Capítulo 2

Missa bastante concorrida, pensou Zuca, se confortando, acho que não faltou nenhum de nossos amigos. Desceu os poucos degraus da calçada da igreja apoiando-se nos braços do cunhado e da irmã. Uma brisa fresca bolia com as flores da praça.

– Até que enfim alguém resolveu melhorar isso aqui, resmungou Otília, olhando em volta.

– Foi o novo prefeito. Estamos com esperanças, ele já mandou botar abaixo um bocado de casas velhas, explicou Alberto. O problema é que bebe demais quando está de folga e no ano passado provocou um acidente terrível na estrada, com vítimas.

Otília passeava o olhar reprovador pela vizinhança. Caminhavam devagar, Alberto as acompanharia até a casa e depois voltaria para o trabalho.

– Cruzes, exclamou a mulher, se contradizendo, parece que nada muda por aqui! Ou melhor, muda sim, e para pior. Que coisa, enquanto outras cidades progridem, isso aqui…

– Você acabou de falar que as coisas tinham melhorado, lembrou Zuca.

– Ilusão minha. Acho que foi porque saí da penumbra da igreja para a claridade e fiquei ofuscada. Nada está melhor por aqui.

– As atividades do porto estão quase a zero, disse Alberto, e as novas fábricas são pequenas. Dos estaleiros só resta um, os empregos minguam, como melhorar? Ninguém tem dinheiro nem disposição para investir. Acham que a situação só tende a piorar.

– Saí daqui há mais de 10 anos, vi o Rio crescer, volto aqui e o que encontro? As casas caindo aos pedaços e um monte de desocupados pelas ruas, bebendo, jogando bilhar, conversando fiado, terrível! Bem diz Maurício que os homens daqui não têm fibra, não reagem, não criam novos negócios…Da última vez que estive aqui, no casamento de vocês, não estava tão ruim assim.

– Como se fosse fácil progredir, suspirou Alberto, com praticamente o fim da navegação e essa guerra mundial que não acaba. Falta dinheiro às pessoas, minha cara, para montar até um negócio decente. Quem tinha profissão e disposição foi embora para outras cidades, buscar novas oportunidades, os que ficaram são os acomodados, os que acham que vai cair do céu uma solução para os problemas locais.

– Você se inclui entre esses, meu caro cunhado? Entre os acomodados? Afinal, ficou por aqui, concluiu, irônica.

– Ô, Titila, que indelicadeza, interveio Zuca.

– Não se incomode, Zuca, conheço sua irmã de outros carnavais. Eu tenho aqui um emprego com um salário razoável, Otília, toda a minha família mora aqui, numa boa casa, não vejo porque partir. Ainda mais com essa estúpida guerra em curso.

– Desculpe se fui grosseira, quis apenas saber porque você se situou entre os que chama de acomodados. Realmente a cidade está péssima, qualquer ventinho levanta um poeirame, nem uma rua calçada, só loja de vender tamancos e esteiras e funilarias, credo!…só volto aqui por obrigação. Quanto aos que estão ficando, mesmo sem emprego, sem perspectivas de melhora, o Maurício tem uma teoria: são os naufragantes, os que estão afundando com o porto, sem coragem de se agarrar a uma tábua de salvação para chegar a outro porto.

– Chegamos, avisou Zuca, querendo terminar uma conversa que poderia terminar desagradavelmente. Você vem para o almoço, Alberto? perguntou, adoçando a voz.

– Venho, vou dar um jeito. Esses infaustos acontecimentos me tomaram muito tempo, o trabalho ficou acumulado.  Mas vou dar um jeito. Otília viaja quando?

– Está louco para me ver longe, né, cunhado? Fique descansado, não demoro muito mais, parto amanhã ou depois.

– Alberto não falou com essa intenção, Titila. Você vê maldade em tudo, que coisa! Venha, vamos entrar que os pequenos já devem estar estranhando nossa demora.

