PARTE I

PARTE I

1. BREVE HISTÓRICO

 

INTRODUÇÃO – OS GOITACÁ

No princípio era uma vasta extensão de terras cobertas por luxuriante vegetação tropical de um continente que Portugal acabara de encontrar, dizem que por acaso, e que chamou de Ilha de Santa Cruz e Terra de Santa Cruz, antes do nome definitivo de Brazil, habitada pelos índios goitacás, que se dividiam em três grupos: goitacá-guaçu, jacoritó e mirim.

Chamados de tigres humanos pelos missionários portugueses, não só por seus hábitos antropofágicos como por suas habilidades guerreiras, os goitacás não eram os devoradores cruéis lendários, estavam apenas defendendo com bravura as suas terras, invadidas pelos brancos. Viviam em guerra constante com seus vizinhos pelo mesmo motivo.

Os valentes goitacás ocupavam o território entre o rio Paraíba do Sul e o rio Macaé, junto com outras tribos, como a dos nômades Puri. Fisicamente diferentes dos demais indígenas do país, eram altos, com pele mais clara e grande cabeleira que ia até às nádegas, embora fosse raspada no alto da cabeça. Eram “fortes e membrudos” como assinalaram os jesuitas, extremamente velozes nas corridas, daí seu nome, dado pelos tupis, e grandes nadadores. Falavam língua diferente das línguas das outras tribos e nada deixaram escrito, por isso não se conhece seu idioma e nem se sabe como eles se intitulavam. Todos os topônimos da região são de origem tupi. Viviam em áreas alagadas, brejos e manguezais, e construíam suas casas sobre mourões, evitando que fossem surpreendidos pelas ocasionais cheias do rio. Os portugueses achavam que eles eram anfíbios, pois desapareciam nos mangues e brejos quando perseguidos.

PRIMEIROS TEMPOS DA CAPITANIA

 

Pedra mó dos primeiros engenhos de açúcar. Foi emprestada ao Museu do Nordeste, no Recife/PE.

A história do município de São João da Barra começa quando Portugal, depois de ter deixado por muitos anos as terras que descobrira no novo mundo sem qualquer utilização, entregue à sanha de exploradores de outros países, especialmente piratas franceses e ingleses que vinham em busca de pau brasil e outras preciosidades, resolve voltar seus olhos para o Brasil, divide o território em capitanias hereditárias e as doa a seus fidalgos.

O fidalgo Pero de Góis da Silveira recebeu por doação de D. João III a capitania da Paraíba do Sul (ou São Tomé), com 30 léguas de costa, habitada por indígenas, entre as capitanias do Espírito Santo e São Vicente. Depois de uma viagem pelo litoral de suas terras, Pero de Góis se estabeleceu ao sul do rio Itabapoana onde ergueu uma povoação na Barreira do Retiro, a Vila da Rainha.

Em Vila da Rainha Góis pensou produzir açúcar, que alcançava alto preço na Europa. Não deu certo.Os goitacás, que durante algum tempo se mantiveram como pacíficos observadores, eventualmente colaborando com o donatário, entraram em choque com os invasores, que quiseram submetê-los a trabalho escravo, e durante uma viagem de Pero de Góis a Portugal em busca de sócios e capitais, arrasaram a vila e a plantação. Pero ainda tentou reativar a engenhoca, rio acima, mas depois de nova investida dos goitacás, e de uma luta que durou cinco anos com os indígenas, voltou para Portugal, em 1548.

Na sua ausência, aventureiros ingleses se estabeleceram no local, unindo-se aos índios. Após a expulsão dos invasores, Gil, filho de Pero de Góis, associado a João Gomes Leitão, tentou retomar a produção de açúcar, erguendo uma povoação na foz do rio Itapemirim, a vila de Santa Catarina (das Mós), mas os conflitos com os índios recomeçaram, mais uma vez por questões de maus tratos e escravização, e a vila foi novamente destruída. Pesou muito nessa briga a entrega de um cacique goitacá, aprisionado pelo pirata português Henrique Luís, a uma tribo adversária, que o devorou, bem como o tumultuado caso amoroso do novo donatário com uma jovem índia, cujo espancamento pela ciumenta mulher de Góis, provocou o violento ataque. Em 1619 Gil de Góis renunciou aos direitos hereditários e devolveu a capitania à Coroa. Termina aí a primeira tentativa de explorar economicamente as terras sanjoanenses.

A produção açucareira no município só teria sucesso por volta de um século depois.

Durante cerca de 100 anos os goitacás impediram que os portugueses se fixassem na região. Uma guerra bacteriológica, quando os lusitanos espalharam roupas e objetos contaminados com vírus da varíola e da gripe nas trilhas dos índios, dizimando-os, enfim permitiu a ocupação das terras.Os índios sobreviventes juntaram-se aos coroados na redução jesuítica de São Fidelis.

