Capítulo 18

Eu a olhou com satisfação. Arlete melhorava a cada dia, já recuperara as cores. Quando o via ela arremedava um sorriso.

– Olha só como ela está! Muito bem, assim é que eu gosto. E a Cotinha me disse que você voltou a tocar flauta.

– É, não tenho nada a fazer mesmo. Estou me acostumando com essa nova que você me deu. Enquanto isso vou traçando meus planos.

– Tá bom. Quando posso contar com você lá no bar?

Ela o olhou, desinteressada.

– Cê me quer lá mesmo, ou tá fazendo isso por pena?

– Um pouco de cada coisa, respondeu ele sorrindo, como se com isso desmentisse o que dizia. Amanhã ou depois devemos ter navio atracado e seria bom ir treinando. Que tal aparecer por lá hoje? Antes que ela respondesse, continuou. Taí, hoje, tá um bom dia pra começar, vamos dar um jeito em você, vou pedir à Cotinha para lhe pentear, quem sabe botar uma flor no cabelo, um vestido mais alegre…

Ela o interrompeu, escandalizada:

– Eu, eu ainda estou de luto, esqueceu?

– Ah, Arlete, esquece isso, já faz tanto tempo. E luto não enche a barriga de ninguém. Não digo que use vermelho ou cor de abóbora, mas um daqueles seus vestidos brancos, eu me lembro de ter visto uma blusa assim no seu armário, quem sabe com uma saia preta…ou então um xale, sei lá, alguma coisa que tire esse ar fúnebre da sua pessoa. Vou falar com a Cotinha. Ela vai dar um jeito.

– Mas, Eu…

Ela tinha os olhos rasos dágua.

– Cê precisa de dinheiro pra viver, não precisa? Então? Não seja boboca. Deixe os escrúpulos de lado, esse povo fala mesmo que continue se vestindo de preto da cabeça aos pés e andando com a cara enfiada no chão. O povo gosta de falar, larga pra lá. Ficar jururu não paga dívidas e se Afonso pudesse ser consultado garanto que concordaria comigo. Cotinha é da mesma opinião, levante o nariz e enfrente esses paspalhões. Daqui a pouco venho lhe buscar. Pode ir se preparando. Quero lhe ver bem bonita.

Uma brisa leve enrugava a superfície do rio. Vestido com o velho casaco de brim cáqui que usava em suas incursões pinturescas pelo rio, que trouxera no fundo de sua mala, Otto sorvia com prazer a pureza do ar perfumado pelas plantas silvestres. No dia anterior nuvens grossas tinham coberto o azul claro do céu. Choveu pouco e rápido, logo as nuvens se afastaram. Elas são puxadas pelo mar, justificou Zerli, sem se dar conta que o mar ficava a quilômetros de distância. O chão da margem ainda estava úmido.Otto usava as galochas de borracha de cano alto, um tanto pesadas, mas muito úteis. Além de evitar que seus pés pegassem friagem, protegiam-nos contra o ataque de cobras. Dias antes quase fora picado por uma cobra que se escondia atrás de uma moita de capim. Nunca deixava de trazer as galochas, presente de Adriene.

Há mais de um mês Zerli trouxera para casa um filhote de cachorro, de uns seis meses, filho de uma cadela da fazenda. Um vira-lata cor de terra arada, simpático e esperto, que latia para tudo o que se aproximasse. Alimentava-se dos restos da sua comida e por isso tornou-se seu companheiro inseparável. Zerli dera-lhe o nome de Duque, ô ironia, um duque plebeu, um nobre viralata.

Quando pequeno Otto sonhara em ter um cãozinho assim, assim não, um bem peludo. Ele sempre fora um menino solitário, apesar de ter tantos irmãos. Não gostava de participar das brincadeiras, só de apreciar. Gostava era de ficar sentado no muro, vendo as folhas caírem das árvores no inverno e reaparecerem na primavera. Adorava ver a neve cair. Vivia pelos olhos. Por isso escolhera ser pintor. Por isso aceitara ser espião.

Insistira muito com a mãe para pegar um cachorro que encontrara na rua. A mãe negara categoricamente.

– Vai se alimentar de que o pobre animal? Nessa casa onde a comida nem sempre dá para todos, não sobra restos para alimentar bichos.

Agora ganhara um. Um cão mestiço, mas um amigo. Estava feliz, tinha um cão. Fora ele quem o alertara sobre a presença da cobra. Latia para qualquer coisa que se mexesse, até para os canoeiros que se aproximavam demais da margem. E isso era bom, pois denunciava a presença de estranhos. Mal Otto começou a pintar o cão latiu com fervor. Voltando-se para a direção em que o animal olhava, viu Corisco, apoiado numa perna só, como uma garça, segurando uma atiradeira.

– Tá fazendo o que aí, moleque?

– Nada. Tava vendo o senhor desenhar. Que bonito, né? O senhor desenha bem. Eu pensei que só as mulheres bordavam flores.

Otto o encarou, aborrecido.

– Não gosto que me espiem enquanto trrabalho. E pinturra não é bordado.Vai prrocurar o que fazer, vai.

