Capítulo 17

Foram duas semanas em que Arlete oscilou entre a depressão e raros momentos de mínima atividade. Mas estava se alimentando melhor. Certo dia Eu a surpreendera examinando a flauta nova. Ao vê-lo, ela a recolocara sobre a mesinha de cabeceira e voltara a olhar o céu. Ele nada disse, como se não tivesse visto o gesto furtivo. Continuava a passar o dia quase inteiro em casa dela, preparava-lhe as refeições e só saía depois de vê-la alimentada. A vizinha, outra presença constante junto à Arlete, comentara:

– Qualquer dia o senhor vai virar santo.

Depois de muito conversar ela entendera que ele cuidava de Arlete por solidariedade, não estava interessado nela como mulher, nem pretendia se aproveitar da situação. Eu procurava ainda saber de Gracinha, trazia notícias e conseguiu que Dinha permitisse que e menina fosse fotografada, mais uma vez pela interferência do marido, como sempre de passagem pela cidade. Quando Arlete viu a foto, arregalou os olhos, levou a mão ao peito e parecia ter parado de respirar. Depois chorou durante muito tempo. Dormiu abraçada com a foto da filha.

– Agora, ou vai ou racha, comentou Eu com a vizinha, ou ela se apruma ou afunda de vez. Vamos rezar pra que dê certo.

Ao sair do bar, naquela noite, Eu decidiu dormir em casa de Arlete. Tudo podia acontecer e ele precisava estar por perto. Cotinha o esperava debruçada na janela.

– Vai dormir aí?

– Vou, tô preocupado, não sei qual vai ser a reação dela quando acordar.

– Também tô. Não ouvi nenhum barulho dentro de casa, nem choro. Qualquer coisa pode me chamar, a parede é fina e tenho o sono muito leve.

Eu estava exausto, todo esse tempo de dedicação à Arlete, somado ao trabalho no bar, o deixara esgotado. Ela dormia, ou parecia dormir, toda encolhida. Menos mal, pensou, até então dormia hirta, como se estivesse morta.

Pegou no sono assim que se estirou na esteira que pusera na sala, diante da porta do quarto dela. Um sono profundo, sem sonhos. Acordou como se tivesse saído de uma caverna, atraído por um som que vinha de algum lugar próximo. Som de flauta. Levantou-se num pulo, Arlete voltara a tocar na sua nova flautinha!

Encostado na parede do trapiche, seu lugar preferido, Louro viu Gau saltar da prancha e ajudar Zé Bé a descarregar a mercadoria. Ué, Gau trabalhando? Que novidade é essa? Eu, hein, um anjo subiu pro céu. Louro observou com surpresa a atividade do amigo, de quem vinha fugindo há dias. Gau nunca fora de trabalhar, nasceu malandro…Como conseguiu esse trabalho? E se ele conseguiu, eu também posso, sempre trabalhei. Vou falar com ele, quem sabe…

Desencostou-se da parede e parou no alto do cais, a olhá-lo. Daí a pouco Gau terminou o serviço e subiu a rampa assoviando.

– Trabalhando, Gau? Que novidade é essa?

Gau parou a seu lado, sorrindo.

– Trabalhando nada, falou baixo, estou pagando a carona do Zé. Ontem, ele foi fazer a feira de Gargaú e como eu tinha muita curiosidade de conhecer aquilo lá e ele estava sem ajudante, troquei a carona por uma mãozinha.

– Hum, mesmo assim…cê aprontou alguma com o pobre do Zé?

– Não, respondeu ele, voltando a caminhar, no que foi seguido por Louro, pois vou precisar dele outras vezes. Sempre ouvi falar que rola muito dinheiro naquela feira e eu quis ir lá ver. Olha, é mesmo muito dinheiro, meu camaradinha.

– E você ficou de olho grande?

– Inda arrumei uns trocados dum bocó lá do sertão, depois te conto. Ele deve de estar até agora se perguntando onde enfiou essa maçaroca aqui – meteu a mão no bolso e tirou um rolo de notas amassadas e riu – só deixei os trocados, por que faziam barulho. E riu mais, deliciado. Mas tem muito mais dinheiro lá pra gente pegar, cê precisa de ver os muxuangos com os bolsos estufados de dinheiro. Só que tenho que aprender uns macetes do jogo, uns truques, tem muito jogo por lá, meu chapa. Jogo e mulher dando sopa, muita coisa. Muita mulher boa, umas muxuangas da pontinha da orelha…Semana que vem vou lá de novo, quer ir comigo? Eu falo com o Zé.

