Capítulo 13

Cê ainda tem um pouco daquele dinheiro que a velha deu, meu filho?

Louro coçou a cabeça, desconfortável:

– Pouquinho, mãe. É pra quê?

Ele gostaria de ter muito dinheiro e deixar bastante com a mãe, pra ela não ter que ficar lhe pedindo algum com aquele ar de culpada. Pobre mãe.Se ela souber como arrumei esse dinheiro…

– É a Neinha, meu filho, faz dois dias que está com febre, já dei uns chás…acho melhor levar ela no posto pro médico examinar. E se tiver de comprar remédio…

– Acho que dá. Vou pegar o dinheiro.

Foi ao fundo do quintal, levantou uma telha e pegou as duas últimas notas que tirara da carteira do velho. A mãe as pegou, constrangida, separou uma.

– Acho que só essa dá.

– Fica com as duas. Qualquer dia a velha me dá mais.

Ele reservava o dinheiro para comprar comida, mas não podia deixar a irmã sem remédios. O pior é que a velha, ultimamente, nem os trocados de sempre lhe dava. Vivia reclamando da carestia de vida, do preço de tudo, do pouco dinheiro que recebia. Recebia de quem? se indagava ele. A velha misteriosa recebia todo mês o dinheiro de alguém. Ele sabia que ia receber quando ela botava pó no rosto, uma roupinha melhor e ia esperar o trem na estação ou amanhecia sorrindo, sinal que alguém passara por lá bem cedo. Já quando ia na estação, voltava bem humorada e no dia seguinte a comida era mais farta. Ela lhe dava algum dinheiro e o mandava à venda, à padaria e ao açougue pagar as contas apontadas na caderneta. Passeio rendoso, pensava ele.

Bem que gostaria também de ter crédito junto aos comerciantes, mas eles só fiavam a quem tinham certeza de que teria dinheiro para pagar. Uns unhas de fome. Sua mãe, tadinha, com as poucas freguesas de lavagem de roupa e as muitas despesas, nem sempre podia acertar as contas pontualmente. E o pai não ajudava com nada, muito pelo contrário, ainda pegava o dinheiro dela. Velho safado e imprestável. Às vezes ela atrasava os pagamentos e muitos, como seu Samuel do armarinho, se recusavam a lhe vender fiado qualquer coisa, por menor que fosse. Um dia, se prometia constantemente, ainda vou ter dinheiro e crédito. E vou esfregar na cara se seu Samuel, ah se vou.

Arlete se recuperava muito devagar. Era difícil fazê-la engolir a comida, mesmo que fosse a sopinha que Eu preparava com todo o carinho. Ficava sentada na cama, muda, os olhos secos fixados na janela. Cotinha, a vizinha, cuidava do mais, limpava a casa, lavava a roupa, espanava os móveis.

– Cumé que essa moça, que era tão alegre, tão esperta, ficou nesse estado? Cruzes, parece até coisa feita. E se persignou. Não acha bom chamar uma rezadeira?

Por alguns dias Eu deixou sua cama para dormir na sala perto da mulher que parecia um zumbi. Nas horas em que ia para o bar a vizinha lhe fazia companhia, tricotando. Eu trouxe seu rádio, pois diziam que a música era boa para recuperar a saúde. Ela nem parecia ouvir as músicas. Sou maluco, pensava ele, por que tenho de meter nisso? Não sou parente dessa dona, conheci há pouco tempo, mas…ela me comove com seu drama e eu quero ajudá-la.

Ela emagrecera e a pele alva, onde veias finas e azuis se destacavam, parecia transparente. Eu conversava com ela, ou melhor, falava com ela, procurava animá-la, mexer com seus brios, fazê-la voltar a se interessar pela vida e pouco conseguia. Somente quando falava na filha um brilho fugidio passava por seu olhar embaçado.

Preciso encontrar uma solução, pensava ele e remoía o cérebro. Certa manhã decidiu visitar Dinha. Custou a ser recebido, precisou gastar muita conversa, mas finalmente conseguiu ser ouvido. E graças à presença do marido de Dinha, que chegara de uma de suas viagens e sugeriu que ela ouvisse o que ele tinha a lhe dizer. Eu o olhou agradecido quando ela concordou. Falou então do estado deplorável em que Arlete se encontrava, do seu desespero e depressão, da solução que encontrara: uma visita de Dinha, que lhe prometeria, mesmo que não tivesse intenção de cumprir, que entregaria a menina num determinado prazo, desde que ela recuperasse a saúde.

O marido ouvira a conversa e disse à mulher:

– É o mínimo que você pode fazer. Imagine se essa criança, futuramente, vier a saber que a mãe morreu de desgosto por sua causa. Vai odiá-la.