As mulheres entraram em casa e ele se afastou rápido, não fossem chamá-lo de volta a qualquer pretexto. Suspirou aliviado. Aquela conversa o enervara, aliás, qualquer conversa com a bestona da Otília o irritava. Sempre olhando por cima, dando ordens, sempre achando que era a única a saber o que era certo ou errado, Otília era um aborrecimento. Naufragantes…o que ela e seu marido arrogante entendiam da vida? Uma bela dupla. Otília era tão diferente de sua doce Isabel. Por que o destino se comprazia em pregar essas peças, levando embora as pessoas boas e deixando no mundo as más e as insuportáveis? Zuca, coitada, era uma chata. Boa, prestativa, sempre apaziguadora, mas chata, profundamente chata. Ele pensava em como passaria a viver dali por diante tendo de suportar a cunhada que ia cuidar de seus filhos. Precisava dela, não pensava em se casar, em arranjar outra mãe para as crianças, Isabel era insubstituível. Sentiu um arrepio ao se lembrar do susto, do desespero que sentiu ao ver a esposa morta na calçada, para sempre perdida. Ela, que ele amava tanto, mesmo dez anos depois de casados.

Otto ainda ficou algum tempo parado junto à calçada, curioso, esperando obter alguma informação de quem passava. Mas todos só estavam indo, ninguém ainda viera de lá. Espiões, dissera alguém. Desde quando mandavam espiões aos pares? E o que vieram fazer aqui? Será que vieram preparar a invasão com base nas informações que lhes enviava? Não seria cedo demais? Ainda não mapeara a foz. Trabandt estava muito confuso, precisava de mais informações sobre os presos, mas como ir até lá sem despertar suspeitas?

Preciso pensar, decidiu, e não posso fazer isso enquanto desenho. Sem paz de espírito as aquarelas saíam uma porcaria e ele era exigente, perfeccionista. Vou passar o dia em casa, quem sabe alguma coisa acontece e me tira dessa situação? Não era essa a orientação deles, sempre que surgisse um problema tinha que ser resolvido de imediato, mas estava cansado, sem paciência, há mais de dois anos vinha descendo o rio, parando em cada localidade, desenhando e pintando aquarelas sem parar, fazendo o mais importante, mapeando o rio e suas margens, com todos os acidentes geográficos, estabelecimentos industriais e agropecuários, cidades e vilas, nas costas das aquarelas, com tinta invisível, o que o deixava com a vista ardendo. Depois, o cuidadoso embalar, endereçar e postar. Mas o fim justificava o esforço.

Ajustou o chapéu incômodo na cabeça, empurrou os óculos escuros sobre o nariz e caminhou para casa. A excessiva claridade daquela cidade lhe fazia muito mal aos olhos, cujas pestanas louras reverberavam os raios do sol e o ofuscavam. Também sua pele branca, pintalgada de sardas, sofria demais com o sol inclemente, constante, precisava estar sempre com um casaco leve sobre a camisa de mangas compridas. Ah, não via a hora de voltar para sua terra nevoenta, às vezes tão triste, mas tão confortável.

Sentia-se abandonado na antecâmara do inferno.

E como Adriene lhe fazia falta. Não só nessas tarefas, mas em tudo o mais, principalmente na cama, a qualquer hora, sempre com paixão! Estava precisando de sexo, era um homem normal, com seus desejos, e precisava descarregar a tesão que volta e meia o obrigava a se masturbar. Principalmente quando pensava em Adriene. Linda e ardente mulher! Era uma agente francesa que dominava a língua portuguesa, vivera os anos de sua infância na cidade do Rio de Janeiro, até o pai ser transferido para a França, ligada aos alemães, convicta de sua superioridade racial, aos cuidados de quem ele fora entregue ainda em Paris e com quem viajara e vivera durante muitos meses na fronteira da Argentina como Brasil. Quando o considerara pronto, sem sotaque no português, apenas com um leve arrastar nos erres, quando estava aborrecido ou excitado, ela atendera às pressões de Berlim e o levara no fordeco até próximo à cabeceira do rio Paraíba do Sul, num povoado cujo nome esquecera.

– Nunca mais nos veremos, disse ela, e ele percebera que ela disfarçava o embargo na voz. Talvez depois da guerra terminar, quem sabe? Não somos donos de nossos destinos desde que colocamos nossas vidas a serviço de uma civilização melhor, expurgada dessas raças impuras que a corromperam através dos tempos. Com o nosso sacrifício pessoal contribuiremos para o surgimento de um mundo melhor. Aqui começa a sua importante missão, necessária ao sucesso de nossa luta. De qualquer forma, devo dizer que foi muito bom conhecer e trabalhar com você. Boa sorte e bom trabalho. E esqueça que me conheceu até que nos encontremos de novo.

