Capítulo 15

A menina morreu por volta do meio-dia. Os irmãos, embolados no corredor, olhavam ansiosos a mãe esperando que fosse preparar alguma coisa para comer. Suas barriga roncavam.Ela estava sentada na cama vendo a filha se apagar como a chama de um cotoco de vela. Sabia que a pobrezinha estava condenada e quando percebeu ela soltara o último suspiro, fechou-lhe os olhos docemente, sem chorar. Não era o primeiro de seus filhos que morria em seus braços e talvez não fosse o último. Nesses tempos brabos só os que eram muito fortes sobreviviam. Surgiu na porta que dava para o corredor onde os outros a olhavam, apreensivos.

– Neinha foi pro céu. Terezinha, minha filha, prepara alguma coisa pra seus irmãos, que não tenho cabeça pra nada e me chama o Lourival. Ele precisa ir na prefeitura pedir um caixão para enterrar a pobrezinha.

As crianças se puseram a chorar, baixinho. Terezinha gritou pelo irmão e foi para a cozinha.

– Não chorem não, crianças, ela está melhor agora, consolou a mãe. Deus não vai deixar ela sofrer nem passar fome. E Nossa Senhora vai botar elazinha no colo. Marilda, minha filha, vem me ajudar a vestir o anjinho. E vocês dois vão ajudar Terezinha a achar o Lourival ou o seu pai.

Enxugando as lágrimas os meninos ganharam a rua. Um vento fresco abrandou o calor de seus rostos. Eles sabiam onde encontrar Lourival, o pai não.

Arlete parecia uma estátua, sempre na mesma posição, recostada na guarda da cama, ombros curvados, mãos cruzadas sobre o ventre, olhos fixos na janela. Obrigada a se alimentar por Eu, recuperara um pouco de cor e de peso. A energia é que parecia ter ido embora de vez. Cotinha a olhava apiedada, com um prato de sopa na mão.

– Seu Eu evém vindo, avisou. Por que não toma a sopa? Ele vai ficar satisfeito.

– Deixa aí na mesinha, quando tiver fome eu tomo.

– Não senhora. Seu Eu me disse que era pra insistir até você comer. Ele viajou de manhã, mas de tardinha vai estar de volta. Toma um pouquinho, toma. Nem que seja uma colher. Fiz essa sopinha com tanto carinho.

Arlete a olhou. Cotinha e Eu se desdobravam para ver se ela melhorava, se voltava a ser como antes, mas se sentia vazia por dentro, sem vontade, sem forças. Se a filha estivesse ali…Pobre vizinha, tão boazinha, parada a seu lado como uma pateta, a segurar o prato de sopa e a colher.

– Você precisa comer, Arlete, recuperar suas forças para lutar pela sua filha. Vamos, toma um pouquinho, só um pouquinho pra ficar fortinha.

Arlete esticou os lábios num arremedo de sorriso. A outra a olhava intensamente, como se pudesse, com olhar, lhe devolver o apetite.

– Tá bem, vou tomar um pouco, mas só um pouquinho, para lhe agradar.

Sentado na esteira que pusera no meio do capim, pernas cruzadas, Otto tentava mais uma vez fazer contato através do rádio com o pessoal do submarino. A estática interferia na transmissão e as nuvens escuras que apareciam do outro lado da ilha talvez fossem a causa. Mudou a antena de posição e os ruídos continuaram.

Passara a manhã desenhando e pintando flores de aguapés, a manhã era o período em que mais apareciam canoeiros transportando cargas, pescadores ou passageiros e quando as flores, batidas pelo sol, ficavam mais belas. Na outra margem, aproveitando a corrente, deslizavam algumas pranchas carregadas de sacos e barris. Todos o olhavam em sua faina e alguns acenavam, sorrindo. Tudo corria conforme seus planos, menos o rádio. Momentos havia em que pensava ter ouvido uma voz em resposta a seu chamado e todo o seu corpo se retesava.  Eram instantes fugazes e imaginava que estaria delirando, em outros era tomado por um acesso de raiva e tinha vontade de pegar o rádio e lançá-lo na corrente de água. Droga! Porcaria de vida!

Onde estaria o pessoal de resgate que não conseguia alcançá-lo?

O garfo que Alberto levava à boca parou no meio do caminho ao ouvir a pergunta de Zuca, numa voz que se pretendia carinhosa:

– Em que você pensa quando fica perambulando por aí?