O menino desapareceu no meio do mato. Preocupado, Otto olhou para a moita onde escondia o rádio. Nada visível, nem a ponta da antena. Arrumara, no barracão das tralhas da fazenda, um bom pedaço de couro curtido, bastante surrado, mas ainda impermeável, para cobrir o aparelho. Até meia hora atrás tentava, mais uma vez, estabelecer contato. Estava acontecendo um problema qualquer ou com seu rádio ou com os receptores dos submarinos. O máximo que conseguia ouvir eram ruídos estranhos e estáticas. Ou então os submarinos não vinham mais ao Atlântico Sul, o que considerava impossível. O que estaria acontecendo? Para testar se o rádio estava em condições contatara um rádio-amador, mas logo desligara para não denunciar sua posição. Seus superiores foram muito enfáticos quanto a isso: não devia fazer contato com ninguém, nem com os chamados quintas-colunas, brasileiros que ajudavam os nazistas por baixo dos panos. Tinha de se bastar. Se adoecesse, que se arranjasse com seus próprios meios, não contatasse ninguém. Para isso lhe haviam dado uma freqüência de rádio especial, que só alguns espiões, os que detinham as missões mais sigilosas e perigosas, podiam utilizar. Se necessário, em caso de doença, principalmente, podia estabelecer contato com determinadas pessoas. Havia horas, porém, que se sentia abandonado, como se estivesse no meio de um deserto. Como não conseguia falar com os amigos, conversava com o cachorro. E não podendo estabelecer contato pegava o material e se punha a desenhar.

Louro decidiu voltar a dormir na casa da velha. Desde que o pai, mais uma vez desaparecera, ficando sumido mais tempo que o normal, resolvera fazer companhia à mãe, muito deprimida desde que a caçula falecera. Dormira alguma noites no desconforto de sua cama. A mãe estava agora empenhada em arranjar uma colocação em casa de família para empregar Terezinha.

– Não quero ver mais meus filhos vivendo nessa miséria, dizia.

Mas ela fazia exigências para entregar a filha e Nerildes não encontrara quem valesse a pena. Tinha uma família muito boa, de posses, que queria uma menina assim para ajudar no serviço da casa, mas tinha dois filhos adolescentes, endiabrados e ela sabia de histórias de moças que se perderam em casa dos patrões. Aos garotos nada acontecia, mas as meninas, defloradas, desonradas, iam parar na zona. Muitas engravidavam, abortavam, às vezes morriam e os filhos vinham parar na casa dos avós. Não queria isso para Terezinha, queria uma família parecida com a que estava com Lurdinha, a menina estava muito satisfeita, embora ainda não estivesse na escola. O que em breve aconteceria, eles prometeram.

O pai reaparecera na noite anterior, sujo, roupas rasgadas, um olho roxo, sinal que se metera em alguma briga. Em outros tempos, Louro ficaria irado, haveria de querer tirar a forra no agressor, mas agora…Ele deve ter merecido. Boa coisa não andou fazendo.

Ajudado pela mãe despiu o velho e mandou os irmãos queimar a roupa fedida. Encheram a bacia de água e providenciaram uma limpeza completa. Apesar de tudo ele sentia pena daquele homem acabado, só pele e ossos, cara inchada e nariz vermelho como um pimentão, a balbuciar palavras desconexas, lutando para não ser limpo, resmungando, xingando. Os cabelos ensebados fervilhavam de piolhos. Cortaram-no bem baixo. Por fim conseguiram lhe dar uma aparência um tantinho melhor, cheirando a sabão. A muito custo lhe enfiaram uma roupa limpa.

– Agora me vê uma pinga, disse ele, tartamudeando, depois que o sentaram numa cadeira da sala. Tô com sede.

Não lhe deram atenção. As meninas, que tinham ficado na calçada enquanto era feita a operação limpeza, entraram e se encostaram na parede, olhos arregalados a fitar aquele homem estranho. Os meninos ladeavam a mãe, o mais novo agarrado à sua saia. Suado, braços cruzados sobre o peito, Louro vigiava o pai, o coração apertado de vergonha e dor. Como ele chegara àquele ponto?

Muito lhe custou fazer o pai tomar algumas colheradas da sopa que a mãe preparou às pressas com uns pedaços de abóbora madura, que mais tarde ele vomitou, sujando todo o quarto. Estava muito fraco, os olhos amarelados não se fixavam em ninguém, as mãos tremiam. Não era capaz de fazer mal a mais ninguém, só a si mesmo, e Louro preferiu passar pelo menos aquela noite fora de casa para se recuperar, embora a lembrança do pai alquebrado, aviltado pela bebida, não o largasse um minuto.

É possível isso, Xixa? Nem a chuva segura mais esse homem em casa?

– Já estiou, replicou a outra, enfadada.

– O que não significa que não vá chover mais. Viu o tempo como está? Cada nuvem…não tem uma estrela no céu! depois, até ele acha que vai chover, tanto que vestiu a capa da gabardine e calçou as galochas. O que ele tem a fazer na rua com um tempo desse? Não vejo necessidade disso. Parece que tem bicho carpinteiro no corpo. Realmente está além de minha compreensão. Deixar o lar aconchegante, quentinho, o carinho da família, em troca de quê, me diz. Tem mulher metida nessa história, só pode.

Zuca deixou a janela, impaciente. Xixa arrumava louças no armário. Zuca pegou uma colher, tirou uma compoteira do armário, mergulhou-a no doce com volúpia, pegou um pedaço de doce de goiaba, com calda e tudo, e enfiou-o na boca.

– Preciso parar de comer doce, comentou, lambendo o que restara na colher, mas quando fico assim angustiada, não posso me controlar. Vou acabar engordando.

– Cê já tá engordando. E vai terminar que nem a senhora sua mãe, que Deus a tenha, replicou a empregada, uma baleia.

– Deus me livre! E jogou a colher na pia. Só o doce me acalma. Olhou gulosa para o bolo coberto por um guardanapo de crochê. Bolo engorda? Acho que não, tem pouco açúcar. Vou comer só um pedacinho, preciso me acalmar. Onde aquele homem anda metido, meu Deus?

Capítulo 19 >>

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