Trecho do manguezal da foz do rio Paraíba do Sul, refúgio dos índios goitacás e antigo habitat dos ururaus. Berçário da vida marinha,o manguezal da foz é bem conservado.

SÃO JOÃO DA PRAIA

Em 1622, Lourenço do Espírito Santo, pescador e comerciante de artigos de pesca, morador de Cabo Frio, acompanhado de outras famílias, se estabeleceu na foz do rio Paraíba do Sul, atraído pela alta piscosidade da região. Em 1630, sua mulher morre afogada e ele sobe o rio, erguendo um povoado a 4 km da foz, onde levanta uma capela a São João Batista. Segundo a lenda, no local havia um pouso de tropeiros, que ali pernoitavam antes de atravessar o rio. Inicialmente o povoado foi chamado de São João Batista da Barra.

Monumento em homenagem a Lourenço do Espírito Santo, em Atafona.

Ao sul do município, em 1627, os Sete Capitães – Gonçalo Corrêa de Sá, Manoel Corrêa, Duarte Corrêa, Miguel Ayres Maldonado, Antonio Pinto, João de Castilho e Miguel Riscado – ergueram seu último curral para a criação de gado vacum e cavalar na foz do rio Iguaçu. Os Sete Capitães, que haviam lutado contra os tamoios aliados aos franceses, ajudando a Coroa portuguesa a expulsá-los do Rio de Janeiro, receberam como uma espécie de indenização parte das terras que foram dos Góis, o trecho que ia do rio Macaé ao rio Iguaçu – hoje reduzido à lagoa do Açu – por onde espalharam seus currais de gado. Em razão de os capitães administrarem os currais à distância, pois voltaram para suas propriedades próximas ao Rio de Janeiro, muitas reses fugiram e se espalharam pela restinga e matas, retornando ao estado selvagem. As crias dos animais fugidos passaram a ser chamadas de “gado de vento”, sem dono.

Assim surgiu a pecuária no município que durante muitos anos foi, junto com a pesca, suas principais fontes econômicas, fornecendo carne, couro, ossos e chifres para o mercado do Rio e outras cidades costeiras. Segundo o historiador Paulo Paranhos, em seu livro “Apogeu e crise do porto do açúcar no norte-fluminense” (Teresópolis, 2000), a criação de gado  “é característica de São João da Barra nos séculos XVII e XVIII, utilizando-se nos sertões um sistema mais desenvolvido de criação…”

Na segunda viagem de reconhecimento de suas terras, em janeiro de 1634, os sete capitães encontraram uma lagoa de altíssima salinidade que denominaram Lagoa do Salgado, hoje sendo dragada criminosamente para aumentar a área agricultável do seu entorno. Monumento geopaleontológico, com seus estromatólitos carbonáticos, seu tombamento como patrimônio da humanidade foi pedido à Unesco pelo Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

A beleza é apenas um dos aspectos da lagoa do Salgado que deve ser preservado.

Formação de estromatólitos – biohermas carbonáticos – na lagoa do Salgado

Com os Sete Capitães distantes, as terras que a Coroa lhes tinha destinado despertaram muita cobiça e foram doadas, em 1648, através de uma “escritura de composição”, com os herdeiros dos capitães – só dois capitães assinaram o termo – ao general Salvador Corrêa de Sá, seu filho Martim (Visconde de Asseca) e seu irmão João Corrêa, general do Estreito, aos jesuitas e frades beneditinos. Os novos proprietários dificultavam a criação de núcleos urbanos, alegando que diminuíam os pastos para a criação do gado, o que provocou a “revolta dos fidalgos”, na vila de Campos dos Goytacazes. Em 1676, após os muitos conflitos provocados pelos herdeiros de Salvador de Sá, os “heréos”, a Coroa portuguesa retomou as terras e só as devolveu aos Asseca com a condição da criação de duas vilas, a de São Salvador dos Campos dos Goytacazes e a de São João da Praia. Em 6 de junho de 1676  a vila de São João da Praia foi criada oficialmente, conforme o historiador Fernando José Martins. Outros autores, como Alberto Ribeiro Lamego, dão a data de 18 de junho de 1677

Em 1753 a Coroa comprou a parte da sesmaria dos viscondes de Asseca, onde ficavam as duas vilas, e a anexou à capitania do Espírito Santo, onde permaneceu até 1832.

ECONOMIA

 

A extração de petróleo no poço do Roncador tornou o município produtor, passando a receber um maior volume de royalties a partir de 1998.

