Capítulo 11

A manhã encontrara Zuca na janela da cozinha, bebericando o café que Xixa recém coara. Olhava sem ver os telhados das casas e o vôo disparado das andorinhas.

– Viu a que horas Alberto chegou ontem, Xixa?

Xixa limpava o bico do bule com um pano.

– Vi não, eu durmo como uma pedra.

– Era muito tarde, mais tarde que nos outros dias. O que será que ele fica fazendo na rua, Xixa?

– Como posso saber? perguntou a empregada, colocando o bule na mesa. Deve de ficar vagando por aí, o povo anda dizendo que ele vira lobisomem.

– Cruz credo, Xixa, que gente mais inventeira. Colocou a caneca sobre a pia. Mas eu preciso desvendar esse mistério. Aquele seu parente não me faria um favor?

– Zé Preto? Sei lá. Quer que vigie seu Alberto?

Zuca caminhou pela ampla cozinha. Do quarto das crianças vinham ruídos, daí a pouco invadiriam a cozinha, famintas.

– De longe, só de longe. Assim posso dizer pra esse povo que ele é um homem normal, apenas com saudades da falecida. Você fala com Zé Preto? Eu dou uns trocados pra ele, mas não quero que ninguém fique sabendo, tá bem? Só nós.

– É, porque se chegar ao conhecimento de seu Alberto ele não vai gostar nadinha.

Os rumores no quarto aumentaram.

– Já estou indo, gritou Zuca. Fale com ele, Xixa, me faça essa gentileza.

Dinha chamou a empregada.

– Olha, leve a menina lá pro fundo do quintal. Vou ver o que essa maluca quer.

E desceu rápido a escada. Arlete continuava a socar a porta e gritar pelo seu nome.

– Que escândalo é esse, Arlete?

– Minha filha, Dinha, onde está minha filha? Eu quero ver ela.

O corpo robusto de Dinha era uma muralha diante da outra, que forcejava para entrar.

– O que você quer com ela? Está brincando lá no quintal com as amiguinhas e não vou interromper a brincadeira dela por sua causa.

– Eu sou a mãe dela.

– Mas quem cuida dela sou eu. Você entregou ela a mim porque está muito doente e sem dinheiro. Portanto a responsabilidade é minha e não vou arredar pé daqui da porta. Aqui você não entra.

Exasperada, os cabelos alvoroçados, a face descomposta, Arlete bateu com os punhos fechados no peito da outra. Dinha se defendia com as mãos.Algumas cabeças apareciam nas janelas das casas vizinhas e dois homens observavam a cena, parados na esquina.

– Eu não estou doente, eu não sou maluca. Você quer roubar minha filha!

Dinha segurou-a pelos pulsos e falou com ferocidade:

– Suma daqui, sua desclassificada. A menina é minha, minha, você me entregou pra criar, se lembra, antes de seu marido morrer, porque também estava tossindo e escarrando sangue como ele?

– Eu? Sua mentirosa, cachorra, me largue. Eu nunca cuspi sangue, nem tossir eu tusso. Eu quero minha filha, é minha, fui eu que pari ela, que dei de mamar a ela dos meus peitos. Você é seca e má, invejosa, por isso seu marido vive viajando, só vem em casa trocar de roupa. Vai ver ele tem outra mulher, ninguém agüenta você, sua bruaca. Vai ver ele tem até outra família, pois você é seca, não pode ter filho. Castigo de Deus.

O rosto de Dinha estava ficando cada vez mais vermelho. Suas mãos grandes apertavam com força os pulsos da outra. Gritou:

– Cala essa boca suja, mexeriqueira. Meu marido é um representante comercial, viaja a trabalho, você sabe bem disso.

Falava alto para que os passantes a ouvissem. Arlete se sacudia toda e tentava soltar as mãos. Também gritava, a voz esganiçada e chorosa enchendo a rua:

– É isso mesmo, você é uma mulher maldita, por isso não pode ter filhos e quer pegar a minha. Burra fui eu entregando a menina pra você cuidar enquanto Afonso estava doente. Foi você que pediu pra cuidar dela, não pra criar ela, e eu cai na sua conversa, pensando que era minha amiga. Você não foi amiga nem de sua mãe, que deixou morrer sozinha, abandonada, na Santa Casa. Deus ainda vai castigar você por suas maldades.

– Cala essa boca, gritou Dinha.