E o beijara de leve nos lábios. Quis beijá-la como antes, mas ela se desvencilhou com facilidade. Ah, bela Adriene, onde estará agora? Com quem? Quem desfrutará de suas carícias loucas? Dos seus beijos enlouquecedores? Quem sentirá seus lábios macios percorrer cada pedacinho de sua pele? Pensar nela era provocar uma ereção que chegava a doer, de tão intensa. Com Adriene conhecera a paixão sem freios, bem diferente do amor calmo que sentira por Frida, sua namoradinha alemã, que abandonara sem explicações para servir a seu país.

Em Passo de Los Libres, cidade argentina que faz fronteira com a cidade de Uruguaiana, no Brasil, viveram quase um ano como um casal em lua de mel, ele se dizendo um pintor interessado em retratar as fronteiras e sua gente e ela sua companheira dedicada, que deixara seus estudos para acompanhá-lo na aventura sul americana. Para acostumar o ouvido ao som das palavras brasileiras e perder qualquer sotaque estrangeiro, passavam dias cidades próximas. Adriene pegava seu carrinho e iam visitar as cataratas das Sete Quedas, de Foz do Iguaçu, as estranhas formações de Vila Velha, erodidas pelo vento, e outras cidades menos interessantes, mas mais populosas. Adriene, muito expansiva, com um belo sorriso permanente, fazia amizade com a população, falava com todo mundo, era alegre e solidária, e contava para todos que ele era um artista de futuro, um pintor iniciante mas já bem cotado nas galerias européias e que buscava ali a originalidade necessária para sua obra se destacar. Estava preparando uma grande exposição de aquarelas sobre paisagens e tipos fronteiriços e para comprovar ele se viu obrigado a desenhar estranhas figuras, um velho de longos bigodes, uma mulher gorda batendo doce num tacho, campeiros reunindo gado, pares em danças típicas regionais, esse tipo de trabalho que nunca o interessara, não era um retratista.

Desde que iniciara o mapeamento do rio Paraíba e suas margens, orientado por ela, onde quer que chegasse se apresentava como um pintor de aquarelas de paisagens ribeirinhas tropicais, para uma exposição itinerante que seria realizada na Europa, com início em Berlim. Nunca despertara suspeitas.

Quisera dar uma fugida até Buenos Aires, para onde Adriene voltou para servir de elo entre ele e Berlim, mas ela o proibiu. Ele acreditava que ela mandava dali, diretamente para Berlim os seus trabalhos, pois a Argentina não hostilizava os nazistas, mas sempre misteriosa, ela dizia que os mandava para a curadora da Mostra, em Assunção, no Paraguai, uma tal Mercedes Ruiz, que ele não chegara a conhecer e nem sabia se realmente existia.

Adriene exigia que ele se misturasse com o povo, e depois de sua partida arrumasse uma namorada, e a princípio, ele sentira muita resistência em se relacionar com aquelas pessoas escuras, expansivas demais, grudentas mesmo, atitudes típicas de gente de raça inferior, sempre querendo agradar, bajular os seres superiores. Isso o enojava e Adriene teve muito trabalho em fazê-lo mudar de atitude, pelo menos, exteriormente. Fora difícil, além de vencer preconceitos, superar o asco dos contatos físicos. Era um sacrifício mostrar-se simpático com aqueles bugres. Não se animou, porém, a arrumar namoradas.

Depois de Adriene, a única mulher com quem se relacionara sexualmente fora com uma loura meio desenxabida, que se dizia polonesa, que conhecera na rua de uma cidade chamada São José dos Campos. Esse povo era tão primário e supersticioso que todas as suas cidades e estabelecimentos comerciais tinham que ter nome de santos católicos. Para ter certeza de que não dormira com uma mestiça, tivera a curiosidade de verificar se ela era loura de verdade e acabara por descobrir que era realmente uma polaca, mas sem o ardor sexual que sempre ouvira dizer que as polacas tinham.

E daí por diante, por mais apetitosas que algumas mulheres lhe parecessem, preferia a prática no sexo solitário no banheiro.

A mulher olhou em torno, procurando o cachorro. Precisava de alguém para conversar, para contar o que estava sentindo e pensando, o que tanto angustiava seu coração. Será que também ele a estava evitando? Bastara ir em casa para ele sumir? Continuou a procurá-lo com os olhos.

– É aqui que ele fica sempre, eu sei. Droga de vida, onde será que se meteu?

Ali adiante o rio, massa escura deslizando na noite negra. O rio pode ser a solução, pensou, dirigindo seus passos para o cais. Será que morrer afogado dói? Tantas mulheres infelizes e desiludidas já tinham ido embora do mundo levadas pelas águas desse rio. O rio lavava as mágoas, os problemas, as dores morais. Talvez um pouco de sufocação, um desespero que a água empurraria nariz e boca adentro e depois a paz.

