Capítulo 14

Você não acha, Xixa, que já podemos aliviar um pouco o luto? Ai, essas roupas pretas são tão deprimentes, tão feias…se ainda fosse um vestido de seda preta como os de Titila…você não acha que posso, pelo menos, mandar fazer uns vestidos cinza ou estampadinhos de preto e branco? Esta casa precisa de alegria, de voltar a viver.

A empregada a olhava de esguelha, sem nada responder.

– Será que o Alberto vai se incomodar? Eu fiquei pensando, vai ver que é por isso, por causa dessa tristeza impregnada na casa, que ele não pára aqui. Estou até pensando em fazer umas mudanças, trocar os móveis de lugar, colocar novas cortinas, acabar com esse ar fúnebre que contamina a casa. Que cê acha?

Xixa enxugou as mãos na toalha de prato e respondeu, sem paciência.

– Não seria melhor perguntar antes a ele?

– Não, quero fazer uma surpresa, ele vai sair de manhã deste ambiente triste e quando chegar vai encontrar uma casa alegre e nem vai pensar em sair perambulando pela noite. Primeiro vou mandar fazer os vestidos pra mim, umas roupinhas mais alegres para as crianças e quando ele se espantar vai ver que a vida voltou a esta casa. Tenho certeza de que até a Bebé aprovaria, ela era alegre, gostava da vida.

Limpou os lábios com o guardanapo e levantou-se.

– Vai chamar as crianças para lanchar que vou me arrumar para ir à costureira. As crianças vão comigo, tadinhas, precisam de se distrair, ver coisas novas, recomeçar a viver.

Tijolo bocejou, espreguiçou-se demoradamente e correu os olhos em volta. Sem perceber pegara no sono entre os sacos de café que aguardavam embarque. Preciso arrumar um biscate, pensou, estou sem um tostão no bolso. A cada dia escasseavam as oportunidades de serviço. Já nem pensava em emprego fixo, queria apenas que aparecesse um trabalho todo dia. O rio estava coalhado de pranchas e botes, mas em nenhuma havia o que fazer, todos os prancheiros tinham seus ajudantes fixos. Nenhum navio estava programado para aportar nos próximos dias. Que diferença de seu tempo de garoto, com a movimentação contínua no cais, os navios apitando, patachos e sumacas cheios de carga, os homens correndo, gritando, xingando, suados, carregando sacos de açúcar, de café, fardos e engradados, seu pai estava sempre trabalhando, chegando em casa cansado mas com dinheiro para sustentar a família. Trabalhava até demais, o velho. Por isso, um belo dia, estuporara. Tinha vezes que varava a noite carregando peso. Nem sabia como tinha tesão para fazer tantos filhos.

E agora…essa tristeza, um mundo de homens parados, mãos enfiadas nos bolsos, olhar sem brilho, conversando fiado pelas esquinas, se lamentando, rezando para as coisas melhorarem. Alguns bebiam até cair, outros adoeciam de tristeza e morriam feito moscas.

Nunca vi tantas viúvas. E não quero que isso aconteça comigo, pensou, tenho de arrumar o que fazer, depressa, preciso ganhar algum dinheiro ou ir para outro lugar tentar a sorte, sou novo, sou forte, tenho disposição para o trabalho. Tantos já foram para outras cidades e se deram bem. A Das Dores tem razão em botar banca. Como eu iria sustentá-la?

Olhou desalentado o rio que passava indiferente aos dramas que aconteciam em sua margem. O Paraíba deve de estar até feliz, conjeturou Tijolo, por não ter que agüentar o peso de tantos navios, a sujeira do óleo derramado, os gritos dos prancheiros, agora carregava poucas embarcações, uma que outra prancha, alguns batelões, umas canoas mofinas. No meio da correnteza um bando de imbiuás formava um círculo para pescar o almoço. Se eu fosse um pássaro, imaginou, não precisaria me preocupar com emprego.

Taí uma boa idéia, pensou, vou arrumar uma tarrafa emprestada e pescar. Quem sabe não pego um robalo, uma tainha gorda? Peixe eu vendo fácil e pescar é uma atividade agradável, pegando a fresca no meio do rio, sem ninguém para me azucrinar as idéias. Se arrumar um companheiro pesco de rede, senão de tarrafa ou jereré, tem sempre alguém disposto a me emprestar uma. Depois de vender os peixes posso passar algumas horas agradáveis no bar do Eu e mais pra noite dou uma passadinha no beco. Pelo menos vou esquecer meus problemas. Pescar resolve um pouco, mas na hora em que arrumar um bom serviço, que me dê uma boa grana, junto meus trecos e vou cantar noutra freguesia. Garanto que fora daqui, dessa pasmaceira, vou me dar muito bem.