– Me devolve minha filha, desgraçada, continuou Arlete, não estou doente, não sou fraca dos pulmões, o médico me garantiu. Eu quero minha filhinha. Se você não for apanhar ela agora e me entregar, vou sentar na sua porta e só saio daqui quando trouxer a minha Gracinha.

Transtornada, Dinha soltou-lhe os pulsos e empurrou-a com força. Bufava. Arlete caiu sentada no meio da rua, ralando mãos e cotovelos na areia.

– Pois espere aí sentada, sua ingrata. Espere aí na sarjeta, que é seu lugar. Tá pensando que vou deixar minha rica menina pegar sereno enquanto você sopra a flautinha para atrair os homens? Vagabunda, ingrata, você não merece a filha que tem, é uma cachorra desnaturada! E não volte mais aqui! gritou.

E bateu a porta com força. Arlete continuou sentada, chorando, aturdida, o corpo todo doendo. Os pulsos latejavam, as nádegas e os cotovelos ardiam. As pessoas a olhavam, umas com pena, outras se deliciando com o espetáculo. Esfregou as mãos vermelhas na roupa. Uma velha se aproximou, ajeitando o xale.

– Vai embora, minha filha, ela não vai entregar a menina mesmo. Ela jurou pra todo mundo aqui na rua que a menina é dela. Vai embora e procure a polícia se quiser a menina de volta.

Louro, encostado na parede de reboco descascado, observava a mãe arrumar umas poucas roupas da irmã numa velha maleta. Estava preocupado.

– Será que o pai não vai dar por falta dela?

– Vai nada. E se perguntar a gente diz que ela saiu, foi na vizinha, qualquer coisa.

– A senhora conhece a família pra onde ela vai?

– Eu não, mas a Nerildes conhece, foi ela quem arrumou pra Lurdinha. Ela vai ser tratada como uma pessoa da família, vai cuidar dos dentes, ganhar roupas novas…

– E pagamento? Quanto ela vai ganhar?

A mãe ergueu o corpo, se esticou toda, com as mãos apertando os quadris.

– Hoje amanheci com dor na espinha, de novo. O pagamento vai ser cuidar dos dentes dela, comprar roupas, sapatos, mandar ela pra escola, dar de comer. E só eu saber que ela vai almoçar e jantar direito todos os dias me dou por satisfeita. E ela indo pra lá é menos uma boca aqui pra alimentar. Já pedi a Nerildes pra ver se arruma outra família onde colocar a Terezinha.

Terezinha ia fazer 13 anos. Depois dela vinha a Marilda, com 11, depois os dois meninos, e a caçula, Neinha, com uma diferença de quatro anos. No meio havia um menino que morreu anjinho, como a mãe dizia.

– Mãe, esse pessoal não costuma tratar bem os empregados.

– Trata sim, Nerildes conhece bem eles, diz que é gente de qualidade. E num fica futucando minha cabeça, que vai dar tudo certo. Tem uma porção de gente conhecida que mandou os filhos viver assim e deu tudo certo. Não perturba minha cachola, já chega seu pai a me apoquentar os miolos.

– Não tô falando por mal, só que…

– Nem tró nem ló, a Lurdinha é boa menina, trabalhadeira, obediente, a família vai gostar muito dela, e se Deus quiser, quando voltar aqui, vai estar diferente, corada, numa boa situação. Não quero mais uma filha amarela que nem a Neinha.

Vermes, disse o médico ao consultar a caçula. Vive comendo terra, dá nisso. Mas a comida que havia em casa não dava para satisfazer a criança, que era magrinha e boba.

A mãe fechou a mala e encerrou o assunto:

– E vambora logo, que a Nerildes vai de ônibus com ela e daqui a pouco ele passa na esquina. Ô, Lurdinha, passa um pente nesse cabelo antes de sair. Se apressa, minha filha, quando seu pai chegar quero ver você bem longe daqui.

