Capítulo 12

A manhã clara deixara Otto de bom humor. O verde das folhas estava mais nítido e brilhante e o amarelo das pequeninas flores eram pingos de sol. A viração bulia com elas com delicadeza. Respirou fundo, o ar estava fino e revigorante. Havia feito minuciosa revisão no seu rádio transmissor e o considerara em condições. Apenas a antena estava um pouco folgada, nada que um pequeno pedaço de arame não resolvesse.

O menino chegou pontualmente na hora em que seu estômago começava a reclamar por comida. A bugra mandava por ele seu almoço num prato coberto por um pano limpo, boa mulher. O moleque, que era chamado de Corisco, estendeu-lhe o embrulho com uma careta amigável.

– Tem venda aqui por perrto? perguntou Otto.

– Tem sim sinhô, logo ali.

– Estou prrecisando de cigarros, ali vende?

– Vende sim sinhô. Me dá o dinheiro que vou lá buscar.

Otto colocou o prato sobre a mesa e tirou uma nota velha do bolso.

– Você sabe conferrir o troco?

– Sei sim sinhô.

Era irritante esse sim sinhô sorridente, mas Otto precisava conquistá-lo. O menino voltou antes que acabasse de comer.

– Põe aí em cima da cama e pegue uma moeda pra você. O menino sorriu, feliz e obedeceu. Me diga uma coisa, Corisco, aqueles soldados aparrecerram de novo por aqui?

– Num sinhô.

– Nem aqui por perrto? Eu sei que você bate perrna por essas redondezas todas.

Ele aumentou o sorriso, orgulhoso.

– Num sinhô.

Arre, suspirou Otto, é só sim sinhô, num sinhô.

– Tá bem, obrrigado, pode levar o prrato. Ah, outrra coisa, sabe onde posso arrumar um pedaço de arrame fino, desse tamanho assim, mais ou menos? É que minha mala arrebentou o fecho.

– Sei sim sinhô.

E disparou pelo campo feito um foguete. Por isso o chamavam de corisco, imaginou, rápido como o raio que cai do céu. Otto nem acabara de se recostar para a sesta quando ele reapareceu na porta com o pedaço de arame. Otto o examinou.

– Serve. Obrrigado. E lhe deu outra moeda. O sorriso de Corisco alargou-se. É só isso.

– Sim sinhô.

E voltou a zunir pelo campo, ziguezagueando como um bezerro assustado. A moeda valeu bem, tenho mais um aliado aqui, pensou Otto. Passou os dedos pelo arame, enrolou  e guardou-o no bolso.

Das Dores desceu a bacia da cabeça e pôs-se a separar as roupas a serem lavadas. Devia ter vindo mais cedo, mas a mãe não estava se sentindo bem, ficou cuidando dela. A seu lado, a irmã baixou outra bacia com as louças e panelas sujas do almoço.

– Eu não sei por que você implica tanto com o Tijolo, comentou a irmã.

– Eu? Implico? Essa é boa! Ele é que vive a me azucrinar o juízo. Já cansei de dizer que não quero nada com ele.

– Ainda ontem a mãe comentou que você precisa parar com essa bobagem de querer ser cantora de rádio. Precisa é de arrumar marido. Se eu fosse você não perdia o Tijolo.

– Mas você não é eu e ponto final. Se aprecia tanto o Tijolo, fique com ele. Dou de graça.

– A pior coisa do mundo, comentou Ceção, que lavava roupa um pouco adiante, sem perder uma palavra da conversa, é pobre metida a besta. O que cê tem contra o rapaz?

– É um pé rapado, não tem onde cair morto.

– E ocê tem? Deixa de presepada, menina, tem mulher assim atrás dum homem como Tijolo. Bonito, forte, bom de cama.

– Que façam bom proveito, respondeu, levantando o nariz. Eu sei o que vou fazer da minha vida, quem manda nela sou eu. Ah, não enchem, ta? Vão cuidar de suas roupas, vão. Nem pra trabalhar a gente tem sossego!

E pôs-se a cantar alto a marchinha que estava fazendo sucesso nas rádios.

Mais uma vez ninguém atendeu às suas palmas. A porta permanecia fechada e nenhum ruído se ouvia dentro de casa. A vizinha apareceu na janela e ele fingiu não ter visto. Bateu palmas mais uma vez. Nenhuma resposta.