– Vontade eu tenho, mas a situação lá em casa tá feia. Papai sumiu faz uns três dias, ninguém sabe dele.

– Besteira, ele já sumiu outras vezes. Deve de estar caído em algum canto, com a moringa cheia de alpiste. Qualquer hora tá de volta. Tá com saudade do paizinho, é? ironizou. Agora chega de conversa, vou procurar um sujeito que vai me ensinar uns truques no jogo. Vou ficar rico, meu amigo!

Braços cruzados sobre o busto, Verônica olhava preocupada os campos ressecados pela estiagem. O gado estava emagrecendo e toda tarde se via obrigada a complementar a ração com olhadura picada. Só que as canas estavam mofinas, em breve teria problemas. Acho que vou aproveitar que os bois ainda estão gordos e vender umas cabeças, decidiu.

Zizinho, seu vaqueiro, saiu do curral tangendo a vaca Andorinha, recém parida, com sua bezerra de pernas inseguras. Tinha que providenciar vacina para o gado, tinha de mandar capinar os aceiros do canavial, tinha de botar umas galinhas no choco, tinha de mandar reparar a cerca que lindava com a propriedade de Manuel Soeiro, tinha tanta coisa a fazer! Precisava de um homem para assumir a parte pesada da administração da fazenda, mas precisava, principalmente, de um homem para encher de carinho suas noites solitárias. Ouviu a voz de Zerli chamando as galinhas e isso ainda mais acentuou sua frustração. Uma moça simples, que não era lá essas belezas, ganhara de presente da vida um estrangeiro que certamente aquecia sua cama. Embora não confirmasse, quando era inquirida pelo pessoal da fazenda, seu ar sereno e feliz comprovava que estava bem servida de amor.

Verônica suspirou e apertou mais os braços sobre o peito. A brisa do amanhecer arrepiava os pelos de seus braços. Ela também fora feliz, muito feliz, se casara com o homem que desejara, um príncipe encantado, lindo, rico e com um título de doutor de uma profissão que nunca exerceu. Nascera para ser fazendeiro. Seu casamento, com o pai ainda vivo, fora um acontecimento social que deixara saudade. Viveram felizes na casa da cidade, tinha tudo o que uma moça de boa família podia aspirar. Só que não conseguiu dar um filho a ele. Todas as vezes que engravidou perdeu o bebê em abortos espontâneos. Sofria pra burro. Mas estava disposta a tentar outras vezes, até que o médico avisou que seu organismo não suportaria outra tentativa de gravidez. E sugerira a Atilano que adotassem uma criança. Ele se opôs, não gostou da idéia.

– Quero um filho meu, com meu sangue, disse áspero, e com isso encerrou as discussões.

Foram meses de depressão, de prantos, promessas, preces, cara inchada, auto-acusações, auto-depreciação. Ele, o príncipe encantado, mudou, ficou frio, passou a ficar mais tempo na fazenda, algumas vezes a dormir por lá, o que nunca acontecera naqueles quase dez anos de casamento. Quando livrou-se da depressão, seu pai faleceu num acidente doméstico e novamente ela mergulhou no desespero, na apatia lamentosa, na certeza de que a vida só tinha coisas más a lhe dar. Atilano, cada vez mais ausente, perdia-se nos canaviais, nos pastos, nas casas de empregados com filhas solteiras.

Finalmente ficou boa. Após um demorado tratamento psiquiátrico, sentiu-se preparada para enfrentar os reveses e as coisas boas da vida. Porque as coisas boas ou as más trazem em si a semente de seu contrário. Sorte ter recuperado o equilíbrio, pois foi submetida a duas novas provas: a doença da mãe, incurável, a exigir cuidados constantes, e a partida do marido, que assumiu a família que construíra na roça, num pedaço de terra distante, que adquirira, onde já gerara alguns filhos.

Ah, Deus, por que não me concedestes essa graça? Um filho, um só! Por que não sou uma boa parideira? Nunca sua barriga crescera o suficiente para ser notada, nunca seus seios incharam de leite. No entanto, sempre fora sadia, não se lembrava de ter ficado doente, só catapora, sarampo, doenças de criança, uma ou outra gripe mais forte, mais nada. E não conseguia segurar os filhos na barriga…por isso perdera seu príncipe, sua alegria e vontade de viver, seus sonhos.

