Capítulo 22

Por alguns dias Otto não foi à beira-rio mexer com o rádio. Ao invés de pintar os cachos de flores lilases se dedicou a desenhar os animais da fazenda a crayon. Um dos melhores desenhos, um cavalo correndo pelo pasto, crinas ao vento, tendo a casa grande ao fundo, entregou a Zerli para que presenteasse Verônica.

– Ah, ela vai gostar muito, exclamou a mulher, os olhos brilhando. Mas o que ela quer mesmo, e já me disse que vai comprar quando estiver na exposição, é desses ramos de flores de aguapés. Dia desses esteve aqui admirando as pinturas e gostou muito. Por que não dá um pra ela?

Ele sorriu, vaidoso.

– Todo mundo gosta de meus trrabalhos. E pagam um bom prreço por eles. Mas ela tem sido muito em me deixar ficar aqui. Vou fazer um especialmente pra ela, esses que estão aí vão para a exposição.

Bobagem minha, pensou, depois que Zerli saiu. Que exposição? Quando será isso? Estou agindo como fosse realmente um aquarelista austríaco. Mein gott, acho que estou ficando louco. Mesmo se esses quadros tivessem o mapa pintado nas costas do papel não posso garantir se serão expostos um dia, a não ser num museu da guerra.

Ficou levemente deprimido, mas comeu bem, sentiu o ímpeto da criação invadi-lo e no fim da tarde se animou e atravessou a estrada, acompanhado do cão. Da elevação onde corria a linha férrea olhou em volta, atento à presença do moleque. Sempre atento a qualquer barulho à sua volta, pois o moleque podia surgir de repente do meio das folhagens, foi ao local onde escondera o rádio e o examinou. Nada fora mexido. O cão disparou a correr pelo mato, latindo. Assustado cobriu tudo com o couro e os ramos dos arbustos. Seguiu o cão. Adiante, semi-oculto pela vegetação, um homem vigiava um alçapão armado e tentava silenciar o cachorro.

– Vem semprre aqui? perguntou Otto.

– De vez em quando, ele respondeu, meio chateado, aqui costuma aparecer uns papa-capins. Já vi o senhor desenhando, gostei. Muito bonito.

– Obrrigado, o senhor costuma vir quando?

– De tardezinha é a melhor hora, os passarinhos parecem ficar mais distraídos e com fome.

– Tá bom. E tem apanhado muitos?

– Poucos, com essa estiagem, eles vão pra longe. Hoje vim mais por desfastio. Não tinha o que fazer em casa.

Mais uma preocupação, pensou Otto, enquanto retornava ao ponto onde costumava pintar. Como nunca vi esse sujeitinho antes? Esses caçadores furtivos andam calados pra não assustar os pássaros. Será que alguma vez me viu usar o rádio? A situação está ficando complicada, ai, ai, ai, acho que é melhor mesmo eu ir embora. É isso que tenho que fazer. Com muita pena de abandonar este paraíso, mas tenho de pensar em minha segurança e de meu equipamento. Se eu for apanhado…Logo à noite vou conversar com a Zerli, vou preparar seu espírito para minha partida. É urgente fazer contato com meu pessoal. Estou em perigo. Eu sinto isso na pele.

Gau observa o amigo encostado na parede do trapiche fitando o rio com o olhar perdido. Um bando de biguás, que o povo ainda chama pelo nome indígena de imbiuás, flutua em círculo, quase todo o corpo dentro dágua, os olhos argutos voltados para o cardume que a colônia cerca. Aqueles não precisam trabalhar nem usar de expedientes arriscados para  viver bem, pensou Gau. Se estão com fome procuram um cardume, seja de que peixe for, cercam-no com seus corpos negros e só precisam mergulhar para fisgar o almoço. Já o pobre do Louro tem de servir aquela velha sebosa e exigente para obter comida para os irmãos. O pai dele continuava sumido e a mãe adoecera. Ainda ontem passara na casa dele e o ambiente de desolação era de partir o coração. Preocupações, tristeza e miséria. Mas como ajudar o amigo se ele era cheio de escrúpulos, não faço isso, não faço aquilo…tinha que ser como ele, sabido, esperto, olhos atentos às oportunidades, mãos leves e rápidas. Nunca faltava dinheiro em seu bolso.

– Oi, Louro, admirando os peixinhos?

– Tô é pensando em como fazer para ir pra bem longe daqui. A velha hoje estava muito nervosa, ficou brava por um nada, me esculhambou…não agüento mais isso, Gau. Sei que ela também não tem culpa, anda adoentada, mas não tenho sangue de barata, né? Vim pra cá pra ver se refresco a cabeça. Não basta o que passo lá em casa?

– Sua mãe melhorou?