– Ela tá aí, informou a vizinha. Não saiu nem ontem nem hoje. Será que tá doente? Ela não procura a gente…bem que eu queria ajudar, mas ela…

Eu a olhou preocupado. Há duas noites Arlete não aparecia na praça.

– Tá doente não. Deve ter saído sem a senhora ver.

– Só se for voando, que por essa porta não passou. Eu sei porque ela range quando é aberta. A Arlete anda muito esquisita, mais do que de costume, dês que a menina foi embora e o Afonso morreu. Ontem ainda ouvi choro, mas hoje…nada. Sei que não tenho nada com isso, mas não seria bom dar uma olhada lá dentro? Se quiser, pode pular o muro do meu quintal, não é muito alto.

Indeciso, ele olhou a mulher, tentando descobrir se ela falava porque estava a fim de ajudar Arlete ou se era por curiosidade perversa, para depois sair mexericando pelas ruas.

– O que eu sei, continuou a mulher, é que depois que veio da casa da Dinha ela ficou muito nervosa, entrou em casa chorando alto, xingou, e eu nunca tinha visto ela dizer palavrão, gritou à bessa, jogou pratos no chão. Depois ficou quietinha e está assim até agora. Tenho medo que ela tenha passado mal, estava tão nervosa…ou Deus me perdoe – e se persignou – que tenha feito alguma besteira. Aposto o que quiser que a Dinha não vai devolver sua filha, posso jurar. E ela sabe disso.

Eu sentia o coração confrangido. Arlete não lhe contara o que se passara no encontro com Dinha, mas a história já corria pela cidade. Acho melhor entrar e ver se ela está bem, pensou. E se ela não gostar? Se achar que estou abusando? Pode me passar um carão. Bom, pior é se estiver…

– Posso usar então o seu quintal?

A mulher abriu-lhe a porta e conduziu-o até o muro.

– Só não vou com o senhor porque não tenho coragem de ver certas coisas.

– Vire essa boca pra lá, resmungou ele, se preparando para se subir no muro, lutando com o corpo gordo.

– Não falo por mal, Deus me livre e guarde, mas o senhor sabe, tudo pode acontecer com uma mulher desesperada como ela.

Eu saltou no quintal vazio. Silêncio. Seu coração se apertava cada vez mais. Suava de pura preocupação. As insinuações da vizinha o assustavam. A porta da cozinha estava aberta. Pisou forte quando entrou, para que ela ouvisse. No chão, cacos de pratos e canecas de lata. Um cheiro enjoativo, mistura de morrinha com comida estragada, enchia o ar. O silêncio continuava. Eu chamou por Arlete. Duas vezes. Ninguém respondeu. Meu Deus, pensou, apavorado, e procurou a porta do quarto.

Pela porta escancarada viu Arlete caída na cama, inteiramente vestida, o rosto branco virado para cima, olhos fechados. Correu até ela. No chão, a flauta partida em duas. Gritou:

– Arlete!

Ela não se mexeu, ele se curvou e segurou-a pelos ombros. Mole, a cabeça descaiu para trás. Tornou a chamá-la. Meu pai do céu! gemeu.

– Ela está viva, disse a vizinha, da porta do quarto. Ela não resistira à tentação de saber o que estava acontecendo e o acompanhara. Repara só que ela está respirando, graças a Deus. Vou pegar um pouco dágua.

Quatro horas, gritou Mané Relógio na esquina. Ninguém sabia explicar como, mas aquele maluco dava as horas certinhas enquanto andava pelas ruas arrastando os pés inchados e movendo os braços como ponteiros de um relógio. Hora das crianças tomarem banho, Zuca pensou alto, e gritou para a cozinha:

– Xixa, manda as crianças subirem.

Os dois mais velhos subiram a escada correndo, gritando, a caçula vinha nos braços da lerda da Julita, a mulatinha que contratara como babá. O menino trazia ainda o carrinho de madeira, seu divertimento predileto. O carrinho fora construído por Alberto, no tempo em que ainda dava atenção aos filhos. Lembrava-se dele sentado no portal, serrando madeira, pregando, lixando, pintando, sob o olhar curioso do filho. Suspirou. Como ele havia mudado, como a morte de Bebé o havia modificado! Mal dava atenção às crianças, fazia um carinho distraído na cabeça de um, uma pergunta tola a outro, uma tristeza. A menina, muito sensível, lhe perguntara com voz de choro:

– Tia, por que papai não gosta mais da gente?