Doía fundo no seu coração ver Arlete daquela maneira, olhos sem vida, lábios pálidos, muito branca, a roupa preta surrada envolvendo o corpinho magro, parecendo mais um defunto que gente. Sentado ao pé da cama, desconcertado, Eu não sabia o que fazer. De repente, e ele chegou a se assustar, ela virou o rosto para seu lado e perguntou:

– Eu, por que você nunca se casou?

Apanhado de surpresa ele hesitou:

– Nem sei. Acho que nunca pensei nisso. Vivia tão bem com minha mãe…

Os olhos dela estavam fixos no seu rosto vermelho de vergonha.

– Por acaso você não gosta de mulher? Prefere homem?

– Deus me livre – ele se levantou – gosto de mulher sim, não me casei não sei porque, sei lá, mas gosto de mulher sim, quando estou com desejo vou lá no beco e descarrego.

– Você se casaria comigo? Quando terminar o luto, quero dizer.

Ele se sentia cada vez mais desconfortável.

– Casar? Não sei, preciso pensar. Acho que não gostaria que ninguém tomasse o lugar de minha mãe. Assim de repente, não sei o que responder…mas por que isso agora?

Ela voltou a olhar a janela.

– Porque…nesses dias tenho pensado muito, Eu, pensei demais. Quero minha filha de volta e acho que Dinha não está disposta a me entregar. Mas se eu me casasse com um homem bom, honesto como você, capaz de sustentar a casa, acho que ela não teria como negar. Se ela negasse eu podia ir ao juiz…Nem penso em ocupar o lugar de sua mãe, Eu, Deus me livre, esse lugar é sagrado, e também ninguém vai ocupar o lugar de Afonso no meu coração, eu quero é ter um lar, um marido, para poder pegar minha filha de volta. Quero ser feliz de novo.

– É um caso a pensar, respondeu ele sem graça, afinal, casamento é um compromisso sagrado perante Deus e os homens e não sei…

Ela nada respondeu. Eu ainda tentou mudar a conversa, ela mergulhou no mutismo. Desconcertado, ele pegou as duas partes da flauta que permaneciam sobre a mesinha de cabeceira.

– Não vai dar para consertar sua flauta, comentou. Ela sacudiu os ombros, indiferente. Você não gostava tanto de tocar a flauta?

– Gostava, respondeu.

– Quando eu for a Campos vou ver se acho uma igual.

– Precisa não, respondeu, perdi o gosto. Sem minha filha nada tem graça.

Quando Otto abriu os olhos Zerli já tinha saído. Sobre a mesa, toalha limpa, o bule de café ainda fumegando, um caneco com leite e mistura. Pão era raro, por ali não havia padaria. O povo acompanhava o café com bolo, biju e tapioca, biscoitos feitos em casa, e chamavam a isso de mistura. Biscoitos gostosos, tinha que reconhecer. E o queijo? Delicioso. Ainda úmido, escorrendo soro. Esse pessoal de raça inferior se saía muito bem na cozinha e nas outras lides domésticas. Nasceu para servir.

Otto levantou-se, vestiu a roupa e se espreguiçou. Estava se sentindo muito bem, o ar da manhã clara estava mais leve, e um cheiro bom de mato entrava pela janela. No canto, sobre um banco encostado na parede, a bacia com água e a toalha. Otto se lavou e sentou-se para comer. Estava com um tremendo apetite. Sorria, beatífico. A noite fora maravilhosa, gozara várias vezes e ela se mostrara sempre disposta, muito carinhosa, e ele tirara o atraso. Era um novo homem.

Arrotou de leve, acendeu um cigarro e foi em busca do rádio. Cheio de energia, foi para o quintal e novamente vasculhou com os olhos o campo. Algumas vacas pastavam, seguidas por seus bezerros, uns quero-queros ciscavam no capim e um cavalo relinchou. Corisco atravessava o pasto a toda velocidade. Otto ocultou o rádio atrás de uma moita e ficou a observá-lo. Passou como um foguete e transpôs a cerca num pulo. Na certa foi comprar alguma coisa na venda, pensou. Ficou rente à cerca, fingindo observar as galinhas, até que ele passou de volta com um pequeno embrulho. Esperou vê-lo entrar na varanda da casa grande e montou o rádio. Ia começar a transmitir quando ouviu cachorros latindo. Levantou-se e viu o moleque de novo a correr, seguido por dois vira-latas. Brincavam e a qualquer momento viriam até o quintal. Rápido, Otto desmontou o rádio e guardou-o dentro de casa.

Aqui é perigoso tentar usar o rádio, tenho de procurar um lugar seguro, decidiu. Saiu de casa e caminhou até à cerca de arame farpado que o moleque saltara. Adiante havia uma passagem estreita. Otto passou por ali, andou pouco mais e se viu diante da estrada de rodagem, de barro. Do outro lado da estrada, num plano mais elevado, passava a via férrea. Otto foi até lá. O trem da manhã já passara, se lembrou de ter ouvido o apito quando ainda estava mergulhado no sono leve que antecede o acordar. O trem só de tarde viria em sentido contrário. Era por seu apito que adivinhava a hora em que Zerli chegaria. Ah, Zerli, que mulher! suspirou feliz.

