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Os papa-capins

 

Há muito quero falar desse assunto, ainda não sei se vou abordá-lo de forma correta, mas não dá mais para esperar. Meus dedos coçam a cada vez que vejo passar alguém com um papa-capim encerrado numa gaiola coberta com um pano branco ou canários a pipilar em gaiolas penduradas nas paredes.

É uma maldade, eu acho. Além de presa, sem poder voar, sem liberdade, a pobre ave é privada da visão do ambiente que a cerca. Talvez, comenta um conhecido, seja para evitar que ela se desespere e se jogue contra as varetas de sua prisão na busca de bater as asinhas e pousar num dos galhos das árvores para sentir o frescor de sua sombra, o suave farfalhar das folhas, o estimulante perfume das flores, o contato com outros seres voadores como borboletas, mangangás, vespas e abelhas e outras espécies de pássaros.

Meu pai gostava de passarinhos em gaiolas, eu não. Admito, no máximo, os nascidos em cativeiro, como canários e periquitos australianos. Soltos não saberiam como fazer para se alimentar, seriam presas fáceis de outros caçadores. Me afirma outro amigo que assim preservam a raça. Qual! Como preservam, se eles não podem se reproduzir, e se pudessem, como os canários, estariam criando novos prisioneiros?

Criadores se especializam na reprodução das aves para venda. Curiós, por exemplo, valem muito dinheiro. E traficantes de pássaros se arriscam em matas inóspitas para arrancar filhotes de seus ninhos. Crueldade demais. Os sabiás da praia do Açu se acabaram porque os caçadores vigiavam o ninho para roubar filhotes do único casal que havia sobrado de anos de perseguição implacável. Um dia o casal morreu e a espécie se extinguiu na região. Em Rio das Ostras, no entorno da lagoa de Iriri, os sabiás vivem soltos, ciscando a areia. É bonito de se ver.

Os pobres papa-capins são presos por crimes que não cometeram. Já indaguei de um orgulhoso possuidor de um desses cantadores da natureza como se sentiriam caso fossem presos sem culpa. Me respondeu com um sorriso amarelo, sem graça, dizendo não achar nada demais prender o bichinho e muito pelo contrário, se elogiar por lhe fornecer alpiste e água limpa, como se ele não encontrasse isso na natureza.

Sou contra esses aprisionamentos. Sou contra jardins zoológicos, sou contra animais treinados para fazer gracinhas na base de pancadas ou privação de petiscos. Certa vez, acho que foi nos Estados Unidos, puseram numa jaula de um jardim zoológico uma família de seres humanos, um casal e seus filhos. Uma experiência cruel e não durou muito, porque os prisioneiros reclamaram. Aqui, pelo menos, proibiu-se a exibição de feras e outros animais nos circos.

Os pássaros não sabem reclamar. Ou sabem e seu belo canto, se traduzido para a linguagem humana, seja uma ladainha de reclamações e de lamentos pela liberdade perdida. E a liberdade é um bem precioso demais para ser tolhida. A liberdade é tão importante que fez parte dos motivos para a revolução francesa no século 18 e faz parte da bandeira do estado de Minas Gerais. A liberdade é um bem precioso. Por ela lutaram os escravos no século XIX e presos se arriscam ao fugir de cadeias.

Aos domingos, no Ginásio de Esportes, dezenas de homens livres levam seus presos para participar de um concurso de cantos. Há prêmios para os vencedores do torneio. Quanto mais o pássaro cantar, mais ganha prêmio. E se esses cantos forem lamentos desesperados? Talvez no futuro, com o desenvolvimento de pesquisas e de decifradores de linguagens de animais se consiga entender o que cantam os papa-capins e outros pássaros cativos. Muitos donos de arrependerão de tê-los mantido presos, outros não se importarão. Continuarão a levá-los para torneios ou simplesmente para exibi-los e não se importarão de carregá-los pelas ruas, a pé, de bicicleta e outros meios de transporte, em suas gaiolas cobertas, num doloroso e ridículo desfile de insensatez e inconsciência, como os antigos senhores faziam com seus escravos.