A atividade de construção naval começa a se desenvolver no povoado,  já chamado de São João da Praia, em 1740, com o lançamento do barco “São João e Almas” do estaleiro de Manuel Francisco Brazin, Domingos Belchior e Domingos d’Oliveira. Logo seis estaleiros, instalados entre a vila e Atafona (então chamada de Barra), estão em funcionamento, produzindo embarcações. Segundo Alberto Ribeiro Lamego em “O homem e a restinga” (Lidador, Rio, 2ª edição, 1974), em 1868 os cinco principais estaleiros já “constroem vasos de alto porte, inclusive galeras e brigues de 10.000 arrobas…encomendas que chegam até do Rio Grande do Sul. Dali saíram as primeiras barcas da Cantareira, para a travessia da Guanabara.”

O porto se desenvolve e passa a ser frequentado por embarcações que transportam a produção do norte-noroeste fluminense, como açúcar, café, madeiras, couros, aguardente, carne e peixe salgados, queijos, farinha de mandioca e aves para o mercado nacional – segundo Lamego “em 50 navios exportam-se anualmente 1.900.000 arrobas de diferentes gêneros” – e a trazer implementos, maquinaria, móveis e utensílios e imigrantes para a região. Os escravos eram desembarcados na praia de Manguinhos e em outros pontos desertos do litoral norte do município.

Várias Companhias de Navegação trabalhavam no município, dentre elas a Cia. de Cabotagem de São João da Barra, criada pelo Barão de Barcelos em 1881, e a Companhia de Navegação São João da Barra-Campos, fundada em 1877 pelos coronéis Manoel José Nunes Teixeira, Manoel Felisberto e Manoel Antônio Cruz e acionistas, que funciona até 1920, chegando a ter mais de 10 vapores, sumacas, iates, saveiros e pranchas, quando foi vendida para a firma Lage&Irmãos, do Rio de Janeiro, que a desativou. Por essa época é extinta a Sociedade Beneficência dos Artistas, que atendia os empregados na navegação. A Beneficência Marítima fora extinta alguns anos antes.

Em 1847 o porto é visitado pelo jovem imperador Pedro II que impressionado com sua movimentação, elevou a vila à categoria de cidade com o nome de São João da Barra, em ato de 17 de junho de 1850. Vice-consulados de Portugal, Espanha, Império Britânico e Países Baixos se instalam na cidade, onde funcionam até depois de 1880.

Também em 1847 é criada a Capitania dos Portos no município, onde ficou até 1998, quando foi transferida para a cidade de Macaé. Em 1852 surgiu o primeiro vapor de rodas e a navegação se estendeu até São Fidelis e Muriaé. Mas o canal navegável do rio Paraíba do Sul era instável, o atendimento no porto precário, havia perda e roubo de cargas, e os exportadores buscaram uma alternativa através da abertura do canal Campos-Macaé para o porto de Imbetiba, considerado ancoradouro mais seguro, menos sujeito aos caprichos das correntes e à interferência política. O canal, escavado a enxada pelo braço escravo, é inaugurado em 1875 pelo imperador e provoca forte queda no movimento portuário de São João da Barra, mas foi abandonado pouco tempo depois, pois suas condições também se mostraram precárias. O canal tinha 106 km de extensão e largura média de 15 metros. Na década de 1880 o porto refloresce e chega a receber 75 navios/mês.

A Comarca de São João da Barra foi criada em 13 de dezembro de 1872, pelo decreto nº 1870/72.

A igreja do padroeiro foi considerada oficialmente Matriz em 1644 pela prelazia do Rio de Janeiro. Erguida em alvenaria em 1818, foi destruída por incêndio em julho de 1882, reinaugurada e consagrada por sete sacerdotes, em 1884. O pintor Nicolau Cerbaz, pintou o painel atrás do altar-mor, hoje desaparecido. A nave é em forma de cruz, com duas capelas laterais. A mais antiga de suas Irmandades Religiosas é de Nossa Senhora do Rosário, fundada em 1727, cujo altar ainda é o original, em razão da capela não ter sido atingida pelo incêndio. A Irmandade do Senhor dos Passos foi criada em 1754 e a de São João Batista em 1857 pelo comendador Joaquim Thomaz de Faria. A torre destoa do conjunto arquitetônico do templo por ter sido levantada em outro estilo, em 1950, pela fábrica de conhaque, para comemoração do centenário da cidade. Segundo lenda a imagem do santo que está no batistério foi comprada para substituir a que foi queimada no altar-mór, mas como chegou atrasada da Europa, foi substituída pela de São João Evangelista.

