Capítulo 20

Em época de estiagem o amanhecer era límpido e claro, principalmente após uma chuva forte e rápida, como a da noite anterior, que servira para lavar plantas e animais. Verônica bebericava o café pelando que acabara de coar, e pela janela da cozinha olhava o pasto amarelado e o canavial crestado, levemente ondulado pelo vento fraco.

Perto do curral, Zizinho lutava para fazer a junta de bois recuar a carroça carregada de olhaduras. Enquanto o tempo não melhorasse tinha de reforçar a alimentação dos animais com olhadura picada. Famintas, as vacas enfiavam as cabeçorras por entre os arames da cerca e mugiam desanimadas. Já ordenhadas, mal suportavam o assédio guloso dos bezerros pendurados em seus úberes, buscando o resto de leite que sobrara. Impacientes, algumas davam-lhes com os pés.

– Boi Capricho, lamparão, arreda! Fasta, boi Pintura! gritava Zizinho pra os bois do carro.

Zerli caminhava pelo aceiro, rente ao canavial, com um embrulho de pano branco na mão. Verônica acompanhou sua caminhada com os olhos. Zerli morava numa casinha construída num dente do canavial, feita pelo seu falecido pai para a mãe dela. Verônica desconfiara que eles tinham sido amantes e que a cabocla era sua meia-irmã. Por isso nunca exigira que ela a chamasse de dona, era Verônica só. O pai negara até o fim, dizia que construíra a casa porque achava melhor ter a empregada por perto, uma dedicada empregada, cobiçada pelos vizinhos. A mãe de Zerli sabia fazer de tudo, desde assar biscoitos e bolos a fazer farinha e pilar milho. Era um homem pra trabalhar. Não podia e não queria perdê-la.

– Jurar não juro, disse-lhe ele, que homem de palavra não precisa jurar, mas nunca tive nada com ela e Zerli é filha de um cortador de cana que apareceu por aqui numa safra e emprenhou a cabocla.

Com Zerli havia acontecido algo parecido, também com um cortador, só que era casado e ela não sabia. Quando a mulher dele descobriu armou um tremendo escândalo, lembrava-se bem, estava na fazenda na época, e o romance acabara. Como não engravidara, a única conseqüência fora ficar mal falada na região e ser assediada pelos homens. Indignada, ela recolhera-se em casa, deixara de freqüentar festas e bailes. Nem assim se livrara da perseguição e era comum ver homens rondando sua casa, até que o estrangeiro aparecera.

Dera sorte, essa Zerli, o estrangeiro era bom pra ela, atencioso, dava-lhe dinheiro para algumas despesas, comprara uma cama nova e não ficava circulando pela vizinhança em busca de outras fêmeas. Só saía para pintar e assim mesmo ficava à distância de um grito, sentado na beira do rio, pintando flores e paisagens com sua aquarela. É, Zerli, no final das contas, dera mais sorte que ela. Haviam crescido juntas, apesar da pequena diferença de idade, e se tratavam como iguais. Iguais mas com destinos diferentes, suspirou, melancólica.

Gau aproximou-se de Louro, que distraído lançava o anzol no rio, entre as embarcações ancoradas. Graças aos restos de comida lançados pelos barqueiros, os peixes pululavam por ali. Pegara um bagre de bom tamanho, uns mandis miúdos e alguns duiás. Dava para reforçar o almoço da família, cada vez menor. Louro quase soltou a vara com o grito de Gau no seu ouvido: “Cabrunco”.

– Tá maluco? perguntou, irritado. Perdi um peixe, tava pinicando forte, devia ser grande.

– Uns peixinhos de merda, comentou o outro, sentando-se a seu lado. Se você fosse mais esperto e menos cagão a gente podia fazer uma dupla de peso. Combinava uns truques e ia ganhar muito dinheiro. E fica aí a fisgar esses bagrinhos, isso não dá sustança a ninguém, tá na hora de fazer alguma coisa pela vida, já que o imprestável do seu pai…

– Não fale dele, por favor, ele é assim, mas é meu pai.

– Prefiro um pai como o meu, debaixo de sete palmos de terra. Pra que pai se nem pra sustentar a família serve? Cadê ele, hein?