RDO,abril.16

 

 

3 \03\UTC agosto \03\UTC 2017 at 10:23 Deixe um comentário

MAIS DUAS NOTAS

*Desde cedo pipocavam foguetes, o que dava para supor que haveria festa para um santo. Porém como não houve, ou não ouvi, a tradicional alvorada, imaginei que o pipocar seria anúncio de algum evento municipal notável. Como sempre ocorre, tudo aqui merece ser festejado. Durante todo o dia fogueteadas esparsas feriam os ouvidos, essa é a terra do foguetório desde que o traficante André da Graça rebocou pra cá SM D. Pedro II a fim de visitar nosso saudoso porto flúvio-marítimo. Há de se acostumar.

Porém nada me havia preparado para a espantosa barulheira do início da noite do dia 25 deste julho, quando “trocentas” motos e uns tantos carros com as descargas abertas invadiram nossas ruas pipocando, roncando, chiando, fazendo mil outros ruídos desagradáveis para festejar São Cristóvão. Eu escrevi festejar? É possível isso?

Furdunço para festejar santo? Acordando velhos, crianças e doentes, impedindo que trechos de programas de televisão fossem ouvidos, obrigando os moradores das ruas por onde passava o estrondoso desfile a trancar as janelas e se esconder no fundo dos quintais, ao contrário do que se vê em outras manifestações religiosas? A isso se chama festejar?

Será que o santo pretensamente homenageado aprovaria essa doideira? No meio do barulho um veiculo transportava a imagem do santo – acho que era aquela esculpida por Uilton Mallet. São Cristóvão foi um santo pacato, solidário, bondoso, que ajudava pessoas a atravessar um rio perigoso, homem bom, simples, apesar de filho de rei, que não acreditava em Cristo até que precisou atravessar um garoto, que ficava cada vez mais pesado à medida que adentrava na corrente da água, como se carregasse o peso do mundo nos ombros. Quando o depositou no chão e o menino se identificou Cristóvão se converteu.

Será que esse homem bom, tranquilo e calado, ficou satisfeito com esse tipo de “homenagem”, logo ele, que utilizava a canoa, o mais silencioso meio de transporte? O povo reclamou, bastava se ouvir os comentários indignados dos fregueses da padaria, do açougue e da banca de jornais no dia seguinte.

 

* Meus netos Pedro e Ana se estranham por conta da proximidade da data de seus aniversários, ele em agosto, ela em setembro, inaugurando a primavera. Esse estranhamento costuma acontecer com irmãos.

Nos meus tempos de criança, na época em que tinha aproximadamente a idade que eles têm hoje, as festas de aniversários infantis eram de uma pobreza franciscana se comparadas com as de agora.

A mãe assava um bolo simples e delicioso, que era coberto por glacê branco onde salpicava  bolinhas de cores variadas, mais comuns as vermelhas, amarelas e azuis, e no meio delas a vela que indicava a idade que completava o (a) excitado (a) aniversariante que, depois do jantar, reunidas as crianças da vizinhança, a assoprava ao som do indefectível parabéns procê. Durante o dia a mãe preparara balinhas de café, que eram amorosamente enroladas em papéis celofane coloridos, com a ponta esfiapada. Tinha também bolinhas de doce de mamão verde polvilhado de açúcar, carapitos, cajuzinhos e, se a situação financeira paterna permitisse, um litro de guará – guará, guará, melhor refrescante não há – e outro de crush. Delícia pura!

Os presentes eram quase sempre sabonetes baratos, caixinhas pequenas de lápis de cor e outras miudezas. Como ficávamos felizes! Hoje o aniversariante recebe presentes eletrônicos, caros, que logo serão abandonados pelos cantos da casa e presenteia seu convidado com bolsinha ou saquinho cheios de bobagens que não passarão do dia seguinte. E ainda saem falando mal!

SJB/jul.l7

 

 

30 \30\UTC julho \30\UTC 2017 at 12:06 Deixe um comentário

15ª FLIP – FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATYI

Eu sempre quis ir à Flip e nunca pude. No dia 26 começou sua 15ª edição, que vai até o dia 30, em Paratyi, no sul de nosso estado. O homenageado deste ano é o escritor Lima Barreto e ainda haverá um espaço dedicado do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, em reforma desde que se incendiou em dezembro de 2015, uma perda lamentada até por quem não é usuário do nosso idioma. A instalação em Paraty ficará na Casa da Cultura.