Precisara de muito tato para explicar à criança o momento difícil por que o pai estava passando. Mais tarde contara o incidente a Alberto, que murmurara, sem tirar o olho do prato:

– Um dia ela vai entender.

E continuara a comer, sem demonstrar qualquer emoção. Mais tarde, antes de sair, fora ao quarto e brincara um pouco com os filhos. Isso não pode continuar por muito tempo, pensou Zuca, as crianças vão ficar magoadas, marcadas por essa indiferença. Quando tiverem idade para entender talvez seja tarde demais.

Ouviu, um pouco distante, Relógio gritar “Quatro e quinze” e se dirigiu apressada para o banheiro onde Xixa jogava água quente na bacia.

– Vê bem a temperatura da água, hein? Ontem as crianças reclamaram que estava muito quente. Preste atenção no que faz.

Otto sorriu satisfeito, o rádio estava pronto para funcionar. Não havia problema no aparelho que não resolvesse. Para isso passara por rigoroso aprendizado. Como estava destinado a trabalhar longe de sua base e não poderia contar com amigos ou simpatizantes da causa, tinha de ser auto-suficiente.

Finalmente ia poder fazer contato com seu pessoal. Abriu a porta da cozinha e olhou em volta por cima da cerca precária, feita com galhos secos, cortados em pedaços de pouco mais que metro e meio de altura. O ar estava quente, o campo vazio, nem bois pastavam naquela hora. Ao longe se destacava a ampla casa de fazenda com suas varandas e árvores frutíferas. Um dia ainda vou até lá, conhecer melhor a propriedade e seus donos. Se houver tempo, claro. Podia ser que os homens pedissem que aguardasse ali a passagem de um submarino e então depois teria de ir para a praia para ser resgatado, o rio certamente não dava calado. A não ser que viessem num bote, cruzassem a barra revolta e fossem ao encontro do submarino em alto mar. Não, concluiu, manobra muito complicada, mais fácil me pegarem na praia.

Seu cavalo estava sendo bem cuidado e os arreios ficavam pendurados num puxado coberto de palha próximo à cerca, onde a bugra guardava seus trecos. Com uma passada de suas longas pernas podia ultrapassar a cerca, pegar o animal e seguir seu caminho. Mais difícil fora sair da cidade. Deixaria um bilhete agradecendo a acolhida e um pouco de dinheiro.

Estava sendo muito bem tratado e já sentia um pouco de afeto pela bugra. Na noite passada ela não apagara a lamparina antes de trocar de roupa e por entre os olhos entrecerrados ele vira o belo corpo moreno se destacar contra a parede de barro socado. Pena que fosse tão escura a pele dela, o que não evitara que sentisse um início de ereção. Pudera, estava há tanto tempo sem estar com mulher que qualquer par de seios o excitava. Tinha de reconhecer, porém, que eram seios muito bonitos, duros, empinados. Só de lembrar sentia tesão.

Deixa isso pra lá, se recriminou, vamos cuidar de estabelecer contato. Primeiro a obrigação, depois a diversão, diz o povo daqui. Tornou a olhar o campo, não fosse o moleque surgir de repente, aquele corisco curioso representava um perigo. Tudo vazio. Pegou o aparelho, procurou um espaço no quintal e o montou. Algumas galinhas ciscavam distraídas. O galo vermelho cacarejou alto. Um camaleão surgiu sob a cerca e logo desapareceu. Tinha de prestar atenção aos cacarejos do galo, podia ser aviso da presença de uma cobra. O camaleão reapareceu no alto de um dos paus da cerca, cabeça em pé, observando tudo. Otto sentou-se na areia, concentrou-se, e iniciou a operação. O seu chamado surgiria frio nos rádios receptores, mas seu coração estava alvoroçado pela perspectiva de ouvir a voz de um conterrâneo, conversando em bom alemão e avisando quando viria resgatá-lo. Procurou acalmar-se, precisava manter o sangue frio, nada de emoções a atrapalhar seu desempenho.

Quando o calor do sol enfraqueceu e alguns bois mugiram à distância, encerrou a tentativa. Ninguém atendera a seu chamado. Deviam estar bem longe ou com problemas na recepção. Às vezes as condições meteorológicas atrapalhavam, o vento ou certas formações de nuvens inviabilizavam o contato. Aqui o céu está limpo, mas no meio do oceano, quem sabe? Amanhã tentaria de novo.

Capítulo 13 >>

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