Em 1859 começa a circular o primeiro jornal da cidade: “O São Joaneiro”. No auge das atividades portuárias quatro jornais circulavam semanalmente.  A luz elétrica chegou em 1927 pela empresa do alemão Bento Fladt.

Túmulo do Barão de Barcelos em Amparo, no 6º distrito.

Em 1878 é inaugurada a Usina de Barcelos, da Cia. Agrícola Campos-São João da Barra, do Barão de Barcelos e acionistas, com a presença do imperador e sua esposa, fato raro de acontecer. Desde o início do século, 26 engenhos de açúcar, sendo dois movidos a vapor, existiam no município. Nas ilhas do rio Paraíba havia seis engenhos. O Engenho Central de Barcelos, por obrigação contratual do financiamento imperial, é uma das primeiras indústrias da região a não utilizar mão-de-obra escrava. No final do século XX a Usina é adquirida pelo Grupo Othon e há notícias de que foi desativada em 2009.

A Santa Casa de Misericórdia foi inaugurada em novembro de 1882, segundo jornal da época, embora algumas fontes falem em 1855. Sua existência começou com uma doação em dinheiro feita por D. Pedro II quando visitou a cidade em 1847.  Atualmente o atendimento médico no município não é dos melhores, dependendo da Santa Casa de Misericórdia, onde foi instalado o Pronto Socorro. O Hospital Municipal Dr. Herculano Aquino, construído em local inadequado – em frente à estação rodoviária – nunca funcionou, apesar de inaugurado em 2004. Hoje abriga a secretaria municipal de Saúde. Em quase todos os distritos existem Postos de Saúde, mas os doentes graves e acidentados são encaminhados para hospitais de Campos dos Goytacazes.

A loja maçônica “Fidelidade e Virtude” nº 44 foi inaugurada em 13 de abril de1838. Até 1895 funcionou no Rito Moderno, passando naquele ano para o Rito Escocês Antigo e Aceito. Desativada (abateu coluna) em 1935, voltou a funcionar a partir de 1980. O atual Venerável é João Anísio da Silva Souza, funcionário do Fórum de Justiça Municipal.

O porto fluvial cresceu por mais alguns anos até que a chegada da estrada de ferro, em 1896, lhe deu o golpe de misericórdia. Transporte mais seguro e mais barato, por conta da política de dumping (fretes artificialmente mais baixos) desenvolvida pela empresa ferroviária, esvaziou a atividade naval; algumas companhias de navegação foram vendidas ou encerraram suas atividades, quase todos os estaleiros foram desativados, e a duras penas a atividade de transporte fluvial resistiu até depois da segunda guerra mundial, quando já havia sido parcialmente substituída pelas grandes pranchas, que mediam de 18 a 20 metros de comprimento e 1,5 a 2 metros de largura, com tripulação de no mínimo três homens e  que carregavam até cerca de 100 sacos de 60 quilos de produtos agrícolas, atendendo ao comércio regional.

 

DECADÊNCIA

 Do ciclo da navegação restam as ruínas do Trapiche dos Araújo, o cais de pedra que o Barão de Barcelos fez construir quando administrador da cidade e a residência do armador Coronel Nunes Teixeira, hoje Palácio da Cultura Carlos Martins (v. Parte III).

Até meados da década de 1950 ainda aportavam navios no cais de pedra. Três empresas de navegação mantiveram esse fluxo: a Irmãos Araújo, com trapiche no cais do Alecrim, a Irmãos Raposo e a Comércio Indústria e Navegação Mansur, de Simão Mansur, fundada em 1940, que  chegou a possuir oito navios, sendo o principal o “Espírito Santo”, com capacidade para transporte de 16.000 toneladas. A Irmãos Raposo surge em 1941, com a compra por Dirceu da Graça Raposo do navio São Pedro, rebatizado como Rosário, para transporte de açúcar. Levava 2.500 sacos por viagem.  Terminada a 2ª Guerra Mundial, seus pequenos navios se tornam antieconômicos e em 1954 a empresa se desfaz. Um dos motivos foi o incremento da atividade rodoviária nas estradas abertas ao longo do litoral brasileiro.

Ruínas do trapiche dos Araújo no antigo cais do Alecrim (Alecrim era mportante exportador e importador da época).

