Capítulo 10

Com o cair da noite, Eu fechou a porta da casa onde vivia sozinho desde a morte da mãe e ganhou a rua, as coisas do bar enfiadas numa sacola de pano. Hoje tem algum movimento no cais, observou esperançoso, pode ser que dê movimento no bar. Preciso de mais alguma coisa para atrair esse povo do cais pro meu bar, pensou, só minha comida não está resolvendo. Eu sei que minha comida é das melhores, aprendi tudo com minha mãe, mas esse pessoal quer é se divertir. Vou passar pela casa da flautista e conversar com ela.

Para passar por lá teve de desviar-se de seu caminho e andar um pouco mais. A casa de Arlete estava fechada e apesar de Eu gritar a plenos pulmões e socar a porta, ninguém veio atendê-lo. Uma vizinha abriu a janela e o olhou com curiosidade.

– Ela deve de tá é dormindo, falou com desdém, fica na rua até às tantas, só vai se levantar Deus sabe quando. Era uma moça tão comportada, ficou assim depois da…

Se desse trela, a mulher iria desfiar um monte de intrigas e Eu não quis ouvir mais. O que sabia da vida da flautista era suficiente. À noite devo encontrá-la naquele mesmo lugar, pensou, e lá também será mais fácil de conversar, sem essas fuxiqueiras por perto. Preciso de tempo para convencer a moça. Ela é bem bonita e toca bem, vai trazer gente pro bar. Ah, não posso me esquecer de passar pela casa da Dinha e ver o que consigo. Quem sabe?

– Seja mais compreensiva, disse à vizinha. A viúva está passando por um momento difícil.

A bugra estava demorando. Otto olhou o céu escurecendo, sentiu um arrepio de frio, vestiu a camisa. Sua pele já aceitava o toque do pano sem lhe provocar gastura.

Zerli passava o dia na casa grande da fazenda, cozinhando. Segundo ela, que passara a conversar um pouco mais, substituía sua mãe na cozinha da fazenda, dês que ela morrera. Quando retornava trazia comida para os dois.

– Quando o senhor não tava aqui, contou, eu comia lá mesmo. Só trazia umas roscas para roer antes de dormir.

Nos dias seguintes à sua chegada, Verônica, a dona da fazenda, viera vê-lo. Zerli lhe contara a história do homem que chegara desmaiado sobre um cavalo, vermelho e cheio de bolhas de tanto apanhar sol, que acolhera e estava cuidando. Ele ainda não podia abrir bem as pálpebras inchadas, mas pode ouvir a voz dela no casebre. Uma voz educada.

– Coitado, tá com o corpo todo queimado de sol! Será que ele agüenta?

E Zerli explicara como estava cuidando dele, esfregando as ervas misturadas à banha de porco pelo corpo ardido e intumescido.

– Tá bem melhor, cê precisava de ver ele antes. O coitado gemia de dar dó, sem parar.

Otto ainda não sabia que estava nu sobre a cama estreita. Se soubesse, o que podia fazer?

– Pegue qualquer coisa que precisar lá na casa e se ele piorar me avise.

– Vai piorar não. Essa pasta que minha mãe me ensinou é um santo remédio para queimaduras. Tá vendo, ele quase não geme mais.

Verônica não tornara a aparecer e ele melhorava a cada dia. Era incrível como esse povo inculto conhecia essas ervas e sabia manipulá-las. Antes de ir embora pegaria a receita com a bugra. No futuro, quando dominassem o país, teria utilidade.

E por falar nisso, pensou, é hora de partir. Amanhã vou procurar um lugar para montar o rádio e enviar uma mensagem. Está na hora de me resgatarem. Não agüento mais ficar por aqui, no meio desses macacos com forma de gente, e tenho de terminar meu trabalho, desenhar a foz do rio, completar minha missão. Depois irei para casa ou voltarei a Paris para concluir meu curso de pintura. Pelas notícias que obtivera via rádio, pois não confiava nas notícias dos jornais desses imbecis, Paris já estava nas mãos dos alemães. E em breve todo o mundo faria parte do vitorioso III Reich. E quando invadissem o Brasil, através do caminho que ele vinha traçando com tinta indelével nas costas de seus desenhos, diria orgulhoso a seus amigos que a vitória era também obra sua. Sorriu satisfeito e saudou Hitler mentalmente. Se levantasse o braço para a saudação sentiria a pele se repuxar.

Com cuidado acendeu a lamparina fumacenta e a colocou sobre a mesa bamba encostada na parede. Por que Zerli demorava tanto? Os grilos estavam em plena cantoria e alguns mosquitos rondavam sua pele dolorida. Só não o picavam por causa do creme de banha com ervas que passara nos braços e no rosto. Um sapo pulou para dentro da sala.

– Sai daí, bicho nojento, gritou. Nesse instante Zerli surgiu na porta.

– Deixa que eu espanto ele, disse ela calma, é melhor o senhor não se mexer muito.

Ele sentia a pele se repuxar quando fazia movimentos bruscos ou contínuos e se aquietou. Ela botou o sapo para fora do casebre.

Zerli depositou na mesa os pratos com comida embrulhados em panos alvos.

– Hoje o trabalho foi dobrado, contou ela, enquanto desembrulhava os volumes. A gente já tinha almoçado quando apareceram uns soldados do Exército e Verônica mandou nós fazer mais comida para eles.