Reconhecida e prestigiada internacionalmente, a Flip – Festa literária Internacional de Paratyi, já trouxe ao Brasil grandes nomes da literatura e arte mundiais e neste ano espera-se uma maioria de mulheres. Os debates acontecerão no chamado auditório da Matriz de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira local, construção de 1873, com 18 mesas e 450 lugares. O preço do ingresso é de R$ 55,00, mas haverá um telão para os que não puderem ou não conseguirem entrar. O preço é alto e a crise financeira do país ainda está aí.

Parati é uma cidade linda. Uma das mais antigas cidades do país, emancipou-se de Angra dos Reis em 1667 e teve durante o período colonial um movimentado porto exportador de ouro, extraído das minas brasileiras. Seu município tem 930,7 km2 e população de 39.965. Prédios históricos bem conservados, belas paisagens, lindas praias de águas claras fazem de Parati importante polo turístico. Também é conhecida por produzir famosa cachaça e ser residência de d. João, neto da princesa Isabel e pai do conhecido fotógrafo d. Joãozinho.

A cidade e o escritor nacional homenageado nesta Flip, Lima Barreto, durante alguns anos ficaram longe dos olhos do público, ele por ter sido considerado escritor menor pelos beletristas, acadêmicos e editoras de sua época. Negro e pobre, neto de escravos, com problemas de alcoolismo, foi jornalista, carreira que começou no extinto Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, de onde foi demitido ao escrever o romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, inspirado no cotidiano do jornal. Lima trabalhou em outros jornais e revistas e publicou mais dois romances em que critica a vida social e política da cidade e do Brasil. Outro romance seu foi publicado depois de sua morte, ocorrida aos 41 anos, por doença provocada pelo alcoolismo. Diz Joselia Aguiar, curadora desta Flip: “O que eu gostaria é que a Flip contribuísse para revelar o grande autor que ele é. Para além das questões importantíssimas sobre o país que ajuda a levantar, tem expressão literária inventiva e interessante, à frente de sua época em termos formais, capaz de inspirar toda uma linhagem da literatura em língua portuguesa.”

Por sua vez Parati ficou fora do alcance do público que hoje lota suas praias e seus hotéis devido à dificuldade de acesso, por um tempo só possível por mar. Em parte foi bom para a  preservação de seu casario e de suas ruas adaptadas à chegada das marés altas, já que está a apenas cinco metros acima do mar. Hoje é uma joia histórica e um monumento da arquitetura colonial. Tem ainda uma colônia de pescadores e um mercado de peixes.  Passei duas ou três férias ali com meus filhos pequenos, lembranças gostosas.

27 \27\UTC julho \27\UTC 2017 at 11:15 Deixe um comentário

TEMPOS DIFÍCEIS

O Brasil está passando por tempos difíceis, tristes e vergonhosos. Os jornais não param de dar manchetes escandalosas relacionadas a roubos de verbas públicas. Como no tempo do jornal alternativo O Pasquim, uma charge mostrava que ao abrir o jornal a gente levava um soco na cara. Está assim agora. A diferença é que desta vez, graças à operação Lava jato estamos vendo empresários e políticos irem para a cadeia. Naquele tempo só pobres e adversários do regime eram presos. Apesar da ação saneadora da Lava Jato, os notórios larápios continuam a fraudar e meter a mão suja no dinheiro público. Não têm medo nem vergonha na cara.

Quando a ex-presidente Dilma Roussef caiu, após mandato e meio de mau governo, arrastando alguns políticos bandidos na queda, todos pensaram que a situação ia melhorar. Seu substituto era o vice Michel Temer, em quem ninguém votou, mas de quem se esperava um governo melhor até às eleições de 2018. Não era um homem simpático, de andar duro e gestos poucos amáveis, parecendo mais um mordomo que um político. As boas impressões logo se desfizeram ao se constatar que ele levara para assessorá-lo uma constelação de políticos safados, fisiológicos, corruptos.

A Lava Jato, da PRF, já havia feito estragos nas hostes políticas e ministros com a reputação manchada começaram a ser substituídos. Os que entravam em seus lugares não eram melhores. As acusações borbulhavam na imprensa. Pela primeira vez viu-se que cadeia no Brasil não era apenas para alguns. Poderosos empresários e políticos passaram a frequentá-las. As delações premiadas, largamente utilizadas em outros países passaram a ser usadas pelo Juiz Sérgio Moro e a abater as aves de rapina em pleno voo. Políticos pouco sérios chiaram, é claro, mas o Supremo Tribunal Federal abençoou a prática e com a entrada em cena do Moro o cerco foi se fechando. Presos, empresários, publicitários, políticos e seus operadores, se dispuseram a delatar malfeitos e malfeitores para ter suas penas abrandadas.

O castelo de cartas do mal foi se desfazendo. As delações da Odebretch e da OAS, empreiteiras de peso e presença internacional, onde também cometeram seus malfeitos, foram importantes, mas as gravações de Joesley Batista e seu irmão, abalaram de vez os alicerces da presidência da República, que até então eram tocados de raspão pelas delações. Todo o arcabouço corruptivo montado pelos políticos maus e empresários gananciosos ruiu.

Como disse Sérgio Moro, por mais alto que alguém suba na vida ainda é alcançado pela lei. Nem o presidente da República, se denunciado, escapa de uma investigação e caso seja culpado de uma punição. A politica é necessária e deve ser a mais correta possível. Temos de deixar de votar em notórios corruptos e, se caso eleitos, se optarem por atos desonestos, que visam usufruir do dinheiro público em proveito próprio em detrimento do atendimento das necessidades da população, temos de retirar o apoio e aprovar iniciativas corretivas. Não mais podemos ter nos poderes republicanos homens gananciosos, sem escrúpulos; devemos acabar com o fisiologismo, o compadrio, o nepotismo, que tanto mal têm feito a nosso país.

A corrupção traz como corolário mentira, falsidade, desfaçatez e outras atitudes, o pior de cada um. Como um homem tira dinheiro da infraestrutura, da educação, da saúde, para gastar em campanhas políticas ou mesmo em proveito próprio? A consciência não lhe dói? Como encara de frente sua família, seus amigos? Quando surge na tela da televisão um homem correndo para esconder uma mala com 500 mil reais roubados, como o deputado Loures, como ele tem coragem de olhar de frente seus pais, seus filhos, amigos? Ninguém mais vai confiar nele, a não ser os membros da quadrilha.

A inconsciência do mal que está praticando vem de braços dados com a impiedade e com todos os demais criminosos modos de agir. O Brasil está passando por uma séria crise econômica e fiscal, programas importantes são abandonados, verbas são contingenciadas, a recessão está difícil de ser combatida. No entanto, para não ter suas atitudes examinadas – e não ainda julgadas – pela Comissão de Constituição de Justiça o presidente da República sai cooptando o voto dos deputados, distribuindo quase 16 bilhões de reais para comprar o voto dos contrários e ainda atropela o processo fazendo os partidos, através de suborno, substituir os que pretendiam votar contra o governo. Aonde vamos parar com tanta sujeira? Foi para isso que demos nosso voto?

22 \22\UTC julho \22\UTC 2017 at 09:05 Deixe um comentário

Viva São João!

Neste sábado, 24 de junho, nossa cidade comemora o nascimento de São João Batista, seu padroeiro. Falta, porém, a animação de anos anteriores. Assisto a passagem da procissão, com poucos fieis, e até o andor tem menos flores. Passa um menino vestido como o santo e algumas anjas adolescentes. Ficaram curtas as extensas alas de homens vestidos de ternos, com opas com o símbolo da Irmandade. Também poucas as mulheres na outra ala. A Banda musical toca com o mesmo entusiasmo e maestria.

No andor, a imagem de são João vestido com túnica vermelha e manto, tendo no braço direito, dobrado, um livro grosso, sobre o qual está um cordeiro deitado; o outro braço segura um cajado. Tudo errado. Essa imagem não é do Batista, pode ser a do Evangelista, e a troca aconteceu na reinauguração do prédio da matriz, consumido por um incêndio em julho de 1882. As obras de reconstrução haviam demorado cerca de dois anos, o povo reclamava, uma vez que ajudara seu custo com espórtulas. A imagem para o altar mor havia sido encomendada no exterior e não chegara a tempo; foi colocada outra em seu lugar, e a do santo posta no batistério, a imagem de um homem em tamanho real, vestido com uma pele de camelo. Teve quem se aborrecesse comigo quando contei essa história, retirada de antigos jornais da cidade,

É interessante a história de João Batista, que segundo a Bíblia, nasceu em uma aldeia da Judeia, filho de Isabel e do sacerdote Zacarias, ambos idosos, que sonhavam ter um filho. Assim como a Maria, um anjo anunciou o nascimento do menino, um verdadeiro milagre, dada a idade de seus pais, e mandou que o chamassem João. Avisou ainda que ele seria o precursor de Jesus, seu primo. E assim foi. João, que passou a ter o cognome de Batista por ter batizado Jesus, o Cristo, não era um homem comum. Sabedor de sua missão de pregador, quando adulto retirou-se para o deserto e passou a se cobrir com a pele de um camelo – como a imagem do batistério – e a se alimentar de gafanhotos e mel. Homem de altas virtudes e rigorosas penitências, que pregava abertamente contra Herodes Antipas, um governador corrupto que vivia amasiado com sua cunhada, foi considerado terrorista pelo governo romano, que dominava a região, e aprisionado por meses num calabouço até ser decapitado a pedido de Salomé, instigada por sua mãe, Herodíades, mulher de Herodes, em 29 de agosto.

Como se vê, faz mais sentido a representação do santo do batistério, mais fiel à história que a do altar mor. Voltemos, porém, às festividades que provavelmente são realizadas há mais de 300 anos, desde que o pescador Lourenço do Espírito Santo ergueu a capelinha em honra de São João, mais tarde imortalizada na tela pintada por Uilton Mallet, e que pode ser vista na capa do livro de Fernando José Martins, 2ª edição. São João é um santo requerido por muitas localidades como seu padroeiro. Macaé é uma delas, Meriti outra. Aqui, até o governo de Argeu Oliveira, a prefeitura bancava apenas a decoração das ruas, enfiando bambus enfeitados om bandeiras coloridas no meio-fio.

Fora isso, a Irmandade cuidava da programação e do custeio da festa. A procissão era concorridíssima e a parte profana muito animada, com a praça rodeada de barraquinhas. Não havia shows de cantores breganejos, mas havia os bailes quase de gala dos clubes sociais. Nesses dias ostentava-se o melhor e mais bonito traje. Toda a roupa comprada depois da Semana Santa era estreada na festa de São João. Meu primeiro blazer era de tweed e me pavoneei pelas calçadas da praça para exibi-lo.  O consumo de drogas, se havia, era mínimo, mas consumia-se muito conhaque, uma droga lícita, porque a noite de São João, que marca o solstício de inverno na parte sul do mundo, com sua miríade de estrelas e alguns balões, era a mais longa e fria do ano. Foi assim que bebi conhaque pela primeira vez. Os fogos de artifício, além dos entojados e onipresentes foguetes, eram as rodilhas coloridas acesas na ilha em frente à praça, Pai João e Mãe Maria, para não haver riscos para o imenso tambor que guardava álcool da indústria de bebida, junto ao cais do imperador.

A praça e as ruas que nela desembocavam ficavam cheias de gente. Época de namoros,  que às vezes só duravam aquela noite mágica ou engrenavam em namoro firme, caminho do altar. A moçada andava em torno da praça, em direções opostas, para ver e esbarrar em garotas e rapazes interessantes, enquanto num coreto atrás da matriz um leiloeiro apregoava suas prendas, todas ofertadas por fieis. Tinha de tudo, do bolo e pratos de doces feitos em casa a bezerros e cabritos, oferta dos fazendeiros da região. Com a venda apurada pagava-se a maior parte das despesas da festa.

A noite, apesar de longa, esvaia-se rapidamente e deixava as lembranças dos           furtivos toques de mãos e dedos e dos beijinhos roubados rapidamente, atrás das árvores esculpidas pelos jardineiros da prefeitura. Como era bom!

 

 

 

 

 

 

 

 

1 \01\UTC julho \01\UTC 2017 at 09:18 Deixe um comentário

NOTAS ESPARSAS

Assisto um capítulo da novela das seis na TV Globo. Há muito que novelas não me atraem. Acho-as repetitivas, sem imaginação, repaginando sempre os mesmos enredos com algumas poucas diferenças. A última a que assisti foi “Eta, mundo bom”, baseada em livro de Voltaire. Tinha lances e personagens interessantes e bastante humor. A atual, que se pretende estórica, isto é, baseada em fato histórico, é tão fantasiosa que assombra. D. Pedro I está razoável, embora tenha mandado o Chalaça, seu real companheiro de farras, para as calendas gregas. Novos personagens são criados para movimentar a trama, mas algumas liberdades são imperdoáveis e desnecessárias. A imperatriz Leopoldina ficou linda. O período em que a novela se passa já foi bastante movimentado para precisar dessas liberdades. O pior é que muitos vão pensar que o que ali se conta é a verdade e não um movimentado enredo para tornar a história mais comercial, aumentando a audiência e em consequência o número e o preço dos anúncios inseridos. Será que no final haverá um esclarecimento ao público?