Em 1908 surge a indústria de bebidas criada por Joaquim Thomaz de Aquino Filho, cujo carro chefe era o Conhaque de Alcatrão, inicialmente chamado de Conhaque de Alcatrão da Noruega e depois de São João da Barra. A Indústria de Bebidas Joaquim Thomaz de Aquino Filho S/A produz o famoso conhaque, e já produziu vermutes, uísque, licores, vodka e cachaças, sendo a mais famosa delas a “Praianinha”. O criador da indústria faleceu em novembro de 1957, passando a direção da empresa para o herdeiro Hugo Aquino, que comandava um condomínio de ações, onde os acionistas eram os seus inúmeros irmãos, de quem eles foi comprando as cotas. Em abril de 1981 é criada uma holding, que passa a se chamar Grupo Thoquino, englobando outras cinco empresas, além da indústria de bebidas: a Thoquino Consultoria, Projetos e Empreendimentos, que controla a Thoquino Corretora de Seguros, a Thoquino Transportes, a Thoquino Comércio e Representações e a Thoquino Empreendimentos Imobiliários. Hugo Aquino faleceu em 5 de novembro de 2000 e a administração do Grupo Thoquino passou para Hugo Aquino Filho. Hugo Aquino Filho possui, em Atafona, o Sítio Mima, que produz animais de raça.

A indústria de bebidas foi importante ao absorver parte da mão de obra operária dos estaleiros fechados. Os operários mais especializados, porém, demandaram outros centros de construção naval como Niterói, Rio de Janeiro e Vitória/ES. A indústria de bebidas, junto com as fábricas de vassouras e esteiras, permitiu que a cidade sobrevivesse, uma vez que a pesca e a agricultura do município pouco evoluíram e o turismo não deslanchou.

Palhão, embalagem para garrafas e litros de bebidas antes do surgimento do plástico.

Na época surge uma nova fonte de renda para a população de baixo poder aquisitivo que vivia nos arredores da cidade: a produção de palhão, um cone feito com tabua (ou taboa), que servia como embalagem para as garrafas e litros de bebidas. Muitas famílias tiravam da produção de palhões e esteiras o seu sustento. O palhão perdeu importância com o surgimento do plástico e de outros subprodutos do petróleo utilizados como embalagem pela indústria.

Em 1939 foi montada no antigo 3º distrito (Barra do Itabapoana) a fábrica de farinha de mandioca “Tipity Ind. Mandioca Ltda” pelo austríaco Barão Ludwig Von Krumer, que chegou a utilizar oito caminhões e empregou cerca de 350 operários. O incidente da prisão de dois espiões nazistas em nosso litoral, levantou a suspeita de que o barão colaborava com os alemães, a empresa passou a ser perseguida pelas autoridades, foi fechada e mais tarde reaberta.  Em Gargaú, havia a famosa feira, semanal, que comercializava produtos hortifrutigranjeiros de toda a região, sustentou muitas famílias.

Foi um longo período de decadência econômica, quando os operários e suas famílias mudaram-se para outras cidades. Centenas de residências ficaram abandonadas. A atividade comercial se reduziu a funilarias, fábricas de tamancos e vassouras e pequenas lojas.

Em 1961, Dirceu da Graça Raposo cria, tendo alguns irmãos como acionistas, por exigência da legislação, a Tecex Fiação e Tecelagem, que produzia fios e tecidos de algodão para a praça de São Paulo. A empresa prosperou quando a energia elétrica passou a ser fornecida por Furnas, em meados da década de 1960, dedicando-se a fiar e tecer viscose e poliéster. Na década de 80 a empresa enfrentou dificuldades, que aumentaram quando o governo Collor abriu o mercado brasileiro às importações asiáticas. Em outubro de 1994 faleceu o fundador, Dirceu Raposo, substituído na direção pelo filho Marcos. Quatro anos depois suas ações foram vendidas para o empresário Emerson Poubem, que produz linhas de costura e bordado em Bom Jesus do Norte/ES, cliente da empresa. Em 2008, a empresa encerrou suas atividades.

O navio Marília, dos últimos adquiridos pela Navegação Irmãos Raposo. Na 2ª Guerra Mundial transportava alimentos para o nordeste do país. (coleção Marcos Raposo)

Atualmente o município tem como principal fonte de renda o repasse dos royalties do petróleo – é um dos 10 maiores produtores de petróleo do estado do Rio de Janeiro, desde 1996, do FPM – Fundo de Participação dos Municípios e outros repasses federais e estaduais – é pequena a arrecadação municipal -, que não são utilizados pela administração municipal para criar novas alternativas econômicas. Quando o porto naufragou, a cidade afundou junto porque não criou alternativas de geração de emprego e renda que atendessem a população. Na época, o município era o terceiro em extensão territorial no estado do Rio de Janeiro, e além da pecuária de corte e leite, produzia lenha, açúcar, pescados e outros bens. A cidade chegou a possuir fábricas de fósforos, cigarros e soda cáustica.

Obras do porto para escoamento de minério de ferro, parte do complexo que está sendo instalado no Açu.