Não ficava longe o rio, com seu apelo fatal. A friagem invadia as pedras do cais, passava através da sola da sandália, subia por suas pernas, se instalava em sua barriga, apertava-lhe o peito. Ir embora pra sempre, ir ao encontro de Afonso, será que as almas se encontram no outro mundo? Mas quem se mata vai pro inferno, o padre sempre diz, e Afonso certamente estava no céu, era bom, trabalhador, marido exemplar, não tinha amiga, não roubava ninguém no açougue, adorava a filha, na certa estava no céu. Se fosse mandada pro inferno jamais o encontraria, não há comunicação entre o céu e o inferno. E ela amava demais o marido, queria se encontrar com ele depois da morte para viverem juntos por toda a eternidade. Como haviam sido felizes!

Aproximou-se da beirada do cais, a água marulhava nos cascos das embarcações estacionadas, um ou outro clarão amarelo de lamparina brilhava na popa de algumas. Quem estaria acordado nas pranchas e fazendo quê? Cozinhando, conversando, fazendo amor? Desde que Afonso piorara da tísica que não tinha homem. E era tão bom ficar nos braços dele, se sentia plena, recompensada por todos os dissabores da vida, pela perda do pai na infância e da mãe pouco antes de seu casamento. Afonso e Gracinha eram seu mundo, um mundo belo demais para durar.

Naquela tarde entrevira Gracinha na sacada do sobrado onde Dinha morava. Chorara muito, apesar de ver que a filha estava bem, gordinha, corada, sorridente. Será que já me esqueceu? Eu queria que ela estivesse bonita assim, mas comigo. Será que se ficasse comigo teria apanhado a doença que matou o pai, como diz a Dinha? Ah, vida de inferno, eu mereci isso?

A água do rio parecia lhe segredar convites, promessas de paz, de reconciliação com a vida através da morte. E Gracinha, meu Deus, posso deixar Gracinha sem mãe? Mais cedo ou mais tarde ela vai voltar para mim, é minha filha e Dinha cuida bem dela. É minha filha e isso ninguém pode me tirar. Vai ter de voltar para meu lado, vou acabar de criá-la. Dinha não entende que preciso comigo, é um pedaço de Afonso. Depois do enterro dele queimei toda a sua roupa, até o colchão onde dormia, enterrei os pratos e talheres que ele usava no quintal, mandei caiar as paredes, a casa está limpa, mas Dinha diz que não é suficiente, que é preciso passar um tempo para a doença sumir dali, o ar pode estar cheio de germes ou vermes, sei lá. E por que então eu não adoeço? E olhe que estou fraca, desde que Afonso adoeceu que como pouco, mas Dinha diz:

– Quem sabe se você não está doente? insinua ela. Temos que esperar mais um pouco. Estou sendo dura, Arlete, mas é pro bem da criança, não quero que nada lhe aconteça, gosto dela como se minha filha fosse.

Dinha não podia ter filhos e vivia só no casarão, o marido sempre viajando, vendendo bebidas e doces e mais um monte de bugigangas pelos lugares mais distantes, levava semanas sem aparecer, e ela sozinha, na certa minha filha a ajuda a suportar a solidão, mas é minha filha, é minha, só vou esperar seis meses e vou buscá-la, nem que tenha que brigar com minha grande amiga. Não quero ser ingrata, mas a filha é minha, eu também sofro por estar sozinha, o marido de Dinha some mas volta e o meu nunca mais vai voltar.

Lágrimas escorrendo, ela puxa a flautinha e começa a tocar bem baixinho. No rio peixes saltam fora dágua e ela imagina que estão gostando de sua música.

Louro não estranhou quando Gau sentou-se a seu lado. Era outro que não tinha muitos amigos, magro e infeliz como ele e, para piorar, com a cara coberta de espinhas. Gau tinha má fama e todos o evitavam.

– Tá fazendo o que aí? perguntou, com sua voz cheia de altos e baixos.

– Nada, esperando o sono chegar.

– Vai dormir na casa da velha?

– Onde mais? Lá pelo menos posso dormir em paz.

Ficaram em silêncio, olhando as embarcações se balançando ao sabor das marolas.