– Tá lá, jogado na cama, não consegue nem andar direito. Só quer beber, beber, beber, vive pedindo a mamãe pra comprar bebida, perdeu a vergonha. Eu preciso mesmo tomar tento na vida, arrumar um emprego.

– Pára de pensar em emprego, por aqui só tem empreguinho à toa, cê sabe disso, os bons tempos com empregos de sobra que os velhos contam se acabaram e não voltam mais. O que temos agora é muito trabalho e pouco dinheiro. Mas a gente, se for sabido, pode conseguir dinheiro sem muito esforço e sem se arriscar. Quer ver? é só me acompanhar. Sábado vou de novo pra feira de Gargaú, tenho certeza de que vou me dar bem.

– Cê tá é procurando chifre em cabeça de cavalo.

– Tô não, sou muito esperto. Já aprendi uma porção de truques no jogo, vou limpar aqueles muxuangos. E tô precisando de um parceiro. Vamos comigo.

– Vou não, preciso ficar por perto de mamãe, a gente nunca sabe o que o pai vai aprontar.

– Tem jeito pra ele não, amigo, já vi muita gente assim, acaba morrendo na rua, larga seu pai de mão. Tá perdendo seu tempo.

Das Dores estacou, a bacia cheia de roupas oscilando perigosamente na cabeça. Ouvira um som de música, um som esquisito que nunca tinha ouvido antes. De onde está vindo esse som, gente? Não podia ouvir o som de rádio, estivesse onde estivesse, que parava para ouvir. Seria música de Regional? Não podia ser de rádio, pouca gente tinha um bom aparelho, e aquele som estranho, fanhoso? Vai ver a estática era tão forte…Quando ouvia rádio parava para escutar, não perdia a oportunidade. O trabalho que estivesse fazendo podia esperar. Girou a cabeça de um lado para outro, gente de onde está vindo essa música esquisita?

Ficou parada, assuntando, o coração batendo com força. Será que dei pra imaginar coisas? No meio daquelas casas velhas, muitas vazias, alguém escutava rádio? Devia ser imaginação sua, naquela hora a energia elétrica estava fraca, mal dava para sintonizar, o som vinha cheio de estática, pouco se distinguia da voz de quem cantava. Tô ficando maluca, preciso parar de pensar nisso ou então tomar coragem e ir embora de uma vez para onde tenha uma rádio, participar de um programa de calouro, tenho certeza que tirarei o primeiro lugar, e começarei uma carreira de sucesso.

Do nada, como se fosse um fantasma, Tijolo surgiu a seu lado, a cara estanhada num sorriso. Estava tão distraída que nem o vira se aproximar.

– Tá gostando da música? perguntou, sestroso. Toquei especialmente pra você ouvir.

Ela o olhou com desprezo.

– Você? Tocando? Pelo que sei só toca pedra em passarinho.

– Eu sim, por que?

– Não vi rádio nenhum naquele chiqueiro onde você se esconde.

Tijolo a olhou com ar de ironia e superioridade
– Não é rádio, sua boba, é esse instrumento aqui. E lhe mostrou um pente envolto em papel de seda. Quer ouvir mais?

– Passa fora, bacurau. Só podia mesmo ser você.

Ele pôs o pente coberto sobre os lábios e voltou a tocar.

– Cruzes, exclamou ela, e a tonta aqui imaginando que era de um rádio. Tô ficando lelé.

– É, mas sei onde tem um rádio novinho em folha. Ela deu um muxoxo. É verdade, na casa de um amigo meu, na Atafona. Se quiser levo você lá. E a gente fica escutando, só nós dois, juntinhos, que tal?

– Em Atafona, é? No meio daquele areal deserto? Uma ova que eu vou. Tá pensando o que de mim? Que eu sou uma dessas com quem você se mete? Sou pobre, mas sou de respeito, moça de família.

– Mal agradecida. Faço tudo pra lhe agradar, ofereço a oportunidade de ouvir um rádio como não tem por aqui, meu amigo é rico, é veranista, e você me faz desfeita.

– Ai, Tijolo, vai se catar, vai.

