Capítulo 2

Sufocado, tonto, cambalhoteando no rodamoinho, Pombote fechou bem os olhos para evitar a poeira. No seu desespero pensava na mãezinha, na família, que deveria estar em polvorosa. Não conseguia pensar no que lhe estava acontecendo. Girava no ar. Ia perdendo a consciência quando sentiu que batia em algo áspero, talvez uma parede ou uma árvore e ficava preso, pressionado pela ventania. Sentiu, por muito tempo, forte opressão, respirando mal, ouvindo o vento zunir à sua volta. Mais tarde sentiu a pressão diminuir e seu corpo escorregar até o chão. Arfando, entreabriu os olhos e ao clarão de um relâmpago, viu que estava num campo, encostado a uma árvore e rodeado de lixo. Chovia muito. Deixou-se ficar ali esperando a tormenta passar. Um temporal havia seguido o vendaval e a chuva grossa ensopou suas penas. Tremendo de frio e medo, ficou quietinho, sem nem piar, até que a chuva transformou-se em chuvisco. Abriu os olhos: era noite fechada e no horizonte relâmpagos ainda cortavam a escuridão. Encolhido entre as raízes, chorou até se cansar. Por fim, apesar da fome e do frio, dormiu. Acordou com os primeiros raios de sol batendo em suas pálpebras. Abriu os olhos e mal conseguiu acreditar no que viu: um mundo novo, todo verde, cheio de árvores e flores. Nem uma casa, nada que lhe lembrasse o lugar de onde viera. Maravilhado, olhou para os lados e viu o campo verde pontilhado de árvores se estendendo em direção às montanhas distantes. Plantas estranhas cercavam um riacho de águas claras. Borboletas multicoloridas se embarafustavam por entre as moitas, pássaros que nunca vira cruzavam o céu, ruídos estranhos vinham do mato. Apesar de assustado, sentiu-se bem e respirou fundo enquanto abria as asas para que o sol as secasse. Sentiu fome, caçou pequenos insetos. Quase enxuto, caminhou pelo capim, procurando algo mais sólido para comer. Viu então um animal esquisito, enrodilhado, olhando-o fixamente, silvando e exibindo uma língua bipartida. Ficou fascinado, olhando, até que seu instinto o alertou e levantou vôo no instante em que a rodilha se desfez e a estranha criatura se lançou sobre ele de boca arreganhada. – Ai, meu Deus! pensou, acho que esse bicho era a tal cobra. Papai já me contou uma porção de histórias sobre ela. Ainda bem que escapei! As asas pesadas de chuva e pouco afeitas a vôos maiores, só lhe permitiram pequenos vôos. Com o coraçãozinho batendo acelerado, saltitou para longe, lançando de vez em quando miradas para o bicho feio que avançara sobre ele. Assim que se viu distanciado do perigo, sacudiu as asas para se livrar do resto da chuva. De algum ponto vinha um grito aflito, como se alguém gritasse bem te vi, alertando-o. Nervoso, deu outro vôo curto até um tronco grosso caído, batido pelo sol. Precisava pensar, enquanto o sol acabava de enxugar suas penas. Quando sentiu as asas secas e leves, beliscou larvas no carcomido tronco. Sentiu sede, e ao sair para procurar uma poça, viu um outro animal, parecido com os gatos que os perturbavam na escola, só que mil vezes maior. O pássaro continuava a gritar bem te vi. Desta vez agiu rápido e voou para o galho de uma árvore. O gatão, em passadas lépidas, alcançou a árvore e subiu em sua direção. O pombo voou um pouco mais para cima e o gatão subiu atrás. Pombote voou então para uma árvore vizinha e o bicho, num salto, o acompanhou. Tremendo de pavor, Pombote parou na ponta de um galho, bem no alto, vendo o gatão avançar, com os dentes arreganhados. Um bicho medonho. Pombote chegou a pensar que era melhor se deixar pegar de uma vez do que continuar numa fuga que parecia impossível. O animal escalava a árvore devagar, sem tirar dele os olhos amarelos e raivosos. Súbito, num vôo rasante, uma pequena ave passou rente à carantonha do gatão, que perdeu o equilíbrio e despencou. Não fosse ágil e teria se esborrachado, mas no meio da queda, com uma virada de corpo, se