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Que cidade será essa onde transcorrem muitos dos meus sonhos? É uma cidade muito antiga, com belos prédios deteriorados, ruas enlameadas por onde transitam animais, como cavalos, cães, cabritos, galinhas, onde parece ser o centro. Por entre igrejas que lembram o barroco brasileiro, surgem minaretes de evidente inspiração árabe, casas com janelas fechadas por treliça, jardins internos com muros derruídos e chafariz quebrado. Por suas ruas, sempre escuras, escorrem procissões, cujos santos que passeiam de andor não distingo, seguidos por bandas musicais diluídas na neblina. Conheço tudo dessa cidade de sonho. Ando pelas ruas cheias de poças dágua, tábuas para facilitar o acesso, passo por jardins danificados pelo descaso, onde algumas dálias conseguem se equilibrar na ponta de hastes verdes, cercadas por mini cercas vivas de saudades roxas e brancas, subo nas calçadas, de arroxeadas pedras são tome, ouço galos entoando sua música de acordar sol, galinhas excitadas pela presença da multidão de baratas que correm tontas entre os canteiros destroçados, empurro as pesadas portas de madeira pintadas de azul desbotado, entro na sala, casas de maribondos pendem das ripas que seguram o teto, os cômodos são simples, lavados, com móveis velhos, cambetas, desbeiçados, sem graça. As únicas pessoas que vejo são mulheres cansadas que lavam louças e roupas em grandes bacias com grosso fundo de madeira, oscilantes, sobre a calçada suja. Não vejo seus rostos, curvados sobre o trabalho. Uma criança chora num dos cômodos.

Que cidade será essa? Por que ali se passam muitos dos meus sonhos?

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Passava das sete da manhã e a condessa não havia aparecido, o que era de se estranhar. Sua figura hierática, lembrando uma deusa egípcia, costumava ser pontual. Não sabíamos seu nome e por qualquer nome que a chamássemos mal nos dava um olhar desinteressado, blasé. Ninguém sabia de onde vinha, se aboletava sempre no mesmo lugar, de onde nos enviava, quando lhe dava na telha, seu olhar frio, entre desdenhoso e altivo, daí o apodo de condessa. Não dava a mínima. Também não ligava para qualquer ameaça, nem se impressionava com os chamamentos. Vinha sempre cedo e os primeiros de nós que acordavam fingiam ostensivamente ignorá-la para não lhe dar confiança. Parecia pouco se importar com nossa atitude infantil e da mesma maneira retribuía. Era uma deusa, uma dama da corte, fazia jus ao título de condessa. Bastava o galo estridular os ares com seu campo forte, espantando os pombos aninhados nos beirais, para surgir com seu andar ondulante em preto e branco. Bocejava, acintosa. Sua primeira olhada era panorâmica, circular e desconfiada, ainda de pé. Nada percebendo de diferente ou ameaçador, dava um gracioso saltinho para a ponta do muro e sem se importar com olhares ou piadas, se punha a cuidar de sua minuciosa higiene. Apenas o voo rasante de uma andorinha distraída a fazia interromper o minucioso trabalho e lançar um olhar malévolo à inoportuna ave. Às vezes, com displicência, balançava seu rabo felpudo. Só então, apoiada nas patas da frente se esticava, distendendo o arco do mimoso corpo, e com graça e sem fazer qualquer barulho, caminhava lentamente para a outra ponta do muro, onde havia um ressalto, cerrava olhos verdes e se entregava ao sol. Por duas ou três vezes no dia sumia e imaginávamos que ia comer. Voltava para o mesmo lugar, não olhava para ninguém, embora percebêssemos que nos observava.

Por onde andará essa gata abusada e fascinante?

RDO/SJB-junho. 17

25 \25\UTC junho \25\UTC 2017 at 11:19 Deixe um comentário

QUEM DIRIA QUE UM DIA FOMOS CABO FRIO.