Do meio dos trilhos descortinou a imponente corrente do rio Paraíba do Sul. O sol arrancava reflexos metálicos de suas águas. Um peixe saltou fora dágua, lâmina prateada cortando o espaço. Garças cruzavam o céu. Um silêncio azul, cristalino e espesso, envolvia tudo. Na ponta de um galho seco um gavião espiava. Mãos nos bolsos, feições tranqüilas, Otto caminhou pelo capim. Mais à frente o rio fazia um rodamoinho e formava o que o povo chamava de poço, um local mais fundo, coberto de plantas aquáticas, em especial por aguapés, cujas raízes e caules bulbosos se entrelaçavam, formando um tapete verde rompido pelas flores. Bom para pescar. Uma armadilha fatal para quem não o conhecia. Em seu trabalho de pintar e mapear o rio, ele conhecia bem todos os seus recantos, suas belezas e seus perigos. Em alguns pontos afastados, em braços do rio e entre as ilhas, ainda se encontravam jacarés silenciosos pegando sol. Assustadores, mas inofensivos se não fossem provocados, fáceis de serem caçados à noite, com lanternas. Ficavam ofuscados com qualquer facho de luz. Já as lontras surgiam em bandos e evitavam a presença do homem.

Já passara por ali, meses atrás, pintando suas aquarelas, no bote que o trazia desde São Paulo. Onde estaria seu bote agora? Deixara-o ancorado no lugar de sempre, logo depois do porto do mercado. Alguém ao vê-lo tanto tempo abandonado não o teria levado? Não adianta chorar, o que passou, passou. De qualquer maneira teria de abandoná-lo um dia, quando fosse resgatado. Andou mais. Um socó surgiu de dentre os cachos de flores lilases e voou para longe. Ele desenhara algumas vezes aqueles belos cachos verticais, as flores de matizes tão delicados que pareciam pintadas a aquarela. Um trabalho de um colorista excepcional, que usou o lilás de forma sofisticada, indo do quase branco das bordas até o quase vinho do fundo do cálice.

– Tão requintadas como orquídeas, surpreendeu-se Otto.

Pintar essas flores! A idéia lhe surgiu como um clarão do sol. É o que vou fazer para matar o tempo. Escolheria um local no capim alto, entre os pés de mamona e de outras pequenas árvores que proliferavam na margem e ali montaria o rádio. Ao lado ergueria o cavalete e pintaria os cachos lilases do aguapé. Uma camuflagem perfeita! Nos primeiros dias só pintaria. De quando em quando uma canoa bordejava a margem, um caçador de passarinhos ou um caminhante solitário percorria os matos e era preciso que acreditassem que estava só pintando. O rádio ficaria escondido nas moitas, só precisava ter cuidado em cobrir bem a antena. eto H uPeaoite passada ela não apagara a lamparina antes de trocar de roupa e por entre os olhos entrecerrados ele vira o belo corpo moreno se destacar contra a parede de barro socado. Pena que fosse tão escura a pele dela, o que não evitara que sentisse um início de ereção. Pudera, estava há tanto tempo sem estar com mulher que qualquer par de seios o excitava. Tinha de reconhecer, porém, que eram seios muito bonitos, duros, empinados. Só de lembrar sentia tesão.

Deixa isso pra lá, se recriminou, vamos cuidar de estabelecer contato. Primeiro a obrigação, depois a diversão, diz o povo daqui. Tornou a olhar o campo, não fosse o moleque surgir de repente, aquele corisco curioso representava um perigo. Tudo vazio. Pegou o aparelho, procurou um espaço no quintal e o montou. Algumas galinhas ciscavam distraídas. O galo vermelho cacarejou alto. Um camaleão surgiu sob a cerca e logo desapareceu. Tinha de prestar atenção aos cacarejos do galo, podia ser aviso da presença de uma cobra. O camaleão reapareceu no alto de um dos paus da cerca, cabeça em pé, observando tudo. Otto sentou-se na areia, concentrou-se, e iniciou a operação. O seu chamado surgiria frio nos rádios receptores, mas seu coração estava alvoroçado pela perspectiva de ouvir a voz de um conterrâneo, conversando em bom alemão e avisando quando viria resgatá-lo. Procurou acalmar-se, precisava manter o sangue frio, nada de emoções a atrapalhar seu desempenho.

Quando o calor do sol enfraqueceu e alguns bois mugiram à distância, encerrou a tentativa. Ninguém atendera a seu chamado. Deviam estar bem longe ou com problemas na recepção. Às vezes as condições meteorológicas atrapalhavam, o vento ou certas formações de nuvens inviabilizavam o contato. Aqui o céu está limpo, mas no meio do oceano, quem sabe? Amanhã tentaria de novo.

Capítulo 15 >>

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