Capítulo 4

Enquanto voava, Pombote mantinha-se alerta contra qualquer tipo de ataque, lembrando-se da conversa que tivera com a coruja. Depois da última incursão do gavião no terreiro, o pombo, indignado, fez um verdadeiro comício contra a maldade do predador. – Por que ele tem tanta raiva de nós? perguntou, desolado e irado. A coruja estalou o bico duas vezes, como fazia sempre que falava de coisas sérias: – Ele não tem raiva de ninguém, não ataca porque quer destruir, está com fome e segue seu instinto de caçador. Eu também caço pequenas cobras, ratos e não é por maldade. E continuou, filosofando: – Todos nós, ao nos alimentarmos, destruímos uma vida, seja animal ou vegetal. Você não come insetos, não engole caroços de milhos, impedindo que germinem? Não somos ruins ao fazermos isso, simplesmente a natureza determinou assim. O homem é o único animal que caça por prazer e não apenas por necessidade. E como Pombote a olhasse sem parecer estar convencido, ela perguntou: – O que devem achar de você as larvas que devora? Já imaginou que para elas você é tão assustador quanto o gavião? É a vida. Agora vá e tome muito cuidado, os perigos estão no ar e na terra. Fique muito atento. Quando pousar, verifique se não tem cobra ou onça por perto ou mesmo um menino com uma atiradeira. Vá, boa viagem. Após um dia de vôo quase sem descanso, parando apenas para se alimentar, o pombo encontrou-se diante do rio. Extasiou-se com a visão do corredor de água a rolar macio, carregando barcos e plantas. Pousado num coqueiro, ficou um tempão vendo peixes pulando em busca de insetos e pássaros mergulhando para pegar peixes e entendeu a coruja. A viagem continuou sem incidentes. Na primeira noite dormiu no galho de um jenipapeiro, ao lado da casa do joão-de-barro, onde se abrigara uma juriti. Conversou com o casal e com a ave, sua parente distante, que se chamava Jurema. Papo agradável, relaxante, e dormiu tranqüilo. Jurema foi sua companheira de viagem por um bom trecho. No dia anterior, perseguida por um carcará, fora parar ali, bem longe de onde morava. Também estava voltando para casa. Jurema ensinou mais coisas a Pombote, lhe ensinava o nome das aves e plantas que ele não conhecia e o fazia apreciar os diversos tons de verde da mata, os formatos das árvores e a beleza das flores. Uma companhia gostosa e instrutiva. Quando ela chegou a seu destino ele continuou. Quando se cansava, parava de preferência nos casebres de palha que pontilhavam as trilhas. Quando quis se divertir, juntou-se a um bando de alegres e irrequietas piaçocas, barulhentas e bem humoradas. Faladeiras, elas sabiam de tudo o que se passava nas cercanias. Ele se sacudiu de rir com os comentários que fizeram sobre as marrecas irerês, que consideravam bobas e desajeitadas. – Só são bonitas voando, disseram. Andando são mais desajeitadas que patos. Os únicos problemas foram causados por meninos. Quando encontrava algum armado de bodoque ou colocando milho em arapucas, bem instruído, desviava-se. Mesmo que os caroços de milho estivessem apetitosos e ele com fome. Viu alguns pegando uns papa-capins grudados no visgo que colocaram num galho de árvore. Um bando de maritacas xingou os meninos malvados. Só que eles não entenderam a linguagem delas.

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