Capítulo 16

Eu entrou cauteloso, Arlete, recostada na guarda da cama, estava de olhos fechados como se dormisse. Ia dar meia volta quando ela abriu os olhos. Àquela hora a energia elétrica era fraca, só ganharia força depois das dez. Uma porcaria, essa luz elétrica. Grande número de seus conhecidos mantinha o lampião aceso depois que escurecia.

– Acordei você?

Ela sacudiu a cabeça, negando.

– Tenho dormido muito pouco, tiro só uns cochilos. Só vou dormir direito quando Gracinha estiver em casa.

Ele procurou aparentar alegria, ao entrar no quarto sempre fazia um esforço para não se mostrar abatido ou desanimado.

– Fui a Campos, que calorão! Cheguei indagorinha.

Ela o olhava sem expressão.Ele mostrou-lhe um embrulho.

– Olhe, comprei uma flauta nova.

– Deixe aí.

Ele desembrulhou a flauta.

– Olhe só como é bonita. Bem mais moderna que a sua. Você precisa ver o som dela. Não quer experimentar?

– Agora não, deixe aí.

– Ô, Arlete, vamos reagir. Assim você nunca vai ter condições de cuidar de Gracinha.

Ela se ajeitou na cama e perguntou com voz ansiosa:

– Pensou no que lhe falei? Quer casar comigo? Você nem precisa morar aqui, continua na sua casa e eu fico aqui com minha filha.

Eu colocou a flauta na mesinha de cabeceira e sentou-se na cadeira o lado da cama. Uma ruga de preocupação atravessava sua testa. Tinha de resolver essa situação, não estava disposto a atendê-la, mesmo que isso a magoasse.

– Pensei sim. Os olhos dela brilharam. Eu acho, continuou ele, que não vai dar certo. Dinha vai perceber que nosso casamento é de mentirinha e vai dizer isso pro juiz. Vai ser pior. Não se pode mentir pra justiça, é falso testemunho.

Num movimento rápido ela se deslocou na cama e agarrou a mão dele:

– Pelo amor de Deus, Eu, não diga não pra mim. Preciso demais de seu apoio. Essa é a única maneira de tirar Gracinha das garras daquela bruxa.

– Gosto muito de você, Arlete, nesse pouco tempo de conhecimento aprendi a gostar de você e quero ajudar, mas assim não dá. Eu não posso sacrificar minha vida por…e se eu amanhã quiser me casar de verdade?

– Você me disse que não vai se casar…

– Mas posso mudar de idéia, não posso? Depois, Arlete, se a gente casar de mentira nós estaremos cometendo um pecado, vamos receber um sacramento da igreja…e não, não posso fazer isso. Deus vai nos castigar.

– Ele está me castigando desde que matou Afonso.

– Não diga isso nem brincando. Eu sei que você está sofrendo muito, estou fazendo o que posso para ajudá-la, tenho deixado meu bar de lado para animar você e lhe fazer companhia, não posso fazer mais do que isso. Não é justo.

Levantou-se, caminhou pelo quarto.

– Ninguém pode ser feliz vivendo uma mentira. E nosso casamento seria uma grossa patifaria. Estou disposto a ajudá-la sim, mas de outras formas. Dou-lhe um emprego no bar, você toca sua flauta, e você é muito boa nisso, e me ajuda em alguma coisa e lhe pago um salário. Deixe de ficar com pena de você mesma, Arlete, levanta daí, se ajeite, vamos lutar juntos. Tenho certeza de que não demora muito o juiz encerra o inventário, você aluga ou vende o açougue e continua a tocar flauta no meu bar, não prometo lhe pagar muito, mas vai dar pra você se recuperar e lutar pela sua filha. Dinha não é a mãe dela e o juiz vai reconhecer isso. Mas para lutar você precisa estar boa. Você tem de querer ficar boa.

Apertou as mãos dela, frias como as de uma morta. olhou-a firme nos olhos:

– Eu vou estar sempre a seu lado, Arlete. Mas casar, nem pensar.

As noites fogosas com Zerli estavam sendo consideradas por Otto o melhor tempo de toda a sua vida na fazenda. Muito melhor do que o tempo que vivera com a sofisticada Adriene. Aquela mulher simples, inferior, quase um macaco, lhe dava horas de um prazer indescritível. E ainda cuidava dele, providenciava sua comida, lavava suas roupas, era carinhosa, e não lhe fazia perguntas. Otto passou a considerar aquelas semanas um tempo de convalescença, como se tivesse sofrido um sério ferimento de guerra e estivesse se recuperando. Usufruía sem culpa o paraíso onde fora parar por um capricho do destino. Em alguns lugares do mundo a guerra seguia terrível, destruindo, matando, incapacitando e ele ali, vivendo num lugar tranqüilo, pouco barulho, onde quase não chovia, aquecido por um sol brilhante e refrescado por brisas suaves, sem ter que trabalhar e sendo tratado como um príncipe. Mas não se sentia culpado. Sentia-se mais gordo, a roupa já lhe parecia apertada.

Para considerar terminada a sua missão e estar pronto para ser recolhido quando fosse a hora, desenhara a foz do rio. Lembrava-se sem esforço do mangue, dos canais que o povo chamava de riachos, das ilhas, das praias, das ondas convulsas do mar enfrentando rio que o penetrava, do cheiro de maresia. Pena que o pincel não pudesse fixar o cheiro no papel.

Nas manhãs ensolaradas pegava seu material de pintura e se punha a desenhar, incansavelmente, os cachos de flores lilases dos aguapés, ora isolados, ora agrupados, ora se sobressaindo do espesso manto formado pelas plantas no poço. Às vezes uma piaçoca voando, com suas asas de cor amarela contrastando com o vermelho escuro do corpinho era incluída no desenho.Alguns dos desenhos estavam muitos bons e pretendia separá-los para uma exposição quando a guerra terminasse e o III Reich dominasse o mundo. Até a bugra admirava seus trabalhos, ficava horas a apreciá-los. Ficou maravilhado ao ver como esses semi-animais tinham sensibilidade para a arte. Bem dizia seu professor que a arte era um instrumento de civilização.

Capítulo 17 >>

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