– Pouca coisa. Ela tem é reumatismo de tanto viver com as pernas metidas na água do rio lavando roupa. Tem dia que melhora, tem dia que piora. Um inferno. E pra piorar, papai suverteu mesmo no mundo, ninguém sabe dar notícias dele. O Mingote contou que viu ele na Atafona, outros contam que ele andou por Iquipari, cada um diz um troço, o certo é que por aqui não apareceu. Fico preocupado com o infeliz com aquelas pernas inchadas, mal podendo andar…nessas horas que o rio me chama, parece dizer assim: pula aqui que eu te levo prum mundo melhor.

– Deixa de besteira, cê sabe lá se o outro mundo é melhor? E quem foi que disse que existe outro mundo? Tem é o inferno pra onde vamos nós tudo…Por isso que o negócio é aproveitar a vida, seu bocó. Cê não tem nada que se preocupar com seu pai, pitomba! Ele vive a vida dele, não se incomoda com ninguém, só quer saber de beber. Larga ele pra lá.

– Será que o Zé Bé não me arranja serviço na prancha?

– Não sei, posso falar com ele. Mas você é magriço, ele precisa de homem forte pra carregar aqueles sacos. Cê nem imagina como pesam. E sabe quantos sacos são? Chega a cem ou mais, Zé me disse. Saco de açúcar pesa. Açúcar só é bom no café. Eu pensei numa outra coisa para você arrumar dinheiro, mas nem vou falar, cê é tão cheio de coisas.

– Sou magro, mas sou forte, olha meu muque.

– Tá bom. Vou falar com o Zé, mas ele não vai querer. Muque…hum, nem carne tem.

Louro deu de ombros e Gau se afastou, batendo com força os tamancos no chão poeirento. Ô cara encrencado!

Depois que o bar fechou as portas Alberto se postou na praça, junto de uma das amendoeiras do cais e esperou. Eles haviam de passar por ali, e nessa noite estava decidido, tinha que ver o rosto da flautista, de qualquer jeito. Cansara de ficar imaginando como seria o rosto dela, se era bonito ou feio, parecia lindo, mas de perto poderia ser um bucho. Precisava ver, todo o seu ser pedia. Não sabia nada dela, nem se era moça ou velha. Só conhecia o som mavioso de sua flauta e seu bom senso dizia que isso deveria lhe bastar. Sua curiosidade se aguçava cada vez mais.

Restavam poucas pranchas ancoradas no cais da praça, o número de embarcados diminuíra e as funções do bar estavam terminando mais cedo. Por isso resolvera esperar. Não queria chegar muito tarde em casa e no dia seguinte ter de aturar a cara amarrada da cunhada, suas perguntas idiotas, suas preocupações sem cabimento. Não queria ser grosseiro, Zuca era dedicada a seus filhos, cuidava bem de sua casa, lhe era muito agradecido. Só não se sentia obrigado a dar contas de sua vida pra ela. Estava bastante grandinho para prestar obrigação de seus atos. Nem no tempo de sua mãe, nem no de sua mulher fazia isso. Zuca tinha um forte instinto maternal, só que ele não precisava mais de mãe. Precisava de uma mulher. Começava a se sentir sozinho, seu corpo reclamava outro corpo, sua alma ansiava por uma companheira com quem dividir sonhos e problemas. Como no tempo de Isabel. Não encontraria outra como ela, tão suave e firme, tão diligente e sedutora. Outra igual não acharia, Isabel era única, se contentaria com alguém que se aproximasse do que ela fora.

Na esquina da Cadeia Pública um casal despontou. Era ela e Eu, sem dúvida. Bobamente, como o de um adolescente, seu coração carente disparou. O casal vinha conversando animadamente, ambos carregados de embrulhos. Será que eram amantes? Conhecia Eu, sabia que ele não era casado, não ouvira qualquer notícia recente de seu casamento ou envolvimento com alguma mulher. Falavam até que ele era fruta, mas não se sabia de qualquer caso dele com homens. Ela, pelo que tinha apurado, era viúva de um açougueiro, o Afonso, a quem conhecera bem, bom rapaz, morrera muito novo. Nada impedia que os dois, ela e o dono do bar, se tornassem amantes. Será? Seu coração se entristeceu. Pelos gestos, pela proximidade, sentiu que havia intimidade entre eles. Observou bem. Não era a intimidade de quem está apaixonado, as mãos não se procuravam, nenhum beijo fora arriscado, nenhum outro gesto mais revelador foi percebido. Conversavam, apenas isso, enquanto caminhavam, um ao lado do outro, se olhando, rindo, papagueando. Alberto sentiu uma ponta de ciúme. Ciúme de que, meu Deus, se nem conheço a dona, nunca falei com ela!