prendeu a um galho com as garras. E olhou para cima, disposto a continuar a caçada. Mas a ave, pequena e pardacenta, barriga cor de laranja, foi até Pombote e o guiou para um lugar seguro através da galharia. O pássaro, um sabiá-laranjeira, chamava-se Sabião e levou-o a um ramo onde podiam pousar tranquilos. Pombote agradeceu e disse estar com fome e Sabião levou-o a uma árvore carregada de pequenas e gostosas frutas vermelhas. Enquanto comia, o pombo contou ao pássaro o que lhe acontecera. – Ah, concluiu Sabião, você veio da cidade. Logo vi. Há muito tempo fui levado para uma cidade dentro de uma gaiola, vi como é. Consegui fugir e não volto mais lá. Aqui é melhor. – E como posso voltar pra lá? perguntou Pombote. – Você quer voltar para aquela barulheira? Que mau gosto! Bom, vai ser difícil e cansativo, você veio parar muito longe. Vai ter que seguir o regato até o rio. Já viu um rio? Não? É um mundo de água que corre, muito perigoso. Depois vai seguir o rio até chegar ao mar. Conhece o mar? Também não? Cruzes! Pelo que vejo você não conhece nada. O mar é um rio imenso, salgado. Chi, é tanta, mas tanta água, como nunca viu na vida. Não chegue nem perto. Voe beirando o mar até encontrar as casas de gente. Cuidado com os alçapões. – Puxa, é complicado. O que é um alçapão? – Mais do que você pensa. Alçapão é uma armadilha que os homens usam para prender pássaros. Não se iluda com as comidas nos potes, se entrar ali a tampa cai e você fica preso. E tem outros perigos lá. Se eu fosse você ficaria por aqui, é mais bonito, pouco barulho, não tem aquela fumaceira, nem carros correndo…nem gaiolas nem meninos com atiradeiras. – É, mas aqui tem aquele gatão malhado e um bicho comprido que vive enrodilhado. – A onça e a cobra. Em todo lugar existe perigo, a gente aprende a se livrar deles. – Nesse caso, prefiro enfrentar os perigos da cidade que já conheço. Gosto muito de voar entre os carros, gabou-se. E estou com tanta saudade do pombal, de minha mãezinha. – Se é assim, eu o acompanho até o rio. Não acha melhor esperar crescer um pouco mais? É tão novinho, não sei se vai agüentar a viagem. – Não, eu quero voltar pra casa. Já! – Se é assim…vamos em frente. Pelo caminho irei ensinando como evitar os perigos. E pela manhã clara lá se foram os dois, voando e conversando. Pombote se divertia olhando sua sombra no chão, ao lado da sombra menor do amigo. Iam tão distraídos que não viram que a sombra de uma ave maior se aproximava velozmente e só deram por ela quando estava junto das deles. O sabiá soltou um pio de susto: -Ai, é um gavião! Estamos perdidos! Ao ver que Pombote o olhava sem entender, gritou espavorido: – Fuja, se esconda em qualquer lugar. O gavião é mau, vai nos estraçalhar com suas garras e nos comer. Fuja, se não quer virar almoço! Desesperado, o sabiá embrenhou-se numa moita espinhosa, onde ficou encolhidinho. Pombote o seguiu, mas seu tamanho não lhe permitiu entrar pela pequena abertura. O gavião, faminto e implacável, voava em círculos, olhos cruéis cravados nele. Sabião gritou: – Se esconda, pombinho. Depressa, senão ele pega você! Sem alternativa, Pombote continuou voando por entre as árvores, buscando uma bem galhuda e enredada de cipós, sem se afastar para não perder o riacho de vista. Nos claros entre os galhos o gavião investia, descendo como uma flecha. Numa das vezes arrancou-lhe um chumaço de penas, noutra as garras lhe roçaram a cabeça. Impelido pelo pavor, Pombote desviava-se, driblava os troncos e se metia no meio dos galhos. Então avistou uma casa e sem pensar duas vezes traçou um vôo direto ao telhado. O gavião baixou feito foguete. Pombote escapou por um triz, se enfiando sob as telhas. Arfando e tremendo pelo terror, ouviu o alarido no quintal, o cacarejar assustado e lancinantes pios. Depois soube que o gavião havia agarrado um pintinho.

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