maus tratos, quem sabe ser desencaminhada por algum filho da patroa. Louro não conseguia esconder seu desgosto, não é isso que quero para minhas irmãs. Reconhecia que era difícil para a mãe ver as filhas passando necessidades, vestindo roupas usadas, dadas pelos outros, calçando tamancos, sem estudar, os dentes se estragando.

Pronta para partir, sorridente, Lurdinha chegou-se a ele e lhe deu um beijo no rosto. Era a mais carinhosa delas. Ele correu para o quintal, não quis que o vissem chorar. Ficou olhando de longe o alegre farrancho da irmã, acompanhada pela mãe e pelos outros irmãos em alarido. Para eles é como se a irmã tivesse tirado a sorte grande, ganhou um par de sapatos, vai comer todo dia, ter roupas novas, estudar, mesmo que tenha de tomar conta de crianças o dia inteiro e aturar uma patroa chata e exigente. Ela tem só 14 anos, como vai encarar as desfeitas, os castigos? A mãe acredita que assim ela terá mais chances na vida, Deus queira que seja assim, pensou ele, engolindo um soluço, que ela consiga ser muito feliz. O buliçoso grupo foi se encontrar no ponto do ônibus com a Nerildes que, como sempre, fora quem encontrara uma família para receber a coitada da Lurdinha, que caminhava meio cambeta, a toda hora olhando para os pés apertados num par de sapatos.

Lembrou-se, com desgosto, o que Lurdinha havia dito quando a outra irmã partiu:

– Pelo menos ela vai ter sapatos, não vai usar esses tamancos barulhentos, horríveis! Ontem vi a Glorinha calçando umas sandalinhas tão bonitinhas, fiquei com inveja. A família dela também é pobre, por que ela usa sandálias e nós só podemos usar tamancos? A Terezinha ganhou sapato novo para viajar, foi a dona da casa pra onde ela vai que deu?

Tomara que tudo corra bem para Lurdinha, suspirou Louro, ela merece depois de passar tanta coisa na vida, e se atirou na cama, onde chorou até sentir esvaziar o buracão de dor de seu peito.

Mais tarde irá para o cais, varinha com o anzol na mão, tentar pescar o jantar. Menos gente em casa, os irmãos comerão um pouquinho mais e sonharão com o feliz destino de Lurdinha, de quem sentem inveja. E amanhã iria com um dos irmãos catar lenha no mato.

Tijolo ronda a casa de Das Dores. Desde que ela o tratara com aquele desprezo, se recusando até a ouvir música, o que era sua paixão, ele sentira crescer seu desejo por ela. Essa mulher tem de ser minha, rosnou interiormente. Ainda quero ver ela rastejando atrás de mim, implorando por um carinho, por atenção. Quem ela pensa que é?

Tijolo não entendia o que estava lhe acontecendo. Não sou feio, sou alegre, sei levar um lero, nunca me dei mal com as mulheres…por que essa fulaninha não quer nada comigo? E por que ela não sai de minha cabeça? Até pouco tempo atrás vivia assim de mulheres correndo atrás de mim. Pararam porque me embeicei por uma lavadeira de titica, metida a besta, que mexeu com meu coração. Passei a não dar atenção a mais ninguém, as mulheres fugiram. Isso não pode ficar assim.

– Por que não arruma um emprego, Tijolo? lhe perguntara um companheiro de copo, a quem abrira seu coração magoado. Quem sabe ela aceita sua proposta?

– Como? Cê pensa que tem emprego dando sopa por aí? Tem uns biscates, o que aparece eu faço, mas ela quer é que eu tenha emprego fixo, ela quer é casar, eu sinto isso, mas estou fora disso. Ainda não cheguei aos 40, tenho de aproveitar minha mocidade. Não é aos 40 que se começa a viver? Então? Quando chegar perto ajeito minha vida, me caso, quem sabe até com ela?

Noites seguidas Alberto tocaiara o casal na praça. Por coincidência, ou artimanha do destino, ela sempre passava por ele com a cara virada pro lado do Eu, conversando sem parar. Pelo jeito era faladeira, pois o sujeito só sacudia a cabeça.

Ver o rosto da flautista se tornara sua obsessão. Quando ela passava sob a luz fraca de um poste ele via o cabelo esvoaçante, com leves tons de dourado, e mais nada. Não era possível continuar assim. Numa dessas noites seguira o casal discretamente e vira o homem se despedir dela no portão da casa. Sem nenhum gesto suspeito. Ainda ficara algum tempo por ali e ninguém entrara ou se esgueirara pelo portão. Ela não tinha ninguém, o Eu era apenas um bom amigo, agora tinha certeza. Andara especulando, como quem não quer nada, e tudo indicava que ela respeitava sua viuvez. Uma mulher séria, embora tocasse flauta num botequim.

– Por necessidade, lhe dissera alguém. Por causa do inventário que não fica pronto ela não pode nem alugar o açougue, que pertence a ela e à filha. E como vai se manter?