Das Dores cantarolava uma marchinha de carnaval enquanto ensaboava os lençóis. Sonhava de olhos abertos, se via no auditório da Rádio Nacional, que já vira em fotos de revista, cantando para seus fãs. Em casa a mãe e a irmã estariam de ouvido colado no rádio, ouvindo e sorrindo. E batendo palmas! Não na casa onde ora moravam, mas no Rio de Janeiro, onde teria comprado uma casa com jardim ou um apartamento para elas morarem, com um rádio possante para não depender de vizinhos. E uma radiola para uvir os discos que ia gravar. Quem sabe até já tivesse encontrado o homem de seus sonhos, aquele galã de radio-novela de voz forte, acariciante. Aí, sim, a felicidade seria completa. O retrato do galã que recortara de uma revista não era dos melhores, mas mostrava bem a beleza de homem que ele era. Cabelos lisos, brilhosos, um bigode sedutor e dentes perfeitos. Ele envolveria seus ombros com o braço musculoso, aproximaria a boca perfumada de sua orelha e lhe diria coisas de arrepiar. Ai, que delírio! Depois iriam para a cama e antes de se entregarem ao amor beberiam uma taça de champanhe. Na mesinha de cabeceira, na jarra de opalina do Japão, estaria o buquê de rosas vermelhas vindas de Istambul, que ele lhe oferecera, demonstrando toda a paixão que sentia. Das Dores deu um suspiro fundo e esfregou a roupa com mais força.

– Ainda vou me embora daqui, vou fazer muito sucesso, vou ser famosa, Deus há de me ajudar, murmurou contrita, a mão fechada numa figa.

Aumentou o tom de voz. As outras lavadeiras se viraram para olhá-la.

– Tá animada, hein?

– Claro, meu bem, eu tenho meus sonhos. E vou realizá-los, eu garanto.

– Vai casar com Tijolo!

– Tesconjuro!

O jantar estava quase no fim, Xixa retirava alguns pratos. De cabeça baixa, Alberto mastigava os últimos bocados da refeição.

– Gostou do jantar? perguntou Zuca, com um sorriso que queria cativante.

– Hum, hum, Xixa cozinha muito bem.

– Mas quem determina o que fazer sou eu, disse incisiva. E procuro sempre mandar ela fazer o que você gosta.

– Agradeço seus cuidados, é um consolo, disse, sem olhá-la.

– Vai sair de novo? indagou, querendo parecer despreocupada.

Ele limpou a boca com o guardanapo e bebeu água. Confirmou com a cabeça.

– Eu sei que não tenho nada com isso, mas me desculpe, que mal lhe pergunte, Alberto, aonde você vai todas as noites?

– Ando por aí, faço digestão do jantar. Às vezes troco um dedo de prosa com conhecidos, nada demais.

– Deus me livre de desconfiar de você, sei que é um homem sério, mas algumas pessoas começam a xeretar, a fazer perguntas, e eu não sei o que responder.

Ele se levantou, aborrecido.

– Não responda nada, ou melhor, mande que perguntem diretamente a mim. Não tenho satisfações a dar a ninguém.

– Eu também acho, mas sabe como é esse povinho, novidadeiro.

Xixa a olhava com reprovação. Suas mãos tornaram-se lentas ao recolher os pratos para não perder a conversa. Onde a maluca da Zuca ia chegar?

– Cada um deve cuidar de sua vida, disse ele.

– É o que eu acho, mas acontece que um homem como você, viúvo recente, gerente de uma firma, um homem importante, é observado pelas pessoas. E elas comentam suas saídas. Já viram você várias vezes rondando o cemitério…

– Eu não rondo o cemitério, cortou ele, ríspido. Eu ando pelas ruas para me cansar, para quando bater na cama dormir sem sonhar, sem pensar em mais nada e, às vezes, passo perto do cemitério. O que as pessoas pensam ou dizem não me interessa. Boa noite, Zuca.

Pegou o chapéu, bateu a porta e desceu as escadas.

– Está vendo, Xixa, ele nem perguntou pelas crianças, nem quis saber se a febre da Verinha…esse homem não está agindo certo, está enfeitiçado.

Xixa lançou-lhe um olhar debochado:

– Ele ou você? Já mandou vigiar o homem, Zé Preto não viu nada demais, cê quer mais o quê? Que ele se intoje da sua cara? Fica azucrinando a cabeça dele, indagando tudo, querendo saber de tudo o que ele faz. Homem nenhum gosta disso. Sei bem o que cê tá querendo e vou lhe dar um conselho: agindo desse jeito cê só vai deixar ele irritado, querendo distância e sossego. Quem vai querer casar com uma moça que gruda nele como uma pulga?

– E quem disse que quero casar com ele? Ele é viúvo de minha irmã.

– Cala-te, boca, disse a negra batendo nos lábios. Olha, é melhor eu ir lavar os pratos, sabe, mas se quer outro conselho, eu lhe digo: larga do pé dele.

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