A terra resplandecia, a falta de chuva dourara o capim e azulara ainda mais o céu da planície. Era um voejar de pássaros de todos os tipos e tamanhos, um soar de berros, latidos, cacarejos, pipilares…só faltava a voz de uma criança, uma que fosse, para mostrar que a vida valia a pena ser vivida.

Você acha que exagerei no decote, Xixa? perguntou Zuca, com um olhar coquete. Ainda tenho um belo colo, não acha? Lembra do Heleno, aquele poeta que andou uns tempos por aqui, que disse num verso que eu tinha peito de pomba? Papai ficou tão irado, queria dar umas bengaladas no atrevido. Mas eu adorei.

A empregada lhe devolvia um olhar sem brilho.

– Poxa, Xixa, você não sabe elogiar? É só crítica, crítica, crítica. Vai me dizer que não gostou do vestido? É a última moda, mandei copiar de um figurino francês. Diga alguma coisa, pôxa.

– Seu pai ia ficar mais irado dessa vez.

– Ué, por que? Está achando indecente? É apenas um pouquinho mais ousado, só isso. Papai era um retrógrado. Eu sou uma mulher moderna. Aposto que Alberto vai adorar, ele sempre se desmanchava em elogios quando Isabel estreava um vestido novo.

Xixa balançava a cabeça, desalentada:

– Bota juízo nessa cabeça de vento, Zuca. Alberto vai achar um desaforo você se estar dando esse desfrute antes do luto pela morte de sua irmã terminar. E o que não vai dizer o povo? Você não é mais nenhuma mocinha…

– Ih, você é uma chata, achei lindo o modelo e pronto. Eu podia ter escolhido uma fazenda mais fechada, mas preferi esse azul escuro, um meio termo. Ai, Xixa, estou me sentindo mais jovem, cheia de vida! Bebé que me perdoe, mas se fosse ela certamente agiria da mesma maneira. Depois que botei o vestido me senti outra. Vou esperar o Alberto na porta, quero ver olhos dele brilhar de desejo.

– Cruzes, Zuca, cê nem parece uma moça de família! Oferecida!

Prezados ouvintes, distinto auditório. Sob os auspícios do sabonete Irlandês, nosso programa tem o prazer e a honra de apresentar – e a música executada pelo Regional subiu de tom – a maior cantora desse país, o grande sucesso do momento, Jaçanã Sodré! Ela saiu da semi-obscuridade e caminhou para a zona iluminada do palco, passo firme, olhar desassombrado. O locutor gritava: Com vocês, Jaçanã Sodré, para interpretar a marchinha “Preciso de amor”, que vai estourar neste carnaval, não tenho dúvida, acompanhada pelo Regional Sumaré! Palmas para nossa maravilhosa, divina Jaçanã, futura Rainha do Rádio!

Todo o auditório aplaudia, gritava, assoviava. Jaçanã caminhou para o microfone, sorrindo sedutoramente – um jornalista escrevera que no palco ela era uma sereia a cantar e encantar – rebolando e cantando sua marchinha de carnaval, vencedora do concurso. Na sua voz de ouro tudo o que cantava virava sucesso imediato. Da platéia vinham os gritos de “É a maior! É a maior!” Orgulhosa do sucesso, via as pessoas no auditório dançando e cantando, até os homens encostados na parede dos fundos se mexiam! Sua presença no palco superlotava a emissora!

Quando acabou a marchinha, os aplausos frenéticos, os gritos “é a maior” e os pedidos de bis quase a ensurdeceram. Tentando vencer a algazarra, o locutor se esgoelava lhe fazendo perguntas que não conseguia ouvir. Na certa queria saber de seus planos para depois do carnaval. Mas seus fãs não paravam de aplaudir e gritar: Jaçanã!  É maior! É a maior!

– Das Dores, pelo amor de Deus, pare de sonhar acordada, criatura! Olha só o temporal que vem vindo aí!

Arrancada bruscamente de sua fantasia favorita, Das Dores levou alguns minutos para ver as pesadas nuvens negras que surgiam por trás da ilha e avançavam rapidamente. Lucinda insistia para que recolhesse as roupas já lavadas, ao mesmo tempo em que recolhia as suas.