A chegada do complexo portuário do Açu – porto marítimo off-shore, com siderúrgica e termelétrica previstos – da LLX/Anglo American, no 5º distrito do município, na primeira década deste século, que está sendo construído na antiga Fazenda Saco Dantas, da massa falida da Usina Baixa Grande, reacendeu as esperanças de progresso da população que, no entanto, não se capacitou para as oportunidades de crescimento possíveis, assim como a administração municipal não se preocupou em melhorar a infra-estrutura do município, fazendo com que parte da renda gerada na construção do porto se encaminhe para Campos. O início das atividades do porto está previsto para 2012 e poderá movimentar 25 milhões de toneladas de mercadorias/ano. Seu custo deve utltrapassar os U$ 6 bilhões.

Em meados de agosto, o Ministério Público Federal em Campos entrou com Ação Civil Pública contra a LLX Açu Operações Portuárias e LLX Minas-Rio Logística Comercial Exportadora alegando irregularidades no Complexo. Também está causando polêmica a desapropriação de grande área no 5

º distrito para a instalação de um distrito industrial. Cerca de 1.600 famílias de agricultores serão despejados e suas terras indenizadas pelo estado a preços vis. Segundo a ação judicial, “Não faz sentido a desapropriação de terras por parte do estado para fins privados. Só teria justificativa se fosse para um porto público.”

TURISMO/PESCA/AGRICULTURA

O turismo, que seria uma opção econômica viável, uma vez que o município dispõe de bons atrativos, como o rio Paraíba do Sul, com seu delta, manguezal, ilhas e lagoas – entre elas a do Salgado -, praias, prédios históricos, festas tradicionais e um carnaval considerado um dos melhores do interior do estado (as principais escolas de samba da cidade são: Chinês, Congos e Chatuba), além de boa capacidade instalada de pousadas, com cerca de 3.500 leitos, aí incluídos os do complexo turístico do Sesc Mineiro de Grussaí, bares e restaurantes, não deslancha por falta de incentivos da municipalidade. Não há a preocupação de atrair empresários do ramo com isenções fiscais e outras facilidades. Também sofre com a miopia da TurisRio, voltada apenas para as regiões com a indústria do turismo já em consolidação, como a Região Serrana, Região dos Lagos e Paraty, não divulgando os nossos produtos turísticos.

Esportes aquáticos, competições como regatas de canoas a vela e corrida de caiaques são desenvolvidas no rio Paraíba do Sul, sem programação fixa, nas festas municipais. Vale a pena fazer  passeios pelo delta.

A economia do município ainda se baseia no tripé agricultura/pesca/turismo. A pesca, que já foi seu forte, nunca recebeu incentivos nem aprimorou suas técnicas ao longo desse tempo e hoje rende muito menos do que poderia. A cana de açúcar é o principal produto agrícola, com maior área plantada, seguido do cultivo do tomate, goiaba, abacaxi, quiabo, aipim, pimentão e maxixe. Há uma pequena produção de doces caseiros batidos como goiabada, banacaxi, jaca, araçá-pero, caju, puxa-puxa e outros.

É difícil calcular a produção de carne, uma vez que o matadouro público foi desativado em 2008 por falta de condições sanitárias e os “frigomatos”, abate clandestino, estão presentes em toda a área rural. O número de cabeças da gado bovino apresentado pelo IBGE mostra-se bem menor que o número de animais vacinados contra febre aftosa, por exemplo.

Anote-se a existência da usina de beneficiamento de leite Fazenda Costa Agropecuária, em Rua Nova, 6º  distrito, que produz laticínios e o leite longa vida Sanjoanense.

Há uma incipiente criação de ovinos e caprinos.

Em 4 de abril de 1992 um grupo de empresários da cidade fundou a ACISA – Associação Comercial, Industrial e Agropastoril de São João da Barra. Seu primeiro presidente foi João Maia Paes e o atual é René Fernandes Azeredo

 

EMANCIPAÇÃO DE SÃO FRANCISCO DE ITABAPOANA

 

Enquanto floresceram as atividades portuárias, as duas partes do município separadas pelo rio Paraíba do Sul, se mantiveram unidas. O rio, ao entrar na parte arenosa da planície goitacá, se espraia e forma um delta de 15 km quadrados com 8 km de extensão de boca, medida de Gargaú a Atafona. A ausência de uma ponte, de difícil construção, graças a sua extensão, a falta de um objetivo econômico e estrada a unir as duas cabeceiras, tornou a ligação entre elas muito frágil. O transporte de cargas e passageiros entre as duas partes era feito por via fluvial, em pranchas, botes e canoas. Os munícipes da parte norte só vinham à parte sul, na sede administrativa, para resolver problemas fiscais ou jurídicos. A comunicação entre os lados se reduziu a esse mínimo, cuja execução dependia de viajar até Campos para tomar o trem ou ônibus até à cidade de São João da Barra ou enfrentar a forte correnteza do Paraíba, que se tornava um sério risco nas épocas das grandes cheias.