Alberto pisou a guimba do cigarro, não queria que a brasa denunciasse sua presença. Na luz fraca da praça, na sombra da árvore, poderia não ser notado. A mulher passou a poucos metros de distância, com o rosto voltado para o lado oposto, para o homem, e isso aumentou-lhe a sensação de ciúme.

Passaram rápido, deviam estar ansiosos para ficar juntos, sozinhos, gozando as delícias da intimidade carnal, imaginou Alberto. Voltara a suspeitar que eram amantes. Da mulher vira apenas o cabelo, de um tom claro, mas não alourado, as curvas de um corpo bem feito, formas não exuberantes, mas suaves, um desenho clássico de beleza de mulher, um corpo que pedia o carinho de suas mãos, ele saberia fazê-la vibrar de prazer, nos seus braços ela esqueceria o falecido açougueiro, assim como ele começava a esquecer até o perfume de Isabel. Estou delirando, avaliou. Que falta faz uma mulher.

O que Arlete conversava com Eu nada tinha de agradável, os risos tinham um toque amargo. Ela superara, a muito custo e depois de muitas conversas, a visita que Dinha fizera à sua casa.

– Eu queria ter conversado com aquela infeliz, repetia. Fiquei muito chateada com a Cotinha por não me ter acordado. Eu ia lhe dizer poucas e boas.

– A Cotinha não tem culpa. Como podia acordar você se o portão estava fechado? Depois foi melhor assim, vocês duas iam discutir, bater boca, ia ser um escândalo, a rua inteira ia saber. Foi melhor assim.

– Aquela cretina! Se eu levo homem pra casa! É da conta dela, me diga? Sou viúva, sou uma mulher livre, posso namorar quem eu quiser, ninguém tem nada com isso. Se eu quiser me amigar, me amigo, gostar muito me caso, se não gostar não caso e ponto final. Já resolveu se casar comigo, Eu? Dinha ia ficar passada.

– Esquece isso, criatura. E por falar em namorar, tenho observado que o Toureiro anda de muitas conversas com a senhora.

– E daí? Ela sorriu. Conversar pode, não pode? Ele é agradável, simpático e tem uma bela estampa de homem.

– Tudo bem, só que é um canalha, já lhe disse. No bonitão de fala macia e palavras melosas se esconde um sujeito violento, de pavio curto, que adora dar trambiques. É isso que você quer, é?

– Tá com ciúmes, Eu? perguntou, maliciosa.

– Que ciúmes. Nunca senti ciúmes por ninguém, nem por minha mãe. Me preocupo com você, isso sim.

– Não se preocupe, Eu, o Toureiro só quer uma aventura e não é isso que eu quero, por isso não dou esperanças a ele, só atenção. Mas ele insiste, me trouxe balas, flores, um bilhete cheio de juras, de palavras boas de se ouvir, ele sabe agradar a gente, e é tão bonito! Suspirou. E eu preciso me casar, Eu, já lhe disse. Como você não quer fazer esse sacrifício por mim e se não aparecer um outro…

– Cuidado, Arlete, casar por casar não vale a pena. Como é que você pensa em construir um lar com um crápula desses, que além de tudo vive sendo perseguido pelos credores?

– Eu sei, eu sei, disse ela impaciente, eu não quero nada com ele não, bobo, é só pra me divertir, passar o tempo, dar umas risadas. Mas quem sabe se alguém, um homem decente, vendo que o malandro está tão interessado em mim…ah, nem sei mais o que estou dizendo, eu quero é me casar, casa comigo, Eu!

– Não vamos discutir isso de novo, Arlete, esquece esse assunto. Gosto de você, é minha amiga, mas casar, nunca. Já chega o que sofri em casa de mamãe, com minha liberdade tolhida, meus passos vigiados, chega. Depois, você cozinha muito mal. Riu. Tô brincando, hein? Vamos falar sério, cê vai à primeira comunhão da Gracinha?

– Ora se vou, não perderia por nada no mundo. Ora se vou! Mesmo se estivesse entrevada, ia me arrastando. Só sinto não ser eu a estar com ela nessa hora.

– Quem sabe em breve?

– É, mas a primeira comunhão dela já terá passado, isso me deixa muito triste. No dia do aniversário dela me desesperei, chorei tanto! Fiquei imaginando ela soprando as velinhas, a cachorra da Dinha batendo palmas, cantando parabéns, isso é uma crueldade da vida. Pensei no Afonso, se existe outro mundo ele deve estar muito triste, que nem eu, nossa família era tão unida, tão bonita! Nos aniversários dela ele chamava os vizinhos, os amigos, fazia uma festa! ah, Eu, que tristeza! Começou a soluçar. Como é que a vida fez isso comigo?

Capítulo 23 >>

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