Capítulo 6

A primeira coisa que fez ao despertar foi procurar alimento. A mata rala que recobria o morro estava repleta de frutinhas saborosas. Afora isso, havia muitos insetos, larvas e sementes caídas no chão. Passou dias ali, se recuperando, e sentiu pena em ter que abandonar aquele mundo verde, afeiçoara-se a ele e a seus habitantes. Era um mundo estranho, cheio de perigos e mistérios, mas fascinante. Ficou zanzando, conversando com os pássaros, se divertindo com as travessuras dos micos, vendo cobras rastejar, camaleões correrem por entre as raízes, sempre assustados, ouvindo feras urrar, uma sinfonia de sons e cores que fazia os colibris dançar e as borboletas bailar como folhas secas. Ia sentir falta de tudo. Quando em certa manhã o sol venceu a neblina que envolvia o morro, voltou ao topo da palmeira mais alta e distinguiu, ao longe, as casas espalhadas pelo vale e encostas. A cidade, seu mundo! Seu coração palpitava de alegria e chegou a sentir ternura pela fumaça que saía das chaminés. Era outro mundo, também belo e perigoso, mas seu mundo. Alçou vôo e alcançou as primeiras casas antes da noite chegar. Eram pobres e pequenas, algumas de madeira e lata, com árvores mirradas. As cercas estavam cercadas de lixo, de sacos plásticos, latas usadas. Achou estranho. Lembrava-se das casas grandes de sua infância, das ruas movimentadas. Poucos automóveis passavam ali, uns bois pastavam distraídos. Voou mais até achar uma casa de tamanho razoável, com o quintal cheio de animais. Ali encontraria comida e companhia. Estava ficando esperto. Passou a noite sob o beiral, conversando com uma cambaxirra faladeira e inquieta. Não conseguiu prestar atenção ao que ela dizia. Seu coração batia descompassado pela idéia de que em breve veria os pais e a irmãzinha. Só pensava nisso. Custou muito a pegar no sono. Fechava os olhos e via seu ninho, sua família, os amigos, e lágrimas de saudade molharam suas penas. Quanto tempo se passara! No outro dia, guiado pela cambaxirra faladeira que morava no beiral, conheceu os animais do quintal. Além do gato de olhos frios e do cachorro malhado, havia muitas aves, algumas em gaiolas. Riu da voz engrolada do peru e teve pena do papagaio gritador preso numa corrente. As galinhas também estavam presas num cercado. Não quero ficar aqui, pensou, todos vivem confinados. Nem esperou ver os donos da casa e foi embora. A cambaxirra lhe contou que na redondeza, um pouco distante, moravam uns pombos. Não sabia bem onde, mas se ele quisesse aguardar, toda tarde, quando o sol baixava, alguns passavam por ali. Vinham também umas andorinhas. – São muito metidos esses pombos, comentou ela, não são simpáticos como você. Não piam para ninguém, uns bocós. Por isso nunca me interessei em saber onde moram. Detesto bicho arrogante. Somos todos iguais, não somos? – Vai ver estavam com pressa, falou Pombote. – Que nada, são bestas mesmo. Mas como eu disse, você é simpático, e apesar desse tamanhão não esnoba os pequenos. Voou com ele até um mourão da cerca, bem distante da casa. Falou por bastante tempo, ao mesmo tempo que caçava umas larvas. E não o largou, o que em parte foi bom, pois diminuía sua ansiedade. Pombote só ouvia. E à tardinha os pombos surgiram em revoada pelo céu. Seu coração deu pulos de alegria. Que bom, pombos! Nem se despediu da nova amiga e subiu como um foguete ao encontro deles. A cambaxirra comentou, despeitada: – Ora, pombos! São todos iguais! Reconhecido e bem recebido pelo bando, acompanhou os pombos até o casarão que habitavam, em frente a uma praça maltratada, onde havia um jardim com uma pequena igreja. As casas se pareciam com as da rua onde vivera. Respirou aliviado, estava perto de seu destino. Decidiu que partiria tão logo se sentisse descansado e conseguisse saber ao certo em que direção ficava sua velha casa, mas uma pombinha marrom, de olhar brejeiro e doce, o reteve. A cada vez que se preparava para partir, Paloma, a pombinha, o prendia com seu jeito cativante. Chegava bem juntinho dele e pedia, num arrulho irresistível: – Conta de novo como foi que venceu o gavião… – Eu não venci, Paloma, eu fugi dele. Ela arregalava os olhinhos: – E escapar de um gavião medonho não é uma vitória? Você foi maravilhoso! Ele sentia-se um herói e recontava o caso com mais detalhes que inventava. Mas a saudade da família aumentava, queria rever o pai, a mãe, a maninha. Seu olhar se perdia no horizonte e Paloma se achegava, toda ternura: – Estou com tanta vontade de comer uma mosquinha…será que podia caçar uma pra mim? E lá se ia ele num vôo elétrico atrás da caça. De outras vezes ela lhe perguntava, tristonha: – Acho que está com saudade de alguma pombinha bonita que conheceu nas suas andanças e não me contou… – Não, Paloma, juro que não. – E a juriti, você não disse que era bonita? Aposto que se apaixonou por você. – Ela era velha pra mim, meu bem. – Você me chamou de meu bem! Você gosta um pouquinho de mim? – Um pouquinho, Paloma? Estou caidinho por você. Descobriu que não podia mais viver sem ela e inflando o pescoço que resplandecia ao sol e arrastando a bela cauda, arrulhou-lhe coisas de amor. Ela suspirou. Era tudo que queria. Casaram-se logo, mas ele impôs uma condição: não fariam ninho enquanto não reencontrasse sua família. E um dia depois do casório, voaram juntos por sobre casas e ruas em busca da velha escola.

   F I M

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