– Sabe o Zé Pirulito, um que negocia farinha em Gargaú? A prancha dele é aquela ali, com a vela rasgada. Louro olhou, pouco interessado, para onde ele apontava. Zé tá cheio de dinheiro, contou no cais que vendeu toda a carga que levou. Eu vi, um bolo de dinheiro assim, ele tava se exibindo. Louro encolheu os ombros. Zé saiu do bar tropeçando, de tão ferrado. Louro continuou mudo. Agora tá lá, na prancha, deve de tá ferrado no sono. Vamos pegar o dinheiro dele? É facinho. Pombas, colega, fala alguma coisa.

– Sei não, pode dar encrenca.

– Que encrenca, deixa de ser capiau. Tem mais ninguém no cais e Zé só vai acordar amanhã. Olha, faz o seguinte: ocê vai até o porto do mercado, tira toda a roupa, de noite a gente se confunde com o rio, deixa a roupa encostada na parede da Companhia, ninguém pega, já fiz isso, e vem nadando bem quieto por detrás das pranchas que eu vou mergulhar lá do porto do Alecrim da mesma forma e encontro ocê bem atrás da prancha do Zé. Tá certo? Ocê vigia enquanto eu faço o serviço e depois nós divide o dinheiro. Tem risco nenhum, se alguém aparecer ocê dá um assovio e nada de volta pro mercado. Tem perigo não, é um servicinho pra moça, vamos?

– Não sei…

– Pombas! Cê tem dinheiro? Não? E não quer não? Então, Zé tem e não liga, senão não bebia tanto. Tá pedindo pra ser roubado, aquele safado. Vamos lá, colega, é coisa rápida.

Levantou-se e calçou os tamancos. Poucas estrelas brilhavam no céu. Lá adiante uma mulher olhava o rio.

– Aquela ali tá querendo se matar, comentou Gau. Vai ver não tem nem o que comer em casa e o marido tá na casa da amiga. é também um jeito de roubar, né não? Tira da família pra dar pruma sem vergonha. Eu prefiro tirar de quem tem muito. Vamos lá.

Louro levantou-se devagar, a cabeça redemoinhando de pensamentos.

– Só de vigia? Não vou ter de subir na prancha?

– Não, já num disse? Na prancha eu subo e faço o serviço. Coisa limpa, ele nem vai notar, só amanhã, quando acordar. E aí, babau. Ninguém viu nós dois por aqui, nem aquela pereba que quer se jogar no rio.

Louro caminhou sem pressa, os olhos vasculhando cada pedacinho do trajeto. Ninguém mesmo. No local indicado se despiu, hesitou antes de tirar a cueca catingosa. Embolou a roupa e pôs por cima o chapéu de palha, preso por uma pedra. Olhou tudo em volta mais uma vez e se meteu na água. Encolheu-se ao toque da água fria. Isso num tá certo, pensou, mas tanta gente faz coisa errada e nada acontece. E com esse dinheiro posso comprar alguma coisa lá pra casa, e se a mãe perguntar digo que foi a velha que deu.

Nadou rápida e silenciosamente. Uns poucos brilhos na superfície da água, que evitava com cuidado. Não fosse alguém aparecer. O cais continuava deserto, apenas a mulher triste a olhar o rio. Nem vai me ver, pensou, enquanto mergulhava e nadava por baixo dágua por um bom pedaço. Quase deu com a cabeça na quilha de uma prancha quando emergiu. Lá adiante Gau fazia sinais, mandando que se apressasse. Redobrou as braçadas e em instantes estava junto dele.

– Agora ocê fica aqui, de olho em qualquer movimento. Se desconfiar de qualquer coisa solta um assovio.

Agarrou-se na borda da prancha, o corpo se engelhando no contato da água fria. Por pouco tempo. Num instante Gau estava de volta, com as notas na mão, e deslizou para a água sem fazer barulho. Na prancha ao lado alguém tossiu. Se inteiriçaram por um instante e como nenhum ruído se seguiu, Gau mostrou-lhe um magro maço de dinheiro.

– Tinha só isso, falou aborrecido, o filho da puta deve ter gastado tudo com cachaça ou então perdeu no caminho. Toma – separou duas notas e entregou a Louro – é pouco mas valeu. Volta pro mercado e some. Amanhã a gente conversa.

Louro prendeu as duas notas na boca e nadou de volta.

Gau esperou o amigo sumir da vista e voltou a subir na prancha. Saiu do outro lado, com mais dinheiro na mão, um sorriso de satisfação na cara marcada de pequenas erupções e, lépido e silencioso, nadou para onde deixara as roupas. Paspalhão, murmurou, dando uma olhada rápida na direção para onde o colega seguira.

Capítulo 3 >>

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