– Porque é boba, disse um outro. Por acaso o juiz vai fiscalizar se ela está alugando o açougue?

– Ela tem medo é da Dinha, que é bem capaz de denunciar ao juiz só pra ver ela encrencada.

Se ela me aceitasse, pensava ele, eu poderia lhe dar um apoio financeiro, ela não precisaria mais tocar no bar, tocaria só pra mim. E certamente eu conseguiria resolver o caso da filha dela, dava um jeito de adiantar o inventário, tiraria a menina das garras da outra mulher. Nem precisaria morar com ela, continuaria em minha casa, Zuca cuidando das crianças, uma noite ou outra eu dormiria com a flautista, um arranjo perfeito. Aí, se tudo desse certo, pensaria em casamento. Mesmo porque um homem ou uma mulher não pode ser condenado a uma viuvez perpétua, temos de reconstruir nossas vidas.

Precisava de uma mulher e aquela era perfeita. Não suportava mais os sonhos eróticos, acordar com o pijama sujo, seus sonhos agora eram com uma mulher sem cara, de corpo vibrátil, andar clássico e sensual, mãos que prometiam muitas carícias. Até pouco tempo ainda sonhava com Isabel, mas desde que se interessara pela flautista, só ela despertava sua tesão. Estava cansado de acordar de pau duro, ansioso por mulher.

Mais uma vez lá estava Louro encostado na parede do trapiche, olhos fixos na intensa movimentação das pranchas. Além de tudo era tímido, não sabia pedir trabalho, ficava mudo diante dos prancheiros e saía de mãos vazias. Bem que tentara conseguir que Zé Bé lhe desse serviço, mas o outro alegou que um menino magrelo como ele não ia agüentar descarregar sacos de açúcar.

– Cada saco pesa 60 quilos, não vai dar, Zé dissera a Gau, ele não vai dar conta. E se  insistir é bem capaz do coitado se estuporar, não vale a pena. Vê se encontra uma coisa mais leve pra ele fazer.

Louro continuava a prestar pequenos serviços à velha e a pescar seus bagres e mandis na beira rio. E a sofrer porque a família passava necessidade e ele nada podia fazer. Se fosse esperto como ele, pensou Gau, ainda se podia fazer alguma coisa.

Gau olhou-o com pena. Na escuridão que o lampião da esquina mal desfazia, via-o sentado no cais, pacientemente segurando a iba. Ia a seu encontro, com uma notícia nada agradável. O corpo roído do velho pinguço que era seu pai fora encontrado boiando no Porto Escuro. Já devia estar lá há dias e um intenso cheiro de podridão infestava a região para onde fora arrastado por uns pescadores. Por isso precisava ser enterrado com urgência, não ia dar nem pra fazer velório. Era comum o encontro de defuntos meio comidos por peixes e Louro já vira diversos. Não ia estranhar. O problema seria levar a notícia à sua mãe. Seria mesmo um problema ou um alívio?

Dias e mais dias sem ter notícias da guerra, nem mesmo naqueles jornais comprados pelo governo brasileiro que trabalhavam com a contra-informação e mentiam descaradamente sobre alguns insucessos normais em qualquer guerra moderna. Não acreditava em tudo que lia, notícias inventadas para impressionar os nativos. No grotão onde estava vivendo não chegavam jornais e na fazenda não havia rádio. Vez por outra chegava um jornal, quando Verônica ia à cidade e se lembrava de trazer. Como se de propósito, Corisco trazia os jornais lidos e ficava a olhá-lo fixamente. Moleque safado. Ta me vigiando.

Sem notícias confiáveis, com seu rádio se recusando a fazer contato, e imobilizado pelo medo de estar sendo espionado pelos passarinheiros ou pelo moleque da fazenda, Otto mergulhara numa apatia que parecia não ter fim. Bem alimentado com comida gostosa e sexo, adiava a cada dia a decisão de partir. Doía-lhe ter que deixar aquele paraíso verde, quase silencioso. Era como se estivesse gozando férias. Mas seus superiores poderiam pensar que havia desertado. Ou que estava morto.

Debatia-se entre a dúvida se devia esperar por um contato da base, tentando uma transmissão sempre que tivesse oportunidade, ou se devia arriscar a ir para a praia e de lá fazer contato. Antes de sair da cidade, a única notícia que abalara sua confiança fora a de que os americanos haviam invadido a Sicília e se preparavam para ocupar toda a Itália. Preocupara-se um pouco, tentara confirmar a notícia através do rádio, não houve jeito. Acalmou-se aos poucos, raciocinando que além do exército alemão ser o melhor do mundo, a Itália era a terra de Mussolini, um aliado de primeira hora, com um exército poderoso e que todo o país reagiria caso os americanos chegassem às suas praias. Essa invasão era mais uma mentira pregada pelos americanos para enfraquecer a simpatia dos bugres pela causa do III Reich. Em breve essas mentiras seriam desmascaradas.