Das Dores o acompanhou com os olhos enquanto ele se afastava, amuado. Rádio em Atafona, sei. Tá pensando que sou alguma dessas…Não sou besta de cair nessa. Rádio em Atafona, por que não aqui? Eu, hein! Firmou a bacia na cabeça e se encaminhou para o cais. Ao longe a música voltou a soar. Ele não desiste, esse bobalhão.

Ao acordar da madorna, barriga pesada, digestão difícil, como sempre comera mais do que devia, era uma esganada, Zuca ficou sentada na cama, uma sensação muito estranha a perturbá-la. Deve ter sido algum pesadelo, pensou, só que não consigo me lembrar direito.

As crianças gritavam no quintal. Como são barulhentas! Levantou-se, afrontada, deu um discreto arroto e foi ate à janela. Lá embaixo os filhos herdados da irmã brincavam tranqüilamente, a pateta da ama olhava o vento com sua cara de tacho, tudo estava calmo. Mas a sensação estranha persistia, uma angústia. Será que aconteceu alguma coisa com o Alberto? Ajeitou o cabelo, alisou a roupa e saiu do quarto.

– Xixa, alguma novidade por aí? Algum recado do Alberto?

A outra não se deu ao trabalho de responder, só a olhou com pouco caso.

– Xixa, estou falando com você, alguma novidade?

– A única novidade é que acabei de lavar os pratos e comecei a preparar a janta, vida de escrava.

– Estou falando de Alberto, Xixa. É que acordei com um mau pressentimento…

– Deixa de bobageiras, mulher. O homem está trabalhando, em paz. Isso já está virando obsessão, hein?

– Não sei – e ela passou a mão pelos fartos peitos – algo me diz que alguma coisa está pra acontecer, alguma coisa vai perturbar minha vida.

– Arruma alguma coisa pra fazer que isso passa.

– Você, hein, você é insensível, cruz credo, não dá nem pra conversar.

Arlete olhou agradecida para Eu. Acabara de devorar o prato de comida que ele trouxera de casa, mas não era isso que a deixava feliz.

– Que noite, Eu, que noite! Há muito tempo não me sentia tão feliz.

– Todo mundo gostou. E hoje vai ter mais. Só cuidado com uma coisa, Arlete, aqueles homens todos rodeando você, dizendo gracinhas, elogios safados, galanteios, fazendo propostas…sabe como são esses embarcadiços.

– Tá com ciúmes, Eu? perguntou ela, irônica.

– Ciúmes…Tô é alertando para que não caia numa esparrela;

– Ninguém me fez propostas, vê lá se dou essa confiança. Mas no fundo, bem no fundo do meu coração, estou com uma esperança, vou lhe ser franca, de que algum deles se apaixone por mim e queira casar comigo. Olhou para ele, ansiosa. Preciso me casar, Eu, preciso construir um lar para poder buscar minha filha. Enquanto tocava pensava nela o tempo todo, é só no que eu penso, dia e noite. Casa comigo, Eu.

Ele sorriu, contrafeito. Por um instante viu sua mãe na cozinha, preparando a comida. Ela soubera do interesse de uma moça por ele e achava que também ele estava interessado. Sem parar de mexer na panela, lhe disse:

– Muito cuidado com essas moças, meu filho, são todas umas interesseiras. Só querem casar e depois sair por aí, Deus sabe fazendo o quê, enfeitando as testas dos maridos. Você é um bom partido, um homem bom, sério, trabalhador, bem apessoado. Presta bem atenção no que vou lhe dizer, meu filho: mulher nenhuma merece você. – Ele abaixara a cabeça, encabulado – Você é um inocente e seu coração é enorme, acredita em tudo o que lhe dizem, cuidado. Mulher é bicho traiçoeiro. Não quero que você seja magoado por alguma dessas lambisgóias que vivem lançando olhares melosos para seu lado. Nenhuma delas presta. Se fingem de boazinhas, etc, mas no fundo são falsas, umas enganadoras. Só eu, meu filho, gosto de você de verdade. Mulher nenhuma merece você, não se esqueça.

