Capítulo 19

Esperou que Zerli adormecesse e rumou para onde estava o rádio. Duque o seguiu, rabinho abanando de alegria. Quem sabe à noite o contato com o submarino seja mais fácil? A noite estava muito escura, mas caminhou sem problemas até à moita onde o rádio estava, enrolado no pedaço de couro. Ainda havia gotas de chuva nos galhos dos arbustos e nuvens de mosquitos zuniam a seu redor. O cachorro rosnava. Molhado e picado, Otto não resistiu muito tempo. Numa noite mais seca, volto, decidiu. Não posso continuar tanto tempo sem fazer contato, eles podem pensar que desertei. Sabia que os homens eram implacáveis com quem falhava. Com os desertores então, nem era bom pensar. Mas como me comunicar com eles, se o maldito rádio continuava mudo? Claro que podia encilhar o cavalo, juntar seu material e partir. Pra onde? De volta à cidade, onde sua ausência teria sem dúvidas despertado suspeitas? Ir para a beira do mar e aguardar, quem sabe por quanto tempo, no meio do areal, sem comer nem beber, sem ter uma cama para dormir, uma mensagem do submarino? E se encontrasse no caminho os tais soldados do exército brasileiro que andavam à cata de um alemão?

Voltou para casa cabisbaixo e mal humorado. Não podia se resignar a passar o resto da vida pintando flores de aguapés para uma exposição que só poderia se realizar se estivesse ao lado das forças do Fuhrer quando elas invadissem o país. Se ficasse por ali, quando o glorioso exército nazista o encontrasse, seria considerado um desertor e apesar de todo o importante trabalho de mapeamento da região que realizara com todo cuidado e que permitira a invasão das tropas alemãs pelo rio, seria submetido a um conselho de guerra ou simplesmente fuzilado. Quem se importaria? Sua família não fazia a menor idéia de onde ele andava, há anos não lhes mandava notícias suas e poderia receber apenas a comunicação que ele morrera numa batalha. Já vira isso acontecer. E não podia reclamar, aceitara todas as condições de bom grado, queria bem servir a seu país.

A bugra se mexeu na cama quando se deitou. Suas formas redondas se destacavam na semi-obscuridade do quarto iluminado apenas pela chama baixa da lamparina. Assim como eu, ela também está engordando, pensou, antes de ferrar no sono.

Alberto ficou intrigado com o ajuntamento de gente na frente do bar do Eu. Era comum ali ficarem duas ou três pessoas sentadas nas poucas mesas do salão, sorvendo devagar os seus tragos e uma ou outra encostada no batente da porta ouvindo Eu tocar violão e cantar. Quando havia navio ou prancha no cais, como agora, a freqüência era maior, os homens enchiam a cara antes de ir dormir com as putas do beco. O que estará atraindo esse povo esta noite? se perguntou.

Curioso, continuou sua caminhada. Já se acostumara tanto a andar depois do jantar, que não conseguia mais parar em casa. Preferia enfrentar as poças dágua a aturar as conversas bobas de Zuca. Com que direito ela se metia tanto na sua vida? Só porque era irmã da falecida? Ou por que tomava conta de seus filhos? Pensasse ela o que pensasse, isso não lhe dava nenhum direito de meter o bedelho em sua vida. Esse era o mal das solteironas – e como tinha solteirona na cidade depois que diminuíram as atividades do porto – que não tinham com que se preocupar e se davam ao luxo de perturbar a vida alheia. Algumas se tornavam beatas. Outras mexericavam, enviavam cartas anônimas, espalhavam suspeitas sobre pessoas, destruíam reputações, infernizavam. Ainda bem que Zuca não era muito de viver de conversinhas com as vizinhas, tinha mania de superioridade, se achava a tal, não queria se misturar, traço que existia em toda a família, desde a arrogante da Otília à falecida Isabel. Não sabia de onde haviam tirado a idéia de nobreza de sangue na família, só se era daquele avô barão de araque, que comprara o título, como a maioria dos nobres da terra. O certo é que restringiam suas visitas a quem consideravam iguais e não se tornavam íntimas das futriqueiras sempre prontas a dilapidar a honra alheia. Por causa de uma intriga dessas é que a mulher de um funcionário seu se jogara no rio numa dessas últimas madrugadas. O rapaz tinha uma amiga, a mulher sabia e relevava porque, alegava, nada lhe faltava em casa. Porém havia sempre um olho a espiar e uma boca a denunciar e quando o caso se espalhou, graças a uma dessas solteironas infelizes e candongueiras, a mulher não suportara a vergonha e se suicidara. Ainda ontem estivera no enterro da infeliz, que deixava uma fieira de filhos e um marido tão atordoado, que temia por sua saúde mental.

Ao se aproximar mais do bar do Eu, Alberto ouviu uma música suave, uma onda fina e harmônica, uma melodia que lhe proporcionava uma gostosa sensação de paz. Parou e ficou escutando. Um pouco adiante, apinhados na porta do bar, os homens escutavam em silêncio. Não havia os gritos de sempre ou conversas e discussões etílicas que pontilhavam as apresentações de Eu no violão. Um silêncio respeitoso, para que pudessem fruir a boa sensação que a música de flauta lhes passava. Isso, descobriu Alberto, uma flauta. O som vinha de uma flauta! Mas quem tocava flauta tão bem assim na cidade? Seria algum músico vindo de fora, um marinheiro talentoso, ou um artista que pegara uma carona num navio? Por falta de dinheiro os artistas costumavam viajar de carona nas embarcações, já que no trem ou nos raros ônibus e caminhões era mais difícil. E enquanto não partissem viviam da bondade do povo da cidade. Um artista do Rio, certamente.

Apesar de ser mais alto que a maioria dos moradores da cidade, Alberto teve de se apoiar na ponta dos sapatos para ver quem tocava. No meio da fumaça que inundava o bar, viu uma figura de mulher, pequena, magra, no fundo do salão, tocando a flauta. Não dava para distinguir suas feições. A posição era incômoda e logo ele se apoiou por inteiro nos pés. Não arredou mais dali. Afastou-se só um pouco para fugir do bodum, misturado a sarro de cigarro e de bebida, que emanava dos homens amontoados, e ficou ouvindo, de olhos fechados, a música dolente que lhe penetrava pelos ouvidos até à alma. Não se ouvia um pigarro, uma tosse, um barulho qualquer, só a melodia límpida.

Capítulo 20 >>

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