Dinha ficou de pensar.

A lua cheia cobria o rio de placas de aço que se deslocavam lentamente em direção à foz. Encostado na parede do trapiche do cais do Alecrim, meio escondido entre os paus de um andaime desmontado para não ser visto por Gau, Louro olhava as embarcações que flutuavam no rio de aço. Os navios de guerra são de aço, pensou, e em vez de estar aqui bem que eu podia estar num daqueles navios grandões, com canhões e metralhadoras, perseguindo os inimigos da pátria. Pou! Pá! Com os dedos simulando uma arma, Louro atirava contra os navios e submarinos imaginários alemães e japoneses que fugiam pelo rio. Derrubei um! gritou. Ainda bem que não havia ninguém por perto, senão iam pensar que estava doido. Riu.

Estava mesmo a ponto de ficar doido e por isso procurava se distrair pensando na guerra, imaginando combates e vitórias. Neinha piorava. Segundo o médico, além de vermes, o mal dela era desnutrição. A menina nem mais chorava, gemia baixinho, ardendo em febre, os olhinhos fechados cercados por olheiras roxas, só pele e osso. A mãe não saía de seu lado, preocupada, querendo que ela engolisse as colheradas da poção que o farmacêutico aviara. É possível que uma criança, que mora em plena cidade, morra de fome? ele se perguntava. E se sentia culpado por não botar mais comida em casa. Fazia o que podia, mas eram tantas bocas famintas a alimentar. Mesmo com a ida da irmã mais velha pra outra cidade – o que o pai ainda não se dera conta – era muita gente para comer. Ele mesmo comia pouco, sempre guardava um pouco do que a velha lhe dava, por isso era tão magro. Isso não o consolava, precisava ganhar dinheiro e botar comida em casa, já que o pai não fazia.

Pensar nessas coisas o deixava desesperado e se alguém aparecesse naquela hora para inquilizar suas idéias era capaz de partir pra briga. Por isso fugia de Gau.

Otto mais uma vez, de olhos semi-fechados, apreciou a troca de roupa de Zerli. Ela devia ter pouco mais de 20 anos, altura mediana e corpo proporcional. Nem um grama de gordura a mais, nenhuma barriga, e coxas firmes. Os seios eram duros e bem feitos. Ela devia se banhar no trabalho e chegava recendendo levemente a ervas do campo, o mesmo odor que podia sentir nas roupas de cama. Otto não pode evitar a ereção. Tentou cobrir-se, puxou o lençol para cima do corpo, o que apenas disfarçava sua excitação. Virou-se de bruços, sem desgrudar os olhos dela. O luar, entrando pela janela que ela sempre deixava aberta, prateava seus belos contornos.

Nua, ela olhou hesitante a camisola, e por um momento Otto pensou que fosse perder a visão que o deliciava, mas com um meio sorriso, ela desprezou a esteira ao lado da cama onde dormia, e veio deitar-se a seu lado. Coração a saltar pela boca, Otto viu-a estirar-se a seu lado, toda nua, barriga para cima, os bicos dos seios enrijecidos, a respiração se acelerando. Sabia o que isso significava, e virou-se para ela, olhos bem abertos, e suas mãos tocaram de leve aqueles peitos prateados, desceram pelo ventre, saboreando a pele sedosa, e mergulharam na mata espessa de pelos. Ela sorria sempre, imóvel. Rápido, ele se livrou da cueca e encostou-se nela. Ela respirou fundo-se e virou-se para ele.

– Me abraça, murmurou. o quarEaPeaistira à tentação de saber o que estava acontecendo e o acompanhara. Repara só que ela está respirando, graças a Deus. Vou pegar um pouco dágua.

Quatro horas, gritou Mané Relógio na esquina. Ninguém sabia explicar como, mas aquele maluco dava as horas certinhas enquanto andava pelas ruas arrastando os pés inchados e movendo os braços como ponteiros de um relógio. Hora das crianças tomarem banho, Zuca pensou alto, e gritou para a cozinha:

– Xixa, manda as crianças subirem.

Os dois mais velhos subiram a escada correndo, gritando, a caçula vinha nos braços da lerda da Julita, a mulatinha que contratara como babá. O menino trazia ainda o carrinho de madeira, seu divertimento predileto. O carrinho fora construído por Alberto, no tempo em que ainda dava atenção aos filhos. Lembrava-se dele sentado no portal, serrando madeira, pregando, lixando, pintando, sob o olhar curioso do filho. Suspirou. Como ele havia mudado, como a morte de Bebé o havia modificado! Mal dava atenção às crianças, fazia um carinho distraído na cabeça de um, uma pergunta tola a outro, uma tristeza. A menina, muito sensível, lhe perguntara com voz de choro:

– Tia, por que papai não gosta mais da gente?