A ponte inconclusa sobre o rio Paraíba do Sul, que ligaria dos dois lados do antigo município de São João da Barra.   Iniciada em 1981 foi paralisada alguns anos depois.

Na década de 80, o deputado e empresário Alair Ferreira iniciou a construção de uma ponte entre Cajueiro e Cacimbas, obra paralisada por sua morte súbita em 1987. Ficou faltando a colocação da pista de rolamento e construção dos acessos. Como os dois extremos da ponte não se conectam com estradas, sua conclusão é bastante improvável, embora o atual governo estadual a prometa. A ponte Presidente Figueiredo, como é conhecida, diminuiria em  quilometros o trajeto até Vitória/ES e serviria como alternativa ás pontes campistas.

Em 1996, um plebiscito que envolveu apenas os moradores da parte norte, ensejou a criação do município de São Francisco de Itabapoana, que abrange três antigos distritos de São João da Barra (Barra Seca, Maniva e Itabapoana).

O novo município foi criado pela Lei nº 2.379, de 18 de janeiro de 1995, assinada pelo governador Marcelo Alencar. São João da Barra passou a contar com uma área de 461,9 km, um terço de sua área original, que já havia sido desfalcada com a perda para Campos dos Goytacazes do distrito de Morro de Coco, em 1878, e de parte do 5º distrito – localidades de Folha Larga, Quixaba, Bajuru e outras – em razão da mudança de limites determinada ao IBGE pelo então interventor  no governo do estado, Amaral Peixoto, no início da década de 1940. 

Limites: segundo resposta a consulta feita pela Câmara Municipal de São João da Barra ao IBGE, em janeiro de 1999, a divisa entre os dois municípios fica no canal do rio Paraíba do Sul, situado ao norte da ilha de Convivência, advertindo que seria necessária uma alteração do texto da lei 2.379/95 para oficializar o limite. Todas as ilhas do rio Paraíba pertencem a São João da Barra, que ficou com o terço menor de seu território original, caso raro nas emancipações ocorridas no país a partir de 1988.

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15 Comentários Add your own

  • 1. Andre Pinto  |  22 \22\UTC janeiro \22\UTC 2010 às 15:55

    Tô gostando…
    Continue na grande pesquisa, meu amigo Carlos!
    Grande abraço
    Andre Pinto

    Responder
  • 2. Cristiano  |  9 \09\UTC abril \09\UTC 2010 às 04:15

    Estou querendo montar uma linha do tempo com a história de SJB, e seu texto me ajudará bastante, parabéns pela pesquisa, admirável!!

    Responder
    • 3. carlosaadesa  |  9 \09\UTC abril \09\UTC 2010 às 11:12

      Obrigado, Cristiano, pelo incentivo. Mas há muito o que fazer pela história do município. Seria preciso que alguém fosse pesquisar nas coleções do Monitor Campista, da fazenda do Colégio (Arquivo Público de Campos) e da Biblioteca Nacional para o painel ficar mais completo.
      Sonho com o dia em que vai surgir um pesquisador interessado, por exdemplo, nas histórias de tesouros afundados no Paraíba, na outrora revolta foz e mesmo na cidade, como acontece em tantos outros municípios litorâneos brasileiros, que receberam ataques de piratas e outros aventureiros.
      Por oportuno, sugiro que leia meu romance “Porto da Fortuna”, ficção passada no auge do movimento portuário sanjoanense, fruto de pesquisas colaterais quando pesquisei para escrever “Zenriques, um jornalista político na província fluminense”, a biografia de meu bisavô jornalista.
      Mais uma vez obrigadxo, abs, Carlos Sá

      Responder
  • 4. Ademir Moore  |  16 \16\UTC abril \16\UTC 2010 às 19:01

    Carlos Sá
    Estava há algum tempo sem visitar esta página. Surpreendeu-me bastante o trabalho que você está tendo na pesquisa. Pena que a grande maioria dos sanjoanenses não deem o devido valor.
    Fonte maravilhosa para pesquisa escolar. Mostrei à minha filha que conta 12 anos e a mesma colocou na sua página de favoritos.
    Forte abraço, professor!