– Eu não penso, respondeu irritado, ando.

– Ah, continuou ela, com um toque de malícia, então não pensa em alguém? Cabeça vazia sempre procura em que pensar, se você não pensa em que, pensa em quem…

Ele jogou o garfo no prato, cenho franzido. Uma profunda irritação o invadia. O que que aquela enxerida estava pensando? Que podia controlar seus passos e até seus pensamentos? Quem pensava que era? Era muito atrevimento da cunhada.

– Quer me deixar comer em paz? Se continuar com essas baboseiras, vou querer que me mande o almoço no escritório. Não se tem sossego nem em casa, meu Deus!

Ela não se deu por vencida:

– Então também estão tirando seu sossego fora de casa? Cuidado com essas mulheres, Alberto, só estão pensando…

Ele levantou-se, derrubando no chão o guardanapo.

– Não dá, Zuca, assim não dá. E eu que pensei que a única chata e intrigante da família fosse a Otília. Xixa, gritou, prepare um prato e mande levar lá no escritório.

Deu de mão no paletó e no chapéu e desceu as escadas. Zuca olhava aturdida o lugar vazio na mesa. Xixa pegou o prato dele, com metade da comida.

– Eu avisei, não foi? perguntou.

– Mas o que foi que eu fiz de tão grave? Eu só queria que ele compartilhasse comigo o seu sofrimento, ofereci meu ombro, minha compreensão. Eu cuido dos filhos dele, quero ser amiga dele…

– Cê quer ser mais que amiga, Zuca, cê num me engana. Há muito que estou percebendo suas intenções.

– E não seria nada demais, seria? Eu não sou agora a mãe dos filhos dele? Por que não posso ser a mulher dele? Eu sou solteira, ele é viúvo, gente, que mal há de querer me casar com ele? Não é melhor que se case com a mulher que cuida de suas crianças do que uma dessas vadias que vivem correndo atrás de um bom partido?

Antes de se retirar com o prato, a empregada advertiu:

– Vai devagar com o andor, Zuca, que o santo é de barro

Contra o fundo vermelho e dourado de um esplendoroso crepúsculo, Das Dores caminhava devagar, bacia na cabeça, rebolando e cantarolando a marchinha da moda. Tijolo surgiu como por encanto de uma esquina.

– Ai, meu Deus, gemeu ela, lá vem aborrecimento.

– Que isso, minha nega, só quero lhe fazer companhia. Quer que eu leve a bacia? Deve de estar pesada.

– Pare de me chamar de minha nega! Que coisa chata! Quem ouve vai pensar o quê?

– Que estou caidinho por você, o que é verdade.

– Me larga, Tijolo, vai cuidar de sua vida, vai arrumar o que fazer. Que perseguição! Tenho horror de homem que vive batendo perna, sem trabalho. Vai procurar serviço, vai.

– Você me mata com seu desprezo, minha nega. E quanto mais me maltrata mais eu gosto de você. Quem sabe se você me der uma chance…

– Pelamor de Deus, Tijolo, me esquece, vai ver se estou na esquina.

– Poxa vida, eu só quero conversar.

– Pois eu não quero e ponto final. Que camarada mais maçante.

O pai entrou em casa cambaleando, os olhos piscando, ofuscados pelo clarão das velas.

No centro da sala, num caixãozinho branco, ladeado por velas acesas, o corpo mirrado de Neinha, cercado por flores rosas de espirradeira.

– Que palhaçada é essa na minha casa?

Deu mais alguns passos, mal olhou para o caixão e entrou no quarto.

– Será que está tão porrado que não viu a menina? perguntou-se Louro.

Na cabeceira do caixão, a mãe mantinha os olhos fechados, os dedos correndo pelo terço, acompanhando a reza das outras mulheres. Se percebeu a entrada do pai, não se importou.

O pai entrou no quarto e desabou na cama. Louro o seguiu:

– Pai, a Neinha morreu.

Ele esticou as pernas e fechou os olhos.

– Menos uma pra sofrer neste mundo. Me acorde na hora do enterro.

Louro ficou olhando o bagaço de homem que era seu pai. Não sabia se sentia pena ou raiva. Olhos secos, mãos enclavinhadas, ficou um bom tempo olhando. Aquele homem de rosto inchado, barba crescida, amarelo, era um defunto vivo, devia ser enterrado junto com a filha. Ou no lugar dela. Seria bom pra todos nós, pensou.

Capítulo 16 >>

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