Espreguiçou-se. Por que se preocupar com isso? O clima da fazenda era tão gostoso, a comida deliciosa e variada, a cama macia e a mulher ardorosa, que preferia não pensar muito, ia ficando, ficando…sempre poderia alegar que o rádio estava com defeito, que a transmissão não se efetivava, o que era verdade. Havia sempre uma boa desculpa para dar. Cumprira bem 99% de sua missão e isso seria levado em consideração. Seria mesmo? O único problema era se, devido a seu sumiço fosse considerado morto ou desertor. Seus chefes não costumavam ter compaixão com desertores, precisaria ser bem convincente. E ter um bom advogado, caso fosse julgado. Um problema que seria resolvido na sua volta, não queria pensar nisso agora. Não podia fazer nada por enquanto. Depois, ficaria por ali só mais alguns dias, enquanto isso ia tentando um contato pelo rádio, tinha certeza que mais dia menos dia conseguiria.

O que não gostaria era de ser surpreendido pelas tropas alemãs já adentrando o rio Paraíba, trazendo a civilização para esse mundo bronco e mestiço, pelo caminho que ele traçara. Queria ter o prazer de estar entre os primeiros que invadissem esta terra, completando com suas informações orais o trabalho de reconhecimento que fizera com suas aquarelas. Imaginava a surpresa estampada na cara morena de Zerli ou na falsamente branca de sua patroa, que também devia ser mestiça, ao vê-lo surgir, uniformizado, imponente ao lado de seu comandante. Nem daria confiança às duas. Ria deliciado só de imaginar a estupefação delas.

Um homem a cavalo, transportando feixes grandes de capim, passava pela estrada e o cumprimentou. Respondeu com um aceno e um sorriso. Todos já o conheciam. Sua vida transcorria numa deliciosa tranqüilidade sob aquele céu muito azul. Ouviu um barulho, voltou-se e viu o moleque saltando a cerca num pulo só.

– Você ainda vai se machucar com essas brincadeirras, advertiu.

O moleque sorria, os brancos dentes se destacando no rosto escuro.

– O senhor já soube do que aconteceu? E antes que respondesse, acrescentou, triunfante: Um avião da gente afundou um submarino alemão aqui bem pertinho. Pou!

Otto sentiu um baque no coração. Pego de surpresa, empalideceu.

– Quem disse isso?

O moleque o observava, curioso.

– Dona Verônica. Ela chegou indagorinha da cidade cheia de notícias. O senhor ficou amarelo, não tá satisfeito? Os alemão não são seus inimigos?

– Clarro que fiquei, ora bolas, tomei um susto com seu pulo. E quando foi isso, ela disse?

Otto procurava se recompor. Como a notícia o fizera se inteiriçar no banco, distendeu as pernas devagar, tentando parecer relaxado. Aquele moleque era um perigo.

– Acho que foi ontem, o avião brasileiro descobriu o bandido no mar e pum! pum! pum! afundou o bicho! Bem feito!

Otto se levantou. A beleza da tarde parecia agora um escárnio, uma gozação da vida. Certamente que era o submarino que viera buscá-lo. Afundado. Será verdade mesmo? Devia estar sendo perseguido pelos aviões americanos há dias, por isso não respondia a seus chamados. Que droga! E agora, quanto tempo levaria para outro submarino aparecer por essas bandas? Estava bem longe do centro do teatro da guerra e embora o Brasil tivesse burramente declarado guerra aos países do Eixo, só os submarinos de reconhecimento cruzavam o oceano em suas costas, apesar das mentirosas informações dos jornais anunciando afundamentos de navios brasileiros pelos submarinos alemães. Por que fariam isso, abrindo uma nova frente de batalha? Esses afundamentos, se forem reais, deviam ser causados pelos aliados, de forma a obrigar o Brasil a declarar guerra ao Eixo, acreditava.O Brasil não oferecia grande perigo, mesmo se aliando à corrompida Inglaterra e a seus aliados. era um país pobre, de mestiços sem fibra. A guerra estava sendo vencida na Europa e África, com o auxílio da Itália e do Japão, e não acreditava nas manchetes encomendadas que insistiam em dizer que os exércitos do Eixo haviam passado da ofensiva à defensiva. Nada deteria a marcha da civilização. As forças de Hitler eram imbatíveis.

O moleque o olhava fixamente, com ar malicioso, como se estivesse analisando suas reações. Sorriu, meio contrafeito. Corisco não podia desconfiar de nada. Viva o Brrasil! gritou, sem emoção.O garoto gritou Viva! e voltou correndo para o campo.

Vou ser obrigado a ficar por aqui por mais um tempo, pensou Otto. Com esses afundamentos na região, na certa aumentarão as incursões de outros submarinos para avaliar a real capacidade de reação dos brasileiros e para mostrar sua força porão a pique outros navios. Conheço a tática. E num deles irei embora e só volto quando o país estiver submetido ao III Reich. Mas preciso tomar muito cuidado com esse moleque metido e com os passarinheiros e canoeiros.

Capítulo 24 >>

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