    Responder
    • 5. carlosaadesa  |  17 \17\UTC abril \17\UTC 2010 às 09:52

      Caro Ademir atender aos estudantes foi dos motivos que me fez criar esta página. Obrigado pelos elogios. Em breve estará no blog verbetes sobre os artistas sanjoanenses em atividade e uma relação dos órgãos de imprensa que já circularam no município. Obrigado pelo estímulo.Abs, Carlos Sá Em 16/04/2010 19:01, comment-reply@wordpress.com <

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  • 6. Marcos  |  15 \15\UTC junho \15\UTC 2010 às 17:52

    A história se repete… São João da Barra será, brevemente, a cidade do mundo. A Igreja será o pilar do novo começo. As forças do novo mundo já estão a olhar para ela, vejo grandes movimentos de massas em sua direção.

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  • 7. Norma s Mendes  |  3 \03\UTC agosto \03\UTC 2010 às 09:33

    Comecei a interessar-me pela historia de S J Barra quando descobri que sou descendente de um dos primeiros povoadores de la.Comprei alguns livros nos sebos de Campos para tentar fazer minha arvore genealogica.È muito legal, mas muito dificil pois existe uma grande dificuldade de acesso a documentos antigos.Ja estive na Fazenda do Colégio .Moro em Niteroi e a distancia é um dificultador para mim.
    Parabéns pelo seu trabalho! Realmente a pesquisa é algo fascinante!

    Responder
  • 8. Edevigens Monteiro cardozo  |  4 \04\UTC novembro \04\UTC 2010 às 18:53

    Há tempos venho acompanhando o blog, legítima trincheira em favor da nossa história. Grande abraço.

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  • 9. Karine Ribeiro  |  28 \28\UTC agosto \28\UTC 2011 às 21:31

    queria saber se nesse municipio tem alguma lenda

    Responder
  • 10. Renato Pires Mofati  |  15 \15\UTC novembro \15\UTC 2011 às 10:00

    Carlos A A de Sá… Seu sobre nome já diz tudo! Quem sabe um descendente de Mem de Sá ! Parabéns pelo blog muito bem elaborado e com informações preciosas. Bom, gostaria de verificar com você sobre a exata localização da Vila da Rainha de Pero de Góis, pois conforme pesquisa feita e encontrado documentos no arquivo público de Vitória, tem documentos como a carta escrita por próprio punho de Góis dizendo que a vila da rainha fica na embocadura do rio itabapoana com o mar, isso ele próprio comenta mais de uma vez, haja visto que existe um sítio arqueológico bem mais acima deste referido lugar (embocadura) que pessoas ligadas ao museu nacional diz ser a Vila da Rainha, não seria o tal Limeira do itabapoana??? precisamos esclarecer este fato, pois é história de vital importancia a todos nós! Aguardo resposta, um abraçõ do Renato.

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    • 11. layla  |  21 \21\UTC maio \21\UTC 2012 às 10:39

      “hey amor está em jogo”

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  • 12. Paulo Freitas  |  14 \14\UTC outubro \14\UTC 2012 às 12:16

    Sou neto de Venâncio de Freitas, português, que viveu em Campos, vindo a falecer em 1906. Minha avó, costurava para a Baronesa de Barcelos e o senhor Barão, certa vez deu de presente ao meu pai, um guarda-chuva, que ele sempre se lembrava do Barão e contava-me este fato.Além de meu avô, tinha o tio de meu pai, que se chamava, José de Freitas, que chegou a ser Delegado na Cidade de Campos, sendo meu tio-avô. Existe muitos dos FREITAS de Campos que são meus parentes,inclusive quando meus dois irmãos gêmeos, estudaram em Niterói, no Colégio Salesiano de Santa Rosa, chegaram a conclusão que éramos primos.

    Responder
    • 13. Paulo Freitas  |  14 \14\UTC outubro \14\UTC 2012 às 12:23

      Papai, ficou órfão aos cinco anos e veio com a sua mãe, minha avó, para a Cidade do Rio de Janeiro, Capital da República, morar na Rua Santo Amaro, no Catete, vindo ser costureira da Primeira Dama da República, que no momento não me lembro de seu nome. Assim que souber colocarei o nome da primeira Dama e o seu marido, presidente da República.

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  • 14. Maria Godoy de Azevedo de Castro Faria  |  20 \20\UTC fevereiro \20\UTC 2013 às 03:58

    Por favor, como retiro meu comentário do Blog? (Já que não obtive resposta ao questionamento por 4 meses) e o mesmo ainda aguarda moderação, gostaria de não deixar exposta minha relação com os dados passados. Por favor, pagague minha postagem,
    Attt,
    Maria Godoy de Azevedo de Castro Faria

    Responder
  • 15. Maria Godoy de Azevedo de Castro Faria  |  20 \20\UTC fevereiro \20\UTC 2013 às 03:59

    Errata: Por favor apague*

    Responder

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