– Ó, já vou indo. Fica aí com essa cara apatetada pra ver só uma coisa.

Por fim, aborrecida, pegou as peças de roupa ensaboadas, jogou-as de volta na bacia e se levantou. Não dera tempo para enxaguá-las. O vento crescia a cada instante e a poeirada invadia a rua próxima. Pessoas corriam cobrindo os olhos, crianças gritavam no meio de rodamoinhos de vento, cães corriam desnorteados. Colocou a bacia na cabeça e atravessou a área coberta de capim empurrada pelo vento. Ainda estava meio apalermada, era normal custar a se recuperar quando era bruscamente jogada na realidade. Sentia vontade de chorar, de gritar contra a injustiça desse mundo que não dá oportunidade aos que têm talento. Eu nasci pra ser famosa, sou bonita, tenho presença, uma voz linda e muito ritmo. A travessia da rua ficou penosa, com o vento dificultando seus passos, um cachorro assustado esbarrou nas suas pernas, pensou que ia cair no chão, mas alguém segurou a bacia.

– Me dá isso aqui, eu ajudo.

Tentou resistir, mas as mãos de Tijolo eram fortes e lhe tomaram a bacia. Grossas gotas de chuva batiam na rua como pedradas.

– Vambora, gritou ele, vamos procurar um abrigo até a chuva passar.

Viu-se seguindo o homem, olhos toldados pela mistura de chuva e lágrimas. Sonho com o sucesso e dou de cara com esse fracassado. Açulada por ele passou a correr até que chegaram a um portão. Ele pôs a bacia no chão e já com a chuva a ensopá-los torceu a tramela e abriu o portão.

– Entra logo, Das Dores.

Ela obedeceu, sem saber onde estava entrando e parou sob o telhado de uma varanda arruinada. A água fria devolveu-lhe a consciência.

– Onde nós estamos? perguntou, preocupada.

– Na minha casa, entra, cê tá intanguida.

Puxou-a pelo braço até uma sala obscurecida pelas nuvens negras. Olhou em volta: uma mesa velha encostada na parede, duas cadeiras cambaias, uma cama improvisada, onde roupas usadas estavam empilhadas e a seu lado uma grande lata de banha, emborcada, servindo de criado mudo, com uma moringa e uma lamparina. Na parede oposta, junto à janela, alguns tijolos sobrepostos serviam de base para um fogareiro. Das Dores correu os olhos pelo restante da sala, um cômodo grande, com duas janelas e uma abertura para um corredor, paredes descascadas que ainda ostentavam a pintura de pássaros com flores no bico em um friso em toda a volta da parte superior. Essa sala já conheceu dias melhores, pensou ela, e perguntou, com desdém na voz:

– Cê mora aqui?

– Moro, né. Era o sobrado do doutor Antunes, mas ele foi embora, nunca mais voltou, e enquanto não aparece ninguém vou morando.

– Que horror, Tijolo, que bagunça. Ela olhou em volta com cara de nojo. Deve estar cheio de ratos isso aqui.

Ele retirara do meio das roupas que entulhavam a cama uma toalha encardida.

– Toma, enxuga a cabeça, senão vai pegar uma gripe.

Ela se afastou enojada.

– Sai pra lá, com esse pano de chão nem meus pés eu enxugo.

– Eu sou pobre, é a única que tenho.

– Mas podia lavar, pelo menos. Eu também sou pobre, mas minha casa é limpa, não é essa nojeira aqui. Nem uma vassoura cê passa no chão. Sabe o que mais? me dá a bacia que vou pra casa. Isso aqui fede.

Ele devolveu a toalha à cama.

– Não, espera a chuva passar, pelo menos, pediu com humildade.

– Me dá a bacia, Tijolo, não agüento mais essa catinga. Como é que alguém pode viver num lugar desses? E ainda quer me…olha, se tiver vergonha na cara, nunca mais fale comigo.

Pegou a bacia, e com passos rápidos alcançou a rua. A chuva diminuíra um pouco e a bacia evitava que molhasse mais a cabeça. Ele ainda a chamou do portão:

– Volta, criatura, cê pode pegar uma pneumonia!

Não quis saber e seguiu em frente, sem olhar pra trás. Saíra de um sonho lindo, de um conto de fadas e caíra na furna da bruxa.

Capítulo 18 >>

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