Quem vê uma Atafona destruída, com as águas barrentas do oceano arrasando o que resta de sua orla, na certa terá dificuldades em aceitar que já pertencemos a Cabo Frio. Não ao badalado e sofisticado balneário de hoje, mas à comarca de Cabo Frio, a quem pertenceram vários municípios do norte-fluminense. Assim como é difícil acreditar que possuímos um importante porto flúviomarítimo, que mereceu a visita de um chefe de estado, D. Pedro II, e foi ponto de escala de passageiros e cargas para Amsterdam, na Holanda, e Nova Iorque, nos Estados Unidos.  Como diz um amigo e conterrâneo, somos a “cidade do já teve.”

No tempo em que pertencemos a Cabo Frio a cidade ainda não era essa maravilha dagora, que recebe celebridades de todo o tipo, sedia festivais e tem suas areias claras e águas azuis enfeitadas por mulheres e homens que só vemos nas capas de revista. Naquele tempo era um ponto de desembarque de portugueses que cá vinham para enricar. É fácil constatar isso ao examinar o material guardado em seu Arquivo Público.

Apesar de sua rica história, que envolve eventos significativos para economia do estado, como a pesca, a indústria naval, a pecuária, a agroindústria do açúcar, o turismo, São João da Barra não tem um Arquivo Público onde se pesquisar, apesar do projeto da professora e historiadora Tania Aquino, que encalhou em alguma gaveta da prefeitura e lá vegeta, junto com a foto do astrônomo sanjoanense Domingos Fernandes da Costa, presente do falecido físico Marcomede R. Nunes, do Observatório Nacional.

A cidade de Gramado/RS, com 166 anos de fundação, tem seu Arquivo Público que orienta seus pesquisadores, já em nossa cidade, de 1850, isto é, de 167 anos, por não ter Arquivo, nomes de ruas são trocados de acordo com o interesse eleitoreiro dos vereadores, sem que se verifique o tempo e a razão do nome anterior, o que sempre causa confusão para os historiadores. A rua Joaquim Thomaz de Aquino Filho, já foi rua Dr. Motta Ferraz, Dr. Miguel Couto, Direita e Caminho Grande. E ninguém sabe o porquê de tantas trocas. Nosso município se soltou da comarca cabo-friense, tem mais de 300 anos. Talvez fosse melhor ter continuado onde estava.

Há alguns anos, sendo secretária municipal de Educação a professora Katarine de Sá Santos, foi feita uma segunda edição do livro basilar de nossa história, “História sobre a povoação e fundaçãode São João da Barra e dos Campos dos Goytacazes” de 1868, de Fernando José Martins. Alguns exemplares foram distribuídos, os demais desapareceram misteriosamente. Uns poucos exemplares escaparam. O mesmo aconteceu com os 200 exemplares do importante livro “São João da Barra, apogeu e crise do porto do açúcar do norte-fluminense” de Paulo Paranhos, que o autor doou à biblioteca municipal, documento que deveria estar sendo estudado em nossas escolas fundamentais e médias, para nunca mais alguém perguntar se o balaústre da beira do cais foi colocado ali pela prefeitura para evitar que alguém caia no rio ao apreciar nosso mais que belo por do sol ou as animadas procissões fluviais em homenagem a São João.

São coisas pequenas, sem importância? Não, não são, são tijolos da civilidade, forma de se identificar e se orgulhar de pertencer a um município tão importante, apesar de todos os golpes que tem sofrido. Desde que, segundo João Oscar, poeta e historiador, autor de outro livro básico de nossa identidade cultural “Apontamentos para a história de São João da Barra”, livro que a municipalidade deveria reeditar – não fica tão caro – e distribuir nas escolas municipais, nos desligamos de Cabo Frio, após a foz do rio Paraíba do Sul ter sido desobstruída da invasão das geoberas, tivemos um período mortiço, até que do próprio Cabo Frio veio o impulso para progredir. A pesca, uma das mais antigas alimentação do ser humano e que sempre fora uma das formas da população cabo-friense se alimentar, estabeleceu aqui povoações e o município se consolidou. Tudo isso está documentado e deveria estar no Arquivo Público de nossa cidade que um dia, certamente, quando os gestores públicos locais forem mais esclarecidos, será criado.

SJB, junho/17

 

 

 

 

 

21 \21\UTC junho \21\UTC 2017 at 09:25 Deixe um comentário

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