Capítulo 3

A casa era acolhedora e ficava junto ao riacho. Por ser velha oferecia lugares ideais para um pombo se esconder. Ou uma coruja, como a que morava bem perto da cumeeira e com quem travou boas relações. Também ela o aconselhou a desistir da viagem. – Morar aqui é ótimo, você vai gostar. A família é legal e as galinhas, patos e porcos não se importam em dividir a comida. O cachorro só sabe latir e o gato está muito velho. – É? E as gaiolas? Tem passarinho preso ali. – Só os que cantam, explicou ela, e pelo que me consta, pombos não cantam. – E o gavião? Quase me pegou. – É só ficar atento. E na cidade, quanto perigo existe? Também conheço a cidade. – Nós, pombos, estamos acostumados. Não vou me acostumar a viver aqui. É tudo muito bonito, mas…como costuma dizer minha maninha: cada um com seu cada um. Meu lugar é na cidade. Por conta do gavião, que morava nos galhos secos de uma árvore não muito distante, Pombote ficou por ali mais de três meses, descansando, se fortalecendo e se informando para enfrentar a viagem de volta. Sempre apareciam pássaros que haviam escapado de gaiolas e suas informações eram preciosas. Pombote crescia. O gavião vigiava. Fizera amizade com a turma do terreiro, só o galo o olhava de banda. Com os porcos não se dera bem, eram gulosos e mal educados. Muitas crianças moravam na casa e se encantaram com sua chegada. Davam-lhe milho nas palmas das mãos. Por aquela época Pombote enfrentava sua primeira muda, período difícil para as aves, quando as velhas penas caíam e as novas, cor de pérola, as substituíam. Aos poucos seu pescoço se recobriu de penas verdes metálicas que rebrilhavam ao sol. Suas asas estavam maiores e seus músculos rijos. Ensaiou vôos mais longos e seguros. O gavião investia sobre o quintal de tempos em tempos, apesar dos latidos do cão. Durante a época da muda o pombo se manteve sempre perto do telhado, onde podia se esconder. Quando voltou a voar, por duas vezes o gavião o perseguiu. Na terceira, aborrecido, viu que era tempo de partir e numa manhã ensolarada, bem cedinho, se certificou que o gavião caçava bem longe dali e depois de despedir-se de todos, retomou a viagem. A coruja lhe fez mil recomendações, ela o tratava como se fosse sua mãe. Voou de coração apertado, ia sentir saudade da casinha da roça e de seus amigos.

O gavião vigia Pombote e o sabiá escondidos na folhagem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


%d blogueiros gostam disto: