Capítulo 21

A porta do bar do Eu estava quase fechada por corpos masculinos. Alberto chegou o mais perto possível e perdeu horas ouvindo o fio de música que a flautista espalhava pelo ar, tendo como contraponto o dedilhar do violão de Eu. Os passeios noturnos haviam ficado bem mais agradáveis depois que a flautista os animava.

Tinha muita vontade de ver o rosto dela, mas a muralha de homens o impedia. Claro que poderia forçar e entrar no bar como se fosse beber alguma coisa. Seria até capaz de tomar um trago, ele que era avesso a bebidas alcoólicas. Só para vê-la. Queria conhecer a dona que produzia a música que o encantava. Nas caminhadas de volta à casa ficava imaginando como seria o rosto dela, sua maneira de olhar e de falar, sua voz. Tudo baseado no som de sua flauta. Imaginava-a muito branca, cabelos alourados, olhos azuis, faces rosadas, roupas finas e esvoaçantes, uma boneca francesa de porcelana. Uma figura um tanto etérea, quase intocável. Era o que podia supor pelo tipo de músicas que ela tocava, nada desses sucessos popularescos tocados nas rádios, e sim músicas suaves, delicadas, que o transportavam a lugares paradisíacos. Observara, com certa melancolia, que ultimamente pensava menos em Isabel. É o tempo que passa, se justificava, mas no fundo de seu peito sabia que a saudade de sua mulher estava se diluindo na música da flautista.

Mas como seria o rosto da artista?

Nas outras noites ficara esperando a sessão de música terminar para vê-la sair, mas normalmente ela ficava até o bar fechar e os homens continuavam do lado de fora, a esperá-la, talvez com outros propósitos. Não dava para ficar ali, feito um pateta, esperando uma mulher que sequer iria olhá-lo. O melhor, decidiu, era aguardar que o porto se esvaziasse, menos embarcações menos homens na espera. Até lá continuaria sonhando e imaginando o rosto de uma criatura inefável.

Logo cedo a mãe lhe avisou:

– Seu pai sumiu de novo, ferrei no sono, ando tão cansada, não vi nada e ele se foi. Como, meu Deus, se mal pode andar? Dá uma corrida por aí, meu filho, vê se acha ele.

E lá se foi Louro, amuado, a fazer a ronda dos bares e vendas. Gau tem razão, pensou, tem jeito não, o pai vai morrer por aí que nem cachorro sem dono. Todos o tinham visto, o velho amanhecera na porta deles, tremendo, babando, pedindo bebida. Todos juraram que não lhe deram um gole, mas quem podia afirmar que era verdade? E também ninguém sabia dizer pra onde ele fora.

Cidade pequena, antes do meio dia Louro correra todos os pontos que ele costumava freqüentar. Nada. Onde o diabo do velho se metera? Andou rua por rua, becos, terrenos baldios, quem sabe havia caído em algum canto, fraco como estava? E o porto? Gau ajudava Zé Bé e garantiu que por ali ele não havia passado.

– Espera um pouquinho que vou ajudar você a encontrar aquele pinguço.

Passara na casa da velha para avisar que não ia almoçar e contar o que acontecera. A velha também não estava bem, há dias queixava-se de tonteiras, vertigens.

– Não demore, pediu ela, estou com medo de ficar sozinha.

Ao lado de Gau refizeram todo o percurso, procuraram em quintais abandonados, em casas em ruínas, nos botecos, na Santa Casa, na delegacia, nas igrejas, até no cemitério. No fim da tarde tiveram de reconhecer: o velho sumira.

– Bêbado é assim mesmo, consolou Gau, quando cê menos esperar ele dá as caras em casa. E tudo vai começar de novo. Se eu fosse você largava de mão. Tem mais jeito não.

Sentado num rústico banco de madeira na frente da casa, Otto brincava com o cachorro. Corisco apareceu de repente. Na mão o estilingue, que ele chamava de seta.

– Ó, seu Otto, os soldados vão voltar.

Otto se assustou e o olhou.

– Quem disse?

– Seu Joaquim da venda. Disse que os homens estão rondando por aqui, descobriram alguma coisa. Aquele negócio que o senhor escondeu lá na beira rio é um rádio?

O coração de Otto disparara. Como não pensara que o diabo do moleque ia acabar descobrindo seu transmissor? Ele fuçava tudo.

– Não, respondeu, tentando parecer seguro, aquilo é um limpador mecânico de telas e pincéis. Qualquer dia vou lhe mostrrar como funciona.

– Mas o senhor fala com ele, não fala? Eu ouvi.

Desgraçado, gemeu Otto, vai me denunciar. E eu não posso fazer nada. Otto ajeitou o chapéu de palha que caíra para suas costas.

– Não, não falo com ele, Corrisco, não sou maluco. É que quando estou irritado, quando as coisas não saem como eu querro, costumo falar sozinho para me aliviar, entendeu? Você me ouviu falar, mas ouviu o aparrelho responder?

– Não, senhor, só fazendo uma zoeira.

– Então? Me acontece cada uma. Quem dera que eu tivesse um rádio, pelo menos ia escutar música. O garoto o olhava, intrigado, desconfiado. Mas e essa histórria dos soldados, é verdade mesmo? Eles vão vir aborrecer dona Verrônica de novo?

– Não, acho que não, seu Joaquim só falou que os soldados continuam procurando um alemão por aqui. O senhor é alemão, não é?

– Não. E eu sou austrríaco. Sabe o que é ser austrríaco? É que nasci na Áustrria, um país que é vizinho da Alemanha, como seu Joaquim é vizinho daqui da fazenda, entendeu? Os alemães não gostam dos austrríacos, querem matar eles, por isso fugi parra cá. Eu tenho medo dos alemães, entendeu bem, nunca que ia ajudá-los.

– Ah, bom, disse o menino, parecendo decepcionado, se é assim…

E disparou pelo campo. Otto o seguiu com os olhos, apreensivo. Será que o filhote de macaco entendeu o que eu quis dizer? Esse moleque é muito esperto, inventou essa história que os soldados vão voltar só para observar minha reação, safado! preciso ter mais cuidado.

Dinha socou a porta mais uma vez. Cotinha apareceu na sua janela e ficou olhando a mulher emproada, muito bem arrumada, que não se dignara a voltar a cabeça para o seu lado, a bater frenética na porta. Por fim resolveu intervir.

– Arlete ainda está dormindo.

Dinha deu-lhe um olhar avaliador e pareceu não ter gostado do que viu.

– Até essa hora? São mais de três horas da tarde. Que malandra.

– Ela chegou muito tarde ontem.

Dinha sorriu, escarninha.

– Continua a tocar sua flauta no botequim? É uma desfrutável.

– Não, senhora, a pobre está trabalhando, ela ganha dinheiro para tocar a flauta.

– Existem outros empregos decentes para uma mulher decente ganhar a vida. Por que não se emprega numa casa de família, não lava roupa pra fora? Mas não, prefere tocar na noite, dar trela pros homens, conheço bem esse tipo de gente. Vai acabar na sarjeta, a safada. E ainda quer me tirar a menina. Uma ova que eu vou devolver.

– Ah, a senhora é a Dinha? Ela sente muito a falta da filha, disse Cotinha com voz apiedada.

– Sente nada, essa gente não tem sentimento, não nasceu para ser mãe, não se preocupa com os filhos. Se sentisse falta mesmo não passava as noites se divertindo, flertando com os homens. Não se deixe enganar por essa bisca, dona. Essa tipa sem vergonha tem trazido homens para casa? Aposto que tem.

– Que isso, dona Dinha, nem pense nisso, Arlete é uma mulher honesta.

– Sei. Nem o tal do Eu, o patrão dela? Cotinha negou com a cabeça. Vou fingir que acredito. Bom, eu vim avisar a ela que a menina faz a primeira comunhão daqui a quinze dias. Se ela quiser, pode ir na igreja assistir. Mas de longe, se por acaso ou descuido ela se aproximar da menina, faço o maior escândalo, chamo a polícia. Diga isso a ela. E diga também que se ela resolver ir assistir, deve antes tomar um bom banho para se livrar do fedor do pecado em que vive. E vestir uma roupa de mulher de família. Só vim aqui falar com ela porque meu marido insistiu, e como imaginei, perdi meu tempo. Não se pode dar confiança a essa gentinha. Passar bem.

Você reparou, Xixa, na cara do Alberto nesses últimos dias? Está parecendo mais tranqüilo, alegre, voltou a brincar com as crianças. Acho que está começando a esquecer a Bebé, graças a Deus, já não era sem tempo. Está até me tratando melhor, já não me olha com aquela carranca.

– Também, né, você parou de inquizilar ele.

– É resolvi seguir seus conselhos, dar tempo ao tempo. Enquanto isso, cantarolou, vou cuidar mais de mim, mandar fazer uns vestidos novos, mais alegres…sabe o que a Quininha me disse outro dia, na igreja? Que eu estou remoçando, que bom, disse ela, que não sucumbi com a morte de minha irmã, que a vida é assim mesmo, que não devo ficar presa a convenções ultrapassadas, que ainda sou moça e posso arrumar um bom casamento. Existem bons partidos dando sopa. E quis saber se eu tinha alguém em vista.

– Esse pessoal gosta de especular, Zuca. Muito cuidado, em boca fechada não entra mosca.

– Cê acha que sou boba? Ela quis saber se eu acho que o Alberto vai se casar de novo. Eu disse que não sei, Deus é quem sabe, essas coisas… Aí ela elogiou meu vestido, disse uma porção de coisas pra me agradar, mas eu sei bem onde ela quer chegar, sei com quem estou lidando. Ah, acho que só pra me provocar contou que tem umas moças aí muito interessadas no Alberto, perguntou sobre os passeios noturnos dele, se eu achava que tinha mulher no meio, enfim, um interrogatório. E eu bancando a bobinha.

– Esse povo é perigoso, Zuca, e você não é de ficar de boca fechada, que eu sei, nem pra falar nem pra comer. Não fica por aí dando ouvido a essas conversas de comadre.

– Eu, hein? Não estou aqui pra isso. Agora que o Alberto está se recuperando, vou é me cuidar, ainda ontem descobri um cabelo branco, olha só, bem aqui no meio. Velhice não é, devem ser as preocupações, o desgosto pela morte da Bebé. Ai, Xixa, essa mudança do humor do Alberto me deixa tão…tão…sei lá, alegre, esperançosa…

– Se eu fosse você tirava o cavalinho da chuva.

– Eu não, agora é que me animei de verdade. Ah, vou também mandar fazer um penhoar de seda e camisolas com palas de renda, sabe, né, e sorriu maliciosa, de vez em quando, quando me levanto no meio da noite para atender às crianças, esbarro com ele no corredor e quero estar bem apresentável. Homem não gosta de mulher relaxada, mamãe sempre me disse isso.

Capítulo 22 >>

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