– Soldados? indagou Otto, sentindo o coração se acelerar. Depois dessa viagem sob o sol ardente ficara muito sensível e qualquer coisa o assustava. Até o grunir de um porco o punha alerta e nervoso. Que soldados?

– Sei não. Eram do Exército e estavam procurando um alemão.

Otto ficou calado enquanto ela dividia a comida nos pratos. Será que esse alemão sou eu? se perguntou. Mas para o povo eu sou um pintor austríaco. Será que meu desaparecimento da cidade despertou suspeitas? Zerli lhe passou o prato e o garfo.

– E eles acharam o alemão?

– Que nada, respondeu ela, sentando-se num banquinho, o homem suverteu no mundo.

– E vão voltar?

– Vão não sinhô. Verônica até disse que se eles voltarem, pra avisar antes pra ela mandar preparar uma comida melhor, mas eles disseram não, obrigado, já rodamos tudo por aqui e nada encontramos, não vamos voltar mais.

O garfo com comida continuava suspenso diante de sua boca.

– E você falou que eu estava aqui?

– Eu não, o sinhô é alemão?

– Não, claro que não, mas…deixa isso pra lá, vamos comer, hoje a comida está parecendo mais gostosa.

Sentiu um pouco de alívio misturado à apreensão. Alguém nas redondezas podia contar que haviam visto um estranho com cara de alemão na casa de Zerli. Mas saberiam eles como era um alemão?

Já estava escuro quando Arlete sentou-se no banco da praça. O cão não estava por perto. Dali podia ver as embarcações embaladas pelos banzeiros. O rio estava silencioso e um ou outro lampião iluminava as proas. Arlete suspirou e pegou a flauta. Há dias observava que seu som não estava límpido como antes, certamente por causa da queda que levara no domingo ao se levantar. Quando o juiz liberar meu dinheiro, pensou, vou comprar uma flauta nova. Antes vou mandar arrumar toda a casa, dar mais uma mão de tinta nas paredes e nos muros, comprar roupa de cama e vestidinhos novos para esperar minha filha. Ela adora banana maçã, vou comprar pencas e encher a fruteira e o armário, como no tempo do finado. Quero que ela se sinta bem feliz e nem se lembre da Dinha. Ah, outra coisa, vou proibir a entrada de Dinha na minha casa. Ela vai querer continuar a seduzir minha filha, vou fazer uma boneca nova para ela e jogar a que Dinha deu no rio. Pode estar macumbada. Nunca mais quero Dinha aqui, nunca mais.

Quando Eu veio sentar-se a seu lado, bem mais tarde, o cão dormia sob a árvore e o som da flauta melhorara um pouco. Interrompeu a melodia, olhos arregalados para ele:

– E então?

Eu, desconfortável, ajeitou o embrulho que trazia no colo e olhou desalentado para o rio. Como uma flecha de prata um parati saltou das águas escuras.

– Nada. Ela diz que a menina está bem, tem de um tudo e nem pergunta mais pela mãe. Disse que você está contaminada e que a menina é muito fraquinha e pode adoecer. Só depois que o juiz terminar o inventário é que vai pensar em devolver a menina. E acha também que você não está boa da cabeça, que a morte de Afonso afetou seus nervos e não vai entregar a menina a uma mulher maluca e doente.

– Maluca, eu? As lágrimas já brotavam de seus olhos. Quem inventou essa mentira?

– Bom, ela alega que você não quer trabalhar, que não pára em casa e passa as noites tocando flauta na praça feito uma doida. O que eu posso fazer, Eu, disse ela pra mim, e se ela quiser, é arrumar aqui em casa um emprego de arrumadeira pra ela, para fazer limpeza, arrumar os quartos, lavar as roupas, desde que não fale com a menina. E vou observar ela bem de perto, se parecer sadia, sem fraqueza dos pulmões nem da cabeça, aí, sim, a menina pode voltar pra ela.

– Desgraçada, gritou Arlete, infeliz, ladra de crianças. Eu vou procurar o juiz, quero minha filha de volta.

Eu passou o braço pelos seus ombros magros.

– Vai ser pior, Arlete. Quando disse a ela que você poderia fazer isso, sabe o que ela me disse? Que faça, vamos ver quem vence. Ela vai ter que provar ao juiz que tem condições de sustentar a menina, de dar a ela tudo o que eu dou. Ela está pensando que o dinheiro da venda do açougue vai durar pra sempre, mas sem juízo como é, em pouco tempo vai estar sem tostão. Acha que o juiz vai entregar a criança a uma mãe doente e tresloucada como ela? Duvido. É capaz de me dar a guarda definitiva da garota.

Arlete tapou o rosto com as mãos. Os soluços a sacudiam.

– O que que eu faço, Eu? Pelo amor de Deus, me ajude! Eu quero, eu preciso da minha filha, saiu aqui da minha barriga, mamou nos meus peitos, ela é minha! O que que eu faço?

– Por enquanto chore, chore bastante para aliviar sua alma. Depois coma um pouco do que eu trouxe. Aposto que não comeu nada o dia inteiro, né? Assim vai ficar doente de verdade e Dinha não entregará a menina. Vamos comer e depois pensar. Nós vamos encontrar uma maneira de sair dessa tramóia. Aquela mulher é diabólica, eu percebi.

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