Precisara de muito tato para explicar à criança o momento difícil por que o pai estava passando. Mais tarde contara o incidente a Alberto, que murmurara, sem tirar o olho do prato:

– Um dia ela vai entender.

E continuara a comer, sem demonstrar qualquer emoção. Mais tarde, antes de sair, fora ao quarto e brincara um pouco com os filhos. Isso não pode continuar por muito tempo, pensou Zuca, as crianças vão ficar magoadas, marcadas por essa indiferença. Quando tiverem idade para entender talvez seja tarde demais.

Ouviu, um pouco distante, Relógio gritar “Quatro e quinze” e se dirigiu apressada para o banheiro onde Xixa jogava água quente na bacia.

– Vê bem a temperatura da água, hein? Ontem as crianças reclamaram que estava muito quente. Preste atenção no que faz.

Otto sorriu satisfeito, o rádio estava pronto para funcionar. Não havia problema no aparelho que não resolvesse. Para isso passara por rigoroso aprendizado. Como estava destinado a trabalhar longe de sua base e não poderia contar com amigos ou simpatizantes da causa, tinha de ser auto-suficiente.

Finalmente ia poder fazer contato com seu pessoal. Abriu a porta da cozinha e olhou em volta por cima da cerca precária, feita com galhos secos, cortados em pedaços de pouco mais que metro e meio de altura. O ar estava quente, o campo vazio, nem bois pastavam naquela hora. Ao longe se destacava a ampla casa de fazenda com suas varandas e árvores frutíferas. Um dia ainda vou até lá, conhecer melhor a propriedade e seus donos. Se houver tempo, claro. Podia ser que os homens pedissem que aguardasse ali a passagem de um submarino e então depois teria de ir para a praia para ser resgatado, o rio certamente não dava calado. A não ser que viessem num bote, cruzassem a barra revolta e fossem ao encontro do submarino em alto mar. Não, concluiu, manobra muito complicada, mais fácil me pegarem na praia.

Seu cavalo estava sendo bem cuidado e os arreios ficavam pendurados num puxado coberto de palha próximo à cerca, onde a bugra guardava seus trecos. Com uma passada de suas longas pernas podia ultrapassar a cerca, pegar o animal e seguir seu caminho. Mais difícil fora sair da cidade. Deixaria um bilhete agradecendo a acolhida e um pouco de dinheiro.

Estava sendo muito bem tratado e já sentia um pouco de afeto pela bugra. Na noite passada ela não apagara a lamparina antes de trocar de roupa e por entre os olhos entrecerrados ele vira o belo corpo moreno se destacar contra a parede de barro socado. Pena que fosse tão escura a pele dela, o que não evitara que sentisse um início de ereção. Pudera, estava há tanto tempo sem estar com mulher que qualquer par de seios o excitava. Tinha de reconhecer, porém, que eram seios muito bonitos, duros, empinados. Só de lembrar sentia tesão.

Deixa isso pra lá, se recriminou, vamos cuidar de estabelecer contato. Primeiro a obrigação, depois a diversão, diz o povo daqui. Tornou a olhar o campo, não fosse o moleque surgir de repente, aquele corisco curioso representava um perigo. Tudo vazio. Pegou o aparelho, procurou um espaço no quintal e o montou. Algumas galinhas ciscavam distraídas. O galo vermelho cacarejou alto. Um camaleão surgiu sob a cerca e logo desapareceu. Tinha de prestar atenção aos cacarejos do galo, podia ser aviso da presença de uma cobra. O camaleão reapareceu no alto de um dos paus da cerca, cabeça em pé, observando tudo. Otto sentou-se na areia, concentrou-se, e iniciou a operação. O seu chamado surgiria frio nos rádios receptores, mas seu coração estava alvoroçado pela perspectiva de ouvir a voz de um conterrâneo, conversando em bom alemão e avisando quando viria resgatá-lo. Procurou acalmar-se, precisava manter o sangue frio, nada de emoções a atrapalhar seu desempenho.

Quando o calor do sol enfraqueceu e alguns bois mugiram à distância, encerrou a tentativa. Ninguém atendera a seu chamado. Deviam estar bem longe ou com problemas na recepção. Às vezes as condições meteorológicas atrapalhavam, o vento ou certas formações de nuvens inviabilizavam o contato. Aqui o céu está limpo, mas no meio do oceano, quem sabe? Amanhã tentaria de novo.

Capítulo 14 >>

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