Muitas vezes ele desejara que a mãe não fosse tão possessiva. O mal, concluía, foi ter sido filho único. O pai pegara fraqueza dos pulmões, como o Afonso, e o deixara muito pequeno. A mãe nunca mais se interessara por ninguém, dedicara-se totalmente a ele. Fora bom, mas às vezes sentia-se muito incomodado com tantas atenções, com tanta dedicação. Não podia dar um passo sem avisar pra onde e com quem ia e fazer o quê. Sua infância fora muito vigiada, nunca pudera tomar banho de rio, catar pitanga nos matos, soltar papagaios, jogar bola, fazer tudo o que a maioria dos meninos de sua idade fazia. Só podia brincar perto de casa, de modo que ela, a qualquer momento, pudesse vê-lo. Ir à escola era um tormento, ela o levava até à porta e nos primeiros dias ficara sentada na calçada, esperando sua saída. Os meninos gozavam de sua cara, acabava brigando com eles, e fora preciso muita diplomacia para que a mãe o deixasse ir e voltar sozinho. Em termos, pois de longe ela o observava.

Por isso, desde muito cedo abandonara qualquer idéia de casamento. As mulheres o assustavam. Se traziam alguma pintura no rosto, então, nossa senhora! eram a própria imagem do mal, do pecado. Costumava ir com a mãe às festas religiosas, acompanhava a procissão ao lado dela, rezando e, com o tempo e o aprendizado com os coleguinhas, a deixava sentada num banco da praça, conversando com uma amiga, e usava a ida ao pipoqueiro ou a qualquer barraca de comida para ficar um pouco livre. Dizia que lhe ia comprar doce ou pipoca – e ela era esganada para gulodices – e dava um giro pela praça enfeitada, olhava as moças de longe, trocava uma ou outra palavra com os colegas. Nada mais que isso. E a primeira coisa que ouvia ao chegar onde a deixara, era:

– Poxa vida, meu filho, como demorou! Foi aonde? Pensei que tinha abandonado sua velha mãe. Não faça mais isso que me deixa muito nervosa.

Ele pedia desculpas e sentava-se a seu lado pelo resto da noite.

Conhecera mulher por acaso, numa noite de muito calor, quando espiava a rua pela janela. Altino, filho de um vizinho, que regulava a sua idade, aproximou-se e baixinho lhe perguntou:

– Vamos lá no beco?

– Fazer o quê?

– O que se faz lá? Comer uma mulherzinha, vamos.

Sentiu o corpo estremecer. Uma sensação semiconhecida, a mesma que sentia ao ver as pernas das lavadeiras mal cobertas pelas saias sungadas, pela visão de seios fartos, aconchegados num decote um pouco mais ousado, que o visitavam quando se masturbava, o acometeu. Chegou a sentir uma tontura. Perguntou sem medo de ser ridicularizado:

– E como é que a gente faz? Nunca fui lá…

O colega não desconhecia sua inexperiência e foi sem sorrir com ironia que lhe explicou todo o processo.

– Eu não tenho dinheiro, objetou Eu.

– Nenhum? Sua mãe não lhe dá dinheiro?

– Bem, eu nunca precisei de dinheiro pra nada. Estava constrangido e excitado. Sabia onde encontraria dinheiro, talvez se tirasse um pouco da bolsa de sua mãe ela nem notasse. Perguntou, sentindo um bolo da garganta:

– E quanto é?

Foi a primeira vez que Eu cometeu um ato desonesto, mas achou que valera a pena. Uma mulher nua em seus braços era tudo que seu corpo jovem pedia. E por sorte, além de bonita e fogosa, a mulher, que se chamava Laurinda, lembrava-se bem, fora compreensiva, carinhosa.

Eu passou a freqüentar o bordel pelo menos uma vez por semana. Saltava a janela de casa já munido do dinheiro que surrupiara da bolsa da mãe e passava horas felizes com Laurinda. Se a mãe percebeu o roubo e suas escapadas, nunca demonstrou. Talvez soubesse ou adivinhasse e acreditasse que aquele era um mal menor, era uma mulher para algumas horas, não para tirá-lo dela.

E a certeza de que não devia se casar foi reforçada pela vida longa da mãe, que morrera dois anos atrás. Ela sempre lhe contava casos de casamentos infelizes, traições, vinganças, maus tratos, mortes trágicas, tudo o que de ruim uma convivência a dois podia trazer. Por isso, mais uma vez, respondeu a Arlete:

– Não posso, Arlete, e não quero. Estarei sempre a seu lado, mas como amigo.

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